quinta-feira, 18 de junho de 2026

Especial de cinema

 
In-Edit Brasil 2026 começa com mais de 60 filmes na programação
 
O 18º “In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical” teve início ontem (dia 17) e segue até dia 28 de junho de forma gratuita em salas de cinema de São Paulo e em plataformas de streaming. Um dos festivais de documentário mais aguardados pelo público, a edição 2026 conta na programação com 64 filmes nacionais e internacionais. Longas e curtas do Panorama Brasileiro estão divididos em cinco mostras: Competição Nacional, Mostra Brasil, Brasil.doc, Curta Um Som e Especial, enquanto os do Panorama Mundial estão distribuídos nas mostras Panorama, Instituto Cervantes e Flashback, além de uma homenagem a Rob Reiner (cineasta falecido em dezembro do ano passado). As sessões ocorrem em seis salas da capital paulista: CineSesc, Cine Bijou, SPcine Olido (CCSP), Spcine Paulo Emílio (CCSP), Cine Matilha (Matilha Cultural, localizado no bairro República) e Cinemateca Brasileira; a programação incluiu ainda 18 filmes em três streamings nacionais, aberto ao público (Sesc Digital, Itaú Cultural Play e SPcine Play), além de shows, exposições, feira de vinil e livros, encontros e bate-papos com convidados especiais.
O In-Edit Brasil é uma realização da In Brasil Cultural, do Ministério da Cultura (via Lei Rouanet), do Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Sesc São Paulo, e conta com patrocínio do Itaú Unibanco e da Spcine, além da parceria com a Cinemateca Brasileira.


O festival foi criado em Barcelona, na Espanha, em 2003, e é realizado no Brasil desde 2009. Paralelamente ocorrem edições do In-Edit em cinco países: Espanha, Chile, Países Baixos, Grécia e México, além de, no Brasil, contar com mostras itinerantes em cidades do interior de São Paulo, como Piracicaba e São Luiz do Paraitinga. Conheça mais sobre o Festival In-Edit Brasil no instagram https://www.instagram.com/ineditbrasil/ e no site oficial https://br.in-edit.org
Confira filmes que assisti no festival e indico:
 
Massa funkeira
(Brasil, 2025, de Ana Rieper)
 
Documentário musical sobre o universo do funk, gênero musical popular que fala das ruas, com linguagem dinâmica, aborda sexo e modos de viver de maneira livre e, às vezes, arbitrária. O filme capta depoimentos de cantoras e cantores de funk (que ganha ouvintes e adeptos todos os dias) em que contam as inspirações diárias, de sua visão de mundo, e de como as letras e as danças expressam identidade, resistência e desejo. Produzido nas comunidades periféricas do Brasil, traz cenas de bailes e pancadão, com todo o linguajar pesado que sintetiza esse movimento da música que ganhou fama a partir dos anos 90, que celebra a diversidade cultural. Da diretora dos documentários musicais ‘Vou rifar meu coração’ (2012) e ‘Clementina’ (2018), Ana Rieper. Exibido na Mostra Internacional de SP, está na Competição Brasileira do festival In-edit, com sessões nos dias 20, 25 e 27/06.


 
Vivo 76
(Brasil, 2026, de Lírio Ferreira)
 
Novo trabalho do diretor pernambucano Lírio Ferreira, cuja carreira é alternada entre filmes de ficção, como “Baile perfumado” (1996) e “Árido movie” (2005), e documentário (ele já realizou docs sobre Cacá Diegues, Cartola e Cachorro Grande, por exemplo). Ferreira volta-se, novamente, ao universo da música, agora para trazer um pouco sobre Alceu Valença, focando no emblemático álbum “Vivo” (1976), primeiro disco ao vivo do cantor e segundo álbum solo dele, que entrou em listas do mundo todo como um dos discos mais influentes daquela década. O doc celebra tanto os 50 anos de “Vivo” quanto os 80 anos de Alceu (que comemora em julho próximo), reunindo entrevistas atuais dele e muito material de arquivo. “Vivo” trazia músicas importantes do repertório, como “Sol e chuva” e “Papagaio do futuro”, marcado por influências da psicodelia, misturando ritmos como rock, pop, forró e experimentações de vanguarda (algo típico nos processos criativos de Valença, a mistura efusiva de sons e ritmos). Nesse percurso audiovisual, o cantor e compositor surge como figura central do underground nordestino, articulando música, poesia e rebeldia estética em um momento de efervescência política – 1976 era Ditadura, e Alceu e amigos compositores, como Geraldo Azevedo, que aparece no doc, foram perseguidos e presos em tal período. Trata-se de um tributo à vitalidade de Alceu Valença e à potência transformadora da música nordestina. “Vivo” foi o filme de abertura do Festival “É Tudo Verdade” no Rio e agora está na Competição Nacional do festival In-edit, com sessões nos dias 23, 26 e27/06.


