terça-feira, 18 de abril de 2023

Cine Especial



Matinee: Uma sessão muito louca


Em plena crise dos mísseis de Cuba, em 1962, o produtor de fitas B Lawrence Woosley (John Goodman) pretende lançar seu último filme de terror na cidade de Key West, na Flórida. Ele aproveita que a população anda tensa com os novos desdobramentos da Guerra Fria para levar às salas de cinema um filme sobre um homem que, após uma guerra nuclear, transforma-se em formiga, atacando quem vê pela frente.

Figura louvável do cinema blockbuster americano da década de 1980, diretor de filmes memoráveis como “Grito de horror” (1981), “Gremlins” (1984), “Viagem insólita” (1987) e “Meus vizinhos são um terror” (1989), Joe Dante presta aqui uma singela homenagem ao cinema de baixo orçamento (os “filmes B”) dos anos de 1950 e 1960, em especial aqueles de terror e ficção científica, tão populares nos Estados Unidos, cujas sessões lotavam as salas. Em seu trabalho menos lembrado (mas muito especial para os cinéfilos que gostam de conhecer os bastidores do mundo do cinema), acompanhamos as loucuras por trás do lançamento de um filme nas salas, do marketing para divulgá-lo até caçar gente para comprar ingresso. Numa cidade da Florida durante a Guerra Fria, os moradores estão à flor da pele com medo de uma guerra nuclear. Um produtor de um filme B aproveita o momento para distribui-lo numa grande sala. Será um longa-metragem preto-e-branco com um homem-formiga assassino, fruto da mutação genética causada por radiação nuclear (ele é chamado de “Hormiga”, ou em inglês, “Mant”, junção de “man” e “ant”). Para dar impacto durante a projeção, o produtor instala nas poltronas do cinema equipamentos para dar choque no público, e durante a exibição, fumaças saem da tela e ouvem-se estouros como bombas – isso tudo existiu nos cinemas da época, com poltronas que chacoalhavam, da tela espirrava água nas pessoas em filmes de naufrágio no mar etc O produtor contrata por fim um rapaz para se vestir de formiga e assustar o público perambulando pelas fileiras.
O ator John Goodman (ele está bonachão e à vontade) interpreta esse destemido produtor de cinema, cujo papel foi inspirado no lendário produtor e diretor William Castle (1914-1977), realizador de filmes B de terror e scifi com efeitos especiais altamente inusitados - por exemplo, dirigiu e produziu “Força diabólica” (1959), com um monstro parasita que estraçalhava as pessoas num laboratório, e “13 fantasmas” (1960), com espíritos malignos aterrorizantes.





Narrado por um adolescente que é fã de cinema, o filme retrata, em segundo plano, o medo de uma guerra nuclear - o contexto é a crise dos mísseis de Cuba, durante 13 dias em outubro de 1962, os tais “13 dias que abalaram o mundo”, quando os soviéticos, em plena Guerra Fria, em resposta à instalação de mísseis na Turquia e na Itália pelos Estados Unidos, revidaram colocando ogivas em Cuba viradas para o país norte-americano; e por pouco não houve uma guerra atômica com proporções impensáveis!
Tudo isso está nesse passatempo delicioso, inteligente e brincalhão de Joe Dante, que conta com boas atuações de John Goodman, de “Os Flinstones: O filme” (1994), e Cathy Moriarty, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por “Touro indomável” (1980), e participações menores de Dick Miller, John Sayles e Naomi Watts (numa pontinha em início de carreira).  
Sai em bluray pela Obras-primas do Cinema numa cópia excelente, com mais de duas horas de extras e uma luva especial.

Matinee: Uma sessão muito louca (Matinee). EUA, 1993, 99 minutos. Comédia/Drama. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Joe Dante. Distribuição: Obras-primas do Cinema

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Cine Cult



O colecionador de almas


Wendy (Chelsea Field) foge do marido abusivo e de carro segue sem destino pelas estradas de um deserto. Dá carona a um misterioso homem, Hitch (Robert John Burke), um andarilho solitário que tira fotos das pessoas com quem cruza. Procurado pela polícia, ele caça indivíduos problemáticos para envolvê-los em rituais sangrentos.

Rodado nos desertos da Namíbia e em cidades da África do Sul, o terror independente é uma experiência sensorial incrível, que há tempos eu não sentia. Graças à fotografia deslumbrante, toda alaranjada que reforça o calor do deserto, e muita poeira. O lugar é como se fosse a entrada para o inferno, de onde surge um misterioso andarilho à espreita de pessoas perdidas para levar a alma delas (a fotografia é do diretor de fotografia de “Highlander 3, o feiticeiro”, Steven Chivers). O roteiro, modesto na forma, mas místico no conteúdo, com momentos assustadores e outros bem chocantes com os rituais sangrentos, é do roteirista sul-africano Richard Stanley, que também dirige a fita, responsável por pelo menos dois filmes de terror independentes e criativos: “Hardware: O destruidor do futuro” (1990), que mistura ficção científica, com Dylan McDermott, e o recente “A cor que caiu do espaço” (2019), baseado num conto de H.P. Lovecraft, com Nicolas Cage e Joely Richardson.
Os elementos técnicos/gráficos desse filme (lançado em 1992, e praticamente apagado da memória do público), ganham nova dimensão na excelente cópia em DVD da Obras-primas do Cinema, que o lançou há poucos meses. A versão disponível em DVD é a ‘Final cut’, o corte final, de 108 minutos, com sete minutos a menos do que aquela que saiu nos cinemas (de 115 minutos); houve depois outro corte, lançado na França, Itália e EUA, de 87 minutos, com menos violência, e por fim o corte do diretor, com 103 minutos.





