Honestino
Conhecido
por tratar da questão indígena em seus dois trabalhos anteriores, “O cineasta
da selva” (1997) e “Segredos do Putumayo” (2020), o diretor amazonense Aurélio
Michiles se volta agora à Ditadura Militar no Brasil, trazendo para a tela a
biografia do líder estudantil Honestino Guimarães, o Gui, um dos tantos
desaparecidos políticos no cruel período dos Anos de Chumbo. Fundindo documentário
e ficção, o longa reúne imagens inéditas de Gui, aluno da Universidade de
Brasília – UnB e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) no final dos
anos 60. Preso diversas ocasiões por criticar e enfrentar os militares,
desapareceu em 1973, aos 26 anos. Nunca mais se ouviu falar no estudante. O
filme vasculha vestígios da época, de arquivos de fotos da família e de pessoas
que conviveram com ele; entrevista a filha e o neto de Gui, colegas de turma da
faculdade e da luta contra a Ditadura. O filme vai exibindo pouco a pouco a
personalidade forte e sempre carismática de Honestino e sua visão de um mundo
mais justo. Cartas, poemas, fotos dele são abundantes no filme, bem como
depoimentos de dezenas de pessoas próximas – Aurélio Michiles, o diretor, foi
colega de luta dele, da chamada Geração de 68. As encenações de Gui são de
Bruno Gagliasso, em poucas aparições, já que o tom do filme é mais documental.
Uma obra densa, que reflete a luta de tantos por um país livre da repressão.
Assisti ao filme numa sessão no Festival do Rio com a presença da equipe e
familiares, e em seguido o longa foi para a Mostra Internacional de Cinema de
SP. Agora estreia nos cinemas brasileiros, com distribuição da Pandora Filmes.
Aquele que viu o abismo
Dirigido por uma dupla de artistas visuais brasileiros (Gregorio Gananian e Negro Leo) o filme experimental que estreou recentemente nas salas é uma obra que mistura linguagens e desafia os limites do cinema brasileiro contemporâneo. Vencedor do prêmio de Melhor Filme na Mostra Olhos Livres da 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes (edição de 2024), é um experimento audiovisual que rompe com as convenções e narrativas da Sétima Arte, fundindo música, performance, fotografia, animação e imagens aleatórias, tornando o longa uma obra ousada, diferenciada no formato. O roteiro acompanha X (interpretado por Negro Leo), um homem que se envolve em uma série de assassinatos. Ele tem visões deturpadas, que servem como forma de sobrevivência em um sistema opressor. A empresa multinacional ProLife, que promete vida eterna em troca da submissão dos civis, surge em sua vida, colocando-o em choque com suas crenças. O filme se passa em um futuro incerto, distópico obviamente, repleto de metáforas sobre estado policial, vigilância, mecanismos de controle e exploração do trabalhador. É um personagem só envolto em seu mundo próprio. A narrativa não é linear, as cenas são cortadas de um lugar a outro (fornecendo uma experiência desafiadora ao público), e não há respostas fáceis. O mosaico de imagens e sons refletem a sociedade fragmentada em que vivemos hoje, com um personagem vagando numa linha tênue entre realidade e ficção – o filme explora bem os ambientes urbanos, com a arquitetura dos arranha-céus e luzes neon noturnas, como uma cidade futurista. Realizado pela Zaum Produtora em parceria com a Katásia Filmes, está nos principais cinemas do país com distribuição da Embaúba Filmes.
























