quinta-feira, 9 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 5


Aisha não pode voar
 
Falado em árabe e coproduzido em sete países (Egito, Tunísia, Catar, França, Arábia Saudita, Sudão e Alemanha), o poderoso filme de arte é um drama que expõe a vulnerabilidade de uma imigrante sudanesa no Cairo, que trabalha como cuidadora de idosos e se torna vítima atroz de todas as mazelas da sociedade, como pobreza e exploração sexual. A direção do jovem cineasta egípcio - e estreante, Morad Mostafa, transforma o cotidiano de uma mulher em denúncia social, cuja interpretação de Buliana Simon (também estreante), a Aisha do título, transmite a resignação da personagem, que pouco fala e mais observa seu redor. A personagem de 26 anos sofre com problemas financeiros, e para complicar inicia um relacionamento tumultuado com um rapaz egípcio (que logo descobre ser de uma gangue). A relação respinga em ameaças de bandidos locais e assédio de clientes. O título simboliza a impossibilidade de Aisha em escapar de uma realidade sufocante, onde cada tentativa de mudança parece bloqueada – em determinado momento, ela brinca com uma máscara do Batman (que é o pôster do filme), alusão à transformação dela em super-heroína para escapar das amarguras. O filme mostra não apenas a luta individual de uma mulher sob risco, mas também o retrato dos imigrantes africanos vítimas de injustiça social. Mostafa dirige uma história nua e crua, apostando em uma estética realista, com fotografia que mistura penumbras do interior da casa que Aisha trabalha com paisagens noturnas do submundo de uma Cairo opressora. Exibido em Cannes nas mostras Golden Camera e Um Certo Olhar, está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.
 


O Caravaggio perdido
 
Documentário precioso que procura desvendar um novo mistério no mundo das artes plásticas: a localização em uma casa de um quadro possivelmente assinado por um dos grandes nomes da pintura mundial e expoente do Barroco italiano, Michelangelo Merisi da Caravaggio, o Caravaggio. Intitulada “The sleeper”, a obra esteve por décadas na parede da sala de estar de uma casa comum em Madrid, como utilitário; de um tempo para cá, aos poucos, historiadores da arte do mundo inteiro se debruçam em estudos sobre ela. Será mesmo de Caravaggio aquele Cristo com semblante triste, empurrado por dois homens? O doc investiga passo a passo detalhes daquela pintura, da textura ao “motivo”, passando pelas imperfeições da tela e desgastes da tinta. Busca uma relação com o mestre do barroco que revolucionou as artes plásticas ao introduzir o uso dramático do claro-escuro e ao retratar figuras religiosas e mitológicas com realismo cru. O filme é envolvente, dá voz a vários estudiosos e pesquisadores da área, mergulhando nos bastidores do mercado de arte, universo marcado por disputas de poder, com colecionadores e falsificadores se cruzando em torno de obras de valor incalculável. Por fim, o filme explora tanto a descoberta daquele quadro quanto as discussões no circuito de arte quando uma peça aparentemente banal se revela um tesouro artístico. Está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.
 


O silêncio de Eva
 
Em seu novo trabalho, que acaba de estrear nos cinemas (produzido pela Persona Filmes e distribuído pela Encripta), a cineasta mineira Elza Cataldo revisita a trajetória de uma mulher pouquíssimo lembrada hoje, Eva Nil (1909-1990), atriz do cinema mudo brasileiro que brilhou nos anos 1920 e recebeu a alcunha de “Greta Garbo brasileira”. Nascida no Cairo, Eva participou de produções de Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga, mas abandonou a carreira cedo demais, dedicando-se à fotografia ao lado do pai, Pietro Comello, em Cataguases (MG), onde viveu até morrer, em 1990. Eva atuou, pelo que se sabe, em dois curtas, dentre eles “Valadião, o Cratera” (1925), de Humberto Mauro, e em dois longas, como ‘Barro humano” (1929), de Adhemar Gonzaga (fundador da Cinédia). O documentário reconstrói a trajetória dela a partir de fotos antigas, reportagens de jornais antigos e entrevistas atuais de críticos de cinema e professores. Também há encenações das atrizes Inês Peixoto e Bárbara Luz que recriam fases da vida de Eva - e nesse ponto elas mesmas discutem o ofício da atuação. A mescla de documentário com ficção preenche lacunas para entender quem foi Eva e provoca reflexão sobre como histórias de mulheres foram apagadas do cinema nacional – ela, por exemplo, desapareceu da memória coletiva, raramente citada ou estudada. A roteirista e diretora Elza Cataldo, ao recontar a carreira esquecida de Eva, abre espaço para refletir os obstáculos persistentes do cinema brasileiro, como financiamento, distribuição, restauração de obras e formação de público. Gostei demais desse filme independente brasileiro e recomendo.



Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 4

 
A cronologia da água
 
Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, e no Brasil no Festival do Rio do ano passado, “A cronologia da água” marca a estreia da atriz Kristen Stewart na direção, uma atriz que começou bem jovem em filmes teenagers bobocas, com o tempo amadureceu bem e agora atinge o ápice da carreira atrás das câmeras. Seu trabalho é uma adaptação do livro de memórias da escritora norte-americana Lidia Yuknavitch, reconhecida por sua escrita visceral, sem meio termo, com obras amargas que exploram temas como sexualidade, traumas e desejos. O filme procura uma relação direta com o livro, cujo tom é forte, difícil, já que traz experiências intensas de Lidia que envolvem abusos e inseguranças. Kristen faz uma obra extremamente sólida e madura, transformando violências em matéria artística. Como é uma obra autoral e biográfica, quem interpreta Lidia é a inglesa Imogen Poots, de “Sala verde” (2015), num papel complexo e de insuportável dor. Ela é uma mulher que vive se autossabotando e pensa em suicídio, por ter sido atravessada por abusos na infância e adolescência (um deles foi o abuso sexual do próprio pai). Ela tem uma relação conflituosa com o próprio corpo e por vícios que marcaram a fase adulta. Prostrada em uma banheira, ela reflete o passado – e o filme explora por dentro da mente dela, aparecendo flashes, luzes, cenas disformes e apagadas de uma criança assustada, de uma adolescente triste, os lapsos vêm e somem. Na natação, Lidia encontra um jeito de superar a realidade, uma espécie de conforto momentâneo para enfrentar o caos interno. Não é uma cinebiografia tradicional, com começo, meio e fim; tudo é fragmentado, com esses lances e flashes que aparecem na tela, tipicamente uma linguagem experimental, até com poucos diálogos. Tudo é sensorial no filme, rodado em 16 milímetros, cuja fotografia é marcada por uso intenso de closes. Kristen Stewart confessa que é uma obra autoral de difícil acesso, com ritmo rápido e sons minimalistas, aproximando-se da forma como lembranças surgem e desaparecem. Incômodo, impactante, pode ser uma experiência aflitiva para parte do público, porém é inegável o talento e o domínio da forma e do conteúdo de Kristen. Está em exibição nos cinemas com distribuição do Filmes do Estação.


