domingo, 17 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

 
Eclipse
 
Filha do casal de cineastas Helena Ignez (também atriz) e Rogério Sganzerla (mente por trás do Cinema Marginal), Djin Sganzerla construiu sua carreira entre atuação, direção, produção cinematográfica e roteiro, além de ter sido apresentadora do Canal Brasil por muito tempo. Fez mais de 20 filmes como atriz e dirigiu dois longas, “Mulher oceano” (2020) e “Eclipse” (2025), esta uma obra densa, complexa, que mistura diversos gêneros e é tão boa e original quanto o primeiro trabalho atrás das câmeras – e em ambos ela interpreta a protagonista. “Eclipse” estreou nos cinemas brasileiros na semana passada, e é um filme de narrativa ousada, que desafia convenções. Estrutura-se como um mosaico de imagens que se entrelaçam em torno de uma mulher em constante deslocamento e desintegração. Essa personagem é a astrônoma Cleo (Djin Sganzerla), que está grávida, e no turbilhão das emoções causadas pelo desafio de ser mãe, é surpreendida com a chegada de Nalu (Lian Gaia), sua meia-irmã bem mais nova, de origem indígena. Distantes, Cleo e Nalu iniciam uma fase de reconexão familiar, tomadas por memórias perturbadoras que as levam para uma jornada humana até então desconhecida. No meio disso tudo, Cleo suspeita que o marido, Tony (Sergio Guizé), esteja envolvido com hackers e crimes digitais. Com mistura de sonhos e realidade, o filme independente (produzido pela Mercúrio Produções, com codistribuição da Pandora Filmes) traz para a tela questões importantes da atualidade por meio de uma obra que vai além do drama familiar: fala-se do patriarcado, das falsas aparências no casamento, da violência doméstica e o uso da deep web para aliciamento de crianças. Há subtramas para cada um desses assuntos que se conectam com sobriedade (apesar de serem distantes). O eclipse do título é uma metáfora sobre as inúmeras dualidades do filme: da ciência e ancestralidade (envolvendo as crenças das duas irmãs), e do silenciamento da mulher contra o protagonismo que elas assumem quando passam ao controle de suas vidas. Exibido na 49ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, o filme conta com ótima atuação de Djin e participação no elenco de Sérgio Guizé, Selma Egrei, Helena Ignez, Luís Melo, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce, Pedro Goifman e Julia Katharine.
 

 
O fim de Saturno
 
Primorosa continuação de “O caminho para Saturno” (1967), thriller de espionagem soviético que foi rodado um ano depois e segue os acontecimentos do primeiro filme. No capítulo anterior, funcionários da segurança do Estado Soviético infiltraram-se na agência secreta de inteligência nazista “Saturno”, que realizava serviços escusos para Moscou, e obtiveram dados de 127 agentes envolvidos. O que se segue agora é a consequência da descoberta, um caso inspirado em fatos verídicos. O filme se passa na Segunda Guerra Mundial e acompanha os oficiais da inteligência soviética em mais um desdobramento da luta contra agentes alemães infiltrados. Os oficiais soviéticos conseguiram desinformar o inimigo com ajuda de relatórios falsos, uma estratégia de contraespionagem que dá um pontapé para a desarticulação nazista em vários países da Europa. Esse é o motor dramático da obra, que revela não apenas a astúcia dos protagonistas, como também o jogo psicológico que permeava a guerra secreta. É um exemplo clássico do cinema soviético de espionagem, que combina tensão com forte carga ideológica. A direção recorre a uma atmosfera sombria, marcada por cenários austeros e uma excelente fotografia em preto-e-branco que reforça o clima de paranoia e vigilância daquela época. Exalta-se a inteligência soviética e sua capacidade de vencer o inimigo não pela força, mas pela sagacidade – os nazistas são mostrados com vilões cruéis, mas vulneráveis, passíveis de derrota. Rodado em ambientes fechados que reconstroem salas de reunião sigilosas e escritórios da Segunda Guerra Mundial, o filme é um achado impressionante do desconhecido (por muitos) cinema soviético feito no auge da Guerra Fria. Conta com o mesmo grupo do filme anterior: elenco (com destaque para Mikhail Volkov, Georgi Zhzhyonov e Evgeniy Kuznetsov), direção de Villen Azarov, roteiristas e produtores. O filme está disponível para ver gratuitamente na plataforma da CPC-Umes no Youtube até amanhã, dia 18/05, em cópia restaurada pelos estúdios da Mosfilm – em https://www.youtube.com/@cpc-umesfilmes23
 
 
Martin Short: Uma vida de comédia
 
O diretor norte-americano Lawrence Kasdan, de “Corpos ardentes” e “Silverado”, dois filmes aplaudidos dos anos 80, realiza seu primeiro documentário em 45 anos de carreira. E justamente uma homenagem ao ator Martin Short, com quem trabalhou apenas uma vez, em “Dr. Mumford: Inocência ou culpa?” (1999) - mas de lá para cá desenvolveu forte amizade com o astro da comédia. Ganhador de dois prêmios Emmy, Martin Short (hoje aos 76 anos) consagrou-se como um dos grandes nomes do Saturday Night Live, icônico programa de humor da TV americana, além de participações engraçadíssimas em inúmeros outros programas, sem contar os filmes (como “Três amigos” e “Os três fugitivos”). No documentário, Martin Short é a estrela principal, num filme em que ele relembra a trajetória marcada por altos e baixos, a relação com a família e os amigos, suas viagens e a recepção de colegas de elenco em sua casa de veraneio, que ficou famosa pelos encontros regados a música, vinho e piadas (frequentavam lá amigos pessoais dele como Steven Martin, Eugene Levy e Catherine O’Hara – que falam ao filme também). É uma obra afetuosa, com certa melancolia, que celebra a versatilidade de Short, que transitou por décadas entre o palco, a televisão e o cinema com uma energia radiante, sempre disposto a criar novos personagens. O filme explora também seus dramas pessoais, o homem por trás das máscaras, com as fragilidades e perdas (em fevereiro deste ano, durante as gravações do doc, sua filha Katherine, de 42 anos, cometeu suicídio, o que o abalou profundamente e o fez terminar seu relacionamento de quase dois anos com a atriz Meryl Streep – eles se conheceram nas gravações da famosa série com Steve Martin “Only murders in the building”). O filme tem ritmo ágil, pontuado por imagens de arquivo bem pessoais, como gravações de vídeos caseiros de festas e encontros do ator, bastidores e making of, além de cenas de filmes, séries e esquetes em programas humorísticos. O documentário, da Netflix, equilibra irreverência, drama e autocrítica, expondo com delicadeza a vida de um ator que é dos mais completos e queridos tanto do público quanto dos colegas de cena.
 