 
Apopcalipse segundo Baby
(Brasil, 2026, de Rafael Saar)
 
Novo trabalho autoral do cineasta carioca Rafael Saar, que já dirigiu documentários musicais, além de especiais para TV, de nomes cultuados da música brasileira, como Maria Alcina (no filme “Sem vergonha”) e a dupla Luli & Lucina (no maravilhoso “Yorimatã”). Agora ele faz uma viagem tresloucada ao mundo de Baby Consuelo, a Baby do Brasil, num doc inteiramente narrado por ela (em primeira pessoa). A obra se constrói a partir da pluralidade transgressora da artista, hoje com 73 anos; ela relembra quando fugiu de casa aos 17 para explorar o campo da música, onde conheceu no Rio Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira e com eles fundou o grupo “Os Novos Baianos”. Com muitas imagens de arquivo, de bastidores e dos shows, Baby também relembra o espírito hippie nos anos 70, período influenciado pela contracultura, e depois o pop multicolorido que marcou sua presença na década de 80. O filme reforça a liberdade criativa da cantora e compositora (cuja inspiração principal foi Janis Joplin), sua versatilidade, o estrondo de seus figurinos extravagantes e ousados e a vida compartilhada com o cantor e compositor Pepeu Gomes, com quem teve seis filhos. O terço final do doc foca no trabalho atual de Baby, como pregadora religiosa (e os motivos, como visões sagradas, que a levaram a incursionar ao campo religioso). “Apopcalipse segundo Baby” é um retrato da liberdade a partir da própria natureza multifacetada da cantora, mostrando como a artista atravessou décadas sem se enquadrar nos padrões. A première do doc se deu no festival ‘É Tudo Verdade’, e agora está na seção ‘Mostra Brasil’ do festival In-edit, com sessões nos dias 20 e 26/06.



Ary
(Brasil, 2025, de André Weller)
 
Achei um barato o documentário que retrata vida e obra do mestre da música brasileira Ary Barroso (1903-1964), compositor de sambas e de músicas carnavalescas de sucesso. Curtinho – tem apenas 71 minutos, é narrado em primeira pessoa por Lima Duarte – ele lê diários e escritos pessoais de Ary. O filme constrói o mosaico que foi a trajetória do artista mineiro – pianista desde os oito anos, compositor a partir dos 15, estudante de Direito, viveu entre o Rio e os Estados Unidos, onde trabalhou como arranjador de filmes em Hollywood. Foi descoberto por Walt Disney e compôs, na década de 40, músicas para antigas animações dos estúdios Disney, como ‘Alô, amigos’ e ‘Você já foi à Bahia?’. Poucos sabem, e no doc mostra, ele chegou a receber indicação ao Oscar de melhor canção original pelo filme ‘Brazil’ (1944). Alegre, descontraído, com um rico material de arquivo dos carnavais no Rio e de trechos musicais dos filmes da Disney com as composições de Ary, o filme mistura ficção, com atores encenando momentos de sua vida – com participação rápida, por exemplo, de Stepan Nercessian e Leo Jaime. Músicas conhecidas do compositor aparecem, como ‘No rancho fundo’, ‘No tabuleiro da baiana’, ‘Risque’, ‘Na baixa do sapateiro’, ‘Os quindins de Iaiá’ e, claro a famosíssima ‘Aquarela do Brasil’, que fez a cabeça dos norte-americanos, virando tema de vários filmes hollywoodianos. Direção do documentarista André Weller, de ‘Rubem Braga: Olho as nuvens vagabundas’ (2013). Exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP de 2025, está na seção ‘Mostra Brasil’ do festival In-edit, com sessões nos dias 21 e 27/06, e online, no Sesc Digital (até dia 01/07).

Estreias da semana - Nos cinemas e streamings - Parte 2


Labirinto dos garotos perdidos
 
Novo filme de terror B queer do jovem cineasta paulistano Matheus Marchetti, que parece encerrar uma trilogia com personagens saídos do universo da fantasia e do sobrenatural, formada anteriormente por “As núpcias de Drácula” (2018) e “Verão fantasma” (2022). Com uma estética que lembra teatro (poucos atores em cena num ambiente fechado), o filme acompanha Miguel, um rapaz do interior que chega à cidade grande e se envolve em encontros inesperados com homens que o desejam de forma voluptuosa. Um assassino de gays ronda a noite, colocando-o sob a mira do criminoso. Novamente Marchetti desconcerta o público em uma narrativa ousada, com cenas fortes de sexo, em uma trama de muitas camadas, que transita entre horror, fantasia e romance. A atuação do elenco se assemelha à performance artística, como se fosse uma peça filmada que encarna poesia, movimentos de dança e experimentações estéticas, tudo em um cenário multicolorido (o onírico carrega traços até de “Suspiria”, de Dario Argento). É uma fábula urbana repleta de sedução, desejo e perigo constante - o longa foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Fantaspoa de 2025, confirmando o diretor como um dos nomes mais instigantes do cinema independente brasileiro contemporâneo. PS: Foi escolhido como o primeiro lançamento brasileiro nos cinemas pela Filmicca, plataforma de streaming dedicada ao cinema autoral e cult (que conta com curadoria voltada a obras de mulheres, narrativas negras e LGBTQIAPN+). Estreou na última semana, em salas selecionadas.


 
Criadas
 
Primeiro longa da cineasta Carol Rodrigues, o filme sobre racismo estrutural estreou nos cinemas brasileiros na última semana, com distribuição da Vitrine Filmes. A abordagem sensível (e cheia de simbolismos nas entrelinhas) das marcas do racismo e das contradições familiares marcam o longa que tem um tema urgente. Ele mistura drama psicológico e realismo fantástico para transformar uma casa em espaço vivo de memórias, afetos e violências que atravessam gerações. A premissa é o reencontro das primas Sandra (Mawusi Tulani), mulher negra retinta, e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), negra de pele clara, que cresceram juntas na mesma residência, mas em posições sociais distintas. Sandra retorna para buscar uma fotografia da mãe, antiga empregada doméstica da família, e topa com Mariana vivendo naquele lugar. Esse reencontro desperta lembranças da infância, mas também ressentimentos, revelando feridas não cicatrizadas. Entra em cena Raquel (Rudmira Fula), imigrante angolana responsável pela limpeza da casa. Aquela antiga residência vai além de um mero cenário: torna-se personagem central, já que nela se cruzam passado e presente, expondo hierarquias raciais e sociais ainda vigentes. O longa discute ainda precarização do trabalho, ancestralidade, solidão, invisibilidade profissional e o peso do trabalho doméstico nas relações brasileiras, utilizando um tom sobrenatural para tensionar memórias coloniais – são muitos temas, mas são bem delineados nesse drama íntimo e muito pessoal. Produzido ao longo de oito anos, “Criadas” é inspirado em vivências da própria família da diretora e roteirista Carol Rodrigues. Conquistou o prêmio de melhor atriz para suas protagonistas, Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti, na mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2025. Com produção da Gato do Parque Cinematográfica, em coprodução com Telecine, Canal Brasil, NayMovie, Cinefilm, Volta Filmes e Netas de Esméria, está nos cinemas com distribuição da Vitrine Filmes.



