O delator
Gonzaguinha
– Da maior liberdade
Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação, cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas, trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica, outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa, Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições). Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social. Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB (como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela” (2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais cinema com distribuição da Synapse Distribution.


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