segunda-feira, 20 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 4


O estrangeiro
 
François Ozon, aclamado diretor francês que realiza até dois filmes por ano, fez uma belíssima e atualizada versão para o cinema do clássico livro “O estrangeiro”, de Albert Camus, publicado originalmente em 1942. Ultimamente Ozon roda seus filmes em PB e aqui repete a dose, recorrendo a uma fotografia de brilhar os olhos – situada na Argélia da década de 30, quando ainda colônia da França. Observador, Meursault (Benjamin Voisin, que trabalhou com o diretor em “Verão de 85”) é um rapaz fechado em seu mundo próprio, sem empatia pelos outros. Faz sexo com uma jovem e diz a ela que não sente atração nem desejo por ninguém. Num dia de sol, comete um assassinato na praia e vai para julgamento. Pensativo sobre a morte recente da mãe, ele se põe a questionar seus feitos, trancado numa cela enquanto aguarda seus dias finais – já que ele pode ser guilhotinado, caso seja culpado pelo crime. Tanto livro quanto a versão de Ozon trabalham temas comuns no universo de Camus, como alienação e indiferença ao mundo e aos outros. Filosófico, na linha do existencialismo, é uma obra madura do cineasta, que marca sua nova fase de criação. Voisin, o ator principal, compila a essência do personagem Meursault com seus olhares apáticos e constante desinteresse pelas pessoas que cruzam seu caminho. Exibido no Festival de Veneza de 2025, onde concorreu ao Leão de Ouro, o assisti no Festival do Rio e agora o filme está em cartaz no Brasil, com distribuição pela California Filmes.


 
Pacto de redenção
 
Lançado em 2023 no Festival de Toronto e no ano seguinte nos cinemas internacionais e brasileiros, o filme é a segunda investida do ator indicado ao Oscar Michael Keaton como diretor. Ele também atua nesse sólido drama de suspense, como o protagonista, um assassino de aluguel chamado John Knox, que recebe o diagnóstico de uma forma rara de demência. Seu médico informa que a doença acometerá rapidamente o cérebro, então Knox resolve se afastar do mundo do crime para se reconectar com o filho, Miles (James Marsden). Na reaproximação, ele dará uma mão para o rapaz se livrar de um brutal assassinato, só que as coisas sairão do controle. A trama envolve e traz novos elementos no decorrer do filme, desenrola-se em ritmo tenso, explorando tanto a fragilidade da memória do protagonista quanto os dilemas morais de um homem que sempre esteve à margem da lei. Keaton realizou um trabalho maduro e de consistência (como diretor e ator), injetando uma atmosfera sombria e intimista na obra, que conta com a ajuda de um elenco de peso, como Joanna Kulig, Ray McKinnon, Dennis Dugan, Jimmy Ortega e participações especiais de Al Pacino e Marcia Gay Harden. São 114 minutos que passam voando, num thriller interessante sobre a última chance de redenção de um criminoso. Disponível no streaming da HBO Max.


 
Pai do ano
 
Segundo filme da atriz Hallie Meyers-Shyer como diretora e roteirista, sete anos depois da comédia romântica com Reese Witherspoon “De volta para casa” (2017). Agora o humor é menos nessa comédia dramática protagonizada por Michael Keaton, que na última década vem entregando papeis marcantes de homens maduros em crise conjugal/afetiva/familiar. Em “Pai do ano” (2024), Keaton interpreta Andy Goodrich, um galerista de arte cuja vida dá uma sacolejada quando a esposa Naomi (Laura Benanti) decide se internar em uma clínica de reabilitação por 90 dias, por causa do vício em remédios. Andy sempre foi dependente da mulher para tudo, inclusive para cuidar do casal de filhos gêmeos temporãos. Sem saber o que fazer, pede ajuda para a filha com quem não tem bom relacionamento, Grace (Mila Kunis), fruto do primeiro casamento há quase 40 anos. Os dois voltam a se falar, em primeiro momento ela estranha, e ambos se abrem para uma reaproximação. Até Andy descobrir que Grace está gravida e será avô pela primeira vez. Uma história bonita, leve, de reconexão familiar (no caso, de pai que se reencontra com a filha que nunca cuidou direto), que mistura uma comédia simpática a um drama emotivo. Diferente ver também na tela um personagem de quase 60 anos, o protagonista Goodrich (que é o título original do filme), que precisa amadurecer às pressas para lidar com a tarefa de ser pai triplo (tanto das crianças gêmeas quanto da filha mais velha). Tem momentos delicados, como o desfecho, ótimas atuações de Keaton e Mila – e ainda aparecem no filme em pequenas participações Andie MacDowell e Kevin Pollak, e uma história fácil de se envolver, por tocar em questões humanas. Disponível no streaming do Prime Video.

 
Máquina de guerra
 
Novo filme de ação barulhento da Netflix, que não desaponta com uma trama de perseguição de roer as unhas e efeitos visuais supereficientes. Suspense, ação e ficção científica são os três gêneros fundidos numa trama que lembra “O predador”, só que com uma máquina mortífera no lugar da criatura espacial. Um campo de treinamento militar em uma área isolada, próximo a uma floresta, vira cenário de terror quando um grupo de recrutas passa a ser caçado por um estranho aparato vindo do espaço que atira centenas de balas por minuto, joga bombas e tem um visor que localiza facilmente as presas. É uma máquina gigante, como um robô sem rosto, que espalha destruição por onde anda. Os sobreviventes, liderados pelo agente 81 (Alan Ritchson, de “Jogos vorazes: Em chamas”), procuram lugares para se esconder e planejar maneiras de acabar com o monstro de metal. Aquele grupo habituado a exercícios extenuantes no campo de treinamento precisará lidar com uma nova forma de inimigo, revelando que o combate vai além das fronteiras humanas. Diretor, produtor e roteirista australiano, Patrick Hughes é conhecido dos cinéfilos de fitas de ação, por ter feito “Os mercenários 3” (2014 - um dos mais explosivos e absurdos da franquia) e as duas partes de “Dupla explosiva” (2017 e 2021); agora ele entrega seu melhor trabalho, pelo menos o mais impactante, um filme-pipoca de sobrevivência repleto de corre-corre e explosões. As batalhas são meticulosamente coreografadas, há cenas espetaculares de fuga, e a câmera ágil acompanha tudo, com cortes dinâmicos. E o longa não fica só ali na ação na selva: tem certo drama intimista, já que protagonista é atormentado por lembranças de uma tragédia que o faz seguir em frente. Participam do filme Dennis Quaid, Stephan James, Esai Morales, Jai Courtney e James Beaufort (ator que é também o roteirista do filme junto de Hughes). Disponível na Netflix.


