terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2


O acidente do piano
 
Músico (apelidado de Mr. Oizo), produtor, roteirista e um dos diretores mais excêntricos do cinema contemporâneo, Quentin Dupieux retorna com toda autoralidade em “O acidente do piano” (2025), novo lançamento da Mubi que chegou ao streaming na semana passada. O filme, uma comédia dramática nonsense, conta com sua marca registrada: narrativa absurda que chega próximo do surrealismo, com personagens estranhos em um mundo em desalinho. Não há linearidade nem clímax ou situações previsíveis em seu cinema. A trama parte de um evento banal: um piano cai de uma janela e quase mata uma jovem influenciadora digital (Adèle Exarchopoulos, atriz de “Azul é a cor mais quente”). Ela tem escoriações pela cabeça e corpo. Passa o tempo todo com um gesso no braço. Irritadiça e temperamental, a mulher observa tudo ao redor, enquanto é envolvida em situações insólitas, muitas delas bizarras, como chantagens de desconhecidos. O acaso e o surreal se entrelaçam para questionar a lógica do cotidiano, num filme de arte que satiriza a cultura dos influencers e das subcelebridades em busca do sucesso a qualquer preço. Quem conhece os filmes de Dupieux, principalmente os últimos, “Yannick” (2023) e “O segundo ato” (2024), sabe que não são obras fáceis de compreender; elas desafiam as convenções do cinema, contando com diálogos complexos que duram cenas inteiras, e dividem opinião do público. Não é melhor do cineasta, mas tem ali boas provocações. Adèle Exarchopoulos está muito bem como a jovem protagonista no centro do caos. Um filme para inseridos no cinema autoral francês de Dupieux.



 
Toque familiar
 
Premiado em três categorias da seção Horizons do Festival de Veneza de 2024 (dentre eles melhor atriz e melhor diretora), o drama intimista de Sarah Friedland fala, de maneira sentimental, sobre a senilidade, explorando como a memória e o afeto se tornam territórios instáveis diante da deterioração física e mental. O roteiro acompanha um filho que entrega sua mãe para uma casa de repouso. A idosa, Ruth (uma interpretação solar de Kathleen Chalfant, na época com 79 anos), tem demência, diagnosticada há pouco tempo. De início, não entende o motivo de estar naquela moradia assistida, reluta em ficar lá e receber atenção de enfermeiros. Com os dias ela vai compreendendo e lidando com as dificuldades da memória e da locomoção, à medida que estabelece novas relações afetivas. O filme se destaca pelo trabalho sensível de Kathleen, cujas lentes ficam nela o tempo todo, captando toques, olhares e gestos. A fotografia é espetacular, que inspira leveza em cada detalhe. Os momentos de silêncio da personagem traduzem a impotência diante da inevitabilidade da condição humana – veja que mesmo contida, a atriz tem forte presença em um papel que diz tudo, mesmo sem usar palavras. Curtinho (em seus 89 minutos), o delicado filme tem um tom naturalista, que parece um documentário de tão verdadeiro. Disponível no streaming da Reserva Imovision.
 

 
Infinite icon: Uma memória visual
 
Depois do documentário “This is Paris” (2020), a modelo, cantora e atriz Paris Hilton volta aos holofotes para contar mais de sua biografia em “Infinite icon” (2026), doc lançado nos cinemas brasileiros no último fim de semana pela Sato Company. O filme se aproveita da nova turnê musical de Paris, que dá nome ao último álbum dela, “Infinite icon”, que entrelaça partes do show em Los Angeles e entrevistas recentes dela. Tem uma construção em formato de lembranças, por isso o subtítulo “Memória visual”: Paris conta sobre a infância e juventude, de sua família rica e poderosa (ela é neta do fundador da rede de hotéis Hilton), os abusos físicos e mentais quando ficou em um internato para jovens até os primeiros passos na música na cultura clubber (o que lhe rendeu críticas ofensivas). Ela relembra o estrelato no mundo da mídia (passando pela moda, música, o cinema e os reality shows), fala com emoção o tempo do internato e as críticas pesadas quando era motivo de chacota em manchetes de tabloides. Ela traz para o filme o parceiro, Carter Reum, pai de seus dois filhos, nascidos de barriga de aluguel, e os reais motivos para voltar ao cenário da música - ela lançou apenas um álbum, em 2006, até chegar “Infinite icon” 20 anos depois. A montagem inclui entrevistas novas e antigas, vídeos caseiros, reportagens e cenas do show atual, bem como momentos de bastidores (como um making of). Um presente para os fãs dela, um filme bem realizado com estética própria do mundo multicolorido de Paris. Dirigido por J.J. Duncan e Bruce Robertson, conta com participação de Sia, que fez parceria em seu novo disco.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1