E seus filhos depois deles
 
Dirigido por Ludovic e Zoran Boukherma (irmãos gêmeos franceses), de “Teddy” (2020), o drama premiado nos Festivais de Veneza e Sevilha de 2024 tem como inspiração o romance homônimo vencedor do Prêmio Goncourt de Nicolas Mathieu, de 2018. É um retrato intenso da juventude francesa dos anos 1990, um típico “Coming of age” que acompanha a passagem da infância para a adolescência de Anthony (vivido pelo ator Paul Kircher), período marcado pela descoberta do sexo, rivalidades e o peso da desigualdade social. A história se desenrola em Heillange, um vale esquecido no leste da França, onde o calor sufocante do verão de 1992 serve de pano de fundo para encontros e conflitos. Anthony, de 14 anos, vive grudado com o primo, curtem um lago próximo da cidade e lá ele conhece Steph (Angelina Woreth). A menina será seu primeiro amor; para impressioná-la, decide pegar a moto do pai sem permissão e ir a uma festa, onde cruzará o caminho de Hacine (Sayyid El Alami), jovem rebelde de origem árabe. A tensão entre os dois rapazes se estenderá por anos a fio, com brigas violentas no meio da rua, ameaças e vingança. A história acompanha quatro anos na vida de Anthony (no caso, quatro verões), nos quais os destinos de Anthony, Steph e Hacine se entrelaçam. O amor juvenil e a falta de perspectivas se mesclam em uma comunidade marcada pela estagnação econômica e o preconceito racial (que reflete muito da França daquela época). Os diretores conseguiram reunir romance juvenil e drama social de uma forma orgânica, altamente crítica e super pessoal, que gera interesse do público jovem e dos adultos. O carismático ator Paul Kircher entrega um grande trabalho, por isso recebeu o prêmio de “Jovem ator” no Festival de Veneza. O filme está nos cinemas pela Imovision.


 
Eternidade
 
Após passar nos cinemas brasileiros em dezembro de 2025, chega agora na Apple TV essa comédia romântica fantasiosa sobre vida após a morte, que é um deleite, um entretenimento de qualidade que serve para consumo a todos os públicos (o longa é original da A24 em parceria com a AppleTV). Quando o assisti, essa semana, lembrei imediatamente de dois filmes de comédia dos anos 90 que me marcaram na infância, “Um visto para o céu” (1991) e “Morrendo e aprendendo” (1993), que tratam de espíritos decidindo se vão ou se ficam. Há inclusive situações bem semelhantes entre os três títulos. Em “Eternidade”, cada pessoa, após morrer, tem uma semana para decidir onde e com quem passará o resto da eternidade. Os espíritos dos recém-falecidos esperam numa espécie de limbo; nesse lugar se encontram três personagens: Larry (Miles Teller), Joan (Elizabeth Olsen) e Luke (Callum Turner), num dilema metafísico que se transforma em uma jornada de encontros e desencontros repleto de romance e confusões. A narrativa segue um fluxo de momentos absurdos, ironicamente brincando com o tema da morte de forma leve e explorando a ideia de que até no além a convivência continua sendo determinante. Com ritmo ágil e humor afiado, a obra traz reflexões existenciais em uma comédia simpática, cuja atmosfera oscila entre o surreal e o cotidiano. O trabalho sem exagero dos três atores centrais é outro chamariz para o divertido filme.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 1

 
Amor apocalipse
 
Comédia romântica sentimental, com um roteiro que fica longe da obviedade, que se situa num pré-apocalipse capaz de colocar fim ao planeta. Nesse momento de incertezas, surge uma inesperada ligação afetiva entre um rapaz depressivo (Patrick Hivon), dono de um canil, e uma jovem feliz da vida (Piper Perabo), que trabalha em uma empresa de lâmpadas solares terapêuticas. O mundo está prestes a acabar, com ruas devastadas e gente fugindo, mas os dois, ao se encontrar, parecem ter algo de bom para compartilhar nesses dias tensos. O apocalipse funciona como alegoria dos temores atuais e também uma moldura para destacar a resiliência dos vínculos humanos – a pergunta que o filme tenta responder é “Pode o amor nascer num ambiente de catástrofe anunciada”? O roteiro combina ironia com delicadeza, alternando momentos de riso com instantes de emoção, trazendo atuações sinceras dos dois protagonistas (destaque para a americana indicada ao Globo de Ouro Piper Perabo, que surgiu no fim dos anos 90, em fitas populares como “Showbar”, depois sumiu, reapareceu em fitas B e agora presente em seriados de sucesso como “Yellowstone”). Com direção de Anne Émond (de “A jovem Juliette”), o filme, uma produção canadense, participou de festivais como Cannes (na Quinzena dos Cineastas), Toronto e a Mostra Internacional de Cinema de SP, e agora estreou em salas de cinemas do Brasil, com distribuição da Synapse Distribution.
 
