O
estrangeiro
François
Ozon, aclamado diretor francês que realiza até dois filmes por ano, fez uma
belíssima e atualizada versão para o cinema do clássico livro “O estrangeiro”,
de Albert Camus, publicado originalmente em 1942. Ultimamente Ozon roda seus
filmes em PB e aqui repete a dose, recorrendo a uma fotografia de brilhar os
olhos – situada na Argélia da década de 30, quando ainda colônia da França.
Observador, Meursault (Benjamin Voisin, que trabalhou com o diretor em “Verão
de 85”) é um rapaz fechado em seu mundo próprio, sem empatia pelos outros. Faz
sexo com uma jovem e diz a ela que não sente atração nem desejo por ninguém.
Num dia de sol, comete um assassinato na praia e vai para julgamento. Pensativo
sobre a morte recente da mãe, ele se põe a questionar seus feitos, trancado
numa cela enquanto aguarda seus dias finais – já que ele pode ser guilhotinado,
caso seja culpado pelo crime. Tanto livro quanto a versão de Ozon trabalham
temas comuns no universo de Camus, como alienação e indiferença ao mundo e aos
outros. Filosófico, na linha do existencialismo, é uma obra madura do cineasta,
que marca sua nova fase de criação. Voisin, o ator principal, compila a
essência do personagem Meursault com seus olhares apáticos e constante
desinteresse pelas pessoas que cruzam seu caminho. Exibido no Festival de
Veneza de 2025, onde concorreu ao Leão de Ouro, o assisti no Festival do Rio e
agora o filme está em cartaz no Brasil, com distribuição pela California Filmes.

Pacto
de redenção
Lançado
em 2023 no Festival de Toronto e no ano seguinte nos cinemas internacionais e
brasileiros, o filme é a segunda investida do ator indicado ao Oscar Michael
Keaton como diretor. Ele também atua nesse sólido drama de suspense, como o protagonista,
um assassino de aluguel chamado John Knox, que recebe o diagnóstico de uma
forma rara de demência. Seu médico informa que a doença acometerá rapidamente o
cérebro, então Knox resolve se afastar do mundo do crime para se reconectar com
o filho, Miles (James Marsden). Na reaproximação, ele dará uma mão para o rapaz
se livrar de um brutal assassinato, só que as coisas sairão do controle. A trama
envolve e traz novos elementos no decorrer do filme, desenrola-se em ritmo
tenso, explorando tanto a fragilidade da memória do protagonista quanto os
dilemas morais de um homem que sempre esteve à margem da lei. Keaton realizou
um trabalho maduro e de consistência (como diretor e ator), injetando uma atmosfera
sombria e intimista na obra, que conta com a ajuda de um elenco de peso, como Joanna
Kulig, Ray McKinnon, Dennis Dugan, Jimmy Ortega e participações especiais de Al
Pacino e Marcia Gay Harden. São 114 minutos que passam voando, num thriller interessante
sobre a última chance de redenção de um criminoso. Disponível no streaming da
HBO Max.

Pai
do ano
Segundo
filme da atriz Hallie Meyers-Shyer como diretora e roteirista, sete anos depois
da comédia romântica com Reese Witherspoon “De volta para casa” (2017). Agora o
humor é menos nessa comédia dramática protagonizada por Michael Keaton, que na
última década vem entregando papeis marcantes de homens maduros em crise
conjugal/afetiva/familiar. Em “Pai do ano” (2024), Keaton interpreta Andy
Goodrich, um galerista de arte cuja vida dá uma sacolejada quando a esposa
Naomi (Laura Benanti) decide se internar em uma clínica de reabilitação por 90
dias, por causa do vício em remédios. Andy sempre foi dependente da mulher para
tudo, inclusive para cuidar do casal de filhos gêmeos temporãos. Sem saber o
que fazer, pede ajuda para a filha com quem não tem bom relacionamento, Grace
(Mila Kunis), fruto do primeiro casamento há quase 40 anos. Os dois voltam a se
falar, em primeiro momento ela estranha, e ambos se abrem para uma
reaproximação. Até Andy descobrir que Grace está gravida e será avô pela
primeira vez. Uma história bonita, leve, de reconexão familiar (no caso, de pai
que se reencontra com a filha que nunca cuidou direto), que mistura uma comédia
simpática a um drama emotivo. Diferente ver também na tela um personagem de
quase 60 anos, o protagonista Goodrich (que é o título original do filme), que precisa
amadurecer às pressas para lidar com a tarefa de ser pai triplo (tanto das
crianças gêmeas quanto da filha mais velha). Tem momentos delicados, como o
desfecho, ótimas atuações de Keaton e Mila – e ainda aparecem no filme em
pequenas participações Andie MacDowell e Kevin Pollak, e uma história fácil de
se envolver, por tocar em questões humanas. Disponível no streaming do Prime
Video.
Máquina
de guerra
Novo
filme de ação barulhento da Netflix, que não desaponta com uma trama de
perseguição de roer as unhas e efeitos visuais supereficientes. Suspense, ação
e ficção científica são os três gêneros fundidos numa trama que lembra “O predador”,
só que com uma máquina mortífera no lugar da criatura espacial. Um campo de
treinamento militar em uma área isolada, próximo a uma floresta, vira cenário
de terror quando um grupo de recrutas passa a ser caçado por um estranho
aparato vindo do espaço que atira centenas de balas por minuto, joga bombas e
tem um visor que localiza facilmente as presas. É uma máquina gigante, como um robô
sem rosto, que espalha destruição por onde anda. Os sobreviventes, liderados
pelo agente 81 (Alan Ritchson, de “Jogos vorazes: Em chamas”), procuram lugares
para se esconder e planejar maneiras de acabar com o monstro de metal. Aquele
grupo habituado a exercícios extenuantes no campo de treinamento precisará
lidar com uma nova forma de inimigo, revelando que o combate vai além das
fronteiras humanas. Diretor, produtor e roteirista australiano, Patrick Hughes é
conhecido dos cinéfilos de fitas de ação, por ter feito “Os mercenários 3” (2014
- um dos mais explosivos e absurdos da franquia) e as duas partes de “Dupla
explosiva” (2017 e 2021); agora ele entrega seu melhor trabalho, pelo menos o mais
impactante, um filme-pipoca de sobrevivência repleto de corre-corre e explosões.
As batalhas são meticulosamente coreografadas, há cenas espetaculares de fuga, e
a câmera ágil acompanha tudo, com cortes dinâmicos. E o longa não fica só ali na
ação na selva: tem certo drama intimista, já que protagonista é atormentado por
lembranças de uma tragédia que o faz seguir em frente. Participam do filme
Dennis Quaid, Stephan James, Esai Morales, Jai Courtney e James Beaufort (ator
que é também o roteirista do filme junto de Hughes). Disponível na Netflix.