sexta-feira, 30 de junho de 2023

Resenhas Especiais


Coleção ‘Malditos’ em DVD (distribuído pela Classicline)



A aldeia dos amaldiçoados

Em Midwich, uma cidade do interior da Inglaterra, os moradores desmaiam todos ao mesmo tempo. É algo súbito, causado por uma misteriosa radiação. Horas depois, acordam de um sono profundo, e a vida segue normalmente. Meses se passam, as mulheres da cidadezinha dão à luz, e um fato perturbador se evidencia: os bebês que nascem são idênticos, com cabelos brancos, platinados, e eles não têm expressão. Quando crescem, são dotados de uma inteligência absurda e não apresentam sentimentos, além de serem manipuladores. As crianças se reúnem num grupo fechado e se tornam violentas, capazes de controlar tudo com a mente, já que possuem poderes telepáticos.
Imperdível para os fãs do cinema de terror clássico, a coleção “Malditos” está disponível em DVD pela Classicline (em disco duplo, sem extras). No box há este primeiro filme, “A aldeia dos amaldiçoados” (1960), e a continuação, “A estirpe dos malditos” (1964) – ambos tratam de um grupo de crianças contaminadas por uma radiação, que desenvolvem inteligência fora do comum e poderes telepáticos.
Original, com cenas antológicas, o filme britânico causou estranheza no lançamento, por trazer crianças maldosas e assassinas (elas não matam ninguém com as próprias mãos, mas induzem as pessoas ao crime, já que as vítimas são controladas pela mente delas). Os olhos das crianças ficam cintilantes, e elas causam o terror no vilarejo onde vivem.
Foi baseado no livro “The Midwich cuckoos”, de John Wyndham, escritor britânico de ficção científica, e seu livro inspirou outras versões, como o filme de terror de John Carpenter “A cidade dos amaldiçoados” (1995) e a série britânica da Sky, “The Midwich cuckoos” (2022).



No elenco está o ator premiado com o Oscar George Sanders, de “A malvada” (1950), e Barbara Shelley, de “Uma sepultura para a eternidade” (1967 - falecida em 2021 de Covid, aos 89 anos).
É um terror clássico com pitadas de filmes de mistério e ficção científica e muito suspense, escrito e dirigido pelo alemão Wolf Rilla, de “Marilyn” (1953).
Quatro anos depois, a MGM produziu também a continuação, “A estirpe dos malditos” (1964), que segue a mesma linha, só que com mais ação e novos rumos para a história.

A aldeia dos amaldiçoados (Village of the damned). Reino Unido, 1960, 77 minutos. Terror/Ficção científica. Preto-e-branco. Dirigido por Wolf Rilla. Distribuição: Classicline


A estirpe dos malditos

Pesquisadores descobrem seis crianças de nacionalidades diferentes com semelhanças físicas e intelectuais. Elas são levadas a Londres para uma investigação científica, e lá descobrem que elas têm inteligência acima do normal e poderes telepáticos. Uma série de incidentes graves e crimes começam a ocorrer.

Sequência do clássico filme de terror “A aldeia dos amaldiçoados” (1960), com mais cenas de ação e mortes, porém seguindo o mesmo tom do original. É outro diretor (aqui Anton Leader, de séries de TV) e novo elenco, inteiramente britânico, como Ian Hendry, de “Carter, o vingador” (1971), Barbara Ferris, de “Inocente... mas não muito” (1969), e Alan Badel, de “O dia do chacal” (1973). A trama traz crianças de outros países (Índia, Nigéria, China e outros), o que dá a entender que a contaminação do filme anterior (que nunca foi justificada) se espalhou pelo mundo. E nesse capítulo elas serão confinadas numa igreja e passarão por testes militares – para se vingar, elas controlarão a mente das pessoas levando-as a cometer assassinatos e suicídios. A violência é mais acentuada, ainda que nada chocante, pois estamos falando de anos de 1960.



É sim uma boa continuação, mas nada de especialmente marcante, que procura investir no mesmo clima do anterior. Sai em DVD pela Classicline na coleção “Malditos” (em disco duplo, sem extras).

A estirpe dos malditos (Children of the damned). Reino Unido, 1964, 89 minutos. Terror/Ficção científica. Preto-e-branco. Dirigido por Anton Leader. Distribuição: Classicline

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Resenha Especial


Shazam!


Billy Batson (Asher Angel) é um garoto de 14 anos em plena vida escolar. Certo dia recebe de um mago o poder de se transformar no super-herói adulto Shazam (Zachary Levi). Ao gritar seu nome, ele se transforma e terá de enfrentar um perigoso vilão, o cientista maluco Thaddeus Silvana (Mark Strong).