domingo, 19 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 3

 
 
Cinco tipos de medo
 
Thriller brasileiro dirigido por Bruno Bini, que também assina a produção, o roteiro e a montagem, em seu segundo filme, depois de “Loop” (2020), em mais uma obra instigante e original. Ele entrelaça cinco histórias de violência urbana trazendo à tona relações humanas fragilizadas, marcadas por desejo, vingança e sobrevivência. Rodado em Cuiabá (MT), o filme (que tem muito de drama e suspense) se destaca pela narrativa fragmentada, cujas tramas, independentes, vão se cruzando. Temos ali Murilo, um jovem músico que, após quase perder a vida em uma UTI, tem um caso com Marlene, sua enfermeira. Ela, no entanto, vive um relacionamento abusivo com Sapinho, um traficante visto como protetor da comunidade onde moram. Surge então a policial Luciana, que prende Sapinho e, movida por vingança, desencadeia uma série de eventos que atingem em cheio o advogado Ivan, um homem duvidoso que manipula informações a seu favor. Os núcleos narrativos se cruzam em momentos de violência, perseguição e escolhas morais, carregado com um clima de tensão e incerteza no ar (imagens reforçadas pela boa fotografia noturna, quase claustrofóbica). Cada personagem tem um “tipo de medo”, como o da morte, o da solidão e o da verdade, e cada passo dado os faz refletir sobre suas inseguranças. Produzido pela Plano B Filmes e Druzina Content, marca a estreia nos cinemas de Bella Campos (modelo e atriz da novela “Pantanal”) e participação do rapper e cantor Xamã em seu segundo filme. Todos estão bem, com seriedade nos papeis, que incluem ainda as atrizes Barbara Colen, de “Bacurau”, e Rejane Farias, de “Marte Um”, e os atores Jonathan Haaggensen, de “Cidade de Deus”, e Zécarlos Machado, da série “Sessão de terapia”. O filme venceu quatro prêmios no Festival de Gramado (melhor filme, roteiro, montagem e ator coadjuvante para Xamã) e é uma das boas estreias da semana nos cinemas brasileiros, com distribuição da Downtown Filmes.
 
 
Caso 137
 
Indicado à Palma de Ouro em 2025, o ótimo thriller francês “Caso 137” tem direção firme assinada pelo veterano Dominik Moll, cineasta que gosto muito, de “Harry chegou para ajudar” (2000), “O monge” (2011) e “A noite do dia 12” (2022). E estrelado por Léa Drucker, premiada nesse papel com o César de melhor atriz – querida na França, fez mais de 90 longas, como “Custódia” (2017) e “Close” (2022). O filme acompanha Stéphanie Bertrand (Léa Drucker), uma policial da Corregedoria Francesa (IGPN), encarregada de investigar um jovem gravemente ferido em uma manifestação em Paris. O caso, de número 137, embora não contenha provas de abuso policial, ganha novos contornos quando ela descobre que a vítima é de sua cidade natal, colocando em choque sua disciplina profissional. Entre a sala de interrogatório, análise de imagens do caso e conversas informais com colegas de trabalho, Stéphanie entra de cabeça numa investigação pessoal complexa, que mudará tanto sua vida quanto a do investigado. Dominik Moll escreveu o bom roteiro junto do premiado roteirista Gilles Marchand, em mais uma parceria – juntos escreveram outros quatro filmes. “Caso 137” é um estudo sobre comportamento humano frente aos dilemas éticos da profissão, atingindo o universo da IGPN (Inspeção Geral da Polícia Nacional), que controla e fiscaliza todas as polícias da França – por isso o longa traz um ambiente marcado por tensões e desconfiança, já que os agentes policiais investigam colegas e enfrentam hostilidade interna. É uma das boas estreias da semana nos cinemas, disponível em 15 salas do país, como as capitais SP e RJ. A distribuição é da Autoral Filmes.
 


A conspiração Condor
 
O novo filme do cineasta André Sturm (gestor do Cine Belas Artes e fundador da distribuidora Pandora Filmes) tenta se firmar como um thriller político sério sobre os bastidores das mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, ambas ocorridas em 1976, num intervalo de quatro meses, mas o resultado deixa muito, mas muito a desejar. A obra investigativa especula sobre as mortes, que muitos acreditam ter sido um assassinato cometido pelos homens da Ditadura. A história narra uma jornalista (Mel Lisboa) buscando respostas e cruzando dados, além de entrevistar pessoas importantes da época, como o ex-governador da Guanabara e também jornalista Carlos Lacerda (Pedro Bial, numa ponta de dois minutos). Apesar do potencial histórico e da relevância do tema, a execução se mostra pouco envolvente e sem vitalidade – tudo é morno, desinteressante, previsível. A própria dúvida gerada no filme em torno do possível assassinato de JK e de Jango é esvaziada. O título faz referência à Operação Condor, uma campanha de repressão política no auge da Ditadura, que envolveu seis países da América do Sul, como Brasil e Argentina, e que aqui durou de 1975 a 1983; com apoio dos Estados Unidos, havia um serviço de inteligência para perseguir, torturar e matar opositores políticos - questão histórica que mal é citada no filme, infelizmente. No elenco há muitos nomes conhecidos, como Don Stulbach, Marat Descartes, Zécarlos Machado, Luciano Chirolli, Nilton Bicudo, Liz Reis e o próprio Sturm numa pontinha. Queria ter me envolvido, mas não foi dessa vez... Lançado nos cinemas em 9 de abril, com distribuição da Pandora Filmes.

