50ª Mostra
de Cinema de SP termina, mas segue com repescagem
A 50ª
Mostra Internacional de Cinema de SP terminou no dia 29, após 15 dias de
evento, mas segue até o dia 04/11 com a tradicional repescagem, para o público
interessado em assistir mais filmes essa edição. As sessões extras de 31 filmes
apresentados na 50ª edição ocorrem em três espaços: Teatro Cultura Artística,
CineSesc e Cine Satyros Bijou. Os ingressos estão disponíveis para compra na
bilheteria dos cinemas no dia da sessão de cada filme, e as credenciais e
pacotes de ingressos seguem válidos para a repescagem, com trocas de ingressos
diretamente pelo aplicativo da Mostra.

Confira
abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra - e alguns estão na repescagem:
Mulher
desconhecida
(Dinamarca/Letônia/Suécia–
2026, de May el-Toukhy)
Um dos
longas mais contundentes exibidos na Mostra desse ano, o filme foi o vencedor
do Leão de Ouro em Veneza e recebeu também o prêmio de melhor atriz no festival,
para Mathilde Arcel (em um trabalho espetacular). É o novo longa da cineasta
dinamarquesa de origem egípcia May el-Toukhy, do ótimo “Rainha de copas” (2019)
– assim como o anterior, volta a colocar uma protagonista feminina envolvida em
traição e desonra. Preste atenção pois o filme é construído nos detalhes: Marie
(Mathilde Arcel) é uma babá dinamarquesa que também trabalha como faxineira na
casa de um rico viúvo, Christian (Carsten Bjørnlund). O patrão, bem mais velho,
afeiçoa-se à jovem e propõe um casamento, o que a tornará uma mulher da alta
sociedade. São tempos do pós-guerra, e Marie esconde um segredo: na Segunda
Guerra Mundial, ela manteve às escondidas um relacionamento com um soldado
nazista. Até que boatos circulam no bairro de que alguém próximo a Christian estaria
envolvido com os nazifascistas, o que chega ao conhecimento de Marie – na
Dinamarca daquela época, há uma caça a quem apoiou o regime autoritário. Como o
passado pode bater à sua porta e destruir a sua nova vida, para se proteger, ela
será capaz de qualquer coisa, até de incriminar inocentes. É uma obra lenta,
dialogada, que dá a guinada somente na metade, tornando-se um filme duro sobre
estruturas de poder, bem como o papel da mulher na guerra e o controle do corpo
feminino. A protagonista sai de uma jovem diminuída para uma vilã, tudo pelo
poder e status (o que a torna uma figura a ser estudada, cheia de camadas e
dilemas). Exibido nos festivais de Toronto, Busan e BFI London, o drama de
guerra está na repescagem da 50ª Mostra, com sessão no dia 02/11, no CineSesc.
Tem distribuição nacional pela California Filmes, que em breve o lançará nos principais
cinemas.

Rehearsals for a Revolution
(República Tcheca/Espanha, 2026, de Pegah
Ahangarani)
Filha
de uma atriz e de um produtor iranianos, Pegah Ahangarani seguiu os passos da
família e tornou-se tanto atriz como diretora. Proeminente, com uma carreira de
três décadas (ela começou ainda na infância), agora dirige um autêntico documentário
político, sobre a relação de seus entes com a Revolução Iraniana e o que veio
depois no governo de seu país (o título não teve tradução em português, o que
seria algo como “Ensaios para uma revolução”). A partir de registros
históricos, com reportagens em mãos (de TV e jornais), ela constrói um retrato
dos últimos 45 anos do Irã; da Revolução Xiita, em 1979, com a queda do Xá Reza
Pahlavi e a ascensão dos aiatolás, aos infinitos protestos do povo nas ruas nas
décadas de 80 e 90, até a Guerra do Irã de 2026, que começou em fevereiro, com
um ataque conjunto e coordenado entre os Estados Unidos e Israel contra alvos
militares, nucleares e lideranças em território iraniano (que matou o principal
líder, o Aiatolá Ali Khamenei). São cinco personagens fieis na história, sendo
parentes próximos a Pegah (como o pai e a mãe) e amigos. Junto a esse material
jornalístico, ela traz vasto material particular, como vídeos caseiros da
família, álbum de fotos, gravações de áudio, para entrelaçar o retrato político
e social do Irã à sua história de vida, marcada pelos protestos nas ruas e
perseguição política. Ela relembra de perdas, do afeto, das reuniões de família
destruídas pela repressão e intolerância religiosa. Íntimo e revelador, fala de
uma família que representou tanto a dor quanto a esperança de uma nação
inteira. É narrado em primeira pessoa, pela própria cineasta, o que dá o tom de
autoralidade. Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Cannes, passou
em festivais importantes como Melbourne, Telluride e Toronto. Deve sair nos
cinemas em breve.

Amor
possível
(Coreia
do Sul/EUA, 2026, de Lee Chang-dong)
Exibido nos festivais de San Sebastián,
Zurique e Toronto, o novo trabalho do veterano cineasta sul-coreano Lee
Chang-dong, diretor de dois filmes que gosto muito, “Poesia” (2010) e “Em
chamas” (2018), venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza. E não por
acaso, pois é um trabalho caprichado de sua carreira e um dos excelentes filmes
do ano (foi adquirido pela Netflix, que o lançará no streaming em 06/11, junto
de um curta dele que tem relação com a história, chamado “Heartbeat”). Singelo,
feito com delicadeza, é um drama intimista que analisa profundas relações
pessoais, sobre duas famílias opostas que se encontram aleatoriamente e
desenvolvem um vínculo afetivo. De um lado um casal em crise econômica, a pacata
Mi-ok (Jeon Do-yeon) e o marido Ho-seok (Sul Kyung-gu), um operário recém-demitido;
eles têm um filho pequeno, o marido batalha contra a depressão após um incidente
durante uma greve na empresa, e a mulher apara as arestas em casa para lidar
com a turbulência financeira. Eles conhecem outro casal, Ye-ji (Cho Yeo-jeong),
uma documentarista que está gravado um filme sobre trabalhadores desempregados,
e o marido, que vem de uma família rica; eles vivem numa casa luxuosa e vestem roupas
de grife. Uma relação aparentemente inquebrável surge entre os quatro
personagens centrais, que dá início quando Mi-ok aceita participar com o marido
do documentário de Ye-ji, sendo gravados dia e noite em casa, pelas ruas, nos
passeios semanais. O filme examina o choque de classes tendo a precarização do
trabalho como símbolo dos contrastes na atual Coreia do Sul, país que registra jornadas
exaustivas de trabalhadores e avanço da automação. O diretor, também o roteirista,
dosa humor em vários momentos para não tornar o longa incômodo, já que a trama
poderia resvalar num filme triste, difícil de acompanhar; dá certo, o diretor tem
domínio técnico do texto, de enquadramentos (a fotografia é lindíssima) e do
trabalho do elenco. Para ver e refletir.
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