terça-feira, 15 de setembro de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 1

 
A quinta portuguesa
 
Coprodução Portugal e Espanha, o drama protagonizado pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (de “Pulp fiction”) foi rodado inteiramente em Madri, no ambiente metropolitano, e também em uma verdadeira quinta portuguesa (antiga propriedade rural que possui casa de habitação cercada por terras para a agricultura, jardins ou vinhedos). O filme de arte foi um dos últimos trabalhos do ator espanhol Manolo Solo, protagonista da trama ao lado de Maria (ele começou a carreira como músico no rock sevilhano, atuou em longas como “O labirinto do fauno” e faleceu há pouco mais de um mês, após longa batalha contra o câncer). Solo interpreta Fernando, um professor de Geografia em busca da esposa, que desapareceu. Ele não encontra mais forças na procura, está sem rumo, até que assume outra identidade: ele se muda de Madri para o interior de Portugal, para trabalhar como jardineiro em uma quinta. Lá conhece Amalia (Maria de Medeiros), uma dona de casa, e inicia com ela forte amizade, marcada por situações dramáticas e por um desafio, que é o de manter em sigilo a verdadeira identidade. Um filme de drama com romance sobre escolhas e identidade, que gira em torno de um personagem pacato que, após um baque, muda de vida radicalmente, a ponto de se transformar em outro cidadão. Paira no ar uma sensação de estranhamento a todo instante (já que Fernando “vira” uma nova pessoa), e a alteração de ambientes (a mudança dele da Madri atual para uma fazenda portuguesa arcaica, no interior do país) serve como metáfora dessa transformação. Os atores estão muito bem, e o filme tem fotografia bonita e adequada dos lugares. O longa passou em festivais internacionais como Festival de Málaga e Bafici, exibido no Festival do Rio e agora está nos cinemas, distribuído pela Kajá Filmes. Quem dirige é a cineasta Avelina Prat, também roteirista, que fez anteriormente “Vasil” (2022).
 

 
Não existe almoço grátis
 
Chega aos cinemas brasileiros, distribuído pela Descoloniza Filmes, o bom documentário independente que trata do trabalho de mulheres à frente do projeto “Cozinha Solidária”, criado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e instituído por lei em 2023 no Brasil. Ele surgiu na pandemia da Covid-19 como uma resposta direta à fome que atingiu milhões de brasileiros, fornecendo alimentação gratuita e de qualidade a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social. A iniciativa consistiu em montar cozinhas comunitárias em diferentes regiões do país, oferecendo refeições gratuitas e de qualidade para esse grupo de pessoas. Além das refeições, o projeto, que ainda existe e virou símbolo da solidariedade em tempos de crise, busca fortalecer laços comunitários para garantir dignidade, funcionando com voluntários e doações. Um dos lugares de atuação foi a favela Sol Nascente, em Ceilândia, no Distrito Federal – e é nesse espaço que o filme busca a composição das imagens. Os cinegrafistas acompanharam a rotina de três mulheres negras, voluntárias e organizadoras da Cozinha Solidária, Bizza, Jurailde e Socorro, durante semanas, para mostrar os bastidores e o trabalho delas. O recorte da história é a posse do presidente Lula, e elas estão encarregadas de cozinhar para centenas de militantes do movimento que chegarão a Brasília para assistir à cerimônia de posse do presidente, no dia 1º de janeiro de 2023. Conhecemos a trajetória e os sonhos dessas três lideranças, além de questões essenciais para elas, como a luta política, o trabalho voluntário de igual para igual, a religião, a ancestralidade e a família. Sol Nascente é considerada a maior favela do Brasil em número de habitantes (70 mil ao todo), localizada a menos de 30 quilômetros da capital; durante a pandemia, verificou-se ali graves condições de saúde, fome, desemprego e falta de acesso a serviços básicos. Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o filme esteve na programação de festivais como ForumdocBH, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (onde foi consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e recebeu a Menção Honrosa do Júri Oficial), a Mostra Ecofalante (onde venceu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular), o Olhar de Cinema e o Festival de Cinema de Vitória.



