terça-feira, 9 de junho de 2026

Especial de Cinema


15a edição do Olhar de Cinema reúne milhares de pessoas na capital do Paraná
 
Um dos maiores festivais internacionais de cinema do Brasil, o “Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba” chega em sua 15ª edição apresentando 80 filmes em primeira mão no país, tanto nacionais quanto internacionais. O festival ocorre na capital paranaense de 04 a 13 de junho. Estão reunidos curtas e longas-metragens distribuídos em oito mostras - Competitiva Brasileira, Competitiva Internacional, Novos Olhares, Mirada Paranaense Sanepar, Exibições Especiais, Olhares Clássicos Cine Passeio, Olhar Retrospectivo e Pequenos Olhares, além das sessões de abertura e de encerramento. A abertura do festival ocorreu na noite do dia 04/06, com o filme brasileiro “Yellow cake”, de Tiago Melo – exibido na Ópera de Arame; já o encerramento será em 13/06, com o filme “Salvação” (“Kurtulus”), coprodução Turquia, França, Países Baixos, Grécia e Suécia ganhadora do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim desse ano.


A programação inclui filmes das Competitivas Brasileira e Internacional, além de clássicos restaurados (sendo seis em homenagem ao cineasta polonês Andrzej Wajda, e ainda títulos de Béla Tarr, David Lynch e Frederick Wiseman) e exibições especiais de filmes do mundo todo realizados entre 2025 e 2026,
Criado como um festival de cinema independente em 2012, o Olhar de Cinema já levou mais de 250 mil pessoas para as salas de cinema e exibiu mais de 1200 filmes do mundo inteiro. Consolida-se, assim, como um dos mais importantes festivais internacionais de cinema do Brasil. Além das exibições de filmes, há também o Seminário de Cinema de Curitiba (com debates, palestras e encontros com profissionais do audiovisual), três oficinas e o CuritibaLab (laboratório de pós-produção de filmes, com consultoria de montagem e marketing).
Os ingressos e credencais estão à venda tanto pelo site oficial do evento, https://olhardecinema.com.br quanto pelo aplicativo e nas bilheterias das salas. Há ainda sessões gratuitas, com retirada de ingresso 30 minutos antes da sessão. O festival acontece em cinco locais de exibição: Cine Passeio, Museu Oscar Niemeyer (Auditório Poty Lazzarotto), Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Ópera de Arame.




Fotos da sessão de abertura, de salas de exibição e de seminários, feitos por Felipe Brida


O Olhar de Cinema é viabilizado por leis de incentivo e patrocínios, como Ministério da Cultura (via Lei Rouanet) e Governo do Estado do Paraná, via Secretaria da Cultura e Profice (Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná). Conta com patrocínio do Terminal de Contêineres de Paranaguá, Sanepar, Mili, Fomento Paraná e Solvay Peróxidos, além de apoio do Projeto Paradiso, Uninter, Cine Passeio, Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Icac (Instituto Curitiba de Arte e Cultura) e incentivo da Prefeitura de Curitiba e da Fundação Cultural de Curitiba.
Confira abaixo os filmes que integram as Mostras Competitivas Brasileira e Internacional, de longas-metragens:
 
Mostra Competitiva Brasileira – Longas:
 
São 16 filmes nacionais na programação:
 
1.           A noite e os dias de Miguel Burnier (Dir. João Dumans)
2.           Adulto/Homem (Dir. Pedro Diógenes)
3.           Cerimônia (Dir. Fabio Ramalho, André Antônio, Chico Lacerda)
4.           Disciplina (Dir. Affonso Uchôa)
5.           Duwid Tuminkiz – Makunaima é Duwid? (Dir. Gustavo C. Wapichana)
6.           Fiz um foguete imaginando que você vinha (Dir. Janaína Marques)
7.           Marimbã está acontecendo (Dir. Maryn Marynho)
8.           Maxita (Dir. Mariana Machado e Ana Maria Machado)
9.           O segredo sagrado (Dir. Everlane Moraes)
10.        Olhe para mim (Dir. Rafhael Barbosa)
11.        Pinguim de doce de leite (Dir. Ana Vitória Miotto Tahan)
12.        Pirexia (Dir. Nico da Costa)
13.        Quase inverno (Dir. Rodrigo Grota)
14.        Reparação (Dir. Marcus Curvelo)
15.        Telúrica, a íntima utopia (Dir. Mariana Lacerda)
16.        Um filme para lembrar da utopia (Dir. Reinaldo Cardenuto)
 
Mostra Competitiva Internacional – Longas:
 
São 15 filmes de vários países, como França, Irã, Canadá, Turquia, Itália, Marrocos, Albânia, Bolívia e Chile:
 
1.           A noite já está partindo (Dir. Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas)
2.           Bouchra (Dir. Orian Barki e Meriem Bennani)
3.           Cada época sonha com a próxima (Dir. Johannes Gierlinger)
4.           Cartas a meus pais mortos (Dir. Ignacio Agüero)
5.           Desencaixar (Dir. Danielle Kaganov)
6.           Dragão (Dir. Yashira Jordán)
7.           Má sorte (Dir. Jan Eihardt)
8.           Nan Ginen (Dir. Feguenson Hermogène)
9.           Não me deixe morrer (Dir. Andrei Epure)
10.        O inimigo (Dir. Andrej Chinappi)
11.        O profeta (Dir. Ique Langa)
12.        Outra terra (Dir. Ben Russell)
13.        Se pombos virassem ouro (Dir. Pepa Lubojacki)
14.        Sussurros de um perfume ardente (Dir. Mo Harawe)
15.        Um calendário incompleto (Dir. Sanaz Sohrabi)
 
 
Confira títulos que assisti no Festival desse ano e que recomendo:
 
Fiz um foguete imaginando que você vinha (2026)
 
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros. Filme integra a Mostra Competitiva Brasileira, com exibição nos dias 12 e 13/06.

