sábado, 18 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

 
 
Pompeia: Sob as nuvens
 
Gianfranco Rosi, premiado diretor e produtor de cinema italiano, reafirma sua posição como um dos maiores documentaristas contemporâneos ao construir um retrato poético (e bem multifacetado) de Nápoles, cidade localizada a 25 quilômetros da histórica Pompeia, que foi dizimada pelo vulcão Vesúvio há 1950 anos. O filme, rodado em preto-e-branco, traz, em pequenos fragmentos, a vida cotidiana de uma comunidade que convive com a presença constante de dois vulcões vizinhos, o Vesúvio e o Campi Flegrei, símbolo de ameaça permanente. Pompeia virou um sítio arqueológico e parada para turismo, que movimenta a economia da região de Nápoles. Rosi, de “Fogo no mar” (2016 - indicado ao Oscar), articula um mosaico que transita entre o íntimo e o universal, revelando gestos simples da rotina dos moradores e os ecos de séculos de cultura e tragédia. Ele evita o formato tradicional de documentário: não há entrevistas, nem narrações didáticas ou guiada, tudo são passagens contemplativas, de escavadores procurando vestígios, esculturas preservadas da época, pessoas ligando para bombeiros por causa da sensação de terremotos, imagens de sobrevoo sobre os vulcões. A narrativa se desenrola como um fluxo de imagens belamente fotografadas (em um PB estonteante) que alternam o extraordinário e o banal, criando uma atmosfera de contemplação. A trilha sonora de Daniel Blumberg, compositor britânico ganhador do Oscar por “O brutalista” (2024), intensifica essa sensação, funcionando como contraponto emocional às cenas de ruas, rostos e paisagens. O título remete à sombra das nuvens que pairam sobre Pompeia e Nápoles, metáfora da convivência entre beleza e risco, passado e presente. Vencedor do prêmio especial do Júri no Festival de Veneza de 2025, onde concorreu ao Leão de Ouro, a fita de arte está disponível na plataforma da Mubi.
 

 
Betty Blue
 
E retorna para os cinemas brasileiros neste final de semana um de meus filmes de arte preferidos, que consagrou o falecido cineasta Jean-Jacques Beineix, bem como foi o ponto de partida da carreira dos principais nomes do elenco. O filme está de volta em uma excelente cópia com novo master em 4K pela Pandora Filmes, em edição comemorativa de seus 40 anos. A envolvente trama acompanha Zorg (Jean-Hugues Anglade), um jovem pintor que restaura casas de praia na Riviera Francesa e que pretende ser escritor. Certo dia aparece pelo bairro uma bela moça, de nome Betty (Béatrice Dalle), que desperta a atenção de Zorg. Os dois iniciam um tórrido relacionamento, mas aos poucos o rapaz percebe que Betty é neurótica e violenta. Drama e romance erótico entram com tudo nesse road movie melancólico, de cores quentes vivas, e uma interpretação intensa da atriz Béatrice Dalle, estreante no terceiro filme do diretor Jean-Jacques Beineix (1946-2022), criador do movimento Cinema du Look (“Cinema do Olhar”), ao lado de Leos Carax e Luc Besson. Tal movimento explorava a juventude marginalizada da França das décadas de 80 e 90, por meio de filmes estilizados e de visual elegante. Beineix dirigiu antes, dentro do “Olhar”, “Diva – Paixão perigosa” (1981) e “A lua na sarjeta” (1983), porém “Betty Blue” tornou-se especial no coração dos cinéfilos. Betty entrou para a galeria de personagens marcantes do cinema, uma protagonista de espírito livre, ao mesmo tempo instável e temperamental, que vai enlouquecendo, brigando com quem está ao redor em seus acessos explosivos. Béatrice é uma atriz de estranha beleza, perfeita para o papel dessa jovem irritada quando contrariada, e que depois faria vilãs no cinema francês (dá medo sua interpretação no terror francês “A invasora”, por exemplo). A trilha do libanês Gabriel Yared (vencedor do Oscar por “O paciente inglês”) é inesquecível, com arranjos ecléticos de sax, gaita e música circense, que caem como uma luva nessa fita de arte sensual - na época recebeu classificação 18 anos (há cenas de sexo selvagem, incluindo a abertura de um minuto). Indicado ao Oscar, Bafta e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, “Betty Blue” foi exibido nos festivais de Toronto e Edimburgo e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Montreal. A produção e o roteiro são de Beineix, e a obra é uma adaptação do livro de Philippe Djian, escritor de outros livros eróticos que viraram filmes, como “Elle” (com Isabelle Huppert). A versão que volta aos cinemas é a original apresentada em 1986, de 119 minutos – existe uma versão do diretor, de 185 minutos (ou seja, 66 minutos a mais que a de cinema) que saiu no Brasil em DVD em 2004 pela Columbia Pictures, que recomendo caso não conheçam (versões do diretor, com grande duração, valem a pena pois se tornam outro filme, com cenas extras e até novo corte).
 