 
Relay: Contrato perigoso
 
O novo trabalho do diretor David Mackenzie, de “Sentidos do amor” (2011) e “A qualquer custo” (2016), é um thriller cabeça, cheio de peças embaralhadas que vão se juntando ao longo da trama, cujo elenco é liderado pelo ganhador do Oscar Riz Ahmed (de “O som do silêncio”). Ele faz Ash, um corretor que atua em empresas acusadas de corrupção, cujo trabalho é resolver seus problemas (um “fixer”). Nos bastidores desse submundo do crime, pessoas e corporações estão sob vigia e ameaça, e também por isso Ash precisa manter a identidade em segredo. O trabalho para ele é bem lucrativo no final das contas, por não ter concorrentes. Até que tudo vira um caos quando conhece uma nova cliente que precisa de proteção, mesmo que para isso Ash tenha de se envolver em uma complexa trama que colocará sua vida em risco. A narrativa se desenrola entre ele e o trabalho que realiza diante do computador, num jogo de cena de um personagem só em meio a um negócio de perigo constante. O trabalho de Riz Ahmed é central para o filme: sua interpretação transmite a frieza calculada de um homem que vive de segredos, e ao mesmo tempo confrontado com dilemas éticos. Lily James, Sam Worthington, Matthew Maher, Victor Garber e Willa Fitzgerald completam o elenco de peso, trazendo densidade às interações que cercam o protagonista (que é um típico anti-herói). “Relay” tem uma atmosfera de suspense psicológico que se sustenta na tensão entre anonimato e exposição, mostrando como o poder pode depender de escolhas silenciosas. Exibido no Festival de Toronto em 2024, chega agora no streaming da HBO Max.


 
Histórias de Taipei
 
Está disponível de forma gratuita na plataforma Sesc Digital, até o dia 10/04/2026, um grande trabalho do falecido cineasta chinês Edward Yang (1947-2007), nome fundamental da Nouvelle Vague daquele país. O filme está na versão restaurada em 4K pela The Film Foundation (organização sem fins lucrativos criada por Martin Scorsese em 1990, dedicada a proteger e preservar a história do cinema mundial, e que já restaurou mais de 1.100 filmes em parceria com arquivos e estúdios), juntamente com o Taiwan Film Institute. É um retrato melancólico da transição de Taiwan nos anos 1980, marcado pela tensão entre tradição e modernidade. Ah-chin (Chin Tsai) é uma mulher que busca um futuro em meio ao labirinto urbano de Taipei, a capital de Taiwan, uma ilha considerada pela China como território dela. O namorado Lung (papel do ator e diretor Hsiao-Hsien Hou) é um ex-jogador de beisebol que atualmente trabalha em uma loja de tecidos, muito ligado à família. Ele vive de memórias, enquanto ela visualiza o futuro. O contraste entre o desejo de avançar e a incapacidade de romper com o passado reflete a própria cidade de Taipei em ampla transformação, acelerada pela globalização. O filme é de 1985 e o retrato é daquele período mesmo, quando Taiwan passava por uma mudança radical em suas estruturas, evoluindo de uma sociedade agrária que ficou sob lei marcial por 40 anos, num regime ditatorial de partido único, para alcançar uma das posições de “Tigres Asiáticos” (com grandioso desenvolvimento econômico e industrial). O filme acompanha esse momento e abertura política de Taiwan, marcando o fim de décadas de regime autoritário e o início da democratização política – no filme os personagens dançam sob o som de Tina Turner, consomem produtos americanos, ou seja, a globalização entrou de vez no país. A fotografia de Wei-Han Yang, indicada ao Golden Horse Award, reforça a atmosfera de desencanto e mudanças. O longa foi celebrado pela crítica como um marco estético e temático, tendo Edward Yang como um dos mentores da Nova Onda do Cinema de Taiwan, em uma obra que trazia temas recorrentes de sua carreira, como choque entre gerações, a fragmentação das relações humanas e a busca por identidade em uma nova sociedade. Exibido no BFI London e nos festivais de Locarno, Edinburg, Tóquio e São Francisco. Disponível no Sesc Digital, em https://sesc.digital/home


terça-feira, 7 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 3


A tragédia de Moriah Wilson
 
Documentário da Netflix em formato de true crime sobre o assassinato da ciclista profissional norte-americana Anna Moriah Wilson, de 25 anos, ocorrido em maio de 2022, em Austin, Texas. Seguindo a linha de docs investigativos que a Netflix se especializou, o filme explora o caso policial que mobilizou toda uma comunidade, desde o desaparecimento da jovem até ela ser encontrada morta na casa de uma amiga. O assassinato rapidamente ganhou repercussão internacional, não apenas pela violência, mas também pela narrativa midiática que cercou o crime. Além da investigação, o documentário traz os diários íntimos de Moriah, cedidos pela família, dando oportunidade ao público de uma visão sobre sua personalidade, ambições e sonhos, transformando o filme num tributo àquela vítima. O resultado é um filme que combina investigação jornalística com sensibilidade, principalmente nos depoimentos de familiares, como a mãe de Moriah, e de amigos próximos, até hoje abalados com a tragédia. Um filme que também serve como denúncia e alerta para a sociedade, já que tantas mulheres acabam mortas de maneira torpe.
 