 
Alma negra - Do quilombo ao baile
 
Realizado em 2024, com exibição em diversos festivais no Brasil e no mundo, como Festival do Rio, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival de Havana, Fest Aruanda (na Paraíba), Mostra de Cinema de Tiradentes e In-Edit Brasil, o excelente documentário é uma das melhores estreias do ano, que acaba de chegar aos principais cinemas do país. Com roteiro de Mariana Pamplona e Flavio Frederico (que dirige o filme), o longa reúne dezenas de nomes da música negra para celebrar a soul music no Brasil, percorrendo da década de 60 até agora. Shows históricos de Tim Maia, Cassiano e Gérson King Combo trouxeram a black music para o repertório nacional, com músicos pretos utilizando os palcos para performances descoladas e engajamento político. O filme foca nos bailes black que dominaram os espaços coletivos a partir dos anos 70, principalmente no Rio e em SP e RJ, reverenciado como uma força de resistência e reforço da identidade preta. Misturando cenas de shows e de entrevistas antigas (de músicos como Tim Maia e intelectuais como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez) com depoimentos atuais (de Carlos Dafé, Nelson Motta, Toni Tornado, Zezé Motta, Seu Jorge e Sandra Sá), o filme tem um ritmo dançante, montagem super ágil, cuja trilha sonora é assinada por Eduardo Bidlovski, DJ conhecido pelo nome artístico de BiD que produziu álbuns de Chico Science e Nação Zumbi. Com produção da Kinoscópio, em coprodução com a SoulCity, e distribuição da Synapse, o documentário é um amplo mergulho na cultura afrobrasileira a partir de um estilo de música que virou ato político e de pertencimento em um país marcado pela desigualdade social e discriminação contra pessoas pretas. 


Fanon
 
Muito se aguardou por uma cinebiografia de Franz Fanon (1925-1961), psiquiatra martinicano que se tornou um pensador crítico do colonialismo - e transcorridos 55 anos de sua morte, continua uma das vozes mais estudadas sobre a decolonialidade (eu, por exemplo, o estudei no meu Mestrado na PUC, especialmente seus dois livros-chave, “Os condenados da Terra” e “Pele negra, máscaras brancas”). O filme não é uma biografia completa de Fanon (da infância à morte), e sim de parte de sua trajetória, com foco no período que viveu e trabalhou na Argélia colonial, entre 1953 e 1956, e lá sua prática médica se entrelaçou com a luta política e o engajamento revolucionário. O longa apresenta Fanon (interpretado brilhantemente por Alexandre Bouyer, em seu terceiro longa e o primeiro como protagonista) em sua chegada ao hospital psiquiátrico de Blida, na Argélia sob domínio da França. Ali, seus métodos humanistas e inovadores entram em choque com a rigidez institucional, revelando tanto sua visão avançada sobre a saúde mental quanto a postura ética diante da opressão colonial. À medida que a Guerra da Argélia se intensifica, Fanon se aproxima da Frente de Libertação Nacional (FLN), movimento nacionalista de libertação do país. Fanon torna-se um militante ativo contra o domínio francês, e seu posicionamento influenciaria em seguida outros movimentos de libertação, como o dos povos sufocados na África e os da América Latina sob regime de ditaduras. O filme mostra como a vida pessoal de Fanon, ao lado da esposa Josie (papel de Déborah François, de “A datilógrafa”), foi atravessada por dilemas e violências que o tragaram para dentro do centro da resistência na FLN. Fanon defendia que a descolonização não era somente um processo político, mas cultural e subjetivo, que ampliava a libertação também dos corpos e das consciências – por isso sua voz ecoa nos tempos de hoje. Coprodução França, Luxemburgo, Canadá e Bélgica rodada na Tunísia e Martinica, tem uma direção interessada de Jean-Claude Flamand-Barny (que assina como Jean-Claude Barny), que dá um tratamento digno para o personagem em seu roteiro ao lado de Philippe Bernard. Como espectadores, vemos o percurso de um intelectual que rompeu fronteiras entre medicina, filosofia e política, tornando-se referência mundial no pensamento decolonial. O filme foi realizado em celebração ao centenário de nascimento de Fanon, em 2025, e infelizmente não teve o devido reconhecimento em festivais tampouco em premiações (só exibido em festivais menores). Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Fênix Filmes.



quinta-feira, 14 de maio de 2026

Especial de cinema

 
Especial ‘Mortal Kombat’
 

Mortal Kombat
 
Um grupo de lutadores de artes marciais participa de uma violenta competição em uma ilha mítica. Nas arenas espalhadas pela ilha, somente um poderá ganhar o torneio de luta.
 
Jogos de videogame de todos os estilos viraram adaptação para filme. “Tomb Raider”, “Príncipe da Pérsia”, “Warcraft”, “Super Mario Bros” e “Sonic” são alguns deles. Na linha de artes marciais, teve “Mortal Kombat”, uma das franquias mais conhecidas de quem joga, criada em 1992 pela Midway Games (na época sediada em Chicago e que depois abriu falência). O jogo, primeiro em arcade depois adaptado para Super Nintendo, Mega Drive, PlayStation e Xbox, destaca-se pela violência explícita, com dois competidores que lutavam até um morrer de forma cruel (havia as famosas “Fatalities”, com desfecho sanguinário do coitado do perdedor). Do jogo nasceram filmes, séries animadas e séries com atores, quadrinhos e milhares de itens de colecionador, consolidando-se como uma franquia multimídia.
Em 1995 o diretor inglês Paul W. S. Anderson realizou a primeira adaptação do jogo, numa fita puro suco do cinema B de ação dos anos 90, melhor que adaptações de jogos daquela época, como “Double dragon” (1994) e “Street fighter” (1994) - que ganhará nova versão esse ano. Foi uma tentativa de levar o universo dos games de luta para o cinema, mantendo o estilo frenético e de cores quentes de “Mortal Kombat”, com gráficos estilizados, bastante ação e violência. A trama acompanha quatro guerreiros escolhidos para enfrentar os campeões de Outworld em um torneio místico que decidirá o destino da Terra: Liu Kang (monge shaolin campeão do torneio), Johnny Cage (astro de TV que vira lutador), Kitana (princesa com leques de aço) e Sonya Blade (generala das Forças Especiais da Terra). Orientados por Raiden (Deus do trovão), eles enfrentarão na arena vilões difíceis de derrubar, como Sub-Zero (guerreiro com poderes de gelo), Kano (mercenário com olho cibernético), o vilão máximo, Shang Tsung (feiticeiro chinês), e Goro (monstro gigante de quatro braços).



