sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

 
Queda livre: As consequências do Caso Boeing
 
Novo documentário investigativo da Netflix, que dá continuidade ao doc “Queda livre: A tragédia do Caso Boeing” (2022), um estarrecedor caso de negligência e ganância que abalou os setores da aviação mundial. O filme parte de uma série de denúncias de um chefe de operações da empresa de aviação sobre falhas técnicas de aviões que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Ele era John Barnett, engenheiro de qualidade que atuou na referida empresa de aviação por mais de 30 anos. A crise corporativa devido às falhas sistêmicas de segurança na Boeing veio à tona quando Barnett levou o caso para autoridades superiores e se tornou peça-chave para desvendar os obscuros segredos da empresa. Ele virou um denunciante (whistleblower), fazendo alertas públicos sobre os riscos dos aviões da Boeing. Barnett expôs documentos sobre situações críticas de aeronaves: portas se romperam nas alturas, tetos se abriram, fuselagem com problemas e até desastres aéreos (como os dois acidentes do modelo 737 MAX, que resultaram na morte de 346 pessoas e na suspensão mundial dos voos da frota entre 2018 e 2019 - o primeiro ocorrido na Indonésia e o segundo, na Etiópia). Na investigação que o filme faz, descobre-se que a empresa reutilizava peças de outros aviões e não promovia vistorias regulares neles. Barnett foi ameaçado de morte, até que morreu em 2024, um dia depois de depor no tribunal – ele foi encontrado morto com um tiro na cabeça na camionete onde estava, o que levantou suspeitas sobre a causa mortis (e o filme também explora isso, na parte final). Com a morte do engenheiro, outros funcionários resolveram denunciar a Boeing – abrindo espaço para denúncias contra outras empresas de aviação. O documentário é um estudo de caso sobre desmandos e negligência de uma multinacional importante do mercado, cuja trama nos prende, reunindo reportagens antigas contundentes e depoimentos novos, muitos de autoridades, juízes, investigadores e engenheiros. É dirigido pela cineasta Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014) e que havia realizado o filme anterior.


Song Sung Blue – Um sonho a dois
 
Drama musical que mistura realidade e ficção para retratar a vida do casal de músicos de Milwaukee, Wisconsin (EUA), Mike Sardina (1951-2006) e Claire Sardina (1961-), que percorreram os Estados Unidos com turnês de tributo a Neil Diamond e utilizavam o nome artístico de “Lightning & Thunder”. A dupla começou no fim dos anos 80, em palcos pequenos da região de Milwaukee, e com o passar do tempo gravaram música em estúdio, participaram de festivais grandes e até abriram um show de Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder – tudo isso retratado nessa formidável cinebiografia. O longa é baseado no documentário homônimo de Greg Kohs, “Song Sung Blue” (2008), e traz como destaque o bom trabalho dos atores centrais, Hugh Jackman e Kate Hudson (indicada, pelo papel, aos principais prêmios da temporada, como Bafta, Oscar e Globo de Ouro). A história segue os altos e baixos da formação musical desses dois artistas, mostrando a dificuldade em trilhar o caminho na carreira independente, além de trazer os dramas pessoais do casal (ele dependente do álcool e atormentado pela Guerra do Vietnã, onde lutou, e ela o apoiando como esposa, companheira e artista). Enquanto Lightning tinha a voz potente interpretando canções de Diamond, Thunder fazia back vocal dele e também alternava os shows com música country de Patsy Cline. O diretor Craig Brewer, de “Ritmo de um sonho” (2005), condensa anos de acontecimentos da carreira da dupla em uma linha temporal curta, mas precisa, intensificando os conflitos e emoções. Com uma fotografia de cores vivas e vibrantes, "Song Sung Blue" é uma celebração à música de Neil Diamond, tratando de superação, resistência e desprendimento, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade humana diante das adversidades. Na trilha sonora, um passeio musical em obras máximas de Diamond, como “Sweet Caroline”, “I am... I said” e “Holly Holy”. Estreou recentemente no Prime Video (com distribuição no Brasil pela Universal Pictures).