 
O mago do Kremlin
 
O diretor, produtor e roteirista (e que trabalhou muito tempo como crítico de cinema) Olivier Assayas intercala em seu cinema filmes de arte independentes com dramas históricos com figuras reais ou contextos notórios. “O mago do Kremlin” está na lista de seus filmes de base histórica, assim como “Wasp: Rede de espiões” (2019) e a minissérie “Carlos, o Chacal” (2010) - e todos eles trazem a espionagem como ponto de partida, tema explorado pelo cineasta desde sua estreia na década de 80. Novamente Assayas reúne elenco americano em um filme crítico e de trama altamente complexa, cheia de nomes, lugares e situações. Paul Dano interpreta o protagonista do drama, Vadim Baranov, personagem fictício inspirado no empresário russo Vladislav Surkov, ex-conselheiro de Putin que atuou no gabinete do presidente por mais de 10 anos. O longa escancara os bastidores do poder do governo russo durante os anos 1990 e 2000, período marcado pelo colapso da União Soviética, pelo fim do socialismo e a ascensão de Vladimir Putin. Baranov, antes produtor de TV e homem do teatro, é recrutado para ser o arquiteto da propaganda do Kremlin, moldando a imagem de Putin como o líder ideal que iria recriar o país. Por ser da mídia, ele sabia como mexer os pauzinhos para manipular percepções em escala nacional, utilizando a TV, o rádio e os jornais em prol da propaganda russa. Baranov se torna o ideólogo de Putin, o mago do governo, numa relação primeiramente fiel e subordinada, depois instável entre os dois – Jude Law encarna o presidente russo a partir da metade do filme (já que antes disso Putin não “existia” na história inicial, que foca em Surkov). Law entrega uma interpretação marcada por exageros, mas olhando a fundo são as caretas e trejeitos do próprio Putin, com sorrisinho de lado, biquinhos, olhar compenetrado. O filme é um drama histórico mesclado com thriller político, com diálogos difíceis, que explicam os bastidores sombrios do governo Putin, passando pelas alianças e as crises. É uma fábula moderna sobre disputas pelo poder e pelas narrativas, fazendo uma reflexão da Rússia autoritária de Putin, uma figura temerária que governa o país com mãos de ferro desde 1999. Assayas mistura ficção e documentário, com muitas imagens de arquivo, reportagens da época e vídeos reais, fazendo um trabalho coeso, que vale a pena ver. O elenco reúne também a ganhadora do Oscar Alicia Vikander, Jeffrey Wright e Tom Sturridge. Adaptado do livro do italiano Giuliano da Empoli, o filme teve estreia mundial no Festival de Veneza de 2025 e está em cartaz nos cinemas pela Imagem Filmes.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1

 
Com causa
 
Documentário do cineasta carioca Belisario Franca em mais uma parceria com o diretor Pedro Nóbrega, desta vez sobre ativismo ambiental, e não mais tratando de figuras ou cenas políticas como costumam fazer. Aqui eles fazem uma colcha de retalhos com depoimentos de ativistas do mundo todo em torno de seus projetos, visando a construção de um mundo menos violento, que cuide do meio ambiente para as futuras gerações. Com imagens belas e nítidas das águas, das florestas e do solo, seguindo da Amazônia à África e passando pela Europa e Ásia, o filme é um apelo para o despertar da conscientização humana, trazendo depoimentos de figuras notórias do ativismo mundial, como Ailton Krenak, Paul Watson, Carmen Silva e Muzoon Almellehan. Um filme para ver, sentir e refletir, tanto contemplativo quanto de crítica social. Produzido pela Giros Filmes, teve exibição no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP, e está em exibição nos principais cinemas brasileiros desde semana passada. Distribuição da Bretz Filmes.


 
Vidas entrelaçadas
 
Angelina Jolie é a estrela do novo filme da cineasta francesa Alice Winocour, de ‘Transtorno’ (2015) e ‘A jornada’ (2019), que estreou no Festival do Rio – eu o assisti lá, ainda com o título original, “Couture” (termo que significa ‘Alta costura’). Angelina está lindíssima e bem fotografada, interpretando o papel de uma diretora de cinema que viaja a Paris para filmar a temporada do Fashion Week. Enquanto prepara o estúdio e as modelos, aguarda ansiosamente os resultados de um exame médico que fez nos Estados Unidos (de câncer). Os fragmentos da trajetória dessa mulher se entrelaçam com os de outras duas personagens femininas: uma modelo sul-sudanesa de 18 anos (Anyier Anei), que está no mesmo evento, em seu primeiro trabalho na passarela, e uma maquiadora (Ella Rumpf) que trabalha sem descanso. Cada uma a seu modo enfrenta os incansáveis dias da Semana de Moda ao mesmo tempo em que lidam com questões íntimas. Um bonito e correto filme sobre o universo feminino no mundo da moda, energicamente interpretado pelo trio central de atrizes. No elenco vemos ainda Vincent Lindon como um médico e Louis Garrel como o par romântico de Angelina. Selecionado para a competição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián 2025, foi exibido nos festivais de Toronto e Roma. Estreia hoje em oito cidades brasileiras, como SP, RJ, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba, com distribuição da Synapse.
 


Família de aluguel
 
Dirigido pela cineasta japonesa Mitsuyo Miyazaki, que assina apenas como Hikari, o emocionante “family film” é ambientado na Tóquio atual e traz um papel luminoso de Brendan Fraser como Phillip Vanderploeg, um ator americano em solo japonês que enfrenta uma crise profissional e tenta reencontrar-se após anos de carreira estagnada. A idade também pesa sobre ele. Descobre, por acaso, uma agência japonesa especializada em “famílias de aluguel”, que contrata intérpretes para desempenhar papéis de parentes, parceiros amorosos ou amigos em situações cotidianas. É uma agência inovadora, e ele, ator, por ter encarnado muitos papéis em sua vida, decide arrumar um emprego lá. Após assinar o contrato, o solitário Phillip passa diariamente a assumir diversas identidades na vida de desconhecidos, como marido, irmão e pai, tornando-se companheiro conforme a necessidade do cliente. O que ele não imaginaria era ser pego numa armadilha do coração: em um dos papéis sociais que assume, como o pai de uma garota rebelde chamada Mia (Shannon Mahina Gorman) que retorna ao seio familiar, ele se verá preso numa relação impossível de ser distanciada ou desvinculada. Phillip encontrará em Mia vínculos genuínos que o ajudarão a redescobrir o valor do afeto e da conexão humana. O roteiro foge do melodrama fácil, mas usa e abusa de cenas que nos aflora a emoção, em uma narrativa intimista que discute a solidão e a necessidade de afeto em um mundo fragmentado por relações vazias (ou líquidas, segundo o filósofo Zygmunt Bauman). Fraser, hoje com 57 anos, voltou a carreira com tudo após uma década e meia entregue ao relento – foi astro nos anos 90 (mas apenas um rosto bonito em fitas abobalhadas de comédia), teve depressão, sofreu assédio sexual na indústria de Hollywood e se afastou das telas; até entrar de cabeça num dos papeis mais incríveis do cinema e ganhar o Oscar por ele, em “A baleia” (2022). Esteve em seguida em “Assassino da Lua das Flores” (2023), de Martin Scorsese, e agora nesse filme adorável e sentimental de Hikari, demonstrando vitalidade e recuperação do tempo perdido. A estreante Shannon Mahina Gorman, de 10 anos, é outro destaque, e pelo papel recebeu indicação ao Critics Choice de 2026. O elenco japonês conta com mais de 25 nomes, como Mari Yamamoto, das séries “Pachinko” (2022-2024) e “Monarch: Legado de monstros” (2023-), e Takehiro Hira, indicado ao Emmy e ao Critics Choice de ator coadjuvante pela série “Xógum: A gloriosa saga do Japão” (2024-2026), o que reforça a autenticidade cultural da trama. Exibido nos festivais de Toronto, Zurique, Tóquio e Rio de Janeiro, é escrito, produzido e dirigido por Hikari (ela dirigiu o lindo drama “37 segundos”, de 2019, e é uma das criadoras e produtoras da série da Netflix “Treta”). O filme passou nos cinemas brasileiros em janeiro de 2026, e estreia agora no streaming Disney+.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Especial de cinema

