Meu verão
na Sicília
Exibido
na edição passada do Festival de Cinema Italiano no Brasil (2025), chega agora
aos cinemas, com distribuição da Pandora, um dos filmes de arte mais bonitos da
temporada, cuja história é singela e de grande beleza plástica. Um filme sobre
infância e suas descobertas. Um garotinho rebelde de 11 anos, Nico (Marco Fiore),
vai passar a temporada de verão com uma tia idosa e muito religiosa, Gela (Aurora
Quattrocchi), num casarão rústico no coração da Sicília. Conflitos geracionais e
choque de cultura entre a criança e a velha, num lugar desconhecido com pessoas
estranhas, transformarão aquele menino, que aos poucos cede e cria forte
vínculo com a senhora. É uma história de amadurecimento, de um menino que vivia
escondido no quarto com o celular na mão até florescer, chegando a participar
de rodas de conversa da tarde com as amigas idosas da tia (além de descobrir um
possível segredo da família que ficaram há anos guardados). Outro mundo se
abrirá para o protagonista infantil quando passa a se relacionar com gente da
mesma idade, crianças que moram nos sobrados vizinhos. O agradável filme traz paisagens
paradisíacas da Sicília, com suas praias reluzentes; design de produção
caprichado dos casarões rústicas de lá e o bom desempenho em cena da tia e do
garoto que criam vínculos também são elementos construídos cautelosamente para
que o longa seja fluido, emocionante. Trata bastante do conflito geracional,
uma criança Alfa, um nativo digital, em um lugar onde existe telefone discado, sem
conexão com internet, tendo o menino de encontrar meios para se comunicar e se
entreter (daí a relação com as crianças que ainda brincam de correr e jogos de
rua). Paira no ar nostalgia, do reencontro com um velho mundo que ficou para
trás. Vencedor de dois prêmios no Festival de Locarno de 2025, dentre eles o de
melhor atriz para a octogenária Aurora Quattrocchi (nascida e criada na região em
que se passa o filme, Palermo, Sicília), é o primeiro longa da roteirista e diretora
Margherita Spampinato, que estreia bem nessa obra delicada, para toda a
família.
Sacrifício
Segue
pela segunda semana nos principais cinemas brasileiros com distribuição da
Diamond Films o excêntrico filme de múltiplos gêneros “Sacrifício”, que adianto,
adorei demais - e estreará em breve na Netflix dos EUA e pode ser que venha
para o streaming Netflix Brasil. Em todo caso, se puder, veja na telona, pois o
impacto é sensorial. Esqueçam as notas baixas do filme no IMDB, Rotten Tomatoes
e Letterboxd (se alguém se instrui por esses sites-termômetro), o filme é um
barato, divertido, e ao mesmo tempo assustador pelas críticas sociais à grã-finagem
que dedica algumas horas por ano para as causas beneméritas. A começar do
diretor, Romain Gavras, filho do excepcional cineasta grego de thrillers
políticos e de contestação Costa-Gavras (de “Z” e “Estado de sítio”), um de
meus cineastas favoritos: ele aprendeu cinema com o pai (está longe de ser
igual), mas consegue adensar discussões sobre racismo e tomada das ruas para
manifestações políticas, como fez nos dois ótimos filmes anteriores, “Nosso dia
chegará” (2010) e “Athena” (2022 – esse da Netflix). Dessa vez reuniu um elenco
de peso, premiados com Emmy e indicados a Oscar: voltou a trabalhar com o bom Vincent
Cassel, trouxe junto Chris Evans, Anya Taylor-Joy, Sam Richardson, Salma Hayek
e John Malkovich, além de participações especiais do rapper Yung Lean e da
cantora agora atriz Charli XCX. O filme já começa colocando os personagens num
ambiente exótico: no meio de uma pedreira isolada na Grécia, um grupo de ricões
prepara um banquete dos deuses para um megaevento beneficente. É um espetáculo televisionado
com dançarinos, comidas pomposas, gente elegante, dentre eles Mike Tyler, um
ator galanteador (Chris Evans). Do lado de fora, um grupo de ambientalistas revolucionário,
liderado por Joan (Anya Taylor-Joy), com armas em punho, invade o lugar, rende as
pessoas e faz exigências. Eles acreditam que um vulcão a poucos quilômetros entrará
em erupção, e devido à magnitude, colocará fim não só a eles, mas como ao
planeta todo. O medo toma conta dos convidados, pessoas são agredidas (uma
mulher tem a mão decepada) até que outra dose de absurdo é injetada: parte dos
convidados terá de participar de um ritual de sacrifício para impedir a fúria
do vulcão. O filme é uma jornada caótica, envolvendo uma espécie de culto pagão
com terrorismo, que faz uma sátira inteligente da alta sociedade hipócrita, com
seus discursos vazios e excessos. Misturando ação com drama, comédia e
suspense, foi escrito por Gavras ao lado de outro bom roteirista que ficou
conhecido pelos fãs de séries, Will Arbery (da premiada “Succession”). A estética
do filme foi devidamente planejada, com cenários abertos e grandiosos,
fotografia estupenda, cenas em slow motion alternadas com imagens de muito movimento.
É cinema engajado, contestatório, de discussão afiada, com um tipo de humor que
poderá desagradar alguns/algumas. Chris Evans está num grande momento, solto
como uma pluma, muito engraçado (fazendo um papel também de crítica ao ego das
estrelas do cinema), e todo elenco de apoio manda bala com seus exageros
propositais. Curti o filme e entrei nele de cabeça.