 
Tatame
 
Raramente vemos um filme de arte persa sobre mulheres no esporte, e esse drama é uma oportunidade única, uma fita de grande beleza artística em um roteiro formidável, conduzido por uma dupla de cineastas de origens diferentes, o israelense Guy Nattiv (vencedor do Oscar de curta-metragem por “Skin”, em 2019) e a iraniana Zar Amir Ebrahimi (também atriz do filme, vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes por “Holy spider”, em 2022). Eles transformam o esporte em palco para discussões políticas. A história acompanha Leila Hosseini (Arienne Mandi), judoca iraniana que em pleno campeonato mundial é obrigada a escolher entre obedecer ao regime dos aiatolás e abandonar a competição ou fingir uma lesão para não enfrentar uma rival israelense. A decisão carrega peso pessoal e coletivo, já que sua treinadora Maryam (Zar Amir Ebrahimi) também traz consigo duras marcas de experiências semelhantes. Filmado em um bonito preto-e-branco, com câmera próxima e inquieta, em que capta grandes lances de treinos e luta, o longa é uma metáfora da luta por liberdade e dignidade. A protagonista tem de treinar de véu (hijab), já que o Irã restringe mulheres no esporte, e as poucas que vão precisam seguir as leis do país. E o tatame deixa de ser palco esportivo para se converter em arena emocional, onde cada hesitação revela a opressão que sufoca as personagens. Além do drama pessoal, o filme tem toques de suspense, numa das primeiras coproduções Irã e Israel, dois países hoje em guerra. Exibido nos festivais de Tóquio e Munique e na mostra Horizons do Festival de Veneza, onde recebeu um prêmio humanitário, “Tatame” é um filme simbólico sobre luta, respeito e empoderamento feminino, que abre fortes discussões políticas sobre o regime autoritário do Irã quanto a restrição às mulheres. Estreou semana passada nos cinemas brasileiros, pela Kajá Filmes.
 

À paisana
 
Primeiro longa dirigido e roteirizado por Carmen Emmi, jovem cineasta americano, mas de origem italiana, cuja trama lembra um filme polêmico do comecinho dos anos 80, que até foi censurado em alguns países, “Parceiros da noite”, de William Friedkin, com Al Pacino. Em ambos há um diálogo aberto da perseguição e vigilância contra homossexuais – enquanto o primeiro trazia a cena underground da Nova York suja, “À paisana” tem o ar moderno e jovial dos shoppings centers, onde boa parte da história se centraliza. Nela vemos o jovem policial Lucas (Tom Blyth, da série “Billy the Kid”) relembrando um passado recente que gostaria de esquecer, quando trabalhava disfarçado em um shopping, seduzindo homens dentro de banheiros, para prendê-los por “exposição indecente”. Ele estava sempre à paisana, de boné para esconder o rosto, flertando com os indivíduos para laçá-los numa armadilha. O problema é que num desses casos, aparentemente comuns, ele se apaixona pelo alvo, o bem intencionado, afetuoso e mais maduro Andrew (Russell Tovey, de “A grande mentira”). Entre os dois haverá uma relação sigilosa, que fará com que Lucas se divida entre o dever e o desejo. O filme começa com uma subtrama sem muito a ver, que depois se explica, de Lucas, no Ano Novo, buscando uma carta na casa da mãe (Maria Dizzia, muito bem no filme, atriz de “Martha Marcy May Marlene”). A incessante busca o levará para memórias sufocantes (ou seja, o filme é contado por flashbacks, mostrando o peso do passado de um personagem no limite). Com um misto de drama e thriller de forte tensão psicológica, o longa foi super comentado no circuito independente de cinema em 2025, quando ganhou o prêmio especial do Júri no Festival de Sundance. Agora entra com exclusividade no streaming do canal Filmelier+.
 

Ruas da Glória
 
O cineasta carioca Felipe Sholl escreve e dirige esse seu segundo filme, sete anos depois de se lançar com o bom drama “Fala comigo” (2017), que tratava dos obstáculos do relacionamento entre um garoto de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Sholl agora se volta ao submundo da noite das ruas do bairro da Glória, no Rio de Janeiro, onde a prostituição é palco e trânsito de pessoas de diferentes idades. Ali, o jovem professor de literatura Gabriel (Caio Macedo) conhece Adriano (Alejandro Claveaux), garoto de programa uruguaio que auxilia na chefia dos pontos. A paixão entre os dois é avassaladora, que se transforma em obsessão. Eles passam a viver juntos, até o dia em que Adriano desparece, sem deixar vestígios. Gabriel sai pelo Rio na tentativa de obter um paradeiro que o leve ao seu amor. A interpretação dos dois atores centrais é o ponto alto desse filme de classificação 18 anos, que traz cenas fortes de sexo e revela um Rio pouco registrado no cinema, da prostituição noturna. O longa é uma espiral de emoções na vida de um garoto que acaba de se mudar para aquela cidade e em poucos dias se vê preso num relacionamento cansativo e abusivo, até ser acolhido pela nova família, o dos meninos de programa. Temas como solidão, necessidade de conexão, identidade, rejeição e amadurecimento estão entrelaçados em uma história que passa longe de romance tradicional e final feliz; é um drama duro, realista, em um contexto de insegurança e violência, com imagens marcantes (a estética noturna é outro tom maior do filme). Além dos atores mencionados, completam o excelente elenco a cantora trans Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini e participações especiais de Daniel Rangel, Ernesto Piccolo, Edmilson Barros e Wilson Rabelo. Depois da carreira em festivais mundiais, como Tallinn, Rio e Mostra de SP, o filme, assinado pela Syndrome Films, com produção de Daniel van Hoogstraten, em coprodução com RioFilme e Telecine, estreia nos cinemas com distribuição da Retrato Filmes.


