quinta-feira, 30 de abril de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas e no streaming – Parte 1


Mãe e filho
 
Dois filmes iranianos foram destaque na programação da Mostra Internacional de Cinema de SP do ano passado, onde os assisti: “Foi apenas um acidente”, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, de Jafar Panahi (que esteve no evento para receber o prêmio Humanidade), e “Mãe e filho” (exibido com “Woman and child”). O drama, coproduzido na França, também teve sessões no Festival de Cannes de 2025, concorrendo à Palma de Ouro, num trabalho exímio do cineasta Saeed Roustayi, que tem muito a nos contar. Aprecio os cult movies iranianos desde minha inserção no mundo da crítica, há quase 30 anos, e este é um daqueles dramas de sufocar a alma. É a história de uma enfermeira viúva (Parinaz Izadyar – muito bem como protagonista) que trabalha em um hospital e mora com o filho rebelde. O garoto causa problemas na escola e acaba suspenso das aulas. Prestes a noivar com o novo namorado, relacionamento não aceito pela família, a enfermeira sofre um baque quando um incidente mata seu filho. O longa é dividido em dois momentos: antes da estranha morte do garoto, mostrando os dias turbulentos daquela mulher cuja rotina é ficar no hospital e cuidar do rapaz, e depois do fato trágico, quando a mulher embarca numa jornada de investigação pessoal para desvendar o ocorrido. As duas partes, juntas, formam uma obra densa, dolorosa, de uma mãe disposta a enfrentar o mundo por justiça ao filho morto. Filmes iranianos de drama com suspense, como os de Asghar Farhadi, nos prendem com suas sólidas tramas, e este, apesar de não ser dele, lembra muito e é uma ótima recomendação. Estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Retrato Filmes.
 

 
Yiya Murano: Morte na hora do chá
 
Documentário da Netflix que acaba de estrear lá, o filme trata da primeira serial killer da Argentina, Yiya Murano (1930-2014), uma senhorinha que ficou conhecida como “A envenenadora de Montserrat” (em referência ao bairro onde ela circulava). O filme argentino resgata do baú dos noticiários da época uma série de reportagens, além de arquivos policiais, juntando depoimentos atuais do filho dela, que foi dublê de cinema, Martin Murano, de investigadores, jornalistas e familiares das vítimas. Martin nunca se deu bem com a mãe e foi um dos idealizadores do documentário; ele relembra que desde criança não tinha relação com Yiya, e quando os casos dos crimes vieram à tona, afastou-se de vez dela. Yiya tinha quase 50 anos quando foi acusada de envenenar várias mulheres de mesma idade para dar um golpe milionário. As mortes ocorreram por envenenamento, na Buenos Aires dos anos 70 e 80 – Yiya colocava veneno em doces na hora do chá da tarde na casa das vítimas. Segundo contam no filme, ela era uma senhora de boa aparência, vestia-se bem e frequentava a noite badalada da Avenida Corrientes. Quando o caso envolvendo assassinatos explodiu, ela negou até o fim da vida. O destaque do filme, que acho importante aqui colocar, está no comportamento errôneo da mídia que a colocou no pedestal de celebridade; Yiya virou um ícone pop na Argentina, dava entrevistas em talk shows sobre o caso, não se importando com as críticas. Em certo momento da vida, já bem idosa, não ligava mais de ser chamada de envenenadora, e suas aparições batendo boca com o filho em TV aberta e revidando com os espectadores chegam a ser sensacionalismo fuleiro, verdadeiras piadas de mau gosto. Isto acende um alerta de como emissoras, inclusive brasileiras, dão voz a bandidos vangloriando seus comportamentos (o que a meu ver é falta de ética jornalística, já que focam apenas em audiência). O diretor Alejandro Hartmann havia realizado para a Netflix diversos docs sobre casos policiais reais na Argentina, como o filme “O fotógrafo e o carteiro: O crime que parou a Argentina” (2022) - sobre o assassinato do fotojornalista José Luis Cabezas, em 1997, cometido por um empresário que quis silenciar a vítima, e “O caso dos irmãos Menendez” (2024), sobre os irmãos que mataram os pais, além das minisséries “Quem matou María Marta?” (2020) e “Nahir: O segredo de um crime” (2024). Já havia uma minissérie dramatizada sobre o caso Yiya, intitulado “Yiya” (2025), da Flow, uma TV a cabo argentina – e agora este filme da Netflix vem para atualizar a história.
 

 
Devoradores de estrelas
 
Uma das sensações do cinema de 2026, o épico de ficção científica dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, baseado no best-seller “Project Hail Mary” de Andy Weir, completa sete semanas em cartaz. Só na capital São Paulo permanece em 12 salas de cinema espalhadas pela cidade. Manteve-se na liderança em bilheteria em vários países, incluindo aqui, e dos U$ 200 milhões de orçamento, já fez mais de U$ 615 milhões pelo mundo. O space opera de caráter humanista, em vários aspectos com apelo ao Hard Science Fiction, traz um Ryan Gosling sentimental e solitário como um astronauta improvável, em uma missão de vida ou morte na escuridão do espaço sideral. Ele é Ryland Grace, um professor de ciências que na Terra, antes de embarcar na cápsula para a viagem, já era um homem sozinho, sem esposa, filhos ou animais. Ele acorda a anos-luz de uma expedição, sem memória. Perambulando pela nave, descobre que a tripulação está morta, e ele, o único sobrevivente. Aos poucos vai compreendendo sua complicada situação, tentando contato com a base nos Estados Unidos, principalmente com sua cientista-chefe, Eva Stratt (Sandra Hüller). Os dias são cansativos e intermináveis, até que recebe objetos, como forma de contato, de uma espécie de nave que aparece e desaparece bem próxima. Ele bota a roupa de astronauta e se dirige à espaçonave vizinha, e lá encontra uma criatura alienígena (eridiana) que lembra uma aranha, só que de pedra, envolta em uma estrutura dura para armazenar amônia, gás que usa para respirar (Rocky será seu apelido, cuja voz é emprestada do ator James Ortiz). Rocky também tem uma missão semelhante à de Ryland: deter a ação de um astrófago recém-descoberto, uma praga interestelar que consome a energia das estrelas (por isso o título) e que em breve causará danos irreversíveis ao planeta, como a extinção da vida humana. Os dois se tornam amigos, só que eles são muito diferentes: Ryaldn terá de descobrir uma maneira de comunicação com o alienígena de pedra. É daqueles filmes de saga, de longa duração, para ver na telona, com bom som e imagem – isso porque o filme foi todo rodado em IMAX, tecnologia de câmeras de altíssima resolução, com som imersivo e nitidez superior em telas gigantes. Parte do potencial do longa se concentra nas concepções visual e sonora, por isso, reafirmo, se puder veja na sala de cinema. O filme é uma mistura de espetáculo grandioso com cenas de aventura e emoção, algumas que não deixam a gente piscar. É uma ficção científica fortificada com doses de romance, ação, aventura e drama. O roteiro, fiel ao espírito do livro, equilibra ciência com humor e pontos de profunda humanidade, transformando a aventura espacial em uma reflexão sobre amizade, sacrifício, trabalho em conjunto e empatia. Ryan Gosling está mais carismático do que nunca, bem como Sandra Hüller abrilhanta na pequena participação que faz no filme (os dois podem receber indicações a Globo de Ouro ou até Oscar em 2027). A cativante trilha sonora do indicado ao Oscar por “Os 7 de Chicago” Daniel Pemberton é um primor de trabalho. Vale destacar que a dupla de diretores Lord e Miller, conhecidos por sua versatilidade em filmes que vão da animação “Uma aventura Lego” à produção de “Homem-aranha: No Aranhaverso”, demonstram uma nova rota na carreira com essa preciosidade scifi cheia de humor e intimidade. Eles estão em fase de produção do novo filme scifi de viagem espacial, “Artemis”, também baseada em obra de Andy Weir (o mesmo autor do livro que originou o filme “Perdido em Marte”). Para mim, um dos melhores longas de cinema de 2026 (logo sairá no streaming).
 