 
 
Joy boy: A tribute to Julius Eastman (2026)
 
Documentário de linguagem experimental que é uma coprodução Bélgica, República Democrática do Congo e França, feito por um coletivo de seis cineastas em um tributo ao compositor, pianista, vocalista e dançarino americano Julius Eastman (1940-1990). Assim como sua obra conceitual foi marcada pelo minimalismo e experimentos sensoriais, o filme também o é, resultando em uma espécie de videoarte costurada com diversos modelos de segmentos, áudios e imagens. O filme, que concorreu ao Teddy Bear no Festival de Berlim desse ano, é dividido em quatro capítulos, todos com títulos de suas músicas: “Evil nigger”, “Many many women”, “Gay guerrilla” (em referência a uma de suas canções revolucionárias do fim dos anos 70 que gerou contestação e até um movimento politizado) e “Joy boy”, além de um interlúdio chamado “Inter Ludes”. São peças de videoarte e criações audiovisuais que tratam do corpo gay preto, do racismo, da contracultura e da marginalidade nas artes. No primeiro há uma sequência rítmica de dança com cores neon, no segundo um depoimento de Eastman (só voz num fundo escuro), sobre suas criações vanguardistas e peculiar visão de mundo, no terceiro um canto com imagens de células via microscópio se formando num agrupamento de formas. E na parte final, uma fotomontagem de flores, plantas e pétalas cobrindo um corpo nu, após uma intervenção urbana de dança com homens gays pretos e periféricos (como Eastman era) à beira da calçada de uma rua movimentada à noite (o que diz muito sobre a marginalização que a imagem propõe). Todos os capítulos ficam sob o som de suas diferentes composições, com piano e voz. Um filme para poucos, de linguagem estritamente experimental (e duração mínima, de apenas 64 minutos). Exibido também nesse mês no Festival de Sydney. Não tem mais sessões no Olhar de Cinema – foi exibido nos dias 06 e 07/06 na seção Novos Olhares, dedicado a filmes de linguagem experimental.
 

 
Gato na cabeça (2025)
 
Uma grata surpresa descobrir esse filme experimental (que é um documentário com ficção) no Festival Olhar de Cinema – ele teve duas sessões apenas, nos dias 05 e 06/06, na seção Novos Olhares, dedicada a filmes de linguagem experimental). Parte de uma premissa curiosa: a diretora letã (nascida na Letônia) Laila Pakalnina encontrou no lixo de um condomínio 36 rolos de negativos não-revelados, captados por uma câmera profissional antiga. Ao fazer a revelação, encontrou imagens em preto-e-branco de um vilarejo rural, datadas entre as décadas de 60 e 80, de um fotografo anônimo. A partir de uma pesquisa para encontrar aquele lugar, a cineasta reimaginou uma história como se fosse a dela, já que o vilarejo parado no tempo e as pessoas das fotos remetiam a memórias de sua infância na Letônia, um país no Mar Báltico que integrou a extinta União Soviética (URSS). O filme escrito e dirigido por ela mistura documentário com ficção no seguinte sentido: ela grava uma história ficcionalizada, de uma família humilde do campo em seus afazeres, em que encena pessoas da própria sociedade que lembram as figuras reais daquelas fotos antigas. A fotografia de um gato aparece (a foto real revelada) e em seguida ela monta como seria a história daquele animal naquela família. A diretora grava tudo em preto-e-branco, seguindo o padrão das fotografias, faz uma seleção de cerca de 40 imagens e recria essas cenas rurais. Uma galinha correndo alvoroçada, uma idosa bebendo licor, uma competição de corrida de caminhões num terreno arenoso, soldados olhando para a câmera, a neve rigorosa cobrindo plantações e por aí vai. Desse fotógrafo desconhecido, Laila revê suas reminiscências, de um lugar próximo ao que viveu na infância e juventude. Detalhe: todas as fotos reveladas apresentam uma interferência, provavelmente proposital, como objetos na frente, transição em wipe, desfoque, reflexos de espelhos, luzes que atravessam alguém (o que indicia que aquilo era um processo altamente criativo do fotógrafo sem nome). Diretora veterana, hoje com 64 anos, Laila Pakalnina já teve seus filmes concorrendo em festivais como Berlim, Veneza, Locarno e Cannes, tanto longas quanto curtas (no Brasil, muitos de seus docs foram exibidos no festival “É Tudo Verdade”). Agora ela apresenta um novo filme, misterioso, instigante, uma obra cult a ser conhecida. Sem mais sessões no Olhar de Cinema, o filme pode estrear em breve nos cinemas brasileiros.

 
 
Caça às moscas (1969)
 
Também conhecido por “Moscas caçadoras”, a comédia satírica foi um marco do cinema polonês, no auge do Novo Cinema Polonês, assinada por nada mais nada menos que Andrzej Wajda (foi seu 12º filme, na época com 42 anos). O filme integra a lista de longas do diretor restaurados que o Festival Olhar de Cinema traz com exclusividade no Brasil, uma obra rara de Wajda, que é um dos homenageados no evento pelo seu centenário de nascimento. O filme se distancia muito do tom político habitual do diretor e roteirista (que explorava as tensões de gênero e a vida doméstica na Polônia do pós-guerra), numa fita corriqueira, muito engraçada, com estética marcada pelo humor ácido e crítica social. É a história de Wlodek (Zygmunt Malanowicz), um cidadão tímido e inseguro, sempre colocado pra baixo pela esposa e pela sogra, com quem mora. Ele tem um filho pequeno, e na casa ainda mora o sogro bonachão, que resolve instalar na cozinha e na sala um “pega moscas”, fitas adesivas colantes que ficam penduradas pelo teto, atrapalhando a locomoção entre os cômodos (daí o título das “moscas”, reforçado pelo final super simbólico e ambíguo). A rotina de Wlodek muda ao conhecer Irena (Malgorzata Braunek), moça nova, bem bonita e atraente, que é estudante e passa a dominar sua vida. Ele se enrola com ela, mas tem o casamento que impede uma mudança de prumo, então o acanhado Wlodek tenta se acertar com as duas, a esposa e a jovem amante. A comédia de costumes é uma sátira ao casamento, à infidelidade e às pressões sociais, visíveis nesse filme que é um barato, revelando o medo do homem diante da emancipação feminina e da transformação dos papéis sociais. Também é uma farsa a la Shakespeare, sobre traição e desejos. Diferente das obras engajadas de Wajda (antes desse com “Cinzas e diamantes” e depois com o poderoso díptico “O homem de mármore” e “O homem de ferro”), voltadas para a memória histórica e os dilemas políticos da Polônia (que envolvia agitação estudantil nas ruas, regime comunista com forte controle estatal e depois uma onda de crises econômicas), aqui o diretor opta por uma abordagem leve, dinâmica, mostrando os costumes e as relações íntimas. A fotografia de Zygmunt Samosiuk e a trilha de Andrzej Korzyński contribuem para uma atmosfera de sutilezas, que se afasta do tom sombrio de outros trabalhos do diretor. A cópia restaurada exibida no festival Olhar de Cinema está primorosa (seja som ou imagem). Além de “Caça às moscas”, mais cinco filmes do diretor integram a seção “Olhar retrospectivo” do festival: “Os feiticeiros inocentes” (1960), “Tudo à venda” (1968), “Terra prometida” (1974 – um de meus Wajda preferidos), “As donzelas de Wilko” (1979) e “O maestro” (1979). “Caça às moscas” não tem mais sessões no festival (foram somente duas, nos dias 06 e 07/06).