“Shazam!” (2019) veio como uma tentativa (bem-sucedida, acho eu) de a DC Comics concorrer diretamente com um personagem que tem certas semelhanças, da Marvel, “Deadpool” (2016). Seja no estilo do super-herói gozador e abobalhado, seja na narrativa anárquica, cheia de piadas, algumas delas de humor negro e outras infames. “Deadpool” é um arraso, uma das grandes fitas de super-herói de ar contemporâneo, mas “Shazam!”, que recebeu muitas críticas negativas, é um bom competidor, graças ao ator principal, Zachary Levi, que vinha da premiada série de ação e comédia “Chuck” (2007-2012) e aqui alcançou a fama. Ele é debochado sem ser insistente, divertido (com certa contenção) e carismático. Vestiu bem o papel nessa fita de entretenimento que custou U$ 100 milhões e rendeu mais que o triplo nos cinemas, U$ 367 mi. Com “Shazam!”, a DC Comics recuperou o fôlego com outro tipo de aventura, injetando mais humor e menos ação que o habitual, principalmente nessa nova fase – antes de “Shazam!” a DC teve dois sucessivos sucessos na telona, “Mulher Maravilha” (2017) e “Aquaman” (2018).
Shazam, conhecido como Capitão Marvel, tem como alterego a criança Billy Batson – ela se transforma no herói ao gritar “Shazam!”. O personagem surgiu em 1939 na revista de quadrinhos Whiz Comics, da editora Fawcett Comics, e quase quatro décadas depois, em 1972, o personagem teve os direitos adquiridos pelo universo DC. Lá ganhou contornos diferenciados e novos vilões. Shazam tem superpoderes após ser atingido por um raio mágico, oriundos de personagens da mitologia, como Hércules (que lhe dá a força), Atlas (a resistência), Zeus (magia e domínio de tudo), Aquiles (coragem) e Mercúrio (velocidade e voo). No filme ele se lança a um duro embate com o principal vilão das HQs, Dr. Silvana (bem caracterizado por Mark Strong, ator britânico de “A hora mais escura” e “Kingsman: Serviço secreto”), um cientista maluco, que no lugar de um dos olhos existe um globo de energia azul, que lhe permite reconhecer as forças mágicas ao redor. Ligado ao ocultismo, quer a todo custo acabar com Shazam e sua turma.




Com boas cenas de ação, o filme resulta em um entretenimento jovial, maneiro, com efeitos visuais originais. Disponível em DVD, bluray e plataformas digitais.
PS: Nesse ano a mesma equipe lançou a parte 2, “Shazam! Fúria dos deuses” (2023), inferior ao anterior, que foca na pura ação e traz heróis e monstros da mitologia para a tela - ambos os filmes são dirigidos por David F. Sandberg, que fez duas assustadoras fitas de terror que gosto bastante, “Quando as luzes se apagam” (2016) e “Annabelle 2: A criação do mal” (2017). Também retornam na parte dois Zachary Levi, Asher Angel (o Billy Batson), Djimon Hounsou (como o mago), Adam Brody, a menininha Faithe Herman e outros.

Shazam! (Idem). EUA/Canadá, 2019, 132 minutos. Ação/Comédia. Colorido. Dirigido por David F. Sandberg. Distribuição: Warner Bros.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Resenha Especial


Resenha escrita especialmente para o livro "Cinema Policial - Filmes essenciais do gênero", lançado pela Versátil Home Video em junho de 2023. Livro disponível para venda no site da Versátil, pelo link https://www.versatilhv.com.br/.../livro-cinema.../5457699


Um assalto (quase) perfeito: uma análise de
O homem que burlou a máfia

Por Felipe Brida

O plano de Charley Varrick (Walter Matthau) e seus comparsas parecia estar no rumo certo. Assaltar o único banco de Três Cruces, uma cidadezinha pacata, no meio do nada, no estado do Novo México. Para não ser identificado, o grupo utiliza disfarces: Varrick com bigode postiço, óculos, uma pinta na bochecha e peruca, enquanto os colegas escondem o rosto debaixo de máscaras. Há um entrave com clientes do banco e com funcionários, terminando em um tiroteio com gente ferida. A polícia é avisada, no entanto o bando consegue capturar a dinheirama e fugir de carro em alta velocidade. Eles se assustam com a quantia: U$ 765 mil em notas verdinhas, perfeitas. Varrick, expert em assalto, sente algo estranho, e a pergunta não cala: por que tanto dinheiro assim num banco tão pequeno? O que eles não desconfiavam era de que a grana era “marcada”, e os donos nada mais nada menos que mafiosos. Em questão de minutos, eles se transformam no alvo da vez - e alvo duplo ainda por cima: são perseguidos pela polícia e pelos engravatados da máfia!
Varrick, apelidado de “O último dos Independentes” (que seria o nome original do filme, The last of Independents, depois alterado para o singular Charley Varrick), representa a audácia dos “criminosos perfeitos”, que farejam o alvo e esboçam com facilidade planos mirabolantes para obter o que almejam. Ele é um mestre do disfarce, lidera com mão firme um pequeno grupo de bandidos, atira sem pestanejar caso haja interferências na execução do crime e sabe muito bem se esconder. Ele não segue as leis. Faz sua própria lei, um típico personagem outlaw do subúrbio, que mata policiais e inocentes para salvar sua pele. Varrick, o ardiloso protagonista desse filmaço neo-noir de Don Siegel, segue os traços do antiherói, dentro de uma trama que reúne gente pior que ele, como mafiosos que lavam dinheiro, matadores de aluguel, banqueiros inescrupulosos e agentes da polícia corruptos. Varrick é um homem de meia-idade e solitário, que não tem mais nada a perder. Abandonou faz tempo o conformismo. Por ser o “último dos Independentes”, é páreo nesse jogo de gato e rato envolvendo dinheiro alto.



