sábado, 24 de outubro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Anatomia do caos
 
Com as eleições chegando, e o risco democrático que o Brasil corre, a distribuidora Descoloniza Filmes disponibilizou gratuitamente o documentário “Anatomia do caos” (2026) em suas redes, no Youtube, e na de parceiros até o dia 26/10, como o Instituto Conhecimento Liberta, Rede TVT e o canal do psicanalista Christian Dunker. O doc, que foi exibido nos principais cinemas no primeiro semestre desse ano, é um retrato assustador do governo de Jair Bolsonaro no enfrentamento da crise do coronavírus, entre 2020 e 2022. O longa vira um imenso mosaico com centenas de falas do ex-presidente, que viralizava discursos contra a vacina, contra a pandemia da covid, soltando fake News todo dia e fazendo chacota com a doença e os doentes. A diretora Dandara Ferreira teve acesso a imagens dos bastidores da CPI da Covid (aberta no Senado Federal para analisar e tratar do caso dentro da política) e traz os desdobramentos da investigação em torno do governo Bolsonaro e de outros atores políticos que conduziram erroneamente a crise sanitária do coronavírus, que resultou na morte de mais de 700 mil brasileiros. É um filme indigesto por natureza, por expor na tela figuras hipócritas e ensandecidas destilando desinformação no período mais cruel da História recente do país. O filme é também uma forma de analisar os mecanismos da estrutura de poder no governo passado, com toda a truculência contra jornalistas e o pânico social gerado com falas mentirosas e outras criminosas. Um filme para ver, estudar e nos alertar da tragédia de um passado super recente nas páginas da política brasileira. Link direto para os interessados em ver o filme - https://www.youtube.com/watch?v=8Gg9bZLbi18&t=11s
 

 
Naza
 
Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Vitrine Filmes o novo e contundente documentário dirigido pela dupla israelense Yuval Abraham e Rachel Szor, ganhadores do Oscar pelo filme “Sem chão” (“No other land”), em 2025. O jornalista Yuval Abraham e a ativista Rachel Szor se reúnem novamente para tratar da guerra sem precedentes e a consequente crise instalada na Faixa de Gaza pelas tropas israelenses. Em “Sem chão” (que ao lado deles tinha outro codiretor, Hamdan Ballal, sequestrado, preso e quase morto pelos militares israelenses devido à repercussão do filme anterior), a história se passava na zona de tiro de Masafer Yatta, região no sul da Cisjordânia (próxima a Hebron), composta por cerca de 20 aldeias palestinas que foram massacradas, o que forçou a população a fugir de lá. Agora, em “Naza” (2026), os diretores investigam os mecanismos de extermínio em massa na Faixa de Gaza, por Israel, a partir do ponto de vista de 24 soldados, militares e agentes de Inteligência do Exército que atuam em operações especiais na guerra iniciada em outubro de 2023. São depoimentos crus, reveladores, de deixar qualquer um estarrecido, com nó na garganta; sentados no terraço de um velho prédio em Tel Aviv, eles contam (parte deles com muita tranquilidade) como eram as missões que chegavam até eles: de matar qualquer um em movimento, com uso de equipamentos e armas de precisão, atirando bombas em bairros inteiros para eliminar integrantes do Hamas, a organização terrorista da Palestina. Em um dos depoimentos, um oficial relembra a suspeita de um integrante do Hamas num prédio, então ordenou o lançamento de um míssil; quase uma centena de inocentes morreu, e não localizaram o terrorista. Aí está o significado da palavra “Naza”, um acrônimo militar em hebraico utilizado pelos serviços de Inteligência de Israel para se referir a "danos colaterais", ou seja, a estimativa de quantos inocentes podem morrer em um ataque, mesmo que for para a captura de um membro do Hamas. Portanto, o filme evidencia o que a mídia estampa nos jornais pelo mundo afora: em Gaza ocorre um genocídio escancarado, orquestrado, aos olhos do mundo. Dados oficiais apontam mais de 74 mil mortos (incluindo 1.500 mortes registradas após o início do cessar-fogo) e 174 mil feridos em Gaza desde 2023, o que muitos acham subestimado. Crianças, bebês e mulheres são as principais vítimas, e há milhares de desaparecidos nos escombros – Gaza foi praticamente ao chão após inúmeros bombardeios nesses três anos de uma guerra insana autorizada pelo primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e com apoio dos Estados Unidos. O filme reúne esses depoimentos inéditos, de homens enfurnados numa guerra voraz, questionados pelos diretores em torno da ética militar. A première do filme ocorreu em setembro passado, no Festival de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro, e ganhou lá cinco prêmios, incluindo o Prêmio Especial do Júri. Também foi exibido nos festivais San Sebastián, Nova York, Zurique e Bolonha, e é forte candidato ao Oscar de melhor documentário de 2027. Um dos melhores documentários do ano. Assistam.