 
“É Tudo Verdade” continua a todo vapor com 75 filmes gratuitos na programação, em SP e RJ
 
O “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” continua até o próximo domingo, dia 19/04, com 75 filmes gratuitos para o público, em salas de cinema de São Paulo e Rio de Janeiro, além do streaming do Itaú Cultural Play. O “É Tudo Verdade” está em sua 31ª edição, este ano apresentando longas, médias e curtas-metragens de 25 países. Confira abaixo mais cinco títulos que conferi no Festival e que recomendo (alguns terão mais sessões no festival, enquanto outros estreiam em breve nos cinemas e em streamings):


 
Bardot
(França/Reino Unido, 2025, de Alain Berliner e Elora Thevenet)
 
O documentário “Bardot” passa a limpo a trajetória da atriz francesa Brigitte Bardot (1934-2025), ícone do cinema europeu e símbolo de uma era marcada pelo glamour e exposição midiática. Exibido no Festival de Cannes de 2025 (quatro meses antes da morte da atriz), o filme parte de um ano decisivo da artista: 1973, quando abandonou os holofotes, desgastada por inúmeros relacionamentos amorosos fracassados e pela perseguição dos paparazzi, que chegavam a invadir a casa de praia onde morava. 1973 foi o início de seu fim no cinema, quando se isolou na Madrague, a rústica propriedade à beira-mar que adquiriu na década de 50, para se reinventar como ativista em defesa dos animais e do meio ambiente – algo que durou até a morte. Nesse período virou cantora, lançando discos, e fez da casa particular um lar adotivo de animais de rua. O filme acompanha essa transição de atriz para ativista fervorosa, revelando como a estrela transformou sua imagem pública em instrumento de militância. O documentário é narrado por ela mesma, aos 90 anos, aparecendo muito pouco, em sua residência reclusa em Saint-Tropez, na Riviera Francesa – as imagens atuais são lances de costas e de lado, e nunca falando diretamente para a câmera. Enquanto sua biografia é contada, uma infinidade de imagens antigas, trechos de filmes e reportagens com Bardot montam o mosaico fílmico. Com a voz rouca (demonstrando certo cansaço), Bardot relembra fatos marcantes a enorme carreira sem se poupar em falar dos amores perdidos, de escândalos e da velhice solitária. Em exibição no festival “É Tudo Verdade” ainda no dia 19/04, no Rio de Janeiro.


 
Shooting
(Israel, 2025, de Netalie Braun)
 
Documentário que integra uma trilogia de filmes políticos da cineasta israelense Netalie Braun, iniciada com “Hatalyan” (2010), sobre a relação de um guarda prisional com o nazista Adolf Eichmann, e seguida por “Hope I'm in the frame” (2017), sobre a precursora do cinema de Israel Michal Bat-Adam. Em “Shooting” (um trocadilho de “Shot”, que é tomada de cinema ou gravar um filme, com “Shoot”, atirar, em inglês), ela reúne três histórias, como se fossem curtas-metragens alinhados ao mesmo discurso: o envolvimento de Israel em guerras desde 1967 (Guerra dos Seis Dias), passando pela de Yom Kippur, as do Líbano e a recém-instaurada na Faixa de Gaza. As histórias são independentes, com um mesmo fundo político e moral; na primeira, o diretor de fotografia judeu indicado ao Oscar Adam Greenberg (de “Exterminador do futuro”) relembra como ajudou a recriar imagens falsas de guerra nas Colinas de Golã vendidas pela mídia como verdadeiras; na segunda, uma família palestina em Jerusalém Oriental sofre um atentado que até hoje tornou-se uma questão de saúde para um dos filhos da casa, que vive sob cuidados médicos; e por fim, a de um ex-combatente israelense, colecionador de armas, que entra num delicado processo pós-traumático que o faz repensar suas escolhas atuais. Com vasto material de arquivo da época, além de imagens inéditas de guerra recuperadas, o filme entrelaça temas como indústria cultural e o armamento, e de como Israel forçou pessoas a aderir ao belicismo. Documentário sério, sem concessões, com imagens fortes que pulsam em nossa mente. Em exibição no festival “É Tudo Verdade” nos dias 15/04 (em SP) e 18/04 (no Rio).


 
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
(Brasil, 1986, de Rosemberg Cariry)
 
