sábado, 21 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
76º Festival de Berlim termina amanhã; vencedores serão anunciados hoje
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) continua a todo vapor até amanhã, dia 22 de fevereiro, na capital alemã, com uma extensa programação de filmes históricos e sociais. Longas e curtas-metragens potentes, escolhidos a dedo, transcendem as narrativas óbvias, com a maior parte deles em première mundial. Um dos filmes que ganhou o louvor da crítica e do público, tornando-se forte candidato ao Urso de Ouro (e amanhã saberemos), é “Josephine”, que comento abaixo. Após a divulgação oficial hoje, trarei aqui a lista dos ganhadores. Confira sobre o filme “Josephine”:
 

Josephine
(EUA – 2026, 114 minutos, de Beth de Araújo)
 
Assisti a 16 longas na Berlinale de 2026, a maior parte em sessão de imprensa na Berlinale Palast, e “Josephine” foi o filme que teve mais aplausos da imprensa (composta por 1200 jornalistas e críticos de cinema do mundo inteiro). O aplauso acalorado como resposta não tem exagero nenhum: é um dos melhores títulos do Festival de Berlim, que me deixou extasiado. Na coletiva de imprensa, uma hora depois da exibição, com a participação do elenco, fui saber, pelas falas da diretora Beth de Araújo, que a história era verídica, baseada em uma ocorrência de estupro que ela presenciou quando tinha oito anos de idade. Tudo fez mais sentido me causando mais impacto. Beth, que tem descendência brasileira por parte de pai e chinesa por parte de mãe, vive em São Francisco há muitas décadas e escreveu o roteiro puxando essa dolorosa imagem do passado, de como foi atravessada por um trauma ao ser testemunha de um crime sexual. O filme começa com Josephine (papel cativante e de pura singularidade da garotinha Mason Reeves), uma menina de oito anos, caminhando pelo parque Golden Gate em São Francisco ao lado do pai, Damien (Channing Tatum). Ela anda mais à frente dele e caminha por um corredor de árvores altas, até que se esconde atrás de um tronco e vê algo estranho a poucos metros: é um homem cometendo estupro contra uma mulher. A garota observa sem entender a cena, até que Damien chega, percebe o ocorrido e corre atrás do criminoso, ligando em seguida para a polícia. Confusa, pois viu uma mulher gritar de dor e ser forçada a algo que não queria, a menina aguarda a polícia. E a partir daí sua rotina infantil é estraçalhada, sendo assombrada constantemente pela figura do abusador sexual (que aparece em suas visões, no quarto, na escola). Josephine desenvolve um comportamento violento, e os pais tentam encontrar uma solução para ajudá-la (quem interpreta a mãe de Josephine é Gemma Chan, em ótimo papel também). Mais uma questão surge e instalará uma nova crise na família e dentro do íntimo da menina, quando ela terá de depor no tribunal sobre o caso, já que é a única testemunha do estupro. Josephine passa a enxergar o mundo com um olhar duro, pessimista, reflexo do que viu no parque e da pressão que sofre agora para ir todo dia na delegacia relembrar o trágico ocorrido. Beth filma a menina em primeiro plano, com closes perfeitos para demonstrar a angústia silenciosa que a pequena protagonista enfrenta – e que é ela, Beth, no passado. A construção do filme mergulha na tensão familiar, com enfoque na instabilidade dos pais e no novo modo de enxergar a vida de Josephine (que perde um pouco do encanto da infância ao levar um baque como aquele). Recebeu o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio do Público em Sundance no mês passado, e agora em Berlim crescem as chances de levar o tão concorrido Urso de Ouro – este ano tem títulos páreos, como “Dao”, “Rose” e “Queen at sea”. Veremos logo mais.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Resenha especial

 
Orwell 2 + 2 = 5
 
Documentário aterrador, porém de estrutura complexa e difícil de digerir, assinado por um cineasta engajado em movimentos sociais, o haitiano Raoul Peck, indicado ao Oscar por “Eu não sou seu negro” (2016) - e realizador de outro filme sobre racismo derivado deste, “Ernest Cole: Achados e perdidos” (2024). Peck agora revisita a biografia do escritor George Orwell (1903-1950), principalmente fazendo uma leitura da ideia de dominação e poder inscrita no famoso e polêmico livro “1984” para os dias de hoje. Ao trazer para o tempo atual, ele faz uma parábola visual sobre o mundo fragmentado pelos discursos extremistas, de mentira, manipulação, de ódio e de ordem. O “2 + 2 = 5” parte do princípio de que nem tudo é uma verdade absoluta, e nos tempos da pós-verdade a mentira pode ser moldada e ganhar espaço de tanta ser reproduzida. As redes sociais e o crescente discurso da extrema-direita no mundo estão nessa linha de frente, que se utilizam de fake News como defesa da liberdade de expressão. A composição do filme é uma compilação de imagens das duas versões para cinema de “1984”, a de Michael Anderson de 1956 (com Edmond O’Brien) e a de Michael Radford de 1984 (com John Hurt) com cenas reais da sociedade em colapso – da violência do estado, do combate à imigração, de guerras civis, das guerras nas redes. O que na concepção de Orwell era um futuro distópico digno da ficção científica mais maluca, hoje se aproxima do que vivemos: discursos autoritários que remetem ao totalitarismo, impedindo as individualidades e ideias opostas. A atualidade também é a do controle pelas máquinas e da vigilância e punição, tudo que estava nas páginas de Orwell. Peck trata do universo da política que se utiliza da mentira para vender a ideia das liberdades, com destaque para líderes populistas como Donald Trump – que com suas falas convencem o indivíduo de que a mentira é mais confortável do que a dúvida. Um filme crítico, para se pensar e ver com a máxima atenção possível. Selecionado para o Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Eye, teve sete indicações ao Critics Choice Documentary, dentre eles melhor filme e melhor diretor, e conta com narração de Damian Lewis (ator de “Era uma vez em... Hollywood”). Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Alpha Filmes.