Viva Marília
 
Fantástico documentário e uma das melhores estreias do cinema independente brasileiro desse ano, o filme é um merecido e honroso tributo à memória da atriz que foi a cara de uma geração e até hoje inspiradora para a classe artística, Marília Pêra (1943-2015). Atriz versátil (para o humor e o drama, seja nos palcos ou na TV), também diretora de peças teatrais e admirada pelos fãs, Marília teve uma trajetória que atravessou cinco décadas. Carioca, filha de atores (Manuel Pêra e Dinorah Marzullo), esteve ligada ao palco desde a infância, estreando aos quatro anos em uma companhia teatral. Nos anos 1960 e 1970, consolidou-se como uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, destacando-se em peças como “O teu cabelo não nega” em que interpretou Carmen Miranda, e que ao longo da carreira voltaria a interpretar Carmen em teatro, TV e filmes. Além de atuar, dedicou-se à direção de espetáculos, especialmente musicais, como “Irma Vap” fazendo dessa peça um estrondo de bilheteria. Na TV, estreou em 1965 na novela “Rosinha do Sobrado” e logo se tornou presença marcante em produções da Rede Globo. Atuou em novelas como “O cafona”, “Brega & chique” e “Top model”, brilhou em minisséries como “O Primo Basílio”, onde deu vida à vilã Juliana, e no cinema participou de mais de 20 filmes, entre eles o impactante “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco, que lhe trouxe reconhecimento internacional e reafirmou sua força dramática. A vida pessoal de Marília foi marcada por vários casamentos, entre eles com Nelson Motta e, mais tarde, com Bruno Faria, com quem permaneceu até o fim da vida. Teve três filhos, conciliando maternidade com uma carreira intensa e premiada – e o doc explora essa sua condição, de atrelar a dura vida de mãe à ebulição de ensaios e gravações. O doc mostra a partir de gravações de peças, entrevistas e cenas de filmes e novelas a formação dessa atriz ímpar, que virou ícone da cultura brasileira, abriu caminhos para as atrizes no mundo das artes cênicas e deixou um legado de amor ao palco. O veterano diretor Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), de “Avaeté – Semente da vingança”, dirige a obra, que tem codireção de Esperança Motta, filha de Marilia com Nelson Motta – ela é a narradora também, e o roteiro é assinado pelo próprio Nelson. Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Resenhas especiais



Heróis de barro
 
Durante uma expedição ao México para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, em 1916, o major do Exército Thomas Thorn (Gary Cooper) é incumbido de resgatar cinco soldados para serem condecorados com a maior honraria do Congresso americano. Ele terá de trazer o grupo a salvo até a base militar de Cordura. No caminho haverá conflitos e ataques na divisa dos dois países.
 
“Heróis de barro” é um dos tantos filmes adaptados da literatura do romancista Glendon Swarthout (que dedicou a carreira a livros de faroeste). Insere-se na linha do “western psicológico”, que foca na mente dos personagens deixando os tradicionais tiroteios em segundo plano - essas obras exploram a solidão e os medos dos pistoleiros e soldados em cenários áridos e arriscados. O pano de fundo do longa é a Expedição Punitiva (ou “Expedição Pancho Villa”), operação militar do Exército dos Estados Unidos no México entre 1916 e 1917 que levou para lá 10 mil soldados para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, que tinha iniciado ao lado de Emiliano Zapata a Revolução Mexicana. O major vai com um pequeno grupo de pessoas a um lugar desconhecido, de terreno irregular, sob o sol escaldante. Entra em crise ao se ver cercado num ambiente hostil, e a missão começa a desmoronar. O filme prioriza o lado psicológico, mas tem cenas de bangue-bangue, duelos e pitadas de romance (a figura feminina é de Rita Hayworth, femme fatale do cinema, de filmes noir como “Gilda”). Gary Cooper, lenda do gênero western (de “Matar ou morrer”), entrega uma atuação madura, marcada pela introspecção, num de seus últimos trabalhos (seria seu penúltimo filme, já que morreria dois anos depois, em 1961). O filme questiona mitos do Oeste americano, mostrando que a glória militar pode ser tão frágil quanto a areia que cobre o deserto (por isso os heróis de barro). Quem dirige é Robert Rossen, cineasta e roteirista que durante o Macarthismo (o "caça às bruxas" anticomunista nos EUA) foi incluído na lista negra, impedido de trabalhar e convocado a depor no comitê do Congresso – depois de recusar a devassa contra colegas, cedeu à pressão em 1953 e entregou o nome de 57 pessoas. Acabou tendo dificuldades de voltar ao cinema, sendo “Heróis de barro” um dos poucos que ele fez depois do interrogatório – um de seus últimos trabalhos seria o mais famoso e simbólico a tudo o que enfrentou no “caça às bruxas”, “Desafio à corrupção” (1961), indicado a nove Oscars (incluindo ator para Paul Newman) e ganhador de dois. Em DVD pela Classicline.
 
