terça-feira, 3 de maio de 2022

Cine Cult

O mistério do cesto

Um rapaz perambula pelas ruas de Nova York à noite carregando um cesto debaixo dos braços. Dentro dele há uma criatura que se alimenta de humanos.

Até que enfim saiu no Brasil em mídia física um filme que marcou os fãs do cinema de horror independente. “Basket case” ou “O mistério do cesto” (1982) passou muito na TV e ganhou duas continuações nos anos 90, um verdadeiro cult classic com uma ideia original e macabra. E é um terrir no final das contas, ou seja, um terror com comédia. Segundo o diretor e roteirista, Frank Henenlotter, ninguém iria assistir a esse seu filme de estreia por vários motivos, seja pelo baixíssimo orçamento, seja pelo gore ou por ser asqueroso. Realmente não era para ser um sucesso de público, o filme custou míseros U$ 35 mil e foi todo rodado em locações, num hotel antigo da Times Square, em becos e ruas de Nova York e em casas de amigos e do próprio diretor. Quem assistiu mesmo foram os muitos fãs do exploitation, subgênero que a fita se encaixa bem.


É sobre uma criatura deformada, com traços humanos, que vive num cesto carregado por um homem pelas ruas de Nova York; o monstro come pessoas e em determinado momento, foge do cesto... Ao rever o filme dias atrás lembrei de “Nasce um monstro” (1974), pérola do trash, de Larry Cohen, e com certeza serviu de base para Henenlotter. Há cenas gore, mas muitas foram cortadas pelo distribuidor. Há ainda muita inventividade diante dos parcos recursos que o diretor detinha, por exemplo, enquadramentos inusitados, como as de dentro do cesto como se fosse a visão do monstro. Aliás, o monstro (bem feioso) era manipulado por fios como um fantoche, além de utilizarem a técnica do stop-motion.
Henenlotter faria outros filmes terrir com criaturas bizarras, como “O soro do mal” (1988) e “Que pedaço de mulher” (1990), além das duas continuações desse, “Basket case 2 e 3” (de 1990 e 1991, ambas com mesmo elenco, incluindo o ator principal, Kevin Van Hentenryck).


Lançado em DVD mês passado no box “Sessão de terror Anos 80 – volume 5”, com os raríssimos filmes “O carro sinistro” (1980), “A companhia dos lobos” (1984) e “A dama de branco” (1988) – é disco duplo, contendo extras variados, como trailers e especiais. Uma relíquia do cinema exploitation para público restrito.

O mistério do cesto (Basket case). EUA, 1982, 91 minutos. Terror/Comédia. Colorido. Dirigido por Frank Henenlotter. Distribuição: Obras-primas do Cinema


segunda-feira, 2 de maio de 2022

Cine Cult


Neruda 


Chile, 1948. A recém-aprovada Lei Maldita do governo Videla caça militantes considerados comunistas, criando um clima de terror no país andino. O alvo da vez será o poeta Pablo Neruda (Luis Gnecco), à época senador da República. Procurado pela polícia, ele se refugia nas montanhas e é incansavelmente perseguido pelo inspetor Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal).

Com uma mistura interessante de drama e policial, esse filme chileno com fundo biográfico, coproduzido na Argentina, França, Espanha e EUA, concorreu ao Globo de Ouro de fita estrangeira, mas ficou fora do Oscar 2017. Gosto da história e de seu clima noir, que acompanha a fuga do poeta Pablo Neruda pelos Andes em 1948, quando se refugiu em uma cabana no gelo, perseguido por um chefe de polícia categórico, Peluchonneau. É baseado num momento marcante da vida de Neruda, quando senador da República e virou alvo político durante o decreto da Lei Maldita, do presidente Gabriel González Videla, que exerceu o cargo de 1948 a 1952 e depois com o golpe militar de Pinochet nos anos 70 virou conselheiro de Estado. A lei perseguia e prendia comunistas, e Neruda era apontado como um dos mais enfronhados no partido de esquerda.
O filme opta por uma narração em off para contar essa história intrigante, dividindo Neruda sob duas camadas: a do homem popular, adorado pelo povo, atencioso com os mais pobres, mas também como um mulherengo e beberrão, frequentador de bordéis (numa cena ele participa de uma orgia). E tem uma terceira parte, da metade para o final, quando Neruda parte para o refúgio nos Andes, numa trama de detetive e de caçada, funcionando como um filme de ação.