Anistia 79
 
Alusivo documentário brasileiro aos 47 anos da Lei da Anistia, decretado em 1979, em um período crítico da Ditadura Militar no Brasil. O longa traz os primeiros movimentos no exterior para a anistia (que ficou ampla, geral e irrestrita), quando no Parlamento Italiano, em Roma, entre junho e julho de 1979, foi realizada a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. O encontro, de três dias, juntou cerca de 500 pessoas, incluindo exilados políticos, intelectuais, ativistas de direitos humanos e figuras da resistência à ditadura militar (como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Francisco Julião). A Conferência foi a maior reunião da diáspora brasileira fora do país durante a Ditadura (que continuava aqui exilando, perseguindo e matando). O trunfo ideativo do filme é reunir gravações inéditas, todas com imagem restaurada, que foram feitas no Congresso por um militante de esquerda exilado na França, Hamilton Lopes dos Santos. Praticamente o filme todo é um compilado dessas imagens poderosas, em preto-e-branco, encontradas pela diretora do filme, Anita Leandro, no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, e analisadas por pessoas que sentiram na pele a Ditadura, como familiares, e amigos íntimos dos retratados naquela reunião. Aparecem nas gravações Francisco Julião (das Ligas Camponesas), Apolonio de Carvalho, Carmela Pezzuti, Manuel da Conceição, Rolando Frati, Luís Travassos e Márcio Moreira Alves, parte desses exilados. Quase meio século depois, as gravações ressurgem para reacender o debate sobre as tristes páginas da História do país, do Estado repressivo da ditadura e da impunidade dos torturadores, trazendo paralelos com o Brasil atual (já que o golpismo e os afãs ditatoriais ainda rondam por aqui). No filme, 11 pessoas assistem pela primeira vez, depois de tanto tempo, àquelas imagens, e emocionadas relembram a História e seus personagens. A Conferência ocorreu às vésperas da sanção da Lei da Anistia no Brasil (Lei nº 6.683, de agosto de 1979), planejada para debater pontos limitantes dela – e serviu para denunciar os crimes e as torturas da ditadura militar brasileira perante a opinião pública mundial e o parlamento europeu. Acabou sancionada pelo presidente João Figueiredo em 28 de agosto daquele ano, sendo um marco no processo de redemocratização do Brasil. Deu perdão tanto aos opositores do regime quanto aos agentes do Estado (torturadores e militares) - por isso ampla, geral e irrestrita. As consequências diretas da Lei foram o retorno dos exilados (como líderes políticos, intelectuais e artistas), a libertação de presos políticos detidos nos presídios brasileiros e a reorganização política, permitindo a partir de 1980 a volta do pluripartidarismo, a restituição dos direitos políticos a cidadãos que haviam sido cassados pelo regime e as eleições diretas. É um filme-estudo de História, didático, importante para os dias de hoje. Foi premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Nos cinemas pela Embaúba Filmes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Nota de cinema


Saiu hoje entrevista que concedi essa semana na TV Câmara (da Câmara Municipal de Catanduva) no quadro "Aqui nasci, aqui cheguei", onde falo sobre minha carreira no jornalismo e na crítica de cinema. São 30 minutos de conversa com a querida amiga Bida Paulatti.
Link para quem quiser assistir:
https://youtu.be/GtYr1PD2nuM?is=Qz1UaEdq9RfnI7O_

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Especial de cinema

 
37º Kinoforum continua até o dia 06 em formato online
 
A edição presencial do 37º Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo terminou, mas parte da programação segue online e gratuita ao público até o dia 06 de setembro. Um dos festivais de curtas mais antigos e importantes do Brasil, ele foi realizado em 2026 entre os dias 20 e 30 de agosto, ocupando diversos espaços culturais da capital paulista, como Cinesesc, Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São Paulo (CCSP), Museu da Imagem e do Som (MIS) e Espaço Petrobras de Cinema. Com seleção ampla e diversa, o Kinoforum exibiu 260 curtas-metragens, sendo 127 produções brasileiras e 133 internacionais (de 58 países). A programação, totalmente gratuita, trouxe filmes exibidos em festivais como Cannes, Locarno e Sundance. Quem perdeu as sessões presenciais pode agora conferir no digital, nos streamings Itaú Cultural, Sesc Digital e Spcine Play.