Robert John Burke, de “Robocop3” (1993) e “A maldição” (1996), incorpora com nítida entrega a figura central de um “Dust devil”, uma espécie de espírito do mal que assume formas diferentes, e caminha pelas estradas caçando gente. Chelsea Field, atriz de fitas populares nos anos de 1980 e 1990, como “Mestres do universo” (1987) e “O último boy scout” (1991), também se destaca como a mulher que foge do marido abusivo e terá um terrível encontro com o protagonista. No elenco, participações de coadjuvantes curiosos, dentre eles a alemã Marianne Sägebrecht, de “Bagdad Café” (1987), e dois atores sul-africanos, John Matshikiza, de “Um grito de liberdade” (1987), e Zakes Mokae, de “A maldição dos mortos-vivos” (1988) – Mokae interpreta um papel importante, de um sargento que tem premonições envolvendo o andarilho e as mortes cometidas por ele.
“O colecionador de almas” concorreu a prêmios nos principais festivais de terror, como Avoriaz, Fangoria e Fantasporto.
Conheçam essa preciosidade do cinema cult de terror, uma coprodução África do Sul e Reino Unido.

O colecionador de almas (Dust devil). Reino Unido/África do Sul, 1992, 108 minutos. Terror/Suspense. Dirigido por Richard Stanley. Distribuição: Obras-primas do Cinema

domingo, 16 de abril de 2023

Cine Especial



A mulher de preto


O advogado Arthur Kidd (Adrian Rawlins) viaja a uma pequena cidade inglesa para acompanhar o funeral de uma mulher e depois auxiliar a família com a herança. Hospedado na casa da falecida, Kidd é assombrado por visões sinistras de uma mulher de preto. Ele passa a desconfiar que algo terrível está por trás da morte daquela senhora.

Produzido para a TV inglesa, “A mulher de preto” é um sofisticado telefilme de terror sobrenatural que irá assustar aqueles que curtem o tema. Não somente a trama é sinistra, mas também as locações, a fotografia perturbadora e os elementos técnicos, como neblina a todo instante e as sombras nos ambientes fechados – foi filmado na região de Lacock, no condado inglês de Wiltshire, com ruelas e casinhas de aspecto medieval, que parecem ter saído do universo de Arhur Conan Doyle (destaque para o velho casarão da falecida, com um cemitério decrépito ao fundo). Começa como uma história de investigação, aos poucos o suspense assume forma e depois atinge o ápice como terror com direito a aparições de fantasmas e um segredo aterrador guardado a sete-chaves.



Baseado no livro da premiada escritora inglesa Susan Hill, publicado em 1983, teve uma versão para cinema, da qual gosto muito, assinado pela Hammer Films, “A mulher de preto” (2012), com Daniel Radcliffe e Janet McTeer.
Recebeu indicação a quatro prêmios Bafta, nas categorias de TV: melhor design, maquiagem, som e trilha sonora, e foi dirigido por um especialista em séries e telefilmes britânicos, Herbert Wise.
O telefilme acaba de ser lançado em DVD pela Obras-primas do Cinema, numa cópia muito boa, digna para ter na coleção (como extra apenas galeria de imagens e cards impressos).

A mulher de preto (The Woman in black). Reino Unido, 1989, 102 minutos. Terror/Suspense. Dirigido por Herbert Wise. Distribuição: Obras-primas do Cinema

sábado, 15 de abril de 2023

Cine Especial


Soldado anônimo


Anthony Swofford (Jake Gyllenhaal), um jovem atirador de elite americano, enfrenta os piores dias de sua vida na Guerra do Golfo.

Terceiro longa-metragem dirigido por Sam Mendes, renomado diretor britânico, que antes havia realizado “Beleza americana” (1999), pelo qual ganhou o Oscar de melhor diretor, e “Estrada para a perdição” (2002). Na época de “Soldado anônimo”, em 2005, estava casado com a atriz Kate Winslet. O filme serviria de veículo para o ator Jake Gyllenhaal, que naquele ano faria “O segredo de Brokeback Mountain”, em que receberia sua primeira indicação ao Oscar, de ator coadjuvante (Jake é irmão da atriz Maggie Gyllenhaal, de “Secretária” e “Batman – O cavaleiro das trevas”).
Mendes nos entrega um filme de guerra duro, complexo, repleto de críticas disfarçadas, com doses certeiras de um humor ácido e negro. A história, que é real, foi baseada no livro de memórias de mesmo título, “Jarhead”, de Anthony Swofford, um fuzileiro naval que viveu quatro dias de horror na Guerra do Golfo – o livro tornou-se campeão de vendas nos Estados Unidos, e o autor relata com precisão suas experiências traumáticas naquela guerra insana.
A história se acerca de um rapaz que vinha da terceira geração de sua família a servir o Exército. No fundo, ele não queria estar lá. Como fuzileiro num grupo de uma dezena de soldados, é enviado no meio do deserto escaldante do Iraque carregando mais de 50 quilos de armas e bombas nas costas. Sem entender os motivos da guerra, viverá momentos desconfortáveis e ameaçadores.
Os quatro dias que retratam a jornada exaustiva de Swofford são no momento mais feroz da Operação ‘Tempestade do Deserto’, durante a Guerra do Golfo, que ocorreu entre agosto de 1990 e fevereiro de 1991. Nessa operação, os Estados Unidos, sob o governo George H. Bush (o Bush pai), recorreram a ataques aéreos, terrestres e marítimos para libertar Kuwait dos domínios das forças armadas iraquianas, comandadas por Saddam Hussein. Calcula-se que foram mortos 100 mil soldados iraquianos, além de 30 mil kuwaitianos, e cerca de quatro mil soldados americanos. Uma década depois, o Iraque voltaria a ser atacado pelos Estados Unidos, num desdobramento da primeira Guerra do Golfo – o filme foi produzido nesse período, durante o governo de Bush filho, quando houve também a invasão a outro país do Oriente Médio, o Afeganistão, portanto o longa faz críticas, mesmo que subentendidas, a essas duas guerras, consideradas insanas e absurdas.