Amizade tóxica
 
Lançado há pouco na plataforma Paramount Plus, a comédia independente do estreante cineasta Andrew DeYoung aposta no desconforto como mola propulsora da narrativa, subvertendo um tema tão batido no cinema, sobre a amizade improvável de dois desconhecidos. Aqui o inusitado ganha forma nos detalhes da história e na relação dos dois personagens centrais, mergulhando nos limites da amizade – e de como a intimidade pode escorregar para a destruição. Na história, dois homens acabam de se conhecer: eles são novos vizinhos, o solitário e impulsivo Craig (Tim Robinson) e um músico de bem com a vida, Austin (Paul Rudd). Craig se aproxima de Austin, no primeiro momento respeitosamente, até que o dois se veem presos em situações cada vez mais absurdas, onde pequenos atritos do cotidiano se transformam em paranoia e perseguição. O comediante Tim Robinson, especialista em humor que beira o constrangimento, entrega uma atuação que mistura fragilidade e excentricidade, num personagem carente e patético que pra mim já se tornou icônico (vou sempre lembrar dele aqui), um cara pegajoso que tenta forçar uma amizade com o vizinho. Paul Rudd, protagonista de “Homem-formiga” (2015), com seu timing preciso, traz dinamismo ao papel do vizinho que cai numa tremenda cilada ao se encontrar com o cara que mora ao seu lado – seu trabalho é muito bom, dá ritmo à comédia. Juntos, eles fazem do desconforto uma ferramenta narrativa, provocando risadas nervosas e reflexões sobre até onde a convivência pode ir. O filme se inscreve na tradição das comédias autorais que desafiam o público a rir do incômodo, em muitos momentos levando para situações-limite. Não é humor casual nem previsível: é estranho, por vezes cruel, com narrativa ousada. O filme recebeu indicação ao Critics Choice de melhor comédia neste ano e exibido no Festival de Toronto.


 
Kaguya: A princesa espacial
 
Primeira aposta do ano da Netflix em anime, “Kaguya: A princesa espacial” (2026) é um bom exemplar de animação japonesa que mistura de maneira eclética temas e gêneros, que vai do drama à ficção científica, passando pelo musical e pela comédia adolescente. Faz uma fusão do folclore ancestral japonês com o scifi moderno repleto de cores neon e rosa cintilante – Kaguya é a princesa que, segundo a lenda japonesa do século X, nasceu dentro de um bambu e foi cuidada por um cortador de lenha, tornando-se uma princesa cobiçada, que recebeu a alcunha de “Filha da Lua” (em 2013 saiu uma delicada animação que contava os detalhes desse folclore, filme indicado ao Oscar, que recomendo, “O conto da princesa Kaguya”). Aqui a princesa é uma garota serelepe, e longos cabelos loiros, que foge da Lua e vai parar na Terra. Ela aparece na casa de uma adolescente emburrada, Iroha, que vive sob estresse e cansaço da escola. Juntas seguem uma jornada de amizade e descobertas, até que Kaguya oferece a Iroha uma visita ao seu lar, no espaço sideral. Um filme teenager com história bacana, movimentada e com muita ação, que trata das incertezas da adolescência, da procura pela identidade e autonomia. É uma aventura colorida com músicas dançantes e ritmo frenético. O desenho de produção recorre a elementos da iconografia clássica japonesa alternado com um design intergaláctico que brilha os olhos. Essa releitura da lenda de Kaguya para o público jovem antenado nos streamings é um acerto da Netflix.
 
 
Sequestro: Elizabeth Smart
 
Novo documentário investigativo da Netflix que está no top 10 dos filmes mais vistos nessa semana. Volta-se a um caso policial estranho ocorrido em 2002 em Salt Lake City, no estado americano de Utah, que permanece como um dos mais misteriosos dos Estados Unidos. Aos 14 anos, Elizabeth Smart foi raptada de dentro de seu quarto enquanto dormia. Ameaçada com uma faca por um homem chamado Brian David Mitchell, foi levada por ele a um cativeiro nas montanhas, sem comunicação com a família. Elizabeth ficou aprisionada por nove meses, enquanto familiares e a polícia a procuravam desesperadamente. O sequestrador cometia abusos psicológicos com a garota, utilizando para tanto uma doutrina religiosa que servia para privá-la de tudo. Havia com Brian uma cúmplice, Wanda Barzee, que vez ou outra saía com a menina pelas ruas, colocando disfarces em Elizabeth, para que não fosse reconhecida. É um caso instigante e perverso, contado pela própria sobrevivente, Elizabeth, que expôs as dolorosas memórias como maneira de exorcizar o passado. Ela conta com detalhes para as câmeras toda a trajetória de medo e violência sofrida – hoje ela é uma ativista pelos direitos das crianças e adolescentes. No doc há um extenso material inédito com fotos e reportagens antigas que ajudam a reconstituir o crime. Uma das primeiras estreias do ano da Netflix, é um documentário angustiante, dirigido por Benedict Sanderson, já ganhador de dois Baftas TV.



Quo vadis, Aida?
 
Disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, este é um dos grandes filmes de 2020, que fiz questão de rever na última semana – e novamente fiquei impactado com a obra peculiar da cineasta bósnia Jasmila Zbanic. Não é fácil assisti-lo, é um filme duro, amargo, que comove, uma história ficcional dentro de um contexto real, o Massacre de Srebrenica, ocorrido na Bósnia em 1995. No drama de guerra, Aida Selmanagic (Jasna Djuricic) é uma tradutora da Organização das Nações Unidas (ONU) que presencia a cidade bósnia de Srebrenica, uma zona segura durante a Guerra da Bósnia, ser tomada pelo exército sérvio. Dos milhares de reféns estão seus dois filhos e o marido. Correndo de um abrigo a outro, ela tenta de tudo para colocar o nome dos três na lista de pessoas a serem protegidas dos guerrilheiros. Jasna Djuricic é um espetáculo de atriz, dando humanidade e eloquência ao papel da tradutora confinada na região de guerra na corrida incessante contra o tempo para salvar sua família (ela é casada de verdade com o ator Boris Isakovic, que faz o general Ratko Mladić, responsável pelo genocídio em Srebrenica). O filme faz uma denúncia contundente ao genocídio na Bósnia, recorrendo a um dos fatos mais marcantes da Guerra da Bósnia, e decisivo para o fim dela, o Massacre de Srebrenica, em 1995, quando oito mil bósnios muçulmanos foram executados pelo exército sérvio. As vítimas tinham idade entre 15 e 80 anos, mortos a mando do temido general Ratko Mladić (muitos anos depois ele foi preso e condenado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade). O que houve ali foi uma limpeza étnica, em uma região considerada “zona de segurança” pela ONU, Srebrenica – os corpos dos bósnios foram enterrados em valas comuns, demorando anos para serem descobertos. O título é uma expressão latina de origem bíblica, significando “Para onde vai, Aida?”, que se refere à pergunta do apóstolo Pedro a Cristo ressuscitado quando fugia da perseguição do imperador Nero aos cristãos. No filme há uma perseguição nitidamente cruel de um povo a outro, por questões territoriais e religiosas, e o roteiro preciso não deixa nada se dissipar. Pode ser visto como um thriller político, e seu forte teor emocional poderá causar mal-estar (o desfecho é um dos mais amargos que já vi no cinema). A diretora e roteirista bósnia Jasmila Zbanic conta que o filme serve como uma reparação histórica – ela escreveu o roteiro adaptado do livro “Under the UN Flag: The international community and the Srebrenica genocide”, de Hasan Nuhanovic, um sobrevivente do massacre. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro (representando a Bósnia e Herzegovina), concorreu ao Leão de Ouro em Veneza e foi exibido no Festival de Toronto. Fotografia e direção de arte ótimas, filmado na cidade de Mostar, a 300 quilômetros de Srebrenica.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Nota do blogueiro

 
Cine Debate abre programação de 2026 com o premiado ‘Anora’
 
O Cine Debate, projeto de extensão do Imes Catanduva, abre 2026 com uma programação repleta de filmes premiados, de várias origens e épocas. Neste sábado, dia 31/01, a partir das 14 horas, o projeto retorna com a exibição de “Anora” (2024, de 139 minutos), produção independente norte-americana vencedora da Palma de Ouro no Festival de Cannes e também de cinco Oscars (melhor filme, melhor direção para Sean Baker, melhor atriz para Mikey Madison, melhor roteiro original e melhor edição). A comédia dramática virou sensação em festivais do mundo inteiro, indicado e premiado ainda no Bafta e no Critics Choice. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, na sala de ginástica do Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida.


 
Sinopse – Anora (Mikey Madison) é uma jovem stripper do Brooklyn, que trabalha em uma badalada boate. Certa noite, conhece Ivan (Mark Eydelshteyn), filho de um oligarca russo, um dos homens mais ricos de seu país. Eles se casam por impulso, numa festa privada, e vivem um conto de fadas. Até que os pais descobrem o passado de Anora decidindo anular o casamento dos dois.
 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. No próximo mês (em 28/02) o filme exibido no projeto será “Sonhar com leões” (2024), coprodução Brasil, Espanha e Portugal, com Denise Fraga no elenco. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

domingo, 25 de janeiro de 2026

Especial de cinema

 
Festival de Berlim chega à 76ª edição e anuncia filmes da programação
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, o Berlinale, apresenta ao público, neste ano de 2026, uma programação repleta de filmes históricos e sociais. Os organizadores do festival anunciaram, na última quarta-feira, em coletiva de imprensa, os títulos que serão exibidos em todas as seções do evento. A Berlinale acontece na capital alemã, entre os dias 12 e 22 de fevereiro, tendo o cineasta alemão Wim Wenders como presidente do júri internacional. A atriz Michelle Yeoh será agraciada com o Urso de Ouro Honorário, enquanto o compositor Max Richter receberá das mãos da diretora Chloé Zhao o prêmio Berlinale Camera – os dois trabalharam juntos em ‘Hamnet – A vida antes de Hamlet’, filme pelo qual ele acaba de receber indicação ao Oscar de melhor trilha sonora. O cinema brasileiro marca presença com oito produções espalhadas em diferentes seções; são eles ‘Se eu fosse vivo... vivia’, de André Novais Oliveira, que integra a seção Panorama; ‘A fabulosa máquina do tempo’, de Eliza Capai, ‘Papaya’, animação de Priscilla Kellen, e ‘Feito pipa’, de Alan Deberton, os três na seção Generation Kplus; ‘Quatro meninas’, de Karen Suzane, na programação da Generation 14plus, além de ‘Fiz um foguete imaginando que você vinha’, de Janaina Marques, na seção Forum, ‘Nosso segredo’, dirigido pela atriz Grace Passô, que integra a Perspectives, nova seção competitiva do festival, e o curta ‘Floresta do fim do mundo’, de Felipe M. Bragança e Denilson Baniwa, que estará no Forum Expanded.