Especial de cinema

 
Festival de Berlim 2026: filmes que exploram complexas relações humanas
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) chega ao nono dia com uma extensa programação de filmes de temáticas diversas. Vitrine do cinema mundial, ele segue até o dia 22/02 com mais de 400 filmes para o público. Confira abaixo títulos que falam sobre relações humanas, que assisti no festival e recomendo:


 
Dao
(França/Senegal/Guiné-Bissau - 2026, 185 minutos, de Alain Gomis)
 
“Dao” abre com uma definição que funciona como um manifesto: “Um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e une o mundo”. A partir desse discurso, o filme mergulha numa narrativa que oscila entre o íntimo e o performático, entre o que é vivido e o que é encenado. Gloria (Katy Correa), de 50 anos, é a protagonista, uma mulher africana que preserva na França suas tradições. Ela se prepara para o casamento da filha em Paris, mas a Cidade Luz se mostra como um dos polos desse movimento circular. O outro está em Guiné‑Bissau, onde anos atrás enterrou o pai, numa cerimônia marcada por dança e lembrança dos antepassados. O filme se transpõe entre as duas nações, rompendo as fronteiras entre documentário e ficção ao nos levar para um casting da produção de um filme; “Dao” é construído em duas partes, uma de um filme ficcional e a segunda, de uma espécie de documentário que registra a preparação daquele filme que será encenado. A voz fora de cena, quase onipresente, anuncia que o primeiro passo é formar esta família que surgirá na tela. Atores e não atores são convocados para serem os membros daquele clã familiar - não apenas no papel, mas na construção de uma comunidade temporária que atravessará continentes, rituais e lutos. É como se a obra cinematográfica nos lembrasse que toda família, real ou inventada, é sempre uma ficção partilhada. À medida que viajamos entre Paris e Guiné‑Bissau, as histórias individuais se entrelaçam com heranças comuns. Amor, risos, rituais, dor e memória surgem como fios condutores que costuram um tecido híbrido, onde fatos e imaginação se confundem. O movimento circular anunciado no início reaparece constantemente, não como metáfora abstrata, mas como forma de olhar: tudo retorna, tudo se dobra sobre si mesmo, tudo ecoa. É um filme sobre complexas relações humanas, feito de uma autoralidade que há tempos não via tão bem formatada na tela. Ele não apresenta divisão em capítulos, tudo é encaixado de forma discreta, com cortes que fazem o longa transitar entre a ficção e o documentário. As tradições ritualísticas da cultura de Guiné Bissau, evocadas pelo canto e a dança, seja para o luto ou para a comemoração do casamento, trazem ritmo e brilho para a composição estética desse riquíssimo filme que é o terceiro trabalho do diretor Alain Gomis indicado ao Urso de Ouro, seguido de “Aujourd'hui” (2012) e “Felicidade” (2017). Está na competição oficial da Berlinale, muito cotado para vencer o Urso de Ouro.
 

 
O testamento de Ann Lee
(EUA/Reino Unido - 2025, 137 minutos, de Mona Fastvold)
 