Zona
Zero
Depois
do estrondoso filme de terror “Invasão zumbi” (2016), o diretor sul-coreano Yeon
Sang-ho volta com adrenalina máxima em mais uma fita do gênero, “Zona Zero”
(2026). Entre “Invasão” e “Zona”, ele fez filmes medianos e ruins, incluindo a péssima
continuação “Invasão zumbi 2: Península” (2020) – mas agora esqueçam esse hiato
e assistam ao novo trabalho dele, uma fita empolgante, assustadora, ao mesmo
tempo escatológica. Exibido na seção Midnight do Festival de Cannes e aqui no
Brasil no início do mês tanto no 4º Korean Film Festival (KOFF) quanto no
Festival do Rio, o longa tem traços de “O despertar dos mortos”, cult movie de zumbi
de George A. Romero dos anos 70, inclusive a ambientação. Em Seul, capital do
país, no térreo de um arranha-céu que abriga um laboratório de biotecnologia,
um grupo de pessoas sobrevive a uma estranha infestação que transforma humanos em
zumbis agressivos. A proliferação do vírus mutante saiu do laboratório durante
uma conferência de cientistas. Um grupo de pessoas não se contamina e se une,
abrigando-se nas lojas de um shopping que fica no térreo. Eles descobrem que os
zumbis, que soltam nas paredes uma gosma branca formando uma teia de aranha,
desenvolvem uma forma de inteligência coletiva para rastrear os passos dos
vivos e viram uma colônia (por isso o título em inglês é “Colony”). O grupo de
sobreviventes precisa rapidamente arquitetar planos para fugir, na medida em
que os mortos vão aprendendo a como controlar o espaço onde se proliferam. É da
linhagem de horror corporal com ação e muita adrenalina, com cenas nojentas de
meleca branca, vômitos, sangue e gritaria. Pulei de susto em várias cenas apreensivas,
nesse filme claustrofóbico inteiramente transcorrido no prédio (desde lojas ao
estacionamento). Segue nos cinemas pela Paris Filmes.
O
outro lado das redes
Logo
após o lançamento mundial em Londres, em setembro, o filme continuação de “A
rede social” (2010) teve première no Brasil durante a 50ª Mostra Internacional
de Cinema de SP – e agora acaba de estrear nas salas, com distribuição da Sony
Pictures. Dividiu o público e a crítica especializada (eu o assisti na sessão
de coletiva de imprensa da Mostra, em 03/10), não está bem de bilheteria, porém
nada disso impede meu comentário de colocá-lo na lista dos bons filmes de 2026.
Não é segredo de que não sou fã de “A rede social”, que tratava do surgimento do
Facebook pela mente de um jovem egóico, um intransigente estudante de Harvard
chamado Mark Zuckerberg, hoje um dos homens mais ricos do mundo (e que está por
trás da Meta e dos abusos infinitos que ela comete, inclusive influenciando negativamente
a política). E é justamente esse o tema desse segundo filme, para mim muito
melhor que o anterior (seja o elenco ou a trama espinhosa). A partir de fatos
reais, aborda
os bastidores de uma ampla investigação jornalística sobre o funcionamento
oculto do Facebook (no caso a manipulação dos algoritmos). O filme, com uma
mistura certeira de drama e humor, trata do vazamento do chamado “Facebook
Files”: a engenheira de dados do Facebook, cientista e gestora de produto
norte-americana Frances Haugen (interpretada por Mikey Madison), em 2021,
juntou provas para servir como denunciante (whistleblower) do Facebook; ela
entregou milhares de documentos internos confidenciais ao jornalista Jeff
Horwitz (Jeremy Allen White), repórter do The Wall Street Journal e à Comissão
de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) que depois provaram a existência de
uma máquina do caos por trás da rede (que se vendia como uma rede social saudável,
para troca de mensagens e contatos). A diretoria do Facebook sabia dos efeitos
nocivos de suas plataformas, como manipulação de dados, o impacto negativo na
saúde mental de adolescentes, o aumento da polarização política e a priorização
do lucro em detrimento da segurança. Haugen entrou numa seara perigosa contra parte
do sistema e afrontando autoridades poderosas. O filme acompanha a jornada solitária
dessa mulher que teve apoio de um jornalista para jogar luz ao caso, que chacoalhou
os EUA naquele ano em plena pandemia. Ela inclusive foi ao Senado e pressionou Zuckerberg
a rever as condições da empresa. É um filme de denúncia feito com seriedade,
com grandes interpretações - Mikey Madison, apesar de não se assemelhar em nada
com a verdadeira Frances, dá um show, enquanto Jeremy Strong se desafia num
papel frívolo de um Zuckerberg mais maduro (e ambos podem ser candidatos a
Oscar ano que vem). O longa já abre com uma cena chocante, do uso descontrolado
das redes (uma mulher rica, alcoolizada, desfere por longos minutos xingamentos
racistas a policiais, gravando tudo e postando nas redes). Um filme para compreender
o perigo que as redes provocam na sociedade, desde provocar o vício em telas e
espalhar fake News até influenciar abertamente eleições (como a de Trump e a dos
Bolsonaros). Por isso, exige-se imediata regulação delas.