sábado, 18 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

 
 
Pompeia: Sob as nuvens
 
Gianfranco Rosi, premiado diretor e produtor de cinema italiano, reafirma sua posição como um dos maiores documentaristas contemporâneos ao construir um retrato poético (e bem multifacetado) de Nápoles, cidade localizada a 25 quilômetros da histórica Pompeia, que foi dizimada pelo vulcão Vesúvio há 1950 anos. O filme, rodado em preto-e-branco, traz, em pequenos fragmentos, a vida cotidiana de uma comunidade que convive com a presença constante de dois vulcões vizinhos, o Vesúvio e o Campi Flegrei, símbolo de ameaça permanente. Pompeia virou um sítio arqueológico e parada para turismo, que movimenta a economia da região de Nápoles. Rosi, de “Fogo no mar” (2016 - indicado ao Oscar), articula um mosaico que transita entre o íntimo e o universal, revelando gestos simples da rotina dos moradores e os ecos de séculos de cultura e tragédia. Ele evita o formato tradicional de documentário: não há entrevistas, nem narrações didáticas ou guiada, tudo são passagens contemplativas, de escavadores procurando vestígios, esculturas preservadas da época, pessoas ligando para bombeiros por causa da sensação de terremotos, imagens de sobrevoo sobre os vulcões. A narrativa se desenrola como um fluxo de imagens belamente fotografadas (em um PB estonteante) que alternam o extraordinário e o banal, criando uma atmosfera de contemplação. A trilha sonora de Daniel Blumberg, compositor britânico ganhador do Oscar por “O brutalista” (2024), intensifica essa sensação, funcionando como contraponto emocional às cenas de ruas, rostos e paisagens. O título remete à sombra das nuvens que pairam sobre Pompeia e Nápoles, metáfora da convivência entre beleza e risco, passado e presente. Vencedor do prêmio especial do Júri no Festival de Veneza de 2025, onde concorreu ao Leão de Ouro, a fita de arte está disponível na plataforma da Mubi.
 

 
Betty Blue
 
E retorna para os cinemas brasileiros neste final de semana um de meus filmes de arte preferidos, que consagrou o falecido cineasta Jean-Jacques Beineix, bem como foi o ponto de partida da carreira dos principais nomes do elenco. O filme está de volta em uma excelente cópia com novo master em 4K pela Pandora Filmes, em edição comemorativa de seus 40 anos. A envolvente trama acompanha Zorg (Jean-Hugues Anglade), um jovem pintor que restaura casas de praia na Riviera Francesa e que pretende ser escritor. Certo dia aparece pelo bairro uma bela moça, de nome Betty (Béatrice Dalle), que desperta a atenção de Zorg. Os dois iniciam um tórrido relacionamento, mas aos poucos o rapaz percebe que Betty é neurótica e violenta. Drama e romance erótico entram com tudo nesse road movie melancólico, de cores quentes vivas, e uma interpretação intensa da atriz Béatrice Dalle, estreante no terceiro filme do diretor Jean-Jacques Beineix (1946-2022), criador do movimento Cinema du Look (“Cinema do Olhar”), ao lado de Leos Carax e Luc Besson. Tal movimento explorava a juventude marginalizada da França das décadas de 80 e 90, por meio de filmes estilizados e de visual elegante. Beineix dirigiu antes, dentro do “Olhar”, “Diva – Paixão perigosa” (1981) e “A lua na sarjeta” (1983), porém “Betty Blue” tornou-se especial no coração dos cinéfilos. Betty entrou para a galeria de personagens marcantes do cinema, uma protagonista de espírito livre, ao mesmo tempo instável e temperamental, que vai enlouquecendo, brigando com quem está ao redor em seus acessos explosivos. Béatrice é uma atriz de estranha beleza, perfeita para o papel dessa jovem irritada quando contrariada, e que depois faria vilãs no cinema francês (dá medo sua interpretação no terror francês “A invasora”, por exemplo). A trilha do libanês Gabriel Yared (vencedor do Oscar por “O paciente inglês”) é inesquecível, com arranjos ecléticos de sax, gaita e música circense, que caem como uma luva nessa fita de arte sensual - na época recebeu classificação 18 anos (há cenas de sexo selvagem, incluindo a abertura de um minuto). Indicado ao Oscar, Bafta e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, “Betty Blue” foi exibido nos festivais de Toronto e Edimburgo e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Montreal. A produção e o roteiro são de Beineix, e a obra é uma adaptação do livro de Philippe Djian, escritor de outros livros eróticos que viraram filmes, como “Elle” (com Isabelle Huppert). A versão que volta aos cinemas é a original apresentada em 1986, de 119 minutos – existe uma versão do diretor, de 185 minutos (ou seja, 66 minutos a mais que a de cinema) que saiu no Brasil em DVD em 2004 pela Columbia Pictures, que recomendo caso não conheçam (versões do diretor, com grande duração, valem a pena pois se tornam outro filme, com cenas extras e até novo corte).
 