Teve a première alemã na Berlinale este filme que já passou nos Estados Unidos e em vários países da Europa no ano passado, incluindo os Festivais de Veneza e Toronto e BFI Londres. Amanda Seyfried chegou hoje ao solo berlinense para divulgar o drama musical em que entrega uma poderosa interpretação, pela qual recebeu indicação ao Globo de Ouro de atriz de comédia ou musical. É um drama de época com momentos cantados, inspirado em um fato verídico, a vida marcada por perseguição religiosa de Ann Lee (1736–1784), conhecida como Madre Ann Lee (no filme apenas ‘Mother’). Ela foi a líder fundadora dos Shakers, mais tarde chamados Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Aparição de Cristo. Nascida na Inglaterra durante um período de intenso fervor religioso, virou figura marcante tanto no seu país quanto na América - em 1774, após 20 anos envolvida no movimento que daria origem aos Shakers, na Inglaterra, emigrou para Nova Iorque com um pequeno grupo de seguidores. Estabeleceram-se em Niskayuna, no condado de Albany, onde praticavam formas de culto marcadas por danças extáticas, o “shaking”, uma prática de movimento livre e espontâneo, sem coreografias, focada na conexão interior, cura e expressão autêntica, muitas vezes vivida como uma meditação ativa ou ritual, com gritos, cantos e sussurros, em movimentos circulares. Numa época em que poucas mulheres lideravam comunidades religiosas, Ann Lee (papel de muita concentração de Amanda Seyfried) pregava publicamente e era vista como a expressão feminina de Deus, consolidando o seu papel singular na história espiritual dos Estados Unidos. Mas ela incomodou a sociedade do século XVIII, resultando em perseguições severas sistemáticas. O grupo dos Shakers foi desmantelado diversas vezes, por causa de crenças e comportamentos que desafiavam as normas religiosas e sociais da época, como a encarnação de Cristo em uma mulher (apontado como uma heresia), a pregação da igualdade entre gêneros e classes sociais, o celibato absoluto, o que ameaçava o modelo tradicional de família, e a adoração efusiva, marcadas por gritos, danças frenéticas e tremores, que assustava e chocava a população. “O testamento de Ann Lee” não apresenta apenas uma história, mas um estado de espírito e um ânimo social, que reflete a intolerância religiosa e de gênero em séculos passados. Com uma montagem exímia dividindo a biografia de Ann Lee em quatro capítulos essenciais de sua curtíssima trajetória, conta com um olhar cuidadoso da cineasta Mona Fastvold – em nova parceria com o roteirista de “O brutalista” Brady Corbet. Ela capta bem olhares e o ambiente ao redor, trazendo dimensão humana para aquele grupo de pessoas envolvidas com a nova religião (as coreografias são ótimas nos momentos do “shaking”). Soube usar a fotografia das cenas abertas nas florestas, que são de puro capricho, e até as músicas cantaroladas são extraídas dos verdadeiros escritos de Ann Lee, demonstrando ampla pesquisa sobre a personagem. Amanda interpreta uma mulher no limite, uma protagonista cheia de camadas, à beira do desassossego, atravessando um limiar emocional – a atriz entrega um bom papel sem cair no exagero. Ao lado de Amanda há um elenco de coadjuvantes que levam a trama até o final, como Christopher Abbott, Thomasin McKenzie, Lewis Pullman, Tim Blake Nelson e Stacy Martin. Previsão de estreia no Brasil em 12 de março.
 

 
Queen at sea
(EUA/Reino Unido - 2026, 121 minutos, de Lance Hammer)
 
Um dos longas mais belos (e trágicos) do Festival de Berlim de 2026, a coprodução britânica-americana é um devastador retrato sobre a impotência da velhice, que reúne um elenco em estado de graça, cotados para os prêmios principais da Berlinale. Uma família é atravessada pela demência da mãe, Leslie (Anna Calder-Marshall), que já não fala e expressa pouco seus sentimentos. Ela é cuidada pelo atual marido, Martin (Tom Courtenay), ambos com mais de 80 anos. Certa manhã, a filha, Amanda (Juliette Binoche), vai visitar a mãe e leva um choque ao vê-la transando com o padrasto. Ela expulsa Martin da cama e ameaça chamar a polícia – segundo Amanda, ele não deveria mais fazer sexo com Leslie, já que a idosa fica estática, sem reação, alegando uma agressão às vontades da mãe. Martin e Amanda iniciam um duro embate moral que arrastará toda a discussão do filme, trazendo luz para temas como velhice, doença, decisões próprias, cuidado, companhia e solidão. Lance Hammer dirige com maestria seu segundo longa-metragem fazendo um belo filme de atores, com presença marcante do trio composto por Anna Calder-Marshall, Tom Courtenay (numa interpretação notavelmente contundente) e Juliette Binoche. Uma história paralela, menos importante, é traçada, sobre a filha jovem e rebelde de Amanda, Sara (papel de Florence Hunt), que pouco acrescenta à trama original. Nossa atenção toda é voltada para a crescente crise que instala naquela família, fazendo com que nossos olhos não saiam da tela um minuto sequer. Gostei muito e espero que o filme ganhe asas em outros festivais e chegue logo ao Brasil para que o público conheça.
 