Um dos mais famosos festivais de cinema do mundo, a Berlinale terá como filme de abertura a produção afegã ‘No good men’, comédia dramática de cunho político da premiada diretora Shahrbanoo Sadat. Na competição principal, 22 filmes disputam o Urso de Ouro e o Urso de Prata. Entre os destaques estão longas que exploram temas contemporâneos como migração, identidade e transformações sociais. Alguns deles são o novo trabalho do cineasta brasileiro Karim Aïnouz, a coprodução Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha ‘Rosebush pruning’, que conta com um elenco estelar, como Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell, Elle Fanning e Pamela Anderson; o drama ‘At the sea’, do húngaro Kornél Mundruczó, com Amy Adams; a animação japonesa ‘A new dawn’, de Yoshitoshi Shinomiya; ‘Yellow letters’, do multipremiado diretor turco İlker Çatak; ‘Josephine’, da cineasta brasileira de ascendência chinesa e americana Beth de Araújo, com Channing Tatum; a produção mexicana ‘Moscas’, de Fernando Eimbcke; ‘Queen at sea’, produção britânica com Juliette Binoche e Tom Courtenay; o drama de época austríaco ‘Rose’, com Sandra Hüller; e o drama com terror ‘Nightborn’, com Rupert Grint.


A nova seção do festival, Perspectives, apresentará 14 filmes autorais, sendo 11 deles première mundial e seis dirigidos por mulheres. Dentre os títulos estão a coprodução Noruega e Reino Unido ‘A prayer for the dying’, com Johnny Flynn e John C. Reilly, e o britânico ‘Animol’, com Stephen Graham. Já a seção Forum, que traz longas e curtas experimentais e independentes, com foco em discussão sobre política e diversidade cultural, apresenta este ano 32 filmes, como o documentário norte-americano ‘Barbara Forever’, o terror com comédia indonésio ‘Ghost in the cell’, o drama sul-coreano ‘My name’ e a cópia restaurada de ‘O casamento do meu irmão’, produção de 1983, de Charles Burnett. Haverá ainda a seção Forum Special, com diversos títulos, e o Forum Expanded, com 21 longas e curtas novos e restaurados, sendo eles filmes ficcionais e documentários de países como Singapura, Colômbia, Indonésia, Alemanha, República Democrática do Congo e Itália. A seção Panorama reúne 37 títulos de 36 países, mostra dedicada a filmes disruptivos na linguagem e de conteúdos inovadores. É uma das mais aguardadas do festival, e contará com títulos como ‘Only rebels win’ (filme libanês que será a abertura do Panorama, cujo elenco conta com Hiam Abbass); ‘The days she returns’, do sul-coreano Hong Sangsoo; a coprodução Brasil e França ‘Isabel’, com Marina Person; o norte-americano ‘Mouse’, com Sophie Okonedo; e a coprodução Estados Unidos e Reino Unido ‘The moment’, com Charli xcx, Alexander Skarsgård e Rosanna Arquette. Nas seções Generation 14plus e Generation Kplus, dedicadas a filmes com temáticas e protagonistas infantojuvenis, serão 18 longas e 23 curtas do mundo todo, dentre eles a coprodução Índia e Singapura ‘Not a hero’, de Rima Das, e o britânico ‘Sunny dancer’, com Bella Ramsey e Neil Patrick Harris. Outras seções são a Berlinale Special, com 19 obras, incluindo documentários e séries que exploram temas culturais e políticos, distribuídos em dois eventos, Gala e Midnight, dentre eles ‘Boa sorte, divirta-se, não morra’, de Gore Verbinski, com Sam Rockwell; ‘O testamento de Ann Lee’, com Amanda Seyfried; ‘The blood countess’, com Isabelle Huppert; o documentário americano ‘The ballad of Judas Priest’; ‘The only living pickpocket in New York’, com John Turturro; e novas séries como a chilena ‘A casa dos espíritos’ e as britânicas ‘O senhor das moscas’ e ‘The story of documentary film’, este dirigido pelo premiado cineasta Mark Cousins.


Na Berlinale Classics serão 10 filmes de nove países, todos em nova restauração 4K, como o japonês ‘Introdução à Antropologia’ (1966), de Shōhei Imamura; o alemão ‘Segredos de uma alma’ (1926), de Georg Wilhelm Pabst; o suspense/terror soviético ‘O hotel do alpinista morto’ (1979), de Grigori Kromanov; o anime japonês ‘Ninja scroll’ (1993); e ‘Despedida em Las Vegas’ (1995), de Mike Figgis, drama que deu a Nicolas Cage o Oscar de melhor atopr. Para finalizar, na Berlinale Shorts serão 21 filmes, todos inéditos, de países como Senegal, Áustria, Alemanha, Espanha e Romênia.
Vitrine para os principais filmes da temporada de 2026, a Berlinale foi fundada em 1951. Ao lado de Cannes e Veneza, é um dos festivais mais importantes da Europa. Desde 2000 o palco central de exibições e recepção de convidados é o Theatre am Potsdamer Platz, conhecido como ‘Berlinale Palast’.




