sábado, 5 de setembro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2


O delator
 
Fita porrada de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um lançamento exclusivo nos principais streamings brasileiros com distribuição da A2 Filmes. Como todo bom entretenimento policial feito na Coreia do Sul, carrega uma trama ágil, cheia de peripécias e reviravoltas, envolvendo aqui o submundo do crime, com corrupção policial e delações usadas por bandidos para a redução da pena na cadeia. Em um bairro tomado pelo tráfico de drogas, dois “yadang” (informantes) atuam como intermediários entre criminosos e autoridades, manipulando provas e dados para benefício próprio. A dupla se infiltra em um grupo de bandidos perigosos, e a cada passo dado são encurralados por policiais corrompidos e organizações escusas. O filme, original e com críticas sociais, trabalha bem o tema das questões legais em torno do tráfico de drogas na Coreia do Sul, lá considerado um crime gravíssimo - o país possui uma das legislações antidrogas mais rígidas do mundo, e o governo adota há muito tempo uma política de "tolerância zero" tanto para o comércio quanto para o consumo de substâncias ilícitas. Nesse ambiente, surgem personagens que se desviam, corrompem corporações e tentam se proteger nas delações premiadas (algo agora em vigor no país). Preste atenção já que há muitos detalhes nas subtramas das figuras centrais do longa – ao todo há pelo menos três histórias que correm paralelas, aos poucos se afunilando até o movimentado desfecho (com lutas marciais, tiros e mortes violentas). No elenco, destacam-se os atores Yoo Hai Jin, de “O motorista de taxi” (2017), e Park Hae-joon, de “12.12: O dia” (2023). Engatei no filme, é uma boa pedida e poderá agradar fãs do cinema policial oriental. Pode ser encontrado para aluguel em plataformas digitais de streaming e VOD, como Claro TV+, Vivo Play, Apple TV, Prime Video e Google Play.




Gonzaguinha – Da maior liberdade

Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação, cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas, trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica, outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa, Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições). Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social. Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB (como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela” (2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais cinema com distribuição da Synapse Distribution.


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