 
 
Rosebush pruning
(Alemanha/Itália/Espanha/Reino Unido/Estados Unidos – 2026, 97 minutos, de Karim Aïnouz)
 
O cineasta cearense Karim Aïnouz trouxe para o Festival de Berlim seu segundo filme estrangeiro com elenco internacional, desta vez com nomes a perder de vista: Elle Fanning, Callum Turner, Pamela Anderson, Riley Keough, Lukas Gage, Jamie Bell e Tracy Letts (o anterior foi o indicado à Palma de Ouro “O jogo da rainha”, de 2023, com Jude Law e Alicia Vikander). Deu um chacoalhão no público, dividindo a crítica, em uma obra autoral de extremos, que tem traços do cinema de Yorgos Lanthimos – não por acaso o roteirista é o grego Efthimis Filippou, que escreveu quase todos os filmes de Lanthimos. É um filme incomum, e com certeza muita gente irá chiar – há duas cenas sobre sexo bizarro que ficará na memória (pro bem e pro mal). Sob o sol da Catalunha, quatro irmãos residem com o pai cego (Tracy Letts) em uma casa aconchegante próxima ao mar. A mansão tem peculiar arquitetura, rodeada por vastos roseirais podados diariamente pelo patriarca (daí o título). Herdeiros de uma grande fortuna, os filhos se provocam, têm comportamentos inadequados e se refugiam em roupas de marca, em rituais vazios e na ilusão de que o isolamento pode protegê-los das exigências da sociedade. No jardim de inverno dentro do casarão todos eles cultuam o jazigo da mãe morta (Pamela Anderson). As coisas mudam quando Jack (Jamie Bell), o filho primogênito e o mais resolvido da casa, resolve abandonar o lar para viver com a namorada, Martha (Elle Fanning). A decisão desencadeia uma ruptura na família, atingindo em cheio os irmãos Robert (Lukas Gage) e Anna (Riley Keough). Quem observa com segunda intenção aquele desmoronamento é o irmão mais sorrateiro, Ed (Callum Turner), que impulsionará uma série de eventos eu colocará um contra o outro dando início a uma onda de conflitos violentos. Esse processo de desintegração familiar nas mãos de Aïnouz e Filippou vira uma sátira voraz à família patriarcal tradicional. Assim como no cinema de Lanthimos, há lances chocantes, reviravoltas impressionantes e um certo clima de estranhezas no ar. Eu sou da ala dos que curtiram o filme, e ver um cineasta brasileiro chegar aqui com esta fita de arte estrondosa, é de dar orgulho. Com produção assinada pela Mubi, está na competição principal, na disputa pelo Urso de Ouro – e deve estrear nos cinemas até o fim do ano.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
Berlinale traz mais uma série de filmes com protagonistas femininas
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) entra hoje em seu sétimo dia, com uma rica programação de filmes em première na capital alemã. Um dos festivais de cinema mais reconhecidos do mundo segue até o dia 22/02 apresentando mais de 400 longas e curtas-metragens de diversos países, de temáticas e gêneros diversos. Confira abaixo títulos com personagens femininas que se destacam na tela, que assisti no festival e recomendo:


 
At the sea
(EUA/Hungria - 2026, 112 minutos, de Kornél Mundruczó)
 
Um drama envolvente com uma interpretação mais uma vez estrondosa de Amy Adams, atriz que gosto em particular e que pelo papel aqui deverá ser indicada ao Oscar em 2027. Ela interpreta com frequência papeis de mulheres em vulnerabilidade emocional, repetindo a dose com maestria em “At the sea”. Desta vez ela é Laura, dirigente de uma companhia de balé (herdada do pai), que retorna para casa após seis meses de internação em uma clínica de reabilitação. Ela tem vício em álcool e quase perdeu tudo com o agravamento da adicção. O filme já abre com Laura deixando a clínica e voltando para o lar, onde marido e filhos a esperam – a residência fica à beira da praia (por isso o título), local onde transcorrerá toda a trama. Ela tenta reconstruir os laços com a família – os filhos não a perdoam pelo passado, pois foram traumatizados pelo vício da mãe, enquanto o marido, Martin (ótimo trabalho de Murray Bartlett, de “The White Lotus”), pacientemente dá o tempo necessário para a esposa se reajustar. Laura tem lapsos do passado, de quando era pequena e tinha o pai como apoio – a relação entre eles não fica muito clara, já que são flashes sem diálogos. A resistência dos filhos é dura, mas também vemos que Laura é uma mulher de pouco afeto e carinho – uma é a filha adolescente rebelde (que também gosta de dançar) e o outro é um garotinho que sentiu profundamente a ausência dela. São dias sucessivamente tensos de retomar as funções da casa, do trabalho e do convívio familiar. E para piorar uma crise entre o casal se instala, envolvendo culpa e responsabilidades. O longa permanece do começo ao fim como um drama intenso, com um desfecho de arrancar lágrimas, um filme todo de Amy, num papel complexo. A paisagem marítima funciona como espelho do estado interno da protagonista: ora calma, ora turbulenta, sempre prestes a revelar algo submerso. Amy está fotogênica, entrega tudo - pequenos gestos, hesitações e silêncios dela dizem mais do que qualquer diálogo. A direção acerta no trabalho dos atores, seguindo em ritmo lento a condução das cenas – assinada por Kornél Mundruczó. O cineasta húngaro fez filmes na linha do cinema fantástico, como “Lua de Júpiter” (2017), e aqui é seu segundo trabalho com mulheres problemáticas se reconstruindo; o primeiro foi “Pedaços de uma mulher” (2020), que deu indicação ao Oscar de melhor atriz a Vanessa Kirby, e agora “At the sea”. É um diretor de alma feminina que captura com exatidão a mensagem que quer passar. Integra a competição em busca do Urso de Ouro.
 