domingo, 5 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2


Cheiro de diesel
 
Dirigido pela dupla de cineastas Natasha Neri e Gizele Martins, o documentário expõe os efeitos da militarização das favelas do Rio de Janeiro durante os decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) nos governos Dilma e Temer, entre os anos de 2014 e 2018. Foram dezenas de operações militares com o pretexto de controlar a segurança pública, que levou quase três mil homens das Forças Armadas para 15 regiões do Complexo da Maré e de outras comunidades. O que se viu naquele período foram um incontável número de mortos, invasões de domicílio de madrugada, invasão em escolas e postos de saúde, balas perdidas atingindo pessoas – algumas ficaram paraplégicas, abuso de poder, tortura (como a apelidada “sala vermelha” em um quartel na Penha) e significativa violação dos direitos humanos. Com uma câmera flagrante nas mãos, as cineastas registraram muitos desses momentos, e hoje juntam no filme depoimentos atuais de quem sobreviveu e quem perdeu entes próximos. Vencedor de dois prêmios no Festival do Rio no ano passado, o filme dá voz aos moradores da Maré, da Penha e do Morro do Salgueiro, que relembram a rotina de medo, as revistas constantes e a presença diária de tanques, barricadas e soldados armados em suas ruas. Além de registro histórico dos fatos (feitos com dificuldade pela jornalista moradora da Maré Gizele Martins, ou seja, por alguém que correu risco naquele “front de batalha”), o longa revela os traumas coletivos e a sensação de que a vida cotidiana foi sequestrada pela lógica de uma guerra indissolúvel. Um retrato urgente sobre como o Estado brasileiro, em nome da ordem, perpetua a exclusão e a violência contra cidadãos vulnerabilizados. Produção da Amana Cine e Baracoa Filmes, com coprodução do Canal Brasil, continua em exibição em alguns cinemas com distribuição da Descoloniza Filmes em parceria com a RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio.


 
Arquitetura da Destruição
 
Exibido no Festival de Berlim, o documentário é o maior filme do cineasta Peter Cohen e um dos mais contundentes sobre o nazismo. Realizado em 1989, é dividido em partes: da fundação do partido nazista nos anos 30, passando pela ascensão ao poder de Hitler e a dimensão estética e cultural que sustentou sua ideologia. Hitler, que sonhava em ser arquiteto e desenhava nas horas vagas esboços de prédios modernos, conseguiu colocar parte de seus planos em prática, no tocante ao que diz o título do filme, a arquitetura. Demoliu prédios antigos para fundar uma nova ordem nas artes, que pretendia ser universal, revivendo o Belo Clássico e eliminando tudo aquilo que para ele não prestava, o que chamava de “arte degenerada” (especialmente aquelas de crítica social e as relacionadas à estética moderna e a do Feio). A megalomania de Hitler extravasava o campo da arquitetura: consolidou a eugenia (limpeza étnica ao eliminar os judeus), criou laboratórios com experimentos humanos (para alcançar a raça perfeita, a ariana), buscando moldar o mundo inteiro segundo um ideal absoluto. Na ocupação nazista de países vizinhos, tentou levar para lá essa nova inspiração. Cada detalhe das marchas e dos discursos em público era cuidadosamente coreografado, com uma rica direção de arte, conduzindo a massa à histeria coletiva. O nazismo, em sua essência, pretendia “embelezar” o mundo, ainda que, para isso, fosse necessário destruí-lo primeiro. Tudo passava pelas mãos de Hitler, inclusive as insígnias nazistas, como a suástica e a águia, foram desenhadas por ele. O documentário, em muitos momentos forte e indigesto, revela como a estética nazista se entrelaçou com o projeto de poder que atingiu o ápice com o genocídio judeu – há cenas delirantes de como a arquitetura chegou aos campos de concentração, nas câmaras de gás em que centenas de pessoas eram eliminadas por hora com o gás Zyklon-B, tido como uma forma mais “limpa” de morte, já que no início do Holocausto os primeiros judeus morriam fuzilados. A epifania de Hitler ao assistir à ópera Rienzi, de Richard Wagner, é apresentada como ponto de partida para sua visão grandiosa - ele tornou-se fã inveterado de Wagner, homenageando-o em todos os cantos na Alemanha Nazista. Cohen constrói uma narrativa dolorosa e também reflexiva, mostrando como a estética se converteu em arma política e cultural, legitimando a violência em escala inédita no mundo. É um estudo perturbador sobre a beleza usada como máscara para a barbárie, e de como a arte pôde ser instrumentalizada para sustentar um projeto de morte. Narrado por Bruno Ganz, o filme foi premiado na Mostra Internacional de Cinema de SP na época do lançamento, e agora está disponível de forma gratuita na plataforma Sesc Digital, até o dia 05/04/2026, em https://sesc.digital/home, na versão restaurada recentemente em 4K, pela Cinemateca Sueca (país onde o documentário foi produzido).
 