A eletrizante obra de Don Siegel, lançada em 1973 e que premiou Walter Matthau com o Bafta de melhor ator, não faz concessões. É uma fita policial dura, com cenas violentas de confrontos, pouco humor e por ele desfilam indivíduos truculentos, mesquinhos e perigosos, um retrato de quem povoava a sociedade da época (essas figuras permanecem por aí, hoje!). Do astuto assaltante Varrick ao presidente do banco envolvido diretamente com a máfia Maynard Boyle (John Vernon) passando pelo matador contratado para acabar com a gangue de Varrick, Molly (Joe Don Baker), todos tem na alma graus de vilania e não abrem mão de seus ideais. São sujeitos do submundo do crime, dispostos a vencer a qualquer preço. Por isso nunca se rendem.
A direção potente de Don Siegel não deixa passar uma vírgula, elevando essa obra cinematográfica a um patamar único do cinema policial setentista. Os atores estão bem guiados, entregam performances espetaculares, com especial atenção para Matthau, Vernon, Baker (num papel assustador) e de dois outros em participações menores, Andrew Robinson (integrante da trupe de bandidos de Varrick) e uma das poucas mulheres em cena, Felicia Farr (affair de Varrick). Seguem a cartilha explosiva de Siegel perseguições em alta voltagem, com carros trombando, tiros pra lá e pra cá, e um desfecho grandioso no ferro-velho, com o protagonista num avião de pequeno porte numa caçada infernal.
A parceria de Siegel com a dupla de roteiristas Howard Rodman e Dean Riesner brotou anos antes - com Rodman, Siegel fez “Os impiedosos” (1968), e no mesmo ano, 1968, juntou Rodman e Riesner em “Meu nome é Coogan” - o filme marcaria um extenso trabalho de Siegel com Clint Eastwood, que ascendia no cinema americano. A história de “O homem que burlou a máfia” foi adaptada do romance “The looters”, de John Reese, publicado em 1968, recebendo contornos especiais do diretor.



Do noir ao policial moderno: uma breve história de Don Siegel

Nascido em Chicago, Illinois, em 1912, Don Siegel marcou o cinema americano com seus filmes policiais. Por quase quarenta anos (o diretor realizou longas de 1946 a 1982, e faleceu em 1991, aos 78 anos), atravessou contextos diversos da cultura cinematográfica dos Estados Unidos: fez poucos, mas bons filmes
noir, experimentou comédia romântica e aventuras épicas, inovou o faroeste e deu uma repaginada no policial dos anos de 1960 e 1970, sendo inspiração de diretores como Sam Peckinpah e Clint Eastwood. O diretor foi casado três vezes, em uma delas com a atriz Doe Avedon e depois com outra atriz famosa, Viveca Lindfors. Teve cinco filhos.
Morou na Inglaterra, onde estudou na Universidade de Cambridge, e, de volta aos Estados Unidos, aos 20 anos, deu os primeiros passos no cinema, no início da década de 1930, com a ajuda do tio, o montador/editor Jack Sharper, que também produzia filmes da Warner Bros. Primeiramente foi assistente de direção e montador de filmes - editou, por exemplo, “O intrépido general Custer” (1941) e “A estranha passageira” (1942). Três anos depois, dirigiu dois curtas-metragens ganhadores do Oscar de melhor curta documentário – “Hitler lives” (1945) e “Star in the night” (1945).