Especial de Cinema

 
Coleção “Uma chamada perdida”
 
A Obras-primas do Cinema acaba de lançar em DVD a trilogia “Uma chamada perdida”, com os três filmes de horror japonês da franquia realizados entre 2003 e 2006. No box, em disco duplo, vem quatro cards colecionáveis e 1h de extras, como making of, entrevistas com elenco e diretor, cenas deletadas e finais alternativos. Confira abaixo textos meus sobre os filmes:


 
Uma chamada perdida
 
Estranhas ligações vindas do futuro atormentam um grupo de jovens no Japão. Ao recebê-las pelo celular, um a um morre de forma brutal.
 
O primeiro filme da trilogia “Uma chamada perdida”, dirigido pelo mestre japonês da violência gráfica Takashi Miike, é uma obra que sintetiza o medo tecnológico do início dos anos 2000. Lançado em 2003, no auge dos celulares no Japão e na Europa, a premissa é simples e perturbadora: jovens começam a receber no aparelho mensagens de voz vindas do futuro, anunciando a própria morte. Quando a mensagem chega, não tem escapatória: eles irão morrer. Miike, diretor dos violentos “Audição” (1999) e “Ichi, o assassino” (2001), constrói uma atmosfera de paranoia crescente, explorando o celular como um objeto cotidiano que se transforma em um tormento. A narrativa mistura elementos sobrenaturais com crítica social, refletindo a alienação, além da fragilidade dos laços humanos em uma sociedade que começava a ficar hiperconectada (em 2003 havia a expansão do celular como meio de comunicação, época que também se dava os primeiros passos para as redes sociais). O filme não se apoia apenas em jumpscares, mas em uma sensação constante de inevitabilidade, como se cada toque do celular fosse um presságio. A estética fria e os enquadramentos claustrofóbicos, com flashes de aparição de fantasmas medonhos, reforçam o desamparo dos personagens, enquanto o espectador é convidado a pensar sobre o impacto da tecnologia na vida moderna. Roteiro de Minako Daira adaptado do romance de Yasushi Akimoto – a história daria origem a duas continuações japonesas, a um remake americano, de mesmo título, de 2008, além de uma série homônima da TV japonesa de 10 capítulos, de 2005. PS – No ano do lançamento, em 2003, saiu com o título alternativo no Brasil de “Ligação perdida”.
 
Uma chamada perdida (Chakushin ari). Japão, 2003, 112 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Takashi Miike. Distribuição: Obras-primas do Cinema
 

 
Uma chamada perdida 2
 
Em Taiwan, um cozinheiro morre ao atender a ligação que seria de sua filha. Horas depois, outras pessoas morrem de forma misteriosa a partir de ligações telefônicas de celular.
 
A continuação de “Uma chamada perdida”, realizada dois anos depois, expande o universo criado por Takashi Miike, agora sob a direção de Renpei Tsukamoto (especializado em seriados japoneses). O filme mantém a premissa das chamadas fatais, mas desloca a ação para Taiwan, ampliando o alcance da maldição telefônica e sugerindo que o fenômeno transcende fronteiras culturais. A narrativa é mais investigativa, com personagens tentando compreender a origem das ligações e suas conexões com traumas familiares – tudo parte de uma professora do jardim de infância, chamada Kyoko, que ao visitar o namorado no restaurante onde ele trabalha, escuta um toque estranho no celular, aquele que um ano atrás aterrorizou pessoas no Japão; a partir daí, quem ouve o som termina morto. Menos impactante que o anterior, o segundo filme aprofunda a mitologia introduzindo dimensão mais trágica, onde o horror não é apenas sobrenatural, mas também humano: abusos, segredos e ressentimentos que ecoam através das gerações são apresentados ao longo da trama. A direção aposta em um ritmo mais lento, privilegiando a construção de mistério em vez de sustos imediatos. Essa escolha dá ao filme um tom melancólico, que reforça a ideia de que o verdadeiro terror está na repetição de padrões de dor e violência. Ao mesmo tempo que o longa amplia o escopo da narrativa, não perde de vista sua crítica social. O filme já tinha saído em DVD no passado e agora entra no box “Uma chamada perdida”.
 
Uma chamada perdida 2 (Chakushin ari 2). Japão, 2005, 105 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Renpei Tsukamoto. Distribuição: Obras-primas do Cinema
 

 
Uma chamada perdida: A vingança
 
Para se vingar do bullying sofrido na escola, uma jovem estudante se utiliza de ligações sinistras para eliminar os colegas de sala maldosos durante uma excursão.
 
Encerrando a trilogia da cinessérie de horror japonês, o filme, dirigido pelo especialista em séries e filmes policiais Manabu Asô, é uma coprodução Japão e Coreia do Sul cuja abordagem é mais direta e comercial que os antecessores. A trama gira em torno de uma jovem que sofre bullying na escola e se utiliza da maldição telefônica para se vingar durante uma excursão. O filme aposta em uma estética mais próxima do cinema de horror adolescente, com ritmo acelerado e maior uso de efeitos visuais (as aparições de fantasmas continuam assustadoras). Apesar de sacrificar parte da atmosfera sombria dos anteriores, o terceiro longa oferece momentos de tensão eficazes – parte da história ocorre agora na Coreia do Sul (lembrando que os anteriores eram respectivamente no Japão e em Taiwan), e uma conclusão certeira tenta dar sentido ao ciclo das mortes. O destaque está em humanizar a entidade por trás das chamadas, revelando motivações ligadas ao sofrimento e ao desejo de vingança – e aqui começa a se discutir um assunto hoje aquecido, mas na época precursor, que são os vídeos virais na internet. Ainda que não alcance a complexidade psicológica do primeiro filme, cumpre o papel de encerrar a franquia de cinema com sofisticação, oferecendo ao público jumpscares, cenas com mortes sangrentas e uma reflexão sobre bullying na escola. A trilogia foi um marco do horror japonês contemporâneo, que transformava o celular em símbolo de medo e isolamento – depois dele muitos filmes imitaram a premissa, inclusive dois anos depois houve um remake americano (muito, mas muito ruim), de mesmo título, “Uma chamada perdida” (de 2008, com Edward Burns, Shannyn Sossamon e Ray Wise).
 
Uma chamada perdida: A vingança (Chakushin ari final). Japão/Coreia do Sul, 2006, 109 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Manabu Asô. Distribuição: Obras-primas do Cinema

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2


Caminhos do crime
 
Elegante thriller de assalto (nos Estados Unidos chamado de “Heist movie”) que traz um olhar sobre poder e lealdade. É uma adaptação do romance de Don Winslow, escritor norte-americano que tem diversos livros na lista dos mais vendidos do The New York Times, com roteiro e direção de Bart Layton – o trabalho anterior dele foi justamente um filme policial de assalto, “Uma aventura perigosa” (2018). Ambientado em Los Angeles, o longa traz Mike Davis (Chris Hemsworth), um ladrão meticuloso que realiza assaltos ao longo da rodovia 101, extensa via norte-sul da Califórnia que tem mais de 2400 quilômetros. Ele rouba joias, dinheiro e objetos valiosos. Seus passos cruzam com Sharon Colvin (Halle Berry), corretora de seguros em crise pessoal, e com Lou Lubesnick (Mark Ruffalo), detetive obstinado que percebe um padrão nos crimes e decide capturá-lo. O roteiro é um jogo dramático intenso de caçada a um bandido audacioso, em que cada personagem lida com dilemas morais que ultrapassam a lógica da polícia X ladrão. Layton imprime ao filme uma estética que lembra elementos de “Fogo contra fogo”, de Michael Mann, apostando em uma série de situações perigosas aos personagens (que utilizam disfarces para se infiltrar e cometer crimes) e sequências de perseguição que transformam Los Angeles em um espaço alucinante. O elenco é um dos pontos altos: Hemsworth está bem como o bandido contido e até carismático, Ruffalo encarna um investigador obsessivo, e Berry, sumida das telas, traz densidade emocional à única personagem feminina da trama. Há ainda Barry Keoghan, ótimo na pele de um criminoso impulsivo, Nick Nolte, como o veterano chefe do submundo, e participação especial de Jennifer Jason Leigh. A longa duração (140 minutos) não atrapalha o sabor do movimentado filme, que empolga e surpreende (confesso que tenho um fraco por filmes de assalto, e este me chamou a atenção por fugir do padrão, ser estiloso e vibrante). Dos estúdios MGM, passou nos cinemas brasileiros em fevereiro deste ano, com distribuição pela Sony Pictures, e agora está disponível no catálogo do Prime Video.