Conta com uma fotografia escura, com longos diálogos (bem inteligentes) e um clima de filme noir. A maquiagem/caracterização é boa, especialmente do ator Luis Gnecco, que ficou calvo, barrigudo e com andar e trejeitos de Neruda. O mexicano Gael García Bernal, que já trabalhou diversas ocasiões com o cineasta Pablo Larraín, está bem como o detetive com fúria nos olhos.


Esse “Neruda”, de 2016, saiu dois anos depois de um outro filme chileno com mesma história e título (“Neruda”, de 2014). Não vi o anterior, de Manuel Basoalto, porém o de Larraín é estilizado, autêntico e vigoroso, e carrega as características do diretor, que fez antes “Tony Manero” (2008), “No” (2012) e “O clube” (2015 - o meu preferido dele) – e que depois faria duas biografias longe do Chile, “Jackie” (2016) e “Spencer” (2021), respectivamente sobre Jacqueline Kennedy e Princesa Diana, em que as atrizes foram indicadas ao Oscar (Natalie Portman e Kristen Stewart). Aliás, Larraín tem uma mão adequada para dirigir bons atores. “Neruda” é um de seus trabalhos mais pessoais. Ele volta a contar uma história verdadeira recorrendo a fantasmas insidiosos de seu país, como fez em “No” e “Tony Manero” (no caso a ditadura, as torturas e as leis extremistas).


Neruda (Idem). Chile/Argentina/França/Espanha/EUA, 2016, 107 minutos. Drama/Policial. Colorido. Dirigido por Pablo Larraín. Distribuição: Imovision

domingo, 1 de maio de 2022

Cine Especial


Medo


Nicole (Reese Whiterspoon) tem 16 anos, é de uma família de classe média americana e mora com os pais e o irmão em uma casa à beira do lago em Seatlle. A rotina deles é abalada quando Nicole começa a namorar um rapaz que conhecera numa balada, David (Mark Wahlberg). Isso porque David aos poucos se torna violento, a ponto de colocar a família dela em risco.

Fez inesperado sucesso nos cinemas em 1996 essa fita independente de suspense derivada de outros suspenses psicológicos dos anos 80 e que abriria portas para muitos nos anos 2000. Tem clima a ponto de fazer o público roer as unhas, serve como entretenimento passageiro e trazia Mark Wahlberg em início de carreira, como um vilão amedrontador – anos antes Wahlberg era modelo (posou como garoto propaganda das cuecas Calvin Klein) e rapper, depois se consolidou como ator e chegou a ser indicado ao Oscar (por “Os infiltrados”). Aqui foi seu terceiro filme. O mesmo se deu com Reese Whiterspoon, novinha, em início de carreira – ela começou como atriz aos 15 anos, em “No mundo da lua”, depois ganharia Oscar e Globo de Ouro. Os dois são charmosos e tem química, porém o primeiro amor da garota vira um pesadelo infernal...
É um suspense sobre “as aparências enganam”, até serve como uma moral, de tomar cuidado com quem mal conhecemos e já nos relacionamos. A história cresce, o personagem de boa pinta de Wahlberg dá espaço à psicopatia, gerando medo e tensão na família da personagem, até culminar num desfecho eletrizante (a cena final, na casa do lago em Seattle, lembra “Sob o domínio do medo”, com Dustin Hoffman na primeira versão, de 1971, e com James Marsden no remake de 2011).


William Petersen e Amy Brenneman interpretam os pais da personagem de Reese e ganham destaque na história apenas no fim. Um bom thriller sedutor sobre obsessão e crime, do diretor James Foley, de “Jovens sem rumo” (1984), “Caminhos violentos” (1986), “Quem é esta garota!” (1987), “O sucesso a qualquer preço” (1992) e “O segredo” (1996).
Lançado em bluray pela Universal Pictures, em parceria com a Classicline (disco sem extras, somente o filme em alta resolução).