Dica especial de cinema


Nesses dias finais do período eleitoral, em tempos conturbados em que discursos fascistas voltam a circular na boca de candidatos ao pleito presidencial no Brasil, a distribuidora CPC-Umes Filmes (do Centro Popular de Cultura da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo, especializada em cinema russo e soviético) liberou hoje em seu canal do Youtube o clássico documentário "O fascismo de todos os dias" (1965), de Mikhail Romm, obra fundamental para compreender o que foi o fascismo na Europa e no mundo. O longa está disponível em sua versão integral (135 minutos), em cópia restaurada, gratuitamente. E ficará online até o dia 26/10 - só acessar https://www.youtube.com/watch?v=NxOV6_An3BE
Abaixo, confira resenha que escrevi sobre o filme quando de seu lançamento em DVD, em 2017. Republico a seguir o texto:


O fascismo de todos os dias

Ascensão e queda do Nazi-Fascismo contada com criatividade neste importante documentário soviético. Produzido pela Mosfilm, este documentário histórico de 1965 faz uma revisão cautelosa e dramática do surgimento do Nazismo e do Fascismo no mundo, com imagens impressionantes de Benito Mussolini e Adolf Hitler flagrados em caretas e discursos cabulosos, intercaladas com registros de hoje (no caso, o hoje era 1965), de como as pessoas encaravam o cotidiano após a guerra. Todo o material utilizado veio do Ministério de Propaganda do III Reich, outros da coleção particular de Hitler e muitos capturados de soldados alemães da SS, para remontar temas tétricos cruciais da Segunda Guerra Mundial, como o genocídio dos judeus, o ideal do Arianismo e a alienação das massas pelo regime totalitário. Perceba que a narração ácida e extasiante, feita pelo próprio diretor, Mikhail Romm, em seu penúltimo trabalho no cinema, é pontuada com comentários cínicos, ora com comicidade ora com duplos sentidos, numa construção cabalmente inusitada, daí a alta criatividade desse filme soviético.
Dividido em duas partes com uma gama incontável de capítulos entre eles, o doc mantém-se atual e deflagra reflexões constantes do dia a dia, sobre abuso de autoridade, preconceito, idolatrias em excesso, individualismo, censura e poder sem mensuração. Uma obra inigualável, para ser assistida com urgência, revista e discutida.

O fascismo de todos os dias (Obyknovennyy fashizm). URSS, 1965, 130 min. Documentário. PB. Dirigido por Mikhail Romm. Distribuição: CPC-Umes Filmes

* Publicado na coluna Middia Cinema, na revista Middia, edição de outubro/novembro de 2017.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Especial de Cinema

 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao público:


 
O homem mais solitário da cidade
(Áustria – 2026, de Tizza Covi e Rainer Frimmel)
 
Destaque no Festival de Berlim desse ano, o filme de arte austríaco compõe a programação da Perspectiva Internacional da Mostra de SP, com sessões ainda nos dias 23 e 25/10. É documentário com elementos de ficção, ambientado na Viena atual, e que retrata o dia a dia do lendário guitarrista, pianista, cantor e compositor austríaco Al Cook, conhecido como o "Rei Branco do Blues Negro". Influenciado por Elvis Presley, o artista de voz grave é recluso, quase não dá entrevistas, e sua música ficou notória por juntar o blues rural tradicional do Mississippi ao boogie e rhythm and blues. No filme, ele conta uma versão de si, do passado e do presente, recorrendo a memórias da juventude, de perdas e do trabalho no mundo da música. Ele está deixando o apartamento onde mora, que será demolido, e nessa despedida fica diante das câmeras, cara a cara com a dupla de entrevistadores (a dupla de cineastas premiados por “Vera”, Tizza Covi e Rainer Frimmel), falando de histórias melancólicas e outras bem humoradas. As imagens (bem montadas no filme) retratam ainda sua dedicação aos ensaios de piano, bem como os afazeres banais do cotidiano, demonstrando um homem solitário, que escreve músicas a mão, assiste à TV, vai ao bar bebericar sozinho ouvindo velhas canções no jukebox etc. Além de Berlim, foi exibido nos festivais de Nova York e Vancouver.