 
Parque Lezama
 
O veterano cineasta argentino Juan José Campanella, do ganhador do Oscar “O segredo dos seus olhos” (2009), lançou no início do mês seu novo trabalho, uma produção da Netflix que mistura comédia e drama e é inspirada na peça da Broadway da década de 80 “Eu não sou Rappaport”, de Herb Gardner. A simpática história é sobre dois idosos que se conhecem no banco da praça do Parque Lezama, em Buenos Aires (na peça original a ambientação é no Central Park), e ali ficam um dia inteiro conversando sobre o passado, a carreira, a velhice, bem como filosofias de vida, política e projetos para o futuro. Eles são León Schwartz (Luis Brandoni), um ex-militante comunista de temperamento agitado, e Antonio Cardozo (Eduardo Blanco), um senhor pacato, com Parkinson, que evita confrontos. O filme todo é naquela praça, com dois personagens trazendo memórias e discussões acaloradas, desde o raiar de um dia de sol até o anoitecer. A diferença entre eles gera atrito, mas também cumplicidade, revelando como visões de mundo contrastantes podem se complementar. Figuras passageiras cruzarão por ali, alguns em busca de conexão, outros com segundas intenções (como trombadinhas), mas nada abalará a força do encontro dos dois idosos solitários. Rodado no charmoso Parque Lezama, localizado no bairro histórico de San Telmo, em Buenos Aires, o filme se desenvolve nos diálogos da dupla de atores – o longa tem formato teatral, como muitos diálogos, elenco enxuto e apenas uma ambientação. É, em essência, uma reflexão sobre amizade, envelhecimento e persistência dos sonhos, caprichadamente conduzida por um dos melhores diretores da atualidade da Argentina. O ator Eduardo Blanco, de “Clube da lua” (2004), está ótimo (envelheceram seu personagem com maquiagem e cabelo), assim como o veterano Luis Brandoni dá um show (foi seu último trabalho no cinema, ator de uma centena de filmes argentinos, que faleceu semana passada, no dia 20 de abril, aos 86 anos). Aliás, a Argentina perdeu em abril três figuras expressivas do cinema: além de Brandoni, faleceram os diretores Luis Puenzo, de “A história oficial” (no dia 21, aos 80 anos), e Adolfo Aristarain, de “Lugares comuns” (falecido ontem, dia 26, aos 82 anos).


 
Veneno para as fadas
 
Do fim da pandemia para cá, nos últimos quatro anos, as distribuidoras viram uma janela de oportunidade para lançar, nos cinemas, filmes clássicos em versões restauradas, uma maneira de atrair tanto o cinéfilo para as salas quanto apresentar títulos de outrora para a nova geração. Retornaram aos cinemas recentemente edições de aniversário de blockbusters como “Tubarão”, “De volta para o futuro”, as franquias de cinema “Harry Potter” e “Crepúsculo”, bem como obras cult, como “Paris, Texas”, “Incêndios” e “Amores brutos”. Só no último fim de semana dois longas europeus de terror voltaram para a telona em ótima cópia restaurada em 4K: o italiano “Suspiria” (1977), de Dario Argento, e o mexicano “Veneno para as fadas” (1986), de Carlos Enrique Taboada, demonstrando que há espaço para filmes antigos seja em cinemas de shopping ou de rua. “Veneno para as fadas” é um assustador filme do terror mexicano moderno, vencedor de três Prêmios Ariel em 1986, também um persuasivo suspense psicológico sobre os medos da criança. Simbólico, o longa foi o último trabalho do diretor Carlos Enrique Taboada (1929-1997), cineasta que abriu espaço ao cinema de horror no México a partir da década de 60 (são dele também, desse gênero e desse período, as obras de horror de fantasia e mistério “Até o vento em medo”, “O livro de pedra” e “O andarilho na chuva”). Com forte atmosfera gótica e utilizando elementos do folk horror, o filme explora o imaginário infantil a partir do encontro de duas garotinhas que acabam de se conhecer; uma é Flavia, que se muda para a cidade onde reside Verónica, sua colega de escola, que se apresenta como bruxa. A amizade entre elas evolui para uma relação de poder e manipulação, na qual uma será submissa à outra. A fantasia e a crueldade infantil mesclam-se criando um ambiente de tensão psicológica interminável. Os jogos aparentemente ingênuos que elas fazem de invocar Satanás culminarão em fatos sobrenaturais de arrepiar o cabelo. Taboada recorre a manejos não-sensacionalistas nem explícitos para contar sua história; tudo é subentendido, nas entrelinhas, com penumbras e silhuetas, o que torna a obra ainda mais assustadora. O terror é sugestivo, nasce da imaginação das crianças e daquilo que parece ser, tornando a experiência do espectador incômoda (tem uma cena rápida da bruxa no caldeirão que arrepia). Rodado na Cidade do México, com orçamento modesto, cenários cotidianos e fotografia sombria, o filme conta com bom trabalho das atrizes infantis, Ana Patricia Rojo (como Verónica) e Elsa María Gutiérrez (Flavia). A volta do longa restaurado em 4K nos cinemas, com distribuição da Filmicca, enaltece (e homenageia) o cinema desse cineasta desconhecido de muitos, apresentando ao público uma obra com mais nitidez em som e imagem. A Filmicca é um streaming nacional e independente de cinema autoral e cult, com lançamentos semanais, incluindo obras inéditas e de festivais. Possui vasto acervo com mais de 500 títulos disponíveis, incluindo obras de importantes realizadores como Chantal Akerman, Kiyoshi Kurosawa, André Novais Oliveira, David Cronenberg, Mia Hansen-Løve, Miloš Forman, Víctor Erice e Djibril Diop Mambéty. E com “Veneno para as fadas”, a proposta da Filmicca é distribuir mais títulos nas salas de cinema. PS: Quem quiser conhecer mais do cinema de horror mexicano, a Versátil Home Video já lançou mais de 20 títulos em DVD, em boxes especiais, como o próprio “Veneno para fadas” e “O andarilho na chuva”, além dos cultuados “O morcego”, “Satanico pandemonium”, “A tia Alejandra” e “Alucarda”.

sábado, 25 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1


A voz de Deus
 
Exibido em première no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, onde ganhou o prêmio de edição, e depois no Festival de Brasília e na Mostra Internacional de Cinema de SP de 2025, o documentário do diretor de “A flecha e a farda” (2020), Miguel Antunes Ramos, escrito por ele e pela premiada cineasta Alice Riff (diretora de “Meu corpo é político”), estreou na semana passada em cinemas selecionados do Brasil. O filme é um estudo sobre religião e mídia em um país dividido pela política. Ramos faz um olhar íntimo sobre o universo dos pregadores mirins evangélicos, trazendo para a pauta duas personalidades midiáticas: Daniel Pentecoste, que nos anos 2000 se tornou o pregador infantil mais famoso do país, numa época em que as redes sociais engatinhavam, e João Vitor Ota, fenômeno das redes sociais que reúne atualmente milhares de seguidores no TikTok e Instagram. Daniel, duas décadas depois, sente hoje o peso do passado, principalmente a cobrança do pai, que se envolveu com política (defensor ferrenho de Bolsonaro) e queria o filho ativo nas pregações. Daniel se afastou dos holofotes e segue outras formas da espiritualidade, desafiado a se reinventar após o fim da fama precoce – segundo ele, vive agora uma nova forma de relação com a igreja, afirmando que sua fé permanece viva, mas sustentada menos pela rigidez dogmática e mais pela mensagem de amor do evangelho. Já João está no auge da visibilidade digital, ostentando nas redes. A reflexão envolve a relação de religião, mídia e política no Brasil, ainda mais quando essas figuras são crianças e adolescentes, expostas à espetacularização das plataformas, no caldo da cultura do “show do eu” (como expôs a antropóloga argentina Paula Sibilia). Filmado ao longo de cinco anos, o longa cruza a trajetória de Daniel e João por meio de vídeos antigos e depoimentos atuais num paralelismo entre as duas faces das pregações religiosas no mundo evangélico. Continua nos cinemas pela Embaúba Filmes.


