sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Cine Clássico


THX 1138

No século XXV, em um futuro distópico, as pessoas não têm nomes, apenas designações com letras e números (como placas de carro). Elas vivem confinadas em uma sociedade subterrânea totalmente rígida. Os indivíduos moram em celas dentro de um complexo clínico, monitorados por androides que observam tudo por câmeras. O amor e os desejos são reprimidos, até que THX 1138 (Robert Duvall) e LUH 3417 (Maggie McOmie) se apaixonam e decidem fugir para a superfície da Terra.
 
Eu só conhecia a versão de cinema, de 86 minutos, que havia saído em DVD há muito tempo pela Warner Bros, desse cult movie do cinema scifi, e agora fiquei deslumbrado com a cópia restaurada em 4K da versão do diretor, com dois minutos a mais (88 minutos), exibida no Festival de Berlim em 2017 e disponível na HBO Max. Foi o filme de estreia do visionário diretor George Lucas, que mudou a cara dos blockbusters norte-americanos quando lançou “Star Wars” na mesma década. Depois de uma série de curtas experimentais para a faculdade de cinema da California (USC), onde estudou, Lucas, na época com 26 anos, estendeu o roteiro de um de seus curtas universitários, intitulado “Labirinto eletrônico THX 1138 4EB” (1967), sobre um homem fugindo de um labirinto em um futuro incerto. Criou, no longa, uma fábula de romance e opressão num mundo distópico; a história se passa num futuro inimaginável, no século XXV. A população tem a mente e o corpo controlados pelo governo, em um regime totalitário. As pessoas são proibidas de se amar – e quem tentar pode ser eliminado, até que THX se apaixona por uma mulher, LUH, fazendo de tudo para ficarem juntos. O filme surfa na onda de “1984”, de George Orwell, com a opressão/repressão do governo, e “Westworld”, com vigilantes robôs que caçam humanos. Os cidadãos, sem exceção, são forçados a consumir drogas diárias fornecidas pelo Estado para reprimir sentimentos, o livre-arbítrio e desejos sexuais, nunca tendo acesso à superfície do planeta, considerada um local inabitável ou proibido. A história e o conceito são de Lucas, com roteiro dele e corroteirizado por Walter Murch, que depois seguiu para a área de edição e som, onde foi premiado com três Oscars. Segundo Lucas conta, a história se apropriava da atmosfera política particular dos Estados Unidos daquela época, que poderia levar a um futuro ameaçador controlado por políticos autoritários. Lançado na época no Festival de Cannes, traz ótima trilha sonora eletrônica de Lalo Schifrin e uma fotografia brilhante.


O design teve inspiração no cinema japonês futurista, com as cápsulas onde as pessoas ficam confinadas – os cenários são minimalistas, tudo branco, como se passasse a ideia de pureza e limpeza. Foi um dos primeiros filmes de Robert Duvall, num trabalho memorável, e produzido por um mentor de Lucas que se tornaria seu melhor amigo, Francis Ford Coppola, na recém-formada produtora dele, a American Zoetrope. Filmado em Los Angeles em 1969, enfrentou problemas com a Warner Bros, que não aceitou a qualidade do filme e não investiu no marketing – mexeram muito na edição e acabou sendo fracasso de público, virando cult com o tempo. Depois de “THX 1138”, Lucas faria “Loucuras de verão” (1973) até chegar “Star Wars: Episódio IV - Uma nova esperança” (1977), quando fundou a produtora LucasFilm.
 
THX 1138 (Idem). EUA, 1971, 88 minutos. Ficção científica/Drama. Colorido. Dirigido por George Lucas. Distribuição: Warner Bros.
 
 
O fantasma de Mora Tau
 
Das profundezas do oceano, tripulantes mortos saem de um navio naufragado com direção à costa de uma cidade na África chamada Mora Tau. Os zumbis querem impedir um grupo de caçadores de recompensas a resgatar uma caixa de diamantes presa nos restos da embarcação onde morreram, sessenta anos atrás.
 
Terror B do final dos anos 50 que inspirou dois filmes nas décadas posteriores, “Ondas do pavor” (também conhecido por “Horror em alto-mar”, de 1977, sobre zumbis nazistas que saem de um barco afundado) e “The fog – A bruma assassina” (1980), de John Carpenter, cuja história é ainda mais parecida, em torno de piratas mortos que surgem de um nevoeiro para trazer de volta um tesouro milenar guardado em uma igreja. O longa é uma pequena joia perdida, resgatada pela distribuidora Versátil, que encontra preciosidades para lançar em mídia física aos colecionadores – o filme aparece como extra no segundo disco da coleção “Zumbis no cinema – vol. 6”, cuja caixa acompanha “A maldição dos zumbis” (1989), “A maldição do necrotério” (1991), “Um tira do outro mundo” (1988) e “Holocausto zumbi” (1980). Está em boa cópia este que foi um precursor dos zombie movies uma década antes do principal deles, “A noite dos mortos-vivos” (1968), de George A. Romero. Há momentos de tensão, com as criaturas andando lentamente atrás das vítimas, em uma fita que é uma aventura com terror (já que trata de um estilo muito explorado no cinema de aventura da época, o de caçadores de tesouro, porém aqui diante dos mortos enfurecidos).


Em preto-e-branco, vale a descoberta desse filme esquecido. Quem dirige é Edward L. Cahn, cineasta independente, de origem polonesa, que realizou mais de 120 longas entre os anos 30 e 60, muitos destes filmes B.
 
O fantasma de Mora Tau (Zombies of Mora Tau). EUA, 1957, 69 minutos. Terror. Preto-e-branco. Dirigido por Edward L. Cahn. Distribuição: Versátil Home Video

* Textos publicados na coluna Middia Cinema, da Middia Magazine, edição de agosto/setembro de 2026

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