High School (1968)
 
Mais um filme cult em cópia restaurada integra a programação do Festival Olhar de Cinema desse ano. Trata-se de “High School”, na seção Olhares Clássicos Cine Passeio. O documentário é um dos filmes da primeira fase do diretor três vezes vencedor do Emmy Frederick Wiseman, falecido em fevereiro passado aos 96 anos. Em seu segundo trabalho para o cinema, ele retrata o cotidiano de uma escola pública secundária na Filadélfia e expõe, com olhar crítico, os mecanismos de disciplina, conformismo e controle presentes na educação norte-americana em plena efervescência social da década de 1960. A estética do longa é marcada pelo estilo do Cinéma Vérité, sem narração ou entrevistas, captando sucessão de fatos e acontecimentos (do jeito que a vida é). O diretor se põe como um observador do cotidiano daquela escola, mostrando professores autoritários, alunos rebeldes e até policiais chamados às pressas para reprimendas. O ano de 1968 foi um período tenso, marcado pela contracultura, protestos estudantis, passeatas feministas, tensões da Guerra Fria e a explosão da Guerra do Vietnã. A escola-alvo do filme, a Northeast High School, na Filadélfia, Pensilvânia, vira um microcosmo daquela sociedade em profunda transformação. O filme acompanha choques geracionais, entre adultos tentando preservar valores tradicionais enquanto jovens encarnam a mudança cultural que emergia nos Estados Unidos. E a punição severa, naturalizada na época, é vista como forma de obediência/subserviência. Wiseman é um cronista da cena urbana, utiliza o estilo direto do documentário observacional, sem comentários externos, entrevistas ou trilha sonora, com um preto-e-branco formidável que dramatiza as passagens. O filme tem uma montagem fragmentada, com cortes abruptos, enquadramentos variados (com muitos closes em rostos) e sobreposição de cenas que desafiam o espectador a interpretar os significados. Na época, o filme foi considerado polêmico, e olhando-o depois de quase 60 anos, as imagens continuam poderosas, incômodas. 25 anos depois Wiseman fez uma espécie de sequência, “High School II” (1994), analisando desta vez o cenário escolar da Escola Secundária Central Park East, em Nova York. O documentário conta com mais uma sessão no festival Olhar de Cinema, no dia 09/06. PS: No mês passado a Mubi lançou uma coleção em homenagem ao cineasta, intitulada “Frederick Wiseman: American lives”, com oito documentários dele que são análises íntimas da sociedade americana e suas contradições; no catálogo há “Model” (1980) e “High School”, bem como longas de enorme duração que ele fez e foi exibido e importantes festivais, como “At Berkeley” (2013) e “City Hall” (2020).

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2


Backrooms: Um não-lugar
 
Terror instigante com forte clima de mistério que leva para o cinema a estranha atmosfera criada por Kane Parsons em seu seriado homônimo no YouTube anos atrás. Ele transforma uma lenda da internet em uma experiência sensorial marcada pelo minimalismo visual. Quem assistiu à série do Youtube (disponível gratuitamente no perfil de Parsons) sabe que é uma doideira aquilo tudo, um seriado desconexo, cujos episódios são irregulares e não dependem um do outro. Trago um pouco da série para caminhar para algumas explicações em torno do filme que vem fazendo sucesso inesperado nas salas de cinema. Em 2022 Parsons (apelidado de Kane Pixels) criou o projeto de vídeos “The Backrooms”, inspirado em “liminal spaces”, conceito de jogos de salas fechadas e abandonadas, em que alguém (em primeira pessoa) explora o ambiente, sem saber o que irá encontrar pelo trajeto. Às vezes há flashes ao fundo de uma criatura disforme, em outros sons peculiares de vozes vindas de uma rádio, em outros passos e até de gente correndo com trajes de proteção de material radioativo. Esses episódios foram inspirados nas tais creepypastas (lendas de terror que inundam fóruns da internet, criadas por anônimos) e found footage. Entre 2022 e 2025 o jovem cineasta Parsons (veja que prodígio, começou a série aos 16 anos na internet e conquistou milhões de visualizações com seus vídeos) lançou 25 episódios de duração variada (de 1 a 40 minutos cada), totalizando 176 minutos, sempre no mesmo cenário: um ambiente com quartos infinitos de cor amarelada, com perfeita geometria. A série descontinuada traz conceitos de scifici envolvendo cientistas, lixo tóxico, criaturas e tensão permanente (eu assisti à série todinha, alguns episódios são bem instigantes, outros são sem sentido total e cansativos). O filme agora amplia a visão de Parsons (hoje com 20 anos de idade) para uma trama com começo, meio e fim, diferente da série. Nele, vemos o proprietário de uma loja de móveis (Chiwetel Ejiofor) frustrado com a vida, que faz terapia e mora num espaço improvisado numa sala do próprio trabalho. Um dia vê uma luz estranha na divisória de uma das paredes da loja; ao tocá-la, ele se transpõe para uma outra dimensão, um “não-lugar”, que é exatamente o Backroom da série: um lugar infinito, inabitado, extradimensional, formado por corredores de labirintos e salas amarelas. Ali, a realidade como conhece parece se esvair. Escuta um som estranho, há manequins espalhados, vozes vindas de um walkie talkie, fios que conectam televisores, cadeiras amontadas, ou seja, tudo muito confuso. Ele explora o local, até que sai para contar o que viu para sua terapeuta (Renata Reinsve), que duvida então de sua sanidade. Até que o homem monta um grupo de pessoas para entrar no Backroom e filmar os espaços. Eles se perdem e ficam em salas separadas, percebem que há uma presença sinistra ali, e desaparecem. Então a terapeuta vai até lá verificar o sumiço do paciente, descobrindo a fenda luminosa que a transporta para as salas infinitas. O filme trata o tempo todo de um medo intenso de um lugar desconhecido e vazio, interminável, de pura repetição. Os personagens são levados à loucura quando entram em outros tipos de quartos, um vermelho com árvores de natal, um que parece um spa com piscinas, todo alagado. O que seria o Backroom? É um lugar que existe fora da realidade ou apenas dentro da cabeça dos personagens? O tempo todo o longa faz esse questionamento. O design é fiel à estética dos vídeos que viralizaram na web: paredes amareladas, carpete gasto, iluminação fluorescente (realmente um design efusivo, o ponto alto do filme, com mais de 80 cenários diferentes, cada vez mais amedrontadores, bem caóticos). Esse minimalismo não é apenas visual, mas conceitual: o espaço é desprovido de identidade, reforçando a ideia do “não-lugar”, onde o ser humano perde referências. A atmosfera segue os efeitos digitais discretos, usados para sugerir presenças invisíveis e distorções espaciais, o que dá muito certo nesse filme que pegou em cheio o público (de um orçamento mínimo, de U$ 10 milhões, já arrecadou nas salas U$ 210 mi). Há uma aura de filme bizarro, estranhíssimo, que vem atiçando a curiosidade do público, por isso essa bilheteria – além de trazer dois atores de peso, indicados ao Oscar, em ótimos papéis (o britânico Ejiofor e a norueguesa Renata). A marca da produtora A24 é também chamariz, sempre trazendo filmes conceituais e diferenciados do mercado tão saturado de filmes de terror. Parsons é mestre em VFX, processo digital feito na pós-produção, que utiliza cenas reais com CGI, recorrendo a simulação 3D, composições, remoção de objetos indesejados etc, que o fez tanto na série quanto no filme. Norte-americano, ele reuniu um pouco da profissão dos pais para sua formação e até colocou algo disso no filme: o pai era programador de videogames e a mãe, terapeuta (o que explica o papel de Renata Reinsve). Estudou desde cedo efeitos visuais e jogos, e quando criou seu canal no Youtube em 2015, para postar jogos de Minecraft e memes, criou o “Backroom”, que viralizou rapidamente. Agora no seu primeiro contato com o cinema, nessa adaptação, ele mantém a parte boa e a essência da obra conceitual do seriado, explorando também os conflitos humanos e o poder da mente, com uma estética caseira, mas avassaladora - mistura cenas de câmera manual em primeira pessoa (estilo “A bruxa de Blair”) com gravações de atores na frente da câmera. Cai um pouco na parte final, porém ainda assusta (definiria o filme como um terror psicológico com ficção científica).



