terça-feira, 26 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2 (21/05)


Erupcja
 
Um dos filmes mais curtos (de duração) que assisti recentemente, com seus enxutos 71 minutos, “Erupcja” é uma fita experimental rápida, com a cantora, DJ e compositora britânica que vem se jogando no cinema alternativo, Charli XCX (este ano ela lançou também o mockumentary “The moment”, que teve sessões no Festival de Berlim, onde assisti, e depois estreou no Brasil com baixíssima repercussão). “Erupcja” (palavra em polonês que significa “Erupção”) surge como uma experiência cinematográfica que mistura drama feminino e um humor diferentão, recorrendo a metáfora da erupção vulcânica para explorar sentimentos pessoais. O filme foi inteiramente rodado nas ruas da Polônia, gravado com estilo de cinema artesanal/caseiro, com câmera na mão, naquela estética que balança a imagem ao acompanhar os personagens se movimentando de lá para cá. Na história, a jovem Nel (Lena Góra) leva uma vida serena em uma floricultura na capital polonesa, Varsóvia, até ser surpreendida pela visita de Bethany (Charli XCX), amiga de infância que está na região para turistar. A vinda da Bethany desperta em Nel memórias e desejos reprimidos; enquanto isso, um vulcão próximo entra em erupção, espelhando as cinzas e as ondas de calor (uma combustão simbólica, que envolve o dilema emocional entre aquelas duas mulheres). Há outras alegorias sutis no filme: a dualidade da delicadeza das flores com imagens de lava e fumaça, as conversas ambíguas entre as amigas, a relação controversa com seus namorados etc. Charli XCX, além de protagonizar (e está bem no papel), assina o roteiro ao lado do diretor, Pete Ohs, e da atriz Lena Góra, bem como produz a fita, demonstrando compromisso com o cinema autoral. Seu papel dá dimensão a uma figura vulnerabilizada, que vai se transmutando no decorrer da intensidade da história, que trata de amizade e desejos profundamente reprimidos. Filme produzido no auge do sucesso do disco de Charli “Brat”, que virou um fenômeno pop que ditou regras de comportamento e moda (o que é tratado no longa posterior dela, “The moment”). Selecionado para o Festival Internacional de Toronto, o filme teve exibições em outros festivais de renome, como SXSW, Torino, Thessaloniki, Miami, IndieLisboa, Guadalajara e na Mostra Internacional de Cinema de SP. Entrou em cartaz no último fim de semana, com distribuição da Imovision.


 
Vivendo no limite
 
Dirigido por Jinghao Zhou (em seu segundo trabalho), o drama com suspense produzido na China é uma fita intensa que se passa no universo competitivo da patinação artística, expondo a tensão entre duas patinadoras durante os preparativos de um campeonato – e o filme não deixa de lado outros subtemas, como a pressão familiar em busca do sucesso e os dilemas emocionais das atletas. A estética do filme é fenomenal, um trabalho de mestre com grandes cenas de patinação, em que a câmera captura closes nos patins riscando o gelo, enquadramentos por cima e por baixo das atletas, além de cenas em que as duas personagens centrais se confrontam em diálogo combativos. O longa acompanha Jiang (Zifeng Zhang), uma promissora patinadora que tenta de tudo para ascender na carreira, sob o olhar implacável da mãe e treinadora, Wang (Yili Ma). A relação entre as duas é de disciplina rigorosa, que não fica só no ambiente da casa, mas mais ainda nas quadras. A relação entre ambas aumenta a tensão psicológica do filme e revela como o amor pode ser dominado e até destruído pelo controle em excesso. Na pista, Jiang encontra-se com Zhong (Xiangyuan Ding), que vê nela um reflexo de próprias inseguranças. Até que Wang passa a treinar Zhong, estabelecendo uma rivalidade entre as duas patinadoras. Rivalidade esta que se torna uma busca pela perfeição e também uma obsessão, levando as duas garotas a um jogo intenso de confrontos. A direção de Zhou recorre a um fino trabalho, com ótima fotografia de Yu Jing-Pin, principalmente a dos treinos no gelo (com cores frias, num ambiente cercado e solitário). Não é apenas um filme sobre competição esportiva, e sim uma obra densa sobre os limites da ambição e os custos do reconhecimento e sucesso (em certos aspectos lembra “Eu, Tonya”, em especial a relação controversa da patinadora com a mãe temperamental). Uma fita que inquieta, aguça nossa percepção e comprova mais uma vez a qualidade do cinema chinês contemporâneo. 
Distribuído no Brasil pela A2 Filmes, que disponibilizou a produção em streamings como Prime Video, Looke, Apple TV, Google Play e Claro TV.