 
Thelma
 
Comédia de ação sensível com mais um trabalho memorável da carismática atriz June Squibb, que transforma uma história pessoal em reflexão sobre envelhecimento, autonomia e afeto. June tinha 94 anos quando fez o filme (que é de 2024), demonstrando vitalidade em um papel que diverte e emociona. Ela é um caso à parte: trabalhou a vida inteiro no teatro e só foi aparecer no cinema na década de 90, com mais de 60 anos de idade. Em “Thelma”, June interpreta a protagonista, uma senhorinha que está aprendendo a manejar a tecnologia. Ela começa a usar o celular e o computador para os afazeres do dia a dia: pagar contas, enviar email, conversar com parentes. Um dia, cai em um golpe telefônico, acreditando que mandou dinheiro para o neto, e perde U$ 10 mil. Desesperada com o ocorrido, ela vai por conta própria atrás dos falsários para recuperar a grana, embarcando em uma jornada improvável pela cidade de Los Angeles. O roteiro equilibra humor e melancolia ao explorar duas situações da personagem central: como ela é infantilizada pela família e a vulnerabilidade dos idosos frente à tecnologia - mas a protagonista se impõe e demonstra capacidade de agir por conta. Josh Margolin, o diretor e roteirista que aqui estreou em longa-metragem, inspirou-se em sua avó para conceber Thelma Post, uma idosa espirituosa, ao mesmo tempo irônica. Outros personagens se destacam na história, como o neto dela (papel de Fred Hechinger, de “O pálido olho azul”), a filha (Parker Posey, de “Pânico 3”) e um velho amigo, que empresta uma scooter motorizada para Thelma percorrer a cidade - interpretado por Richard Roundtree, o Shaft do cinema, em seu último filme (ele faleceu logo após as gravações, em outubro de 2023). Exibido nos festivais de Sundance, Miami e Cleveland, foi indicado ao Critics Choice de melhor comédia e ao Film Independent Spirit Awards de melhor atriz para June. Acaba de entrar no catálogo da Netflix.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Especial de cinema

 
Começa hoje o “2º Festival de Cinema Europeu Imovision”
 
Entre os dias 23 e 29 de abril, a distribuidora de cinema Imovision realiza a 2ª edição do Festival de Cinema Europeu Imovision, consolidando-se como uma das principais janelas de exibição da produção contemporânea do continente no Brasil. O festival exibirá, em mais de 20 salas de cinema de todo o país, 14 filmes inéditos, todos reconhecidos recentemente em prestigiados festivais internacionais, como Veneza e Cannes. A programação é diversa, que reflete a riqueza cultural europeia, com uma seleção que inclui cinco títulos franceses, três alemães, três italianos, além de produções da Espanha, Suíça e Polônia. “Criamos o Festival de Cinema Europeu para preencher uma lacuna no circuito exibidor, e o resultado superou todas as expectativas. Nesta 2ª edição, ampliamos o investimento e fortalecemos a curadoria, com uma seleção ainda mais forte. Nossa expectativa é que essa programação alcance o maior número possível de salas, permitindo que o público brasileiro tenha acesso e se conecte profundamente com essas histórias”, comentou Jean-Thomas Bernardini, fundador da Imovision, empresa que está presente no Brasil há mais de 35 anos como uma das maiores incentivadoras do cinema mundial na América Latina, tendo lançado mais de 700 títulos no Brasil.


As sessões ocorrem em salas do Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo, Salvador, Brasília, Florianópolis, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Aracaju, Belém, Goiânia, João Pessoa, Maceió, Caxias do Sul, Londrina e Natal, e no interior e litoral de SP, nas cidades de Araraquara, Ribeirão Preto, Santos e São Carlos.
Mais do que uma mostra de filmes, o festival se propõe a ser um espaço de encontro e diálogo - para isso, contará com sessões especiais acompanhadas de debates e presença de realizadores, como o cineasta espanhol Julio Medem, que apresenta seu novo filme, “8 décadas de amor” (2025).
Confira a programação completa, que conta com novos trabalhos de diretores premiados como Christian Petzold, Paolo Virzì e Fatih Akin:
 
·         5 Segundos (Five Seconds) — Direção: Paolo Virzì
·         8 Décadas de Amor (8) — Direção: Julio Medem
·         A Divina Sarah Bernhardt (La Divine Sarah Bernhardt) — Direção: Guillaume Nicloux
·         Amiga Silenciosa (Silent Friend) — Direção: Ildikó Enyedi
·         As Cores do Tempo (Colours Of Time) — Direção: Cédric Klapisch
·         Beladona (Belladone / The Islanders) — Direção: Alanté Kavaïté
·         Diva Futura — Direção: Giulia Louise Steigerwalt
·         E Seus Filhos Depois Deles (And Their Children After Them) — Direção: Ludovic Boukherma & Zoran Boukherma
·         Erupcja — Direção: Pete Ohs
·         Mirrors No. 3 — Direção: Christian Petzold
·         O Grande Arco de Paris (The Great Arch) — Direção: Stéphane Demoustier
·         Querendo ou Não (Damned If You Do, Damned If You Don't) — Direção: Gianni Di Gregorio
·         Rebelião Silenciosa (Silent Rebellion) — Direção: Marie-Elsa Sgualdo
·         Uma Infância Alemã (Amrum) — Direção: Fatih Akin
 
Confira também o trailer exclusivo do Festival:
https://www.youtube.com/watch?v=ZZLQVBePoWE
 
Dica de filme do Festival:
 
Mirrors no. 3
(Alemanha, 2025, de Christian Petzold)
 
Longe de ser um grande Petzold, o novo trabalho do premiado diretor alemão de ‘Em trânsito’ (2018) e ‘Afire’ (2023) se estrutura num drama familiar cheio de segredos. Novamente o diretor volta a falar de identidade feminina em reconstrução. A estudante Laura (Paula Beer, atriz dos filmes dele) sobrevive a um acidente de trânsito no campo. Atordoada, com ferimentos e a memória falhando, é acolhida por Betty (Barbara Auer), uma idosa que mora reclusa numa casa próxima ao local do ocorrido. Betty trata com zelo Laura, e aos poucos o marido e o filho suspeitam que aquilo tudo é uma forma de ela ressignificar uma tragédia que os marcou anos atrás. O sólido drama tem variações de suspense/mistério, que descortina o passado de Laura e daquela nova família dela. Petzold presta uma homenagem a Bergman em um filme feminino e pessoal. Exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, teve sessões na Mostra Intl. De Cinema de SP e agora está na programação do 2º Festival de Cinema Europeu Imovision. O filme tem data de estreia marcada para o circuito regular de cinemas após o festival: 06/08/2026, com distribuição da Imovision.



Nota de cinema


Cine Debate traz sábado thriller real sobre atentado televisionado
 
O Cine Debate, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, exibe no próximo sábado, dia 25/04, a partir das 14 horas, o thriller americano inspirado em fatos verídicos “5 de setembro” (2024), indicado ao Oscar de melhor roteiro original, exibido no Festival de Veneza e vencedor de 20 prêmios internacionais. No elenco, nomes conhecidos, como Peter Sarsgaard, John Magaro, Leonie Benesch e Ben Chaplin. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, na sala de ginástica do Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida.
 
Sinopse: Nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972, uma equipe de transmissão da ABC Sports filma a invasão do grupo palestino Setembro Negro no estádio, que transforma a Vila Olímpica em cenário de tragédia. Dois atletas foram mortos e nove ficaram reféns. Um resgate fracassado culminou com a morte de todos os envolvidos, incluindo um policial, caso que chocou o mundo.