 
O mago do Kremlin
 
O diretor, produtor e roteirista (e que trabalhou muito tempo como crítico de cinema) Olivier Assayas intercala em seu cinema filmes de arte independentes com dramas históricos com figuras reais ou contextos notórios. “O mago do Kremlin” está na lista de seus filmes de base histórica, assim como “Wasp: Rede de espiões” (2019) e a minissérie “Carlos, o Chacal” (2010) - e todos eles trazem a espionagem como ponto de partida, tema explorado pelo cineasta desde sua estreia na década de 80. Novamente Assayas reúne elenco americano em um filme crítico e de trama altamente complexa, cheia de nomes, lugares e situações. Paul Dano interpreta o protagonista do drama, Vadim Baranov, personagem fictício inspirado no empresário russo Vladislav Surkov, ex-conselheiro de Putin que atuou no gabinete do presidente por mais de 10 anos. O longa escancara os bastidores do poder do governo russo durante os anos 1990 e 2000, período marcado pelo colapso da União Soviética, pelo fim do socialismo e a ascensão de Vladimir Putin. Baranov, antes produtor de TV e homem do teatro, é recrutado para ser o arquiteto da propaganda do Kremlin, moldando a imagem de Putin como o líder ideal que iria recriar o país. Por ser da mídia, ele sabia como mexer os pauzinhos para manipular percepções em escala nacional, utilizando a TV, o rádio e os jornais em prol da propaganda russa. Baranov se torna o ideólogo de Putin, o mago do governo, numa relação primeiramente fiel e subordinada, depois instável entre os dois – Jude Law encarna o presidente russo a partir da metade do filme (já que antes disso Putin não “existia” na história inicial, que foca em Surkov). Law entrega uma interpretação marcada por exageros, mas olhando a fundo são as caretas e trejeitos do próprio Putin, com sorrisinho de lado, biquinhos, olhar compenetrado. O filme é um drama histórico mesclado com thriller político, com diálogos difíceis, que explicam os bastidores sombrios do governo Putin, passando pelas alianças e as crises. É uma fábula moderna sobre disputas pelo poder e pelas narrativas, fazendo uma reflexão da Rússia autoritária de Putin, uma figura temerária que governa o país com mãos de ferro desde 1999. Assayas mistura ficção e documentário, com muitas imagens de arquivo, reportagens da época e vídeos reais, fazendo um trabalho coeso, que vale a pena ver. O elenco reúne também a ganhadora do Oscar Alicia Vikander, Jeffrey Wright e Tom Sturridge. Adaptado do livro do italiano Giuliano da Empoli, o filme teve estreia mundial no Festival de Veneza de 2025 e está em cartaz nos cinemas pela Imagem Filmes.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1

 
Com causa
 
Documentário do cineasta carioca Belisario Franca em mais uma parceria com o diretor Pedro Nóbrega, desta vez sobre ativismo ambiental, e não mais tratando de figuras ou cenas políticas como costumam fazer. Aqui eles fazem uma colcha de retalhos com depoimentos de ativistas do mundo todo em torno de seus projetos, visando a construção de um mundo menos violento, que cuide do meio ambiente para as futuras gerações. Com imagens belas e nítidas das águas, das florestas e do solo, seguindo da Amazônia à África e passando pela Europa e Ásia, o filme é um apelo para o despertar da conscientização humana, trazendo depoimentos de figuras notórias do ativismo mundial, como Ailton Krenak, Paul Watson, Carmen Silva e Muzoon Almellehan. Um filme para ver, sentir e refletir, tanto contemplativo quanto de crítica social. Produzido pela Giros Filmes, teve exibição no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP, e está em exibição nos principais cinemas brasileiros desde semana passada. Distribuição da Bretz Filmes.


 
Vidas entrelaçadas
 
Angelina Jolie é a estrela do novo filme da cineasta francesa Alice Winocour, de ‘Transtorno’ (2015) e ‘A jornada’ (2019), que estreou no Festival do Rio – eu o assisti lá, ainda com o título original, “Couture” (termo que significa ‘Alta costura’). Angelina está lindíssima e bem fotografada, interpretando o papel de uma diretora de cinema que viaja a Paris para filmar a temporada do Fashion Week. Enquanto prepara o estúdio e as modelos, aguarda ansiosamente os resultados de um exame médico que fez nos Estados Unidos (de câncer). Os fragmentos da trajetória dessa mulher se entrelaçam com os de outras duas personagens femininas: uma modelo sul-sudanesa de 18 anos (Anyier Anei), que está no mesmo evento, em seu primeiro trabalho na passarela, e uma maquiadora (Ella Rumpf) que trabalha sem descanso. Cada uma a seu modo enfrenta os incansáveis dias da Semana de Moda ao mesmo tempo em que lidam com questões íntimas. Um bonito e correto filme sobre o universo feminino no mundo da moda, energicamente interpretado pelo trio central de atrizes. No elenco vemos ainda Vincent Lindon como um médico e Louis Garrel como o par romântico de Angelina. Selecionado para a competição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián 2025, foi exibido nos festivais de Toronto e Roma. Estreia hoje em oito cidades brasileiras, como SP, RJ, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba, com distribuição da Synapse.
 