Nota do blogueiro

 
Cine Debate exibe clássico de Charles Chaplin neste sábado no Sesc
 
O Cine Debate de maio, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, exibe no próximo sábado, dia 30/05, a partir das 14 horas, um clássico absoluto do cinema, “O garoto” (1921), escrito, roteirizado e interpretado pelo mestre do humor Charles Chaplin. Misturando comédia e drama, o filme é considerado um dos maiores filmes da Sétima Arte. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, na sala de ginástica do Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida, com mediação da equipe do Sesc.
 
Sinopse: O vagabundo (Charles Chaplin) adota uma criança que foi abandonada na rua (Jackie Coogan), e ambos criam um forte vínculo, envolvendo-se em aventuras pelas ruas da cidade grande.

 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

domingo, 24 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


A trégua
 
Chegou ontem com exclusividade no streaming Adrenalina Pura+ esse drama de guerra espanhol inspirado em fatos verídicos ocorridos em um campo de prisioneiros soviético na década de 40. Dirigido por Miguel Ángel Vivas (de “Horas do medo” e “Apocalipse”), o longo filme (que tem 151 minutos de duração) aborda as cicatrizes da Guerra Civil Espanhola no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial. É a trágica história do Capitão Reyes e Tenente Salgado, dois homens do Exército que lutaram em lados opostos na Guerra Civil, um franquista e outro republicano, e que, por ironia do destino, são presos juntos em um gulag mantido pela URSS. Daquele paradoxo nasce uma relação de sobrevivência entre os dois inimigos; eles são forçados a conviver (e sobreviver) em meio a outros soldados aprisionados naquele inferno, um lugar gelado sob condições desumanas. Estrelado por Miguel Herrán (o Río da série da Netflix “La casa de papel”) e Arón Piper (o Ander da série “Elite”, também da Netflix), os atores vivem personagens tomados pelo peso das ideologias que dividiram a Espanha, ao mesmo tempo que procuram a urgência da sobrevivência diante da fome, do frio, da violência sorrateira dentro da prisão e das torturas físicas e psicológicas cometidas pelos agentes carcereiros (alguns morrem enquanto outros enlouquecem). Com bons diálogos, o drama se segura pela fotografia, marcada por tons gélidos e ambientes sufocantes, com muitas sequências no breu da prisão, aliado à trilha sonora discreta que intensifica os silêncios daquele lugar de desesperança. Exibido no Festival de San Sebastián de 2025 e indicado ao Goya desse ano de melhor maquiagem, o filme está agora disponível no Brasil no streaming Adrenalina Pura+, uma parceria entre a Sofa Dgtl e a California Filmes, que traz no catálogo produções de ação, terror e suspense, para assinatura na Apple TV, no Prime Video e na Claro TV+.

 
 
Louis Theroux: Por dentro da Machosfera
 
Excelente produção da Netflix, o documentário conduzido pelo jornalista britânico Louis Theroux é uma assustadora pesquisa de campo em que ele analisa o universo digital da chamada “manosfera”, apelidada de “machosfera”, uma subcultura da internet formada por comunidades masculinistas, cuja característica é se opor radicalmente aos movimentos feministas utilizando-se de discursos misóginos e odiosos contra as mulheres. Grupos como Red Pills, Incels e MGTOW (Men Going Their Own Way, na tradução “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”) integram essa rede, e nos últimos anos ficaram conhecidos pelo conteúdo agressivo que é disseminado a milhões de seguidores nas redes sociais. O filme é uma investigação particular de Louis Theroux, premiado jornalista britânico de documentários investigativos da BBC e apresentador de TV, que estuda masculinidade tóxica, e no doc ele mapeia influencers da machosfera para uma conversa informal com eles.  Ele entrevista, por exemplo, Andrew Tate, ex-campeão de kickboxing e hoje influenciador, Sneako (Nicolas Balinthazy), criador de conteúdo que mistura debates sobre cultura jovem, política e masculinidade, e Myron Gaines (Amrou Fudl), podcaster red pill, que toparam falar sem censura. É uma visão de mundo desses caras muito particular, com discursos virulentos, o que chega a causar espanto. O jornalista abre um debate sobre como as redes sociais e espaços virtuais moldaram comportamentos abusivos, especialmente entre homens jovens, que expressam sem medo opiniões das mais absurdas e perigosas, sem que eles respondam por aquilo na justiça – nos EUA as leis das redes são afrouxadas, sequer existe controle. Com cautela e distanciamento, Theroux visita casa e estúdio dos entrevistados, sem julgamentos imediatos, mas com perguntas incisivas que revelam contradições e tensões. Para essas personalidades midiáticas, a manosfera propõe a “restauração” da masculinidade tradicional, segundo eles tendo o homem como protagonista da vida em sociedade (por isso a misoginia, que boa parte deles, contaminados por esse ideal de vida, não percebe cometer). O documentário da Netflix é um retrato inquietante de como a internet se tornou terreno fértil para ideologias que misturam ressentimento, frustração e radicalização. Recomendo.