Cordélicos – A origem do Cabra da Peste
 
Animação brasileira independente lançada nos cinemas no último fim de semana pela Retrato Filmes, é uma fita que explora o cordel para o público jovem, com muito humor, ação e traços peculiares, com uso de formas que recorrem à xilogravura. Há de se notar ainda elementos de ficção científica e estética cyberpunk, com canções populares rítmicas, que criam um sertão futurista onde cangaceiros viajam no tempo para enfrentar o mítico vilão Cabra da Peste. O longa dirigido por Ale McHaddo (pioneira no cinema de animação, que lá atrás fez o bizarro curta que ganhou festivais “A lasanha assassina”) parte de uma premissa curiosa: levar as tradições seculares do cordel para o mundo tecnológico da ficção científica, criando um contraste inimaginável. A trama acompanha um grupo de cangaceiros que encontram e usam uma máquina do tempo, e são lançados ao ano de 3333. Nesse futuro distópico, o sertão se converte em um “Neo Nordeste” povoado por robôs, alienígenas e recursos super avançados, ainda marcado pela memória cultural do cangaço. O vilão Cabra da Peste os persegue até lá para uma vingança. Há crítica social e texturas de uma rica brasilidade nesse filme engraçado, dinâmico, curtinho, que cativa pelos personagens e seus sotaques, cujas vozes são feitas por ótimos atores, como Bruno Garcia (como Capitão Rocha), Tadeu Mello (como Sid), Raissa Xavier (Bonita), Carol Góes (Rimbi), Marcelo Mansfield (Cabra da Peste), Felipe Mazzoni (Tatux e Corisco) e o cantor e ator Falcão (como Falcão Espacial). Diversão ágil para crianças e jovens.



Todo mundo em pânico
 
As bilheterias no mundo engordaram com o novo “Todo mundo em pânico”, o sexto filme da franquia que retornou com tudo aos cinemas no último fim de semana, uma fita escrachada que implode os vícios da cultura americana e parodia os filmes de terror da atual safra (além de fazer uma série de autocríticas do próprio elenco). A comédia besteirol é de uma liberdade criativa infinita, bem superior aos anteriores (que foram ficando envelhecidos, esculachados, mal-feitos e sem sentido). Há reciclagem das piadas e referências, reunindo o elenco original (como Regina Hall, os irmãos Marlon e Shawn Wayans, Anna Faris, Lochlyn Munro, Chris Elliott, Carmen Electra e Dave Sheridan), que usam e abusam de zoeiras, cafonices e ousadia para manter o legado da franquia. As piadas políticas se superam: tem citações aos movimentos “Me too” e “Vidas negras importam”, críticas ferozes a Trump e sua polícia fascista que caça imigrantes, o “Ice”, referência à invasão ao Capitólio, a Musk e ao pedófilo Jeffrey Epstein. Criticam a cultura das lives e dos influencers e a era do cancelamento, caçoam da linguagem como gírias e pronome neutro, e parodiam mais de 20 longas da última década, não só de terror, mas animações e policial, como “Corra!”, “Pânico”, “Pecadores”, “Halloween”, “Guerreiras do K-pop”, “Sorria”, “Michael”, “Longlegs – Vínculo mortal”, “A substância”, “John Wick” e “Bailarina, “Candyman”, “A hora do mal” e até uma passagem de segundos, muito engraçada, de “As branquelas”. Abre com Teyana Taylor como ela mesma numa referência a ter perdido o Oscar desse ano. Curti e rachei de rir em alguns momentos (pelo menos me aliviei nesse puro suco de entretenimento que não se disfarça em ser “enlatado cultural”). Como disse, é bem melhor que os filmes anteriores da franquia que completou 26 anos – quase todos os outros foram campeões de indicações no Razzie Awards, com Lindsay Lohan e Carmen Electra vencendo de “pior atriz”, junto de The Stinkers Bad Movie Awards, que também existiu em Los Angeles por quase 30 anos para premiar os piores. A cinessérie nasceu em 2000, numa década marcada pelo besteirol que enchia as salas de jovens (como “American pie” e “Jackass”), e a cada dois anos aparecia um novo filme zoeira do grupo; desde 2013 não havia um exemplar, e este, que se chamaria “parte 6”, devido ao lapso de tanto tempo, ficou, a mando da distribuidora Universal, apenas “Todo mundo em pânico” - já que também em nenhum há relações diretas de continuação. Está nos cinemas fazendo boa bilheteria - vá para rir muito e se soltar, e espere até os últimos minutos, pois há duas cenas pós-créditos.