Os vencedores da premiação oficial foram anunciados na última semana na Cinemateca Brasileira, consagrando produções como o curta paraibano “Imagem imaginada” (vencedor do inédito Prêmio Zita Carvalhosa) e o drama “Theo” (adquirido pela TV Cultura).
Alguns destaques internacionais votados pelo público como melhores filmes da edição desse ano: “Para os Oponentes” (México, Chile, França e Reino Unido, premiado em Cannes), de Federico Luis; “Meu Irmão Lyosha e Eu” (Cazaquistão), de Lena Tronina; “Nascida Soldado” (França), de Sahara Moeini”;  “O Último Jogo” (Cuba), de Daniel Chile; “Por Favor” (Suécia), de Anna Mantzaris; “Ruído das Ondas” (Polônia), de Tomasz Wrobel”; e “Vida que Segue” (Reino Unido), de Daniel Audritt e Kathryn Butterfield. Já os destaques brasileiros incluem “Adrenalina”, de Pedro Goifman; “Miguer”, Rodrigo Ribeiro; “A Ascensão da Cigarra”, de Ana Clara Ribeiro Lages; “A Cúpula dos Prazeres”, de Valter Pereira; e “A Menina que Queria Ser Pedra”, de Jackson Abacatu.
O Kinoforum é uma realização da Associação Cultural Kinoforum (entidade sem fins lucrativos responsável direta pela organização e produção geral do evento), liderado pela diretora executiva Vânia Silva e pelo diretor de programas Marcio Miranda Perez. Conta com as seguintes instituições parceiras: Cinemateca Brasileira, Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e Sesc São Paulo, e é viabilizado por meio de investimentos públicos e privados, destacando-se Itaú Unibanco, Spcine e Prefeitura de São Paulo, com apoio institucional e fomento do Governo do Estado de São Paulo, através do Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Governo Federal, através do Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Site oficial do evento: https://2026.kinoforum.org
 

domingo, 30 de agosto de 2026

Resenha especial


Dança com lobos
 
Oficial do Exército (Kevin Costner), durante a Guerra Civil Americana, é enviado para um posto na fronteira dos Estados Unidos com o México. Lá, ficará próximo de um grupo de indígenas Sioux, e os ajudará a sobreviver a um massacre coordenado pelo Exército.
 
Um dos maiores clássicos modernos do cinema retorna ao público em uma edição histórica em bluray para colecionadores, em inédita versão estendida com quase uma hora a mais de filme. A distribuidora Obras-primas do Cinema lançou no mercado de mídia física, neste mês, “Dança com lobos” (1990), um western psicológico ganhador de sete Oscars, incluindo melhor filme, roteiro adaptado e direção para Kevin Costner.
Também estrelado por Costner, o épico drama de faroeste ultrapassou os limites da narrativa convencional se consolidando como um marco cultural dentro do cinema. A história está dentro do contexto real da Guerra Civil americana, travada entre 1861 e 1865, período em que os Estados Unidos se dividiram entre norte e sul, com guerras de território e exploração das terras indígenas. O longa acompanha o tenente John Dunbar (Kevin Costner), um oficial da União, representante dos estados do Norte que buscava manter o país unido e impedir a separação dos estados do sul. Após um ato de bravura em combate, ele é enviado para um posto na fronteira oeste dos Estados Unidos. Dunbar se afasta da guerra entre “brancos” para mergulhar em um universo desconhecido, as inóspitas terras dos indígenas Sioux, que transformará sua visão de mundo. Sozinho no posto que fica ao lado de uma casa antiga que será sua residência, fica próximo de um lobo selvagem, que o visita todas as manhãs, e será observado por um grupo de Sioux. Até que ele os encontra frente a frente, desenvolvendo um forte laço com os indígenas, que passarão a ser alvo do Exército. O enredo se desenvolve na relação de Dunbar com os Sioux, uma das maiores nações indígenas das Grandes Planícies. Inicialmente, há desconfiança e distância entre ele e o grupo, mas o oficial conquista gradualmente a confiança da tribo, aprendendo sua língua, seus costumes e sua espiritualidade. Por causa da aproximação de Dunbar com aquele lobo selvagem que o visita, os Sioux o apelidam de “Dança com lobos”, como símbolo da metamorfose espiritual do homem branco com o animal.
O filme retrata os Sioux com dignidade, de um povo guardião de uma tradição oral rica, de uma espiritualidade profunda e de uma organização comunitária que valorizava o coletivo acima do individual. Costner mostra a organização social deles, dos ritos, da lealdade ao grupo, da importância dos búfalos naquela cultura e na ligação íntima com a natureza. Historicamente, os Sioux habitavam vastas regiões que hoje correspondem a estados como Minnesota, Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Nebraska (estes dois estados, com riachos e descampados abertos, serviram de locações para a gravação do filme). Eram povos nômades, adaptados ao ambiente das planícies, e sua sobrevivência estava diretamente ligada ao equilíbrio ecológico da região. Entretanto, a história dos Sioux é marcada pela tragédia da colonização: com o avanço da fronteira e a política expansionista dos EUA, foram dizimados, vítimas de massacres, deslocamentos forçados e da destruição de seu modo de vida. Ao trazer essa realidade para a tela, “Dança com lobos” não apenas narra a amizade improvável entre um soldado branco e uma tribo indígena, mas também denuncia a devastação cultural e humana provocada pela conquista do Oeste.