Heróis de barro (They came to Cordura). EUA, 1959, 123 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Robert Rossen. Distribuição: Classicline
 
 
Sangue por sangue
 
Entre 1835 e 1836, na Guerra pela independência do Texas, um homem deixa o Forte Álamo para ajudar outras pessoas no conflito separatista entre EUA e México.
 
Diretor de 12 filmes faroeste, sendo sete com Randolph Scott, Budd Boetticher realizou aqui um de seus notórios trabalhos. Glenn Ford, lenda do cinema western, protagoniza, travando uma luta cruel no Texas, como um homem em uma missão quase impossível. Ação, honra e vingança envolvem o filme em torno da lenda do Álamo, antiga missão espanhola transformada em forte militar, situada na cidade de San Antonio, no estado do Texas (o local ficou famoso por causa da Batalha do Álamo, ocorrida em 1836, que se tornou um símbolo de resistência e sacrifício na luta pela independência do Texas em relação ao México). Ford interpreta John Stroud, um homem que abandona o famoso cerco para proteger sua família, e por isso acaba marcado como traidor. Ao retornar para as terras, descobre que seus entes foram mortos, e sua jornada passa a ser de busca por justiça. O filme traz todos os elementos típicos do faroeste: vastas paisagens texanas, emboscadas, cavalgadas e o embate entre colonos e forças mexicanas. E ainda trata de um fato real: na Revolução do Texas, os colonos americanos e tejanos (mexicanos que apoiavam o Texas) se rebelaram contra o governo centralizador de Santa Anna, pois queriam formar um governo próprio, sendo duramente reprimidos pelo general mexicano Antonio López de Santa Anna. “Sangue por sangue” é um faroeste de excelência, cheio de vigor e com personagens cercados por dilemas morais (que marcariam os filmes do diretor Budd Boetticher). Em DVD pela Classicline.
 
Sangue por sangue (The man from the Alamo). EUA, 1953, 79 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Budd Boetticher. Distribuição: Classicline

* Textos publicados na coluna Middia Cinema, na revista Middia (de Catanduva-SP), edição de Agosto/Setembro de 2026

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Especial de Cinema


Festival ‘In-Edit Brasil’ retorna em duas edições itinerantes
 
O 18º “In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical”, realizado este ano de 17 a 28/06 na cidade de São Paulo e com programação online, retorna agora em duas edições itinerantes: na cidade de São Luiz do Paraitinga (localizado na região de Taubaté), entre os dias 04 e 07/09, e na Mostra “Música para os olhos”, em Salvador, entre os dias 01/09 e 08/10. As sessões são gratuitas.
Na edição de 2026 estiveram na programação 64 filmes nacionais e internacionais, como longas e curtas-metragens, além de shows, exposições, feira de vinil e livros, encontros e bate-papos com convidados especiais. E uma parte desses filmes voltarão agora nos eventos acima mencionados.


O In-Edit Brasil é uma realização da In Brasil Cultural, do Ministério da Cultura (via Lei Rouanet), do Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Sesc São Paulo, e conta com patrocínio do Itaú Unibanco e da Spcine, além da parceria com a Cinemateca Brasileira. O festival foi criado em Barcelona, na Espanha, em 2003, e é realizado no Brasil desde 2009. Paralelamente ocorrem edições do In-Edit em cinco países: Espanha, Chile, Países Baixos, Grécia e México, além de, no Brasil, contar com mostras itinerantes em cidades do interior de São Paulo, como Piracicaba e São Luiz do Paraitinga. Conheça mais sobre o Festival In-Edit Brasil no instagram https://www.instagram.com/ineditbrasil/ e no site oficial https://br.in-edit.org
Confira três documentários brasileiros que retornam para a itinerância, que assisti na edição de 2026 do festival e indico:
 