 
Buenos Aires
 
Buenos Aires é aqui, no sertão pernambucano! A partir dessa ideia meio maluca, o inusitado documentário brasileiro investiga a relação dos argentinos com o Brasil, mais especificamente com a Zona da Mata de Pernambuco, no coração do Nordeste. Lá, existe um município chamado Buenos Aires, onde boa parte dos moradores falam espanhol. Eles conhecem profundamente a História da capital argentina e adoram um esporte tradicional de lá, o futebol (inclusive cultuam o jogador Messi). Uma professora de espanhol conduz o cativante doc trazendo as referências de personagens e lugares daquela cidadezinha de 13 mil habitantes, localizada a 79 km do Recife, marcada por paisagem de contrastes sociais. Nunca houve vestígios da passagem de portenhos pela região, portanto o mistério acerca das origens de Buenos Aires ronda o imaginário popular, bem como o estudo dos historiadores. Dirigido pela cineasta pernambucana Tuca Siqueira (que conheceu a fundo a cidade na última década), a mesma diretora de “Iracemas”, o filme, que originalmente se chamaria “Buenozaire”, acompanha a rotina dos habitantes e os fortes vínculos deles com o país vizinho – em certo momento, vê-se inclusive casas pintadas com diversas cores, como se fossem o Caminito argentino. O filme carrega um tom de fábula, tem uma narrativa simples, mas que prende a atenção pelas histórias de seus personagens (muito legais para se conhecer). Produção da Garimpo Filmes, estreou nos cinemas no último fim de semana, com distribuição da Arthouse Distribuidora. 


Olhe o mar
 
Coproduzido pela Disney e em exibição nos cinemas brasileiros pela Autoral Filmes, a comédia dramática franco-belga é uma adaptação de um filme mexicano de 2018 chamado “Ya veremos”, agora assinado por Emmanuel Poulain-Arnaud (de “O teste”). A maior alteração de um filme para o outro está na idade do personagem central – antes uma criança, agora um adolescente. O longa acompanha Chris (Audrey Fleurot) e Antoine (Dany Boon), pais divorciados que mal conseguem conviver, mas são obrigados a deixar de lado as desavenças quando descobrem que Milo (Ewan Bourdelles), de 16 anos, sofre de uma doença rara e degenerativa nos olhos, a retinite pigmentosa, que o levará à cegueira total. Os dois combinam uma viagem diferente com o menino, até a praia de Hossegor, no sudoeste da França, para que veja o mar pela última vez. O filme com tom de despedida equilibra momentos de ternura e humor, em torno de uma viagem que será tanto física quanto emocional (tendo o mar como metáfora dos turbilhões emocionais daquela família). O diretor Poulain-Arnaud, que já explorou dinâmicas familiares em obras anteriores, opta por sutilezas e cenas afetivas para suavizar a dureza da história (ele utilizou como base uma dolorosa experiência real, quando foi acometido por um câncer e por pouco não faleceu). O bom trabalho do elenco (com destaque para o comediante Dany Boon, aqui mais contido e mais dramático) se alia a uma belíssima fotografia litorânea, que valoriza o mar e as praias da charmosa região. Prepare os lenços para um filme de pura emoção.

Resenhas especiais - Parte 3


À sombra do vulcão
 
Os últimos dias de vida do cônsul britânico no México Geoffrey Firmin (Albert Finney), um homem autodestrutivo, consumido pelo álcool, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
 
Astro inglês indicado a cinco Oscars, Albert Finney (1936-2019) entrega aqui uma das mais brilhantes atuações do cinema, reafirmando seu talento e poder em cena. Complexo, cheio de nuances e camadas, é um drama amargo, que se passa no Dia dos Mortos, em Cuernavaca, no México, em 1938. Na cidade tomada pela festa popular em homenagem aos falecidos, o cônsul britânico Geoffrey Firmin perambula de bar em bar, falando alto, caindo pelas ruas. Alcoólatra, ele abandona o cuidado de si mesmo, envolve-se em conflitos com vizinhos, ao mesmo tempo em que busca uma reconciliação com a esposa (papel igualmente surpreendente de Jacqueline Bisset). Tempo presente e memórias do passado se reorganizam na frente do protagonista, revelando camadas de dor, arrependimento e fragilidade. Há uma atmosfera de angústia, derrota e morte no ar, que faz crer que o personagem está em seus últimos dias. Trata-se de uma adaptação do romance existencial de Malcolm Lowry, um clássico absoluto da literatura inglesa, publicado em 1947, que mantém o clima sombrio da obra. Tal atmosfera se dá pela exímia fotografia de Gabriel Figueroa, mexicano que trabalhou com Luis Buñuel, que imprime beleza plástica às imagens do vilarejo reforçando o contraste entre a festividade popular e a decadência do personagem. Finney recebeu indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro, e Jacqueline Bisset, ao Globo de Ouro.


Dirigido pelo mestre John Huston em sua fase final, o filme também recebeu indicação ao Oscar de trilha sonora, assinada por Alex North, e foi lembrado em Cannes, concorrendo à Palma de Ouro. Está disponível em DVD pela Versátil Home Vídeo.
 