Estreou como diretor de longa-metragem com o noir “Justiça tardia” (1946, com Sydney Greenstreet e Peter orre), depois faria mais dois no mesmo subgênero, “Cais da maldição” (1949, com Robert Mitchum e Jane Greer) e “Medo que condena” (1953, com Teresa Wright). Nessa primeira fase, passou por faroeste, como “Onde impera a traição” (1952, com Audie Murphy) e comédia romântica, no caso “Adorável tentação” (1952, com Viveca Lindfors - atriz com quem estava casado). A notoriedade do diretor explodiu com um dos filmes mais icônicos de terror dos anos 1950, que misturava scifi, o B-movie “Vampiros de almas” (1956, com Kevin McCarthy), que ganharia remake e continuações no futuro. Ainda no memo período, introduziu o policial no cinema B, em fitas a perder de vista – “Rua do crime” (1956, com John Cassavetes e Sal Mineo), “Assassino público número 1” (1957, com Mickey Rooney e Carolyn Jones), “O sádico selvagem” (1958, com Eli Wallach), “Contrabando de armas” (1958, com Audie Murphy) e “Covil da morte” (1959, com Cornel Wilde).
Dirigiu Elvis Presley e Barbara Eden no faroeste romântico “Estrela de fogo” (1960) e Steve McQueen no drama de guerra “O inferno é para os heróis” (1962). A guinada da carreira de Siegel foi reinventar o cinema policial com o frescor de ideias que a Nova Hollywood propunha a partir dos anos de 1960. “Os assassinos” (1963, com Lee Marvin e Angie Dickinson) e “Os impiedosos” (1968, com Richard Widmark e Henry Fonda”) vieram nessa onda de novos filmes de investigação e assassinato, impactantes e controversos. Dirigiu Clint Eastwood no policial “Meu nome é Coogan” (1968), firmando parceria com o ator que se projetava nos Estados Unidos após a “Trilogia do Dólar”, os westerns italianos de Sergio Leone que ganharam o mundo. Com Eastwood fez trabalhos memoráveis, como o faroeste com muito humor “Os abutres têm fome (1970), ao lado de Shirley MacLaine, o drama de época com pitadas de suspense “O estranho que nós amamos” (1971) e o fumegante filme de ação “Perseguidor implacável” (1971), em que Clint formalizaria a franquia de Dirty Harry (com quatro filmes em sequência, dirigidos por outras pessoas). Quase no fim da carreira, Siegel traria de volta Estwood num dos filmes mais emblemáticos e lembrados do ator, exibido milhares de vezes na TV aberta, “Alcatraz: Fuga impossível” (1979), uma fita de ação baseada em fatos verídicos.
Grande parte dos filmes de ação de Don Siegel inserem-se no chamado neo-noir, ou noir moderno, com tramas de assalto e crime lotadas de personagens ardilosos e enganadores, reservando um destino trágico a eles, sem contar plot twist criativos e violência gráfica e estilizada (para a época). “O homem que burlou a máfia” (1973) encontra-se nessa fase final do diretor, e é apontado por críticos e pelo público como um dos melhores feitos de Siegel. O diretor faria apenas seis filmes depois: “O moinho negro” (1974, policial com Michael Caine), “O último pistoleiro” (1976, faroeste que seria o último trabalho de John Wayne), “O telefone” (1977, thriller com Charles Bronson, e confesso ser um de meus filmes de policial com suspense preferidos) e duas fitinhas esquecidas, “Ladrão por excelência” (1980, policial com comédia com Burt Reynolds e Lesley-Anne Down) e “Jogando com a vida” (1982, uma amalucada comédia com crime com Bette Midler e Rip Torn).
Siegel desenvolveu ainda trabalhos para a TV: nos anos de 1960 dirigiu episódios para várias séries, como “Além da imaginação” e “Convoy”, e fez telefilmes como o suspense/faroeste “A caçada” (1967, com Henry Fonda e Anne Baxter). Foi ainda roteirista (de séries e curtas do início da carreira), produtor (onde assinou alguns filmes como Donald Siegel, dentre eles “Os assassinos”, “Meu nome é Coogan” e “O estranho que nós amamos”) e até, vejam só, aparecia como figurante em seus filmes (em “O homem que burlou a máfia”, por exemplo, faz um jogador de tênis de mesa, numa participação de segundos).




quarta-feira, 21 de junho de 2023

Cine Cult


Por uma mulher

Pouco tempo depois da morte da mãe, Anne (Sylvie Testud) encontra uma antiga foto no baú da família. Ela resolve investigar o passado dela e se depara com a história de um tio, dado como morto, que foi acolhido pelos seus pais durante a guerra e até foi apontado como espião. Essa e outras histórias difíceis sobre os pais e o tio virão à tona.

Nas décadas de 1970 e 1980, a cineasta francesa Diane Kurys foi bastante prestigiada na Europa, com seus filmes autobiográficos, de estética diferente, coloridos e contagiantes. O seu maior sucesso foi “Refrigerante de menta” (1977, também conhecido pelo título original, “Diabolo menthe”), sobre duas irmãs adolescentes vivendo aventuras na escola durante os movimentos estudantis e políticos de maio de 68. “Por uma mulher” (2013) é uma obra mais visceral e madura da diretora, na época com 65 anos, outro filme autobiográfico em que traz fatos marcantes relacionados à família. Diane conta aqui histórias dos pais, com foco na figura paterna, um judeu que fugiu do campo de concentração e trabalhou como alfaiate – papel de Benoît Magimel, um ator que tenho especial apreço, de filmes como “Os ladrões” (1996) e “A professora de piano” (2001). Envolveu-se nos grupos de esquerda, tornou-se comunista, casou-se e teve filhos, que foram cuidados pela bela esposa – interpretação muito bonita de Mélanie Thierry, de “O teorema zero” (2013) e “O reino da beleza” (2014). Esta, tinha o sonho de trabalhar fora de casa, mas foi proibida pelo marido conservador. A vida do casal e das crianças acaba virando do avesso quando aparece na porta de casa o irmão do marido, dado como morto na guerra – quem o interpreta é Nicolas Duvauchelle, de “Polissia” (2011) e “A filha do pai” (2011). Ele é adotado pela família, passa a morar com eles e está envolvido numa missão secreta (é uma espécie de espião), sem contar que acaba tendo um relacionamento proibido com a cunhada. Com seus momentos-chave e pontos altos, o filme tem um lado terno e ao mesmo tempo melancólico e dramático, como um dramalhão típico de novelas antigas.
Outra questão: o filme é narrado em dois momentos de tempo, o atual, nos anos de 1990, de uma mulher no auge dos seus 40 anos (papel de Sylvie Testud, de “Piaf, um hino ao amor”, de 2007), que investiga o passado da mãe por meio de uma foto (seria ela Diane Kurys, aparentemente), e o passado, de 50 anos antes, período do pós-guerra (tratado acima), com as idas e vindas do casal e o rebuliço na família com a chegada do irmão do marido. A junção de épocas dá muito certo devido à fotografia luminosa, ao trabalho pontual do elenco e à maquiagem dos atores envelhecendo.