O programa “Clássicos É Tudo Verdade” exibirá nos dias 17/04, em São Paulo, e 18/04, no Rio de Janeiro, a cópia restaurada em 4K de “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” (1986), primeiro longa do cineasta cearense Rosemberg Cariry. Entrou para a História do cinema brasileiro como o primeiro documentário produzido no Ceará, em uma época marcada por falta de incentivo ao cinema (o cinema nacional atravessava uma crise que culminaria no fechamento da Embrafilme e paralisação do setor por quase 10 anos). A obra retorna às telas celebrando três efemérides: os 40 anos do lançamento do filme, os 50 anos de carreira do diretor, roteirista e produtor, e o centenário da Comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto (ou simplesmente Caldeirão), movimento messiânico de origem jesuíta fundada na zona rural de Crato, no Cariri (Ceará), pelo beato paraibano José Lourenço. O Caldeirão foi invadido e destruído em 1937, resultando num massacre de centenas de camponeses - comparado ao de Canudos, simbolizou a repressão da elite contra movimentos sociorreligiosos autônomos no sertão, que tinham fundamentos socialistas. O tema é explorado com seriedade no documentário escrito por Cariry e Firmino Holanda, com fotografia de Ronaldo Nunes, que reúne depoimentos inéditos de sobreviventes e até de algozes, rompendo o silêncio que por décadas cercou o episódio. Produzido em plena redemocratização do país, tornou-se referência para movimentos sociais como o MST ao resgatar a memória de uma experiência comunitária igualitária que sofreu perseguição política. Indicado no Festival de Havana como melhor documentário latino, o filme, reconhecido por sua ousadia estética e pela fusão entre narrativa histórica e cultura popular, permanece como documento vivo da história de resistência do Nordeste. A restauração do filme em 4K, supervisionada pelo filho do cineasta, o também diretor Petrus Cariry, e apoiada por instituições como o MIS/CE e o Instituto Mirante, integra um projeto de preservação da obra de Rosemberg, já realizado com “Corisco & Dadá” (1996) e “Lua Cambará: Nas escadarias do palácio” (2002). A nova cópia está um primor, que vale ser visto na tela grande.



Vivo 76
(Brasil, 2026, de Lírio Ferreira)
 
Novo trabalho do diretor pernambucano Lírio Ferreira, cuja carreira é alternada entre filmes de ficção, como “Baile perfumado” (1996) e “Árido movie” (2005), e documentário (ele já realizou docs sobre Cacá Diegues, Cartola e Cachorro Grande, por exemplo). Ferreira volta-se, novamente, ao universo da música, agora para trazer um pouco sobre Alceu Valença, focando no emblemático álbum “Vivo” (1976), primeiro disco ao vivo do cantor e segundo álbum solo dele, que entrou em listas do mundo todo como um dos discos mais influentes daquela década. O doc celebra tanto os 50 anos de “Vivo” quanto os 80 anos de Alceu (que comemora em julho próximo), reunindo entrevistas atuais dele e muito material de arquivo. “Vivo” trazia músicas importantes do repertório, como “Sol e chuva” e “Papagaio do futuro”, marcado por influências da psicodelia, misturando ritmos como rock, pop, forró e experimentações de vanguarda (algo típico nos processos criativos de Valença, a mistura efusiva de sons e ritmos). Nesse percurso audiovisual, o cantor e compositor surge como figura central do underground nordestino, articulando música, poesia e rebeldia estética em um momento de efervescência política – 1976 era Ditadura, e Alceu e amigos compositores, como Geraldo Azevedo, que aparece no doc, foram perseguidos e presos em tal período. Trata-se de um tributo à vitalidade de Alceu Valença e à potência transformadora da música nordestina. “Vivo” foi o filme de abertura do Festival “É Tudo Verdade” no Rio, e conta com próximas sessões, nos dias 17 e 18/04, em São Paulo.
 

 
A fabulosa máquina do tempo
(Brasil, 2026, de Eliza Capai)
 
Sensação no Festival de Berlim desse ano, onde concorreu aos prêmios Crystal Bear (na seção Generation Kplus, voltado a filmes infanto-juvenis) e o de melhor documentário, o filme da diretora de “Incompatível com a vida” (2023), Eliza Capai, é uma joia a ser descoberta – e espero que o público o encontre logo. Com uma mistura de fantasia e aventura em uma narrativa marcada pela busca de reconexão com o passado e pela descoberta de futuros possíveis, o doc (que em muitas vezes lembra ficção) acompanha um grupo de meninas na cidadezinha de Guaribas, no sul de Piauí, lugar que ficou conhecido por receber o projeto piloto “Fome Zero”, em 2003, por ser um município com baixo IDH, sem saneamento básico e de extrema pobreza. Elas têm imaginação fértil, falam o que vem na mente e, numa das brincadeiras diárias, planejam inventar uma máquina do tempo que as transporte para épocas distintas. O filme é uma viagem na mente das meninas, todo composto pela cultura oral, de histórias da carochinha, lendas e folclore, intercaladas pelas crenças religiosas e de perspectivas para um futuro próximo. Nessa jornada de descobertas, as crianças, em meio a um local marcado pela seca, relembram histórias da avó, sobre a fome que assolou a região, bem como do machismo estrutural que ainda permeia a sociedade onde vivem. As imagens são carregadas de forte teor visual/psicológico, principalmente as locações em Guaribas, localizado nas entranhas do sertão. As sessões no “É Tudo Verdade” acabaram, e o filme deve estrear em breve nos cinemas brasileiros. 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Especial de cinema

 
Festival “É Tudo Verdade” termina no próximo domingo; confira mais filmes vistos lá
 
O “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” segue com 75 de filmes gratuitos para o público até o dia 19/04, em salas de cinema de São Paulo e Rio de Janeiro. Festival de cinema importante do Brasil, o É Tudo Verdade está em sua 31ª edição, este ano apresentando longas, médias e curtas-metragens de 25 países. Confira abaixo mais títulos que já conferi no Festival e que recomendo:


 
Retiro – A Casa dos Artistas
(Brasil, 2026, de Roberto Berliner e Pedro Bronz)
 
Documentário sobre uma instituição única no Rio de Janeiro: o Retiro dos Artistas, local respeitado que acolhe artistas idosos das mais diversas frentes, localizado em Jacarepaguá. Fundado em 1918, o Retiro é um patrimônio cultural e afetivo da cidade, que oferece aos residentes não apenas moradia, mas dignidade. O filme faz uma visita de casa em casa dos artistas, numa conversa informal sobre a velhice, a solidão, as memórias, as amizades ali cultivadas. Cada um traz consigo lembranças dos palcos, telas e concertos, e assim o documentário transforma essas lembranças em matéria-prima poética, mostrando como a arte permanece viva mesmo quando os holofotes se apagam. Moradores ilustres falam para a câmera, como as atrizes Dilze Pragana, Sonia Zagury, Claire Digon e Iris Bruzzi, o ator Jayme Leibovitch, os músicos Pedro Paulo Castro Neves, Robertinho Silva, Mauro Continentino e Bida Nascimento (filho e Léa Garcia e Abdias do Nascimento), além de rápida participação de Stepan Nercessian, presidente do Retiro há mais de 20 anos, e Marieta Severo, doadora constante e que sempre visita o espaço. No filme vemos rituais íntimos no Retiro, como os almoços, as rodas de conversa, o momento da fisioterapia, as caminhadas pelas ruas (o Retiro está situado em uma área verde), a chegada de novos moradores e até os amores despertados na instituição. Enquanto o filme é desenvolvido, os residentes preparam um recital de músicas e ensaiam uma peça cômica para fechar a obra. Gostei do filme, apenas senti falta de arquivos e filmagens sobre o Retiro de antigamente – o foco são os moradores de agora. A première se deu no festival, e o doc tem mais uma exibição - hoje, dia 14, em SP.
 