O impacto do filme foi extraordinário: em uma época em que Hollywood deixava de retratar os indígenas como vilões ou figuras secundárias, Costner oferecia uma visão humanizada e crítica da relação de colonizador e colonizado. O longa se tornou um fenômeno cultural, abrindo espaço para debates sobre memória histórica e representação. Vencedor de um prêmio especial na Berlinale, onde concorreu ao Urso de Ouro, o filme foi indicado a 12 Oscars, recebendo sete: melhor filme, direção, trilha sonora, roteiro adaptado, edição, som e fotografia – e parte do elenco foi indicado, no caso Costner, Graham Greene (no papel do líder Sioux que se torna amigo do oficial) e Mary McDonnell (interpretando uma mulher branca criada por indígenas desde pequena e que se apaixona por Dunbar). A parte técnica é impecável, realçada agora na cópia restaurada em 4K: fotografia grandiosa (que captura a vastidão das planícies americanas), trilha sonora emotiva e lindos figurinos de época, que elevam a história que equilibra ação, romance e drama.
Foi o primeiro trabalho de Costner na direção, que na época, aos 35 anos, já era um galã, com filmes importantes no currículo como ator. Também foi a primeira investida dele no universo western, desconstruindo o mito americano do Velho Oeste. É um filme revisionista, feito sob uma ótica crítica em torno do choque entre civilização e natureza, entre progresso e tradição. O Oeste, para Costner, não é apenas cenário, mas metáfora de transformação e conflito cultural - e que mais tarde ele voltaria ao tema como diretor, em filmes como “Pacto de justiça” (2003) e na recente trilogia “Horizon: Uma saga americana” (2024-2026). Sem contar o interesse em protagonizar filmes que se passavam no oeste, como “Silverado”, “Wyatt Earp” e no seriado “Yellowstone”.
“Dança com lobos” sai agora em edição estendida em bluray, pela primeira vez no Brasil, com distribuição da Obras-primas do Cinema – a versão de cinema tinha 181 minutos, e esta apresenta 53 minutos a mais, totalizando 234 minutos. Vem junto na caixa um pôster do filme, quatro cards e um livreto de 16 páginas. O box traz o filme em bluray, em 4K, e um DVD com mais de duas horas de extras, como making of, trailers e entrevistas.
 
Dança com lobos (Dances with wolves). EUA/Reino Unido, 1990, 234 minutos. Drama/ Faroeste. Colorido. Dirigido por Kevin Costner. Distribuição: Obras-primas do Cinema

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Nota de cinema

 
Cine Debate exibe sábado animação premiada francesa
 
O Cine Debate de agosto, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, promove no próximo sábado, dia 29/08, mais uma sessão de filme aberto ao público. A partir das 14 horas, será exibida a animação francesa, coproduzida na Bélgica, “Zarafa” (2012), dirigida pela dupla Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lie. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, no Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida, com mediação da equipe do Sesc.
 