É um drama feminino, com ar de crônica e memória, com lindas passagens na real região de Lyon, feito por uma diretora mestre em dirigir filmes familiares emotivos. Gostei e indico a todos.

Por uma mulher (Pour une femme). França, 2013, 110 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Diane Kurys. Distribuição: Imovision 

Nota do blogueiro


Cine Debate exibe, neste sábado, filme francês premiado em Cannes

O Cine Debate desse mês exibe gratuitamente o filme francês "Retrato de uma jovem em chamas" (2019), drama de Céline Sciamma indicado ao Bafta e ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e ganhador do prêmio de melhor roteiro e do Queer Palm no Festival de Cannes. Sessão e debate serão no dia 24/06  (sábado), às 9h30, no Senac Catanduva, abertos ao público. A mediação do debate será conduzida pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, professor do Imes e do Senac e crítico de cinema Felipe Brida.

Sinopse: Na França do século XVIII, a jovem pintora Marianne (Noémie Merlant) recebe a tarefa de pintar um retrato de Héloïse (Adèle Haenel) para seu casamento, sem que ela saiba. Passa seus dias observando Héloïse e às noites, a pinta, até que Marianne se vê cada vez mais próxima de sua modelo conforme os últimos dias de liberdade dela antes do iminente casamento.




Cine Debate

O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria o Sesc e o Senac Catanduva. Completou 11 anos em 2023 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Cine Cult


Dois amigos


Um tímido ator, Clément (Vincent Macaigne), fica próximo de uma jovem de descendência iraniana chamada Mona (Golshifteh Farahani), que trabalha vendendo lanches. Pensando em conquistá-la, pede ajuda ao melhor amigo, Abel (Louis Garrel). Porém, Mona se interesse por Abel, e os dois amigos entram em atrito. Um segredo do passado de Mona poderá colocar em risco a amizade que tem com ambos.

Rodado nas ruas de Paris, “Dois amigos” (2015) é um autêntico filme independente francês de comédia dramática que ora cativa ora nos faz rir. O bom andamento do filme está, principalmente, no trabalho do trio central, que dá o seu melhor em cena: Golshifteh Farahani, atriz iraniana que começou a carreira em seu país, depois nos EUA fez diversas produções, como “Paterson” (2016), “Piratas do Caribe: A vingança de Salazar” (2017) e as duas partes de “Resgate” (2020 e 2023, da Netflix); o francês Vincent Macaigne, ator versátil, mas presença marcante em fitas de comédia, com trabalhos de destaque em “Agnus dei” (2016) e “Assim é a vida” (2017); e Louis Garrel, que trabalha com frequência com o pai, Philippe Garrel, veterano diretor francês que começou a carreira no fim da Nouvelle Vague, e que sempre realizou filmes pessoais (muitos dramas em preto-e-branco, sobre casais em crise) - Louis foi lançado por Philippe em “Beijos de emergência” (1989), depois atuou em uma dezena de filmes dele, como “Amantes constantes” (2005) e “O ciúme” (2013), e fez um papel notável que o tornou mundialmente famoso, em “Os sonhadores” (2003), de Bernardo Bertolucci.
E “Dois amigos” marca a estreia na direção de Louis Garrel. Ele teve formação em casa, apresenta muito a mão do pai, e esse filme lembra os filmes de Philippe dos anos 2005 para cá, um drama sobre amigos em crise após uma disputa de amores – a diferença é que Louis utiliza um humor leve para equilibrar a história.



Garrel havia dirigido apenas três curtas até então, em seguida fez “Um homem fiel” (2018), “Um pequeno grande plano” (2021) e “L'innocent” (2022), todos com ele no elenco e escritos também por ele. “Dois amigos” teve o roteiro assinado por Louis junto de Christophe Honoré, outro importante diretor francês com quem já havia trabalhado em “Minha mãe” (2004), “Canções de amor” (2007), “A bela Junie” (2008) e outros.
Gosto especialmente do desenrolar da trama (há um passado a ser investigado da personagem feminina, aos poucos descortinado ao público), da fotografia escurecida e do elenco, enxuto, que dá um show.
Recebeu indicação aos prêmios Golden Camera e Queer Palm no Festival de Cannes. Disponível em DVD pela Imovision, pode também ser assistido na plataforma online da distribuidora, o Reserva Imovision.