Também aparecem para lutar Scorpion e Reptile, personagens com seus temidos poderes destrutivos. Esteticamente, o longa carrega o visual anos 90, com cenários que misturam ambientes exóticos e efeitos especiais hoje datados, mas que na época impressionavam (era um período em que o digital começava a surgir). O design dos personagens buscava fidelidade aos jogos, com cenários bem parecidos com o das fases, ainda que limitado pela tecnologia disponível; e a trilha sonora eletrônica se tornou um marco cultural, eternizando o grito “Mortal Kombat”, como no jogo. Tirando os atores caricatos e a direção de arte over/brega, o filme agradou parte dos fãs por respeitar a essência do material de origem e por transformar um jogo de luta em uma aventura mítica - fez boa bilheteria nos cinemas e se tornou fenômeno em VHS na época das extintas videolocadoras. No elenco, Christopher Lambert, Robin Shou, Linden Ashby, Talisa Soto, Bridgette Wilson-Sampras e o falecido Cary-Hiroyuki Tagawa. Disponível na HBO Max.
 
Mortal Kombat (Idem). EUA, 1995, 101 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por Paul W.S. Anderson. Distribuição: PlayArte/New Line
 
 
Mortal Kombat
 
Um lutador de MMA entra na maior competição de lutas marciais do mundo para enfrentar os inimigos da Outworld em uma batalha decisiva para salvar a humanidade.
 
A versão de “Mortal Kombat” de 2021, dirigida por Simon McQuoid, surge como uma reinvenção mais sombria e violenta da franquia, com gráficos mais modernos. Nessa atualização, há velhos personagens e novos. Introduz-se um lutador de MMA, Cole Young, personagem inédito, que descobre ser descendente de Scorpion (o vingativo ninja espectro que é morto-vivo), que precisa se unir a guerreiros como Sonya Blade, Jax e Liu Kang para enfrentar as forças de Shang Tsung, o feiticeiro chinês que suga a alma dos oponentes para se manter rejuvenescido. Diferente do filme de 1995, o foco é na brutalidade e na estética sangrenta, aproximando-se do estilo gráfico dos jogos mais modernos de “Mortal Kombat”, com fatalities reproduzidos de forma explícita.


O design dos personagens é mais elaborado, com figurinos e efeitos digitais que conferem realismo às habilidades sobrenaturais. A narrativa, embora criticada pela inclusão de um protagonista novo, busca expandir o universo e criar uma mitologia própria, sem deixar de lado referências diretas aos combates clássicos. Mais sério que o de 1995, é uma fita de ação violenta para fãs de artes marciais e de videogame. Saiu em DVD no Brasil e está disponível na HBO Max.
 
Mortal Kombat (Idem). EUA, 2021, 110 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por Simon McQuoid. Distribuição: Warner Bros.
 
 
Mortal Kombat 2
 
Os campeões invictos do torneio Mortal Kombat, agora acompanhados pelo ex-ator Johnny Cage (Karl Urban), são convocados para uma nova e decisiva batalha para derrotar o domínio sombrio de Shao Kahn, que ameaça a existência do Earthrealm.
 
Está nos cinemas desde semana passada (e indo bem de bilheteria) a continuação de “Mortal Kombat” de 2021, com assinatura do mesmo diretor, produtor e elenco. E o filme supera o anterior, em um longa empolgante, enérgico, que não dá fôlego nem um só minuto. Prepare-se para ação e adrenalina até dizer chega nessa sequência que prossegue no novo universo da franquia de jogos de videogame dos anos 90 “Mortal Kombat”, trazendo finalmente o torneio oficial de Mortal Kombat para o centro da trama. Com a chegada de personagens aguardados como Kitana e Quan Chi, o filme mergulha fundo na mitologia dos reinos orientais, explorando Outworld (a Exoterra) com cenários grandiosos e um design que mistura fantasia épica e brutalidade. A estética é marcada por efeitos visuais de última geração, que tornam os poderes dos lutadores mais impactantes e por figurinos que equilibram fidelidade aos jogos com uma abordagem cinematográfica sofisticada. A história se concentra na preparação dos guerreiros da Terra para enfrentar Shao Kahn (um vilão sinistro, com sua armadura fortificada e capacete de esqueleto), elevando o nível de ameaça e tensão. O filme é uma sucessão de batalhas, coreografadas com atenção ao detalhe, incluindo fatalities que homenageiam o clássico jogo. Kitana, Sonya Blade, Liu Kang, Kano, Shang Tsung, Jax e Raiden retornam à trama (interpretados por outros atores), e aparece agora em destaque Johnny Cage (que não aparecia no anterior e aqui é interpretado por Karl Urban), além de Baraka, um guerreiro feroz da tribo Tarkatan, conhecido por sua agressividade, boca enorme com dentes afiados e lâminas nos braços.



Diferente da primeira parte, a narrativa é mais coesa, dando protagonismo aos personagens já conhecidos, e tudo num ritmo frenético. Outras homenagens são diretas ao jogo clássico dos anos 90: a trilha sonora e cenários como a ponte cercada por ácido verde. Bom entretenimento para se ver na tela grande.
 