 
Eu não te ouço
 
O novo longa de Caco Ciocler (que há um bom tempo vem se dividindo entre atuação e direção) encerra uma trilogia política que ele construiu sem planejar, que analisa o Brasil contemporâneo e suas tensões no campo da política. A trilogia é formada pelos documentários “Partida” (2019), que traz a atriz Georgette Fadel tentando se candidatar à presidência da República após a eleição de Bolsonaro, e como inspiração viaja de ônibus com um grupo de amigos para visitar o presidente do Uruguai Pepe Mujica, seguida de “O melhor lugar do mundo é agora” (2021), filmado em plena pandemia, que trata de artistas no isolamento social e a invasão das fakes news sobre eles naquele período crítico da política nacional. Agora Ciocler faz uma obra ficcional misturando comédia e drama e, como consta na tagline do pôster, é “baseada em um meme real”: é a história verídica de um caso inusitado que viralizou nas redes e grande mídia no final de 2022, chamado de “O patriota do caminhão”. O apelido foi dado a um indivíduo chamado Marcos Guedes, dito empresário, que virou um dos maiores memes da internet após se agarrar na frente de um caminhão em movimento. O episódio ocorreu em novembro de 2022, na rodovia BR-232, em Caruaru (PE), durante os bloqueios de estradas ilegais realizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que contestavam o resultado das eleições presidenciais (em que Lula ganhou). O tal empresário fez isso para impedir que um caminhão furasse o bloqueio. A partir desse meme de segundos de duração que contaminou as redes, Ciocler faz, em “Eu não te ouço”, um estudo de personagens instigante, com o ator Márcio Vito em papel duplo: o do caminhoneiro e o manifestante agarrado no veículo. O filme parte desse acontecimento para propor uma metáfora sobre a divisão do país, que explodiu em conflitos ideológicos. De um lado, o motorista fechado na cabine, seguindo com seu trabalho, e do outro, o manifestante agarrado na frente do caminhão, gritando palavras que o caminhoneiro não consegue ouvir. Entre eles, o vidro, uma barreira física e simbólica que separa mundos e impede o diálogo. A obra é sobre a impossibilidade de escuta em uma sociedade dividida, onde discursos se chocam e nunca há conciliação. Pode ser visto como um road movie de estilo autoral, com pitadas de sarcasmo e ironias da vida real. O trabalho de Vito foi reconhecido em muitos festivais, como o Festival do Rio, onde ganhou o Troféu Redentor de melhor ator. O roteiro foi escrito em três: por Ciocler, Vito e pela atriz Isabel Teixeira (filha do cantor e compositor Renato Teixeira). Exibido em festivais como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a obra está nos cinemas brasileiros, com produção e distribuição da Amaia.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Especial de cinema

 
18º Festival In-Edit Brasil 2026 tem início em junho e anuncia programação
 
A edição de 2026 do “In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical” já tem data para acontecer! Um dos festivais de documentário mais aguardados pelo público será realizado de 17 a 28 de junho, em São Paulo e no streaming, contando na programação com 64 filmes nacionais e internacionais, todos com exibição gratuita. Longas e curtas do Panorama Brasileiro estão divididos em cinco mostras: Competição Nacional, Mostra Brasil, Brasil.doc, Curta Um Som e Especial, enquanto os do Panorama Mundial estão distribuídos nas mostras Panorama, Instituto Cervantes e Flashback, além de uma homenagem a Rob Reiner (cineasta falecido em dezembro do ano passado). As sessões ocorrem em seis salas da capital paulista: CineSesc, Cine Bijou, SPcine Olido (CCSP), Spcine Paulo Emílio (CCSP), Cine Matilha (Matilha Cultural, localizado no bairro República) e Cinemateca Brasileira; a programação incluiu ainda shows, exposições, feira de vinil e livros, encontros e bate-papos com convidados especiais.



O In-Edit Brasil é uma realização da In Brasil Cultural, do Ministério da Cultura (via Lei Rouanet), do Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Sesc São Paulo, e conta com patrocínio do Itaú Unibanco e da Spcine, além da parceria com a Cinemateca Brasileira. O festival foi criado em Barcelona, na Espanha, em 2003, e é realizado no Brasil desde 2009. Paralelamente ocorrem edições do In-Edit em cinco países: Espanha, Chile, Países Baixos, Grécia e México, além de, no Brasil, contar com mostras itinerantes em cidades do interior de São Paulo, como Piracicaba e São Luiz do Paraitinga. Conheça mais sobre o Festival In-Edit Brasil no instagram https://www.instagram.com/ineditbrasil/ e no site oficial https://br.in-edit.org
Conheça a lista completa dos filmes da edição 2026 divididos em cada mostra:
 