 
Emergency exit
(Espanha – 2025, de Lluís Miñarro)
 
Novo trabalho que a Mostra traz do veterano cineasta espanhol Lluís Miñarro, de “Estrela cadente” (2014) e “Love me not” (2019 – que eu assisti na Mostra). Em um ônibus com destino ao além (isto mesmo, para a morte), um grupo de pessoas excêntricas segue a viagem pela noite afora. Ali estão duas amigas idosas com roupas extravagantes, bregas, que falam banalidades (como viagens e joias), um padre com desejos pecaminosos com homens mais novos, uma atriz pomposa que relembra a carreira, uma antropóloga cansada, uma mãe com a filha pequena levando flores ao cemitério. Eles viajam sem parada, até que Eros, o deus do amor, surge na forma de um garotão seminu, atiçando a vontade de muitos daquele ônibus. Comédia inusitada, do cinema absurdo, curtinho, que arranca algumas risadas, mas sempre em tom melancólico. Último trabalho da atriz frequente de Pedro Almodóvar Marisa Paredes (que faleceu na finalização do filme, em 2024), e participação da diretora japonês Nami Kawase. Está na programação da Perspectiva Internacional da 50ª Mostra de SP, com sessões ainda nos dias 25, 26 e 28/10.


 
Lorca: A voz partida
(Espanha/Argentina – 2026, de Manuel Menchón)
 
Excelente documentário de linguagem original, que mistura desenho com fotos, vídeos e paisagens, sobre Federico García Lorca (1898–1936), um dos mais importantes poetas e dramaturgos espanhóis, membro de destaque da chamada Geração de 27 e que foi brutalmente assassinado por causa de seus posicionamentos, como a defesa de ideias progressistas e da homossexualidade (considerada uma afronta pela direita ultraconservadora). Lorca tornou-se alvo prioritário logo no início da Guerra Civil Espanhola, preso várias vezes, considerado um agitador, que mobilizava a classe artística e parte da sociedade civil. Defensor dos marginalizados, autor de peças contestatórias e polêmicas (como “Bodas de sangue” e “Yerma”), foi detido e sumariamente fuzilado por milícias fascistas ligadas ao general Francisco Franco. Tinha uma genialidade artística única, revitalizando o teatro e a poesia moderna ao fundir o vanguardismo (como o surrealismo) com a rica cultura popular da região da Espanha onde nasceu e viveu, a Andaluzia. O filme parte de um arquivo secreto guardado por um dos últimos amantes de Lorca, o jornalista e escritor Juan Ramírez de Lucas – pouco antes de falecer, em 2010, Lucas deixou que se revelassem cartas trocadas entre os dois e materiais inéditos sobre Lorca. O longa é um arquivo vivo de importante relevância, que revela um novo Lorca ao público. A narração do filme é do ator espanhol Álvaro Morte, que ficou conhecido pelo papel de O Professor na série da Netflix “La casa de papel”. Exibido no Festival de San Sebastián, é um dos grandes filmes da 50ª Mostra, em exibição na seção Perspectiva Internacional nos dias 26, 27, 28 e 29/10.

Especial de cinema

 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao público:


 
A morte não tem dono
(Venezuela/Canadá/Itália/Luxemburgo – 2026, de Jorge Thielen Armand)
 
Exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, a produção venezuelana é a representante do país para uma vaga ao Oscar 2027 de melhor filme estrangeiro. Drama sobre colonialismo e disputa de propriedade, traz no elenco a atriz italiana Asia Argento, filha do mestre do cinema de terror Dario Argento, em um papel voraz, cuja trama fica toda em seu entorno. Ela é uma mulher de cinquenta anos que viaja para a Venezuela para vender a plantação de cacau do falecido pai. Chegando à antiga mansão da família, no meio da mata, repara que no lugar estão morando funcionários da colheita; ela tenta negociar a saída deles, mas a conversa é em vão. Resolve fazer justiça, pegando em armas para expulsar o grupo, o que inicia um banho de sangue. A violência de uma mulher branca, rica e herdeira, contra um grupo de trabalhadores rurais simboliza no filme o colonialismo, a disputa de posse que termina em sangue, num filme dramático autoral de ar sombrio (e com momentos que lembram o próprio terror psicológico). Há muitas qualidades técnicas e estéticas, da fotografia estranha, levemente distorcida, ao uso pontual dos sons da natureza, aliado a momentos de silêncio da protagonista, que parece entrar em um pesadelo sem fim. Não é uma obra fácil, há uma série de elementos históricos que remetem aos resquícios do colonialismo europeu, e muitos diálogos de embate. Os filmes do cineasta Jorge Thielen Armand (que é diretor, produtor e roteirista) trabalham nessa linha de memória e colonialismo, como em “La soledad” e “La fortaleza”. Está na seção Perspectiva Internacional da Mostra, com sessões nos dias 22, 23, 24 e 28/10.
 