Mortal Kombat 2 (Idem). EUA, 2026, 116 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por Simon McQuoid. Distribuição: 
Warner Bros.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 4


Nino de sexta a segunda

Em exibição nos cinemas (pela distribuidora Filmes do Estação), o drama francês premiado no César e exibido nos Festivais de Cannes e Toronto acompanha quatro dias na vida de um jovem que é diagnosticado com câncer após um exame de rotina devido a uma dor de garganta. Nino recebe a notícia numa sexta-feira e fica perplexo; ele passa o fim de semana, até segunda-feira, preparando-se para o tratamento e lidando com expectativa, ansiedade e medos. A ficha demora a cair, Nino não compreende a situação delicada em que está (mas a única coisa que resta a ele é aceitar e fazer o tratamento). Nino resolve contar para as pessoas próximas, como a mãe e alguns amigos. O filme é uma jornada de emoções de um personagem solitário cruzando ruas e distritos de Paris refletindo uma dor que o atravessa. É um filme íntimo, que capta o que acontece ao redor daquele protagonista vagando pela cidade – pessoas dançando em boate, a agitação das ruas da capital, ele de bike olhando pela paisagem, enquanto sua mente tenta abstrair a notícia da doença. Serão dias decisivos para Nino nessa caminhada de descobertas e reflexão sobre morte, vida, e tudo o que ele cultivou até então. Exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2025, deu a Théodore Pellerin o prêmio de ator revelação (realmente um trabalho impressionante desse jovem ator canadense nascido na parte francesa, em Quebec, num filme todo dele). Lembra, mas é menos amargo que “É apenas o fim do mundo” (2016, de Xavier Dolan), uma fita que gosto muito, também sobre um jovem com doença terminal visitando família e amigos para contar a notícia estarrecedora. Exibido ainda nos Festivais de Toronto e do Rio, venceu o César de melhor primeiro filme (para a diretora Pauline Loquès) e também de ator revelação.



Era uma vez minha mãe

Novo título da California Filmes que entra nos principais cinemas brasileiros, a dramédia francesa coproduzida no Canadá é um bonito filme familiar, baseado na autobiografia do advogado francês Roland Perez, hoje um importante jurista. O título faz referência à mãe dele, Esther, uma mulher judia agarrada a princípios que a levaram até o fim a cuidar do filho – Roland nasceu com uma deficiência no pé que dificultava sua locomoção, e com auxílio da mãe, superou preconceitos e conseguiu estudar e se formar em Direito. São décadas na relação entre os dois, dos anos 60 até o presente; em uma família falante e agitada, Roland nasceu sob proteção daquela mãe que não media esforço em integrar o filho aos amigos do condomínio onde moravam e levá-lo no colo para passear pela cidade (já que ele não conseguia andar bem). O menino tem como fã a cantora popular da época Sylvie Vartan – ele canta suas músicas, tenta dançar como ela e sonha em encontrá-la (na trilha sonora do filme, há várias músicas da cantora, como “Irrésistiblement”, e Sylvie aparece numa rápida ponta como ela mesma, além de cenas dela antigas de TV). São vários atores interpretando Roland nas diferentes fases da vida do personagem (Gabriel Hyvernaud o faz dos 3 aos 5 anos, Naim Naji, dos 5 aos 7, Noé Schecroun, dos 11 aos 13, até a fase adulta, interpretado pelo bom ator Jonathan Cohen, de “Bastardos inglórios”). A mãe é encenada por Leïla Bekhti, atriz francesa de origem argelina, de “O profeta”, num papel acolhedor e reluzente, alternando momentos de drama e humor (a atriz foi indicada aqui ao César na categoria). É escrito e dirigido por Ken Scott, do filme inspirado em fatos reais “Meus 533 filhos” (2011, depois adaptado para uma versão americana com Vince Vaugh, “De repente pai”). Conta com bom trabalho de direção de arte, que refaz as décadas de 60 e 70 com todo aquele brilho, cores vibrantes e roupas extravagantes. Um filme sensível e agradável sobre uma mãe lutando contra tudo e todos para dar o melhor a seu filho.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 3

 
Tambor sem fronteiras
 
Documentário da gaúcha Adriana Gonçalves Ferreira que trata do candombe, manifestação afro-uruguaia marcada pelo som dos tamboriles (tambores) de pele única, composto por três instrumentos fundamentais - piano (grave), repique (tenor) e chico (contralto), profundamente enraizada na história do Uruguai, onde é considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2009. Criado no período colonial (entre os séculos XVIII e XIX) por populações escravizadas de origem bantu, o candombe é um cortejo com dança e ritmos carnavalescos, que inclui figuras como a Mama Vieja (matriarca), o Gramillero (curandeiro) e o Escobero (quem abre caminho), muito visto em Montevidéu e no interior do Uruguai, mas também em regiões dos pampas do Rio Grande do Sul. Por isso o documentário acompanha músicos dos dois países, na fronteira Brasil e Uruguai - as filmagens ocorreram em cidades gaúchas e uruguaias, fruto de intercâmbio cultural iniciado em 2015 pelo projeto Pampa Sem Fronteiras; e dessa troca nasceu um grupo importante de resistência que leva o candombe para todos os lugares, Grillos Candomberos de Bagé, que aparece no filme. Produzido pela Finish Produtora, o filme estreou em duas cidades do Rio Grande do Sul após exibição no 17º Festival Internacional de Cinema da Fronteira (em Bagé), Bagé e Porto Alegre, e no próximo dia 19 será exibido em Santa Maria (RS), com sessão gratuita e comentada pela equipe do longa. Um documentário musical independente de grande valor artístico/cultural.