 
Entre irmãos
(Holanda/Bélgica, 2026, de Tom Fassaert)
 
Exibido no Festival de Rotterdam desse ano, “Tussen brothers” (aqui traduzido como “Entre irmãos”) é um documentário holandês-belga feito em família, com uma história curiosa que se descortina aos poucos. O diretor Tom Fassaert investiga a relação próxima entre seu pai e seu tio, respectivamente Rob e René, o primeiro um psicólogo aposentado, e o segundo, um paciente psiquiátrico. René vive recluso numa casa repleta de materiais acumulados, enquanto o irmão mais novo, Rob, semanalmente o visita para ajudá-lo a organizar suas coisas (e claro, dar conselhos). Eles vivem debaixo de atritos, mas não se separam por nada. A ligação entre os dois é intrínseca naquela dinâmica que oscila entre brigas e afeto. A filmagem da rotina dos dois irmãos encontrará um momento crucial, quando puxam da memória uma história triste que sempre os abalou: o avô, pai de Rob e René, abandonou os filhos ainda pequenos e desapareceu sem deixar pistas (vazio sentido até hoje). O filme, com momentos tristes, outros de apego e alguns cômicos, acompanha uma série de dias na relação dos dois irmãos, focando em uma herança emocional que atravessa gerações, que conecta passado e presente e revela como traumas não solucionados moldam vínculos familiares. O filme conta com mais uma exibição no É Tudo Verdade, hoje, dia 14, no RJ.
 

 
Crianças no fogo
(Ucrânia, 2025, de Evgeny Afineevsky)
 
O documentarista russo Evgeny Afineevsky encerra aqui uma trilogia sobre a Guerra da Ucrânia, iniciada com “Winter on fire: Ukraine's fight for freedom” (2015 – indicado ao Oscar) e seguida por “Freedom on fire: Ukraine's fight for freedom” (2022). Entre os dois primeiros títulos teve um filme menor de mesmo tema, “Pray for Ukraine” (2015), realizado na fase inicial do conflito entre Ucrânia e Rússia, em 2014. Em “Children in the fire”, o diretor resgata imagens fortes de crianças destruídas pela guerra, feitas entre 2014 e 2017, e as convida para contarem a superação e os obstáculos enfrentados após 10 anos. Hoje adolescentes, os entrevistados viram um pouco de tudo no horror da guerra: uma teve a perna amputada, outro ficou com mais de 80% do corpo queimado, outro presenciou torturas de prisioneiros pelas mãos dos russos. As crianças presenciaram sequestros, estupros, ataques a míssil que mataram familiares e amigos. O filme é perturbador, muito impactante, com cenas de crianças feridas que mexem com nosso íntimo (em dado momento vi muitas pessoas saírem da sala, já que o diretor não poupa em mostrar as atrocidades que fizeram com essas crianças). São oito histórias de sobreviventes separadas em blocos, entrelaçando imagens reais de arquivo e depoimentos atuais com animação em live-action, que reproduz as lembranças trágicas de cada uma delas. O documentário teve sessões no festival nos dias 10, 11 e 12, em SP e RJ, acompanhada do curta-metragem chileno “Baisanos” (2025), que foi exibido no festival de Locarno, sobre os chamados “Baisanos” (termo coloquial para compatriotas), torcedores do Club Deportivo Palestino, time de futebol fundado em 1920 por imigrantes palestinos em Santiago, fortemente ligados à causa palestina. Sem mais sessões no festival, deve estrear nos cinemas e depois ir para o catálogo da Netflix (já que os dois anteriores que formam a trilogia estão lá).

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Especial de Cinema

 
“É Tudo Verdade” segue gratuito em SP e RJ; no festival estão 75 filmes de 25 países
 
O “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” segue com 75 de filmes gratuitos para o público até o dia 19/04, em cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro. Festival de cinema importante do Brasil, o É Tudo Verdade está em sua 31ª edição, este ano apresentando longas, médias e curtas-metragens de 25 países. Confira abaixo mais títulos que já conferi no Festival e que recomendo:



 
Bowie: O ato final
(Reino Unido, 2025, de Jonathan Stiasny)
 
Documentário britânico do cineasta especializado em séries de TV Jonathan Stiasny que traz um ponto de virada na carreira musical de David Bowie (1947-2016), dos anos 80 para os 90, um período crítico em que o cantor e compositor se viu massacrado pela mídia devido aos últimos trabalhos. Um filme que se afasta da biografia tradicional – aquela que conta do nascimento à ascensão de uma personalidade; aqui o foco, como o título diz, são os últimos anos da carreira de Bowie, o “Camaleão do rock”, que se renovava a cinco anos no estilo musical que refletia no visual. O recorte do filme é de 1983, quando lançou o álbum “Let’s dance”, logo após a “Trilogia de Berlim”, passando pela fase das experimentações eletrônicas e do Tin Machine, até culminar no último álbum, “Blackstar”, lançado dois dias antes da morte dele, em janeiro de 2016. O doc reúne cenas de shows desse período, ensaios fotográficos para revistas e entrevistas da época em que a crítica detonava seus trabalhos (chegando a julgá-lo de “grande vergonha”, e algumas em que Bowie foi agressivo com jornalistas). Traz também depoimentos atuais de músicos de sua banda, que tocaram turnês com ele (como Earl Slick e Mike Garson), além de músicos amigos, como Gary Kemp (da banda Spandau Ballet) e Moby. O documentário mostra um Bowie inquieto, que não se curvou à mídia apesar das críticas daquele período final, capaz de se reinventar até o fim, e reforça como sua arte funcionou como resistência diante da doença que o matou (ele enfrentou o câncer por dois anos em sigilo, enquanto produzia o álbum de despedida). Sensível e reflexivo, o doc é muito bem feito e um presentão para os fãs. Estreou nos cinemas do Reino Unido em dezembro de 2025, e foi o filme de abertura do É Tudo Verdade em SP. Conta com mais uma exibição no festival, em 19/04, no RJ.