 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

terça-feira, 21 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos streamings – Parte 5


Entre nós – Uma dose extra de amor
 
Exibido no festival SXSW, a comédia romântica dirigida por Chad Hartigan, de “Memórias de um amor” (2020), busca renovar o gênero com uma história moderna, que aposta em personagens carismáticos em situações inesperadas para falar de amor e amadurecimento. Olivia (Zoey Deutch, de “Nouvelle Vague”), uma garota em uma fase crucial da carreira, conhece Connor (Jonah Hauer-King, de “Casa de dinamite”), um rapaz boa pinta, que chama a atenção das mulheres. Em meio a encontros e desencontros, a relação entre os dois vira uma espécie de amizade colorida. Numa noite aparentemente normal, os dois trombam com Jenny (Ruby Cruz, de “Bottoms”); sentam-se na mesma mesa de bar, conversam sobre vários assuntos e resolvem participar de um ménage. A noite de sexo entre os três evolui para um complicado triângulo amoroso, também uma disputa entre quem ficará com quem – até que Olivia e Jenny surgem grávidas no mesmo dia. O filme guarda surpresa, é afetuoso, com frescor e ousadia, sem os clichês de fitinhas românticas água com açúcar. O elenco central sustenta os personagens, de três pessoas que curtem a vida em balada e bar e de repente se veem futuros pais e mães. Há uma boa reflexão sobre o mundo do amor moderno e suas contradições (no caso um relacionamento que se equilibra entre triângulo amoroso e trisal). Exibido nos cinemas brasileiros em dezembro, com distribuição da Paris Filmes, chega agora ao streaming (disponível no catálogo do Prime Video) – eu assisti sem apostar muito e saí com boas impressões da sessão. Recomendo.
 


Elefantes fantasmas
 
Werner Herzog, cineasta mentor do novo cinema alemão nos anos 70 e 80, aos 83 anos continua na ativa melhor do que nunca. Trabalhou com Klaus Kinski em obras cultuadas, como “Aguirre – A cólera dos deuses” (1972) e “Fitzcarraldo” (1982), chegou a fazer participações em produções americanas como ator, e há mais de duas décadas roda documentários ambientais, sobre a relação do homem com a natureza, narrados por ele, como “O homem urso” (2005), “Encontros no fim do mundo” (2007 – indicado ao Oscar de doc), “Visita ao inferno” (2016) e agora “Elefantes fantasmas” (2025). O veterano cineasta apresentou esse seu último trabalho, feito com a National Geographic, no Festival de Veneza do ano passado, recebendo um prêmio especial, depois levando o filme para festivais como Telluride, Hamptons e Rio. Em “Elefantes fantasmas” ele realiza um trabalho criterioso de pesquisa, sobre a jornada de ambientalistas ao fim do mundo em busca de uma manada de elefantes que se esconderam por décadas da caça e da guerra civil que assolou a Angola; Herzog, ao lado de um grupo de rastreadores e pesquisadores nas terras altas da Angola, procuram por vestígios dos chamados “elefantes fantasmas”, criaturas quase míticas, que aparecem sem ninguém perceber e somem. Na expedição que demora semanas, vai o renomado biólogo Steve Boyes, que estuda fauna e flora na África, além de nativos angolanos, que analisam pegadas e resquícios de alimentos no amplo ecossistema da região; também observam imagens de câmeras espalhadas em pontos estratégicos de árvores para chegar até os distintos elefantes – muitos acreditam que esses animais nem existam, já que é fato raro vê-los. É um documentário investigativo fascinante pelo reino animal da África, com seus mistérios e crenças. Produção da Disney, National Geographic e Hulu, está disponível agora no streaming da Disney+.
 
 
A história de um gorila
 
Outro excelente documentário sobre o reino animal chega ao Brasil, desta vez um filme britânico da Netflix, que estreou na plataforma no último dia 17. É conduzido por David Attenborough, um dos mais respeitados naturalistas do mundo, ex-diretor da BBC e que por mais de 60 anos apresentou programas de TV sobre vida selvagem. Aqui, David relata sua primeira experiência com o bebê gorila Pablo, quando viajou para a Ruanda nos anos 70 e lá teve o encontro marcante com o animal. Ele acompanhou todo o crescimento dele, bem como a relação com os outros animais. No filme as imagens de arquivo relembram esses momentos afetuosos, e não apenas a ternura dos encontros, mas o impacto que teve na trajetória de David como divulgador científico e seus estudos sobre macacos. O filme foca na relação de David com os descendentes diretos de Pablo (que viveu mais de 34 anos, morrendo em 2008), um símbolo da continuidade e da força da espécie. Responsável por popularizar o reino animal na mídia, David, irmão mais novo do ator e diretor Richard Attenborough, apresenta um filme cativante, nos moldes das produções da National Geographic, trazendo informações diretas de um jeito fácil de entender – ele completa em maio, 100 anos de idade. Dirigem dois nomes de destaque do universo do documentário: James Reed, um dos diretores de “Professor Polvo” (2020), ganhador do Oscar, e Callum Webster, que juntos fizeram a aclamada minissérie indicada ao Bafta “O império dos chimpanzés” (2023).
 
 
Meus amigos indesejáveis: Parte I - Último ar em Moscou
 
Com a impressionante duração de 324 minutos (o que pode ser um impeditivo para alguns), o novo documentário político da Mubi é um exercício de como o jornalismo é alvo constante de perseguição na Era Putin. Para trazer isto à tona, a diretora e roteirista de origem russa Julia Loktev acompanha por meses um grupo de jornalistas independentes em Moscou antes da invasão da Ucrânia, em 2022. O período é de tensão, já que a mídia não pode exercer plenamente a liberdade de expressão no país. Putin acusa quem o critica de opositor do regime, colocando seus nomes na lista de “agentes estrangeiros” - muitos já foram exilados e outros morreram de forma misteriosa. O documentário é um compilado desses dias de privação e medo, com relatos surpreendentes de dentro daquele núcleo jornalístico, composto quase todo por mulheres, apontando como as ameaças chegam a cada um. A diretora parte de sua própria inquietação para revelar como o regime autoritário invade instituições, criminalizando pessoas para encobrir a verdade e moldar o pensamento ultranacionalista (que depois viraria pró-guerra). Reportar a realidade sobre a invasão da Ucrânia tornou-se um ato de coragem que custou a liberdade ou o exílio daqueles jornalistas combativos. Figuras como as jornalistas e ativistas Anna Nemzer e Elena Kostyuchenko mostram o rosto para discutir os dilemas éticos da profissão, na tentativa de manter a independência de seus trabalhos. A Era Putin é retratada como um tempo em que a lealdade ao governo é exigida como prova de cidadania, e qualquer desvio pode resultar em perseguição – depois da invasão da Ucrânia, a situação piorou muito quanto aos direitos do povo e do trabalho jornalístico. Um filme sério, de atmosfera sufocante, cujo título simboliza a repressão à liberdade. O mérito da obra está em transformar uma investigação pessoal em crítica política incisiva, servindo como um testemunho de uma triste época. Todos os jornalistas envolvidos no doc tiveram de deixar a Rússia nos primeiros dias da invasão da Ucrânia, juntamente com milhares de opositores da guerra, considerados traidores da pátria. Exibido nos festivais de Berlim e Nova York, concorreu ao prêmio de melhor documentário no Independent Spirit Awards. A diretora e roteirista prepara a parte 2, que está em pós-produção e se chamará “Meus amigos indesejáveis: Parte II - Exílio”, previsto para final deste ano.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 4


O estrangeiro
 
François Ozon, aclamado diretor francês que realiza até dois filmes por ano, fez uma belíssima e atualizada versão para o cinema do clássico livro “O estrangeiro”, de Albert Camus, publicado originalmente em 1942. Ultimamente Ozon roda seus filmes em PB e aqui repete a dose, recorrendo a uma fotografia de brilhar os olhos – situada na Argélia da década de 30, quando ainda colônia da França. Observador, Meursault (Benjamin Voisin, que trabalhou com o diretor em “Verão de 85”) é um rapaz fechado em seu mundo próprio, sem empatia pelos outros. Faz sexo com uma jovem e diz a ela que não sente atração nem desejo por ninguém. Num dia de sol, comete um assassinato na praia e vai para julgamento. Pensativo sobre a morte recente da mãe, ele se põe a questionar seus feitos, trancado numa cela enquanto aguarda seus dias finais – já que ele pode ser guilhotinado, caso seja culpado pelo crime. Tanto livro quanto a versão de Ozon trabalham temas comuns no universo de Camus, como alienação e indiferença ao mundo e aos outros. Filosófico, na linha do existencialismo, é uma obra madura do cineasta, que marca sua nova fase de criação. Voisin, o ator principal, compila a essência do personagem Meursault com seus olhares apáticos e constante desinteresse pelas pessoas que cruzam seu caminho. Exibido no Festival de Veneza de 2025, onde concorreu ao Leão de Ouro, o assisti no Festival do Rio e agora o filme está em cartaz no Brasil, com distribuição pela California Filmes.