 
Lupicínio Rodrigues – Confissões de um sofredor
 
Documentário de 2024 que analisa vida e obra do compositor gaúcho de Porto Alegre Lupicínio Rodrigues (1914–1974), nome de grande importância para a Música Popular Brasileira. Nascido em uma favela na Ilhota, foi o criador do chamado “samba-canção de dor-de-cotovelo”, gênero marcado pela melancolia, boemia, lirismo e pela confissão íntima de amores frustrados. Composições como “Vingança”, “Loucura”, “Felicidade”, “Volta”, “Quando eu for vem velhinho”, “Esses moços” e “Nervos de aço” tornaram-se clássicos imediatos, que revelavam um artista que transformou sofrimento pessoal em arte – quase todas essas canções são analisadas o documentário por especialistas em músicas, além de entrevistas antigas em que Lupicínio as comenta. O filme apresenta Lupicínio tanto como compositor de marchinhas de carnaval no início da carreira e sambas inesquecíveis quanto cronista das emoções humanas. Também foi ele quem compôs o hino oficial do Grêmio Porto-alegrense, ou seja, ia de um lado a outro, cruzando as diversas vertentes da música. A trajetória dele é narrada por meio de depoimentos de pessoas que o conheceram, como Elza Soares, Gilberto Gil, Jamelão, Jards Macal é e Zuza Homem de Mello, além de entrevistas dos anos 60 do próprio compositor, imagens de shows de cantores e cantoras que o interpretaram no palco, como Chico Buarque, Linda Batista e Gal Costa, e familiares (gravadas no tempo atual, entre 2023 e 2024). O documentário destaca a autenticidade de sua obra: Lupicínio escrevia sobre o que vivia, sem máscaras, expondo suas fragilidades e paixões. A honestidade é justamente o que lhe conferiu grandeza e o tornou um ícone da música brasileira. Com narração de Paulo César Pereio, o filme foi exibido no Festival In-Edit e na Mostra Internacional de Cinema de SP. Curiosidade retratada no filme: a canção “Se acaso você chegasse” integrou a trilha sonora do musical hollywoodiano “Dançarina loura” (1944) e recebeu indicação ao Oscar, no entanto ele nem sequer ficou sabendo, pois não botaram os créditos para ele. Está disponível gratuitamente na plataforma Sesc Digital, até o dia 10/04/2026, em https://sesc.digital/home

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1


Um Zé Ninguém contra Putin
 
Vencedor do Oscar e do Bafta de melhor documentário nesse ano, e ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance, onde teve a premiére mundial em 2025, o poderoso filme político de David Borenstein e Pavel Talankin acaba de ser lançado no Brasil exclusivamente no streaming Filmelier+. E ele sai em um momento crítico: há uma semana o Ministério da Rússia anunciou que o diretor Pavel Talankin foi incluído na lista de “agentes estrangeiros”, o que significa ser um dissidente do regime russo de Putin (lembrando que atualmente na Rússia de Putin os dissidentes costumam ser presos, assassinados ou exilados). É um filme crítico aos desmandos da Rússia atual, mostrando como o patriotismo exacerbado manipula os cidadãos condicionando seu pensamento para a guerra desde a infância. O longa acompanha Pasha, professor do ensino primário em uma cidade rural do interior da Rússia, que decide gravar clandestinamente a transformação de sua escola após a invasão da Ucrânia, em 2022. A escola, lugar de aprendizado, respeito e acolhimento, passa a ser dominado pela propaganda estatal, forçada pelo regime: grupos infantis militarizados surgem, o nacionalismo é exaltado pelos hinos patrióticos em rituais permanentes, e adolescentes são incentivados a se engajar na guerra (segundo eles, contra um país vizinho que os quer derrotados). Pasha entra em crise ao se dividir entre seguir com a educação que sempre sonhou ou ceder às pressões do regime russo. Com sua câmera escondida, Pasha documenta o cotidiano naquela instituição de ensino; as imagens revelam como a repressão se infiltra nas salas de aula, corroendo direitos e liberdades. O resultado é um retrato pungente da Rússia contemporânea, comandada por um déspota, em que coloca a educação como instrumento de doutrinação. Um filmaço para ser visto, discutido e indicado. Está no Filmelier+, com distribuição da Synapse Distribution, que integra o grupo Sofa DGTL – curiosamente, é o terceiro lançamento da distribuidora no Brasil de filmes ganhadores do Oscar de melhor documentário – antes vieram “20 dias em Mariupol” (2023) e “Sem chão” (2024), todos eles retratando guerras.
 

 
13 dias, 13 noites
 
Thriller político franco-belga que faz uma varredura no caos que virou o Afeganistão com queda de Cabul em agosto de 2021, quando integrantes do movimento fundamentalista islâmico Talibã retornaram ao poder, logo após a saída das tropas americanas do território. Milhares de afegãos buscaram sair do país, tendo a Embaixada da França como um ponto de apoio. A história do tenso filme recorta esse período, acompanhando a exaustiva missão do comandante Mohamed Bida, responsável pela segurança da Embaixada da França e sua equipe: eles ficaram encarregados de proteger 500 refugiados e conduzi-los até o aeroporto durante o avanço das tropas talibãs, que atiravam para matar, gerando caos e medo no país. Escrito e dirigido por Martin Bourboulon, da duologia “Os três mosqueteiros: D'Artagnan” (2023) e “Os três mosqueteiros: Milady” (2023), o longa transforma em cinema de ação e guerra o relato do comandante Mohamed Bida – é baseado no livro homônomo de, chamado “13 days, 13 nights in the hell of Kabul”. O filme constrói uma atmosfera sufocante, com uma fotografia de calor e cansaço pelos tons fortes de amarelo e laranja. O ator Roschdy Zem, de “Eu, que te amei” (2025), encarna o protagonista à beira do colapso, sustentando o peso dramático da trama. As atrizes Lyna Khoudri, de “A crônica francesa” (2021), e Sidse Babett Knudsen, de “Filhos” (2024), reforçam o elenco internacional, proporcionando camadas de humanidade às personagens. Um ótimo filme de corrida contra o tempo e sobrevivência, que se passa na cidade devastada de Cabul após duas décadas de invasão dos Estados Unidos (2001-2021), em que se faz um registro preciso da grave crise humanitária que eclodia naquele país do Oriente Médio. Exibido no Festival de Cannes e indicado ao César de melhor montagem, o longa não é apenas um relato de guerra, mas um testemunho sobre resistência e solidariedade em meio ao desespero de uma população abandonada à própria sorte. Segue desde semana passada nos cinemas, com distribuição da California Filmes.
 