 
Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão
 
Segundo filme Pedro Almodóvar, na época com 30 anos, escrito e dirigido por ele, dois anos depois da estreia em “Fode... Fode... Me fode Tim” (1978). É uma fita irreverente, ousada, esteticamente pobre e com humor estranho. Nessa primeira fase experimental do diretor, ele faz um retrato da efervescência cultural da Espanha pós-franquista. O filme narra a história de Pepi (Carmen Maura), jovem madrilenha que busca vingança após ser violentada por um policial. Ela conhece Luci (Eva Siva), dona de casa submissa que descobre prazer na humilhação, e Bom (Alaska), cantora punk que encarna a rebeldia da contracultura. Aquelas três mulheres, com seus gritos e exageros, representam uma crítica social sobre tabus de gênero e sexualidade, em um país em plena transformação. O longa veio no auge da Movida Madrileña, movimento artístico da contracultura que explodiu na Madrid dos anos 70 e redefiniu a estética no cinema, moda, música, literatura e artes visuais – ele foi produzido pela Figaro Films, ligada à Movida, e só cinco anos depois Almodóvar fundaria sua produtora pessoal ao lado do irmão Agustín, a El Deseo. A fotografia crua, os cenários improvisados, a imagem com riscos e imperfeições e o estilo artesanal revelam as limitações orçamentárias e também a disrupção criativa de Almodóvar (na época m nome desconhecido). O filme tem elementos do teatro, da performance, da estética kitsch, diálogos provocativos e a mistura de melodrama com comédia escandalosa que permeariam todo o cinema do cineasta espanhol. Em seguida viriam outros trabalhos cult dele dessa primeira fase, “Labirinto de paixões” (1982), “Maus hábitos” (1983 - considerado blasfemo, pois trazia um convento com freiras lésbicas e dopadas de cocaína) e “O que eu fiz para merecer isto?” (1984), em que reunia sempre o mesmo elenco, como Cecilia Roth, Carmen Maura e Marisa Paredes. Somente na década seguinte viriam seus maiores sucessos comerciais e indicações a Oscar, como “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Ata-me”, “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela” e outros. Exibido no Festival de San Sebastián, está em cópia restaurada na plataforma em streaming Sesc Digital até hoje, gratuito.



domingo, 10 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

 
O caminho para Saturno
 
Pérola de fotografia impressionante disponível gratuitamente até amanhã à noite (dia 11/05) no canal do CPC-Umes Filmes no Youtube. Restaurado no ano passado pela Mosfilm, o maior estúdio da Rússia, este é um filme raro realizado na URSS no auge da Guerra Fria, que traz contexto da época. Com direção de Villen Azarov, o drama de guerra rodado em preto-e-branco dramatiza um tema complexo: a infiltração de um agente russo em um clã nazista secreto. Na história, o Capitão Krylov (Mikhail Volkov), oficial de inteligência soviético, infiltra-se na organização “Saturno”, centro de sabotagem nazista, para conquistar a confiança de seus líderes e obter informações vitais a Moscou. O personagem central é inspirado em uma figural verdadeira, o agente Aleksandr Ivanovich Kozlov, apelidado de Baikal-60, que aos 23 anos, em 1943, até o ano seguinte, expôs mais de 100 agentes da inteligência hitlerista – que depois da guerra foram condenados. O filme é baseado no livro “Saturno é quase invisível”, de 1963, do jornalista e romancista Vassily Ardamatsky, especializado em thriller de espionagem. O longa reflete a tensão política da Guerra Fria e a memória da luta contra o nazismo, que havia acabado duas décadas antes. A caprichada produção utilizou tropas reais do Distrito Militar dos Cárpatos para dar autenticidade às cenas, filmadas em locações abertas em vez de estúdios, o que exigiu enorme esforço técnico e reforçou o realismo da história. A estética austera, de imagens duras com o PB, vem na estreia do estilo da época, em que o cinema funcionava como instrumento cultural, político e até didático. Teve uma continuação, “O fim de Saturno”, realizado no ano posterior, em 1968, com mesmo elenco, direção e equipe; enquanto na primeira história a ideia era levantar informações dos nazistas para Moscou, a continuação foca no revide soviético, quando oficiais da inteligência da URSS conseguiram desinformar o inimigo com a ajuda de relatórios falsos. “O fim de Saturno” contará com sessão online gratuita na plataforma da CPC-Umes no Youtube na próxima semana (de 15 a 18/05) – em https://www.youtube.com/@cpc-umesfilmes23


 
Aqui não entra luz
 
Estreando no cinema, a diretora Karol Maia realiza um documentário que nasce de uma experiência íntima e profunda: filha de uma ex-empregada doméstica, ela transformou memórias pessoais em investigação sobre o trabalho das domésticas no Brasil. O documentário independente reúne relatos de diversas mulheres que atuaram ou atuam no setor, e seu filme abre reflexões de como marcas da escravidão ainda aparecem nos lares contemporâneos. Com a câmera em punho e enfoque nos rostos das personagens, ela percorre São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, colocando as entrevistadas em lugares de destaque; elas falam sobre a profissão de doméstica, do preconceito, da relação com patrões e com a família. A ideia do “quarto de empregada” (aquele quartinho pequeno, isolado, com pouca ventilação, que muitos apartamentos e casas possuíam) simboliza no filme a velha lógica colonial da senzala e a Casa Grande – algo com frequência citado no doc. A pesquisa de Karol, de abordagem antropológica e sociológica, iniciou-se em 2017; agora pronto, a obra revela como a arquitetura e o cotidiano naturalizam desigualdades históricas. Karol narra em primeira pessoa, articula histórias pessoais, outras de pesquisa e reportagens lidas, e escuta atentamente às experiências de várias mulheres e seus familiares. Filmes como este servem de estudo sobre trabalho informal, exploração e precarização na sociedade atual, por isso indico todos e todas a assistirem. Produzido pelo Apiário Estúdio Criativo, com coprodução da Surreal Hotel Arts, venceu dois prêmios especiais no Festival de Brasília de 2025, e agora está nos cinemas, distribuído pela Embaúba Filmes.