Saccharine
(Austrália - 2026, 112 minutos, de Natalie Erika James)
 
Terror psicológico com forte comentário à cultura fitness, é um dos bons filmes de gênero que circula por esses dias na Berlinale. Com ecos de horror corporal, o inquietante longa australiano é o melhor trabalho da cineasta Natalie Erika James, de “Relíquia macabra” (2020) e “Apartamento 7A” (2024). A trama acompanha Hana (Midori Francis), uma estudante de Medicina que descobre uma fórmula mágica para emagrecer: comprimidos manipulados em laboratório com cinzas de pessoas que foram cremadas (é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de comer doces e percebe que seu peso estagnou mesmo frequentando academia - e quando experimenta a pílula, vê o resultado em poucos dias. Hana não conta para ninguém sobre o remédio. Paralelo a isto, nas aulas de anatomia, estuda a dissecação de um cadáver de aparência chocante, a de uma mulher com mais de 200 quilos, toda inchada. Hana sente algo estranho naquele corpo estirado na mesa e passa a ter alucinações. O pesadelo na vida da universitária atinge o ápice quando o fantasma da morta aparece para ela em reflexos nos talheres de cozinha. O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher disposta a qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de corpo humano demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema que o longa procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que realmente provocam medo, uma boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem no elenco Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”,aqui no papel da melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido ator australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da protagonista). A première europeia ocorreu na sessão Berlinale Special Midnight.
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Especia de cinema


76º Festival de Berlim reúne obras autorais de impacto temático e visual
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) continua a todo vapor na capital alemã até o dia 22 de fevereiro. Vitrine do cinema mundial e um dos festivais de cinema mais importantes da Europa, a Berlinale apresenta esse ano mais de 400 filmes de diversos países, que exploram temas urgentes, como imigração, identidades de gênero, o papel da mulher na sociedade, intolerância religiosa, extremismo político etc. Obras autorais despertam a atenção pela qualidade técnica, provocando impacto visual imediato. Confira abaixo títulos que assisti no festival e que recomendo:



The moment
(Reino Unido e EUA - 2026, 103 minutos, de Aidan Zamiri)
 
Após estreia mundial no Festival de Sundance em janeiro e duas exibições em cinemas reservados nos Estados Unidos e Canadá, chega à Berlinale o mockumentary produzido e estrelado pela cantora britânica Charli xcx que mergulha nos altos e baixos de um artista pop contemporâneo. É um filme barulhento, de enorme furor, apresentado na seção Panorama e que tem a assinatura da produtora A24. Charli faz uma autointerpretação, em um filme que explora à exaustão os bastidores de um show musical. Sua personagem (ela mesma) enfrenta expectativas esmagadoras impostas tanto pela indústria quanto as que alimenta. A estrela pop, já consolidada, equilibra a pressão, a autocrítica e o desejo de autenticidade no período que antecede a primeira grande turnê da carreira. É de Charli o argumento original, confiado a Aidan Zamiri, cineasta e fotógrafo escocês radicado em Londres, que se tornou uma das figuras centrais da estética pop atual. Seu trabalho, reconhecido em videoclipes de Charli e Billie Eilish, combina um quê dos anos 2000, humor irônico, autocrítica feroz e um estilo lo-fi estilizado. Em “The moment”, ele leva essa assinatura visual para um território mais íntimo, expondo a vulnerabilidade por trás da persona pública de Charli – todo gravado com câmera em movimento, das andanças, erros e acertos da artista e sua equipe na preparação de um show. O filme, uma comédia dramática, caminha entre a fronteira da ficção e da realidade, ironizando o mundo dos músicos pop para revelar uma artista que tenta manter o controle enquanto tudo ao redor parece desmoronar. Charli caçoa da era Brat, estilo que virou fenômeno em 2024, popularizado por ela no álbum de mesmo nome, em que trata da nova juventude, de espírito livre, rebelde e hedonista (a cor verde-limão do disco volta como estética em “The moment”). O resultado é um olhar afiado sobre o significado de performar sucesso num mundo que exige presença constante. Detalhe que até as músicas de Charli tocam na trilha sonora, como “Boom clap” e “360”. No elenco há coadjuvantes curiosíssimos, com destaque para Rosana Arquette, como a empresária prestes a infartar, e o sueco Alexander Skarsgård, num papel que extra risadas sem fim, como o diretor contratado para conduzir o show da cantora. Estreia nos cinemas do Brasil e de outros países nesta semana.
 