sexta-feira, 5 de junho de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas - Parte 1


Dolores
 
O diretor pernambucano Marcelo Gomes, de “Cinema, aspirinas e urubus” (2005), traz para a tela um roteiro deixado pelo cineasta Chico Teixeira, falecido há seis anos, que seria o término de uma espécie de trilogia, intitulada de Trilogia dos Afetos, iniciada por ele com “A casa de Alice” (2007) e “Ausência” (2014). Utilizando a obra de Teixeira como base, Gomes realizou um drama tocante, feminino, que trata de sonhos e perspectivas futuras, entrelaçando a rotina de três mulheres em histórias que se cruzam. Dolores acaba de comemorar 65 anos (papel da sempre deslumbrante Carla Ribas) e botou na cabeça que quer comprar um cassino para mudar de condição financeira. Ela frequenta bingos, gastando muito dinheiro nos jogos, e trabalha vendendo roupas íntimas em frente a penitenciárias. A filha, com quem não se dá bem, espera a saída do namorado da cadeia; e a neta, integrante de um clube de tiros, pretende se mudar para os Estados Unidos. Todas elas anseiam por um futuro melhor, planejando mudanças decisivas. Um filme de mulheres fortes, feito por elas e voltado ao público feminino. São grandes interpretações em uma história singela, humana e sem pieguice. Destaque no elenco de Naruna Costa, Ariane Aparecida, Gilda Nomacce, Teca Pereira e participação de Tuna Dwek, Zezé Motta e Roney Villela. Exibido no Festival de San Sebastián e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2025, estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da California Filmes.


 
O Mandaloriano e Grogu
 
A chegada de “O Mandaloriano e Grogu” às telas de cinema representa um marco para o universo de Star Wars, franquia consolidada que completa 50 anos em 2027. Enérgico, envolvente do começo ao fim, que deixa um gosto de “quero mais”, o filme surpreende ao transportar para o grande público os protagonistas mais carismáticos da série da Disney+ “O Mandaloriano” (foram três temporadas entre 2019 e 2023, e do mesmo universo Star Wars a Disney+ produziu outras séries spin-off, como “Ahsoka”, “Andor” e “Obi-wan Kenobi”). A direção de Jon Favreau, que é ator e já teve contato com o mundo Disney, responsável pela direção de filmes como o live-action de “O rei leão” (2019), episódios de “O Mandaloriano” e filmes de super-herói como os dois primeiros “Homem de Ferro” (2008 e 2010), dá o tom do longa:  uma obra eficiente, com roteiro dinâmico e repleto de efeitos visuais de cair o queixo, seguindo o nível do seriado, que gosto muito. Ampliando a mitologia criada desde a queda do Império Galáctico, o filme se passa na Nova República, após os acontecimentos de “O retorno de Jedi” (1983), em um período de reconstrução, quando há uma busca para consolidar a paz enquanto remanescentes imperiais semeiam desordem pela galáxia. Pedro Pascal é Din Djarin, um guerreiro apelidado de “mandaloriano” (sempre com um capacete fortificado, que faz com que nunca vemos seu rosto). Seu companheiro de jornada é Grogu (o “Baby Yoda”), e os dois são convocados para a missão crucial de resgatar Rotta the Hutt (o único filho de Jabba the Hutt), a mando de seus tios. Rotta (voz de Jeremy Allen White) negou-se a herdar o trono, fugindo para uma lua próxima, Shakari, onde hoje é um gladiador - e está lá para levantar fundos para pagar uma dívida mortal. Ao mesmo tempo, a coronel Ward (Sigourney Weaver) obtém informações valiosas sobre um ex-comandante do Império e faz um novo trato com Mandaloriano assim que terminar o resgate de Rotta, para tentar manter a paz na galáxia. O longa se estabelece como continuação direta da terceira temporada de “O Mandaloriano”, funcionando como ponte narrativa para futuros capítulos da saga. A produção preserva a identidade visual do seriado, escalonando situações e trazendo novos personagens – alguns adoráveis, outros sinistros. O longa tem pontos altos que seguem a uniformidade da série: a trilha sonora do sueco Ludwig Göransson, três vezes ganhador do Oscar; o figurino, que é uma tradição da série; a deslumbrante fotografia entre lugares áridos e ambientes tecnológicos, evocando o espírito épico de Star Wars; e os efeitos especiais, que seguem as premissas da Lucasfilm, com uso intensivo da tecnologia StageCraft, que revolucionou a série e agora ganha proporções mais impressionantes no cinema. Apesar de liderar a bilheteria norte-americana em seu fim de semana de estreia (em 20 de maio), registrou a abertura mais modesta da franquia Disney, e até agora no mundo arrecadou US$ 252 milhões (sendo o orçamento de US$ 165 milhões, ou seja, não explodiu como imaginavam). Ainda assim, os fãs demonstram entusiasmo pela expansão da jornada de Mando e Grogu, consolidando-os como ícones contemporâneos da saga galáctica. PS: Até Martin Scorsese entrou na brincadeira: ele empresta sua voz para um personagem engraçadíssimo, o macaco cozinheiro Hugo, de quatro braços, que mora em Shakari e ajuda Mando a localizar Rotta.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 5


Diamantes
 
Fenômeno de bilheteria na Europa, o novo trabalho do cineasta turco naturalizado na Itália Ferzan Özpetek, de “O primeiro que disse” (2010) e outros 25 curtas e longas, é uma homenagem ao universo da moda visto por dentro do cinema. Retrata duas histórias distintas, mas que se complementam, divididas entre presente e passado, cuja força feminina é a base desse drama de estética vibrante, que exibe com detalhes os bastidores da transformação de tecidos em figurinos elegantíssimos que serão destinados a celebridades que os usarão nas gravações de um filme. O enredo traz um diretor de cinema, no tempo atual, planejando a execução de um longa-metragem com suas atrizes preferidas, pensando no figurino ideal para a obra; isto os transpõe para 50 anos antes, na década de70, em um ateliê comandado por duas irmãs da família Canova, Alberta (Luisa Ranieri, de “A mão de Deus”) e Gabriella (Jasmine Trinca, de “O quarto do filho”), cujas personalidades são conflitantes. Cada uma tem um modo de pensar e agir. Com elas, trabalham funcionárias que enfrentam dilemas universais: violência doméstica, luto, paixões e maternidade. No ateliê, aquele grupo de mulheres trocam segredos em conversas reservadas (um espaço de sororidade), trabalham arduamente com o tempo contado e se unem em torno de um ideal comum: elaborar os figurinos mais bonitos do cinema. Özpetek costura as historietas com referências cinematográficas aos montes, como uma cena da escadaria que remete à “Crepúsculo dos deuses”. O filme também é especial para o cineasta, uma espécie de memórias do seu primeiro trabalho, nas décadas de 70 e 80, como assistente de direção na Sartoria Tirelli, uma antiga casa italiana de figurinos para o cinema. Além de Luisa e Jasmine, no elenco há outras mulheres carismáticas que trazem vivacidade para a história, como Sara Bosi, Elena Sofia Ricci, Anna Ferzetti (filha do falecido ator italiano Gabriele Ferzetti), Paola Minaccioni e participação do ator Stefano Accorsi. Sucesso estrondoso na Itália, onde liderou bilheterias por quase dois anos (o filme é de 2024), passou em cinemas de mais de 40 países, chegando agora ao Brasil pela Pandora Filmes, depois de ter sido exibido no Festival de Cinema Italiano no Brasil.
 