  
Artacho Jurado: Sinfonia de um arquiteto
 
Nos últimos três anos foram produzidos três documentários brasileiros sobre arquitetura, tanto sobre a história por trás de edifícios imponentes, como “Pele de Vidro” (2023) e “Copan” (2025), quanto sobre as personalidades criadoras, no caso este que acaba de estrear nos cinemas, “Artacho Jurado: Sinfonia de um arquiteto” (2026), com direção da dupla Pedro Gorski e Teresa Eça. Assisti sem pretensão e saí com a impressão de ter visto um dos melhores documentários do ano, um filme vivo, didático, imersivo e com boas histórias ali contadas, que ensina sobre a arquitetura no Brasil pelos olhos de um genial esteta do ramo, João Artacho Jurado (1907–1983). Autodidata, sem formação acadêmica, filho de anarquistas espanhóis, levantou edifícios icônicos em São Paulo, que ainda são objetos de estudo, como o Bretagne, o Viadutos, o Louvre, o Saint Honoré e o Cinderela, prédios que desafiaram o modernismo com cores, formas orgânicas e espaços de convivência incomuns. Com ampla visão publicitária (área que seguiu por um período), Jurado deixou marcas profundas na paisagem urbana de São Paulo. Foi com sua construtora Monções, a partir de 1946, que desenvolveu projetos de estilo modernista com referências clássicas e art déco, voltados à classe média. O filme acompanha seu processo de criação, com uma montagem sinfônica, juntando arquitetura, cinema, música clássica (que Jurado adorava) e poesia, em depoimentos de familiares, jornalistas, pesquisadores no assunto, arquitetos e amigos, além de moradores de edifícios que ele projetou, que abrem seus lares para mostrar na prática o que Artacho havia elaborado e que deu muito certo (como as vistas contemplativas, entradas de ar com cobogós, arquitetura com desenhos ousados etc). O filme foi realizado pela Pink Flamingo, com coprodução do Canal Curta!, patrocínio do Itaú e distribuição nos cinemas pela Kajá Filmes.

sábado, 9 de maio de 2026

Especial de cinema

 
Vem aí a 15a edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba
 
Festival notório por apresentar filmes em primeira mão no Brasil, tanto nacionais quanto internacionais, o “Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba” chega à 15ª edição com mais de 70 títulos na programação. O festival ocorre na capital paranaense de 04 a 13 de junho. Estão reunidos curtas e longas-metragens distribuídos em oito mostras - Competitiva Brasileira, Competitiva Internacional, Novos Olhares, Mirada Paranaense Sanepar, Exibições Especiais, Olhares Clássicos Cine Passeio, Olhar Retrospectivo e Pequenos Olhares, além das sessões de abertura e de encerramento. A abertura do festival será no dia 04/06, com o filme brasileiro “Yellow cake”, de Tiago Melo – exibido na Ópera de Arame, em uma tela de 400 polegadas, com capacidade para cerca de 1500 pessoas; o de encerramento será em 13/06, de “Salvação” (“Kurtulus”), coprodução Turquia, França, Países Baixos, Grécia e Suécia ganhadora do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim desse ano.


Pôster oficial do festival - edição de 2026


Criado como um festival de cinema independente em 2012, o Olhar de Cinema já levou mais de 250 mil pessoas para as salas de cinema e exibiu mais de 1200 filmes do mundo inteiro. Consolida-se, assim, como um dos mais importantes festivais internacionais de cinema do Brasil. Além das exibições de filmes, haverá também o Seminário de Cinema de Curitiba (com debates, palestras e encontros com profissionais do audiovisual), três oficinas (realizadas entre os dias 05 e 07 de junho) e o CuritibaLab (laboratório de pós-produção de filmes, com consultoria de montagem e marketing).
O Olhar de Cinema é viabilizado por leis de incentivo e patrocínios, como Ministério da Cultura (via Lei Rouanet) e Governo do Estado do Paraná, via Secretaria da Cultura e Profice (Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná). Conta com patrocínio do Terminal de Contêineres de Paranaguá, Sanepar, Mili, Fomento Paraná e Solvay Peróxidos, além de apoio do Projeto Paradiso, Uninter, Cine Passeio, Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Icac (Instituto Curitiba de Arte e Cultura) e incentivo da Prefeitura de Curitiba e da Fundação Cultural de Curitiba.
 
Ingressos e locais de exibição
 
Os ingressos estarão à venda a partir do dia 12 de maio, pelo site oficial do evento, https://olhardecinema.com.br. Preços: Ingressos avulsos no valor de R$ 18 por sessão (inteira) e R$ 9 (meia), e credenciais a partir de R$ 147 (para até 19 sessões), conforme os lotes. Haverá sessões gratuitas, com retirada de ingresso 30 minutos antes da sessão.
Serão novamente cinco locais de exibição do festival: Cine Passeio, Museu Oscar Niemeyer (Auditório Poty Lazzarotto), Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Ópera de Arame.


 
Premiação
 
Os prêmios entregues no festival estão divididos da seguinte forma:
 
Competitiva brasileira – Longa
 
Prêmio Olhar de melhor filme, roteiro, direção de arte, som, direção, atuação, fotografia e montagem
 
 
Competitiva brasileira – Curta
 
Prêmio Olhar de melhor filme e Prêmio Especial do Júri
 
 
Competitiva internacional – Longa
 
Prêmio Olhar de melhor filme e Prêmio Especial do Júri
 
 
Competitiva internacional – curta
 
Prêmio Olhar de melhor filme
 
 
Seção “Novos olhares”
 
Prêmio Olhar de melhor filme
 
 
Prêmio do Público
 
Longa
 
Melhor filme (concorrem os filmes da Competitiva Internacional e Competitiva Brasileira)
 
 
Curta
 
Melhor filme (concorrem os filmes da Competitiva Internacional e Competitiva Brasileira)
 
Prêmios de parceiros
 
Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema)
 
Avec-PR (Associação de Vídeo e Cinema do Paraná)
 
Canal Brasil
 
 
Filmes na programação das Competitivas
 
 
Mostra Competitiva Brasileira – Longas:
 
São 16 filmes nacionais na programação:
 
1.   A noite e os dias de Miguel Burnier (Dir. João Dumans)
2.   Adulto/Homem (Dir. Pedro Diógenes)
3.   Cerimônia (Dir. Fabio Ramalho, André Antônio, Chico Lacerda)
4.   Disciplina (Dir. Affonso Uchôa)
5.   Duwid Tuminkiz – Makunaima é Duwid? (Dir. Gustavo C. Wapichana)
6.   Fiz um foguete imaginando que você vinha (Dir. Janaína Marques)
7.   Marimbã está acontecendo (Dir. Maryn Marynho)
8.   Maxita (Dir. Mariana Machado e Ana Maria Machado)
9.   O segredo sagrado (Dir. Everlane Moraes)
10.Olhe para mim (Dir. Rafhael Barbosa)
11.Pinguim de doce de leite (Dir. Ana Vitória Miotto Tahan)
12.Pirexia (Dir. Nico da Costa)
13.Quase inverno (Dir. Rodrigo Grota)
14.Reparação (Dir. Marcus Curvelo)
15.Telúrica, a íntima utopia (Dir. Mariana Lacerda)
16.Um filme para lembrar da utopia (Dir. Reinaldo Cardenuto)
 