Família de aluguel
 
Dirigido pela cineasta japonesa Mitsuyo Miyazaki, que assina apenas como Hikari, o emocionante “family film” é ambientado na Tóquio atual e traz um papel luminoso de Brendan Fraser como Phillip Vanderploeg, um ator americano em solo japonês que enfrenta uma crise profissional e tenta reencontrar-se após anos de carreira estagnada. A idade também pesa sobre ele. Descobre, por acaso, uma agência japonesa especializada em “famílias de aluguel”, que contrata intérpretes para desempenhar papéis de parentes, parceiros amorosos ou amigos em situações cotidianas. É uma agência inovadora, e ele, ator, por ter encarnado muitos papéis em sua vida, decide arrumar um emprego lá. Após assinar o contrato, o solitário Phillip passa diariamente a assumir diversas identidades na vida de desconhecidos, como marido, irmão e pai, tornando-se companheiro conforme a necessidade do cliente. O que ele não imaginaria era ser pego numa armadilha do coração: em um dos papéis sociais que assume, como o pai de uma garota rebelde chamada Mia (Shannon Mahina Gorman) que retorna ao seio familiar, ele se verá preso numa relação impossível de ser distanciada ou desvinculada. Phillip encontrará em Mia vínculos genuínos que o ajudarão a redescobrir o valor do afeto e da conexão humana. O roteiro foge do melodrama fácil, mas usa e abusa de cenas que nos aflora a emoção, em uma narrativa intimista que discute a solidão e a necessidade de afeto em um mundo fragmentado por relações vazias (ou líquidas, segundo o filósofo Zygmunt Bauman). Fraser, hoje com 57 anos, voltou a carreira com tudo após uma década e meia entregue ao relento – foi astro nos anos 90 (mas apenas um rosto bonito em fitas abobalhadas de comédia), teve depressão, sofreu assédio sexual na indústria de Hollywood e se afastou das telas; até entrar de cabeça num dos papeis mais incríveis do cinema e ganhar o Oscar por ele, em “A baleia” (2022). Esteve em seguida em “Assassino da Lua das Flores” (2023), de Martin Scorsese, e agora nesse filme adorável e sentimental de Hikari, demonstrando vitalidade e recuperação do tempo perdido. A estreante Shannon Mahina Gorman, de 10 anos, é outro destaque, e pelo papel recebeu indicação ao Critics Choice de 2026. O elenco japonês conta com mais de 25 nomes, como Mari Yamamoto, das séries “Pachinko” (2022-2024) e “Monarch: Legado de monstros” (2023-), e Takehiro Hira, indicado ao Emmy e ao Critics Choice de ator coadjuvante pela série “Xógum: A gloriosa saga do Japão” (2024-2026), o que reforça a autenticidade cultural da trama. Exibido nos festivais de Toronto, Zurique, Tóquio e Rio de Janeiro, é escrito, produzido e dirigido por Hikari (ela dirigiu o lindo drama “37 segundos”, de 2019, e é uma das criadoras e produtoras da série da Netflix “Treta”). O filme passou nos cinemas brasileiros em janeiro de 2026, e estreia agora no streaming Disney+.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Especial de cinema

 
“É Tudo Verdade” continua a todo vapor com 75 filmes gratuitos na programação, em SP e RJ
 
O “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” continua até o próximo domingo, dia 19/04, com 75 filmes gratuitos para o público, em salas de cinema de São Paulo e Rio de Janeiro, além do streaming do Itaú Cultural Play. O “É Tudo Verdade” está em sua 31ª edição, este ano apresentando longas, médias e curtas-metragens de 25 países. Confira abaixo mais cinco títulos que conferi no Festival e que recomendo (alguns terão mais sessões no festival, enquanto outros estreiam em breve nos cinemas e em streamings):


 
Bardot
(França/Reino Unido, 2025, de Alain Berliner e Elora Thevenet)
 
O documentário “Bardot” passa a limpo a trajetória da atriz francesa Brigitte Bardot (1934-2025), ícone do cinema europeu e símbolo de uma era marcada pelo glamour e exposição midiática. Exibido no Festival de Cannes de 2025 (quatro meses antes da morte da atriz), o filme parte de um ano decisivo da artista: 1973, quando abandonou os holofotes, desgastada por inúmeros relacionamentos amorosos fracassados e pela perseguição dos paparazzi, que chegavam a invadir a casa de praia onde morava. 1973 foi o início de seu fim no cinema, quando se isolou na Madrague, a rústica propriedade à beira-mar que adquiriu na década de 50, para se reinventar como ativista em defesa dos animais e do meio ambiente – algo que durou até a morte. Nesse período virou cantora, lançando discos, e fez da casa particular um lar adotivo de animais de rua. O filme acompanha essa transição de atriz para ativista fervorosa, revelando como a estrela transformou sua imagem pública em instrumento de militância. O documentário é narrado por ela mesma, aos 90 anos, aparecendo muito pouco, em sua residência reclusa em Saint-Tropez, na Riviera Francesa – as imagens atuais são lances de costas e de lado, e nunca falando diretamente para a câmera. Enquanto sua biografia é contada, uma infinidade de imagens antigas, trechos de filmes e reportagens com Bardot montam o mosaico fílmico. Com a voz rouca (demonstrando certo cansaço), Bardot relembra fatos marcantes a enorme carreira sem se poupar em falar dos amores perdidos, de escândalos e da velhice solitária. Em exibição no festival “É Tudo Verdade” ainda no dia 19/04, no Rio de Janeiro.


 
Shooting
(Israel, 2025, de Netalie Braun)
 
Documentário que integra uma trilogia de filmes políticos da cineasta israelense Netalie Braun, iniciada com “Hatalyan” (2010), sobre a relação de um guarda prisional com o nazista Adolf Eichmann, e seguida por “Hope I'm in the frame” (2017), sobre a precursora do cinema de Israel Michal Bat-Adam. Em “Shooting” (um trocadilho de “Shot”, que é tomada de cinema ou gravar um filme, com “Shoot”, atirar, em inglês), ela reúne três histórias, como se fossem curtas-metragens alinhados ao mesmo discurso: o envolvimento de Israel em guerras desde 1967 (Guerra dos Seis Dias), passando pela de Yom Kippur, as do Líbano e a recém-instaurada na Faixa de Gaza. As histórias são independentes, com um mesmo fundo político e moral; na primeira, o diretor de fotografia judeu indicado ao Oscar Adam Greenberg (de “Exterminador do futuro”) relembra como ajudou a recriar imagens falsas de guerra nas Colinas de Golã vendidas pela mídia como verdadeiras; na segunda, uma família palestina em Jerusalém Oriental sofre um atentado que até hoje tornou-se uma questão de saúde para um dos filhos da casa, que vive sob cuidados médicos; e por fim, a de um ex-combatente israelense, colecionador de armas, que entra num delicado processo pós-traumático que o faz repensar suas escolhas atuais. Com vasto material de arquivo da época, além de imagens inéditas de guerra recuperadas, o filme entrelaça temas como indústria cultural e o armamento, e de como Israel forçou pessoas a aderir ao belicismo. Documentário sério, sem concessões, com imagens fortes que pulsam em nossa mente. Em exibição no festival “É Tudo Verdade” nos dias 15/04 (em SP) e 18/04 (no Rio).