Panorama Brasileiro
 
Competição Nacional
 
‘Dona Onete – Meu Coração Neste Pedacinho Aqui’
‘Entre o Sucesso e a Lama’
‘Massa Funkeira’
‘Ninguém Pode Provar Nada’
‘O Cravista’
‘Pontos de Força’
‘Tribalistas – O Baú da Hora Fértil’
‘Universo Circular – Jocy de Oliveira’
‘Vivo 76’

 
Mostra Brasil
 
‘Apocalipse Segundo Baby’
‘Ary’
‘Canecão – Tantas Emoções’
‘Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos’
‘Gonzaguinha – Da Maior Liberdade’
‘Nem Tudo é Paz e Amor’
‘Quando a Gente Vira Um – Mestre Ambrósio’
‘Rei da Noite’
‘Vou Tirar Você Deste Lugar’
 
 
Brasil.Doc
 
‘Arthur, o Gigante’
‘Canto da Gente – Um Filme Sobre ‘Os Tápes’
‘Gritos de Agonia – Uma História do Movimento Punk Hardcore em Belém do Pará’
‘Hip Hop Caboclo’
‘O Homem do Fraque Verde’
‘Punks do ABC’
 
 
Curta um Som
 
‘Bárbara - A Força da Ancestralidade’
‘Batuque da Fêra’
‘Bira Rasta, Eu Sou a Onda’
‘Bregueragem’
‘Duque de Caxias, o Albergue do Rock’
‘Nação Hip Hop: Cultura de Rua’
‘Não quero ser capeta, não!’
‘O Carnaval é de Pelé’
‘Ressonâncias’
‘Silêncio na Boiada’
‘Uma Orquestra no Contrabaixo’
 
 
Sessões Especiais
 
‘A Noite de Alaíde’ (2026)
‘Flora & Airto – O Som Revolucionário’ (2026)
‘Botinada! A Origem do Punk no Brasil’ (2006)
‘Ganga Zumba’ (1963)
 
 
Panorama Mundial
 
‘Boy George & Culture Club’
‘Sun Ra: Do the Impossible’
‘Di’Anno: Iron Maiden’s Lost Singer’
‘Best Summer’
‘Esto es Raptor House’
‘Cheech & Chong’s Last Movie’
‘The Last Critic’
‘Half Moon’
‘La Partitura del Cosmo’
‘La 42 (42nd Street)’
‘Through the Body: The Story of the International Body Music Festival’
‘Para Vivir: El implacable tiempo de Pablo Milanés’
‘Agridulce’
‘Amadou & Mariam: The Blind Couple from Mali’
Everywhere Man: The Lives and Times of Peter Asher’
‘Big Mama Thornton: I Can’t Be Anyone But Me’
‘The Big Johnson’
‘Born Innocent: The Redd Kross Story’ (a banda estará no Brasil pela primeira vez e fará um show especial no dia 26 de junho no Cine Joia, e no dia 25 de junho os protagonistas do filme apresentam a sessão na Cinemateca)
 
 
Mostra Instituto Cervantes
 
‘El Canto de las Manos’
‘La Guitarra Flamenca de Yerai Cortés’
‘Omega Wants to Dance’
‘La Marsellesa de Los Borrachos’
 
 
Homenagem a Rob Reiner
 
‘This Is Spinal Tap’ (1984)
‘Spinal Tap II: The End Continues’ (2025)
 
 
Sessão Flashback
 
‘Heartworn Highways’ (1976)
‘September Songs: The Music of Kurt Weill’ (1994)
 
 
Shows confirmados:
 
Odair José - 18 de junho, na Casa Natura Musical.
 
Fernanda Abreu - 25 de junho, no Cine Joia.
 