 
 
Carcereiras
(Brasil, 2026, de Julia Hannud)
 
Primeiro longa na direção da produtora paulista Julia Hannud (antes ela codirigiu o doc de 2019 “Saudade mundão”), que é um dos melhores filmes brasileiros da edição deste ano do É Tudo Verdade. Acompanha duas mulheres, Ana Paula e Mariana, que abandonam raízes e família para trabalhar em uma profissão de risco, como agentes penitenciárias em presídios femininos. Um universo duro, repleto de conflitos, em que as duas se veem sozinhas em outra cidade, sem amigos, tendo de lidar com frustrações e pressões diárias. O filme revela uma rotina marcada por disciplina, mostrando como essas mulheres vivem entre a rigidez do uniforme e os impactos emocionais de um trabalho que raramente ganha espaço na mídia. Mesmo diante dos problemas, as duas têm astral lá em cima, o que as ajuda a suportar o peso da função. A linguagem do filme traz uma câmera que observa as duas tanto no trabalho quanto em casa e acrescenta depoimentos delas, o que aproxima o espectador da realidade das protagonistas. O filme, cuja montagem é um ponto altíssimo da obra, explora, nas entrelinhas, as contradições da profissão: de um lado, a necessidade de sustento misturado com a saudade da família, e de outro, a exposição à violência e ao desgaste psicológico. O Brasil tem a terceira maior população carcerária feminina do mundo, o que amplia, nesse filme, o debate sobre gênero e desigualdade, ressaltando a precariedade das unidades prisionais destinadas às mulheres. A première do doc se deu no festival É Tudo Verdade, e conta com mais três exibições, em 17 e 19/04, todas no RJ.
 

 
Apopcalipse segundo Baby
(Brasil, 2026, de Rafael Saar)
 
Novo trabalho autoral do cineasta carioca Rafael Saar, que já dirigiu documentários musicais, além de especiais para TV, de nomes cultuados da música brasileira, como Maria Alcina (no filme “Sem vergonha”) e a dupla Luli & Lucina (no maravilhoso “Yorimatã”). Agora ele faz uma viagem tresloucada ao mundo de Baby Consuelo, a Baby do Brasil, num doc inteiramente narrado por ela (em primeira pessoa). A obra se constrói a partir da pluralidade transgressora da artista, hoje com 73 anos; ela relembra quando fugiu de casa aos 17 para explorar o campo da música, onde conheceu no Rio Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira e com eles fundou o grupo “Os Novos Baianos”. Com muitas imagens de arquivo, de bastidores e dos shows, Baby também relembra o espírito hippie nos anos 70, período influenciado pela contracultura, e depois o pop multicolorido que marcou sua presença na década de 80. O filme reforça a liberdade criativa da cantora e compositora (cuja inspiração principal foi Janis Joplin), sua versatilidade, o estrondo de seus figurinos extravagantes e ousados e a vida compartilhada com o cantor e compositor Pepeu Gomes, com quem teve seis filhos. O terço final do doc foca no trabalho atual de Baby, como pregadora religiosa (e os motivos, como visões sagradas, que a levaram a incursionar ao campo religioso). “Apopcalipse segundo Baby” é um retrato da liberdade a partir da própria natureza multifacetada da cantora, mostrando como a artista atravessou décadas sem se enquadrar nos padrões. A première do doc se deu no festival É Tudo Verdade, e o filme tem ainda exibição no festival nos dias 13 (em SP e Rio) e 14 (no Rio).



domingo, 12 de abril de 2026

Especial de Cinema


“É Tudo Verdade” abre em SP e RJ com 75 filmes na programação
 
Teve início na última quinta-feira (dia 09) a 31ª edição do “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários”, que segue com dezenas de filmes para o público até o dia 19/04. Um dos festivais de cinema mais importantes do Brasil, o É Tudo Verdade é realizado em São Paulo (em quatro salas de cinema) e no Rio de Janeiro (em três salas). As sessões são gratuitas, e estão na lista 75 filmes produzidos em 25 países, a maior parte deles première no Brasil. Em São Paulo, a abertura do festival ocorreu na noite do dia 08/04, em sessão para convidados na Cinemateca Brasileira, do filme “Bowie: O Ato Final” (2025) – documentário britânico sobre o cantor e compositor David Bowie, enquanto no Rio, o festival começou com o documentário brasileiro sobre Alceu Valença “Vivo 76”, de Lírio Ferreira, apresentado também para convidados na noite do dia 09/04, no Estação Net Rio. O filme de encerramento, em ambas as cidades, será “Memória de ‘Os Esquecidos’” (2025), documentário coproduzido entre Espanha e México, sobre o filme “Os esquecidos” (1950), de Luis Buñuel.
Os títulos em competição deste ano se dividem em Mostras de Longas e Médias-metragens Brasileiros, Longas e Médias-metragens Internacionais, Curtas-metragens Brasileiros e Curtas-metragens Internacionais. Os vencedores serão conhecidos na cerimônia de premiação, que será realizada no dia 18/04, às 19 horas, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Como ocorre desde 2018, quando o “É Tudo Verdade” foi reconhecido como um “Qualifying Festival” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, os quatro vencedores das mostras competitivas estarão classificados para apreciação à disputa do Oscar de melhor documentário do ano seguinte, tanto para longas quanto curtas-metragens. Além dos filmes em competição, o festival exibirá títulos em Programas Especiais e nas mostras O Estado das Coisas, Foco Latino-Americano e Clássicos ‘É Tudo Verdade’.