 
Pacto de redenção
 
Lançado em 2023 no Festival de Toronto e no ano seguinte nos cinemas internacionais e brasileiros, o filme é a segunda investida do ator indicado ao Oscar Michael Keaton como diretor. Ele também atua nesse sólido drama de suspense, como o protagonista, um assassino de aluguel chamado John Knox, que recebe o diagnóstico de uma forma rara de demência. Seu médico informa que a doença acometerá rapidamente o cérebro, então Knox resolve se afastar do mundo do crime para se reconectar com o filho, Miles (James Marsden). Na reaproximação, ele dará uma mão para o rapaz se livrar de um brutal assassinato, só que as coisas sairão do controle. A trama envolve e traz novos elementos no decorrer do filme, desenrola-se em ritmo tenso, explorando tanto a fragilidade da memória do protagonista quanto os dilemas morais de um homem que sempre esteve à margem da lei. Keaton realizou um trabalho maduro e de consistência (como diretor e ator), injetando uma atmosfera sombria e intimista na obra, que conta com a ajuda de um elenco de peso, como Joanna Kulig, Ray McKinnon, Dennis Dugan, Jimmy Ortega e participações especiais de Al Pacino e Marcia Gay Harden. São 114 minutos que passam voando, num thriller interessante sobre a última chance de redenção de um criminoso. Disponível no streaming da HBO Max.


 
Pai do ano
 
Segundo filme da atriz Hallie Meyers-Shyer como diretora e roteirista, sete anos depois da comédia romântica com Reese Witherspoon “De volta para casa” (2017). Agora o humor é menos nessa comédia dramática protagonizada por Michael Keaton, que na última década vem entregando papeis marcantes de homens maduros em crise conjugal/afetiva/familiar. Em “Pai do ano” (2024), Keaton interpreta Andy Goodrich, um galerista de arte cuja vida dá uma sacolejada quando a esposa Naomi (Laura Benanti) decide se internar em uma clínica de reabilitação por 90 dias, por causa do vício em remédios. Andy sempre foi dependente da mulher para tudo, inclusive para cuidar do casal de filhos gêmeos temporãos. Sem saber o que fazer, pede ajuda para a filha com quem não tem bom relacionamento, Grace (Mila Kunis), fruto do primeiro casamento há quase 40 anos. Os dois voltam a se falar, em primeiro momento ela estranha, e ambos se abrem para uma reaproximação. Até Andy descobrir que Grace está gravida e será avô pela primeira vez. Uma história bonita, leve, de reconexão familiar (no caso, de pai que se reencontra com a filha que nunca cuidou direto), que mistura uma comédia simpática a um drama emotivo. Diferente ver também na tela um personagem de quase 60 anos, o protagonista Goodrich (que é o título original do filme), que precisa amadurecer às pressas para lidar com a tarefa de ser pai triplo (tanto das crianças gêmeas quanto da filha mais velha). Tem momentos delicados, como o desfecho, ótimas atuações de Keaton e Mila – e ainda aparecem no filme em pequenas participações Andie MacDowell e Kevin Pollak, e uma história fácil de se envolver, por tocar em questões humanas. Disponível no streaming do Prime Video.

 
Máquina de guerra
 
Novo filme de ação barulhento da Netflix, que não desaponta com uma trama de perseguição de roer as unhas e efeitos visuais supereficientes. Suspense, ação e ficção científica são os três gêneros fundidos numa trama que lembra “O predador”, só que com uma máquina mortífera no lugar da criatura espacial. Um campo de treinamento militar em uma área isolada, próximo a uma floresta, vira cenário de terror quando um grupo de recrutas passa a ser caçado por um estranho aparato vindo do espaço que atira centenas de balas por minuto, joga bombas e tem um visor que localiza facilmente as presas. É uma máquina gigante, como um robô sem rosto, que espalha destruição por onde anda. Os sobreviventes, liderados pelo agente 81 (Alan Ritchson, de “Jogos vorazes: Em chamas”), procuram lugares para se esconder e planejar maneiras de acabar com o monstro de metal. Aquele grupo habituado a exercícios extenuantes no campo de treinamento precisará lidar com uma nova forma de inimigo, revelando que o combate vai além das fronteiras humanas. Diretor, produtor e roteirista australiano, Patrick Hughes é conhecido dos cinéfilos de fitas de ação, por ter feito “Os mercenários 3” (2014 - um dos mais explosivos e absurdos da franquia) e as duas partes de “Dupla explosiva” (2017 e 2021); agora ele entrega seu melhor trabalho, pelo menos o mais impactante, um filme-pipoca de sobrevivência repleto de corre-corre e explosões. As batalhas são meticulosamente coreografadas, há cenas espetaculares de fuga, e a câmera ágil acompanha tudo, com cortes dinâmicos. E o longa não fica só ali na ação na selva: tem certo drama intimista, já que protagonista é atormentado por lembranças de uma tragédia que o faz seguir em frente. Participam do filme Dennis Quaid, Stephan James, Esai Morales, Jai Courtney e James Beaufort (ator que é também o roteirista do filme junto de Hughes). Disponível na Netflix.


domingo, 19 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 3

 
 
Cinco tipos de medo
 
Thriller brasileiro dirigido por Bruno Bini, que também assina a produção, o roteiro e a montagem, em seu segundo filme, depois de “Loop” (2020), em mais uma obra instigante e original. Ele entrelaça cinco histórias de violência urbana trazendo à tona relações humanas fragilizadas, marcadas por desejo, vingança e sobrevivência. Rodado em Cuiabá (MT), o filme (que tem muito de drama e suspense) se destaca pela narrativa fragmentada, cujas tramas, independentes, vão se cruzando. Temos ali Murilo, um jovem músico que, após quase perder a vida em uma UTI, tem um caso com Marlene, sua enfermeira. Ela, no entanto, vive um relacionamento abusivo com Sapinho, um traficante visto como protetor da comunidade onde moram. Surge então a policial Luciana, que prende Sapinho e, movida por vingança, desencadeia uma série de eventos que atingem em cheio o advogado Ivan, um homem duvidoso que manipula informações a seu favor. Os núcleos narrativos se cruzam em momentos de violência, perseguição e escolhas morais, carregado com um clima de tensão e incerteza no ar (imagens reforçadas pela boa fotografia noturna, quase claustrofóbica). Cada personagem tem um “tipo de medo”, como o da morte, o da solidão e o da verdade, e cada passo dado os faz refletir sobre suas inseguranças. Produzido pela Plano B Filmes e Druzina Content, marca a estreia nos cinemas de Bella Campos (modelo e atriz da novela “Pantanal”) e participação do rapper e cantor Xamã em seu segundo filme. Todos estão bem, com seriedade nos papeis, que incluem ainda as atrizes Barbara Colen, de “Bacurau”, e Rejane Farias, de “Marte Um”, e os atores Jonathan Haaggensen, de “Cidade de Deus”, e Zécarlos Machado, da série “Sessão de terapia”. O filme venceu quatro prêmios no Festival de Gramado (melhor filme, roteiro, montagem e ator coadjuvante para Xamã) e é uma das boas estreias da semana nos cinemas brasileiros, com distribuição da Downtown Filmes.
 