 
Hokum: O pesadelo da bruxa
 
Estamos em uma boa temporada de filmes de horror que vem levando muita gente para as salas de cinema. Somente em maio estrearam no Brasil sete do gênero: “Exit 8”, “Dolly – A boneca maldita”, “Love kills” (este brasileiro), “Passageiro do mal”, “Obsessão”, “Backrooms: Um não-lugar” e “Hokum”. Os três últimos assisti numa tacada, no último fim de semana, e gostei. Vamos para “Hokum”, um baita terror atmosférico com um personagem só, trancado em uma pousada mal-assombrada. Nesse folk horror inspirado em uma lenda urbana irlandesa, o ator Adam Scott (de “Krampus: O terror do natal”) interpreta Ohm Bauman, um escritor de livros de aventura conhecido, mas egocêntrico, que viaja para o interior da Irlanda com o objetivo de cumprir o último desejo dos pais falecidos recentemente: espalhar as cinzas deles no local onde se conheceram, uma floresta de sequoias. Ele também está lá para terminar seu próximo livro, portanto se hospeda por alguns dias em uma antiga pousada. Escuta de duas pessoas histórias funestas sobre o lugar, de que num dos quartos nupciais uma bruxa foi aprisionada. O cômodo é mantido em segredo, isolado por portas maciças reforçadas com cadeados. Inicialmente ele não dá bola para o caso, mas quando uma funcionária do hotel, com quem ele conversava, desaparece, Bauman resolve explorar os cantos da misteriosa pousada. O escritor não imagina no que está se metendo, até se enfurnar em um pesadelo interminável. O filme é assustador, conduzindo o espectador por uma narrativa de luto, segredos e forças sobrenaturais, com momentos de angústia e sustos de pular da cadeira. O longa anterior do cineasta Damian McCarthy, “Oddity: Objetos obscuros” (2024), mexia com temas parecidos (como isolamento, figuras míticas amaldiçoadas, resolução de crimes do passado), e agora reúne tudo isso em um terror mais explícito e de ambiguidades (aqueles dias de terror são reais ou está na mente do protagonista?). A figura da bruxa aparece nas penumbras, o que gera dúvidas e mais medo no espectador, sendo uma metáfora inevitável da morte. O roteiro tem uma boa construção, com um desfecho regular e cenas bem fotografadas de ambientes escuros (que provocam a tensão necessária para esse tipo de filme). Está nos cinemas pela Diamond Films.
 

 
Obsessão
 
Filme de terror do momento, que está na boca do público jovem, vem lotando sessões nas salas de exibição e causando uma série de sentimentos controversos – eu, por exemplo, fiquei baqueado, pois aquilo tudo mexeu comigo, já que é um filme de pura tensão psicológica que causa mal-estar. Realizado em 2025 por um cineasta independente desconhecido, Curry Barker (que o escreveu e dirigiu), o filme foi exibido no Festival de Toronto e, após um ano, entrou no circuito mundial, incluindo no Brasil, com distribuição da Universal Pictures. É um terror psicológico inquietante, com roteiro original trazendo jumpscares eficazes, assustadores, que faz com que até desviemos o olhar nas cenas em que sabemos que o horror explodirá na tela. Um aparente romance juvenil vira um pesadelo sobrenatural de raízes profundas. O enredo acompanha Bear (Michael Johnston), um rapaz solitário, que procura um novo amor após o término com a namorada. Um dia, em uma loja de souvenirs, compra um brinquedo misterioso chamado One Wish Willow (Salgueiro da Sorte), capaz de realizar um único desejo. Ao pedir para ser amado por sua melhor amiga de infância, Nikki (Inde Navarrette), ele vê seu sonho se concretizar de forma imediata. Eles iniciam um romance descomunal, só que o amor de Nikki se converte em obsessão. O comportamento de Nikki oscila, como se fosse duas pessoas diferentes: a garota cuidadosa, afetiva, vira em poucos segundos uma pessoa histérica, amarga, capaz de loucuras para ter o namorado por perto. Bear descobre que o desejo escolhido terá um preço sombrio e irreversível. A premissa, aparentemente simples, é engenhosa, dando ao filme uma originalidade rara no gênero, que explora os limites entre desejo, paixão e destruição. Há momentos tensos que deixarão o público de cabelo em pé, tamanho o clima sombrio que o diretor conseguiu instaurar. O roteiro mescla drama íntimo com terror sobrenatural, sem recorrer a clichês, e tudo muito pessimista, incluindo o desfecho arrasador. O filme é de puro clima de paranoia, perseguição, loucura e claustrofobia, com tensão crescente – prepare o coração, já adianto. Há toda uma discussão crítica sobre os relacionamentos sufocantes, principalmente os da atualidade, dos tempos das redes sociais, fugazes e passageiros, que corroem o casal; de um lado, um jovem inseguro que necessita ser amado a qualquer custo, e de outro, uma garota consumida pela necessidade de ter o namorado por perto, não o deixando sair sozinho, nem falar com os amigos. Michael Johnston e Inde Navarrette entregam personagens difíceis de interpretar, dando um show de performance. Eu curti o filme, um dos melhores de terror do ano. Assista, se possível, no escurinho do cinema (para quem gosta de levar sustos) e preste atenção em todos os detalhes.