Redd Kross - 26 de junho, no Cine Joia

terça-feira, 19 de maio de 2026

Resenha especial


Crítico
 
“Crítico” marca a estreia de Kleber Mendonça Filho como diretor de longa-metragem, já revelando muito da sua inquietação que atravessaria a carreira. O filme, lançado em 2008, nasceu de uma ideia simples, mas de forte apelo: reunir depoimentos de críticos de cinema, cineastas brasileiros e estrangeiros e atores e atrizes para discutir a relação de quem faz e quem analisa filmes. Kleber, que começou a carreira como crítico em Recife, aproveitou sua rede de contatos e cobertura de festivais nacionais e internacionais para colher entrevistas em diferentes contextos – o resultado é um mosaico de vozes que se cruzam e se contradizem. Filme de abertura da Mostra de Tiradentes de 2008, o documentário traz 70 depoimentos de profissionais do cinema do mundo todo, como dos críticos Luiz Zanin, Deborah Young, Pierre Murat e Bertrand Bonello (que depois viria a ser diretor de cinema), o teórico de cinema e escritor Michel Ciment, e uma vastidão de cineastas, como Jafar Panahi, Catherine Hardwicke, Hector Babenco, Elia Suleiman, Claudio Assis, Daniel Burman, Costa-Gavras, Gus Van Sant, Nelson Pereira dos Santos, Julian Schnabel, Sergio Bianchi, Roberto Gervitz, Fernando Meirelles, Beto Brant, Luiz Carlos Lacerda, Tom Tykwer, Eduardo Coutinho, Curtis Hanson, Daniel Filho, Phillip Noyce, Richard Linklater, Carlos Reichenbach, Walter Salles e Carlos Saura, além de atores, como Fernanda Torres e Samuel L. Jackson. Entre um depoimento e outro, Kleber alterna cenas de filmes cult (como de David Lynch, que aliás dá um depoimento em voz apenas), cenas de sets de filmagens (que participou) e de festivais onde esteve, como Berlim. É um registro completo e extenso, de enorme dedicação e amor ao cinema, que demorou oito anos para ele realizar (Mendonça fez as gravações entre os anos de 1999 e 2007), num processo artesanal, sem grandes recursos, em que dispunha apenas de sua câmera e microfone para gravar conversas informais em mesas e corredores. O resultado são pontos de vista sobre o papel da crítica de cinema, a relação dela com o público, a subjetividade do crítico, a importância dessa profissão ao longo do tempo, a tensão que existe na relação entre críticos e cineastas, a seleção do que o público deve ou não ver. Não procura respostas, mas mostra como o olhar crítico pode ser tanto um aliado na difusão do cinema quanto um obstáculo para quem cria, dependendo da perspectiva. Na época do doc, Kleber tinha 40 anos, e este foi seu primeiro longa-metragem após alguns curtas exibidos em festivais internacionais, como “Vinil verde” (2004). É um trabalho independente que antecipa a sensibilidade de Mendonça para observar relações sociais e culturais, algo que se tornaria marca registrada em filmes posteriores como “O som ao redor” (2012), “Aquarius” (2016) e “O agente secreto” (2025).


“Crítico” também foi o primeiro trabalho da CinemaScópio, produtora de Kleber fundada naquele ano, 2008, ao lado da esposa Emilie Lesclaux (produtora de cinema e cientista social de origem francesa), com que se casou um ano antes (juntos, produziriam todos os filmes que vieram em seguida). Distribuição do doc agora pela Vitrine Filmes. PS - O documentário é um dos destaques da nova mostra de cinema do Sesc, a “Mostra Farol - O cinema entre a memória e o agora”, lançada em março desse ano, que traz filmes lançamentos e clássicos feitos por cineastas autorais de 12 países, criadores de obras de linguagem própria e estética revolucionária. Foram 31 filmes na programação, entre sessões presenciais no Cinesesc (entre março e abril) e online (gratuitos na plataforma do Sesc Digital, com títulos até amanhã dia 20/05, incluindo “Crítico”), com longas que vão do drama intimista ao body horror, que tocam em temas como violência doméstica, imigração e sexualidade. Dentre os títulos da Mostra Farol estão os clássicos “Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão” (de Pedro Almodóvar) e “Rio, 40 graus” (de Nelson Pereira dos Santos) e os recém-lançados “Alpha” (de Julia Ducournau) e “O senhor dos mortos” (de David Cronenberg).

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2


Colisão: Acidente ou homicídio?
 
Documentário de true crime da Netflix sobre um acidente de carro fatal que aos poucos virou um extenso caso policial que terminou em acusação de homicídio. A produção se destaca por sua abordagem investigativa e pela tensão constante entre versões conflitantes – da condutora sobrevivente e da família das duas vítimas que morreram. O caso ocorreu em julho de 2022, em Strongsville, Ohio (EUA), quando a jovem Mackenzie Shirilla, de 17 anos, bateu seu automóvel contra uma parede de tijolos, na área urbana da cidade, matando o namorado Dominic Russo e o melhor amigo dele, Davion Flanagan. Em 2023, Mackenzie foi considerada culpada por homicídio doloso e outros 11 crimes, recebendo pena de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. O que inicialmente parecia um acidente de trânsito logo fervilhou em uma investigação complexa, levantando dúvidas sobre motivação, responsabilidade e verdade. O documentário segue com entrevistas, registros policiais e análises jurídicas, bem como vídeos do acidente flagrado por câmeras de vigilância e depoimentos de várias pessoas à época para a polícia, além de mensagens de celulares e depoimentos atuais de familiares das vítimas. O público é conduzido a refletir sobre como a percepção de um evento pode mudar quando novos elementos vêm à tona. O título é provocador, nos perguntando até que ponto a linha entre acidente e homicídio pode ser tênue, e como a justiça lida com essa ambiguidade.