Sinopse: No século XIX, o garoto Maki, de 10 anos, escapa das garras de um mercador de escravos. Em sua fuga pelo deserto, ele se apega a um filhote de girafa que acabou de ficar órfão. O menino dá ao animal o nome de Zarafa, e ambos ficam sob a proteção do bondoso beduíno Hassan, encarregado pelo Paxá do Egito de levar Zarafa como um presente diplomático ao rei Carlos X da França. Determinados a seguir juntos, Maki e Hassan cruzam lugares longínquos e enfrentam perigos para transportar a girafa até Paris.
 


Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completou 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. As próximas sessões são:
 
26/09 – 14h – “Saudade fez morada aqui dentro” (2022)
31/10 – 14h – “Nosferatu” (2024)
28/11 – 14h – “A cor púrpura” (2023)
05/12 – 14h – “Sete oportunidades” (1925)
 
Conheça mais sobre o projeto em
https://www.facebook.com/cinedebateimes

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1

 
Amelia Toledo – Lembrar de não esquecer

Documentário brasileiro de Hélio Goldsztejn que, pra mim, foi um dos melhores lançados em festivais de cinema em 2025 (o assisti na Mostra de SP). A obra joga luzes sobre a carreira da artista plástica e escultora Amelia Toledo (1926-2017), uma artista inquieta, que esteve à frente de seu tempo com seu ousado trabalho, considerado por alguns controverso, que reunia elementos da land art e do ready made com ecologia e sustentabilidade, recorrendo a linguagens e estilos variados, como instalações, intervenções, arte interativa e arquitetura moderna. Amélia inovou o ‘fazer artístico’ com materiais como pedras, metal e conchas; foi professora no Mackenzie, na FAAP e na UnB, formando um grupo de alunos pensadores em torno da nova arte que se ergueria no Brasil a partir dos anos 60. O doc reúne entrevistas antigas e recentes dela para emissoras de TV, de depoimentos dos filhos, dentre eles o pintor Moacyr Toledo, e de amigos artistas. É um compilado de histórias fabulosas em que conhecemos a fundo a alma dessa mulher sonhadora e autêntica, que transformou sua casa em ponto de encontro de intelectuais e bateu de frente, como muitos de sua geração, com a Ditadura Militar. O longa estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Bretz Filmes.



 
Champagne - Uma viagem de pai e filho
 
Simpático road movie holandês sobre reconexões familiares, que parece ter saído das antigas sessões da tarde de semana da Globo. Espirituoso, apoia-se em um roteiro simples, de narrativa delicada sobre a relação entre pai e filho, marcada por diálogos bem humorados, além de reflexões existenciais. Na história, um homem maduro chamado Maarten (Leo Alkemade) descobre que o pai, Hans (Huub Stapel), está com câncer em estágio avançado. Aconselhado por um amigo, Maarten convida o idoso para uma última viagem: levá-lo para a região francesa da Champanhe, lugar que Hans sempre quis visitar. Os dois partem para lá de carro, cruzando a Holanda e a França, rumo à famosa província mundialmente famosa pelos vinhos espumantes (bebida preferida do idoso). A viagem, inicialmente estranha, já que nunca ficaram tanto tempo juntos, torna-se uma jornada de celebração à vida e de profundas conexões humanas. A comédia dramática tornou-se uma das maiores bilheterias na Holanda desse ano, marcando um novo rumo na trajetória do astro comediante de lá Leo Alkemade, interpretando um dos poucos papeis dramáticos. Tanto ele quanto o veterano ator Huub Stapel estão muito bem, cada um com seu peculiar papel. Alkemade também é o roteirista do filme, cuja história é baseada na própria relação que teve com o pai, e em uma viagem que faria com ele para a França (mas que não deu certo, pois o pai morreu). Agora, na ficção, a viagem entre os dois existiu, viagem esta que funciona como metáfora para o percurso interno dos dois personagens, envolvendo reconhecimento mútuo, acertos e confrontos que revelam fragilidades e afetos. Um filme bonito, fácil de se emocionar e ser conquistado por ele, que está nos principais cinemas brasileiros pela Autoral Filmes.