Medo (Fear). EUA, 1996, 98 minutos. Suspense. Colorido. Dirigido por James Foley. Distribuição: Universal Pictures

sábado, 16 de abril de 2022

Cine Cult


Jeanne Dielman


Jeanne Dielman (Delphine Seyrig) é uma dona de casa viúva e metódica, que mora com o filho jovem. Para pagar suas contas, prostitui-se, intercalando clientes ocasionais. Um dia, o despertador do quarto toca mais cedo, num indício que sua vida poderá mudar.

Rodado em Bruxelas, o cultuado drama belga coproduzido na França, de 201 minutos de duração (3h21), acompanha três dias na rotina de uma mulher solitária, que leva uma vida triste e cheia de complicações ao lado do filho. Ela recorre à prostituição para poder regularizar suas contas, até que uma situação pontual ocorre, o que poderá mudar a trajetória dessa dona de casa para melhor.
O bom trabalho da libanesa radicada na França Delphine Seyrig (1932–1990), atriz de filmes como “Muriel” (1963), “O discreto charme da burguesia” (1972) e “O dia do chacal” (1973), assegura esse filme de arte lento, repleto de planos fechados (todos dentro de uma casa antiga), cuja estética rigorosa de enquadramentos definiu a forma de fazer cinema da diretora e roteirista Chantal Akerman. Chantal, que teve os avós mortos no campo de concentração de Auschwitz, faleceu cedo demais, cometendo suicídio aos 65 anos, em 2015, deixando a esposa, a violoncelista mundialmente conhecida Sonia Wieder-Atherton (com quem fez trabalhos no cinema e na música). “Jeanne Dielman” (1975) é a obra máxima e mais lembrada da cineasta, que traz um retrato íntimo e duro da mulher nos anos 70, e fala sobre alienação social, com uma linguagem inovadora e influenciada pela matizes da Nouvelle Vague.



Uma fita primorosa, para público específico. Disponível em DVD pela Lumes Filmes, recentemente também saiu em DVD no box ‘Chantal Akerman’, pela Obras-Primas do Cinema, com dois outros filmes da diretora, “Eu, tu, ele, ela” (1974) e “Notícias de casa” (1977).

Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles). Bélgica/França, 1975, 201 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Chantal Akerman. Distribuição: Obras-primas do Cinema (no box ‘Chantal Akerman’, de 2021) e Lume Filmes (em DVD, lançado em 2010)



quarta-feira, 13 de abril de 2022

Cine Cult


Moscou não acredita em lágrimas


Três garotas saem do interior da Rússia para começar uma nova vida em Moscou, no final dos anos 50. Elas sonham em um trabalho digno e querem conhecer o amor. Por duas décadas, a maturidade das jovens será testada por momentos de vitórias e desilusões.

Mais um grande filme de arte lançado em DVD pela CPC-Umes Filmes, distribuidora especializada em cinema clássico russo e soviético (algo bem diferenciado no mercado brasileiro). Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1981, o drama foi indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim e sua produção é dos estúdios Mosfilm (a maior produtora de cinema da Rússia, fundada em 1924 e responsável por um número grandioso de obras-primas, de Eisenstein a Tarkovski).
É um drama feminino sobre mulheres à frente de seu tempo, que saem do campo para tentar a vida na Moscou do pós-guerra, a capital em franca transformação durante a Guerra Fria. São duas décadas na trajetória delas, dos 20 aos 40 anos de idade, cada qual com suas condições (casamento, emprego, dificuldades financeiras, crises emocionais, famílias rigorosas). Nesse retrato pontual sobre a mulher na sociedade russa contemporânea, o diretor Vladimir Menshov (ex-ator e falecido de Covid em julho de 2021, aos 81 anos) fez uma obra crítica aos costumes de uma época equilibrando a trama com romance (com toques de melodrama) e humor (sofisticado, sem exageros). Vale conhecer (recomendo especialmente às mulheres) e apreciar a boa cópia da CPC-Umes em DVD.