A programação completa com os horários e salas de cada filme será divulgado em breve no site da Berlinale, em https://www.berlinale.de/en/home.html

* Fotos extraídas do site oficial da Berlinale
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming


A única saída
 
Visionário, com seu típico humor macabro e recorrendo ao clima de paranoia como fez em ‘Old boy’ (2003), o multipremiado cineasta sul-coreano Park Chan-wook entrega aqui sua versão do livro ‘The ax’, de Donald E. Westlake, que já havia inspirado a ótima comédia de suspense ‘O corte’ (2005), de Costa-Gavras. Park transporta a história de ambição e disputa a todo custo para seu país natal, no tempo atual. Os 25 anos de experiência como executivo no ramo de fabricação de papel não seguraram no emprego Man-soo (Lee Byung-hun); ele acaba de ser demitido da empresa com uma leva de outros funcionários. Seu mundo desaba, já que leva uma boa vida, numa casa luxuosa com seus dois filhos e a esposa dedicada. Com o passar das semanas, a crise financeira vem, mas ele não pretende vender a casa nem cortar gastos. Até que resolve jogar todas as fichas numa vaga em outra empresa do ramo papeleiro, mesmo que tenha de eliminar a concorrência (no sentido literal mesmo). Comédia perturbadora, violência e sangue, suspense e sequências absurdas tomam conta do novo trabalho de Park. É crítico e divertido, um longa inteligente, para se prestar atenção nos detalhes e nos diálogos, pois é um vai-e-vem de personagens e subtramas. O ator Lee Byung-hun segura o filme, e é um primor o domínio do diretor, considerado um dos nomes mais importantes do cinema contemporâneo, que revolucionou o cinema de ação contemporâneo com ‘Old boy’ e tantas obras notórias que são uma pancada. Exibido no Festival de Veneza e no Festival de Toronto, onde recebeu o prêmio do público de melhor filme internacional, o assisti na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ainda com o título em inglês, ‘No other choice’. Estranhamente foi esquecido no Oscar deste ano, não recebendo nenhuma indicação – no Globo de Ouro teve indicações de melhor filme – comédia ou musical, filme de língua não-inglesa e ator para Lee Byung-hun. Estreou ontem em cinemas brasileiros de 21 cidades, com distribuição da Mares Filmes e a Mubi.
 

O ônibus perdido
 
Exibido no Festival de Toronto, o drama de ação inspirado em caso verídico acaba de receber indicação ao Oscar de melhor efeitos visuais. O filme adapta para as telas o livro ‘Paradise: One town's struggle to survive an american wildfire’, da jornalista Lizzie Johnson, então repórter em Los Angeles e hoje correspondente do Washington Post na Ucrânia. Livro e filme narram a trajetória de um homem que virou herói nacional durante o devastador caso ‘Camp Fire’, considerado o incêndio mais letal da história da Califórnia, ocorrido em 2018. Kevin McKay, um motorista escolar com apenas um mês de experiência na função, conduziu um ônibus perdido em meio às chamas, levando dentro 22 crianças e uma professora. Sem saber para onde ir, isolado em uma região sem comunicação, com fumaça para todo lado, McKay passou horas no volante driblando as chamas para salvar os passageiros. A narrativa tensa do filme reflete o caos e a coragem que marcaram aquele dia – a jornalista Lizzie acompanhou a tragédia trazendo para o livro a história desse homem. O caso Camp Fire envolveu um incêndio que teve início em 8 de novembro de 2018 em Butte County, causado por falhas em linhas de transmissão de uma empresa de eletricidade e gás natural. O fogo espalhou-se rapidamente, e a cidade de Paradise, onde o filme acontece, foi totalmente destruída. O saldo foi de 85 mortos, 52 mil moradores evacuados e 18 mil casas e comércio destruídos, e uma área queimada de mais de 62 mil hectares. Os prejuízos giraram em torno de US$ 16 bilhões. A direção do filme é competente, de um cineasta que admiro e sigo há muito tempo, o inglês Paul Greengrass, que costuma fazer obras angustiantes com seu peculiar olhar cinematográfico. Ele segue um estilo documental e utiliza câmeras de mão para criar realismo. Ex-jornalista, Greengrass dirigiu longas reais sobre desastres e ataques terroristas, como ‘Domingo sangrento’ (2002), sobre o massacre de manifestantes em uma passeata na Irlanda do Norte que explodiu em uma terrível guerra civil no país em 1972, ‘Voo United 93’ (2006), que recria os ataques de 11 de setembro, e ‘22 de julho’ (2018), sobre os atentados na Noruega de 2011 que mataram 77 pessoas, além de sucessos comerciais como os dois últimos filmes da trilogia de Jason Bourne. Para o elenco de ‘O ônibus perdido’, escalou Matthew McConaughey, que entrega um tour de force como o heroico motorista Kevin McKay, e America Ferrera, no papel da professora que está com as crianças no ônibus. Os dois estão sublimes, em papeis muito humanos, num filme movimentado, que não deixa de lembrar toda uma mobilização comunitária que ajudou a socorrer vítimas e a controlar o caótico episódio. Produção da Apple TV, está disponível no streaming.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Especial de cinema

 
Oscar 2026: ‘O agente secreto’ é indicado em quatro categorias em anúncio histórico
 