“Soldado anônimo” não teve tanta repercussão no lançamento, virou cult e ganhou três continuações para home vídeo, entre 2014 e 2019 – a cada filme o time de fuzileiros está em uma guerra diferente, como Afeganistão e depois Síria. Disponível em DVD e para aluguel no Amazon Prime.
PS: 14 anos depois de “Soldado anônimo”, em 2019, Sam Mendes dirigiria outro filme de guerra dos bons, premiado com três Oscars técnicos, “1917”. Ele ficou conhecido também por dirigir dois filmes da franquia James Bond, “007 – Operação Skyfall” (2012) e “007 contra Spectre” (2015).

Soldado anônimo (Jarhead). EUA/Reino Unido/Alemanha, 2005, 122 minutos. Guerra/Drama. Colorido. Dirigido por Sam Mendes. Distribuição: Universal Pictures

Cine Clássico


Amor sem fim


Jade (Brooke Shields) tem 15 anos, é uma menina de família rica e mora com os pais superprotetores. Inicia um relacionamento com David (Martin Hewitt), dois anos mais velho que ela, que vem de um lar humilde e guarda um passado sombrio. Quando os pais de Jade proíbem o namoro, David torna-se obcecado e extremamente possessivo, a ponto de cometer um crime que irá abalar a família dele e a da garota.

Franco Zeffirelli (1923-2019), italiano que filmou nos Estados Unidos, adaptou para o cinema duas peças clássicas de William Shakespeare nos anos de 1960, com roteiro dele: “A megera domada” (1967), com Elizabeth Taylor e Richard Burton (casados à época) e “Romeu e Julieta” (1968), esta a melhor versão da tragédia do jovem casal num romance proibido, que lançaria a linda atriz Olivia Hussey. Fez sucesso com os dois filmes, depois viria “Irmão sol, irmã lua” (1972), que narrava uma parte da vida de São Francisco, a minissérie “Jesus de Nazaré” (1977), com elenco estelar, além de óperas, algumas para a telona, como “La Traviatta” (1982), e outras para a TV, como “Pagliacci” (1982) e “Turandot” (1983). Sua carreira alternava altos e baixos quando foi convidado, em 1980, pelas produtoras Polygram e Universal para dirigir uma fita juvenil de um amor levado às últimas consequências, esse “Amor sem fim”. O filme foi escrito por Judith Rascoe, corroteirista de “Soldados da morte” (1978) e “Havana” (1990), que baseou a história no romance homônimo de Scott Spencer, lançado no ano anterior. Era praticamente um “Romeu e Julieta” moderno, mais melodramático, diálogos e momentos cafonas e resultado bem bobinho (mas nostálgico para quem assistia ao filme na TV, como eu vi muitas vezes). Zeffirelli foi criticado pelo público, o longa foi perseguido pela crítica especializada a ponto de ser indicado a diversos Razzie Awards, o Framboesa de Ouro, que premia os piores filmes – “Amor sem fim” recebeu indicação de pior diretor, roteiro, filme e parte do elenco, como atriz (Brooke Shields), ator (Matin Hewitt) e atriz coadjuvante (Shirley Knight). E o inseriram na lista das 100 piores produções do cinema americano (o que é um exagero danado, convenhamos...).
Pois bem, “Amor sem fim” fez certo sucesso no cinema (com custo de U$ 9 milhões, faturou U$ 32 milhões) e explodiu nas locadoras num momento em que as fitas de vídeo viviam seu auge. O sucesso veio principalmente por causa da canção-título, “Endless love”, indicada ao Oscar e virou hit romântico da década de 1980, composta por Lionel Richie e cantada por ele e Diana Ross – a música concorreu também ao Globo de Ouro de melhor canção, e o álbum de Richie foi indicado ao Grammy.