 
Surda
 
Nesse delicado drama espanhol sobre maternidade e inclusão acompanhamos Ângela (Miriam Garlo), uma mulher surda que acaba de se tornar mãe e compartilha com afinco essa experiência ao lado de seu marido, que é ouvinte, Héctor (Álvaro Cervantes). A chegada do bebê expõe os desafios universais da maternidade e, no caso de Ângela, as barreiras para uma mulher surda em uma sociedade pouco preparada para acolher pessoas com deficiência. O filme nasceu de um curta-metragem de mesmo nome, “Surda” (2021), indicado ao Goya - nele contracenam a atriz surda Miriam Garlo sob direção da irmã, Eva Libertad – e agora ambas retornaram no longa (que venceu três prêmios Goya, consagrando Miriam Garlo como a primeira surda a receber o prêmio de atriz revelação). O roteiro é inspirado na própria trajetória de Miriam, escrito pela irmã Eva, ou seja, um projeto autoral feito em família. A obra trabalha sons alternados com momentos de profundo silêncio para mostrar as relações da personagem na sociedade, explorando de forma sensível temas como autonomia, maternidade, isolamento e comunicação. A própria câmera, com movimentos sutis, privilegia silêncios e gestos, num trabalho primoroso da equipe técnica. O trabalho de Álvaro Cervantes como o marido de Ângela, premiado como melhor ator coadjuvante no Goya, complementa a performance de Miriam com naturalidade, reforçando a dinâmica de um casal que precisa reinventar sua comunicação diante das exigências da vida com um bebê. O longa também recebeu o Prêmio do Público na Mostra Panorama do Festival de Berlim, além de exibições em festivais como Guadalajara, Seattle e Málaga. Estreou no último fim de semana nos cinemas do Brasil, com sessões que contam com legenda descritiva, audiodescrição e Libras via aplicativo ‘Conecta’, reforçando o compromisso da obra com a acessibilidade. A distribuição nas salas é pela Retrato Filmes.


 
Um dia de sorte em Nova York
 
É a estreia da semana do Filmelier+, streaming que apresenta ao público filmes de vários países e épocas. Exibido no Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Camera, o longa, de 2025, é um íntimo retrato sobre a imigração numa das maiores cidades do mundo, Nova York. O filme acompanha 48 horas na rotina de Lu (Chang Chen), jovem chinês que acaba de se instalar em Manhattan e consegue um emprego como entregador de comida. Nas primeiras horas nas ruas, sua bicicleta elétrica é furtada, e ele então corre contra o tempo para localizar sua principal ferramenta de trabalho. Está para chegar na cidade sua família (esposa e a filha), e Lu acaba de ter uma séria discussão com o proprietário do apartamento que alugou – ou seja, seu dia não pisca para a sorte. O filme acompanha esses momentos angustiantes e decisivos na vida de Lu, que luta por dignidade e reconhecimento. É uma visão amarga de Nova York, da cidade que não dorme, focando na figura de um homem dividido entre o Oriente e o Ocidente, trabalhando sob chuva e frio para propiciar condições mais dignas para a família. Partindo da ideia central do clássico neorrealista “Ladrões de bicicleta” (1948), o primeiro longa do diretor coreano-canadense Shi-Zheng Chen é uma adaptação para o cinema de seu curta-metragem premiado em Cannes e Toronto, “Same old” (2022), sobre a rotina de um entregador em Nova York. Conta com um ótimo trabalho de Chang Chen, de “Duna”, nua interpretação sem exageros ou melodrama – ator e diretor foram indicados ao Film Independent Spirit Awards deste ano pelo filme. Assisti, gostei e recomendo.

domingo, 17 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

 
Eclipse
 
Filha do casal de cineastas Helena Ignez (também atriz) e Rogério Sganzerla (mente por trás do Cinema Marginal), Djin Sganzerla construiu sua carreira entre atuação, direção, produção cinematográfica e roteiro, além de ter sido apresentadora do Canal Brasil por muito tempo. Fez mais de 20 filmes como atriz e dirigiu dois longas, “Mulher oceano” (2020) e “Eclipse” (2025), esta uma obra densa, complexa, que mistura diversos gêneros e é tão boa e original quanto o primeiro trabalho atrás das câmeras – e em ambos ela interpreta a protagonista. “Eclipse” estreou nos cinemas brasileiros na semana passada, e é um filme de narrativa ousada, que desafia convenções. Estrutura-se como um mosaico de imagens que se entrelaçam em torno de uma mulher em constante deslocamento e desintegração. Essa personagem é a astrônoma Cleo (Djin Sganzerla), que está grávida, e no turbilhão das emoções causadas pelo desafio de ser mãe, é surpreendida com a chegada de Nalu (Lian Gaia), sua meia-irmã bem mais nova, de origem indígena. Distantes, Cleo e Nalu iniciam uma fase de reconexão familiar, tomadas por memórias perturbadoras que as levam para uma jornada humana até então desconhecida. No meio disso tudo, Cleo suspeita que o marido, Tony (Sergio Guizé), esteja envolvido com hackers e crimes digitais. Com mistura de sonhos e realidade, o filme independente (produzido pela Mercúrio Produções, com codistribuição da Pandora Filmes) traz para a tela questões importantes da atualidade por meio de uma obra que vai além do drama familiar: fala-se do patriarcado, das falsas aparências no casamento, da violência doméstica e o uso da deep web para aliciamento de crianças. Há subtramas para cada um desses assuntos que se conectam com sobriedade (apesar de serem distantes). O eclipse do título é uma metáfora sobre as inúmeras dualidades do filme: da ciência e ancestralidade (envolvendo as crenças das duas irmãs), e do silenciamento da mulher contra o protagonismo que elas assumem quando passam ao controle de suas vidas. Exibido na 49ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, o filme conta com ótima atuação de Djin e participação no elenco de Sérgio Guizé, Selma Egrei, Helena Ignez, Luís Melo, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce, Pedro Goifman e Julia Katharine.
 