À sombra do vulcão (Under the volcano). EUA/México, 1984, 112 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por John Huston. Distribuição: Versátil Home Video
 
 
A rainha Margot
 
Em 1572, a França vivia mergulhada em violentas guerras religiosas entre católicos e protestantes. Para apaziguar os conflitos, Catarina de Médicis (Virna Lisi), mãe do rei Carlos IX (Jean-Hugues Anglade), obriga a filha Margarida de Valois, conhecida como Margot (Isabelle Adjani), a se casar com um primo distante, Henrique de Navarra (Daniel Auteuil), líder dos huguenotes (nome dado aos protestantes franceses adeptos ao Calvinismo) e primeiro monarca da Casa de Bourbon. O enlace, celebrado em Paris, deveria simbolizar a reconciliação, mas vira estopim de uma das maiores tragédias da História francesa: a Noite de São Bartolomeu, quando milhares de protestantes foram brutalmente assassinados pelos católicos.
 
Drama de época com ares de romance gótico, o premiado filme de Patrice Chéreau é inspirado no romance de Alexandre Dumas (pai), primeira parte de uma série de livros históricos de Dumas intitulado “Os romances Valois”. Com precisão histórica e sem economia de violência, o falecido Chéreau recriou a tensão da França no reinado de Carlos IX (compreendido entre 1560 e 1574), focando no casamento da princesa católica Margot com o protestante Henrique de Navarra, que serviria para liquidar com a guerra religiosa entre os dois grupos, travada há 10 anos. Até a metade, o filme reconta os passos desse casamento forjado, bem como a trama política por trás disso tudo, até culminar, da metade para o fim, com o trágico episódio da Noite de São Bartolomeu, que começou em Paris e se espalhou para diversas cidades da França durante dois dias. Naquela noite de 23 de agosto de 1572, houve uma terrível repressão católica contra os huguenotes – estima-se que entre 5 e 25 mil pessoas foram massacradas (os números são incertos até hoje). Isabelle Adjani brilha como Margot, ao lado de Daniel Auteuil, Vincent Perez, Jean-Hugues Anglade e Virna Lisi (que interpreta uma implacável Catarina de Médicis, uma senhora maquiavélica). A superprodução, com trilha de Goran Bregović, conquistou o Prêmio do Júri e o de melhor atriz em Cannes (justamente para Virna Lisi), e é considerada uma das mais impactantes representações da Noite de São Bartolomeu no cinema. Indicado ainda ao Oscar de figurino, ao Globo de Ouro de filme estrangeiro e ao Bafta de produção estrangeira, ganhou cinco prêmios Cesar, o Oscar francês, nas categorias de melhor atriz (Isabelle), coadjuvantes (Anglade e Virna), fotografia e figurino – aliás, figurino, direção de arte e fotografia são de um capricho ímpar, um verdadeiro estudo de representação e contexto, que recria perfeitamente a França do século XVI.


Sensual, ao mesmo tempo violento, o filme ficou conhecido na época do extinto VHS, e saiu em DVD em duas ocasiões – pela editora NBO, em 2010, em formato incorreto de tela, com cortes, totalizando 143 minutos, e pela Versátil Home Video, em 2020, na versão do diretor (com 153 minutos) – a cópia da Versátil está ótima, que foi restaurada pela Pathé, e o filme vem em disco duplo com 1h30 de extras e no enquadramento correto de tela, Widescreen. Um de meus filmes de época preferidos. Recomendo!
 
A rainha Margot (La reine Margot). França/Alemanha/Itália, 1994, 153 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Patrice Chéreau. Distribuição: NBO (DVD de 2010) e Versátil Home Video (DVD de 2020)
 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Resenhas especiais - Parte 2


Explosão no trem-bala
 
Um trem-bala rumo a Tóquio carrega uma ameaça mortal: se a velocidade ficar abaixo de 100 km/h, o veículo ativará bombas instaladas por terroristas. Os bandidos têm um plano mirabolante por trás daquilo tudo.
 
Thriller japonês enérgico do começo a fim, que mistura ação com suspense psicológico, e é uma releitura moderna de um clássico do gênero, o também japonês “O trem bala” (1975), escrito e dirigido por Junya Satō, com o astro Ken Takakura. O filme anterior era um disaster movie feito numa década de grandes filmes do assunto, como “Aeroporto” (1970), “O destino de Poseidon” (1972) e “Inferno na torre” (1974). Agora a direção é do cineasta japonês Shinji Higuchi, realizador de reboots de filmes da cultura pop japonesa, como “Shin Godzilla” (2016) e “Shin Ultraman” (2022) – “Shin” é um termo para “Novo”. O filme se passa em apenas um dia, dentro de um trem-bala em movimento, prendendo a atenção pela tensão constante. Daqueles filmes entretenimento de corrida contra o tempo, em que autoridades e passageiros precisam lidar não apenas com o perigo físico, mas também com o pânico e os dilemas emocionais que surgem em situações extremas. O filme destaca-se pelo uso de efeitos visuais modernos que intensificam a sensação de claustrofobia e velocidade, além de enquadramentos elaborados e câmera frenética. No elenco, nomes como Tsuyoshi Kusanagi e Kanata Hosoda. O original “O trem-bala” inspiraria fitas semelhantes, sendo o mais conhecido “Velocidade máxima” (1994), deslocando a ação do trem para um ônibus urbano cheio de bombas. Produção da Netflix, disponível no catálogo do streaming.
 
Explosão no trem-bala (Shinkansen daibakuha). Japão, 2025, 134 minutos. Ação/Drama. Colorido. Dirigido por Shinji Higuchi. Distribuição: Netflix
 
 
Meu nome é Agneta
 
Mulher de meia-idade é demitida do trabalho e ao mesmo tempo enfrenta crise conjugal. Cansada e desmotivada, ela encontra um anúncio no jornal sobre um trabalho de cuidadora infantil na cidade francesa de Provence, e aceita mudar-se para lá. Chegando ao endereço, descobre que o cliente é um idoso, que precisa de cuidados (e não uma criança, como pensava). Os dois iniciam forte vínculo de amizade que reacende a vontade dela em viver.
 