Os brasileiros passaram o dia todo comemorando nas redes sociais após as indicações do filme ‘O agente secreto’ ao Oscar 2026. Nesta manhã, em Los Angeles, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas fez o anúncio oficial dos nomeados. O filme brasileiro concorre em quatro categorias: melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator para Wagner Moura e melhor seleção de elenco/casting, a mais nova seção do Oscar, lançada neste ano. O momento, histórico e marcante, coloca o país páreo na disputa. É a segunda vez de um filme brasileiro concorrer com o maior número de indicações, equiparando-se a ‘Cidade de Deus’ (2002), que também teve quatro nomeações. No ano passado, ‘Ainda estou aqui’ levou o cinema brasileiro para todos os cantos do mundo e recebeu três indicações ao Oscar – vencendo a de melhor filme internacional (a primeira estatueta para o país). ‘O agente secreto’ repete o feito, após longa campanha em festivais e inserção do longa nas salas dos Estados Unidos e do mundo. Outro brasileiro também foi lembrado hoje no anúncio da Academia – trata-se de Adolpho Veloso, nomeado como melhor diretor de fotografia pela produção norte-americana ‘Sonhos de trem’.


Filmes box office receberam inúmeras indicações hoje: ‘Pecadores’ quebrou um recorde, entrando para a História como o filme com mais nomeações, em 16 notáveis categorias, seguido de ‘Uma batalha após a outra’, com 13. ‘Frankenstein’, ‘Marty Supreme’ e ‘Valor sentimental’ empataram com nove cada, seguido por ‘Hamnet – A vida antes de Hamlet’, que recebeu oito. Já ‘Bugonia’ e ‘F1: O filme' ficaram empatados com ‘O agente secreto’, com quatro indicações cada um dos filmes.
A 98ª festa de entrega do Oscar será realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles, no dia 15 de março, com transmissão no Brasil pela TNT, HBO Max e Rede Globo, além do site do G1 e também pelo Youtube da Academia.
Confira abaixo a lista completa dos indicados.
 
Melhor filme
 
'Bugonia'
'F1: O filme'
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'Uma batalha após a outra'
'O agente secreto'
'Valor sentimental'
'Pecadores'
'Sonhos de trem'
 
Direção
 
Chloé Zhao, 'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
Josh Safdie, 'Marty Supreme'
Paul Thomas Anderson, 'Uma batalha após a outra'
Joachim Trier, 'Valor sentimental'
Ryan Coogler, 'Pecadores'
 
Atriz
 
Jessie Buckley, 'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
Rose Byrne, 'Se eu tivesse pernas, eu te chutaria'
Kate Hudson, 'Song Sung Blue - Um sonho a dois'
Renate Reinsve, 'Valor sentimental'
Emma Stone, 'Bugonia'
 
Ator
 
Timothée Chalamet, 'Marty Supreme'
Leonardo DiCaprio, 'Uma batalha após a outra'
Ethan Hawke, 'Blue Moon'
Michael B. Jordan, 'Pecadores'
Wagner Moura, 'O agente secreto'
 


Atriz coadjuvante
 
Elle Fanning, 'Valor sentimental'
Inga Ibsdotter Lilleaas, 'Valor sentimental'
Amy Madigan, 'A hora do mal'
Wunmi Mosaku, 'Pecadores'
Teyana Taylor, 'Uma batalha após a outra'
 
Ator coadjuvante
 
Benicio Del Toro, 'Uma batalha após a outra'
Jacob Elordi, 'Frankenstein'
Delroy Lindo, 'Pecadores'
Sean Penn, 'Uma batalha após a outra'
Stellan Skarsgård, 'Valor sentimental'
 
Roteiro original
 
'Blue Moon'
'Foi apenas um acidente'
'Marty Supreme'
'Valor sentimental'
'Pecadores'
 
Roteiro adaptado
 
'Uma batalha após a outra'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Bugonia”
'Sonhos de trem'
'Frankenstein'
 
Filme internacional
 
'Foi apenas um acidente' - França
'O agente secreto' - Brasil
'Valor sentimental' - Noruega
'A voz de Hind Rajab' - Tunísia
'Sirât' - Espanha
 
Animação
 
'Guerreiras do K-Pop'
'Zootopia 2'
'Arco'
'Elio'
'A pequena Amélie'
 

Documentário
 
'A vizinha perfeita'
'Alabama: Presos do sistema'
'Embaixo da luz de neon'
'Rompendo rochas'
'Mr. Nobody against Putin'
 
Som
 
'F1: O filme'
'Frankenstein'
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'
'Sirât'
 
Montagem
 
'F1: O filme'
'Marty Supreme'
'Uma batalha após a outra'
'Valor sentimental'
'Pecadores'
 
Direção de arte
 
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'


 
Fotografia
 
'Pecadores'
'Uma batalha após a outra'
'Sonhos de trem'
'Frankenstein'
'Marty Supreme'
 
Efeitos visuais
 
'Avatar: Fogo e cinzas'
'F1: O filme'
'Jurassic World: Recomeço'
'O ônibus perdido'
'Pecadores'
 
Canção original
 
'Dear me', de 'Diane Warren: Relentless'
'Golden', de 'Guerreiras do K-Pop'
'I lied to you”', de 'Pecadores'
'Sweet dreams of Joy', de 'Viva Verdi!'
'Train dreams', de 'Sonhos de trem'
 