Mostra Competitiva Internacional – Longas:
 
São 15 filmes de vários países, como França, Irã, Canadá, Turquia, Itália, Marrocos, Albânia, Bolívia e Chile:
 
1.   A noite já está partindo (Dir. Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas)
2.   Bouchra (Dir. Orian Barki e Meriem Bennani)
3.   Cada época sonha com a próxima (Dir. Johannes Gierlinger)
4.   Cartas a meus pais mortos (Dir. Ignacio Agüero)
5.   Desencaixar (Dir. Danielle Kaganov)
6.   Dragão (Dir. Yashira Jordán)
7.   Má sorte (Dir. Jan Eihardt)
8.   Nan Ginen (Dir. Feguenson Hermogène)
9.   Não me deixe morrer (Dir. Andrei Epure)
10.O inimigo (Dir. Andrej Chinappi)
11.O profeta (Dir. Ique Langa)
12.Outra terra (Dir. Ben Russell)
13.Se pombos virassem ouro (Dir. Pepa Lubojacki)
14.Sussurros de um perfume ardente (Dir. Mo Harawe)
15.Um calendário incompleto (Dir. Sanaz Sohrabi)
 


Filmes clássicos e restaurados
 
A seção “Olhar Retrospectivo” da edição desse ano do festival homenageia o cineasta polonês Andrzej Wajda (1926-2016), apresentando seis filmes seus restaurados, realizados entre os anos 60 e 70, como “Terra prometida”, “Caça às moscas” e “O maestro”. Já na “Olhares Clássicos Cine Passeio” serão 10 filmes antigos, de vários países, como Alemanha, Brasil, Estados Unidos e França, em cópias restauradas que voltarão para a tela do Olhar de Cinema. São filmes de diretores conceituados, como Béla Tarr, David Lynch e Frederick Wiseman. Dentre eles estão “As aventuras do Príncipe Achmed” (1926), “Vento norte” (1951), “High School” (1968) e “Veludo azul” (1986).
 
Outros filmes no festival
 
Na programação, entre as seções “Exibições Especiais” e “Novos Olhares”, filmes do mundo todo, feitos entre 2025 e 2026 integram a programação, como “A paixão segundo GHB”, “Segunda pele”, “Anistia 79”, “Barbara Forever” e “Futuro futuro”.





* Fotos extraídas do site oficial do festival 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1



A fúria

Do movimento Cinema Novo, somente Ruy Guerra está vivo, e na ativa, aos 94 anos. As produções cinematográficas do cineasta moçambicano radicado no Brasil atravessam sete décadas: do primeiro curta-metragem, “Quand le soleil dort” (1954), e o primeiro longa, o “Os cafajestes” (1962), até chegar à “A fúria” (2024), filme que encerra uma trilogia iniciada no auge do referido Cinema Novo. A “Trilogia dos Fuzis” abria com o hipnotizante “Os fuzis” (1964), cruzava com “A queda” (1978) – ambos premiados no Festival de Berlim, e encerra com “A fúria”, que acaba de estrear nos cinemas, após vencer dois prêmios na edição passada do Festival de Brasília. Seu novo longa é uma obra simbólica que reúne ilustres personagens dos dois trabalhos anteriores - enquanto em “Os fuzis” (um de meus filmes brasileiros preferidos) expunham-se a fome e a repressão no sertão e em “A queda” discutiam-se dilemas morais e corrupção no ambiente urbano e empresarial com as mesmas figuras (vividas por Nelson Xavier, Hugo Carvana e Paulo César Peréio), “A fúria” traz uma ampla discussão sobre o mundo político no Brasil da última década, focando na ganância e a degradação institucional. Personagem central nos anteriores, Mário, um ex-operário da construção civil (antes papel de Nelson Xavier, mas neste aqui interpretado por Ricardo Blat) enfrenta os espectros da ditadura e da corrupção política no país. Ele volta do mundo dos mortos (ele foi assassinado na ditadura) para assombrar o sogro e empreiteiro Salatiel (Lima Duarte), um empresário inescrupuloso, e Feijó (Daniel Filho), um político disposto a tudo para calar as pessoas. Diferente dos dois primeiros filmes, que privilegiavam o realismo e locações abertas, este novo capítulo foi rodado em estúdio, com cenários sombrios e estilizados, que o aproximam à linguagem do teatro, reforçando a atmosfera alegórica. O clima é de devaneios e loucura, com enquadramentos fortes no rosto dos atores, uma pegada meio expressionista. A narrativa é direta, dividindo personagens entre justos e corruptos, num longo embate em plena época de crise moral e institucional (com direito até a um Bolsonaro no desfecho). O elenco entrega o melhor de si: Blat, Duarte e Filho, além de Grace Passô, Simone Spoladore e participações rápidas de Paulo César Pereio, Maria Gladys, Antonio Pitanga e Urutau Guajajara. Misturando drama e thriller político, o filme é uma fábula quase dantesca sobre memória, justiça e as feridas abertas da Ditadura, contando com as experimentações estéticas que Ruy Guerra sempre se apropriou muito bem. Ele dirige a direção com Luciana Mazzotti, sua ex-mulher e roteirista também. Está pela segunda semana em exibição nos cinemas pela Pandora Filmes – antes de ver, recomendo conhecer os anteriores (em “A fúria” há cenas dos filmes “Os fuzis” e “A queda”, que retornam como lembranças dos personagens e serve para o público ter base para o desdobramento daqueles anos todos).
 