Dois amigos (Les deux amis). França, 2015, 100 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Louis Garrel. Distribuição: Imovision

sábado, 17 de junho de 2023

Cine Cult


Phoenix


Sobrevivente do Holocausto, Nelly (Nina Hoss) ficou desfigurada. Ela passa por uma cirurgia de reconstrução facial e volta à Berlim no final da Segunda Guerra Mundial, na tentativa de encontrar o marido. Nelly o encontra, porém ele não a reconhece. Durante uma longa conversa, o marido oferece a ela integrar um plano maquiavélico.

O alemão Christian Petzold é um dos diretores europeus que cria um dos cinemas mais diferentes da atualidade, trazendo uma nova estética para histórias velhas e que em tese poderiam ser recheadas de clichês. Seus filmes, cultuados, têm profundidade e recorrem a boas metáforas. Tratou da desintegração da família (no caso uma família de terroristas) em “A segurança interna” (2000), da violência de gênero em “Yella” (2007), sobre uma mulher abusada pelo marido, e em “Phoenix” (2014), um de seus grandes trabalhos, discute identidade e moral, durante o Holocausto, só que por outro prisma, de uma mulher desfigurada em busca de respostas e procurando o marido. Mas nada é óbvio, e a cada momento há novidades na trama dessa pequena obra-prima. Curioso que anos mais tarde Petzold fez uma espécie de versão masculina do filme, intitulado “Em trânsito” (2018), sobre um cidadão que foge da invasão nazista da França e assume a identidade de um homem morto (o diretor, também roteirista, insere tons de ficção científica e romance numa trama com reviravoltas intensas).
Em “Phoenix”, uma cantora de renome, de descendência judia, sai do campo de concentração toda enfaixada. Ela teve o rosto desfigurado. Uma amiga a leva para um médico cirurgião e, por ter um dinheiro guardado, paga para a reconstrução facial. Ela quer voltar a ser quem era, uma mulher elegante, bonita e bem colocada no mercado (papel da sensata atriz alemã Nina Hoss, que atua com frequência nos filmes de Petzold; fizeram juntos “Yella”, “Jericó”, “Barbara” e outros). Hesita em volta para a Palestina, onde seria enviada, para localizar o marido, que sumiu. Indícios apontam que esteja trabalhando como garçom num bar em Berlim. Quando vai até o local e o encontra, ambos conversam, e parte dele uma trama diabólica, envolvendo enganação e uma herança (deixo de contar para não estragar a surpresa).



O título tem a ver com o nome do bar, que é uma das ambientações centrais, mas claro, funciona como o mito do renascimento (Fênix) para a protagonista, “recriada” após a cirurgia facial. Assista e preste atenção nos detalhes!
Recebeu prêmios em mais de trinta festivais, como San Sebastian, Toronto Film Critics e Indiewire. Em DVD pela Imovision e disponível no Reserva Imovision, streaming da distribuidora Imovision.

Phoenix (Idem). Alemanha/Polônia, 2014, 98 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Christian Petzold. Distribuição: Imovision

 

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Cine Especial


O fio de Ariane

Mulher solitária e de meia-idade, Ariane (Ariane Ascaride) prepara um bolo para comemorar seu aniversário. Mas os poucos amigos que convidou não comparecem. Desapontada, Ariane então pega seu carro e sai para explorar a cidade onde mora, Marselha.

O diretor francês Robert Guédiguian, natural de Marselha, costuma filmar seus trabalhos em sua terra natal, aproveitando as inúmeras e belas locações da cidade, como praias, canais de água, castelos, lagoas e a arquitetura rústica. Veterano, dirigiu essencialmente dramas familiares, como “Armênia” (2005), “As neves do Kilimandjaro” (2011) e “Uma casa à beira-mar” (2017), e em muitos de seus filmes (ele também é roteirista e produtor) escala a esposa, a atriz Ariane Ascaride, com quem é casado desde 1975. “O fio de Ariane” (2014) é um deles, mas aqui uma comedinha leve, quase um romance água com açúcar, longe dos tradicionais filmes sobre crise e reencontros entre familiares distantes. Tudo começa com uma mulher solitária que se decepciona quando nenhum dos convidados aparece em sua casa para seu aniversário. Troca a festinha por uma viagem de carro, sozinha, sem destino, para explorar Marselha, e a cada parada encontra-se com pessoas diferentes adotando um novo estilo de vida. Será uma jornada para revisão de sua vida, assim como de lembranças e perspectivas futuras. Daí o significado do título do filme, “O fio de Ariane”, uma metáfora sobre revelações interiores, relacionada ao “fio de Ariadne” da mitologia, da princesa Ariadne, filha do rei de Creta, Minos, que entrega um novelo de linha mágico ao seu amor, Teseu, para que ele não se perca no labirinto do Minotauro. A ideia do fio é o do despertar da consciência, para o enfrentamento das dificuldades.