 
Nightborn
(Finlândia/França/Reino Unido/Lituânia - 2026, 92 minutos, de Hanna Bergholm)
 
E eis que na Berlinale aparece um body horror com bebê monstro para discutir o papel de mãe em uma sociedade patriarcal, recorrendo a um humor (bem estranho) para amenizar o gore que respinga na tela. É um filme finlandês que se passa inteiramente em uma casa localizada nas adjacências de um bosque, onde mora o casal Saga (Seidi Haarla) e Jon (Rupert Grint). No lar cercado por árvores, onde Saga passou a infância, nasce o bebê deles. Mas desde o parto percebem que ali não existe uma criança igual às outras: o recém-nascido tem pelos por todo o corpo e unhas afiadas. Na amamentação, Saga fica machucada, de seu peito escorre sangue, e na hora de dormir, o bebê a deixa com hematomas no braço de tanto que a aperta. Inquieta, a mãe não consegue dialogar com o marido (sobre nenhum assunto), ambos brigam, e Jon fica mais distante. Resta a Saga cuidar sozinha daquele estranho filho, que passa a ter comportamentos fora do comum. Enquanto o pai não vê nada de errado ali, Saga trava uma batalha contra uma verdade que a assombra, iniciando conflitos com outros familiares, como a mãe controladora. O longa trata da pressão da maternidade e da depressão pós-parto, focando em uma mulher que vai enlouquecendo por não conseguir cuidar do filho recém-nascido. A sociedade exige dela a figura de mãe exemplar, forçada a exercer um papel que a sobrecarrega a ponto de viver apenas para a criança (o trabalho da atriz finlandesa Seidi Haarla, de “Compartimento número 6”, é afiadíssimo, com momentos de tensão, humor e dor). O terror corporal na figura da criança com traços animalescos (em determinado momento o nenezinho só se alimenta de carne crua desenvolvendo um instinto primitivo que o faz se comunicar com a natureza) dá ao filme a dimensão de fantasia e horror como uma fábula. A criança nunca aparece, só a vemos de lado e de costas no colo da mãe, instigando a curiosidade de quem assiste. No passado, filmes com recém-nascidos malditos já levantava questões sobre o desalento da maternidade, como “O bebê de Rosemary”, sendo este “Nightborn” um esperto derivado que serve para uma reflexão sobre o tema. O filme está na competição da Berlinale concorrendo ao Urso de Ouro.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
76º Festival de Berlim se destaca por filmes com protagonismo feminino
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) segue até o dia 22 de fevereiro na capital alemã e apresenta ao público uma programação repleta de filmes históricos e sociais, muitos deles com forte protagonismo feminino. Histórias de mulheres em busca de liberdade, enfrentando o patriarcado e o preconceito e lutando para decidir sobre o próprio corpo. Atrizes premiadas como Sandra Hüller, Amy Adams e Juliette Binoche se destacam nas produções que estão em première mundial na Berlinale. Confira abaixo títulos que assisti:

 
Rose
(Áustria e Alemanha - 2026, 94 minutos, de Markus Schleinzer)
 
“Rose” integra a competição oficial da Berlinale 2026 e é forte candidata ao Urso de Ouro. A fita de arte de altíssimo impacto visual marca o retorno de Markus Schleinzer, diretor de “Angelo” (2018), num trabalho difícil de ser realizado e que tem tudo para render a Sandra Hüller o prêmio de melhor atriz no festival: ela está extraordinária, em uma performance de precisão emocional. A fotografia em preto-e-branco de Gerald Kerkletz é arrebatadora com seus contrastes duros e texturas quase táteis, que dá ao longa uma aura de fábula sombria. Trata-se de um folk tale inspirado em um provável caso real, de uma mulher do início do século XVII que utiliza a identidade de um homem morto para ser aceita em uma sociedade regida pela religião. A história se passa em algum lugar longínquo da Alemanha. Rose é uma desconhecida que chega a um vilarejo protestante e se identifica como um soldado recém-saído da guerra. Com uma queimadura no rosto e uma cicatriz profunda na bochecha (marcas daquela guerra), ela apresenta aos moradores de lá documentos que indicam a herança de um lote de terra abandonado. Rose se instala numa casa na floresta, e naquele pedaço de chão tido como seu, passa a plantar e colher, sendo aceita pelos aldeões. Até que é forçada a se casar; para tanto, apresentam para ela uma mulher vinda de uma cidade vizinha. Sandra Hüller tem uma força de expressão indescritível, traz carga dramática, sentimento no olhar e na delicadeza dos gestos para levar nas costas uma história sobre construção de identidade e combate à intolerância, de uma mulher solitária que tem de se esconder para ser aceita, desde mudar o nome até usar roupas apertadas para apagar os traços de mulher. Schleinzer transforma essa premissa histórica em um estudo sobre moralidade, patriarcado e violência estrutural, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa e de um olhar profundamente humano. Sublime na forma, a plasticidade da paisagem salta da tela, verdadeiros quadros fotogênicos. As locações são do Vale de Glasebach (Glasebachtal), localizado no estado alemão da Saxônia-Anhalt. Deve ser finalista do Oscar do próximo ano na categoria de filme estrangeiro, atriz e fotografia.
 