 
Caso 137
 
Indicado à Palma de Ouro em 2025, o ótimo thriller francês “Caso 137” tem direção firme assinada pelo veterano Dominik Moll, cineasta que gosto muito, de “Harry chegou para ajudar” (2000), “O monge” (2011) e “A noite do dia 12” (2022). E estrelado por Léa Drucker, premiada nesse papel com o César de melhor atriz – querida na França, fez mais de 90 longas, como “Custódia” (2017) e “Close” (2022). O filme acompanha Stéphanie Bertrand (Léa Drucker), uma policial da Corregedoria Francesa (IGPN), encarregada de investigar um jovem gravemente ferido em uma manifestação em Paris. O caso, de número 137, embora não contenha provas de abuso policial, ganha novos contornos quando ela descobre que a vítima é de sua cidade natal, colocando em choque sua disciplina profissional. Entre a sala de interrogatório, análise de imagens do caso e conversas informais com colegas de trabalho, Stéphanie entra de cabeça numa investigação pessoal complexa, que mudará tanto sua vida quanto a do investigado. Dominik Moll escreveu o bom roteiro junto do premiado roteirista Gilles Marchand, em mais uma parceria – juntos escreveram outros quatro filmes. “Caso 137” é um estudo sobre comportamento humano frente aos dilemas éticos da profissão, atingindo o universo da IGPN (Inspeção Geral da Polícia Nacional), que controla e fiscaliza todas as polícias da França – por isso o longa traz um ambiente marcado por tensões e desconfiança, já que os agentes policiais investigam colegas e enfrentam hostilidade interna. É uma das boas estreias da semana nos cinemas, disponível em 15 salas do país, como as capitais SP e RJ. A distribuição é da Autoral Filmes.
 


A conspiração Condor
 
O novo filme do cineasta André Sturm (gestor do Cine Belas Artes e fundador da distribuidora Pandora Filmes) tenta se firmar como um thriller político sério sobre os bastidores das mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, ambas ocorridas em 1976, num intervalo de quatro meses, mas o resultado deixa muito, mas muito a desejar. A obra investigativa especula sobre as mortes, que muitos acreditam ter sido um assassinato cometido pelos homens da Ditadura. A história narra uma jornalista (Mel Lisboa) buscando respostas e cruzando dados, além de entrevistar pessoas importantes da época, como o ex-governador da Guanabara e também jornalista Carlos Lacerda (Pedro Bial, numa ponta de dois minutos). Apesar do potencial histórico e da relevância do tema, a execução se mostra pouco envolvente e sem vitalidade – tudo é morno, desinteressante, previsível. A própria dúvida gerada no filme em torno do possível assassinato de JK e de Jango é esvaziada. O título faz referência à Operação Condor, uma campanha de repressão política no auge da Ditadura, que envolveu seis países da América do Sul, como Brasil e Argentina, e que aqui durou de 1975 a 1983; com apoio dos Estados Unidos, havia um serviço de inteligência para perseguir, torturar e matar opositores políticos - questão histórica que mal é citada no filme, infelizmente. No elenco há muitos nomes conhecidos, como Don Stulbach, Marat Descartes, Zécarlos Machado, Luciano Chirolli, Nilton Bicudo, Liz Reis e o próprio Sturm numa pontinha. Queria ter me envolvido, mas não foi dessa vez... Lançado nos cinemas em 9 de abril, com distribuição da Pandora Filmes.

sábado, 18 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

 
 
Pompeia: Sob as nuvens
 
Gianfranco Rosi, premiado diretor e produtor de cinema italiano, reafirma sua posição como um dos maiores documentaristas contemporâneos ao construir um retrato poético (e bem multifacetado) de Nápoles, cidade localizada a 25 quilômetros da histórica Pompeia, que foi dizimada pelo vulcão Vesúvio há 1950 anos. O filme, rodado em preto-e-branco, traz, em pequenos fragmentos, a vida cotidiana de uma comunidade que convive com a presença constante de dois vulcões vizinhos, o Vesúvio e o Campi Flegrei, símbolo de ameaça permanente. Pompeia virou um sítio arqueológico e parada para turismo, que movimenta a economia da região de Nápoles. Rosi, de “Fogo no mar” (2016 - indicado ao Oscar), articula um mosaico que transita entre o íntimo e o universal, revelando gestos simples da rotina dos moradores e os ecos de séculos de cultura e tragédia. Ele evita o formato tradicional de documentário: não há entrevistas, nem narrações didáticas ou guiada, tudo são passagens contemplativas, de escavadores procurando vestígios, esculturas preservadas da época, pessoas ligando para bombeiros por causa da sensação de terremotos, imagens de sobrevoo sobre os vulcões. A narrativa se desenrola como um fluxo de imagens belamente fotografadas (em um PB estonteante) que alternam o extraordinário e o banal, criando uma atmosfera de contemplação. A trilha sonora de Daniel Blumberg, compositor britânico ganhador do Oscar por “O brutalista” (2024), intensifica essa sensação, funcionando como contraponto emocional às cenas de ruas, rostos e paisagens. O título remete à sombra das nuvens que pairam sobre Pompeia e Nápoles, metáfora da convivência entre beleza e risco, passado e presente. Vencedor do prêmio especial do Júri no Festival de Veneza de 2025, onde concorreu ao Leão de Ouro, a fita de arte está disponível na plataforma da Mubi.
 

 
Betty Blue
 
E retorna para os cinemas brasileiros neste final de semana um de meus filmes de arte preferidos, que consagrou o falecido cineasta Jean-Jacques Beineix, bem como foi o ponto de partida da carreira dos principais nomes do elenco. O filme está de volta em uma excelente cópia com novo master em 4K pela Pandora Filmes, em edição comemorativa de seus 40 anos. A envolvente trama acompanha Zorg (Jean-Hugues Anglade), um jovem pintor que restaura casas de praia na Riviera Francesa e que pretende ser escritor. Certo dia aparece pelo bairro uma bela moça, de nome Betty (Béatrice Dalle), que desperta a atenção de Zorg. Os dois iniciam um tórrido relacionamento, mas aos poucos o rapaz percebe que Betty é neurótica e violenta. Drama e romance erótico entram com tudo nesse road movie melancólico, de cores quentes vivas, e uma interpretação intensa da atriz Béatrice Dalle, estreante no terceiro filme do diretor Jean-Jacques Beineix (1946-2022), criador do movimento Cinema du Look (“Cinema do Olhar”), ao lado de Leos Carax e Luc Besson. Tal movimento explorava a juventude marginalizada da França das décadas de 80 e 90, por meio de filmes estilizados e de visual elegante. Beineix dirigiu antes, dentro do “Olhar”, “Diva – Paixão perigosa” (1981) e “A lua na sarjeta” (1983), porém “Betty Blue” tornou-se especial no coração dos cinéfilos. Betty entrou para a galeria de personagens marcantes do cinema, uma protagonista de espírito livre, ao mesmo tempo instável e temperamental, que vai enlouquecendo, brigando com quem está ao redor em seus acessos explosivos. Béatrice é uma atriz de estranha beleza, perfeita para o papel dessa jovem irritada quando contrariada, e que depois faria vilãs no cinema francês (dá medo sua interpretação no terror francês “A invasora”, por exemplo). A trilha do libanês Gabriel Yared (vencedor do Oscar por “O paciente inglês”) é inesquecível, com arranjos ecléticos de sax, gaita e música circense, que caem como uma luva nessa fita de arte sensual - na época recebeu classificação 18 anos (há cenas de sexo selvagem, incluindo a abertura de um minuto). Indicado ao Oscar, Bafta e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, “Betty Blue” foi exibido nos festivais de Toronto e Edimburgo e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Montreal. A produção e o roteiro são de Beineix, e a obra é uma adaptação do livro de Philippe Djian, escritor de outros livros eróticos que viraram filmes, como “Elle” (com Isabelle Huppert). A versão que volta aos cinemas é a original apresentada em 1986, de 119 minutos – existe uma versão do diretor, de 185 minutos (ou seja, 66 minutos a mais que a de cinema) que saiu no Brasil em DVD em 2004 pela Columbia Pictures, que recomendo caso não conheçam (versões do diretor, com grande duração, valem a pena pois se tornam outro filme, com cenas extras e até novo corte).
 