Comédia dramática sueca da Netflix dirigida por Johanna Runevad, uma fita delicada e também divertida, que arranca lágrimas no final. É uma história bonita com grande atuação da atriz sueca Eva Melander, de “Border” (2018), que transforma a crise da meia-idade em uma jornada de autoconhecimento. Ela interpreta a personagem-título, Agneta, de 49 anos, uma mulher que se sente apagada dentro da própria vida: o casamento perdeu intimidade, o marido não dá atenção e duvida da sua capacidade, os filhos adultos só a procuram por conveniência e o trabalho burocrático não lhe oferece outras perspectivas. Certo dia é demitida sem motivos aparentes. Parte então para um emprego como au pair em Provença, França – uma cidadezinha bucólica, com belos campos de lavanda. Ela é uma estudiosa sobre a França, sempre gostou do país, e resolve se mudar para lá de vez, deixando o marido para trás. Descobre que não cuidará de uma criança, mas sim de Einar, um idoso excêntrico e teimoso, que gosta de dançar e beber com amigos (vivido pelo ótimo ator Claes Månsson). Essa convivência inesperada, marcada por almoços, conversas e pequenos gestos, torna-se o motor da transformação de Agneta – ela também fica próxima dos amigos excêntricos de Einar, todos idosos que moram no mesmo prédio. O roteiro, baseado no best-seller de Emma Hamberg, evita melodrama e constrói a evolução da protagonista por meio de situações cotidianas. Revela a simetria entre duas figuras invisíveis: Agneta, apagada socialmente por ser mulher, e Einar, que enfrenta a invisibilidade trazida pela velhice. A relação dos dois, ao mesmo tempo frágil e poética, dá ao filme a força dramática necessária. A diretora Johanna Runevad, que já havia se destacado em produções televisivas na Suécia, conduz o filme com bom humor e momentos de drama para chorar, apostando em uma obra intimista e direção de atores precisa. Na trilha sonora, “The winner takes it all”, em duas versões: a do Abba e uma francesa. Um dos destaques do mês passado na Netflix, um filme adorável, principalmente para o público feminino.
 
Meu nome é Agneta (Je m'appelle Agneta). Suécia, 2026, 113 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Johanna Runevad. Distribuição: Netflix

domingo, 14 de junho de 2026

Resenhas especiais - Parte 1


A primeira Barbie negra
 
Documentário sobre a criação da primeira Barbie negra, nos anos 80, que, ao mesmo tempo, revolucionou o mercado de brinquedos e auxiliou a repensar as questões da branquitude nos Estados Unidos.
 
O documentário dirigido pela cineasta preta Lagueria Davis mergulha em um tema que transcende brinquedos: a representação racial e os reflexos da branquitude nos Estados Unidos. O roteiro, super bem amarrado, parte dos experimentos sociais com bonecas nos anos de 1960, que revelavam como a ausência da diversidade reforçava a segregação. Esse pano de fundo histórico preparou o terreno para a chegada tardia da primeira Barbie negra oficial, lançada apenas em 1980 (uma boneca alta, magra, de cabelos black, com roupas coloridas, inspirada na cantora Diana Ross). Apesar de revolucionária, a boneca recebeu pouca divulgação e ainda carregava elementos estéticos dos anos 70, mostrando como a indústria demorava a reconhecer plenamente a identidade negra. O doc ganha força ao trazer depoimentos de funcionárias da Mattel (a empresa criadora da Barbie), colecionadoras de bonecas e figuras públicas pretas como a atriz indicada ao Oscar Gabourey Sidibe, que compartilham suas experiências de identificação com a boneca. A ideia do doc partiu da tia da cineasta Lagueria, Beulah Mae Mitchell, de 84 anos, ex-funcionária da Mattel, que relembra sua trajetória e a inquietação diante da ausência de uma Barbie negra. Por pressão social, da mídia e da política, depois da Barbie negra, concorrentes passaram a lançar bonecas em diferentes tons de pele, como a linha Shani, ampliando o espectro de representatividade. Esse movimento revela que a luta por diversidade não é apenas mercadológica, mas profundamente cultural e política. Exibido em festivais de destaque, como Cleveland, Nashville, Hot Docs, Heartland e SXSW, o doc é da Netflix, disponível no streaming. Mais do que uma investigação sobre um ícone da indústria cultural, é um retrato pungente de como brinquedos podem se tornar instrumentos de exclusão ou de revolução. A Barbie negra não é apenas uma boneca: tornou-se um marco simbólico na luta por reconhecimento das meninas pretas – e o documentário faz bem em contar essa história.
 
A primeira Barbie negra (Black Barbie: A documentary). EUA, 2023, 94 minutos. Documentário. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Lagueria Davis. Distribuição: Netflix
 
 
Outstanding: A comedy revolution
 
Documentário que reúne diversos ícones do stand up comedy LGBTQIAPN+ que discutem sobre representatividade no mundo do humor.
 