 
Un hijo própio
(México - 2026, 96 minutos, de Maite Alberdi)
 
Com apenas 42 anos de idade, a cineasta chilena Maite Alberdi já se destaca como um dos principais nomes do documentário contemporâneo. Reconhecida por transformar questões sociais e situações cotidianas em narrativas intimistas com linguagem que mistura documentário e ficção, tornou-se a primeira mulher chilena indicada ao Oscar – ela tem duas nomeações, de melhor documentário por “Agente duplo” (2020), uma criativa fusão entre o universo da espionagem e a rotina de um lar de idosos, e “A memória infinita” (2023), um delicado retrato de um casal de jornalistas diante do Alzheimer. Depois de arriscar uma fita ficcional para a Netflix em 2024, “No lugar da outra”, recorrendo a uma história verídica de assassinato e julgamento, retorna ao gênero que a consagrou, sua base de cinema, no documentário “Un hijo próprio”, que teve a première mundial no Festival de Berlim. Filmado no México, ela reconta com suas palavras a história verídica de Alejandra, uma mulher mexicana que simula uma gravidez, após pressão do marido e das expectativas sociais. Ela sofreu três abortos espontâneos, o que a fez desistir de ser mãe. Mas acaba por fingir a espera de um bebê por nove meses, sustentando uma mentira que a lançará em uma armadilha. Família e amigos se afastam, e a mídia transforma o caso num escândalo sem precedentes. Alberdi insere humor agridoce numa trama que seria de muita angústia e adota uma abordagem de docuficção, com depoimentos reais combinados com encenações de atores, como Ana Celeste no papel de Alejandra. Esses elementos fazem seu cinema autoral acontecer, criando um filme de linguagem própria e que, como tema central, explora as imposições culturais relacionadas à maternidade. Produção original da Netflix, ele deve integrar o catálogo da plataforma após sua circulação em festivais.
 
 
Fiz um foguete imaginando que você vinha
(Brasil - 2026, 92 minutos, de Janaina Marques)
 
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
Berlinale 2026 entra na primeira semana de exibição reunindo filmes autorais de mais de 70 países
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, chega à edição de 2026 com uma programação marcada por obras de forte caráter histórico e social. Um dos eventos de cinema mais importantes da Europa, o festival, que começou no último dia 12, segue até 22 de fevereiro com mais de 400 filmes na programação, distribuídas em diversas seções e mostras especiais. Neste ano, o júri internacional é presidido pelo cineasta alemão Wim Wenders.
O cinema brasileiro marca presença com oito produções distribuídas por diferentes seções do festival. Entre elas estão: “Se eu fosse vivo... vivia”, de André Novais Oliveira (Panorama), “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai (Generation Kplus), “Papaya”, animação de Priscilla Kellen (Generation Kplus), “Feito pipa”, de Alan Deberton (Generation Kplus), “Quatro meninas”, de Karen Suzane (Generation 14plus), “Fiz um foguete imaginando que você vinha”, de Janaina Marques (Forum) e “Nosso segredo”, dirigido por Grace Passô (Perspectives, nova seção competitiva).



Na competição principal, 22 filmes disputam o Urso de Ouro e o Urso de Prata, muitos deles abordando temas contemporâneos. Entre os destaques estão: “Rosebush pruning”, novo trabalho de Karim Aïnouz, coprodução entre Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha, com elenco estrelado por Callum Turner, Tracy Letts,Riley Keough, Jamie Bell, Elle Fanning e Pamela Anderson; “At the sea”, do húngaro Kornél Mundruczó, com Amy Adams; “A new Dawn”, animação japonesa de Yoshitoshi Shinomiya; “Yellow letters”, do premiado diretor turco İlker Çatak; “Josephine”, da cineasta Beth de Araújo, com Channing Tatum; “Queen at sea”, produção britânica com Juliette Binoche e Tom Courtenay; “Rose”, drama de época austríaco estrelado por Sandra Hüller; e “Nightborn”, drama com elementos de terror corporal protagonizado por Rupert Grint.
Fundada em 1951, a Berlinale consolidou-se como um dos três grandes festivais europeus, ao lado de Cannes e Veneza. Desde 2000, seu principal palco de exibições e recepções é o Theatre am Potsdamer Platz, conhecido como Berlinale Palast. As exibições ocorrem em diversos cinemas da capital alemã, como o Cubix Cine Star, na praça Alexanderplatz, Cinemaxx e Bluemax Theater, ambos na Potsdamer Platz, Uber Eats Music Hall, Urania e Zoo Palast. Ingressos e informações pelo site oficial do festival, em https://www.berlinale.de/en/home.html
Confira abaixo comentários de filmes que conferi na Berlinale 2026:
 
A prayer for the dying
(Suécia, Reino Unido, Grécia e Noruega - 2026, 95 minutos, de Dara Van Dusen)
 