Nem tudo é paz e amor
 
Documentário brasileiro que retorna para a itinerância do festival ao mesmo tempo em que estreia nos principais cinemas pela Pandora Filmes. O filme é uma conversa com os filhos dos músicos da Contracultura no Brasil, reunindo entrevistas inéditas com os primogênitos de oito deles: Caetano Veloso (Moreno Veloso), Rita Lee (Beto Lee), Baby Consuelo (Sarah Sheeva), Paulinho Boca de Cantor (Maria "Buchinha"), Itamar Assumpção (Anelis), Moraes Moreira (Cecília), Gilberto Gil (Nara Gil) e Rogério Duarte (Areia Duarte). Com momentos de descontração, mas também de lembranças pesadas e de sofrimento, o doc é um recorte da contracultura na música e no cinema no Brasil, em que os entrevistados recordam dos traumas e das delícias de viverem aquele tumultuado período. Ainda crianças na virada dos anos 60 para 70, os entrevistados cresceram e se formaram sob a influência direta dos movimentos de contestação comportamental, artística e política do período, uma geração de homens e mulheres criados em comunas, acampamentos e núcleos alternativos e hippies que questionavam as estruturas tradicionais da família e o autoritarismo da época (o Brasil viva sob os desmandos da Ditadura Militar). Há cenas antigas de filmes caseiros em super-8, cenas de shows e bastidores, trechos de filmes que marcaram aqueles anos, como “A mulher de todos”, “Deus e o diabo na Terra do Sol” e “A idade da Terra”, e muitas fotos pessoais dos acervos dos referidos cantores, cantoras e compositores, reunindo ainda depoimentos de Helena Ignez, Baby do Brasil, Marilia de Aguiar e Paulinho Boca de Cantor (estes dois pais do diretor do filme, Betão Aguiar). O filme foi dedicado à memória da produtora Jasmin Pinho, também filha da contracultura, que iniciou o projeto do documentário, mas faleceu em 2020 - ela era amiga pessoal de Betão, o diretor, então o filme ficou para ele dar continuidade. Um grande documentário em exibição no In-edit e nas salas de cinema.

 
 
Universo circular – Jocy de Oliveira
 
Coprodução Brasil e Alemanha, o documentário de 2026 se concentra nos trabalhos de vanguarda da musicista Jocy de Oliveira, uma compositora e pianista paranaense de primeira qualidade - e, mesmo com bastante idade, permanece na ativa, aos 90 anos. Em sua casa, Jocy revisita sua história lembrando a carreira, da introdução da música eletrônica no país nos anos 60, aos estudos de piano com mestres mundiais, como José Kliass e Marguerite Long, além do trabalho e amizade com Igor Stravinsky e John Cage (com ele desenvolveu performances misturando corpo, música e piano). Artista inquieta e revolucionária, ela rompeu padrões abrindo caminhos para estéticas ousadas na música brasileira, em um período em que o Brasil era atravessado por diversas transformações no campo da política, do social e da cultura. Escrito e dirigido por Dácio Pinheiro, de “Lenita” (2023), o documentário foi exibido no IndieLisboa e depois entrou na programação do In-edit 2026.


 
Entre o sucesso e a lama
 
Documentário brasileiro de 2026 dirigido pelo premiado cineasta Cristiano Burlan, que acompanha 16 artistas reunidos para criar um álbum de rap inédito com a mentoria de nomes consagrados como Edi Rock (dos Racionais MC's) e Gaspar Z'África. O filme fica entre as gravações no estúdio e a realidade dos artistas na periferia onde moram (o diretor Cristiano Burlan,a pesar de gaúcho, cresceu na periferia da zona sul de SP, em Capão Redondo, e seus filmes retratam a violência policial e as memórias dolorosas da família naquele bairro). A concepção visual do filme (incluindo os ensaios dos rappers) aconteceram no Teatro do Contêiner Mungunzá, localizado em uma região central sensível de São Paulo próxima à Cracolândia e à Favela do Moinho, que traz à tona os sentimentos de marginalização daqueles grupos, que o longa busca discutir. Foram seis meses de filmagem, e o título é alusivo ao verso da música dos Racionais “Negro drama”. Um bom documentário musical, que nos faz refletir e repensar as formas de ver a periferia e os indivíduos que lá produzem arte.

