Mostra
de Cinema de SP continua em sua segunda semana
A 50ª
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de
evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e
espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no
streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao
público:

Trilogia
“A Batalha do Chile”
(Cuba/Chile/França
– 1975 a 1979, de Patricio Guzmán)
Está na
seção Filmes Restaurados da 50ª Mostra a trilogia “A Batalha do Chile”, documentário
político monumental de Patricio Guzmán (o cineasta chileno viria para a Mostra,
mas faleceu há menos de um mês, aos 85 anos). Além da Trilogia, a Mostra exibe
outro documentário dele, “O primeiro ano” (1972), sobre o mesmo assunto (os
anos do governo Allende e a derrocada institucional com o brutal Golpe
Militar). Os filmes todos estão em excelente cópia restaurada, com distribuição
pela Mubi, que também acaba de inserir a Trilogia em seu catálogo, já
disponível no streaming. “A Batalha do Chile” é um registro histórico do final
do governo de Salvador Allende até o Golpe Militar e seus desdobramentos na
sociedade em 1973. É composta pelos capítulos “A Insurreição da Burguesia”
(1975), “O Golpe de Estado” (1976) e “O Poder Popular” (1979), três produções
feitas entre Cuba, Chile e França. São documentários em preto-e-branco reunindo
gravações de jornalistas e do próprio Guzmán, que lutou contra a ditadura
chilena por meio de seu cinema de contestação – ele chegou a ser preso após a
morte de Allende, em 1973, e depois partiu para o exílio, para a França e
depois Cuba, onde editou a trilogia. Os filmes estão com imagens recuperadas com
ampla nitidez, juntos são um cinema documental aterrador dos bastidores da
política turbulenta do Chile entre os anos de 1972 e 1975, focando na
polarização dos dois grupos rivais à época – a Unidade Popular (UP), de
esquerda, contra os grupos de centro, formado pelo Partido Democrata Cristão
(PDC), aliado à direita, o Partido Nacional (PN), e na queda do governo
democrático pelos militares, liderados por Augusto Pinochet. Na parte 1, “A
Insurreição da Burguesia” (1975), acompanhamos a forte oposição ao governo da
Unidade Popular (UP), incluindo greves patronais, boicotes econômicos, a
agitação da classe média e a articulação de setores conservadores com apoio
financeiro externo (como dos Estados Unidos); na parte 2, “O Golpe Militar”
(1976), o enfoque são os dias decisivos de setembro de 1973, registrando a
derrocada institucional, a movimentação das forças armadas e o bombardeio ao
palácio presidencial de La Moneda, que culminou com a morte de Allende, e a
consequente tomada do poder pelos militares. E por fim, na parte 3, “O Poder Popular”
(1979), como a sociedade civil reagiu aos anos da ditadura, como se organizou
para sobreviver em meio a reformas neoliberais profundas, forte repressão
política e a desigualdade (aqui vemos centenas de grupos de poder popular resistindo
e ajudando na distribuição de comida para os mais necessitados). Os filmes,
exibidos em festivais como Cannes e Nova York, serão exibidos em dias
diferentes e alguns em sequência, entre 22 e 28/10 (confira no site da Mostra
as datas, horários e locais). Vale conferir.

