50ª Mostra
Intl. de Cinema de SP segue com filmes de destaque
A 50ª Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo segue com exibição de mais de 390 filmes de
90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além
de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo filmes já assistidos e que
indico:

A
ginasta
(EUA –
2026, de Charlotte Glynn)
Drama
independente norte-americano, o filme é um pequeno retrato sobre a relação de
pai e filha em uma cidade industrial do interior dos EUA no início dos anos 90.
Monica é uma jovem ginasta, focada nos treinos para participar em breve de uma
competição nacional. Certo dia fere o joelho num ensaio. Impossibilitada de continuar
treinando, e muito aflita com o futuro, ela passa por sessões de fisioterapia e
fica sob os cuidados do pai, um homem instável e mulherengo. Monica tem o apoio
da treinadora, única pessoa com quem consegue se abrir (ela, para complicar, sofre
bullying na escola). Dia a dia tenta lidar com o pai, que via na filha uma
esperança de dias melhores inclusive de ajuda financeira em casa. Filme típico
da Mostra, um trabalho pouco conhecido, que traz sinceridade nas atuações do
trio central, composto pelos atores Ethan Embry (de “Comportamento suspeito”),
Britney Wheeler e Margarita Levieva. Feito por uma diretora, Charlotte Glynn,
que busca a potência do elenco em seus enquadramentos com closes e planos
americanos, além do uso de uma fotografia correta. Exibido no Festival de
Roterdã, está na Competição Novos Diretores da Mostra, com exibição nos dias
17, 18, 24 e 26/10.

Diário
de uma camareira
(Romênia/França
- 2026, de Radu Jude)
Mais
um filme irreverente do diretor romeno Radu Jude, já ganhador do Urso de Ouro (pelo
filme exibido na Mostra de 2021 “Má sorte no sexo ou Pornô Acidental”). Ele é
um cineasta mega autoral, que costuma pintar uma Romênia contraditória, cercada
pela hipocrisia, moralismo e a exploração do trabalho. Suas obras estão sempre
na Mostra de SP, e desta vez, com “Diário de uma camareira”, ele revisita o
clássico livro do francês Octave Mirbeau (lançado em 1900), que na década de 60
já havia virado filme pelas mãos de Buñuel. Bem diferente da versão do cineasta
espanhol-mexicano, o filme já informa nos créditos iniciais que é uma
“variação” do livro, em que atualiza a história para os dias atuais. Reunindo elenco
francês (como os conhecidos Mélanie Thierry e Vincent Macaigne), a obra feita
em duas línguas (francês e romeno) acompanha dois meses na vida de uma jovem
camareira, Gianina (Ana Dumitrascu), entre início de outubro até o dia de Natal.
É um pouco do dia a dia da garota, entre os cuidados de um menino de classe média
e a relação com a família dele, os Donnadieu. Sua rotina é marcada pelas mesmas
atividades (cozinhar, cuidar do menino); longe da filha, conversa com ela por
vídeos no celular. Gianina quer ser atriz, e nas horas vagas passa a ensaiar uma
peça política/erótica. Radu Jude utiliza de cortes secos e brutos, até
interrompendo diálogos, para novamente ironizar falsos moralismos e criticar a
sociedade e seus excessos. O humor está nos detalhes das conversas e em algumas
cenas nonsense – as sequências das três peças de teatro que Gianina atua, por
exemplo, podem não ser reais e sim imaginações da personagem. Gostei do filme,
que serve para quem costuma apreciar o cinema desse diretor de linguagem própria.
O filme integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias
20, 21, 24 e 26/10 e 01/11.
A
terra de meu pai
(Polônia/Alemanha/Itália/França
- 2026, de Paweł Pawlikowski)
Um dos
filmes mais aguardados da Mostra desse ano, o drama de época inspirado em fatos
verídicos é o novo trabalho do diretor polonês Paweł Pawlikowski, que volta a discutir
temas de guerra (como o nazismo e os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial),
depois de “Ida” e “Guerra fria”. Aqui ele trata da relação da atriz e tradutora
Erika Mann com o pai, o renomado escritor Nobel de Literatura duas vezes Thomas
Mann (1875-1955), em sua viagem de volta, por um breve período, à Alemanha, com
o fim da Segunda Guerra. O retorno à Alemanha com a filha (o que nunca ocorreu
com ela, pelos relatos, mas sim em companhia da esposa) será de um vazio
gritante, em um país dividido, quebrado e destruído. O ano é 1949, e Mann vai
para lá no bicentenário de Goethe, seu “mentor” literário, para receber dois
prêmios, um em Frankfurt e outro em Weimar, cidades respectivamente onde nasceu
e morreu Goethe. Mann é uma persona non grata para boa parte dos intelectuais, acusado
de traidor da
pátria devido ao seu posicionamento político contra o regime nazista e à recusa
em retornar à Alemanha após a queda de Adolf Hitler, Mann A acusação partiu
majoritariamente de intelectuais e cidadãos alemães que haviam permanecido no
país durante a ditadura nazista, vendo Mann deixar o país para ir aos EUA no
nazismo. Mann está velho e enfrenta problemas com o filho, Klaus, um viciado em
drogas (apesar de escritor e jornalista de mão cheia). Drama político, o filme
traz muito sarcasmo e ironias, além de planos grandiosos com imagens marcantes
(como a do funeral do filho e o gran finale numa catedral ao som da música
clássica “Jesus bleibet meine Freude”, do alemão Bach). A fotografia em PB,
típica do cineasta, é um trabalho de mestre, que gera todo os contrastes existenciais
que o filme discute, sobre vida e morte, alento e desalento. Sandra Hüller como
Erika e o veterano Hanns Zischler como Thomas estão formidáveis na construção
dos personagens (e tem também uma participação mínima, de menos de cinco
minutos, de August Diehl, como Klaus). Vencedor do prêmio de melhor direção em
Cannes, é um forte candidato ao Oscar do próximo ano (nas categorias de
fotografia, direção de arte, roteiro, filme estrangeiro e edição). O filme,
distribuído no Brasil pela Imovision em parceria com a Mubi, integra a
Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 18, 19 e 20/10,
e estreia nos cinemas em 29/10.
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