sábado, 30 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 4

 
Chopin, uma sonata em Paris
 
Uma boa recomendação de filme para os apreciadores de música erudita, bem como quem gosta de biografias de músicos clássicos é “Chopin, uma sonata em Paris”, que acaba de estrear nos cinemas, com distribuição da Synapse Distribution. O drama é a cinebiografia de Frédéric Chopin (1810-1849), pianista e compositor polonês da era romântica, considerado um gênio sensível que rompeu padrões até então estabelecidos no mundo da música clássica. Nascido na pequena vila de Żelazowa Wola, na Polônia, desde cedo revelou talento extraordinário para a música. Cresceu em Varsóvia, tendo a juventude marcada por estudos intensos de piano e composição, rapidamente tornando-se um prodígio. Ainda jovem, deixou a Polônia para se estabelecer em Paris, centro artístico da Europa, em plena efervescência cultural da década de 30. Lá firmou sua carreira tornando-se figura essencial do movimento do Romantismo. A saúde de Chopin, porém, foi o tormento de seus dias: ele sofria de tuberculose, doença que não tinha cura na época e que o acompanhou até a morte prematura aos 39 anos – a doença também, como pode ser visto no filme, influenciou o tom melancólico de suas composições, parte delas obras-primas. Chopin (no longa muito bem interpretado pelo carismático e jovem ator polonês Eryk Kulm, de “Servindo nazistas”) circulava pela boemia e teve uma relação intensa com a escritora George Sand (no filme, papel de Joséphine de La Baume, de “Um dia”), que o apoiou na doença e na criação artística - o romance teve altos e baixos e terminou de forma dolorosa para ambos. A força do artista era tanta que foi o preferido da aristocracia francesa, agradando até o rei Louis-Philippe (papel de Lambert Wilson, de “Matrix resurrections”). O filme busca o lado humanizado de Chopin, um homem tímido, retraído, mas brilhante no piano, que evitava palcos e lugares cheios de gente, e que sofreu horrores com a tuberculose (isto explicava seus problemas respiratórios crônicos, desnutrição e fraqueza, que o levava a desmaiar pelas ruas). O drama com tom musical do cineasta polonês Michal Kwiecinski não é apenas tragédia e dor, é uma ode com momentos de alegria que homenageia a intensa e virtuosa trajetória de Chopin, recorrendo a belos cenários e figurinos. O filme está nos principais cinemas do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre e Salvador.


 
Fora de controle
  
Astro do cinema francês atual, Omar Sy protagoniza esse bom e eficiente drama com toques de suspense que é uma coprodução entre França e Bélgica, exibido em festivais como Tallinn Black Nights Film Festival (na Estônia) e no Brasil no Festival de Cinema Francês, e que acaba de estrear nos cinemas pela Califórnia Filmes. Ele interpreta Julien, um homem que vê seu relacionamento desabar com a chegada de uma ex-namorada de infância na cidade onde mora, Anaëlle (Vanessa Paradis). Segredos serão revelados, a feliz convivência do casal será colocada em dúvida, e a esposa dele, Marie (Élodie Bouchez – outra atriz de peso no filme), inicia um estranho romance com o chefe mau caráter, Thomas (José García). O longa reúne um elenco firme numa história que é um verdadeiro jogo feroz de manipulações, contradições e vingança, com todo o charme que o cinema francês sabe muito bem realizar. O filme foi escrito e dirigido pela veterana atriz e cineasta Anne Le Ny, que recentemente esteve em filmes exibidos nos cinemas brasileiros, como “Era uma vez minha mãe” (2025) e “Provas de amor” (2025). Boa pedida para os fãs do ator Omar Sy, que está num de seus melhores dias.



sexta-feira, 29 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 3


Copan
 
O gigantesco edifício Copan, fincado na avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, é o personagem central desse filme-mosaico interessantíssimo, que agrega elementos notórios em sua produção, como fotografia, som e edição. Coprodução Brasil e França, dirigido por Carine Wallauer, o filme, grande vencedor do ‘É Tudo Verdade’ de 2025 (onde assisti) na ‘Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens’, acompanha histórias de moradores e funcionários do antigo prédio, inaugurado em 1966, cuja arquitetura singular de linhas sinuosas foi concebida por Oscar Niemeyer. É considerado o edifício com maior estrutura de concreto armado do país, em seus 115 metros de altura, 32 andares e 1160 apartamentos divididos em seis blocos – e lá residem pessoas de diferentes classes sociais, sem contar os mais de 70 estabelecimentos comerciais. A câmera fica estacionada observando a rotina das pessoas no edifício, dentro e fora dos apartamentos – o filme foi gravado durante a campanha presidencial de 2022, e muito traz desse ambiente, tratando da disputa acirrada entre os candidatos Lula e Bolsonaro, e os ânimos exaltados de apoiadores dos dois lados. O filme faz um reflexo sobre desigualdade social e a questão da moradia na maior cidade da América Latina. O início e o término do filme se completam com uma gravação impressionante, acredito eu que de drone, que lentamente se aproxima do edifício e, no desfecho do doc, vai se afastando. Um dos melhores longas do festival ‘É Tudo Verdade’ de 2025, o doc foi exibido em festivais importantes como CPH:DOX, importante festival de documentários, em Copenhagen. Acaba de estrear nos principais cinemas do Brasil, com distribuição da Vitrine Filmes.
 

 
Seis dias naquela primavera
 
Diretor belga que sigo há muito tempo, de filmes cult como “A economia do amor”, “Seguir em frente” e “Um silêncio”, Joachim Lafosse lança seu novo trabalho, um drama feminino de enorme força íntima. Coprodução entre Bélgica, França e Luxemburgo, o filme foi premiado no Festival de San Sebastián nas categorias de direção e roteiro (também dele, em parceria com outros dois roteiristas), e é inspirado em lembranças da infância dele, mantendo na obra um tom confessional e humano. É a história de Sana (Eye Haïdara, de “Assim é a vida”), uma mãe que decide levar os filhos gêmeos para a praia durante as férias da primavera. Após contratempos, mãe e filhos ficam às escondidas na luxuosa casa dos antigos sogros, na Riviera Francesa, por seis dias. Será um tempo de descobertas, como perda da inocência e a união familiar. A fragilidade econômica da mãe se confronta com o poder material da família paterna, eixo dramático do longa, tudo revelado pelos olhos das crianças. A produção se destaca pela fotografia lindíssima (de sol e calor na região da Riviera) de Jean-François Hensgens, além da montagem cuidadosa de Marie-Hélène Dozo, que reforça o ritmo contemplativo. Lafosse constrói mais um filme com mise-en-scène delicada, marcada por silêncios e gestos sutis, que traduzem a intimidade e a tensão social – ele aqui revisita sua própria trajetória para falar de desigualdade, pertencimento e família, além de afeto e da beleza que resiste nas dificuldades cotidianas. Recomendo conhecerem o cinema desse diretor autor brilhante. “Seis dias naquela primavera” está em exibição nos cinemas brasileiros das principais capitais, como São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, com distribuição da Zeta Filmes.
 