Maquiagem e cabelo
 
'Frankenstein'
'Kokuho: O preço da perfeição '
'Pecadores'
'Coração de lutador: The Smashing Machine'
'A meia-irmã feia'
 

Figurino
 
'Avatar: Fogo e cinzas'
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'Pecadores'
 
Elenco/Casting
 
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'Uma batalha após a outra'
'O agente secreto'
'Pecadores'
 
Trilha sonora original
 
'Bugonia'
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'
 
Curta-metragem em live-action
 
'Butcher's stain'
'A friend of Dorothy'
'Jane Austen's period drama'
'The singers'
'Two people exchanging saliva'
 
Animação de curta-metragem
 
'Butterfly'
'Forevergreen'
'The girl who cried pearls'
'Retirement Plan'
'The Three Sisters'
 
Melhor documentário em curta-metragem
 
'Quartos vazios'
'Armado com uma câmera: Vida e morte de Brent Renaud'
'Children no more: “Were and are gone'
'O diabo não tem descanso'
'Perfectly a strangeness'
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 3


Nouvelle Vague
 
O cineasta norte-americano Richard Linklater completou 65 anos de idade e 40 de carreira, um contador de histórias originais cujos filmes dividem muito a opinião dos críticos. Em 2025 ele lançou dois longas com ambientação real e histórica – ‘Blue Moon’, que se passa nos anos 40 e trata do fim parceria musical de Lorenz Hart e Richard Rodgers, e ‘Nouvelle Vague’, que presta uma singela homenagem ao movimento cinematográfico francês das décadas de 50 e 60 que revolucionou a linguagem da Sétima Arte. Eu curti ambos quando os assisti na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro passado. ‘Nouvelle Vague’, uma coprodução Estados Unidos e França, reimagina os bastidores da gravação de ‘Acossado’ (1960), filme icônico do movimento francês, idealizado por um dos cineastas mais célebres daquele período, Jean-Luc Godard. Linklater mergulhou no processo de criação daquela obra, desde a escrita do roteiro (feita a seis mãos, por Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, também idealizadores da Nouvelle Vague), até a escolha do elenco e as gravações pelas ruas de Paris. Metalinguístico, o longa foca nos altos e baixos dos bastidores de produção de um filme, como conflitos na escrita do roteiro, exigências estressantes dos diretores, a busca pelo elenco ideal e problemas relacionais na equipe. O filme foi rodado em preto-e-branco e conduzido por uma linguagem singular – repare nos enquadramentos e cortes, com interferências de quebra da quarta parede, como ‘Acossado’ fez de verdade. Outro destaque da linguagem do filme é um certo estilo documental, uma homenagem direta ao espírito inovador da Nouvelle Vague. Momentos de humor crítico e sagaz com passagens dramáticas delineiam a construção desse filme caprichado, de pura qualidade estética, que traz um pouco da Paris da revolução cultural daquele período, bem como do movimento Nouvelle Vague, marcado pela Política do Autor e pelas experimentações artísticas da juventude do pós-guerra. O elenco é liderado por Guillaume Marbeck na pele de Godard, Zoey Deutch interpretando Jean Seberg e Aubry Dullin como Jean-Paul Belmondo – os três estão formidáveis, com caracterização que lembram os reais artistas. O longa foi selecionado para o Festival de Cannes de 2025, disputando a Palma de Ouro, além de ter recebido indicação ao Gotham Awards na categoria de filme internacional e ao Globo de Ouro de melhor filme – comédia ou musical. Continua em cartaz nos cinemas, com distribuição pela Mares Filmes e Alpha Filmes.
 

 
A useful ghost - Uma ajuda do além
 
Vencedor do Grand Prix da Semana da Crítica em Cannes de 2025, o inusitado longa-metragem tailandês marca a estreia de Ratchapoom Boonbunchachoke e figura entre as obras mais excêntricas do cinema recente. Coproduzido com França, Singapura e Alemanha, foi escolhido como representante oficial da Tailândia para disputar o Oscar 2026 de melhor filme internacional. A narrativa se apresenta como uma fábula com forte comentário social, que aborda desigualdade e exploração no trabalho, mas revestida de elementos fantásticos. Difícil classificá-lo em um único gênero: é uma fita surrealista que transita entre drama, comédia, romance e horror sobrenatural. Gosto de filmes esquisitos, e este me pegou – mas adiante que é para público extremamente específico. A trama acompanha uma série de personagens relacionados à morte de duas pessoas que tinham algum vínculo com uma fábrica de aspiradores de pó. Um funcionário desta empresa morre no trabalho, vítima de doença respiratória, e retorna como espírito habitando um daqueles aparelhos de limpeza. Paralelamente, o fantasma da jovem esposa do herdeiro da fábrica também ‘encarna’ em outro dispositivo doméstico. Os dois aspiradores de pó animados percorrem dias e noites em busca de seus entes familiares. O enredo é narrado pela perspectiva de um enigmático rapaz, chamado para reparar um aspirador que, segundo o dono, emite urros de dor e tosse. O encontro dos dois será marcado por uma longa conversa – o primeiro contará com detalhes casos de espíritos que se instalam em eletrônicos domésticos, interpretado pelo ouvinte como uma lenda urbana. Por meio de flashbacks, o filme reconstrói aquelas duas histórias de equipamentos assombrados, revelando porque esses fantasmas acabam sendo “úteis” - como sugere o título. Apesar do tom absurdo e nonsense, o longa funciona como metáfora crítica sobre exclusão, hierarquias sociais e preconceito. E dialoga ainda com crenças tailandesas sobre espíritos protetores e rituais de oferenda, muito comuns no país. O filme exige atenção, já que múltiplas subtramas se entrelaçam. Ousado e provocativo, inclui cenas de sexo bizarras — em uma delas, um homem se envolve intimamente na cama com o aparelho possuído, chegando a beijar de língua o tubo do aspirador. Visualmente, a produção aposta em enquadramentos estáticos e uma estética de cores que reforça sua estranheza. Atualmente em cartaz, chega ao público brasileiro pela Pandora Filmes.
 