O drama romântico é previsível, acompanha dias de uma paixão avassaladora entre dois adolescentes, Jade e David, cujo relacionamento passa a ser malvisto pelos pais da menina. Eles sofrem tanto por amor a ponto de cometer tragédias, o que irá ocorrer da metade para o fim do filme – quando se intensificam os problemas entre o garoto obsessivo e a menina ingênua, e deles com a família.
Brooke Shields vinha do sucesso de “A lagoa azul” (1980), depois de passar por filmes setentistas independentes como “Menina bonita” (1978), “Rei dos ciganos” (1978) e “Wanda Nevada” (1979), e nunca mais daria certo nas telas. Martin Hewitt estreava aqui, era uma promessa pelo rosto de galãzinho, no entanto teve o mesmo destino de Brooke: participar de uma meia dúzia de fitas menores – como “O pirata da barba amarela” (1983), e desaparecer (ele esteve no elenco de oito filmes e fez participações especiais em episódios de umas seis ou sete séries, como “Plantão médico”). Os novatos atores atuam ao lado de veteranos, parte deles até ganhadores de Oscar, como Richard Kiley e Beatrice Straight, que interpretam os pais do personagem de Martin Hewitt; Don Murray e Shirley Knight, como os pais de Brooke. Nota-se ainda James Spader, em seu segundo filme, e há uma pontinha de Tom Cruise, que era estreante.
“Amor sem fim” ganhou um bom remake em 2014, de mesmo título, com Gabriella Wilde e Alex Pettyfer, dirigido por Shana Feste, de “Em busca de uma nova chance” (2009). O original e a refilmagem estão disponíveis em DVD, pela Universal Pictures, e também no streaming, na Amazon Prime e na Globoplay.

Amor sem fim (Endless love). EUA/Japão, 1981, 116 minutos. Romance/Drama. Colorido. Dirigido por Franco Zeffirelli. Distribuição: Universal Pictures

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Cine Cult


Lola Pater


Zino Chekib (Tewfik Jallab) tem 27 anos e não sabe quem é seu pai. Ele o abandonou ainda criança. A mãe morreu há pouco tempo, e Zino, por causa de uma herança, decide procurar pelo genitor, que hoje mora na Argélia. Ao chegar lá descobre que o pai, Farid, é uma mulher trans, uma professora de dança independente, de nome Lola Pater (Fanny Ardant).

A distribuidora Imovision, fundada no Brasil em 1987, foi uma das porta-vozes em trazer aos cinemas do nosso país fitas de arte francesas numa época em que o cinema americano dominava. A partir da metade dos anos 2000, investiu em lançamentos de filmes de outros países não só nos cinemas como também em DVD e bluray para os colecionadores, o que faz muito bem até hoje! E todos os lançamentos da Imovision pertencem ao circuito independente, quase não vemos esses filmes em TV aberta ou no streaming. Em 2021, no auge da pandemia, a distribuidora, para concorrer com diversos streaming que se popularizam no período, lançou sua plataforma online, de assinatura, o “Reserva Imovision”, em parceria com o Reserva Cultural, louvável cinema de rua de São Paulo que ainda resiste e é mantido pelo grupo da Imovision. Explico tudo isso por dois motivos: o filme que comentarei, “Lola Pater” (2017), está tanto no Reserva Imovision para quem quiser assisti-lo (é necessário assinar um plano) quanto disponível em DVD – há milhares de colecionadores de DVDs e Blurays no Brasil (eu sou um deles), e a Imovision não desistiu da mídia física, o que é extremamente positivo!
Não vi “Lola Pater” no cinema, pude conferir o filme somente agora, em DVD. E é uma das grandes produções franco-belgas dos últimos anos. Que história bonita, delicada e humana, com sabor de Almodóvar!
Escrito e dirigido pelo francês descendente de marroquinos Nadir Moknèche, de “Goodbye Morocco” (2012), conta com uma das mais belas interpretações de Fanny Ardant, estrela do cinema francês nos anos de 1980 e 1990, de “A mulher do lado” (1981) e “De repente num domingo” (1983). Com 68 anos à época, ela se desafia num personagem original, cheio de camadas, entregando um papel emocionante e sensível como uma mulher trans (o filme causou falatório na França por não terem convidado uma atriz trans, e hoje o cinema é mais criterioso nas escolhas do elenco pensando na diversidade sexual e na inclusão). No passado, Lola era Farid, um homem de origem argelina, que teve um filho e o abandonou, retornando à terra natal. Nunca mais teve contato com a família e mudou de sexo e identidade, chamando-se Lola, que atualmente trabalha como professora de dança. O filho, Zino, de 27 anos, marca então um encontro com ela para discutirem uma herança e resolverem pontos que ficaram abertos.



Exibido no Festival de Locarno, o filme é bem simples na forma, trata de reconciliação, e o ator Tewfik Jallab, de “A marcha” (2013), que interpreta Zino, tem um bom desempenho como um jovem dividido entre momentos de dor, frustração, alegria e alívio. Jallab e Fanny complementam um ao outro, tornando o resultado do filme eficiente e ao mesmo tempo surpreendente.

Lola Pater (idem). França/ Bélgica, 2017, 95 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Nadir Moknèche. Distribuição: Imovision

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Cine Cult


O congresso futurista


A atriz norte-americana Robin Wright (Robin Wright) passa por maus bocados. Com quase 50 anos nas costas, está desempregada, e seus últimos filmes não foram recebidos com satisfação. Ela aceita participar de um último filme, produzido por um grande estúdio, porém com uma condição: terá de ser escaneada para que sua imagem seja usada em filmes futuros. Robin inicialmente reluta, no entanto acaba cedendo às pressões, já que ganhará um bom dinheiro, fora a promessa de ser mantida “jovem” em todas aquelas produções. Tempos depois, ela se depara com um mundo distópico, tomado por cores, formas e personagens inusitados, totalmente controlado pela indústria de entretenimento.