O
dia em que ela volta
(Coreia
do Sul – 2026, de Hong Sang-soo)
11º
filme do cineasta sul-coreano Hong Sang-soo exibido na Mostra Internacional de
Cinema de SP (desde 2011) e o nono que eu assisto aqui. Na edição deste ano tem
ainda outro dele na programação, também produzido em 2026, “Onde repousar meus
olhos” (vencedor dos prêmios de melhor direção, melhor atuação - para Kim
Min-hee, e do Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Locarno). “O dia em que
ela volta” é mais um olhar da vida cotidiana na Coreia, e mais um filme do que
está por trás do fazer cinema: são seis capítulos curtos em torno de um dia na
vida de uma atriz renomada (Song Seon-mi) que retorna à carreira após
afastamento (segundo ela, por motivos de maternidade e vício em bebida). Animada,
ela se senta em um bar alemão para dar entrevistas sobre sua carreira - os três
capítulos iniciais são da atriz em três entrevistas distintas. Ali ela trata do
passado e do presente, e fala muito sobre particularidades suas. Os capítulos
finais são do retorno dela para casa e do reencontro com a filha. Quem conhece Sang-soo
verá ali seu cinema por completo: enquadramento fixo por longo tempo, fotografia
em um lúcido preto-e-branco, longos planos com diálogos, poucos cortes e poucos
cenários/tomadas. Tem ali suas metalinguagens e seus desafios estéticos, numa
história leve, com bom humor. Exibido nos Festivais de Berlim e Moscou, o filme
integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias
23, 26 e 27/10.

Aqui
não é o seu lugar
(Romênia
– 2026, de Florin Serban)
O
cotidiano de um cirurgião viúvo, chefe do principal hospital de uma cidade romena,
é abalado quando o filho adolescente aparece com um machucado na perna e logo
em seguida a polícia o investiga por um crime bárbaro (o assassinato de um
homem com um objeto contundente na cabeça). A única coisa que o espectador vê, de
repente, é um corpo jogado após um ataque noturno de uma gangue de rapazes
mascarados que vandalizam carros na rua. Essa é a premissa de uma história de
ritmo vagaroso, que privilegia longas cenas de ambiente interno, paisagens
urbanas e olhares dos personagens (com seus silêncios que também comunicam). Florin
Serban, o diretor, produtor e roteirista, opta por ser um observador daquela
relação de pai e filho diante de uma tragédia que demora a ser explicada. Ele
utiliza cortes de cenas na mesa de cirurgia, da cidade em movimento, do jantar
entre pai e filho, da conversa do cirurgião no hospital etc. Não é uma obra
fácil (até pela duração, de 154 minutos), com aquelas figuras solitárias melancólicas,
de pouca comunicação. Eu gostei, pois entrei no clima da trama e nesse tipo de
cinema que a Mostra costuma trazer e treinar o olhar do público para narrativas
diferenciadas. Vencedor do Leopardo de Ouro e de outros três prêmios no
Festival de Locarno, o drama com momentos de suspense integra a Mostra
Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 20, 22 e 25/10.

Chicas
tristes
(México/França/Espanha
– 2026, de Fernanda Tovar)
Gostei
mais da composição e da técnica do filme do que a própria história (sobre
amadurecimento de adolescentes, tantas vezes já exploradas no cinema). Vencedor
do Urso de Cristal de melhor filme na seção Generation 14plus do Festival de
Berlim deste ano, “Chicas tristes” traz duas amigas de 16 anos, Paula e La
Maestra, que nutrem uma amizade inseparável. Elas praticam natação e são as
melhores da equipe, e se preparam para o campeonato panamericano. Paula, numa
noite entre amigos, fica com um rapaz e faz sexo com ele. No outro dia, La Maestra
percebe algo estranho ocorrendo com Paula, que se distancia dela. A suspeita é
de que a jovem tenha sido estuprada, o que muda radicalmente a relação entre as
duas e de Paula com a família. Um filme que começa mais leve e vai se adensando
com as complexidades daquela amizade profunda e do ocorrido com a personagem
Paula. A parte técnica da qual falei envolve cenas belíssimas com uso de plongée
e contra-plongée (como as imagens submersas na água na piscina ao som de “Anunciação”,
de Alceu Valença”, do eclipse, do reflexo do celular para se comunicar com os
aviões, tudo muito formidável e que dão uma rica moldura). Tem trilha sonora
caribenha, com salsa, samba brasileiro e rock alternativo, e um bom trabalho
das amigas, interpretadas por Rocio Guzman e Darana Alvarez. É o segundo filme
mexicano que está na Mostra com trilha sonora brasileira (o outro é “Homem ao
mar”, de GAL Garcia Bernal). Está na Competição Novos Diretores, com sessões
nos dias 20, 21, 24 e 26/10.

