A
voz de Hind Rajab
Kaouther
Ben Hania, cineasta tunisiana conhecida por dois filmes indicados ao Oscar
recentemente, “O homem que vendeu sua pele” (2020) e “As 4 filhas de Olfa” (2023), retorna com uma
obra visceral, que há tempos não me angustiava tanto. Produzido em 2025, o
longa se constrói como um híbrido entre documentário e ficção, utilizando a
guerra de Gaza como pano de fundo. Por 1h30 acompanhamos, aflitos, um grupo de voluntários
da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho tentando salvar uma garotinha chamada
Hind Rajab presa em um carro sob fogo cruzado na Faixa de Gaza, cercado pelas
tropas israelenses. O caso ocorreu em janeiro de 2024, e o filme inteiro é dentro
de uma sala que serve de comitê dos membros que ficam no telefone em contato
com a menina – nunca a vemos, somente a ouvimos (e aí está o impacto do filme:
os áudios todos são reais). Eles fazem uma força-tarefa para emplacar um resgate
de poucas horas, o que parece inalcançável. De um lado uma criança no carro,
encurralada, com a família morta no banco, e do outro, a quilômetros de distância,
os voluntários com ela pelo telefone celular. O drama transforma uma ligação de
emergência em Gaza em uma corrida contra o tempo, expondo a fragilidade da vida
diante da brutalidade da guerra. Dentro da sala instala-se outra crise, envolvendo
um dos voluntários que quer salvá-lo a todo custo, e a do chefe de operações,
que não sente segurança em liberar o carro de salvamento devido ao perigo que
há nas estradas até chegar ao local bombardeado onde está Hind. A diretora obteve
autorização para usar os áudios originais da menina Hind Rajab, de apenas seis
anos, capturados durante uma noite de terror no bairro nobre de Tel al-Hawa, no
sudoeste de Gaza, totalmente bombardeado – ela chora, aflita, pedindo socorro,
ajudando na orientação de seu resgate. Esses registros sonoros, acompanhados
por legendas do arquivo, em tela preta com a frequência de som oscilando, criam
uma experiência cinematográfica que transcende o cinema ficcional (e nos arrebata).
É uma obra que testemunha uma crise global, numa das guerras mais devastadoras
da História recente, que se arrasta desde 2023 e parece não ter fim. E um
chamado à reflexão sobre o poder do cinema em dar voz ao que não pode ser
silenciado. Um dos maiores lançamentos do ano, indicado ao Oscar de filme
estrangeiro (ele disputará diretamente com o nosso “O agente secreto”). Venceu o
Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza 2025 e também teve
indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Nos cinemas desde o início
do mês, distribuído pela Synapse Distribution.
Zafari
Sexto
filme da cineasta venezuelana Mariana Rondón, de “Pelo malo” (2013), que
costuma tratar em seus trabalhos a crise econômica de seu país pelos olhos do
povo – e agora, pela primeira vez, faz um filme ampliando o tema, mas num futuro
distópico. Quando falamos em distopia, lembramos de fitas scifi de mundo
destruído, ocupado por robôs; não, não é isto aqui no cinema dela. Rondón coloca
a ambientação numa realidade nítida, mais próxima da atualidade do que de um
futuro não-palpável, mantendo-se fiel à sua filmografia marcada pelas tensões
sociais e econômicas da Venezuela. Ela constrói em “Zafari” uma distopia que
amplifica a desordem cotidiana de um país colapsado, com ausência de regras,
escassez de trabalho e, sobretudo, a fome, que moldam um ambiente insólito, onde
a civilidade se desfez e a sobrevivência assume contornos brutais. Nesse
cenário, um hipopótamo (de nome Zafari) recém-chegado ao zoológico de Caracas torna-se
figura central. Ele é o único ser plenamente alimentado, o que contrasta com a
privação que atinge duas famílias: uma privilegiada, agora confinada em um
condomínio decadente, que planeja fugir do país, e outra empobrecida, que
abandona qualquer resquício de ordem social, vivendo a seu modo. A presença do
animal desperta desejos, frustrações e impulsos que revelam o limite ético de
cada personagem. Pela definição da diretora (que é a roteirista, junto à
parceira de trabalho Marité Ugas), o filme é uma fábula social, recorrendo à
ironia e metáforas dentro de um típico cinema de gênero. É um filme simbólico,
estranho à primeira vista, que vai se encaixando com o desenrolar do tempo. É
político, é crítico, nada fácil de entender, sendo uma obra autoral para
público específico – e que faz mais sentido agora, após o sequestro e deposição
do presidente Nicolás Maduro. Apresentado na seção “Horizontes Latinos” do
Festival de San Sebastián, o longa percorreu festivais na Europa, Ásia e
América Latina, incluindo a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Com
elenco formado por atores profissionais e não profissionais, é uma coprodução Brasil,
Venezuela, Peru, México, França, Chile e República Dominicana. Em exibição nos
cinemas pela Vitrine Filmes.
Dois
procuradores
Marcou
presença no Festival do Rio do ano passado este recente longa de Sergei
Loznitsa, diretor russo-ucraniano engajado no cinema político desde quando se
lançou na metade da década de 90, e de lá para cá fez filmes notáveis, tanto documentários
quanto ficção, como “Donbass” (2018) e “A invasão” (2024). Apresentado no
Festival de Cannes, onde disputou a Palma de Ouro e conquistou o Prix François
Chalais — honraria dedicada a obras que reafirmam o compromisso do jornalismo
com a verdade, “Dois procuradores” é uma obra ficcional inspirada em um duro contexto
real, o regime autoritário de Stalin. Em 1937, um jovem procurador, recém-nomeado
ao cargo, Alexander Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), entra com tudo na investigação
do centro de detenção soviético após descobrir práticas de tortura contra um
ex-promotor do Partido Comunista. O caso cai em suas mãos após receber uma
carta, que deveria ter sido queimada junto a outras, de indivíduos presos injustamente
pelo regime stalinista. Movido pelo senso de justiça, Kornyev se empenha em
denunciar os métodos arbitrários da polícia secreta de Stalin, intitulada de Comissariado
do Povo para Assuntos Internos (NKDV), que praticava violenta repressão aos
considerados subversivos (muitos enviados ao temido campo de Gulag, no extremo
frio da Sibéria). No meio de um campo de batalha em busca de verdade, o
personagem coloca em jogo não só a carreira, mas a própria vida ao investigar o
mundo do NKDV – estima-se que entre 1930 e 1950, o NKDV matou milhões de pessoas,
em massacres, deportações e no Grande Expurgo. Com muitos diálogos, um bom
trabalho dos atores e uma direção de arte com apelo à URSS do período
stalinista, é um bom cinema de arte com discussão política, que obviamente faz
um diálogo aos desmandos atuais de Vladimir Putin (cujo governo comete atos massivos
de repressão aos opositores, bem como perseguição e tortura, crimes de guerra,
sem contar políticos e jornalistas críticos ao regime que morreram de forma misteriosa
nos últimos 10 anos). O filme se inspira no romance homônimo de Georgy Demidov (1908-1987),
físico russo que foi preso pela NKDV, passou 14 anos encarcerado em campos de
trabalho forçado e virou escritor – parte dos relatos do livro e do filme são
situações reais vividas e outras observadas por ele. Nos cinemas pela Retrato
Filmes.