Uma das animações para adultos mais complexas do cinema, uma fita pessoal do diretor Ari Folman recheada de cifras e enigmas, que discorre sobre temas que vão da área da saúde ao mundo das artes, como clonagem, farmacologia, indústria cultural, crise de identidade, bloqueio criativo e direito de imagem. Folman, natural de Israel, surpreendeu com o documentário em animação sobre a Guerra do Líbano “Valsa com Bashir” (2008), que recebeu indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro e acabou vencendo o Globo de Ouro na categoria, além de ter sido indicado à Palma de Ouro em Cannes. Passados cinco anos, inovou, mais uma vez, o universo das animações com esse filme diferentaço, que faz referências ao mundo pop e recorre à linguagem da ficção científica para contar uma história – é inspirado no livro do escritor ucraniano Stanislaw Lem, de “Solaris”, intitulado “O incrível congresso de futurologia”, lançado em 1971. Parecem as discussões existenciais de Charlie Kaufman, misturando formatos usados no psicodelismo dos anos de 1970. Há também junção de variadas modalidades de desenho, como as animações clássicas à mão, computação gráfica, e ainda uso de cores fortes intercalado com quadros em preto-e-branco. Lembrou-me também não só a forma como o conteúdo dos filmes de animação de Richard Linklater, especialmente “O homem duplo” (2006).
Robin Wright se desafia num papel autocrítico, que fala da própria atriz em crise. Na época, ela, que fez sucessos como “A princesa prometida” (1987), “Forrest Gump: O contador de histórias” (1994) e “Corpo fechado” (2000), enfrentava sérios problemas pessoais, aparecia em poucos papeis importantes no cinema e reclamava de ter vivido por 15 anos à sombra do ex-marido, o premiado ator Sean Penn. Por isso seu papel de protagonista é real e ao mesmo tempo irônico.



Ao falar do scanner/clonagem para a vida eterna na tela, o filme toca num ponto crucial, motivo de discussões intermináveis: de como o cinema vem utilizando as tecnologias que tornam tudo superficial, efêmero e rápido.
Além de Robin Wright, há participações de Harvey Keitel, Danny Huston e Paul Giamatti, bem como Jon Hamm como o narrador.
Veja, mas vá preparado: é um filme de arte para poucos, que intriga, desafia a nossa mente e propõe discussões fundamentais sobre a indústria do cinema na atualidade.

O congresso futurista (The congress). Israel/ Alemanha/ Polônia/ Luxemburgo/ Bélgica/ França/ Estados Unidos/ Índia, 2013, 122 minutos. Animação/Ficção científica. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Ari Folman. Distribuição: Imovision

Comentários do blogueiro


Começa hoje o Festival É Tudo Verdade com 72 filmes na programação

Um dos festivais mais importantes e antigos de documentários tem início hoje, dia 13, em formato presencial e também online. Trata-se do “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários”, que chega em sua 28ª edição. A programação segue até 23 de abril simultaneamente em seis salas em São Paulo e em três salas no Rio de Janeiro, com entrada gratuita. Esse ano serão exibidas 72 produções entre longas, médias e curtas-metragens, produzidos em 34 países. A programação inclui também conferências, debates e sessões em streaming.


O documentário norte-americano “Subject” (2022), de Jennifer Tiexiera e Camilla Hall, teve sua pré-estreia nacional na sessão de abertura em São Paulo para convidados, ontem, na Cinemateca Brasileira. A abertura para convidados no Estação NET Botafogo exibirá hoje, em estreia mundial, “1968 – Um Ano na Vida” (2023), de Eduardo Escorel.
Os vencedores dos prêmios dos júris nas Competições Brasileiras e Internacionais de Longas/Médias e de Curtas-Metragens estarão automaticamente classificados para apreciação à disputa pelo Oscar do próximo ano. Neste ano, a cerimônia de premiação será às 18h do dia 22 de abril, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. As produções premiadas pelos júris oficiais terão reapresentações especiais tanto em São Paulo quanto no Rio no dia 23 de abril.
A 28ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários conta com patrocínio do Itaú e da Sabesp, parceria do Sesc-SP, apoio cultural do Galo da Manhã, SPCine e Itaú Cultural e apoio da Riofilme. Realização: Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e Ministério da Cultura do Governo Federal. “Ao lado da belíssima safra de filmes, o grande marco desta 28ª edição é o retorno pleno do festival às salas de cinema”, comentou o diretor-fundador do Festival, Amir Labaki.
O circuito de exibição em São Paulo será nas seguintes salas: Cine Marquise, Cinemateca Brasileira (Salas Grande Otelo e Oscarito), Sesc 24 de Maio, Instituto Moreira Salles (IMS) e Centro Cultural São Paulo. No Rio de Janeiro, as sessões ocorrem na sala do Estação NET Botafogo e na Estação NET Rio (duas salas).
O programa do É Tudo Verdade 2023 estrutura-se em Mostras Competitivas de Longas/Médias-Metragens Brasileiros e Internacionais e de Curtas-Metragens Brasileiros e Internacionais e nas mostras não-competitivas Programas Especiais, O Estado das Coisas, Foco Latino-Americano e Clássicos É Tudo Verdade.