 
Eles vão te matar
 
Conhecido por um cinema de ação explosivo com violência gráfica estilizada e humor macabro, o diretor russo Kirill Sokolov se lança no primeiro trabalho feito nos Estados Unidos. Na verdade, é um remake de seu primeiro longa, “Morra!” (2018), com novos personagens – ele o fez na Rússia, na flor da idade, aos 26 anos. Em ambos os filmes uma personagem chega em um apartamento e lá e confrontada com um bando de criminosos que querem sua cabeça. “Eles vão te matar” se passa em um arranha-céu de Nova York, onde Asia Reaves (Zazie Beetz) aceita o emprego de faxineira/zeladora. No primeiro dia de trabalho, descobre que o prédio abriga um grupo satanista, de pessoas vestidas com capuzes pretos e carregando insígnias macabras. Ela terá de usar todas as forças para sobreviver de armadilhas mortais – o que ninguém desconfia é que Asia tem habilidades de artes marciais. Um filme de ação ininterrupta, com pancadaria, giros no ar, sangue para todo lado, em uma história de luta pela sobrevivência que mais parece um pesadelo urbano. Na metade do filme o pior acontece: a personagem descobre que as dezenas de pessoas que a perseguem não morrem nunca; mesmo sem membros ou com tiros, elas retornam, amaldiçoadas pelos preceitos da seita satânica. A câmera é inquieta, os cortes são rápidos, as lutas, absurdas, e as cenas são grotescas, em um trabalho peculiar, cuja atmosfera angustiante pulsa na tela. Um filme em que você deve deixar-se levar. Atriz da série “Atlanta”, Zazie Beetz manda bem como a protagonista, e a ganhadora do Oscar Patricia Arquette dá vida à vilã, a dona do hotel que lidera o clã maligno. Segue nos cinemas pela Warner Bros - a classificação indicativa é de 18 anos.
 

 
It’s never over, Jeff Buckley
 
Exibido no Festival de Sundance e no CPH:DOX, o documentário, após ser exibido na edição passada da Mostra de Cinema de São Paulo, estreia agora no catálogo do Prime Video. A documentarista Amy Berg, cujo primeiro longa foi indicado ao Oscar, o doc “Livrai-nos do mal” (2007), e que anos atrás fez o ótimo documentário sobre Janis Joplin, “Janis: Little girl blue” (2015), retorna ao mundo da música para narrar a trajetória curta, mas de amplo destaque na época, do cantor e compositor Jeff Buckley (1966-1997). Considerado um novo Bob Dylan, o jovem era filho do cantor folk Tim Buckley (falecido quando Jeff tinha 10 anos) e cresceu cercado pela música. Só que ele traçou um caminho alternativo do pai, com uma identidade própria. O talento vocal, que alternava do sussurro delicado a afinações arrebatadoras, tornou-se a marca registrada de Jeff. Ele não se encaixava nos padrões da época, aliás, os contestava ao misturar rock, soul, folk e elementos da música clássica. O íntimo documentário reconstrói, com imagens de shows, e fotos inéditas de arquivo da família de Jeff, a breve e intensa carreira dele, que culminaram no álbum “Grace”, lançado em 1994. Ele só lançou este disco de estúdio, além de dois ao vivo e um póstumo (que seria lançado em 1998, “Sketches for my sweetheart the drunk”). No doc falam sobre Jeff a mãe, Mary Guibert, as ex-companheiras Rebecca Moore e Joan Wasser, músicos da banda como Michael Tighe e Parker Kindred, além de artistas consagrados como Ben Harper e Aimee Mann. A morte precoce do cantor, afogado no rio Wolf, no Mississipi, aos 30 anos, interrompeu uma carreira promissora, que eixou um vazio profundo entre os fãs e a crítica especializada, que viam nele uma das vozes mais promissoras da geração anos 90. O documentário tem um apelo íntimo, com cenas emocionantes; é bem amarrado e traz muitas músicas de Jeff, como “Grace”, “Vancouver” e a regravação de “Hallelujah” (de Leonard Cohen). Gostei muito e recomendo.


sexta-feira, 3 de abril de 2026

Resenhas especiais

 
Coleção “Terror no pântano”
 
A Obras-primas do Cinema acaba de lançar em DVD a quadrilogia “Terror no pântano”, com os quatro filmes de horror da franquia com o perverso assassino desfigurado Victor Crowley, realizados entre 2006 e 2017. No box, em disco duplo, vem quatro cards colecionáveis e mais de 1h de extras, como making of, entrevistas com elenco e diretor. Confira abaixo textos meus sobre os filmes:
 

 
Terror no pântano
 
Grupo de turistas viaja em uma pequena embarcação para conhecer os pântanos da Louisiana. Lá são assombrados pela lenda de Victor Crowley, um homem do campo que há muitas décadas atrás foi assassinado pelo próprio pai com golpes de machado. A história não é apenas uma lenda: Crowley reaparece, desfigurado, com sede de vingança, e passa a matar cruelmente quem cruza seu território.
 
Primeiro filme da quadrilogia “Terror no pântano”, criada por Adam Green, uma fita de baixo orçamento que virou cult entre os fãs de slasher (o terror sangrento que dominou o cinema nos anos 80). Tem óbvia semelhança com “Sexta-feira 13”, tanto a história (de jovens atacados numa região tomada pelas águas) quanto as características do cruel assassino (em “Sexta-feira 13” Jason matava as vítimas à beira do Lago Cristal, possuía sérias deformações no rosto, como se fosse um monstro, e era tão brutal quanto Victor Corwley). Tanto Jason quanto Victor surgem de uma lenda local, personagens abusados pelos pais e assassinados por eles, e que se transformam em um pesadelo real, já que não estão mortos, como muitos acreditam. Como é de se esperar, as mortes são violentas, com decepações, há sangue jorrando (gore) e vários jumpscares.