sábado, 5 de setembro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2


O delator
 
Fita porrada de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um lançamento exclusivo nos principais streamings brasileiros com distribuição da A2 Filmes. Como todo bom entretenimento policial feito na Coreia do Sul, carrega uma trama ágil, cheia de peripécias e reviravoltas, envolvendo aqui o submundo do crime, com corrupção policial e delações usadas por bandidos para a redução da pena na cadeia. Em um bairro tomado pelo tráfico de drogas, dois “yadang” (informantes) atuam como intermediários entre criminosos e autoridades, manipulando provas e dados para benefício próprio. A dupla se infiltra em um grupo de bandidos perigosos, e a cada passo dado são encurralados por policiais corrompidos e organizações escusas. O filme, original e com críticas sociais, trabalha bem o tema das questões legais em torno do tráfico de drogas na Coreia do Sul, lá considerado um crime gravíssimo - o país possui uma das legislações antidrogas mais rígidas do mundo, e o governo adota há muito tempo uma política de "tolerância zero" tanto para o comércio quanto para o consumo de substâncias ilícitas. Nesse ambiente, surgem personagens que se desviam, corrompem corporações e tentam se proteger nas delações premiadas (algo agora em vigor no país). Preste atenção já que há muitos detalhes nas subtramas das figuras centrais do longa – ao todo há pelo menos três histórias que correm paralelas, aos poucos se afunilando até o movimentado desfecho (com lutas marciais, tiros e mortes violentas). No elenco, destacam-se os atores Yoo Hai Jin, de “O motorista de taxi” (2017), e Park Hae-joon, de “12.12: O dia” (2023). Engatei no filme, é uma boa pedida e poderá agradar fãs do cinema policial oriental. Pode ser encontrado para aluguel em plataformas digitais de streaming e VOD, como Claro TV+, Vivo Play, Apple TV, Prime Video e Google Play.




Gonzaguinha – Da maior liberdade

Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação, cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas, trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica, outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa, Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições). Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social. Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB (como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela” (2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais cinema com distribuição da Synapse Distribution.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

 
Queda livre: As consequências do Caso Boeing
 
Novo documentário investigativo da Netflix, que dá continuidade ao doc “Queda livre: A tragédia do Caso Boeing” (2022), um estarrecedor caso de negligência e ganância que abalou os setores da aviação mundial. O filme parte de uma série de denúncias de um chefe de operações da empresa de aviação sobre falhas técnicas de aviões que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Ele era John Barnett, engenheiro de qualidade que atuou na referida empresa de aviação por mais de 30 anos. A crise corporativa devido às falhas sistêmicas de segurança na Boeing veio à tona quando Barnett levou o caso para autoridades superiores e se tornou peça-chave para desvendar os obscuros segredos da empresa. Ele virou um denunciante (whistleblower), fazendo alertas públicos sobre os riscos dos aviões da Boeing. Barnett expôs documentos sobre situações críticas de aeronaves: portas se romperam nas alturas, tetos se abriram, fuselagem com problemas e até desastres aéreos (como os dois acidentes do modelo 737 MAX, que resultaram na morte de 346 pessoas e na suspensão mundial dos voos da frota entre 2018 e 2019 - o primeiro ocorrido na Indonésia e o segundo, na Etiópia). Na investigação que o filme faz, descobre-se que a empresa reutilizava peças de outros aviões e não promovia vistorias regulares neles. Barnett foi ameaçado de morte, até que morreu em 2024, um dia depois de depor no tribunal – ele foi encontrado morto com um tiro na cabeça na camionete onde estava, o que levantou suspeitas sobre a causa mortis (e o filme também explora isso, na parte final). Com a morte do engenheiro, outros funcionários resolveram denunciar a Boeing – abrindo espaço para denúncias contra outras empresas de aviação. O documentário é um estudo de caso sobre desmandos e negligência de uma multinacional importante do mercado, cuja trama nos prende, reunindo reportagens antigas contundentes e depoimentos novos, muitos de autoridades, juízes, investigadores e engenheiros. É dirigido pela cineasta Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014) e que havia realizado o filme anterior.