Filmes e apresentações especiais

Esse ano o festival traz filmes premiados, todos exibidos pela primeira vez no Brasil, como “Little Richard: Eu sou tudo” (2023, exibido nos festivais de Sundance e Miami), “El caso Padilla” (2022, exibido nos festivais de San Sebastian e Miami), “Subject” (2022, exibido no festival de Tribeca), “A história natural da destruição” (2022, indicado ao Golden Eye em Cannes) e “Vire cada página: As aventuras de Robert Caro e Robert Gottlieb” (2022, exibido nos festivais de Palm Springs e Philadelphia).
O festival homenageia, em 2023, em ciclos especiais, o cinema de Humberto Mauro (1897-1983), com a exibição de 10 curtas-metragens feitos entre os anos de 1930 e 1950 e dois documentários sobre esse pioneiro da produção brasileira. Também será realizada uma homenagem a Jean-Luc Godard (1930-2022), com a apresentação dos oito episódios da série “História(s) do cinema” (1987-1998).
A Sessão Especial Sabesp apresenta a estreia no festival do documentário “Lixo fora de lugar” (Matter Out of Place), do cineasta austríaco Nikolaus Geyrhalter, vencedor do Pardo Verde no Festival de Locarno de 2022.
Na sessão “Clássicos É Tudo Verdade”, exibição de “O prisioneiro da grade de ferro” (2003) e de outros filmes que marcaram o festival.
De 17 a 23 de abril, o Sesc Digital vai exibir em streaming dois filmes da mostra Foco Latino-Americano: “Beleza silenciosa”, de Jasmin Mara López, e “Hot Club de Montevideo”, de Maximiliano Contenti. A programação streaming apresenta no Itaú Cultural Play, entre 24 e 30 de abril, sete dos curtas-metragens da competição brasileira.

Atividades paralelas

Entre as atividades paralelas, destaca-se a 20ª edição da Conferência Internacional do Documentário, em correalização com a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, nos dias 13 e 14 de abril; Masterclass com o cineasta Cristiano Burlan, que estreia entre as Projeções Especiais do festival seu novo documentário, “Antunes Filho, do coração para o olho”, no dia 16; e o Ciclo de Palestras "O arquivo no Documentário", a ser realizado nos dias 17 e 18 de abril no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc (CPF Sesc).

Mais informações no site oficial do festival, em http://etudoverdade.com.br/br/home/

terça-feira, 11 de abril de 2023

Cine Infantil


Hotel Transilvânia


No exótico Hotel Transilvânia, Conde Drácula (voz de Adam Sandler) recebe diariamente monstros de todos os lugares. Lá humanos não entram. Mas tudo irá mudar quando um garoto vai para o resort para comemorar o aniversário de 118 anos da filha de Drácula, Mavis (voz de Selena Gomez), causando confusões do outro mundo.

Crianças, jovens e adultos curtiram à beça o resultado do primeiro filme “Hotel Transilvânia” (sites de críticas com participação popular indicaram isso), tanto que a produtora (Sony Pictures Animation) realizou mais três continuações. A bilheteria foi quatro vezes maior que o orçamento (U$ 85 milhões contra U$ 358 milhões), indicando que o bom marketing para a promoção do filme na época reverteu-se em público.
A animação em computação gráfica é repleta de gags e referências a filmes clássicos de terror com monstros famosos do cinema, como o Conde Drácula, protagonista aqui, a Múmia, Frankenstein e Lobisomem, sem contar bruxas, caveiras e mortos-vivos que desfilam com graça e um estranho charme.
Emprestaram suas vozes para a dublagem original nomes de peso, como Adam Sandler, Andy Samberg e Selena Gomez, somando-se a eles Kevin James, Fran Drescher, Steve Buscemi, David Spade e Jon Lovitz. A história é bacaninha, nada de especial, arrancando bons risos de quem assiste – os mais ligados ao mundo do cinema verão homenagens a “Nosferatu”, “A Família Addams” etc


Indicado ao Globo de Ouro de animação, o filme tem como diretor o russo radicado nos Estados Unidos Genndy Tartakovsky. Ele dirigiu os três primeiros, um pouco inferiores ao original e com mais maluquices (as continuações são “Hotel Transilvânia 2”, de 2015, e “Hotel Transilvânia 3: Férias monstruosas”, de 2018), e produziu a parte quatro, que depois de passar nos cinemas, entrou diretamente na Amazon Prime, “Hotel Transilvânia 4: Transformonstrão” (2022).

Hotel Transilvânia (Hotel Transylvania). EUA/Canadá, 2012, 91 minutos. Animação. Colorido. Dirigido por Genndy Tartakovsky. Distribuição: Sony Pictures

Cine Cult



Meu passado me condena


A polícia britânica prende um homem chamado Jack Barrett (Peter McEnery), acusado de furtar a empresa onde trabalha. Com ele são encontrados recortes de jornal que estampam a figura de um influente advogado da cidade, Melville Farr (Dirk Bogarde). Farr também passa a ser investigado por integrar uma rede de chantagistas que perseguem homossexuais.

Na época do lançamento, em 1961, esse filme independente britânico dividiu a opinião por tocar em um tema tabu, pois fala de uma rede (que realmente existiu) que perseguia gays nos anos de 1950 e 1960, cuja prática passou a ser considerada crime no país tempos depois. O filme veio no auge da Nouvelle Vague Britânica, conta com uma história complexa, cheia de detalhes e grandes atores em cena, com destaque para Dirk Bogarde, de “O criado” (1963) e “Morte em Veneza” (1971).
Desafiador, faz uma incisiva crítica social em tom de “filme de denúncia” – a tal rede de chantagistas enxergava os gays como delinquentes e criminosos, portanto poderiam puni-los com as próprias mãos (a “chantagem” aqui seriam ameaças, com grupos organizados que pichavam xingamentos e humilhações contra os homossexuais nas paredes das casas onde moravam, bem como em carros e enviando cartas secretas).
O filme rompeu barreiras, influenciando o comportamento e a mentalidade do público da época. Foi escrito por John McCormick, de “7 mulheres” (1965), e por uma roteirista visionária, que tocava em feridas abertas da sociedade, Janet Green, que antes fez um filme apontando o racismo, “Safira, a mulher sem alma” (1959).