Produzido pela Netflix, o documentário reúne em um auditório 22 artistas de diferentes países que se identificam como gays, lésbicas, transsexuais e bissexuais, para uma conversa sobre representatividade no mundo do humor, especialmente o stand up comedy, modalidade de shows cômicos usual nos Estados Unidos (e que nos últimos anos “pegou” no Brasil). Exibida no Festival de Tribeca, a produção celebra uma noite histórica realizada em 7 de maio de 2022, no Teatro Grego de Los Angeles, intitulada Stand Out, com diversos atores e atrizes LGBTQIAPN+, como Eddie Izzard, Lily Tomlin, Rosie O’Donnell, Sandra Bernhard, Judy Gold, Wanda Sykes e Robin Tyler (esta, pioneira do humor, uma das primeiras a assumir publicamente sua identidade lésbica no stand up, hoje com 81 anos). O filme não se limita a registrar o espetáculo aberto ao público, e sim analisa a trajetória da cena queer dentro da comédia, mostrando como o stand up se consolidou como parte da cultura contemporânea e ganhou força como espaço de afirmação, resistência e liberdade. Os depoimentos ressaltam a importância da representatividade e da visibilidade, conectando o humor às lutas históricas da comunidade gay, como o marco de Stonewall em 1969, que sacudiu a mídia e abriu caminho para discussões mais amplas sobre direitos humanos para todos e todas. “Outstanding” funciona como uma grande reflexão, evidenciando como o riso pode ser uma ferramenta de inclusão, memória e transformação social.
 
Outstanding: A comedy revolution (Outstanding: A comedy revolution). EUA, 2024, 99 minutos. Documentário. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Page Hurwitz. Distribuição: Netflix

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Especial de cinema - Parte 2


Festival “Olhar de Cinema” termina amanhã; confira mais filmes vistos
 
O “Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba”, que está em sua 15ª edição com 80 filmes na programação, termina amanhã, dia 13 de junho. São exibidos curtas e longas-metragens nacionais e internacionais, distribuídos em oito mostras. Criado como um festival de cinema independente em 2012, o Olhar de Cinema já levou mais de 250 mil pessoas para as salas de cinema e exibiu mais de 1200 filmes do mundo inteiro. Consolida-se, assim, como um dos mais importantes festivais internacionais de cinema do Brasil. Além das exibições de filmes, há também o Seminário de Cinema de Curitiba (com debates, palestras e encontros com profissionais do audiovisual), três oficinas e o CuritibaLab (laboratório de pós-produção de filmes, com consultoria de montagem e marketing). O festival acontece em cinco locais de exibição: Cine Passeio, Museu Oscar Niemeyer (Auditório Poty Lazzarotto), Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Ópera de Arame.


Confira abaixo mais filmes que assisti no festival e recomendo:
 
Barbara forever (2026)
 
Grande vencedor do Teddy Bear na Berlinale de 2026, prêmio entregue a obras de temática LGBTQIAPN+, o documentário de estreia de Brydie O'Connor é uma homenagem de corpo e alma a uma cineasta independente que marcou a cena da contracultura novaiorquina dos anos 60 e 70, Barbara Hammer (1939-2019). O filme acompanha o legado deixado por ela na fotografia, no cinema e na videoarte, com seus trabalhos ousados sobre o corpo feminino e questões de gênero. Barbara deixou marcas tanto no cinema experimental quanto na arte contemporânea ao trazer para o centro da discussão as experiências lésbicas e feministas vividas por ela e por suas companheiras. Construiu uma carreira original, produzindo mais de 90 obras audiovisuais entre filmes, fotografias, performances, videoarte, colagens e instalações, inspirada por nomes como a diretora Maya Deren. Explorou técnicas visuais inovadoras, desde montagem fragmentada a sobreposição de imagens e experimentações com o corpo em movimento, criando uma linguagem única que desafiava convenções abrindo espaço para formas diferentes de representação (num período em que havia uma profusão de novidades no campo das artes visuais, décadas de 60 e 70). A obra de Barbara é pioneira porque, em uma época em que a homossexualidade feminina era invisibilizada, colocou o desejo e a intimidade entre mulheres como protagonistas, em filmes que chegaram a festivais, como “Dyketactics” (1974), “Women I love” (1976) e “Nitrate kisses” (1992), este exibido em Toronto e Sundance. Parte de seus longas e curtas-metragens tornaram-se marcos do cinema queer ao exibir o afeto e a sexualidade lésbica de maneira poética, muito libertadora. O documentário traz momentos de sua vida privada, declarações e depoimentos antigos e atuais, com ela mesma em perspectiva e muito da colaboração de sua esposa, a ativista de direitos humanos Florrie Burke, que ajudou na finalização do filme. No terço final, os momentos mais duros: a descoberta do câncer de Barbara, que a levou a fazer trabalhos sobre a finitude da vida. O doc também foi premiado em Sundance desse ano, e é um dos grandes documentários da temporada. No festival Olhar de Cinema está na seção “Exibições especiais” e conta com mais uma exibição, amanhã, dia 13/06.
 


Veludo azul (1986)
 