A
vida e as mortes de Wilson Shedd
(EUA –
2026, de Tim Blake Nelson)
Drama
prisional baseado em história verídica que teve première recentemente no
Festival de Toronto e agora chega com exclusividade à mostra de Cinema de SP. E
é um dos melhores filmes desta edição, que recomendo. Escrito e dirigido pelo
ator Tim Blake Nelson (em seu sexto filme na direção), que aparece numa ponta, o
filme tem um grande trabalho de Amanda Seyfried como Karen, uma professora que vai
trabalhar na reeducação de presos em uma penitenciaria de segurança máxima. Ela
vai ensiná-los escrita criativa e noções de literatura. Um deles é Wilson Shedd
(Scoot McNairy), preso por matar quatro pessoas, incluindo a cunhada; Karen o
ajuda a desenvolver textos onde ele pode relembrar pontos do passado, incluindo
os crimes, como forma de se livrar daquele tormento. A partir daí ela começa a
entrar no universo de Shedd, lendo o que ele escreve; Karen se afeiçoa àquela
figura errante, porém enigmática - no filme, a narração do ator conduz os
flashbacks de sua vida pregressa ligada a crimes violentos. A professora
enfrenta um dilema moral ao deixar sua rotina de lado para se entregar aos
cuidados daquele homem encarcerado, ao mesmo tempo que enfrenta um relacionamento
abusivo do namorado, com quem mora (ele bate nela com frequência e a trai com
mulheres dentro de casa). Tudo muda quando Shedd entra para a lista dos
próximos condenados no corredor da morte. Uma boa direção com ótimo trabalho do
elenco, incluindo Scoot McNairy no papel-título. A sequência final é difícil de
acompanhar e digerir, uma das cenas mais chocantes já vistas de pena de morte.
Está na Perspectiva Internacional da Mostra, com sessões nos dias 20, 22 e 25/10 – espero que o público assista a esse filme sério e duro, que traz questões sensíveis sobre violência doméstica, reeducação de presos e de pena de morte.Na
terra de Arto
(França/Armênia
– 2025, de Tamara Stepanyan)
Cineasta
nascida na Armênia, filho de atores, Tamara Stepanyan viveu como refugiada no Líbano
nos anos 90 após a queda da União Soviética. Em 2025 ela escreveu e dirigiu dois
filmes sobre seu país de origem, o documentário “Meus fantasmas armênios” (exibido
em Berlim, sobre o pai ator e a carreira dela como diretora) e “Na terra de
Arto”, uma ficção mas com pano de fundo real. O filme é autoral e se passa nos
anos 2020, nos conflitos de terra de Karabakn, na região montanhosa do Cáucaso,
que funcionou como um Estado autoproclamado independente e de maioria étnica
armênia (chamado de República de Artsakh), mas que após a ofensiva militar
ficou sob controle do Azerbaijão. Nessas terras chega Céline (Camille Cottin,
atriz francesa, de “Casa Gucci”), que está pela primeira vez ali. Ela tem uma
missão: acompanhar a documentação da morte de seu marido, Arto. Descobre que
ele viveu com outra identidade, envolvido com a guerra na região. A ida de
Céline para Karabakn será uma viagem de descobertas do falecido marido, que
mora em sua mente como um fantasma; ela irá descortinar seu passado, percorrendo
o território e relembrando seus passos. Drama emotivo e eficiente rodado nas
verdadeiras terras de Guiumri, conta com ótima fotografia e bom trabalho de Camille
Cottin, que sustenta o filme nas costas (veja uma participação rápida no final
do multifacetado ator Denis Lavant). Exibido nos Festivais de Locarno e
Jerusalem, é o representante oficial da Armenia para uma vaga ao Oscar 2027. O
filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição
nos dias 25, 27, 28 e 29/10. Distribuição da Autoral Filmes.