 
A vida secreta de Kika
 
Chegou na semana passada na plataforma de streaming Filmelier+ esse filme novíssimo, de 2025, exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes e que é primeiro longa de ficção da diretora francesa Alexe Poukine (que atua como documentarista). É um drama feminino visceral sobre sobrevivência, protagonizada por Manon Clavel, de “A verdade” (2019), num esplêndido e complexo papel, o de uma jovem mãe grávida, que ficou viúva há pouco e precisa enfrentar escolhas inesperadas para sustentar a família em formação. Ela se chama Kika, uma assistente social ainda aturdida com a morte prematura do marido, com quem teve um relacionamento intenso. Ela cuida da primeira filha, ainda pequena, e agora, com um filho para chegar, decide vender roupas íntimas usadas por ela pela internet, um fetichismo que existe aos montes por aí. Devido à urgência financeira, entra aos poucos no mundo do mercado sexual digital. Poukine constrói o retrato de uma mulher vulnerável, dividida entre o trabalho formal e um outro ganha-pão que é novidade para ela, mas malvisto e feito às escondidas. Ela é testada todo dia pela sociedade, portanto é tomada por um dilema moral. Há elementos de outros filmes de temática semelhante, da mulher que tem papel duplo envolvendo sexo para sobreviver, como “Jeanne Dielman” (1975) e “Irina Palm” (2007), e todos os três trazem figuras femininas poderosas na tela, de mulheres que não sucumbem nem ao machismo nem a hipocrisia dos valores pregados pela sociedade. Sem estereótipos ou melodrama, o filme (que tem uma ótima fotografia que evoca a pessoalidade da protagonista) amplia a discussão sobre como mulheres em situação de fragilidade (tanto emocional quanto financeira) são forçadas a recorrer a alternativas inesperadas para sobreviver. Um filme que gostei de conhecer e que recomendo.



terça-feira, 26 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2


Erupcja
 
Um dos filmes mais curtos (de duração) que assisti recentemente, com seus enxutos 71 minutos, “Erupcja” é uma fita experimental rápida, com a cantora, DJ e compositora britânica que vem se jogando no cinema alternativo, Charli XCX (este ano ela lançou também o mockumentary “The moment”, que teve sessões no Festival de Berlim, onde assisti, e depois estreou no Brasil com baixíssima repercussão). “Erupcja” (palavra em polonês que significa “Erupção”) surge como uma experiência cinematográfica que mistura drama feminino e um humor diferentão, recorrendo a metáfora da erupção vulcânica para explorar sentimentos pessoais. O filme foi inteiramente rodado nas ruas da Polônia, gravado com estilo de cinema artesanal/caseiro, com câmera na mão, naquela estética que balança a imagem ao acompanhar os personagens se movimentando de lá para cá. Na história, a jovem Nel (Lena Góra) leva uma vida serena em uma floricultura na capital polonesa, Varsóvia, até ser surpreendida pela visita de Bethany (Charli XCX), amiga de infância que está na região para turistar. A vinda da Bethany desperta em Nel memórias e desejos reprimidos; enquanto isso, um vulcão próximo entra em erupção, espelhando as cinzas e as ondas de calor (uma combustão simbólica, que envolve o dilema emocional entre aquelas duas mulheres). Há outras alegorias sutis no filme: a dualidade da delicadeza das flores com imagens de lava e fumaça, as conversas ambíguas entre as amigas, a relação controversa com seus namorados etc. Charli XCX, além de protagonizar (e está bem no papel), assina o roteiro ao lado do diretor, Pete Ohs, e da atriz Lena Góra, bem como produz a fita, demonstrando compromisso com o cinema autoral. Seu papel dá dimensão a uma figura vulnerabilizada, que vai se transmutando no decorrer da intensidade da história, que trata de amizade e desejos profundamente reprimidos. Filme produzido no auge do sucesso do disco de Charli “Brat”, que virou um fenômeno pop que ditou regras de comportamento e moda (o que é tratado no longa posterior dela, “The moment”). Selecionado para o Festival Internacional de Toronto, o filme teve exibições em outros festivais de renome, como SXSW, Torino, Thessaloniki, Miami, IndieLisboa, Guadalajara e na Mostra Internacional de Cinema de SP. Entrou em cartaz no último fim de semana, com distribuição da Imovision.


 
Vivendo no limite
 
Dirigido por Jinghao Zhou (em seu segundo trabalho), o drama com suspense produzido na China é uma fita intensa que se passa no universo competitivo da patinação artística, expondo a tensão entre duas patinadoras durante os preparativos de um campeonato – e o filme não deixa de lado outros subtemas, como a pressão familiar em busca do sucesso e os dilemas emocionais das atletas. A estética do filme é fenomenal, um trabalho de mestre com grandes cenas de patinação, em que a câmera captura closes nos patins riscando o gelo, enquadramentos por cima e por baixo das atletas, além de cenas em que as duas personagens centrais se confrontam em diálogo combativos. O longa acompanha Jiang (Zifeng Zhang), uma promissora patinadora que tenta de tudo para ascender na carreira, sob o olhar implacável da mãe e treinadora, Wang (Yili Ma). A relação entre as duas é de disciplina rigorosa, que não fica só no ambiente da casa, mas mais ainda nas quadras. A relação entre ambas aumenta a tensão psicológica do filme e revela como o amor pode ser dominado e até destruído pelo controle em excesso. Na pista, Jiang encontra-se com Zhong (Xiangyuan Ding), que vê nela um reflexo de próprias inseguranças. Até que Wang passa a treinar Zhong, estabelecendo uma rivalidade entre as duas patinadoras. Rivalidade esta que se torna uma busca pela perfeição e também uma obsessão, levando as duas garotas a um jogo intenso de confrontos. A direção de Zhou recorre a um fino trabalho, com ótima fotografia de Yu Jing-Pin, principalmente a dos treinos no gelo (com cores frias, num ambiente cercado e solitário). Não é apenas um filme sobre competição esportiva, e sim uma obra densa sobre os limites da ambição e os custos do reconhecimento e sucesso (em certos aspectos lembra “Eu, Tonya”, em especial a relação controversa da patinadora com a mãe temperamental). Uma fita que inquieta, aguça nossa percepção e comprova mais uma vez a qualidade do cinema chinês contemporâneo. 
Distribuído no Brasil pela A2 Filmes, que disponibilizou a produção em streamings como Prime Video, Looke, Apple TV, Google Play e Claro TV.

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