Ray Gunn
(EUA/Canadá/Espanha – 2026, de Brad Bird)

Animação fresquinha, que acaba de ser exibida em première mundial nesse mês no BFI Londres e agora estaciona na 50ª Mostra, na seção Perspectiva Internacional. O filme é um barato total, para entrar de cabeça, ainda mais quem é inserido no mundo do cinema clássico; isso porque a animação (mais para adultos do que crianças) é cheia de metalinguagem e referências à Sétima Arte, numa divertida mistura de cinema noir com ficção científica (como se fosse uma fita B dos anos 50). O engraçado é a constante tensão do visual dos anos 40, com detetives de terno-e-gravata, em salas com móveis rústicos, com paisagens futuristas, de carros voadores. Na cidade de Metropia, tomada por arranha-céus de 800 andares, carros possantes que voam como aviões e luzes neon por todo canto, o charmoso detetive particular Ray Gunn (voz de Sam Rockwell) se envolve numa conspiração de assassinato e espionagem envolvendo uma estrela de cinema arrogante, Vênus Nova (voz de Scarlett Johansson), alienígenas e mafiosos. Para que sua investigação chegue ao fim, contará com ajuda do parceiro de polícia, um velho alienígena verde de um olho só, Olhívio (voz de Tom Waits). Humor, ação, romance, suspense, tudo vira uma boa miscelânea nesta que é uma das melhores animações do ano, original do começo ao fim, e que deve ser candidata ao Oscar 2027. Também uma homenagem ao cinema noir, com detetive em crise, femme fatale e o submundo do crime. Brad Bird é o diretor e roteirista, brilhante mais uma vez (ex-Disney e Pixar, criador de sucessos como “Os incríveis” e “Ratatouille”). Longa que demorou 30 anos para ser concebido (segundo Brad Bird), é produzido pela Skydance com a Netflix, e deve estrear no streaming em 18/12. Conta com sessões na Mostra ainda nos dias 22, 24 e 25/10.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Especial de Cinema

 
Mostra de Cinema de SP continua em sua segunda semana
 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao público:


 
Trilogia “A Batalha do Chile”
(Cuba/Chile/França – 1975 a 1979, de Patricio Guzmán)
 
Está na seção Filmes Restaurados da 50ª Mostra a trilogia “A Batalha do Chile”, documentário político monumental de Patricio Guzmán (o cineasta chileno viria para a Mostra, mas faleceu há menos de um mês, aos 85 anos). Além da Trilogia, a Mostra exibe outro documentário dele, “O primeiro ano” (1972), sobre o mesmo assunto (os anos do governo Allende e a derrocada institucional com o brutal Golpe Militar). Os filmes todos estão em excelente cópia restaurada, com distribuição pela Mubi, que também acaba de inserir a Trilogia em seu catálogo, já disponível no streaming. “A Batalha do Chile” é um registro histórico do final do governo de Salvador Allende até o Golpe Militar e seus desdobramentos na sociedade em 1973. É composta pelos capítulos “A Insurreição da Burguesia” (1975), “O Golpe de Estado” (1976) e “O Poder Popular” (1979), três produções feitas entre Cuba, Chile e França. São documentários em preto-e-branco reunindo gravações de jornalistas e do próprio Guzmán, que lutou contra a ditadura chilena por meio de seu cinema de contestação – ele chegou a ser preso após a morte de Allende, em 1973, e depois partiu para o exílio, para a França e depois Cuba, onde editou a trilogia. Os filmes estão com imagens recuperadas com ampla nitidez, juntos são um cinema documental aterrador dos bastidores da política turbulenta do Chile entre os anos de 1972 e 1975, focando na polarização dos dois grupos rivais à época – a Unidade Popular (UP), de esquerda, contra os grupos de centro, formado pelo Partido Democrata Cristão (PDC), aliado à direita, o Partido Nacional (PN), e na queda do governo democrático pelos militares, liderados por Augusto Pinochet. Na parte 1, “A Insurreição da Burguesia” (1975), acompanhamos a forte oposição ao governo da Unidade Popular (UP), incluindo greves patronais, boicotes econômicos, a agitação da classe média e a articulação de setores conservadores com apoio financeiro externo (como dos Estados Unidos); na parte 2, “O Golpe Militar” (1976), o enfoque são os dias decisivos de setembro de 1973, registrando a derrocada institucional, a movimentação das forças armadas e o bombardeio ao palácio presidencial de La Moneda, que culminou com a morte de Allende, e a consequente tomada do poder pelos militares. E por fim, na parte 3, “O Poder Popular” (1979), como a sociedade civil reagiu aos anos da ditadura, como se organizou para sobreviver em meio a reformas neoliberais profundas, forte repressão política e a desigualdade (aqui vemos centenas de grupos de poder popular resistindo e ajudando na distribuição de comida para os mais necessitados). Os filmes, exibidos em festivais como Cannes e Nova York, serão exibidos em dias diferentes e alguns em sequência, entre 22 e 28/10 (confira no site da Mostra as datas, horários e locais). Vale conferir.