Michael
 
“Michael” é o filme do ano que vem arrastando muita gente ao cinema e, como não poderia ser diferente em biografias de ícones pop, dividindo a opinião do público e da crítica. Dirigido com vigor e emoção entusiástica por Antoine Fuqua (diretor de obras policiais, parte delas com Denzel Washington, como “Dia de treinamento” e “O protetor), é uma cinebiografia grandiosa do cantor e compositor Michael Jackson (1958-2009), que contagiou o mundo com suas canções vibrantes, porém esteve envolvido em uma série de polêmicas, como acusações de abuso sexual infantil e mudanças drásticas na aparência de clareamento de pele. Na altura do campeonato, fala-se muito na retirada dessas polêmicas do roteiro. Vamos analisar: Hollywood é careta na hora de retratar fielmente uma personalidade pública, ainda mais um nome de relevância e querido por uma legião de fãs como Michael, portanto deu espaço para fazer um filme mais positivo sobre ele; segundo ponto, o filme é assinado pelos irmãos de Jackson como produtores, e como os casos de pedofilia caíram por terra em 2005, após Michael ser absolvido de todas as acusações, resolveram não mexer no vespeiro. Por enquanto, pois, como já é sabido, haverá uma parte 2 em breve (que está em produção). Discutiremos o que está na tela e não aquilo que poderia ter sido: “Michael” é uma cinebiografia contagiante, um filmão publicitário que faz o público se emocionar, cantar e dançar junto. Filme feito para fã, com longas cenas reinventadas de shows dele, misturando espetáculo musical e drama familiar. O longa acompanha a jornada de descoberta de Michael no universo musical. A primeira parte (os 25 minutos iniciais) focam na formação de “The Jackson 5”, a banda de Michael e seus quatro irmãos, que surgiu dentro de casa com comando austero do pai, Joe Jackson, que se tornaria o empresário de grande parte da trajetória de artista depois. Na segunda parte, o filme traz Michael procurando carreira solo, ainda se dividindo no Jackson 5 (que viraria “The Jacksons”), até 1979, quando lançou um disco que surpreendeu, vendendo milhões de cópia, “Off rhe wall” (1979), produzido por Quincy Jones. O disco trazia faixas que ficaram no topo da parada das rádios, como "Don't stop 'til you get enough" e "Rock with you". A terceira parte do longa é a tentativa incessante de Michael sair das garras do pai patrão, um homem austero, difícil, violento, que batia nele quando criança. Enquanto Michael tenta atravessar a rua nessa nova fase da carreira, a sombra do pai o persegue. É quando ele lança o épico disco “Thriller” (1982), o que fez o cantor explodir e se tornar um dos 10 músicos pop mais influentes dos anos 80 – a partir daí a crise familiar aumenta, tentando lidar com o pai furioso, que não aceitava o sucesso do filho mais novo longe dos irmãos na banda que ele criou em Gary. Michael tinha apoio secreto da mãe, enquanto os irmãos seguiram aos poucos outras carreiras fora da música. O filme se divide bem entre o palco e os ensaios nas gravadoras com as questões familiares de Michael e seu dia a dia: mostra ele adotando animais que depois manteria no rancho apelidado de Neverland, como o chimpanzé Bubbles, lhamas e girafa (foram mais de 130 animais diferentes), a fixação por Peter Pan (por isso o nome do rancho) e a descoberta do vitiligo. Sem dúvida a interpretação de Jaafar Jackson, sobrinho do astro, de 29 anos, é o ponto máximo do filme – o rapaz ficou a cara do tio e em muitos momentos até melhor que Michael no palco (sem ofensa a Michael, que admirava como músico). Jaafar (que é filho de Jermaine) afinou a voz, emagreceu, ficou com silhueta idêntica ao do tio, e seu rosto surpreende pelas semelhanças. É a estreia do rapaz no cinema, após uma breve carreira como cantor e dançarino, e com certeza será indicado a Oscar e outros prêmios em 2027. Colman Domingo faz muito bem o papel do pai, num trabalho difícil, um homem violento que bate no filho e o fulmina com seu olhar arregalado (o personagem usa anéis e correntes, de sobrancelha pintada, lentes claras, mas esse over era o estilo do verdadeiro Joe Jackson). E Nia Long interpreta a mãe conciliadora, Katherine Jackson, num bom papel também – Katherine está viva, com 96 anos. Outros atores valem destaque, como Juliano Valdi (o Michael do período Jackson 5), Mike Myers como o empresário musical Walter Yetnikoff, dono da CBS Records, KeiLyn Durrel Jones como o chefe de segurança e motorista de Michael Bill Bray, que trabalhou com ele por mais de 25 anos e foi seu fiel escudeiro, chamado por Michael de “pai”, e Milles Teller como o advogado de muitos artistas famosos da época John Branca. O filme faz enorme carreira nos Estados Unidos e Brasil; em seu primeiro fim de semana arrecadou mais de US$ 217 milhões, tornando-se a maior estreia de uma cinebiografia na História do cinema, e acumula, nessa terceira semana nas salas de mais de 80 países, U$ 440 milhões em bilheteria (superando o orçamento. de U$ 155 mi). Os ótimos figurinos próximos do real fazem o recorte da época, há momentos de puro encanto e musicalidade (como as gravações do clipe de “Thriller” com os zumbis), ou seja, é um filme de entretenimento classe A para homenagear a carreira de um astro inigualável, mesmo que as polêmicas fiquem de fora (acordos judiciais e a supervisão do espólio de Jackson limitaram também a profundidade da adaptação de sua vida para o cinema, que se concentra em celebrar o mito em vez de confrontar suas contradições - inclusive a irmã Janet Jackson não aceitou participar por desacordos no roteiro e desavenças familiares, segundo contou à imprensa a outra irmã de Michael, La Toya Jackson). Vamos aguardar a parte 2 para saber que tipo de história e informações serão lá colocadas – a Lionsgate informou essa semana que a continuação terá Antoine Fuqua na direção, e que ele já gravou as primeiras cenas, cuja trama segue a partir de 1988, após o lançamento do disco “Bad”, de 1987, e da última turnê de Michael com os irmãos; o roteiro continuará de John Logan (indicado a três Oscars) e a produção de Graham King, vencedor do Oscar por “Bohemian rhapsody”. Nos cinemas pela Universal Pictures.

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

  Eclipse   Filha do casal de cineastas Helena Ignez (também atriz) e Rogério Sganzerla (mente por trás do Cinema Marginal), Djin Sganzerla ...