 
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
(Brasil, 1986, de Rosemberg Cariry)
 
O programa “Clássicos É Tudo Verdade” exibirá nos dias 17/04, em São Paulo, e 18/04, no Rio de Janeiro, a cópia restaurada em 4K de “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” (1986), primeiro longa do cineasta cearense Rosemberg Cariry. Entrou para a História do cinema brasileiro como o primeiro documentário produzido no Ceará, em uma época marcada por falta de incentivo ao cinema (o cinema nacional atravessava uma crise que culminaria no fechamento da Embrafilme e paralisação do setor por quase 10 anos). A obra retorna às telas celebrando três efemérides: os 40 anos do lançamento do filme, os 50 anos de carreira do diretor, roteirista e produtor, e o centenário da Comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto (ou simplesmente Caldeirão), movimento messiânico de origem jesuíta fundada na zona rural de Crato, no Cariri (Ceará), pelo beato paraibano José Lourenço. O Caldeirão foi invadido e destruído em 1937, resultando num massacre de centenas de camponeses - comparado ao de Canudos, simbolizou a repressão da elite contra movimentos sociorreligiosos autônomos no sertão, que tinham fundamentos socialistas. O tema é explorado com seriedade no documentário escrito por Cariry e Firmino Holanda, com fotografia de Ronaldo Nunes, que reúne depoimentos inéditos de sobreviventes e até de algozes, rompendo o silêncio que por décadas cercou o episódio. Produzido em plena redemocratização do país, tornou-se referência para movimentos sociais como o MST ao resgatar a memória de uma experiência comunitária igualitária que sofreu perseguição política. Indicado no Festival de Havana como melhor documentário latino, o filme, reconhecido por sua ousadia estética e pela fusão entre narrativa histórica e cultura popular, permanece como documento vivo da história de resistência do Nordeste. A restauração do filme em 4K, supervisionada pelo filho do cineasta, o também diretor Petrus Cariry, e apoiada por instituições como o MIS/CE e o Instituto Mirante, integra um projeto de preservação da obra de Rosemberg, já realizado com “Corisco & Dadá” (1996) e “Lua Cambará: Nas escadarias do palácio” (2002). A nova cópia está um primor, que vale ser visto na tela grande.



Vivo 76
(Brasil, 2026, de Lírio Ferreira)
 
Novo trabalho do diretor pernambucano Lírio Ferreira, cuja carreira é alternada entre filmes de ficção, como “Baile perfumado” (1996) e “Árido movie” (2005), e documentário (ele já realizou docs sobre Cacá Diegues, Cartola e Cachorro Grande, por exemplo). Ferreira volta-se, novamente, ao universo da música, agora para trazer um pouco sobre Alceu Valença, focando no emblemático álbum “Vivo” (1976), primeiro disco ao vivo do cantor e segundo álbum solo dele, que entrou em listas do mundo todo como um dos discos mais influentes daquela década. O doc celebra tanto os 50 anos de “Vivo” quanto os 80 anos de Alceu (que comemora em julho próximo), reunindo entrevistas atuais dele e muito material de arquivo. “Vivo” trazia músicas importantes do repertório, como “Sol e chuva” e “Papagaio do futuro”, marcado por influências da psicodelia, misturando ritmos como rock, pop, forró e experimentações de vanguarda (algo típico nos processos criativos de Valença, a mistura efusiva de sons e ritmos). Nesse percurso audiovisual, o cantor e compositor surge como figura central do underground nordestino, articulando música, poesia e rebeldia estética em um momento de efervescência política – 1976 era Ditadura, e Alceu e amigos compositores, como Geraldo Azevedo, que aparece no doc, foram perseguidos e presos em tal período. Trata-se de um tributo à vitalidade de Alceu Valença e à potência transformadora da música nordestina. “Vivo” foi o filme de abertura do Festival “É Tudo Verdade” no Rio, e conta com próximas sessões, nos dias 17 e 18/04, em São Paulo.
 

 
A fabulosa máquina do tempo
(Brasil, 2026, de Eliza Capai)
 
Sensação no Festival de Berlim desse ano, onde concorreu aos prêmios Crystal Bear (na seção Generation Kplus, voltado a filmes infanto-juvenis) e o de melhor documentário, o filme da diretora de “Incompatível com a vida” (2023), Eliza Capai, é uma joia a ser descoberta – e espero que o público o encontre logo. Com uma mistura de fantasia e aventura em uma narrativa marcada pela busca de reconexão com o passado e pela descoberta de futuros possíveis, o doc (que em muitas vezes lembra ficção) acompanha um grupo de meninas na cidadezinha de Guaribas, no sul de Piauí, lugar que ficou conhecido por receber o projeto piloto “Fome Zero”, em 2003, por ser um município com baixo IDH, sem saneamento básico e de extrema pobreza. Elas têm imaginação fértil, falam o que vem na mente e, numa das brincadeiras diárias, planejam inventar uma máquina do tempo que as transporte para épocas distintas. O filme é uma viagem na mente das meninas, todo composto pela cultura oral, de histórias da carochinha, lendas e folclore, intercaladas pelas crenças religiosas e de perspectivas para um futuro próximo. Nessa jornada de descobertas, as crianças, em meio a um local marcado pela seca, relembram histórias da avó, sobre a fome que assolou a região, bem como do machismo estrutural que ainda permeia a sociedade onde vivem. As imagens são carregadas de forte teor visual/psicológico, principalmente as locações em Guaribas, localizado nas entranhas do sertão. As sessões no “É Tudo Verdade” acabaram, e o filme deve estrear em breve nos cinemas brasileiros. 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Especial de cinema