 
O fim de Saturno
 
Primorosa continuação de “O caminho para Saturno” (1967), thriller de espionagem soviético que foi rodado um ano depois e segue os acontecimentos do primeiro filme. No capítulo anterior, funcionários da segurança do Estado Soviético infiltraram-se na agência secreta de inteligência nazista “Saturno”, que realizava serviços escusos para Moscou, e obtiveram dados de 127 agentes envolvidos. O que se segue agora é a consequência da descoberta, um caso inspirado em fatos verídicos. O filme se passa na Segunda Guerra Mundial e acompanha os oficiais da inteligência soviética em mais um desdobramento da luta contra agentes alemães infiltrados. Os oficiais soviéticos conseguiram desinformar o inimigo com ajuda de relatórios falsos, uma estratégia de contraespionagem que dá um pontapé para a desarticulação nazista em vários países da Europa. Esse é o motor dramático da obra, que revela não apenas a astúcia dos protagonistas, como também o jogo psicológico que permeava a guerra secreta. É um exemplo clássico do cinema soviético de espionagem, que combina tensão com forte carga ideológica. A direção recorre a uma atmosfera sombria, marcada por cenários austeros e uma excelente fotografia em preto-e-branco que reforça o clima de paranoia e vigilância daquela época. Exalta-se a inteligência soviética e sua capacidade de vencer o inimigo não pela força, mas pela sagacidade – os nazistas são mostrados com vilões cruéis, mas vulneráveis, passíveis de derrota. Rodado em ambientes fechados que reconstroem salas de reunião sigilosas e escritórios da Segunda Guerra Mundial, o filme é um achado impressionante do desconhecido (por muitos) cinema soviético feito no auge da Guerra Fria. Conta com o mesmo grupo do filme anterior: elenco (com destaque para Mikhail Volkov, Georgi Zhzhyonov e Evgeniy Kuznetsov), direção de Villen Azarov, roteiristas e produtores. O filme está disponível para ver gratuitamente na plataforma da CPC-Umes no Youtube até amanhã, dia 18/05, em cópia restaurada pelos estúdios da Mosfilm – em https://www.youtube.com/@cpc-umesfilmes23
 
 
Martin Short: Uma vida de comédia
 
O diretor norte-americano Lawrence Kasdan, de “Corpos ardentes” e “Silverado”, dois filmes aplaudidos dos anos 80, realiza seu primeiro documentário em 45 anos de carreira. E justamente uma homenagem ao ator Martin Short, com quem trabalhou apenas uma vez, em “Dr. Mumford: Inocência ou culpa?” (1999) - mas de lá para cá desenvolveu forte amizade com o astro da comédia. Ganhador de dois prêmios Emmy, Martin Short (hoje aos 76 anos) consagrou-se como um dos grandes nomes do Saturday Night Live, icônico programa de humor da TV americana, além de participações engraçadíssimas em inúmeros outros programas, sem contar os filmes (como “Três amigos” e “Os três fugitivos”). No documentário, Martin Short é a estrela principal, num filme em que ele relembra a trajetória marcada por altos e baixos, a relação com a família e os amigos, suas viagens e a recepção de colegas de elenco em sua casa de veraneio, que ficou famosa pelos encontros regados a música, vinho e piadas (frequentavam lá amigos pessoais dele como Steven Martin, Eugene Levy e Catherine O’Hara – que falam ao filme também). É uma obra afetuosa, com certa melancolia, que celebra a versatilidade de Short, que transitou por décadas entre o palco, a televisão e o cinema com uma energia radiante, sempre disposto a criar novos personagens. O filme explora também seus dramas pessoais, o homem por trás das máscaras, com as fragilidades e perdas (em fevereiro deste ano, durante as gravações do doc, sua filha Katherine, de 42 anos, cometeu suicídio, o que o abalou profundamente e o fez terminar seu relacionamento de quase dois anos com a atriz Meryl Streep – eles se conheceram nas gravações da famosa série com Steve Martin “Only murders in the building”). O filme tem ritmo ágil, pontuado por imagens de arquivo bem pessoais, como gravações de vídeos caseiros de festas e encontros do ator, bastidores e making of, além de cenas de filmes, séries e esquetes em programas humorísticos. O documentário, da Netflix, equilibra irreverência, drama e autocrítica, expondo com delicadeza a vida de um ator que é dos mais completos e queridos tanto do público quanto dos colegas de cena.
 