Dentre os filmes de destaque da edição de 2026 do festival estão “A Fabulosa Máquina do Tempo” (2026), de Eliza Capai, exibido no Festival de Berlim;Retiro - A Casa dos Artistas” (2026), de Roberto Berliner e Pedro Bronz; Mestre Zu (2026), de Zelito Viana; e “Bardot” (2025), de Alain Berliner, Elora Thevenet, exibido no Festival de Cannes. Em São Paulo o festival acontece no IMS Cultural, Cinesesc, CCSP e Cinemateca Brasileira, enquanto no Rio as sessões serão em três salas do Estação Net Rio.
Pela primeira vez, serão apresentadas sessões infantis no “É Tudo Verdade”: na mostra intitulada “É Tudinho Verdade”, serão exibidos filmes dirigidos por David Reeks e Renata Meirelles sobre o universo das brincadeiras infantis em diferentes regiões do Brasil. As exibições acontecem no CineSesc e na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e no Estação NET Rio, no Rio. No streaming, serão exibidos 10 curtas com exclusividade pelo Itaú Cultural Play.
A 31ª edição do “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” conta com o patrocínio do Itaú, a parceria do Sesc-SP e o apoio cultural da Spcine, Galo da Manhã, Fundação Itaú e Itaú Cultural. A realização é do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, e Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas.
Confira abaixo títulos que já conferi no Festival e que recomendo:
 
 
Mamãe está aqui
(Uruguai, 2026, de Claudia Abend e Adriana Loeff)
 
O documentário uruguaio é uma delicada obra feminina que se constrói na interseção entre arte e vida. Acompanhamos quatro mulheres atravessadas pela maternidade; elas preparam uma peça de teatro, e nos ensaios deixam emergir suas histórias de dor e desejos. Uma é mãe solo que optou pela adoção, outras duas foram marcadas pelo nascimento do primeiro bebê e a última é uma mulher que nunca conseguiu gerar um filho, por questões de saúde, até que o primeiro bebê vem, mas falece horas depois. O processo criativo dessa peça de teatro funciona como catalisador de confissões e afetos. Entre ensaios, improvisos e conversas para a câmera, cada uma relembra o passado, encontrando apoio na cumplicidade. O doc evita o melodrama, traz a pessoalidade na força dos gestos, silêncios e olhares daquelas mulheres, e o resultado é uma obra intensa de como a arte torna-se espelho da vida, além de destacar como a criação compartilhada no palco pode transformar dor em esperança. Em exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 14 e 15, em SP e no RJ.


 
Mailin
(Argentina/França/Romênia, 2025, de María Silvia Esteve)
 
Ao longo de oito anos, a cineasta argentina María Silvia Esteve acompanhou Mailin Gobbo, uma garota vítima de abuso sexual infantil cometido por um padre próximo da família, Carlos Eduardo José, quando a menina ficava sob cuidados dele no Instituto San José Obrero, em Caseros, província de Buenos Aires. A menina demorou para contar o caso aos pais, e quando o faz, os dois iniciam uma jornada de justiça. Mailin hoje está crescida (virou ativista dos direitos das mulheres), e começa a contar para a filha pequena sua história trágica, só que recorrendo a um conto de fadas sombrio, onde uma menina crescida em um lar amoroso é devorada por uma besta. A metáfora conduz o filme e se entrelaça com imagens de arquivo, filmes caseiros da família, registros de audiências judiciais do caso e depoimentos atuais de familiares, num mosaico sobre um trauma que se transformou num amplo caso midiático de justiça. Mailin e seus pais, além de amigas dela, contam para as câmeras o que viveram naquele período de dor e luta (que no final das contas terminou sem solução). A estética do filme ora é realista ora traz um aspecto fantasmagórico e ao mesmo tempo poético, comprometido em revelar de como estruturas de poder, no caso a instituição “igreja”, perpetuam o silêncio e a impunidade – no filme, não só de Mailin, mas de tantas outras vítimas do padre em questão, Carlos José. Filme de denúncia sério, de tema urgente (pedofilia na igreja), que é um dos grandes destaques do É Tudo Verdade desse ano. Exibido no festival IDFA (Amsterdã), tem exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 14 e 15, em SP e no RJ.
 

 
Os olhos de Gana
(EUA/Gana/Reino Unido, 2025, de Ben Proudfoot)
 
Dirigido pelo jovem cineasta canadense Ben Proudfoot, duas vezes ganhador do Oscar por documentários de curtas-metragens, “Os olhos de Gana” é uma homenagem a um personagem esquecido da História do cinema africano: o diretor e cinegrafista Chris Hesse, um visionário que esteve à frente do cinema de denúncia social em Gana. Hoje, aos 93 anos, vitimado por uma doença ocular que o está deixando cego, ele relembra sua trajetória resgatando da memória seus trabalhos com o líder Kwame Nkrumah (ex-presidente de Gana, fundador do Pan-africanismo), que serviu para a luta decolonial. Hesse tenta, há anos, repatriar um acervo de mais de mil filmes, nunca exibidos, que traziam para a tela a independência africana nas décadas de 1950 e 1960 (filmes estes que foram roubados e escondidos em países europeus). Hesse é uma figura cativante, hoje com saúde debilitada, mas com uma memória inconfundível – ele lembra de filmes e cineastas que o influenciaram, mas também de histórias dolorosas, trazendo para a discussão o passado sombrio da colonização africana. O doc reforça o espírito de luta por igualdade tanto dele quanto de Nkrumah, por meio de trechos de seus filmes, além de entrevistas antigas e atuais. Ao revelar imagens inéditas, questiona o apagamento das vozes africanas - o acervo escondido e que Hesse luta em encontrar pode reescrever a História de Gana e da África. Filme que é um tributo à persistência de Hesse e do seu cinema como instrumento de soberania cultural. Exibido nos festivais de Toronto, Denver, Heartland e BFI London, tem exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 16 e 17, em SP e no RJ.
 