Produção independente falada em inglês e sueco, é a estreia na direção da curtametragista norte-americana Dara Van Dusen, que entrega uma fita autoral de drama com elementos do western e uma história peculiar sobre honra em um cenário desafiador. Também escrito por ela, o filme tem como pano de fundo os primeiros anos após o fim da Guerra Civil Americana. Em 1870, em uma Wisconsin em reconstrução, a pequena cidade de Friendship é de terra arrasada. Os moradores trabalham arduamente em comunidade para reerguer o local. O sol escaldante aliado ao clima seco atormenta o ânimo da população. Um ex-combatente da Guerra de Secessão, que virou herói do povoado, Jacob Hansen (Johnny Flynn, de “Emma.” e “O alfaiate”), é nomeado xerife de Friendship devido à experiência em combates armados. Ele administra a segurança com vigor, espantando bandidos e ajudando os moradores. Casa-se com a jovem esposa e tem um bebê. Hansen também é pastor e levanta uma igreja no centro da cidade. Tudo parece sob controle, até que uma estranha epidemia se alastra pela região. Vários morrem da doença, então ele decide fechar a cidade com o aval de um médico sanitarista (John C. Reilly, de “Chicago”). Impotente e receoso com o futuro, Hansen é atormentado por imagens do passado, de quando há poucos anos viu os horrores da guerra. O filme traz um bom trabalho dos atores centrais em uma trama de ritmo crescente, narrado como um poema trágico, de morte anunciada. A ambientação em uma região árida, com forte presença do sol, aprisiona os personagens, cercados por uma epidemia mortal não identificada (um diálogo com a pandemia que enfrentamos recentemente), e aos poucos as incertezas do futuro emparedam aquele longínquo povoado. O protagonista é um bravo soldado dividido entre a nova família que construiu e os desgastantes ossos do ofício (Johnny Flynn atua de forma certeira, compondo uma figura que anda por uma linha tênue, equilibrando-se para não explodir, um papel maduro e sólido, auxiliado por John C. Reilly, em mais uma interpretação de destaque em sua vasta carreira). Da metade para o final o longa assume um tom catastrofista, em que os personagens sobreviventes são forçados ao vale tudo, com consequências brutais. No elenco, participações de Kristine Kujath Thorp (de “Doente de mim mesma”) e Gustav Lindh (de “O homem do norte”). Première mundial na nova seção da Berlinale, chamada “Perspectives” – o assisti em uma sessão lotada no Cubix, ontem.




Everybody digs Bill Evans
(EUA, Irlanda e Reino Unido - 2026, 102 minutos, de Grant Gee)
 
Em première mundial na Berlinale, concorre ao Urso de Ouro este drama rodado em preto-e-branco que biografa uma pequena parte da vida do pianista norte-americano Bill Evans (1929-1980), focando em quatro pontos entre 1961 e 1973: o relacionamento amoroso conflitante com a primeira esposa, Ellaine Schultz, que cometeu suicídio, a produção de seu disco mais famoso (que dá título ao filme), o retorno para a casa dos pais, na Flórida, e o vício em heroína. O ator norueguês Anders Danielsen Lie (de “Oslo, 31 de agosto”) performa bem como o melancólico pianista, que era referência no jazz, mas que vivia sob efeitos de sedativos e drogas, chegando a dormir na mesa durante as refeições. Lie tem em uma interpretação tácita, de poucas palavras, um cara introspectivo, inseguro e limitado no amor – o filme se concentra nos momentos de silêncio do personagem, quando não está tocando ou gravando, ou seja, em seu momento íntimo. Solitário, ele aguarda a entrega do seu segundo álbum, cujo atraso da gravadora o perturba; ele tem um romance de altos e baixos com Ellaine Schultz, uma namorada quase noiva, que logo comete suicídio, o que o abalará profundamente. Recorre à heroína injetável para suportar o luto e as decepções. Um tanto quanto pessimista, o filme evita sublimar o personagem, buscando exibir seu lado frágil, às vezes decadente. A fotografia em penumbras, com sombras fortes projetando a silhueta de Evans nas paredes, é uma opção forte de estética, que foge da convencionalidade. O único momento de descontração, que torna momentos do filme mais leve, está na aparição dos pais de Evans, interpretados brilhantemente por Bill Pullman e Laurie Metcalf – o casal está formidável, Pullman como um idoso reclamão, e Laurie como a mãe de origem russa, engraçada e ao mesmo tempo atenta aos vícios do filho. Destaque para Bill Pullman, num de seus trabalhos mais humanos, que raramente o vemos desempenhar com tamanha dignidade no cinema. Há escolhas interessantes de montagem: o filme se passa essencialmente em 1961, num PB sagaz, mas há flashforwards (passagens para o tempo futuro) coloridos com tons estourados, de 1973 e 1980 (este sobre a morte prematura do pianista), provocando uma dinâmica especial para a composição das imagens. Quem assina o filme é o diretor inglês Grant Gee, um conhecedor do mundo da música, já indicado ao Grammy e que fez clipes nos anos 90 de Radiohead.
 

Especial de cinema

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