A obra máxima do cineasta David Lynch (pelo menos aquela que o grande público mais lembra, depois de “Duna”) volta com tudo nas salas do festival Olhar de Cinema em uma belíssima cópia restaurada em 4K, na comemoração de 40 anos do filme e dos 80 anos do diretor (falecido em 2025). Cultuado desde seu lançamento em 1986, o filme não perdeu a forma. Uma obra que redefiniu os limites do cinema americano e continua um desafio visual ao expor o contraste entre a aparência idílica da vida suburbana e as pequenas violências que nos permeiam. Na pacata cidadezinha de Lumberton, Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan) encontra uma orelha humana em um matagal. Ele a recolhe e deixa para a polícia periciar. Mas aquele encontro grotesco mexe demais com Jeffrey, então resolve fazer uma investigação própria, com ajuda da garota ingênua que acaba de conhecer, Sandy (Laura Dern). Os dois são levados ao perturbador submundo da cantora Dorothy Vallens (Isabella Rossellini). Pelo caminho Jeffrey irá trombar com a gangue de um lunático perverso chamado Frank Booth (Dennis Hopper), que usa um estranho gás de inalação que o divide em duas personalidades (Baby e Daddy). Com cores vibrantes (com destaque para o azul e o vermelho que serão recorrentes na estética cinematográfica de Lynch, incluindo a série feita poucos anos depois que parece ter saído de “Veludo azul”, “Twin Peaks”), o filme é um estudo sobre voyeurismo e desejos reprimidos, com uma trama cheia de reviravoltas autênticas. Tudo se passa numa cidade parada no tempo, que parece vinda dos anos 50, onde a corrupção começa a surgir nos detalhes da investigação de Jeffrey. Lynch combina elementos do cinema noir clássico com thriller psicológico moderno, criando uma atmosfera de estranhamento que se tornou sua marca registrada – e finais chocantes com direito a sangue para todo lado. É um jogo fascinante com personagens bizarros (alguns caricatos de propósito), um roteiro complexo e uma trilha sonora conceitual que mistura a originalidade de Angelo Badalamenti (parceiro de trabalho de Lynch) com canções bregas românticas, como a canção-tema “Blue velvet” – tudo se choca com a brutalidade dos acontecimentos que virão, reforçando a tensão entre aparência e realidade. É uma estética híbrida que dialoga com Hitchcock, De Palma, Fellini, Buñuel e Wilder. Os atores estão magistrais, e a lista de participações é longa, incluindo Dean Stockwell, Brad Dourif e Hope Lange. “Veludo azul” veio depois do fiasco de “Duna” e recebeu indicação ao Oscar de direção, e no Globo de Ouro de melhor roteiro e ator coadjuvante para Hopper (sinistro no papel que marcou sua carreira). Na telona o filme fica ainda mais grandioso. No festival Olhar de Cinema está na seção “Olhares Clássicos Cine Passeio” e conta com mais uma exibição, amanhã, dia 13/06.

 
 
Futuro Futuro (2025)
 
Ficção científica distópica brasileira, o novo trabalho de Davi Pretto, diretor de “Rifle” (2016) e “Continente” (2024), foi o vencedor do Troféu Candango de melhor longa no Festival de Brasília, além de ter ganhado lá também os prêmios de roteiro, montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador (uma descoberta incrível esse ator). É um drama scifi desafiador que cria uma Porto Alegre chuvosa, uma metrópole decadente, conflitante e labiríntica, marcada pela presença da Inteligência Artificial e por uma estranha síndrome neurológica. Na trama, acompanhamos K (Zé Maria Pescador), um homem que andarilha pela cidade, sem memória. Ele é acolhido por um senhor solitário (João Carlos Castanha) em seu simples casebre. A relação entre os dois vira um misto de sexo e companheirismo, até K se viciar em um dispositivo tecnológico: sentado à frente da peça, o objeto lança um triângulo infravermelho em sua testa, que o faz conhecer uma outra cidade e situações absurdas. O filme funciona como metáfora para os dilemas contemporâneos: a dependência tecnológica, a fragilidade da memória num mundo tomado pela rapidez das coisas e a luta por sentido em um mundo cada vez mais fragmentado e mediado por máquinas. Filme de atmosfera sombria e pessimista, faz críticas diretas em como a tecnologia nos molda, com dispositivos viciantes, transformando sem volta os humanos. Filme de festival, com pegada diferente e nada fácil de digerir (por isso mesmo interessante, que vale conhecer). Teve três sessões especiais no Festival Olhar de Cinema e já tem data de estreia oficial nos cinemas brasileiros: dia 23/07, com distribuição da Cajuína Filmes.


 
Yellow Cake (2026)
 
Depois do excelente, mas bem inusitado “Azougue Nazaré” (2018), o cineasta pernambucano Tiago Melo volta a desafiar as convenções em mais uma obra autoral, “Yellow Cake”, que teve première no festival Olhar de Cinema depois de ser exibido no Festival de Rotterdam em janeiro deste ano. Não espere um filme fácil ou tão compreensível – o assisti na abertura do festival, no Ópera de Arame, numa sessão com 1600 pessoas, e senti ali um misto de surpresa, dúvidas e aplausos. Misturando idioma português e infgles, com atores brasileiros e americanos (com momentos que conectam com “Bacurau”), é um filme simbólico sobre exploração do território (como um “neo-neocolonialismo” tecnológico, pelos norte-americanos) e os limites da sobrevivência em um mundo marcado por tensões ambientais. Na trama, um grupo de estrangeiros no sertão da Paraíba, na cidade de Picuí, buscam uma alternativa para acabar o mosquito aedes aegypti (transmissor da dengue). Ali é uma região rica de urânio, material radioativo capaz de eliminar a doença. O experimento se chama “Yellow Cake”, encabeçado por uma cientista brasileira (Rejane Faria) em conjunto com os americanos. Só que a situação foge totalmente de controle, desencadeando disputas políticas, econômicas e territoriais naquele fim de mundo. O filme tem uma trama muito particular para os tempos exaustivos que vivemos (de ameaças recorrentes de Trump de explorar minerais raros no Brasil), dialogando com a pressão social e como as comunidades periféricas lidam com as ameaças de invasão (personagens secundários entrarão nesse conflito, no caso os papéis de Tania Maria e Valmir do Côco). Tudo é árido e opressivo, com um toque menor de um humor mais direto (exatamente nas falas e ações de Tania Maria e Valmir do Côco). Parece ser futuro, mas um futuro sem distopia ou mudanças radicais de cenário – o que deixa o filme também ambíguo. O desfecho atinge a linha do brutal, quase um cinema raiz B de scifi setentista (o que gostei muito). Deve estrear em breve no Brasil, aguardem para ver!

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