Moscou não acredita em lágrimas (Moskva slezam ne verit). URSS, 1980, 147 minutos. Drama/Romance. Colorido. Dirigido por Vladimir Menshov. Distribuição: CPC-Umes Filmes

sábado, 9 de abril de 2022

Especial de Cinema


‘Sesc Melhores Filmes’ começou; festival segue online e presencial até 27/04

O 48º Festival Sesc Melhores Filmes teve início na última quinta-feira, dia 06, e segue até o dia 27 de abril com uma programação online e presencial. Os filmes escolhidos pelo público e pela crítica durante a votação no início desse ano voltarão a ser exibidos tanto na sala de cinema do Cinesesc, em São Paulo, quanto na plataforma do Sesc Digital (em sesc.digital/home, de maneira gratuita). São dezenas de longas-metragens nacionais e internacionais que foram destaque em 2021, além de encontros e atividades com realizadores do cinema. Os premiados estão abaixo, e todos eles já estão em exibição – veja detalhes da programação em https://melhoresfilmes.sescsp.org.br.
Além dos filmes da lista, serão exibidas também produções que ficaram em segundo, terceiro, quarto e quinto lugares do ranking das votações do público e da crítica, como “Noites de alface”, “Duna”, “Bela vingança”, “Alvorada”, “7 prisioneiros”, “Meu nome é Bagdá”, “Cabeça de nêgo”, “First cow: A primeira vaca da América”, “Libelu: Abaixo a Ditadura”, “Amor, sublime amor” e “A lenda de Candyman”.


Prêmio da Crítica – Filmes Estrangeiros

 

Melhor filme – Ataque dos Cães

Melhor Direção – Jane Campion (Ataque dos Cães)

Melhor Atriz – Frances Mcdormand (Nomadland)

Melhor Ator – Anthony Hopkins (Meu Pai)

 

Prêmio da Crítica – Filmes Nacionais

 

Melhor Filme – Marighella

Melhor Documentário – A Última Floresta

Melhor Direção – Wagner Moura (Marighella)

Melhor Roteiro – Aly Muritiba e Henrique dos Santos (Deserto Particular)

Melhor Fotografia – Luis Armando Arteaga (Deserto Particular)

Melhor Atriz – Thiessa Woinbackk (Valentina)

Melhor Ator – Seu Jorge (Marighella)

 

Prêmio do Público – Filmes Estrangeiros

 

Melhor Filme – Não Olhe para Cima

Melhor Direção – Jane Campion (Ataque dos Cães)

Melhor Atriz – Frances Mcdormand (Nomadland)

Melhor Ator – Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)

 

Prêmio do Público – Filmes Nacionais

 

Melhor Filme – Marighella

Melhor Documentário – Chorão: Marginal Alado

Melhor Direção – Wagner Moura (Marighella)

Melhor Roteiro – Wagner Moura e Felipe Braga (Marighella)

Melhor Fotografia – Adrian Teijido (Marighella)

Melhor Atriz – Fernanda Montenegro (Piedade)

Melhor Ator – Seu Jorge (Marighella)



sábado, 2 de abril de 2022

Especial de Cinema


Festival ‘É Tudo Verdade’ começou; assista gratuitamente a dezenas de filmes até dia 10/04


Considerado um dos festivais de documentários mais importantes do Brasil, o “É Tudo Verdade” teve início no dia 31 de março, de forma presencial (em São Paulo e no Rio de Janeiro) e online. A 27ª edição do festival internacional é gratuito e traz uma programação com 77 filmes documentários, brasileiros e estrangeiros, entre curtas e longas-metragens. Todos são inéditos.
O festival segue até o dia 10 de abril, e no formato online poderá ser conferido nas plataformas É Tudo Verdade Play, Itaú Cultural Play e Sesc Digital. Acesse o site etudoverdade.com.br e saiba mais.
Alguns dos longas-metragens que serão exibidos: “Kurt Vonnegut: Desprendido no tempo”, “Quando uma cidade se levanta”, “Pele”, “Montand é nosso”, “Diários de Myanmar”, “Quando falta o ar”, “Os caras do estreito”, “Prisma”, “A apropriação”, “Relações próximas”, “JFK Revisitado: Através do espelho”, “Um jóquei cearense na Coreia” e “Navalny”.






Especial de Cinema

  Mostra Internacional de Cinema de SP comemora 50 anos e dá início na próxima semana   A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo comemo...