Song Sung Blue – Um sonho a dois
 
Drama musical que mistura realidade e ficção para retratar a vida do casal de músicos de Milwaukee, Wisconsin (EUA), Mike Sardina (1951-2006) e Claire Sardina (1961-), que percorreram os Estados Unidos com turnês de tributo a Neil Diamond e utilizavam o nome artístico de “Lightning & Thunder”. A dupla começou no fim dos anos 80, em palcos pequenos da região de Milwaukee, e com o passar do tempo gravaram música em estúdio, participaram de festivais grandes e até abriram um show de Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder – tudo isso retratado nessa formidável cinebiografia. O longa é baseado no documentário homônimo de Greg Kohs, “Song Sung Blue” (2008), e traz como destaque o bom trabalho dos atores centrais, Hugh Jackman e Kate Hudson (indicada, pelo papel, aos principais prêmios da temporada, como Bafta, Oscar e Globo de Ouro). A história segue os altos e baixos da formação musical desses dois artistas, mostrando a dificuldade em trilhar o caminho na carreira independente, além de trazer os dramas pessoais do casal (ele dependente do álcool e atormentado pela Guerra do Vietnã, onde lutou, e ela o apoiando como esposa, companheira e artista). Enquanto Lightning tinha a voz potente interpretando canções de Diamond, Thunder fazia back vocal dele e também alternava os shows com música country de Patsy Cline. O diretor Craig Brewer, de “Ritmo de um sonho” (2005), condensa anos de acontecimentos da carreira da dupla em uma linha temporal curta, mas precisa, intensificando os conflitos e emoções. Com uma fotografia de cores vivas e vibrantes, "Song Sung Blue" é uma celebração à música de Neil Diamond, tratando de superação, resistência e desprendimento, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade humana diante das adversidades. Na trilha sonora, um passeio musical em obras máximas de Diamond, como “Sweet Caroline”, “I am... I said” e “Holly Holy”. Estreou recentemente no Prime Video (com distribuição no Brasil pela Universal Pictures).



Anistia 79
 
Alusivo documentário brasileiro aos 47 anos da Lei da Anistia, decretado em 1979, em um período crítico da Ditadura Militar no Brasil. O longa traz os primeiros movimentos no exterior para a anistia (que ficou ampla, geral e irrestrita), quando no Parlamento Italiano, em Roma, entre junho e julho de 1979, foi realizada a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. O encontro, de três dias, juntou cerca de 500 pessoas, incluindo exilados políticos, intelectuais, ativistas de direitos humanos e figuras da resistência à ditadura militar (como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Francisco Julião). A Conferência foi a maior reunião da diáspora brasileira fora do país durante a Ditadura (que continuava aqui exilando, perseguindo e matando). O trunfo ideativo do filme é reunir gravações inéditas, todas com imagem restaurada, que foram feitas no Congresso por um militante de esquerda exilado na França, Hamilton Lopes dos Santos. Praticamente o filme todo é um compilado dessas imagens poderosas, em preto-e-branco, encontradas pela diretora do filme, Anita Leandro, no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, e analisadas por pessoas que sentiram na pele a Ditadura, como familiares, e amigos íntimos dos retratados naquela reunião. Aparecem nas gravações Francisco Julião (das Ligas Camponesas), Apolonio de Carvalho, Carmela Pezzuti, Manuel da Conceição, Rolando Frati, Luís Travassos e Márcio Moreira Alves, parte desses exilados. Quase meio século depois, as gravações ressurgem para reacender o debate sobre as tristes páginas da História do país, do Estado repressivo da ditadura e da impunidade dos torturadores, trazendo paralelos com o Brasil atual (já que o golpismo e os afãs ditatoriais ainda rondam por aqui). No filme, 11 pessoas assistem pela primeira vez, depois de tanto tempo, àquelas imagens, e emocionadas relembram a História e seus personagens. A Conferência ocorreu às vésperas da sanção da Lei da Anistia no Brasil (Lei nº 6.683, de agosto de 1979), planejada para debater pontos limitantes dela – e serviu para denunciar os crimes e as torturas da ditadura militar brasileira perante a opinião pública mundial e o parlamento europeu. Acabou sancionada pelo presidente João Figueiredo em 28 de agosto daquele ano, sendo um marco no processo de redemocratização do Brasil. Deu perdão tanto aos opositores do regime quanto aos agentes do Estado (torturadores e militares) - por isso ampla, geral e irrestrita. As consequências diretas da Lei foram o retorno dos exilados (como líderes políticos, intelectuais e artistas), a libertação de presos políticos detidos nos presídios brasileiros e a reorganização política, permitindo a partir de 1980 a volta do pluripartidarismo, a restituição dos direitos políticos a cidadãos que haviam sido cassados pelo regime e as eleições diretas. É um filme-estudo de História, didático, importante para os dias de hoje. Foi premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Nos cinemas pela Embaúba Filmes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Nota de cinema