 
Belén: Uma história de injustiça
 
Produção argentina de 2025 baseada em acontecimento real, o drama está na shortlist do Oscar para disputar uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro, ao lado de grandes filmes como ‘O agente secreto’, ‘Sirāt’ e ‘Valor sentimental’. O longa se baseia em dois livros: ‘Somos Belén’, de Ana Correa, e ‘Libertad para Belén’, da jurista Soledad Deza, que é a personagem central dessa comovente trama. Em 2014, Soledad assumiu um caso que se tornou símbolo da luta pelos direitos da mulher ao aborto, culminando na aprovação, em 2020, da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVE) - até a 14ª semana de gestação. Soledad se sensibilizou com uma jovem apelidada de Belén, de 27 anos, que foi presa injustamente após sofrer um aborto espontâneo em um hospital público de Tucumán. Os médicos suspeitaram que Belén tivesse provocado a interrupção da gravidez e acionaram a polícia. Belén (cujo nome real foi preservado para proteger a identidade da verdadeira mulher) foi a julgamento e condenada a oito anos de cadeia por homicídio, mas ela cumpriu quase três, com a entrada de Soledad no caso. A prisão de Belén ganhou as ruas com protestos massivos exigindo sua liberdade. O lema #LibertadParaBelen invadiu as redes sociais, abriu-se um amplo debate sobre a autonomia do corpo feminino e o aborto, gerando um movimento na Argentina e em outros países da América do Sul que ficou conhecido como ‘Maré Verde’ (‘Ola Verde’) - as mobilizações nas ruas argentinas chegaram a reunir cerca de 1,5 milhão de mulheres. O longa acompanha especialmente a relação da advogada Soledad e a jovem Belén, antes e depois do julgamento. Ao encerrar o ‘Caso Belén’, Soledad viu abrir um novo horizonte para seus estudos e a própria existência, engajando-se na luta feminista em prol das mulheres vulneráveis vítimas de estupro. Com o filme é possível refletir o que está por trás do aborto, tema extremamente polêmico na sociedade, que divide opiniões. A direção e interpretação de Soledad Deza ficam a cargo de Dolores Fonzi, em seu segundo trabalho como diretora, demonstrando seriedade em frente à câmera e atrás dela. Indicado ao Critics Choice de melhor filme internacional e premiado no Festival de San Sebastián, o drama transforma uma dor real em um manifesto em defesa dos direitos das mulheres. Produção da Amazon/MGM, está disponível no Prime Video.


 
Adeus, June
 
A oscarizada atriz Kate Winslet faz sua estreia como diretora neste comovente filme sobre os vínculos emocionais entre uma mãe e os filhos diante de uma doença terminal. É uma obra autoral feita em família, que Kate insistiu em produzir com recursos próprios; em 2017 ela perdeu a mãe, vítima de câncer de ovário, e anos depois, o filho dela, Joe Anders, que tem com o cineasta Sam Mendes, escreveu um roteiro inspirado na morte da avó e nas experiências do luto intitulado ‘Goodbye, June’. Anders o apresentou na faculdade de cinema na Inglaterra, e agora pode vê-lo ganhar forma, em sua estreia como roteirista – Anders é ator, tem 22 anos, e já atuou em filmes como ‘1917’ (2019) e Lee (2023 – quando contracenou com a mãe, Kate). Trata-se de uma coprodução Reino Unido e EUA, filmada em Londres, com um elenco de peso: Helen Mirren, Timothy Spall, Toni Collette, Johnny Flynn e Andrea Riseborough. A narrativa se desenrola nas semanas que antecedem o Natal, quando quatro irmãos adultos se reúnem para visitar a mãe debilitada por um câncer em estágio terminal. Eles precisam ainda dar suporte ao pai idoso, que enfrenta uma série de problemas de saúde, além do comportamento instável. Deu para notar que não é um filme fácil de digerir, trabalhando com seriedade e emoção o tema da perda familiar. Os atores seguram a trama com coração e alma, numa obra que nasce da relação real de mãe e filho, refletindo a despedida de forma tocante. Produzido pela Netflix, estreou na véspera do Natal e permaneceu por duas semanas entre os 10 filmes mais assistidos da plataforma nesta temporada.



Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2

O acidente do piano   Músico (apelidado de Mr. Oizo), produtor, roteirista e um dos diretores mais excêntricos do cinema contemporâneo, Quen...