O diretor não utilizou computação gráfica, e tudo é com bonecos, próteses, sangue falso – ele se se inspirou também em clássicos como “Tubarão” e “Halloween – A noite do terror”. Não há epílogo em nenhum dos filmes, que termina com corte abrupto – ao assistir aos três primeiros em sequência, perceberão que a trama é uma só, desenvolvendo-se em questão de poucas horas uma da outra. Filmada na região de Louisiana antes do furacão Katrina, os pântanos reais são atmosfera claustrofóbica perfeita para o tipo de filme, e o ritmo acelerado das mortes reforçam o caráter de “parque de diversões sangrento” que o diretor almejava. O elenco conta com Joel David Moore (de “Avatar”), Parry Shen (que aparece nos outros três filmes da série, em papéis diferentes) e Kane Hodder (que é o Victor Crowley em toda a quadrilogia, famoso por interpretar Jason nos últimos títulos da franquia original de “Sexta-feira 13”, entre o fim dos anos 80 e início dos 90). Há rápidas participações de atores que interpretaram monstros consagrados do cinema, como Robert Englund (o Freddy Krueger de “A hora do pesadelo”) e Tony Todd (o vilão de “O mistério de Candyman”), além de Joshua Leonard (protagonista de “A bruxa de Blair”) e do veterano ator que coadjuvou importantes filmes policiais do cinema Richard Riehle. Meio que uma paródia que homenageia o cinema slasher, conta com humor macabro e cenas fortes de violência – por isso, prepare-se. Em boa cópia em DVD pela Obras-primas do Cinema, o filme é apresentado na versão do diretor, de 84 minutos.
 
Terror no pântano (Hatchet). EUA, 2006, 84 minutos. Terror/Comédia. Colorido. Dirigido por Adam Green. Distribuição: Obras-primas do Cinema
 
 
Terror no pântano 2
 
Única sobrevivente da chacina ocorrida nos pântanos da Louisiana pelo perverso assassino Victor Crowley, Marybeth (Danielle Harris) escapa do lugar e pede ajuda a caçadores para se vingar da morte dos amigos e familiares que estavam na viagem de barco naquele território.
 
O diretor Adam Green retorna com mais violência gráfica e um tom deliberadamente exagerado nesta sequência de “Terror no pântano”, feita quatro anos antes, que continua exatamente na noite em que a matança de Victor Crowley ocorreu. A única sobrevivente da chacina se junta a um grupo de caçadores do mato para se vingar do assassino desfigurado. Mortes violentas, sangue pesado e perseguições tornam o filme um prato cheio para quem curte slasher movie. Com baixíssimo orçamento (assim como os outros da cinessérie), o filme conta com uma história horripilante, de pesadelo interminável, que traz elementos também do humor macabro.


A novidade é que se recria a mitologia do monstro, revelando detalhes sobre sua origem trágica e reforçando sua condição de assassino imortal, condenado a repetir sua fúria. As referências a “Sexta-feira 13” são mais evidentes, bem como a “Halloween” e outros slashers. O elenco inclui o retorno de Tony Todd e Kane Hodder (como Crowley), Parry Shen em novo papel, participação da esposa do diretor, Rileah Vanderbilt, e aparição rápida do diretor e roteirista Tom Holland (dos cultuados “A hora do espanto” e “Brinquedo assassino”). E optaram em trocar as atrizes que interpretam a personagem Marybeth, antes feita por Tamara Feldman e agora com Danielle Harris (conhecida pelo papel da menina Jamie Lloyd, perseguida por Michael Myers em “Halloween 4 e 5”).
 
Terror no pântano 2 (Hatchet II). EUA, 2010, 85 minutos. Terror/Comédia. Colorido. Dirigido por Adam Green. Distribuição: Obras-primas do Cinema
 
 
Terror no pântano 3
 
Uma equipe policial é chamada para rastrear uma carnificina nos pântanos da Louisiana, enquanto Marybeth (Danielle Harris), sobrevivente dos crimes de Victor Crowley, volta a ser perseguida pelo monstro assassino.
 
O terceiro capítulo da franquia de terror independente “Terror no pântano” mantém o tom de continuidade direta, começando exatamente após os eventos sangrentos do segundo longa-metragem. Marybeth, interpretada de novo por Danielle Harris, busca uma forma de acabar com a maldição de Victor Crowley (já que ele não morre nunca), enquanto policiais e militares invadem o pântano em uma tentativa desesperada de eliminar o monstro. Crowley reaparece ainda mais voraz por sangue, desmembrando e trucidando quem aparecer na frente – é um dos mais violentos da cinessérie, com mortes escabrosas. Neste capítulo que expande o universo da franquia sem deixar de homenagear o cinema slasher, as influências vão além de “Sexta-feira 13”, chegando perto de “Aliens” e “O predador”, já que há uma atmosfera de guerra contra uma criatura imortal.


O elenco traz novamente Kane Hodder como Crowley, e participação de três nomes do cinema de terror dos anos 80 e 90, Zach Galligan, de “Gremlins”, Caroline Williams, de “O massacre da serra elétrica 2”, e Sean Whalen, de “As criaturas atrás das paredes”. É o único filme em que o criador da franquia, Adam Green, não dirige; ele apenas fez o roteiro, deixando a direção a BJ McDonnell, que segue os mesmos passos do amigo/mentor.
 
Terror no pântano 3 (Hatchet III). EUA, 2013, 81 minutos. Terror/Comédia. Colorido. Dirigido por BJ McDonnell. Distribuição: Obras-primas do Cinema
 
 
Terror no pântano 4
 
Quase 10 anos depois do massacre nos pântanos da Louisiana pelo temido assassino Victor Crowley, Andrew (Parry Shen), um sobrevivente da chacina, volta para o local onde tudo começou. Ele acredita que Crowley está mesmo morto, mas acabará cruelmente perseguido pelo monstro sanguinário.
 

No quarto e último filme da franquia de horror independente “Terror no pântano”, vemos o retorno na direção do criador da cinessérie, Adam Green, que fez aqui algo como uma reinvenção do assassino e do próprio universo de Victor Crowley. Ambientado 10 anos após o massacre nos pântanos da Louisiana, a trama acompanha um grupo de pessoas preso em um avião que cai no território onde o assassino existiu. Crowley ressurge literalmente das cinzas, com fúria mortal, disposto a eliminar qualquer humano que cruzar seu caminho. Kane Hodder retorna mais uma vez como Crowley, consolidando sua imagem definitiva como o monstro da série. O elenco traz também Parry Shen, que fez todos os filmes da franquia, além de Tyler Mane, Dave Sheridan, Tiffany Shepis e Laura Ortiz. Como de hábito, em todos os longas, Adam Green escalou nomes do cinema de horror dos anos 80, como forma de lembrá-los, e nesse capítulo final quem aparece é Felissa Rose, figura icônica do cinema de horror, a Angela de um dos maiores slashers já feitos, “Acampamento sinistro” (1983). Green termina sua quadrilogia com uma mistura de humor ácido e violência gráfica gritante, com direito a mortes incalculáveis.
 