Coração partido

Produção russa, com equipe praticamente toda de lá (como direção e elenco), o filme romântico é uma adaptação do best-seller “Your heart will be broken”, de Anna Jane. É um drama juvenil morno, piegas, sobre uma adolescente, Polina, que se muda para outra cidade após a mãe iniciar um novo relacionamento. No colégio (o filme quase todo se passa nesse mesmo ambiente), ela se torna alvo de bullying - até que o jovem misterioso Bars, aluno temido, decide protegê-la fingindo ser seu namorado. O que começa como um namoro de fachada evolui aos poucos para um amor genuíno, porém de altos e baixos, marcado por vulnerabilidade e amadurecimento. No livro e no filme exploram-se dilemas da juventude, conflitos, ciúmes, questões afetivas e desarranjos no romance, para manter o público envolvido na evolução daquela relação. Para mim não funcionou, não me envolveu e achei tudo forçado, sem harmonia. O elenco é liderado pela russa Veronika Zhuravleva (Polina) e pelo inglês Daniel Vegas (Bars), um casal sem química, que faz das tripas coração para agradar os jovens românticos que estão na poltrona dos cinemas. Estreou nas salas brasileiras com distribuição da Paris Filmes.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2

Honestino
 
Conhecido por tratar da questão indígena em seus dois trabalhos anteriores, “O cineasta da selva” (1997) e “Segredos do Putumayo” (2020), o diretor amazonense Aurélio Michiles se volta agora à Ditadura Militar no Brasil, trazendo para a tela a biografia do líder estudantil Honestino Guimarães, o Gui, um dos tantos desaparecidos políticos no cruel período dos Anos de Chumbo. Fundindo documentário e ficção, o longa reúne imagens inéditas de Gui, aluno da Universidade de Brasília – UnB e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) no final dos anos 60. Preso diversas ocasiões por criticar e enfrentar os militares, desapareceu em 1973, aos 26 anos. Nunca mais se ouviu falar no estudante. O filme vasculha vestígios da época, de arquivos de fotos da família e de pessoas que conviveram com ele; entrevista a filha e o neto de Gui, colegas de turma da faculdade e da luta contra a Ditadura. O filme vai exibindo pouco a pouco a personalidade forte e sempre carismática de Honestino e sua visão de um mundo mais justo. Cartas, poemas, fotos dele são abundantes no filme, bem como depoimentos de dezenas de pessoas próximas – Aurélio Michiles, o diretor, foi colega de luta dele, da chamada Geração de 68. As encenações de Gui são de Bruno Gagliasso, em poucas aparições, já que o tom do filme é mais documental. Uma obra densa, que reflete a luta de tantos por um país livre da repressão. Assisti ao filme numa sessão no Festival do Rio com a presença da equipe e familiares, e em seguido o longa foi para a Mostra Internacional de Cinema de SP. Agora estreia nos cinemas brasileiros, com distribuição da Pandora Filmes.


Aquele que viu o abismo

Dirigido por uma dupla de artistas visuais brasileiros (Gregorio Gananian e Negro Leo) o filme experimental que estreou recentemente nas salas é uma obra que mistura linguagens e desafia os limites do cinema brasileiro contemporâneo. Vencedor do prêmio de Melhor Filme na Mostra Olhos Livres da 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes (edição de 2024), é um experimento audiovisual que rompe com as convenções e narrativas da Sétima Arte, fundindo música, performance, fotografia, animação e imagens aleatórias, tornando o longa uma obra ousada, diferenciada no formato. O roteiro acompanha X (interpretado por Negro Leo), um homem que se envolve em uma série de assassinatos. Ele tem visões deturpadas, que servem como forma de sobrevivência em um sistema opressor. A empresa multinacional ProLife, que promete vida eterna em troca da submissão dos civis, surge em sua vida, colocando-o em choque com suas crenças. O filme se passa em um futuro incerto, distópico obviamente, repleto de metáforas sobre estado policial, vigilância, mecanismos de controle e exploração do trabalhador. É um personagem só envolto em seu mundo próprio. A narrativa não é linear, as cenas são cortadas de um lugar a outro (fornecendo uma experiência desafiadora ao público), e não há respostas fáceis. O mosaico de imagens e sons refletem a sociedade fragmentada em que vivemos hoje, com um personagem vagando numa linha tênue entre realidade e ficção – o filme explora bem os ambientes urbanos, com a arquitetura dos arranha-céus e luzes neon noturnas, como uma cidade futurista. Realizado pela Zaum Produtora em parceria com a Katásia Filmes, está nos principais cinemas do país com distribuição da Embaúba Filmes.

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

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