O dia em que ela volta
(Coreia do Sul – 2026, de Hong Sang-soo)
 
11º filme do cineasta sul-coreano Hong Sang-soo exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP (desde 2011) e o nono que eu assisto aqui. Na edição deste ano tem ainda outro dele na programação, também produzido em 2026, “Onde repousar meus olhos” (vencedor dos prêmios de melhor direção, melhor atuação - para Kim Min-hee, e do Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Locarno). “O dia em que ela volta” é mais um olhar da vida cotidiana na Coreia, e mais um filme do que está por trás do fazer cinema: são seis capítulos curtos em torno de um dia na vida de uma atriz renomada (Song Seon-mi) que retorna à carreira após afastamento (segundo ela, por motivos de maternidade e vício em bebida). Animada, ela se senta em um bar alemão para dar entrevistas sobre sua carreira - os três capítulos iniciais são da atriz em três entrevistas distintas. Ali ela trata do passado e do presente, e fala muito sobre particularidades suas. Os capítulos finais são do retorno dela para casa e do reencontro com a filha. Quem conhece Sang-soo verá ali seu cinema por completo: enquadramento fixo por longo tempo, fotografia em um lúcido preto-e-branco, longos planos com diálogos, poucos cortes e poucos cenários/tomadas. Tem ali suas metalinguagens e seus desafios estéticos, numa história leve, com bom humor. Exibido nos Festivais de Berlim e Moscou, o filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23, 26 e 27/10.


 
Aqui não é o seu lugar
(Romênia – 2026, de Florin Serban)
 
O cotidiano de um cirurgião viúvo, chefe do principal hospital de uma cidade romena, é abalado quando o filho adolescente aparece com um machucado na perna e logo em seguida a polícia o investiga por um crime bárbaro (o assassinato de um homem com um objeto contundente na cabeça). A única coisa que o espectador vê, de repente, é um corpo jogado após um ataque noturno de uma gangue de rapazes mascarados que vandalizam carros na rua. Essa é a premissa de uma história de ritmo vagaroso, que privilegia longas cenas de ambiente interno, paisagens urbanas e olhares dos personagens (com seus silêncios que também comunicam). Florin Serban, o diretor, produtor e roteirista, opta por ser um observador daquela relação de pai e filho diante de uma tragédia que demora a ser explicada. Ele utiliza cortes de cenas na mesa de cirurgia, da cidade em movimento, do jantar entre pai e filho, da conversa do cirurgião no hospital etc. Não é uma obra fácil (até pela duração, de 154 minutos), com aquelas figuras solitárias melancólicas, de pouca comunicação. Eu gostei, pois entrei no clima da trama e nesse tipo de cinema que a Mostra costuma trazer e treinar o olhar do público para narrativas diferenciadas. Vencedor do Leopardo de Ouro e de outros três prêmios no Festival de Locarno, o drama com momentos de suspense integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 20, 22 e 25/10.



