quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

Honestino
 
Conhecido por tratar da questão indígena em seus dois trabalhos anteriores, “O cineasta da selva” (1997) e “Segredos do Putumayo” (2020), o diretor amazonense Aurélio Michiles se volta agora à Ditadura Militar no Brasil, trazendo para a tela a biografia do líder estudantil Honestino Guimarães, o Gui, um dos tantos desaparecidos políticos no cruel período dos Anos de Chumbo. Fundindo documentário e ficção, o longa reúne imagens inéditas de Gui, aluno da Universidade de Brasília – UnB e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) no final dos anos 60. Preso diversas ocasiões por criticar e enfrentar os militares, desapareceu em 1973, aos 26 anos. Nunca mais se ouviu falar no estudante. O filme vasculha vestígios da época, de arquivos de fotos da família e de pessoas que conviveram com ele; entrevista a filha e o neto de Gui, colegas de turma da faculdade e da luta contra a Ditadura. O filme vai exibindo pouco a pouco a personalidade forte e sempre carismática de Honestino e sua visão de um mundo mais justo. Cartas, poemas, fotos dele são abundantes no filme, bem como depoimentos de dezenas de pessoas próximas – Aurélio Michiles, o diretor, foi colega de luta dele, da chamada Geração de 68. As encenações de Gui são de Bruno Gagliasso, em poucas aparições, já que o tom do filme é mais documental. Uma obra densa, que reflete a luta de tantos por um país livre da repressão. Assisti ao filme numa sessão no Festival do Rio com a presença da equipe e familiares, e em seguido o longa foi para a Mostra Internacional de Cinema de SP. Agora estreia nos cinemas brasileiros, com distribuição da Pandora Filmes.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Insaciável
 
O cinema de terror australiano vem ganhando forma nos últimos anos, redesenhado do movimento Ozploitation dos anos 70 e 80 que ativou o gênero no país. “Insaciável” é um bom exemplo de como se fazer filmes assustadores com dimensão crítica. Eu o vi na première europeia na Berlinale desse ano, na sessão Berlinale Special Midnight, ainda com o título original, “Saccharine”, e gostei muito. E agora o filme acaba de estrear nos cinemas do Brasil, pela Diamond Films. É uma produção independente escrita e dirigida por Natalie Erika James, de outro bom filme cult de terror de anos atrás, “Relíquia macabra” (2020). É um terror psicológico com forte comentário à cultura fitness, com ecos de body horror. O inquietante longa acompanha Hana (Midori Francis, de “Bons meninos”), uma estudante de Medicina que descobre uma fórmula mágica para emagrecer: comprimidos manipulados em laboratório com cinzas de pessoas que foram cremadas (é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de comer doces e percebe que seu peso estagnou mesmo frequentando academia - e quando experimenta a pílula, vê o resultado em poucos dias. Hana não conta para ninguém sobre o remédio. Paralelamente a isto, nas aulas de anatomia, estuda a dissecação de um cadáver de aparência chocante, a de uma mulher com mais de 200 quilos, toda inchada. Hana sente algo estranho naquele corpo estirado na mesa e passa a ter alucinações. O pesadelo na vida da universitária atinge o ápice quando o fantasma da morta aparece para ela em reflexos nos talheres de cozinha, nos cantos da casa, perto da geladeira. O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher disposta a qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de corpo humano demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema que o longa procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que realmente provocam medo, numa boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem no elenco Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”, aqui no papel da melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido ator australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da protagonista). Filme de terror para o público que curte uma reinvenção no gênero.


Ágon
 
Fita cult escondida no streaming da Mubi, “Ágon” (2025) é uma obra simbólica e de estética subversiva que desmonta a aura heroica do esporte olímpico para revelar sua face mais dura e silenciosa. No longa, três atletas italianas (uma judoca, uma esgrimista e uma atiradora) estão em meio aos fictícios Jogos de Ludoj de 2024. Elas, em seus mundos particulares, enfrentam dilemas: uma luta contra uma lesão que ameaça a carreira, outra revive o trauma de um acidente que expõe os limites da ética esportiva, e a terceira mulher encara o julgamento público nas redes sociais. Os lances rápidos, os cortes secos, os raros diálogos, num estilo semi-documental, com câmera próxima e fotografia granulada, formam a estética reveladora desse filme de arte para público específico, que marca a estreia do cineasta Giulio Bertelli – ele escreveu o roteiro de forma colaborativa com outros cinco roteiristas. O título é uma referência ao termo grego agon que significa “conflito”, surgido há mais de 2300 anos na Grécia Antiga, que descrevia tanto os jogos olímpicos e competições artísticas quanto os debates formais no teatro ou na filosofia, representando o impulso humano para vencer e buscar a excelência. O termo espalhou-se para a Mitologia (nome de um daimon, um espírito ou divindade menor que personificava os desafios e as disputas solenes), e foi amplamente utilizado no teatro grego, para designar o momento de debate formal ou confronto verbal entre dois personagens, base sintética para termos que viriam a posteriori, como protagonista e antagonista. No filme o ágon é um embate tanto físico quanto duramente psicológico e social, que rompe com a estrutura das vidas das personagens para sempre. O filme também faz uma crítica ao espetáculo olímpico: por trás da busca pelas medalhas há corpos exaustos e identidades pressionadas pela mídia para se chegar ao pódium. Coprodução Itália, França e EUA, o filme recebeu dois prêmios especiais na Semana da Crítica do Festival de Veneza 2025.


Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

Honestino   Conhecido por tratar da questão indígena em seus dois trabalhos anteriores, “O cineasta da selva” (1997) e “Segredos do Putumayo...