Há momentos deliciosos no filme, como um amigo cágado que conversa com Ariane, sem contar as lindas locações por Marselha. E Ariane é uma atriz boa e carismática – ela pode ser vista em outros filmes do marido, “Marius e Jeannette” (1997), “A cidade está tranquila” (2000) e “O mundo de Gloria” (2019). Em DVD pela Imovision e disponível no Reserva Imovision, streaming da distribuidora Imovision.

O fio de Ariane (Au fil d'Ariane). França, 2014, 92 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Robert Guédiguian. Distribuição: Imovision

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Cine Cult


Eu, Anna

Detetive Bernie Reid (Gabriel Byrne) atende a uma chamada durante o plantão e segue até um apartamento, onde encontra um homem morto. Suspeita de que quem matou o indivíduo foi uma mulher que conhecera numa festa, Anna Welles (Charlotte Rampling). Ao se aproximar dela para interrogá-la, interessa-se pela mulher, e ambos iniciam um curto relacionamento. As investigações levam a crer que Anna matou aquele homem no apartamento, porém Bernie tenta não acreditar nas pistas que chegam a ele, já que está envolvido com a mulher.

Filme de suspense com reviravoltas que marcou a estreia na direção do britânico Barnaby Southcombe, filho da atriz principal aqui, a veterana e premiada Charlotte Rampling, um dos nomes mais importantes do cinema europeu, ainda em plena atividade. Até então Southcombe havia dirigido episódios de séries na Inglaterra, depois escreveu o roteiro desse filme, baseado no livro de Elsa Lewin. Há toda uma trama engenhosa, com presente e passado se misturando, onde um crime precisa ser resolvido. Um homem é encontrado morto num apartamento, o assassinato é investigado por um detetive veterano (participação discreta de Gabriel Byrne, de “Os suspeitos” e “Fim dos dias”) e um colega da polícia, o bom Eddie Marsan (de “Uma vida comum” e “Atômica”), até que surge uma mulher solitária que vive perambulando por aí, que desperta a atenção do detetive principal (Rampling, indicada ao Oscar por “45 anos”, atriz de filmes como “O porteiro da noite” e “Melancolia”, e aqui muito bem fotografada, sempre em planos fechados, com closes e primeiro plano que realçam sua beleza - na época estava com 66 anos). Os dois se apaixonam, o detetive vive cercado de incertezas, e o romance pode atrapalhar as investigações, já que ela é suspeita pelo crime. Enquanto o filme transcorre, imagens embaçadas do assassinato pairam na cabeça da personagem, em que ela parece dopada no apartamento do homem que foi morto. O que ocorreu naquele dia? Aos poucos as peças se encaixam.



É um thriller com certo estilo, boa fotografia com muitos lances de claridade (do diretor de fotografia Ben Smithard, de “Sete dias com Marilyn”) e embalado por uma trilha sonora com blues. Poderia ter mais momentos de suspense e um final mais “tchan”, exigido pela trama, mas nada que comprometa as qualidades dessa fita de arte. Há ainda participações rápidas das atrizes Honor Blackman (de “007 contra Goldfinger” e “Jasão e o velo de ouro”), Jodhi May (de “O último dos moicanos”) e Hayley Atwell (de “A duquesa” e “Capitão América: O primeiro vingador”). Veja! ). Em DVD pela Imovision e disponível no Reserva Imovision, streaming da distribuidora Imovision.

Eu, Anna (I, Anna). Reino Unido/França/Alemanha, 2012, 87 minutos. Suspense/Drama. Colorido. Dirigido por Barnaby Southcombe. Distribuição: Imovision

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Resenhas Especiais


Coleção ‘Demons’, de Lamberto Bava, em bluray pela OP: confira resenha especial com as partes 1 e 2 do cultuado filme de terror italiano!




Demons – Filhos das trevas

Grupo de pessoas é convidado para a sessão noturna de um filme misterioso num cinema de rua. Na entrada do cinema, há uma máscara de metal exposta, que faz parte do figurino dos personagens do filme que eles assistirão. Alguns tocam a máscara, outros a colocam no rosto. Mas ninguém sabia que ela estava contaminada - e quem esteve em contato com ela acaba se transformando em demônios zumbis devoradores de carne humana. Enquanto o filme é exibido na sala, os convidados se tornam, um a um, demônios, atacando a plateia num banho de sangue sem fim.

