sábado, 31 de outubro de 2026

Especial de Cinema


50ª Mostra de Cinema de SP termina, mas segue com repescagem
 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de SP terminou no dia 29, após 15 dias de evento, mas segue até o dia 04/11 com a tradicional repescagem, para o público interessado em assistir mais filmes essa edição. As sessões extras de 31 filmes apresentados na 50ª edição ocorrem em três espaços: Teatro Cultura Artística, CineSesc e Cine Satyros Bijou. Os ingressos estão disponíveis para compra na bilheteria dos cinemas no dia da sessão de cada filme, e as credenciais e pacotes de ingressos seguem válidos para a repescagem, com trocas de ingressos diretamente pelo aplicativo da Mostra.


Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra - e alguns estão na repescagem:
 
Mulher desconhecida
(Dinamarca/Letônia/Suécia– 2026, de May el-Toukhy)
 
Um dos longas mais contundentes exibidos na Mostra desse ano, o filme foi o vencedor do Leão de Ouro em Veneza e recebeu também o prêmio de melhor atriz no festival, para Mathilde Arcel (em um trabalho espetacular). É o novo longa da cineasta dinamarquesa de origem egípcia May el-Toukhy, do ótimo “Rainha de copas” (2019) – assim como o anterior, volta a colocar uma protagonista feminina envolvida em traição e desonra. Preste atenção pois o filme é construído nos detalhes: Marie (Mathilde Arcel) é uma babá dinamarquesa que também trabalha como faxineira na casa de um rico viúvo, Christian (Carsten Bjørnlund). O patrão, bem mais velho, afeiçoa-se à jovem e propõe um casamento, o que a tornará uma mulher da alta sociedade. São tempos do pós-guerra, e Marie esconde um segredo: na Segunda Guerra Mundial, ela manteve às escondidas um relacionamento com um soldado nazista. Até que boatos circulam no bairro de que alguém próximo a Christian estaria envolvido com os nazifascistas, o que chega ao conhecimento de Marie – na Dinamarca daquela época, há uma caça a quem apoiou o regime autoritário. Como o passado pode bater à sua porta e destruir a sua nova vida, para se proteger, ela será capaz de qualquer coisa, até de incriminar inocentes. É uma obra lenta, dialogada, que dá a guinada somente na metade, tornando-se um filme duro sobre estruturas de poder, bem como o papel da mulher na guerra e o controle do corpo feminino. A protagonista sai de uma jovem diminuída para uma vilã, tudo pelo poder e status (o que a torna uma figura a ser estudada, cheia de camadas e dilemas). Exibido nos festivais de Toronto, Busan e BFI London, o drama de guerra está na repescagem da 50ª Mostra, com sessão no dia 02/11, no CineSesc. Tem distribuição nacional pela California Filmes, que em breve o lançará nos principais cinemas.


 
Rehearsals for a Revolution
(República Tcheca/Espanha, 2026, de Pegah Ahangarani)
 
Filha de uma atriz e de um produtor iranianos, Pegah Ahangarani seguiu os passos da família e tornou-se tanto atriz como diretora. Proeminente, com uma carreira de três décadas (ela começou ainda na infância), agora dirige um autêntico documentário político, sobre a relação de seus entes com a Revolução Iraniana e o que veio depois no governo de seu país (o título não teve tradução em português, o que seria algo como “Ensaios para uma revolução”). A partir de registros históricos, com reportagens em mãos (de TV e jornais), ela constrói um retrato dos últimos 45 anos do Irã; da Revolução Xiita, em 1979, com a queda do Xá Reza Pahlavi e a ascensão dos aiatolás, aos infinitos protestos do povo nas ruas nas décadas de 80 e 90, até a Guerra do Irã de 2026, que começou em fevereiro, com um ataque conjunto e coordenado entre os Estados Unidos e Israel contra alvos militares, nucleares e lideranças em território iraniano (que matou o principal líder, o Aiatolá Ali Khamenei). São cinco personagens fieis na história, sendo parentes próximos a Pegah (como o pai e a mãe) e amigos. Junto a esse material jornalístico, ela traz vasto material particular, como vídeos caseiros da família, álbum de fotos, gravações de áudio, para entrelaçar o retrato político e social do Irã à sua história de vida, marcada pelos protestos nas ruas e perseguição política. Ela relembra de perdas, do afeto, das reuniões de família destruídas pela repressão e intolerância religiosa. Íntimo e revelador, fala de uma família que representou tanto a dor quanto a esperança de uma nação inteira. É narrado em primeira pessoa, pela própria cineasta, o que dá o tom de autoralidade. Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Cannes, passou em festivais importantes como Melbourne, Telluride e Toronto. Deve sair nos cinemas em breve.


 
Amor possível
(Coreia do Sul/EUA, 2026, de Lee Chang-dong)
 
Exibido nos festivais de San Sebastián, Zurique e Toronto, o novo trabalho do veterano cineasta sul-coreano Lee Chang-dong, diretor de dois filmes que gosto muito, “Poesia” (2010) e “Em chamas” (2018), venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza. E não por acaso, pois é um trabalho caprichado de sua carreira e um dos excelentes filmes do ano (foi adquirido pela Netflix, que o lançará no streaming em 06/11, junto de um curta dele que tem relação com a história, chamado “Heartbeat”). Singelo, feito com delicadeza, é um drama intimista que analisa profundas relações pessoais, sobre duas famílias opostas que se encontram aleatoriamente e desenvolvem um vínculo afetivo. De um lado um casal em crise econômica, a pacata Mi-ok (Jeon Do-yeon) e o marido Ho-seok (Sul Kyung-gu), um operário recém-demitido; eles têm um filho pequeno, o marido batalha contra a depressão após um incidente durante uma greve na empresa, e a mulher apara as arestas em casa para lidar com a turbulência financeira. Eles conhecem outro casal, Ye-ji (Cho Yeo-jeong), uma documentarista que está gravado um filme sobre trabalhadores desempregados, e o marido, que vem de uma família rica; eles vivem numa casa luxuosa e vestem roupas de grife. Uma relação aparentemente inquebrável surge entre os quatro personagens centrais, que dá início quando Mi-ok aceita participar com o marido do documentário de Ye-ji, sendo gravados dia e noite em casa, pelas ruas, nos passeios semanais. O filme examina o choque de classes tendo a precarização do trabalho como símbolo dos contrastes na atual Coreia do Sul, país que registra jornadas exaustivas de trabalhadores e avanço da automação. O diretor, também o roteirista, dosa humor em vários momentos para não tornar o longa incômodo, já que a trama poderia resvalar num filme triste, difícil de acompanhar; dá certo, o diretor tem domínio técnico do texto, de enquadramentos (a fotografia é lindíssima) e do trabalho do elenco. Para ver e refletir.

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