Terror no pântano 4 (Victor Crowley). EUA, 2017, 83 minutos. Terror/Comédia. Colorido. Dirigido por Adam Green. Distribuição: Obras-primas do Cinema

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Resenhas especiais

 
Novos filmes em DVD pela Obras-primas do Cinema
 

Afire

* Reedição
 
Quatro pessoas, dentre eles velhos amigos, reúnem-se em uma casa de veraneio no mar Báltico. Os dias são quentes, e as conversas entre eles são um misto de memórias e descobertas. Até que um terrível incêndio florestal nas proximidades coloca todos em risco.
 
O diretor alemão Christian Petzold deixa de lado seus filmes complexos de drama de guerra com ar de ficção científica e se volta para um drama com humor e romance. É um filme diferente do que estamos acostumados a ver dele – é o diretor de ‘Phoenix’ (2014) e ‘Em trânsito’ (2018). A história é em torno de alguns dias na vida de um jovem escritor (papel do austríaco Thomas Schubert, de “O impostor”, num bom desempenho) que vai com um amigo para uma casa de férias no mar Báltico. Lá tentará terminar seu novo livro, enquanto aguarda a chegada do editor. Ele conhecerá uma mulher hospedada no quarto ao lado que mudará sua vida. Os dias são quentes, ele está preocupado com o livro, até que um incêndio de grandes proporções atinge florestas de região, deixando-os isolados e sem comunicação. É um filme de estudo de personagem, com boa fotografia e muito sentimento autoral na trama (talvez o filme mais fácil de compreender de Petzold, que tem no currículo obras complexas). No elenco temos a atriz alemã Paula Beer, que trabalhou com Petzold no longa anterior dele, ‘Undine’ (2020). Venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, foi indicado ao prêmio de melhor filme em San Sebastián e teve a estreia no Brasil na Mostra Internacional de Cinema de SP de 2023 (onde vi pela primeira vez). Saiu recentemente em DVD pela Obras-primas do Cinema em parceria com a Imovision, em um disco contendo dois extras (trailer e galeria de fotos), embalado em luva e ainda com dois cards com os pôsteres do filme.
 
Afire (Roter Himmel). Alemanha, 2023, 102 minutos. Drama/Romance. Colorido. Dirigido por Christian Petzold. Distribuição: Obras-primas do Cinema e Imovision (em DVD)
 
* Reedição - Texto publicado em 28/10/2023

 
Buffy, a caça-vampiros
 
Universitários de uma renomada escola aparecem mortos misteriosamente. A polícia descobre que há mordidas no pescoço deles, como se fossem dentes de vampiro. Desconfiada de que a escola abrigue um antro de criaturas vampirescas, a estudante Buffy (Kristy Swanson), que é líder de torcida, encabeça um grupo de jovens para investigar o caso.
 
Irreverente, com referências ao mundo pop e ao cinema oitentista de vampiro, a comédia de terror tornou-se cult, antes mesmo de ser exibida inúmeras vezes na TV aberta no fim da década de 90. O filme teenager veio na onda de fitas de terror vampírico daquela saudosa época, como “A hora do espanto” e “Os garotos perdidos”, mas aqui com mais dose de humor e deboche. A história acompanha Buffy Summers, uma líder de torcida empenhada em desmantelar um clã de vampiros na escola onde estuda – papel de Kristy Swanson, descoberta por John Hughes em “Curtindo a vida adoidado” (1986), atriz que se tornou popular em filmes norte-americanos dos anos 80. Ela lidera o grupo de amigos no combate às criaturas ao descobrir que é herdeira de uma linhagem de exterminadores de vampiros, uma espécie de neta de Van Helsing. Quem faz o chamado para ela seguir com a caçada aos vampiros é o misterioso mentor Merrick (Donald Sutherland). As criaturas da noite estão à solta a mando do sinistro Lothos (Rutger Hauer), determinado a acabar com os humanos. O tom do filme é leve, com cenas contidas de violência, seguindo um lado mais satírico, que brinca com os clichês do gênero. A estética é marcadamente anos 90, com diálogos e figurinos que reforçam o caráter juvenil da obra. Exatamente por isso houve atrito na produção envolvendo o roteirista, Joss Whedon, que retirou o nome dos créditos, por divergir com os produtores e a direção quanto a manter sua ideia original – até o elenco entrou em crise, por pouco o filme foi engavetado e a diretora não fez mais nada (Fran Rubel Kuzui). Tanto que cinco anos depois Whedon produziu e dirigiu a série que ficou mais conhecida que o longa, “Buffy: A caça-vampiros” (1997-2004), protagonizada desta vez por Sarah Michelle Gellar. Whedon, que vinha da TV, dirigiu depois “Serenity: A luta pelo amanhã” (2005) e os dois primeiros longas da franquia “Os Vingadores” (2012 e 2015). Não vi a série, apenas conheço trechos de episódios, e os fãs dizem ser melhor que o filme. No elenco há gente premiada, como Paul Reubens, como um vampiro escrachadão, e a indicada ao Oscar Candy Clark (como a mãe de Buffy), além de artistas em início de carreira, como David Arquette, Hilary Swank, Thomas Jane e Luke Perry. O filme acaba de sair em DVD pela Obras-primas do Cinema, em ótima cópia, com três extras (trailer, spots de TV e vídeo promocional).
 
Buffy, a caça-vampiros (Buffy the vampire slayer). EUA, 1992, 85 minutos. Comédia/Terror. Colorido. Dirigido por Fran Rubel Kuzui. Distribuição: Obras-primas do Cinema (em DVD)

Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 5

Aisha não pode voar   Falado em árabe e coproduzido em sete países (Egito, Tunísia, Catar, França, Arábia Saudita, Sudão e Alemanha), o pode...