Saiu hoje entrevista que concedi essa semana na TV Câmara (da Câmara Municipal de Catanduva) no quadro "Aqui nasci, aqui cheguei", onde falo sobre minha carreira no jornalismo e na crítica de cinema. São 30 minutos de conversa com a querida amiga Bida Paulatti.
Link para quem quiser assistir:
https://youtu.be/GtYr1PD2nuM?is=Qz1UaEdq9RfnI7O_

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Especial de cinema

 
37º Kinoforum continua até o dia 06 em formato online
 
A edição presencial do 37º Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo terminou, mas parte da programação segue online e gratuita ao público até o dia 06 de setembro. Um dos festivais de curtas mais antigos e importantes do Brasil, ele foi realizado em 2026 entre os dias 20 e 30 de agosto, ocupando diversos espaços culturais da capital paulista, como Cinesesc, Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São Paulo (CCSP), Museu da Imagem e do Som (MIS) e Espaço Petrobras de Cinema. Com seleção ampla e diversa, o Kinoforum exibiu 260 curtas-metragens, sendo 127 produções brasileiras e 133 internacionais (de 58 países). A programação, totalmente gratuita, trouxe filmes exibidos em festivais como Cannes, Locarno e Sundance. Quem perdeu as sessões presenciais pode agora conferir no digital, nos streamings Itaú Cultural, Sesc Digital e Spcine Play.



Os vencedores da premiação oficial foram anunciados na última semana na Cinemateca Brasileira, consagrando produções como o curta paraibano “Imagem imaginada” (vencedor do inédito Prêmio Zita Carvalhosa) e o drama “Theo” (adquirido pela TV Cultura).
Alguns destaques internacionais votados pelo público como melhores filmes da edição desse ano: “Para os Oponentes” (México, Chile, França e Reino Unido, premiado em Cannes), de Federico Luis; “Meu Irmão Lyosha e Eu” (Cazaquistão), de Lena Tronina; “Nascida Soldado” (França), de Sahara Moeini”;  “O Último Jogo” (Cuba), de Daniel Chile; “Por Favor” (Suécia), de Anna Mantzaris; “Ruído das Ondas” (Polônia), de Tomasz Wrobel”; e “Vida que Segue” (Reino Unido), de Daniel Audritt e Kathryn Butterfield. Já os destaques brasileiros incluem “Adrenalina”, de Pedro Goifman; “Miguer”, Rodrigo Ribeiro; “A Ascensão da Cigarra”, de Ana Clara Ribeiro Lages; “A Cúpula dos Prazeres”, de Valter Pereira; e “A Menina que Queria Ser Pedra”, de Jackson Abacatu.
O Kinoforum é uma realização da Associação Cultural Kinoforum (entidade sem fins lucrativos responsável direta pela organização e produção geral do evento), liderado pela diretora executiva Vânia Silva e pelo diretor de programas Marcio Miranda Perez. Conta com as seguintes instituições parceiras: Cinemateca Brasileira, Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e Sesc São Paulo, e é viabilizado por meio de investimentos públicos e privados, destacando-se Itaú Unibanco, Spcine e Prefeitura de São Paulo, com apoio institucional e fomento do Governo do Estado de São Paulo, através do Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Governo Federal, através do Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Site oficial do evento: https://2026.kinoforum.org
 

Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 1

  A quinta portuguesa   Coprodução Portugal e Espanha, o drama protagonizado pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (de “Pulp fiction”) foi...