Recebeu indicação ao Bafta de melhor ator (Dirk Bogarde) e roteiro, e ainda ao Leão de Ouro no Festival de Veneza.
O diretor, Basil Dearden, de “Na solidão da noite” (1945), drama de terror sobrenatural codirigido pelo brasileiro Alberto Cavalcanti, morreu prematuramente em 1971 aos 60 anos, vítima de acidente de carro em Londres. Ele é pai do diretor e roteirista James Dearden, de “Um beijo antes de morrer” (1991), e indicado ao Oscar de melhor roteiro por “Atração fatal” (1988).
O filme ganhou uma ótima versão em DVD pela Obras-primas do Cinema, com 1h30 de extras, que incluem entrevista com Dirk Bogarde e um documentário especial.

Meu passado me condena (Victim). Reino Unido, 1961, 100 minutos. Drama. Preto-e-branco. Dirigido por Basil Dearden. Distribuição: Obras-primas do Cinema

domingo, 9 de abril de 2023

Cine Especial - Páscoa


Hop – Rebelde sem Páscoa


E.B. Junior (voz de Russell Brand) é um coelho adolescente que vive na Ilha de Páscoa com a família. Ele se recusa a assumir os negócios do pai, uma megafábrica de ovos de Páscoa, pois tem o sonho de seguir a carreira musical. Após uma briga com o pai, Junior foge para Hollywood e é atropelado por Fred (James Marsden), que passa a cuidar dele. Quando descobre um terrível golpe orquestrado na Ilha de Páscoa pelos funcionários da fábrica de ovos de E.B., colocando a vida de todos os animais de lá em risco, Junior resolve retornar para a terra natal com o apoio de Fred.

Um filme-família descompromissado e bem divertido para assistir hoje, dia de Páscoa. Um dos criadores da série infantil “Bob Esponja”, Tim Hill dirigiu várias fitinhas corriqueiras para a criançada, ressuscitando clássicos com nova roupagem, como fez em “Muppets no espaço” (1999), “Garfield 2” (2006) e “Alvin e os esquilos” (2007). Em “Hop”, Hill dirige uma história da dupla Cinco Paul e Ken Daurio, roteiristas de “Meu malvado favorito” (2010), que reinventa o coelho da Páscoa com um perfil mais adolescente. Aqui o coelho E.B. Junior - voz de Russell Brand, de “O pior trabalho do mundo” (2010), nascido na Ilha de Páscoa (Rapa Nui), na Polinésia, não quer seguir os negócios do pai, E.B. (voz de Hugh Laurie, da série “House”). Ele é o verdadeiro coelho da Páscoa, que possui uma empresa de produção de ovos de chocolate e em breve irá se aposentar. Junior quer entrar no mundo do rock, gosta de bateria, e para conquistar o sonho, foge para Hollywood numa espécie de fenda mágica. Na cidade dos astros e estrelas, é atropelado por Fred, um rapaz desempregado (James Marsden, da franquia “X-Men: O filme”). Machucado, fica sob cuidado de Fred. Enquanto isso, na Ilha de Páscoa, o pintinho francês Carlos - voz de Hank Azaria, de “A gaiola das loucas” (1996), organiza um golpe para assumir a fábrica de chocolates de E.B, o que faz Junior retornar para salvar o lugar. A aventura então começa, com perseguições, sequestros e maluquices que uma fita desse naipe exige.



O filme mistura animação em computação gráfica com atores de verdade. Aparecem, além de James Marsden, Kaley Cuoco, Elizabeth Perkins, Gary Cole e David Hasselhoff (como ele mesmo), e tem vozes de Russell Brand, Hugh Laurie e até de Hugh Hefner, o fundador da Playboy, que faz uma piadinha infame com as coelhinhas da revista erótica.
Um passatempo para todos, fita rápida e engraçadinha, produzida pela Universal com a Illumination, estúdios que lançaram franquias de animações campeãs de bilheteria, como “Meu malvado favorito”, “Minions”, “A vida secreta dos bichos” e “Sing”, e hoje é forte concorrente da Disney.

Hop – Rebelde sem Páscoa (Hop). EUA/Japão, 2011, 94 minutos. Animação/Aventura. Colorido. Dirigido por Tim Hill. Distribuição: Universal Pictures

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Cine Clássico



A vida de Alexander Graham Bell

Trajetória do cientista britânico naturalizado americano Alexander Graham Bell (1847-1922), que deu os primeiros passos para a invenção do telefone.