A distribuidora Obras-primas do Cinema atendeu a um antigo pedido dos fãs de terror e lançou recentemente a coleção “Demons” em bluray, numa edição caprichada com os dois primeiros filmes. A caixa traz todas as versões disponíveis no Brasil das duas sangrentas fitas italianas de terror de Lamberto Bava, “Demons - Filhos das trevas” (1985) e “Demons II - Eles voltaram” (1986). Acompanham no box um livreto de 32 páginas, dois pôsteres e quatro cards, embalados numa luva em alto relevo. E tem como extra nos discos duas horas de entrevistas, making of e especiais, sem contar as capas dupla-face. Os filmes vêm nas versões italiana e internacional em inglês (o que muda, além do áudio dublado em inglês, são os letreiros na abertura e no encerramento).
Com certeza “Demons – Filhos das trevas” é um dos filmes mais horripilantes do cinema, com cenas de puro terror e delírio, mortes macabras e um show de efeitos especiais à moda italiana (inspirados logicamente nos efeitos especiais em stop-motion dos americanos). As criaturas medonhas com dentes e olhos saltados são grotescas e dão medo nesse filme impactante e muito popular na Itália, conhecido pelas cores fortes e violência interminável. Lamberto Bava, o diretor, era neto do técnico em efeitos especiais e diretor de fotografia entre os anos 10 e 60 Eugenio Bava, e filho do maior nome do cinema de horror italiano, o diretor e também técnico em efeitos especiais e diretor de fotografia Mario Bava – de “A maldição do demônio” (1960), “As três máscaras do terror” (1963), “O planeta dos vampiros” (1965) e tantos mais. Adolescente, frequentava sets de filmagem do pai, foi assistente de direção de Mario, como em “Alerta vermelho da loucura” (1970) e “Lisa e o diabo” (1975), depois auxiliando-o nos roteiros. Isso fez todo sentido para sua formação – em 1977, assumiu parte da direção do último filme do pai, que estava doente e morreria três anos depois, “Schock” (Lamberto não tem créditos no filme). Iniciou oficialmente na direção em dois gialli, as fitas com psicopatas que inspirariam o slasher nos Estados Unidos, “Macabro” (1980) e “Uma lâmina no escuro” (1983). Fez em seguida assistência de direção de Dario Argento em “Tenebre” (1982) e lá ficou próximo do diretor, que escreveria, em sequência, os roteiros das duas partes de “Demons”. Bava trouxe para o primeiro filme a trilha sonora de Claudio Simonetti (do grupo Goblin), tornando o filme de terror até hoje lembrado e cultuado.





Aqui, Lamberto homenageia o pai com a máscara que provoca o caos demoníaco, uma referência direta a um dos maiores filmes de terror da Itália, feito por Mario, “A maldição do demônio”.
Ousado para a época, “Demons” nos provoca sensações de pavor e angústia. Continua original, com momentos divertidos e outros bem nojentos - sem falar que é metalinguístico (o cinema dentro do cinema). Aprecie nessa grande cópia em bluray pela OP.

Demons – Filhos das trevas (Dèmoni). Itália, 1985, 88 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Lamberto Bava. Distribuição: Obras-primas do Cinema


Demons II – Eles voltaram

Uma estranha contaminação provocada por uma máscara de metal se espalha pela cidade, transformando as pessoas em zumbis demoníacos. Moradores de um edifício se fecham em seus apartamentos para escaparem dos monstros, mas eles chegam até lá causando pavor numa noite infernal.

Com a repercussão estrondosa do filme anterior na Itália, o diretor Lamberto Bava (1944-) fez logo em sequência a continuação, “Demons II - Eles voltaram” (1986), com outra ambientação, porém mantendo a premissa básica: mortes brutais, monstros horripilantes, histeria, insanidade e momentos escatológicos. O segundo capítulo de “Demons” é tão bom quanto o primeiro, e sem sombra de dúvida um marco no cinema de terror italiano contemporâneo.
A contaminação das pessoas num cinema de rua com a máscara de metal do filme anterior continua, só que agora o caos se espalha por toda a cidade. Pessoas se transformam em zumbis demoníacos pelas ruas e saem em busca de carne humana. Um grupo de moradores de um prédio residencial de 10 andares se isola para fugir dos demônios. No entanto, as criaturas encontram seus alvos lá. O show de horrores continua, com mortes macabras, delírios, um visual intenso e muito frenesi. O banho de sangue é maior, assim como as escatologias que nunca terminam. Há sequências memoráveis, como o retorno à vida de dois demônios mumificados na rua, quando o sangue de uma vítima pinga em sua boca; a de um cachorro que se transforma num monstro asqueroso (efeitos com bonecos, robôs e resina que lembram os de “Um lobisomem americano em Londres”); o do sangue escorrendo pelos apartamentos, furando o chão e contaminando os moradores; a do demônio esverdeado que sai da TV; a de um demônio com nanismo que dele nasce um monstrengo; e o ataque dos zumbis a uma academia de ginástica. São só alguns para relembrar e assim atiçar a curiosidade de quem nunca viu!





O filme está numa cópia primorosa em bluray no box “Demons”, da Obras-primas do Cinema. Há a versão original de cinema, com a máxima metragem disponível, 92 minutos, vendida como “sem cortes” – isso porque na Alemanha e nos Estados Unidos o filme saiu com metragem reduzida devido ao alto grau de violência. Assistam!

Demons II – Eles voltaram (Dèmoni 2... l'incubo ritorna). Itália, 1986, 92 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Lamberto Bava. Distribuição: Obras-primas do Cinema