 
Alma negra - Do quilombo ao baile
 
Realizado em 2024, com exibição em diversos festivais no Brasil e no mundo, como Festival do Rio, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival de Havana, Fest Aruanda (na Paraíba), Mostra de Cinema de Tiradentes e In-Edit Brasil, o excelente documentário é uma das melhores estreias do ano, que acaba de chegar aos principais cinemas do país. Com roteiro de Mariana Pamplona e Flavio Frederico (que dirige o filme), o longa reúne dezenas de nomes da música negra para celebrar a soul music no Brasil, percorrendo da década de 60 até agora. Shows históricos de Tim Maia, Cassiano e Gérson King Combo trouxeram a black music para o repertório nacional, com músicos pretos utilizando os palcos para performances descoladas e engajamento político. O filme foca nos bailes black que dominaram os espaços coletivos a partir dos anos 70, principalmente no Rio e em SP e RJ, reverenciado como uma força de resistência e reforço da identidade preta. Misturando cenas de shows e de entrevistas antigas (de músicos como Tim Maia e intelectuais como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez) com depoimentos atuais (de Carlos Dafé, Nelson Motta, Toni Tornado, Zezé Motta, Seu Jorge e Sandra Sá), o filme tem um ritmo dançante, montagem super ágil, cuja trilha sonora é assinada por Eduardo Bidlovski, DJ conhecido pelo nome artístico de BiD que produziu álbuns de Chico Science e Nação Zumbi. Com produção da Kinoscópio, em coprodução com a SoulCity, e distribuição da Synapse, o documentário é um amplo mergulho na cultura afrobrasileira a partir de um estilo de música que virou ato político e de pertencimento em um país marcado pela desigualdade social e discriminação contra pessoas pretas. 


Fanon
 
Muito se aguardou por uma cinebiografia de Franz Fanon (1925-1961), psiquiatra martinicano que se tornou um pensador crítico do colonialismo - e transcorridos 55 anos de sua morte, continua uma das vozes mais estudadas sobre a decolonialidade (eu, por exemplo, o estudei no meu Mestrado na PUC, especialmente seus dois livros-chave, “Os condenados da Terra” e “Pele negra, máscaras brancas”). O filme não é uma biografia completa de Fanon (da infância à morte), e sim de parte de sua trajetória, com foco no período que viveu e trabalhou na Argélia colonial, entre 1953 e 1956, e lá sua prática médica se entrelaçou com a luta política e o engajamento revolucionário. O longa apresenta Fanon (interpretado brilhantemente por Alexandre Bouyer, em seu terceiro longa e o primeiro como protagonista) em sua chegada ao hospital psiquiátrico de Blida, na Argélia sob domínio da França. Ali, seus métodos humanistas e inovadores entram em choque com a rigidez institucional, revelando tanto sua visão avançada sobre a saúde mental quanto a postura ética diante da opressão colonial. À medida que a Guerra da Argélia se intensifica, Fanon se aproxima da Frente de Libertação Nacional (FLN), movimento nacionalista de libertação do país. Fanon torna-se um militante ativo contra o domínio francês, e seu posicionamento influenciaria em seguida outros movimentos de libertação, como o dos povos sufocados na África e os da América Latina sob regime de ditaduras. O filme mostra como a vida pessoal de Fanon, ao lado da esposa Josie (papel de Déborah François, de “A datilógrafa”), foi atravessada por dilemas e violências que o tragaram para dentro do centro da resistência na FLN. Fanon defendia que a descolonização não era somente um processo político, mas cultural e subjetivo, que ampliava a libertação também dos corpos e das consciências – por isso sua voz ecoa nos tempos de hoje. Coprodução França, Luxemburgo, Canadá e Bélgica rodada na Tunísia e Martinica, tem uma direção interessada de Jean-Claude Flamand-Barny (que assina como Jean-Claude Barny), que dá um tratamento digno para o personagem em seu roteiro ao lado de Philippe Bernard. Como espectadores, vemos o percurso de um intelectual que rompeu fronteiras entre medicina, filosofia e política, tornando-se referência mundial no pensamento decolonial. O filme foi realizado em celebração ao centenário de nascimento de Fanon, em 2025, e infelizmente não teve o devido reconhecimento em festivais tampouco em premiações (só exibido em festivais menores). Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Fênix Filmes.



Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2 (21/05)

Erupcja   Um dos filmes mais curtos (de duração) que assisti recentemente, com seus enxutos 71 minutos, “Erupcja” é uma fita experimental rá...