Chicas tristes
(México/França/Espanha – 2026, de Fernanda Tovar)
 
Gostei mais da composição e da técnica do filme do que a própria história (sobre amadurecimento de adolescentes, tantas vezes já exploradas no cinema). Vencedor do Urso de Cristal de melhor filme na seção Generation 14plus do Festival de Berlim deste ano, “Chicas tristes” traz duas amigas de 16 anos, Paula e La Maestra, que nutrem uma amizade inseparável. Elas praticam natação e são as melhores da equipe, e se preparam para o campeonato panamericano. Paula, numa noite entre amigos, fica com um rapaz e faz sexo com ele. No outro dia, La Maestra percebe algo estranho ocorrendo com Paula, que se distancia dela. A suspeita é de que a jovem tenha sido estuprada, o que muda radicalmente a relação entre as duas e de Paula com a família. Um filme que começa mais leve e vai se adensando com as complexidades daquela amizade profunda e do ocorrido com a personagem Paula. A parte técnica da qual falei envolve cenas belíssimas com uso de plongée e contra-plongée (como as imagens submersas na água na piscina ao som de “Anunciação”, de Alceu Valença”, do eclipse, do reflexo do celular para se comunicar com os aviões, tudo muito formidável e que dão uma rica moldura). Tem trilha sonora caribenha, com salsa, samba brasileiro e rock alternativo, e um bom trabalho das amigas, interpretadas por Rocio Guzman e Darana Alvarez. É o segundo filme mexicano que está na Mostra com trilha sonora brasileira (o outro é “Homem ao mar”, de GAL Garcia Bernal). Está na Competição Novos Diretores, com sessões nos dias 20, 21, 24 e 26/10.


 
A vida e as mortes de Wilson Shedd
(EUA – 2026, de Tim Blake Nelson)
 
Drama prisional baseado em história verídica que teve première recentemente no Festival de Toronto e agora chega com exclusividade à mostra de Cinema de SP. E é um dos melhores filmes desta edição, que recomendo. Escrito e dirigido pelo ator Tim Blake Nelson (em seu sexto filme na direção), que aparece numa ponta, o filme tem um grande trabalho de Amanda Seyfried como Karen, uma professora que vai trabalhar na reeducação de presos em uma penitenciaria de segurança máxima. Ela vai ensiná-los escrita criativa e noções de literatura. Um deles é Wilson Shedd (Scoot McNairy), preso por matar quatro pessoas, incluindo a cunhada; Karen o ajuda a desenvolver textos onde ele pode relembrar pontos do passado, incluindo os crimes, como forma de se livrar daquele tormento. A partir daí ela começa a entrar no universo de Shedd, lendo o que ele escreve; Karen se afeiçoa àquela figura errante, porém enigmática - no filme, a narração do ator conduz os flashbacks de sua vida pregressa ligada a crimes violentos. A professora enfrenta um dilema moral ao deixar sua rotina de lado para se entregar aos cuidados daquele homem encarcerado, ao mesmo tempo que enfrenta um relacionamento abusivo do namorado, com quem mora (ele bate nela com frequência e a trai com mulheres dentro de casa). Tudo muda quando Shedd entra para a lista dos próximos condenados no corredor da morte. Uma boa direção com ótimo trabalho do elenco, incluindo Scoot McNairy no papel-título. A sequência final é difícil de acompanhar e digerir, uma das cenas mais chocantes já vistas de pena de morte. Está na Perspectiva Internacional da Mostra, com sessões nos dias 
20, 22 e 25/10 – espero que o público assista a esse filme sério e duro, que traz questões sensíveis sobre violência doméstica, reeducação de presos e de pena de morte.


 
 
Na terra de Arto
(França/Armênia – 2025, de Tamara Stepanyan)
 
Cineasta nascida na Armênia, filho de atores, Tamara Stepanyan viveu como refugiada no Líbano nos anos 90 após a queda da União Soviética. Em 2025 ela escreveu e dirigiu dois filmes sobre seu país de origem, o documentário “Meus fantasmas armênios” (exibido em Berlim, sobre o pai ator e a carreira dela como diretora) e “Na terra de Arto”, uma ficção mas com pano de fundo real. O filme é autoral e se passa nos anos 2020, nos conflitos de terra de Karabakn, na região montanhosa do Cáucaso, que funcionou como um Estado autoproclamado independente e de maioria étnica armênia (chamado de República de Artsakh), mas que após a ofensiva militar ficou sob controle do Azerbaijão. Nessas terras chega Céline (Camille Cottin, atriz francesa, de “Casa Gucci”), que está pela primeira vez ali. Ela tem uma missão: acompanhar a documentação da morte de seu marido, Arto. Descobre que ele viveu com outra identidade, envolvido com a guerra na região. A ida de Céline para Karabakn será uma viagem de descobertas do falecido marido, que mora em sua mente como um fantasma; ela irá descortinar seu passado, percorrendo o território e relembrando seus passos. Drama emotivo e eficiente rodado nas verdadeiras terras de Guiumri, conta com ótima fotografia e bom trabalho de Camille Cottin, que sustenta o filme nas costas (veja uma participação rápida no final do multifacetado ator Denis Lavant). Exibido nos Festivais de Locarno e Jerusalem, é o representante oficial da Armenia para uma vaga ao Oscar 2027. O filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 25, 27, 28 e 29/10. Distribuição da Autoral Filmes.