 
O mago do Kremlin
 
O diretor, produtor e roteirista (e que trabalhou muito tempo como crítico de cinema) Olivier Assayas intercala em seu cinema filmes de arte independentes com dramas históricos com figuras reais ou contextos notórios. “O mago do Kremlin” está na lista de seus filmes de base histórica, assim como “Wasp: Rede de espiões” (2019) e a minissérie “Carlos, o Chacal” (2010) - e todos eles trazem a espionagem como ponto de partida, tema explorado pelo cineasta desde sua estreia na década de 80. Novamente Assayas reúne elenco americano em um filme crítico e de trama altamente complexa, cheia de nomes, lugares e situações. Paul Dano interpreta o protagonista do drama, Vadim Baranov, personagem fictício inspirado no empresário russo Vladislav Surkov, ex-conselheiro de Putin que atuou no gabinete do presidente por mais de 10 anos. O longa escancara os bastidores do poder do governo russo durante os anos 1990 e 2000, período marcado pelo colapso da União Soviética, pelo fim do socialismo e a ascensão de Vladimir Putin. Baranov, antes produtor de TV e homem do teatro, é recrutado para ser o arquiteto da propaganda do Kremlin, moldando a imagem de Putin como o líder ideal que iria recriar o país. Por ser da mídia, ele sabia como mexer os pauzinhos para manipular percepções em escala nacional, utilizando a TV, o rádio e os jornais em prol da propaganda russa. Baranov se torna o ideólogo de Putin, o mago do governo, numa relação primeiramente fiel e subordinada, depois instável entre os dois – Jude Law encarna o presidente russo a partir da metade do filme (já que antes disso Putin não “existia” na história inicial, que foca em Surkov). Law entrega uma interpretação marcada por exageros, mas olhando a fundo são as caretas e trejeitos do próprio Putin, com sorrisinho de lado, biquinhos, olhar compenetrado. O filme é um drama histórico mesclado com thriller político, com diálogos difíceis, que explicam os bastidores sombrios do governo Putin, passando pelas alianças e as crises. É uma fábula moderna sobre disputas pelo poder e pelas narrativas, fazendo uma reflexão da Rússia autoritária de Putin, uma figura temerária que governa o país com mãos de ferro desde 1999. Assayas mistura ficção e documentário, com muitas imagens de arquivo, reportagens da época e vídeos reais, fazendo um trabalho coeso, que vale a pena ver. O elenco reúne também a ganhadora do Oscar Alicia Vikander, Jeffrey Wright e Tom Sturridge. Adaptado do livro do italiano Giuliano da Empoli, o filme teve estreia mundial no Festival de Veneza de 2025 e está em cartaz nos cinemas pela Imagem Filmes.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1

 
Com causa
 
Documentário do cineasta carioca Belisario Franca em mais uma parceria com o diretor Pedro Nóbrega, desta vez sobre ativismo ambiental, e não mais tratando de figuras ou cenas políticas como costumam fazer. Aqui eles fazem uma colcha de retalhos com depoimentos de ativistas do mundo todo em torno de seus projetos, visando a construção de um mundo menos violento, que cuide do meio ambiente para as futuras gerações. Com imagens belas e nítidas das águas, das florestas e do solo, seguindo da Amazônia à África e passando pela Europa e Ásia, o filme é um apelo para o despertar da conscientização humana, trazendo depoimentos de figuras notórias do ativismo mundial, como Ailton Krenak, Paul Watson, Carmen Silva e Muzoon Almellehan. Um filme para ver, sentir e refletir, tanto contemplativo quanto de crítica social. Produzido pela Giros Filmes, teve exibição no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP, e está em exibição nos principais cinemas brasileiros desde semana passada. Distribuição da Bretz Filmes.


 
Vidas entrelaçadas
 
Angelina Jolie é a estrela do novo filme da cineasta francesa Alice Winocour, de ‘Transtorno’ (2015) e ‘A jornada’ (2019), que estreou no Festival do Rio – eu o assisti lá, ainda com o título original, “Couture” (termo que significa ‘Alta costura’). Angelina está lindíssima e bem fotografada, interpretando o papel de uma diretora de cinema que viaja a Paris para filmar a temporada do Fashion Week. Enquanto prepara o estúdio e as modelos, aguarda ansiosamente os resultados de um exame médico que fez nos Estados Unidos (de câncer). Os fragmentos da trajetória dessa mulher se entrelaçam com os de outras duas personagens femininas: uma modelo sul-sudanesa de 18 anos (Anyier Anei), que está no mesmo evento, em seu primeiro trabalho na passarela, e uma maquiadora (Ella Rumpf) que trabalha sem descanso. Cada uma a seu modo enfrenta os incansáveis dias da Semana de Moda ao mesmo tempo em que lidam com questões íntimas. Um bonito e correto filme sobre o universo feminino no mundo da moda, energicamente interpretado pelo trio central de atrizes. No elenco vemos ainda Vincent Lindon como um médico e Louis Garrel como o par romântico de Angelina. Selecionado para a competição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián 2025, foi exibido nos festivais de Toronto e Roma. Estreia hoje em oito cidades brasileiras, como SP, RJ, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba, com distribuição da Synapse.
 


Família de aluguel
 
Dirigido pela cineasta japonesa Mitsuyo Miyazaki, que assina apenas como Hikari, o emocionante “family film” é ambientado na Tóquio atual e traz um papel luminoso de Brendan Fraser como Phillip Vanderploeg, um ator americano em solo japonês que enfrenta uma crise profissional e tenta reencontrar-se após anos de carreira estagnada. A idade também pesa sobre ele. Descobre, por acaso, uma agência japonesa especializada em “famílias de aluguel”, que contrata intérpretes para desempenhar papéis de parentes, parceiros amorosos ou amigos em situações cotidianas. É uma agência inovadora, e ele, ator, por ter encarnado muitos papéis em sua vida, decide arrumar um emprego lá. Após assinar o contrato, o solitário Phillip passa diariamente a assumir diversas identidades na vida de desconhecidos, como marido, irmão e pai, tornando-se companheiro conforme a necessidade do cliente. O que ele não imaginaria era ser pego numa armadilha do coração: em um dos papéis sociais que assume, como o pai de uma garota rebelde chamada Mia (Shannon Mahina Gorman) que retorna ao seio familiar, ele se verá preso numa relação impossível de ser distanciada ou desvinculada. Phillip encontrará em Mia vínculos genuínos que o ajudarão a redescobrir o valor do afeto e da conexão humana. O roteiro foge do melodrama fácil, mas usa e abusa de cenas que nos aflora a emoção, em uma narrativa intimista que discute a solidão e a necessidade de afeto em um mundo fragmentado por relações vazias (ou líquidas, segundo o filósofo Zygmunt Bauman). Fraser, hoje com 57 anos, voltou a carreira com tudo após uma década e meia entregue ao relento – foi astro nos anos 90 (mas apenas um rosto bonito em fitas abobalhadas de comédia), teve depressão, sofreu assédio sexual na indústria de Hollywood e se afastou das telas; até entrar de cabeça num dos papeis mais incríveis do cinema e ganhar o Oscar por ele, em “A baleia” (2022). Esteve em seguida em “Assassino da Lua das Flores” (2023), de Martin Scorsese, e agora nesse filme adorável e sentimental de Hikari, demonstrando vitalidade e recuperação do tempo perdido. A estreante Shannon Mahina Gorman, de 10 anos, é outro destaque, e pelo papel recebeu indicação ao Critics Choice de 2026. O elenco japonês conta com mais de 25 nomes, como Mari Yamamoto, das séries “Pachinko” (2022-2024) e “Monarch: Legado de monstros” (2023-), e Takehiro Hira, indicado ao Emmy e ao Critics Choice de ator coadjuvante pela série “Xógum: A gloriosa saga do Japão” (2024-2026), o que reforça a autenticidade cultural da trama. Exibido nos festivais de Toronto, Zurique, Tóquio e Rio de Janeiro, é escrito, produzido e dirigido por Hikari (ela dirigiu o lindo drama “37 segundos”, de 2019, e é uma das criadoras e produtoras da série da Netflix “Treta”). O filme passou nos cinemas brasileiros em janeiro de 2026, e estreia agora no streaming Disney+.

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

Colisão: Acidente ou homicídio?   Documentário de true crime da Netflix sobre um acidente de carro fatal que aos poucos virou um extenso cas...