Nascido de uma família de estudiosos do som e das palavras, de Edimburgo (avô e pai eram professores de linguagem e elocução, pioneiros com trabalhos com pessoas surdas), Alexander seguiu a carreira de professor nas mesmas áreas, e de música também, na Escócia e na Inglaterra. A mãe ficou surda, e isso o motivou nas pesquisas de surdez. Morou no Canadá, onde se debruçou, em 1870, no campo da transmissão de som por meios eletrônicos. Três anos depois foi para os EUA (com residência em Boston) continuar os estudos na área e fundou sua companhia de telefone, a Bell Telephone Company, obtendo mais de 10 patentes de aparatos de som e de telefonia que revolucionariam o mundo. Nessa época também era professor de crianças surdas.
Porém virou uma discussão quem inventou o telefone: parte da sociedade atribuía a ideia a Bell, outros ao italiano Antonio Meucci (Meucci fez um protótipo e o vendeu a Bell em 1870, e Bell expandiu o negócio). Na metade do filme há a passagem histórica que ficou conhecida como “Guerra das Patentes”, uma disputa judicial travada entre cientistas que de um jeito ou de outro tinham criado sistemas de transmissão de som (dentre eles Meucci e o americano Elisha Gray) e, portanto, reivindicavam a patente – a batalha perdurou por mais de um século, só encerrando em 2002, quando o Congresso, por meio de uma resolução, reconheceu Meucci como o verdadeiro inventor do telefone.
Há duas passagens reais e importantes no filme de 1939: quando Bell faz a primeira demonstração pública do telefone, que deu errado e por isso foi humilhado; e quando apresentou o telefone à rainha Vitória – ela foi a primeira a comprar os equipamentos para a corte e daí a notícia correu o mundo, consolidando o trabalho de Bell.



Assim como todos os cientistas da época, Bell não se fixou em apenas um projeto; estudou com afinco o telégrafo, a locução, a acústica e a fonologia, além de desenvolver inventos ligados à aeronáutica (infelizmente flertou com movimentos de eugenia no final do século XX).
Dirigido por Irving Cummings, realizador de 80 filmes, muitos deles mudos e da era de Ouro de Hollywood – destaque na sua filmografia o premiado faroeste musical “No velho Arizona” (1928) e vários infantis com Shirley Temple, como “A pequena órfã” (1935).
Saiu em DVD pela Classicline anos atrás, com o título modificado para “A história de Alexander Graham Bell”, e depois pela Versátil Home Video na coleção da Folha “Grandes biografias no cinema”.

A vida de Alexander Graham Bell (The story of Alexander Graham Bell). EUA, 1939, 98 minutos. Drama. Preto-e-branco. Dirigido por Irving Cummings. Distribuição: Classicline (DVD) e Versátil Home Video (DVD de 2016, na coleção da Folha “Grandes biografias no cinema”)

domingo, 2 de abril de 2023

Cine Cult

 

Comportamento suspeito

Steve (James Marsden) muda-se com a família para a idílica cidade de Cradle Bay. Ele vai estudar em uma escola de elite e lá conhece Gavin (Nick Stahl) e Rachel (Katie Holmes), dois jovens rebeldes, ficando amigo deles. Percebe que Gavin, um dia, muda bruscamente de comportamento, entrando em transe frequente e tornando-se robotizado. Quando Gavin passa a integrar um seleto grupo de jovens com os mesmos comportamentos, Steve e Rachel investigam o que há por trás daquelas atitudes suspeitas.

Produzido pela MGM, o filme de terror e ficção científica, uma coprodução Austrália, EUA e Canadá, totalmente rodada no Canadá, fez certa carreira no extinto VHS depois de fracassar nos cinemas - independente, custou barato, U$ 15 milhões, rendendo apenas U$ 17 milhões ao redor do mundo. Parece um episódio saído das histórias sobrenaturais da premiadíssima série “Arquivo X” – o diretor David Nutter dirigiu e produziu episódios do famoso seriado e de outro de estilo semelhante muito assistido no fim dos anos de 1990, “Millennium”. “Comportamento suspeito” foi o primeiro e único filme para cinema de Nutter, e foi escrito por Scott Rosenberg, roteirista de “Con Air: A rota da fuga” (1997). Rosenberg botou um tom sobrenatural, com visível pegada scifi vinda de fitas B dos anos 60 e 70, para criar esse filme teen que não investe em violência e aos poucos vai se tornando uma fita de investigação, mistério e fantasia. Ao trazer garotos e garotas tomados por uma estranha força sinistra, cujo comportamento é alterado, o filme toca em outro ponto, mesmo não sendo a tônica da obra: a discussão sobre tribos nas escolas, com grupos próprios e isolados que representavam a cara dos anos 1990: os nerds, os riquinhos, os skatistas, os rebeldes, aqueles que afrontam professores, outros que não se enquadram em nenhum estilo, as vítimas de bullying etc.



Não é um filme tão bem realizado, falta gás nas cenas de suspense, a conclusão é rápida e há momentos irregulares, porém tem uma história curiosa (adoro filmes sobrenaturais de scifi) que prende o público até o fim para saber do segredo que ronda o comportamento dos adolescentes.
Marcou a estreia de James Marsden (que depois viveria o Cyclope na franquia de cinema “X-Men”) e Katie Holmes, da série “Dawson’s creek” - depois se casaria com Tom Cruise. E no elenco também vemos Nick Stahl, coadjuvante de filmes premiados como “Além da linha vermelha” (1998) e “Entre quatro paredes” (2001), e os veteranos Steve Railsback, William Sadler e Bruce Greenwood.
A Classicline acaba de lançar o filme em DVD, com extras e card colecionável.

Comportamento suspeito (Disturbing behavior). EUA/Austrália/Canadá, 1998, 84 minutos. Terror/Ficção científica. Colorido. Dirigido por David Nutter. Distribuição: Classicline