 
Festival “É Tudo Verdade” termina no próximo domingo; confira mais filmes vistos lá
 
O “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” segue com 75 de filmes gratuitos para o público até o dia 19/04, em salas de cinema de São Paulo e Rio de Janeiro. Festival de cinema importante do Brasil, o É Tudo Verdade está em sua 31ª edição, este ano apresentando longas, médias e curtas-metragens de 25 países. Confira abaixo mais títulos que já conferi no Festival e que recomendo:


 
Retiro – A Casa dos Artistas
(Brasil, 2026, de Roberto Berliner e Pedro Bronz)
 
Documentário sobre uma instituição única no Rio de Janeiro: o Retiro dos Artistas, local respeitado que acolhe artistas idosos das mais diversas frentes, localizado em Jacarepaguá. Fundado em 1918, o Retiro é um patrimônio cultural e afetivo da cidade, que oferece aos residentes não apenas moradia, mas dignidade. O filme faz uma visita de casa em casa dos artistas, numa conversa informal sobre a velhice, a solidão, as memórias, as amizades ali cultivadas. Cada um traz consigo lembranças dos palcos, telas e concertos, e assim o documentário transforma essas lembranças em matéria-prima poética, mostrando como a arte permanece viva mesmo quando os holofotes se apagam. Moradores ilustres falam para a câmera, como as atrizes Dilze Pragana, Sonia Zagury, Claire Digon e Iris Bruzzi, o ator Jayme Leibovitch, os músicos Pedro Paulo Castro Neves, Robertinho Silva, Mauro Continentino e Bida Nascimento (filho e Léa Garcia e Abdias do Nascimento), além de rápida participação de Stepan Nercessian, presidente do Retiro há mais de 20 anos, e Marieta Severo, doadora constante e que sempre visita o espaço. No filme vemos rituais íntimos no Retiro, como os almoços, as rodas de conversa, o momento da fisioterapia, as caminhadas pelas ruas (o Retiro está situado em uma área verde), a chegada de novos moradores e até os amores despertados na instituição. Enquanto o filme é desenvolvido, os residentes preparam um recital de músicas e ensaiam uma peça cômica para fechar a obra. Gostei do filme, apenas senti falta de arquivos e filmagens sobre o Retiro de antigamente – o foco são os moradores de agora. A première se deu no festival, e o doc tem mais uma exibição - hoje, dia 14, em SP.
 

 
Entre irmãos
(Holanda/Bélgica, 2026, de Tom Fassaert)
 
Exibido no Festival de Rotterdam desse ano, “Tussen brothers” (aqui traduzido como “Entre irmãos”) é um documentário holandês-belga feito em família, com uma história curiosa que se descortina aos poucos. O diretor Tom Fassaert investiga a relação próxima entre seu pai e seu tio, respectivamente Rob e René, o primeiro um psicólogo aposentado, e o segundo, um paciente psiquiátrico. René vive recluso numa casa repleta de materiais acumulados, enquanto o irmão mais novo, Rob, semanalmente o visita para ajudá-lo a organizar suas coisas (e claro, dar conselhos). Eles vivem debaixo de atritos, mas não se separam por nada. A ligação entre os dois é intrínseca naquela dinâmica que oscila entre brigas e afeto. A filmagem da rotina dos dois irmãos encontrará um momento crucial, quando puxam da memória uma história triste que sempre os abalou: o avô, pai de Rob e René, abandonou os filhos ainda pequenos e desapareceu sem deixar pistas (vazio sentido até hoje). O filme, com momentos tristes, outros de apego e alguns cômicos, acompanha uma série de dias na relação dos dois irmãos, focando em uma herança emocional que atravessa gerações, que conecta passado e presente e revela como traumas não solucionados moldam vínculos familiares. O filme conta com mais uma exibição no É Tudo Verdade, hoje, dia 14, no RJ.
 

 
Crianças no fogo
(Ucrânia, 2025, de Evgeny Afineevsky)
 
O documentarista russo Evgeny Afineevsky encerra aqui uma trilogia sobre a Guerra da Ucrânia, iniciada com “Winter on fire: Ukraine's fight for freedom” (2015 – indicado ao Oscar) e seguida por “Freedom on fire: Ukraine's fight for freedom” (2022). Entre os dois primeiros títulos teve um filme menor de mesmo tema, “Pray for Ukraine” (2015), realizado na fase inicial do conflito entre Ucrânia e Rússia, em 2014. Em “Children in the fire”, o diretor resgata imagens fortes de crianças destruídas pela guerra, feitas entre 2014 e 2017, e as convida para contarem a superação e os obstáculos enfrentados após 10 anos. Hoje adolescentes, os entrevistados viram um pouco de tudo no horror da guerra: uma teve a perna amputada, outro ficou com mais de 80% do corpo queimado, outro presenciou torturas de prisioneiros pelas mãos dos russos. As crianças presenciaram sequestros, estupros, ataques a míssil que mataram familiares e amigos. O filme é perturbador, muito impactante, com cenas de crianças feridas que mexem com nosso íntimo (em dado momento vi muitas pessoas saírem da sala, já que o diretor não poupa em mostrar as atrocidades que fizeram com essas crianças). São oito histórias de sobreviventes separadas em blocos, entrelaçando imagens reais de arquivo e depoimentos atuais com animação em live-action, que reproduz as lembranças trágicas de cada uma delas. O documentário teve sessões no festival nos dias 10, 11 e 12, em SP e RJ, acompanhada do curta-metragem chileno “Baisanos” (2025), que foi exibido no festival de Locarno, sobre os chamados “Baisanos” (termo coloquial para compatriotas), torcedores do Club Deportivo Palestino, time de futebol fundado em 1920 por imigrantes palestinos em Santiago, fortemente ligados à causa palestina. Sem mais sessões no festival, deve estrear nos cinemas e depois ir para o catálogo da Netflix (já que os dois anteriores que formam a trilogia estão lá).

