sábado, 17 de outubro de 2026

Especial de Cinema

 
50ª Mostra Intl. de Cinema de SP segue com filmes de destaque
 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo filmes já assistidos e que indico:


 
A ginasta
(EUA – 2026, de Charlotte Glynn)
 
Drama independente norte-americano, o filme é um pequeno retrato sobre a relação de pai e filha em uma cidade industrial do interior dos EUA no início dos anos 90. Monica é uma jovem ginasta, focada nos treinos para participar em breve de uma competição nacional. Certo dia fere o joelho num ensaio. Impossibilitada de continuar treinando, e muito aflita com o futuro, ela passa por sessões de fisioterapia e fica sob os cuidados do pai, um homem instável e mulherengo. Monica tem o apoio da treinadora, única pessoa com quem consegue se abrir (ela, para complicar, sofre bullying na escola). Dia a dia tenta lidar com o pai, que via na filha uma esperança de dias melhores inclusive de ajuda financeira em casa. Filme típico da Mostra, um trabalho pouco conhecido, que traz sinceridade nas atuações do trio central, composto pelos atores Ethan Embry (de “Comportamento suspeito”), Britney Wheeler e Margarita Levieva. Feito por uma diretora, Charlotte Glynn, que busca a potência do elenco em seus enquadramentos com closes e planos americanos, além do uso de uma fotografia correta. Exibido no Festival de Roterdã, está na Competição Novos Diretores da Mostra, com exibição nos dias 17, 18, 24 e 26/10.




Diário de uma camareira
(Romênia/França - 2026, de Radu Jude)
 
Mais um filme irreverente do diretor romeno Radu Jude, já ganhador do Urso de Ouro (pelo filme exibido na Mostra de 2021 “Má sorte no sexo ou Pornô Acidental”). Ele é um cineasta mega autoral, que costuma pintar uma Romênia contraditória, cercada pela hipocrisia, moralismo e a exploração do trabalho. Suas obras estão sempre na Mostra de SP, e desta vez, com “Diário de uma camareira”, ele revisita o clássico livro do francês Octave Mirbeau (lançado em 1900), que na década de 60 já havia virado filme pelas mãos de Buñuel. Bem diferente da versão do cineasta espanhol-mexicano, o filme já informa nos créditos iniciais que é uma “variação” do livro, em que atualiza a história para os dias atuais. Reunindo elenco francês (como os conhecidos Mélanie Thierry e Vincent Macaigne), a obra feita em duas línguas (francês e romeno) acompanha dois meses na vida de uma jovem camareira, Gianina (Ana Dumitrascu), entre início de outubro até o dia de Natal. É um pouco do dia a dia da garota, entre os cuidados de um menino de classe média e a relação com a família dele, os Donnadieu. Sua rotina é marcada pelas mesmas atividades (cozinhar, cuidar do menino); longe da filha, conversa com ela por vídeos no celular. Gianina quer ser atriz, e nas horas vagas passa a ensaiar uma peça política/erótica. Radu Jude utiliza de cortes secos e brutos, até interrompendo diálogos, para novamente ironizar falsos moralismos e criticar a sociedade e seus excessos. O humor está nos detalhes das conversas e em algumas cenas nonsense – as sequências das três peças de teatro que Gianina atua, por exemplo, podem não ser reais e sim imaginações da personagem. Gostei do filme, que serve para quem costuma apreciar o cinema desse diretor de linguagem própria. O filme integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 20, 21, 24 e 26/10 e 01/11.
 

 
A terra de meu pai
(Polônia/Alemanha/Itália/França - 2026, de Paweł Pawlikowski)
 
Um dos filmes mais aguardados da Mostra desse ano, o drama de época inspirado em fatos verídicos é o novo trabalho do diretor polonês Paweł Pawlikowski, que volta a discutir temas de guerra (como o nazismo e os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial), depois de “Ida” e “Guerra fria”. Aqui ele trata da relação da atriz e tradutora Erika Mann com o pai, o renomado escritor Nobel de Literatura duas vezes Thomas Mann (1875-1955), em sua viagem de volta, por um breve período, à Alemanha, com o fim da Segunda Guerra. O retorno à Alemanha com a filha (o que nunca ocorreu com ela, pelos relatos, mas sim em companhia da esposa) será de um vazio gritante, em um país dividido, quebrado e destruído. O ano é 1949, e Mann vai para lá no bicentenário de Goethe, seu “mentor” literário, para receber dois prêmios, um em Frankfurt e outro em Weimar, cidades respectivamente onde nasceu e morreu Goethe. Mann é uma persona non grata para boa parte dos intelectuais, acusado de traidor da pátria devido ao seu posicionamento político contra o regime nazista e à recusa em retornar à Alemanha após a queda de Adolf Hitler, Mann A acusação partiu majoritariamente de intelectuais e cidadãos alemães que haviam permanecido no país durante a ditadura nazista, vendo Mann deixar o país para ir aos EUA no nazismo. Mann está velho e enfrenta problemas com o filho, Klaus, um viciado em drogas (apesar de escritor e jornalista de mão cheia). Drama político, o filme traz muito sarcasmo e ironias, além de planos grandiosos com imagens marcantes (como a do funeral do filho e o gran finale numa catedral ao som da música clássica “Jesus bleibet meine Freude”, do alemão Bach). A fotografia em PB, típica do cineasta, é um trabalho de mestre, que gera todo os contrastes existenciais que o filme discute, sobre vida e morte, alento e desalento. Sandra Hüller como Erika e o veterano Hanns Zischler como Thomas estão formidáveis na construção dos personagens (e tem também uma participação mínima, de menos de cinco minutos, de August Diehl, como Klaus). Vencedor do prêmio de melhor direção em Cannes, é um forte candidato ao Oscar do próximo ano (nas categorias de fotografia, direção de arte, roteiro, filme estrangeiro e edição). O filme, distribuído no Brasil pela Imovision em parceria com a Mubi, integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 18, 19 e 20/10, e estreia nos cinemas em 29/10.

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