domingo, 18 de outubro de 2026

Especial de cinema

 
50ª Mostra Intl. de Cinema de SP continua com importantes filmes em exibição
 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo filmes já assistidos e que indico:


 
Squel - Confissões de uma porta-bandeira
(Brasil - 2026, de Celina Torrealba e Zeca Brito)
 
Neste documentário assinado por Celina Torrealba e Zeca Brito, conhecemos a carreira de Squel Jorgea Ferreira, carioca nascida no Estácio que se tornou uma das mais respeitadas porta-bandeiras do Carnaval do Rio. O filme traça memória e atualidade, resgatando a ligação de Squel com o Carnaval, que vem de berço, e de desafios com a idade. Neta do compositor Xangô da Mangueira e filha de dançarina que desfilava na Estação Primeira de Mangueira, ela, no doc, relembra trechos marcantes da trajetória, do trabalho exaustivo e focado, e da ausência por um período nos desfiles devido à maternidade. Entusiasta do samba, Squel carrega no sangue a paixão pelo pavilhão, reconhecida pela postura elegante, técnica apurada e forte presença de cena, que conquistou as principais agremiações do Rio de Janeiro – ela defendeu na Sapucaí escolas de samba como a Mangueira, o Salgueiro e a Império da Tijuca, por exemplo. Squel se consolidou como uma referência cultural e feminina na preservação da arte dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, que inspira até hoje novas gerações de passistas por todo o Brasil. O filme tem produção da Donna Features, com coprodução da Anti Filmes. Além do roteiro, Celina e Brito dividem créditos de produção e fotografia – num trabalho conjunto afinado, de ótima edição, com cortes exatos de cenas de Squel de antes e de hoje (que completou recentemente 44 anos de idade). Integra a programação da Mostra Brasil na 50ª Mostra e conta com sessões nos dias 22 e 26/10. O filme tem previsão de lançamento nos cinemas brasileiros para 2027.
 

 
Homem ao mar
(México – 2026, de Gael García Bernal)
 
Poucos sabem, mas o ator mexicano Gael García Bernal também é diretor (além de produtor e roteirista), tendo no currículo 11 filmes dirigidos, entre curtas e longas. O novo trabalho dele, “Homem ao mar”, traz Bernal em múltiplas funções: diretor, roteirista, produtor e ator, interpretando o papel central dessa comédia dramática metalinguística eu trata o mundo dos bastidores do mundo do cinema. Ele é Camilo, um industrial, pai de um bebê, que mora com a esposa, Juana, que é atleta, numa casa antiga de pedra próxima ao mar. Ele é aficionado por uma novela brasileira "A liberdade", sobre um sindicalista preso na Ditadura (que descobrimos depois ser o presidente Lula). Camilo nasceu em Cuba, mas agora mora no México, enfrentando uma crise conjugal. Juana recebe um dinheiro do pai para financiar um filme sobre sua vida, ela será a diretora e roteirista, e contará com a mínima participação do marido na produção. Surgem na casa de pedra do casal duas novas personagens, uma jornalista e uma atriz que interpretará a atleta. O conflito do casal escala quando a mulher convida para o filme um ator bonitão (papel especial do cantor Ricky Martin), que será Camilo, um homem de comportamento estranho, cujo papel não tem semelhanças com a figura original. E os problemas só aumentam quando tanto a residência quanto a fábrica do marido se torna locações para as gravações. É um filme de muitos personagens, de história dentro de outra, que demonstra a vitalidade na direção de Bernal e a habilidade com ideias ousadas e originais (o ator, que sempre foi politizado, insere a história de Lula no filme como uma maneira de identificar os dois personagens). Reparem na trilha sonora brasileira, com Vinicius de Morais, Toquinho e Secos & Molhados. Exibido no Festival de Veneza, está na seção Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 18, 27, 28 e 29/10.
 