 
Mestre Zu
(Brasil, 2026, de Zelito Viana)
 
Documentário da Globonews dirigido pelo veterano cineasta Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), que aos 87 anos homenageia um velho amigo e um dos maiores jornalistas vivos do Brasil, Zuenir Ventura (que completa em breve 95 anos). Zelito reúne em sua casa um time de jornalistas que trabalharam com ele, como Ancelmo Gois e o próprio filho, Mauro Ventura, em que celebram o legado do homenageado. Eles relembram histórias marcantes das sete décadas de trabalho na mídia prestados por Zuenir (como grandes reportagens, furos, bastidores engraçados, o lado escritor dele etc). Zuenir teve papel fundamental na transformação do jornalismo brasileiro entre a Ditadura (ele foi preso por três meses entre 1968 e 1969, logo após a promulgação do AI-5) e a reabertura na década de 80. Com vasto material de arquivo entrelaçado nos depoimentos exclusivos para o filme, o longa é um afetuoso tributo para o jornalista em vida – o Zuenir de atualmente aparece em poucas cenas, mais para o fim. Quem assina a fotografia é Walter Carvalho, em um projeto construído tanto por Zelito quanto pela filha de Zuenir, Elisa Ventura, que foi quem concebeu o projeto. Em exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 12, 16 e 17, em SP e no RJ.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 5


Aisha não pode voar
 
Falado em árabe e coproduzido em sete países (Egito, Tunísia, Catar, França, Arábia Saudita, Sudão e Alemanha), o poderoso filme de arte é um drama que expõe a vulnerabilidade de uma imigrante sudanesa no Cairo, que trabalha como cuidadora de idosos e se torna vítima atroz de todas as mazelas da sociedade, como pobreza e exploração sexual. A direção do jovem cineasta egípcio - e estreante, Morad Mostafa, transforma o cotidiano de uma mulher em denúncia social, cuja interpretação de Buliana Simon (também estreante), a Aisha do título, transmite a resignação da personagem, que pouco fala e mais observa seu redor. A personagem de 26 anos sofre com problemas financeiros, e para complicar inicia um relacionamento tumultuado com um rapaz egípcio (que logo descobre ser de uma gangue). A relação respinga em ameaças de bandidos locais e assédio de clientes. O título simboliza a impossibilidade de Aisha em escapar de uma realidade sufocante, onde cada tentativa de mudança parece bloqueada – em determinado momento, ela brinca com uma máscara do Batman (que é o pôster do filme), alusão à transformação dela em super-heroína para escapar das amarguras. O filme mostra não apenas a luta individual de uma mulher sob risco, mas também o retrato dos imigrantes africanos vítimas de injustiça social. Mostafa dirige uma história nua e crua, apostando em uma estética realista, com fotografia que mistura penumbras do interior da casa que Aisha trabalha com paisagens noturnas do submundo de uma Cairo opressora. Exibido em Cannes nas mostras Golden Camera e Um Certo Olhar, está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.
 


O Caravaggio perdido
 
Documentário precioso que procura desvendar um novo mistério no mundo das artes plásticas: a localização em uma casa de um quadro possivelmente assinado por um dos grandes nomes da pintura mundial e expoente do Barroco italiano, Michelangelo Merisi da Caravaggio, o Caravaggio. Intitulada “The sleeper”, a obra esteve por décadas na parede da sala de estar de uma casa comum em Madrid, como utilitário; de um tempo para cá, aos poucos, historiadores da arte do mundo inteiro se debruçam em estudos sobre ela. Será mesmo de Caravaggio aquele Cristo com semblante triste, empurrado por dois homens? O doc investiga passo a passo detalhes daquela pintura, da textura ao “motivo”, passando pelas imperfeições da tela e desgastes da tinta. Busca uma relação com o mestre do barroco que revolucionou as artes plásticas ao introduzir o uso dramático do claro-escuro e ao retratar figuras religiosas e mitológicas com realismo cru. O filme é envolvente, dá voz a vários estudiosos e pesquisadores da área, mergulhando nos bastidores do mercado de arte, universo marcado por disputas de poder, com colecionadores e falsificadores se cruzando em torno de obras de valor incalculável. Por fim, o filme explora tanto a descoberta daquele quadro quanto as discussões no circuito de arte quando uma peça aparentemente banal se revela um tesouro artístico. Está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.
 


O silêncio de Eva
 
Em seu novo trabalho, que acaba de estrear nos cinemas (produzido pela Persona Filmes e distribuído pela Encripta), a cineasta mineira Elza Cataldo revisita a trajetória de uma mulher pouquíssimo lembrada hoje, Eva Nil (1909-1990), atriz do cinema mudo brasileiro que brilhou nos anos 1920 e recebeu a alcunha de “Greta Garbo brasileira”. Nascida no Cairo, Eva participou de produções de Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga, mas abandonou a carreira cedo demais, dedicando-se à fotografia ao lado do pai, Pietro Comello, em Cataguases (MG), onde viveu até morrer, em 1990. Eva atuou, pelo que se sabe, em dois curtas, dentre eles “Valadião, o Cratera” (1925), de Humberto Mauro, e em dois longas, como ‘Barro humano” (1929), de Adhemar Gonzaga (fundador da Cinédia). O documentário reconstrói a trajetória dela a partir de fotos antigas, reportagens de jornais antigos e entrevistas atuais de críticos de cinema e professores. Também há encenações das atrizes Inês Peixoto e Bárbara Luz que recriam fases da vida de Eva - e nesse ponto elas mesmas discutem o ofício da atuação. A mescla de documentário com ficção preenche lacunas para entender quem foi Eva e provoca reflexão sobre como histórias de mulheres foram apagadas do cinema nacional – ela, por exemplo, desapareceu da memória coletiva, raramente citada ou estudada. A roteirista e diretora Elza Cataldo, ao recontar a carreira esquecida de Eva, abre espaço para refletir os obstáculos persistentes do cinema brasileiro, como financiamento, distribuição, restauração de obras e formação de público. Gostei demais desse filme independente brasileiro e recomendo.



Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

    Pompeia: Sob as nuvens   Gianfranco Rosi, premiado diretor e produtor de cinema italiano, reafirma sua posição como um dos maiores docum...