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Especial de Cinema

 
“É Tudo Verdade” segue gratuito em SP e RJ; no festival estão 75 filmes de 25 países
 
O “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” segue com 75 de filmes gratuitos para o público até o dia 19/04, em cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro. Festival de cinema importante do Brasil, o É Tudo Verdade está em sua 31ª edição, este ano apresentando longas, médias e curtas-metragens de 25 países. Confira abaixo mais títulos que já conferi no Festival e que recomendo:



 
Bowie: O ato final
(Reino Unido, 2025, de Jonathan Stiasny)
 
Documentário britânico do cineasta especializado em séries de TV Jonathan Stiasny que traz um ponto de virada na carreira musical de David Bowie (1947-2016), dos anos 80 para os 90, um período crítico em que o cantor e compositor se viu massacrado pela mídia devido aos últimos trabalhos. Um filme que se afasta da biografia tradicional – aquela que conta do nascimento à ascensão de uma personalidade; aqui o foco, como o título diz, são os últimos anos da carreira de Bowie, o “Camaleão do rock”, que se renovava a cinco anos no estilo musical que refletia no visual. O recorte do filme é de 1983, quando lançou o álbum “Let’s dance”, logo após a “Trilogia de Berlim”, passando pela fase das experimentações eletrônicas e do Tin Machine, até culminar no último álbum, “Blackstar”, lançado dois dias antes da morte dele, em janeiro de 2016. O doc reúne cenas de shows desse período, ensaios fotográficos para revistas e entrevistas da época em que a crítica detonava seus trabalhos (chegando a julgá-lo de “grande vergonha”, e algumas em que Bowie foi agressivo com jornalistas). Traz também depoimentos atuais de músicos de sua banda, que tocaram turnês com ele (como Earl Slick e Mike Garson), além de músicos amigos, como Gary Kemp (da banda Spandau Ballet) e Moby. O documentário mostra um Bowie inquieto, que não se curvou à mídia apesar das críticas daquele período final, capaz de se reinventar até o fim, e reforça como sua arte funcionou como resistência diante da doença que o matou (ele enfrentou o câncer por dois anos em sigilo, enquanto produzia o álbum de despedida). Sensível e reflexivo, o doc é muito bem feito e um presentão para os fãs. Estreou nos cinemas do Reino Unido em dezembro de 2025, e foi o filme de abertura do É Tudo Verdade em SP. Conta com mais uma exibição no festival, em 19/04, no RJ.

 
 
Carcereiras
(Brasil, 2026, de Julia Hannud)
 
Primeiro longa na direção da produtora paulista Julia Hannud (antes ela codirigiu o doc de 2019 “Saudade mundão”), que é um dos melhores filmes brasileiros da edição deste ano do É Tudo Verdade. Acompanha duas mulheres, Ana Paula e Mariana, que abandonam raízes e família para trabalhar em uma profissão de risco, como agentes penitenciárias em presídios femininos. Um universo duro, repleto de conflitos, em que as duas se veem sozinhas em outra cidade, sem amigos, tendo de lidar com frustrações e pressões diárias. O filme revela uma rotina marcada por disciplina, mostrando como essas mulheres vivem entre a rigidez do uniforme e os impactos emocionais de um trabalho que raramente ganha espaço na mídia. Mesmo diante dos problemas, as duas têm astral lá em cima, o que as ajuda a suportar o peso da função. A linguagem do filme traz uma câmera que observa as duas tanto no trabalho quanto em casa e acrescenta depoimentos delas, o que aproxima o espectador da realidade das protagonistas. O filme, cuja montagem é um ponto altíssimo da obra, explora, nas entrelinhas, as contradições da profissão: de um lado, a necessidade de sustento misturado com a saudade da família, e de outro, a exposição à violência e ao desgaste psicológico. O Brasil tem a terceira maior população carcerária feminina do mundo, o que amplia, nesse filme, o debate sobre gênero e desigualdade, ressaltando a precariedade das unidades prisionais destinadas às mulheres. A première do doc se deu no festival É Tudo Verdade, e conta com mais três exibições, em 17 e 19/04, todas no RJ.
 

 
Apopcalipse segundo Baby
(Brasil, 2026, de Rafael Saar)
 
Novo trabalho autoral do cineasta carioca Rafael Saar, que já dirigiu documentários musicais, além de especiais para TV, de nomes cultuados da música brasileira, como Maria Alcina (no filme “Sem vergonha”) e a dupla Luli & Lucina (no maravilhoso “Yorimatã”). Agora ele faz uma viagem tresloucada ao mundo de Baby Consuelo, a Baby do Brasil, num doc inteiramente narrado por ela (em primeira pessoa). A obra se constrói a partir da pluralidade transgressora da artista, hoje com 73 anos; ela relembra quando fugiu de casa aos 17 para explorar o campo da música, onde conheceu no Rio Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira e com eles fundou o grupo “Os Novos Baianos”. Com muitas imagens de arquivo, de bastidores e dos shows, Baby também relembra o espírito hippie nos anos 70, período influenciado pela contracultura, e depois o pop multicolorido que marcou sua presença na década de 80. O filme reforça a liberdade criativa da cantora e compositora (cuja inspiração principal foi Janis Joplin), sua versatilidade, o estrondo de seus figurinos extravagantes e ousados e a vida compartilhada com o cantor e compositor Pepeu Gomes, com quem teve seis filhos. O terço final do doc foca no trabalho atual de Baby, como pregadora religiosa (e os motivos, como visões sagradas, que a levaram a incursionar ao campo religioso). “Apopcalipse segundo Baby” é um retrato da liberdade a partir da própria natureza multifacetada da cantora, mostrando como a artista atravessou décadas sem se enquadrar nos padrões. A première do doc se deu no festival É Tudo Verdade, e o filme tem ainda exibição no festival nos dias 13 (em SP e Rio) e 14 (no Rio).



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