 
Uma família
(Holanda/Bélgica – 2026, de Mees Peijnenburg)
 
Um dos melhores filmes da Mostra deste ano, a coprodução Holanda/Bélgica retrata pelo ponto de vista de dois adolescentes a separação dos pais. São dois capítulos de 40 minutos cada: o primeiro traz a perspectiva de Nina (Celeste Holsheimer), uma garota que faz dança e está se descobrindo sexualmente (ficando com uma menina). Enfrenta crises nervosas, não se dá com a mãe e vê nos amigos de escola o apoio necessário para essa fase da vida. Os pais (interpretados pelo belga Pieter Embrechts e pela conhecida atriz holandesa Carice van Houten) se separaram, brigam pela disputa da casa e as intermináveis discussões respingam tanto em Nina quanto em Eli, seu irmão menor. O segundo capítulo é sobre Eli (Finn Vogels), como ele reage ao divórcio e o vai pra lá e pra cá como um boneco dos pais. Ele pratica natação, e passa o tempo pensativo, vez ou outra se distraindo com os amigos de escola. O filme apresenta situações iguais, mas captadas de ângulos diferentes por cada personagem em seu determinado capítulo. O diretor Mees Peijnenburg sabe trabalhar os olhares e gestos dos adolescentes diante da crise dos pais, captando o medo e aflição de Nina e Eli, mesmo nas cenas de silêncio profundo. Um bom filme, que nos mexe, emociona e termina de forma brilhante, de arrancar lágrimas (os dois jovens atuam muito bem, com destaque para o menino, Finn Vogels). Recebeu menção especial na seção Generation 14plus do Festival de Berlim deste ano. Está na competição Novos Diretores da 50ª Mostra, com exibição nos dias 20, 21, 23 e 24/10.



 
Full Phil
(França/Bélgica/Luxemburgo – 2026, de Quentin Dupieux)
 
Apreciadores do cinema nonsense/surrealista já conhecem Quentin Dupieux, que tem um estilo próprio com o “humor absurdo e morto” (chamado de “Deadpan”).  Também produtor musical e compositor, conhecido na música como Mr. Oizo, Dupieux costuma reunir dramas com comédia e cenas escatológicas e sangrenta em seus filmes, como em “Full Phil” (o desfecho explicará o título do filme). É o primeiro filme dele com elenco americano e falado em inglês – a maioria de seus filmes são franceses, já trabalhou com os principais nomes de lá, como Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Vincent Lacoste, Anaïs Demoustier, Léa Seydoux, Vincent Lindon e Louis Garrel. É um mestre nessa linguagem debochada e caricatural, agora fazendo um comentário crítico ao consumismo. Philip (Woody Harrelson), um industrial norte-americano, leva sua filha, Madeleine (Kristen Stewart) para uma viagem à Paris. Hospedam-se em um hotel de luxo e tentam uma reconexão após longo período de afastamento. Madeleine passa as horas comendo bolos e tortas, assistindo no notebook um filme scifi B, de um monstro que come cabeças humanas (no filme PB, há participação da atriz Emma Mackey). A chegada de Lucie (Charlotte Le Bon), uma funcionária do hotel, ao quarto ameaçará a aparente tranquilidade de pai e filha. Prepare-se por situações absurdas, grotescas, virando pastelão e gore, como é de se esperar no cinema de autor de Dupieux (quem viu dele “Rubber - O pneu assassino” e “Deerskin” sabe do que falo). É uma brincadeira a dois, com direito a um trabalho solto e à vontade de Woody Harrelson e Kristen Stewart. É o quarto filme de Dupieux na Mostra ao longo dos anos. Exibido no Festival de Cannes, está na seção Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 19, 22 e 27/10.
 

 
O samurai e o prisioneiro
(Japão – 2026, de Kiyoshi Kurosawa)
 
Kiyoshi Kurosawa é outro diretor frequente na Mostra de SP. Cineasta japonês premiado (ele não tem parentesco com Akira), ele realiza obras originais de terror misturado com scifi e dramas históricos, como é o caso deste “O samurai e o prisioneiro”, uma adaptação do romance “Kokurojo (The Samurai and the Prisoner)”, de Honobu Yonezawa, de 2020. A trama se passa no Japão Feudal, em uma região longínqua de domínio de um tirânico imperador, Nobunaga Oda. Um dia, lorde Murashige Araki se rebela contra ele e se encastela nas muralhas de sua casa, ao lado de samurais e familiares. O exército de Oda segue com tudo para destruir Araki, então ele faz um pacto com um prisioneiro de guerra, Kanbei Kuroda, considerado traidor, trancafiado no porão do castelo. Paralelo a isto, crimes misteriosos ocorrem debaixo do nariz de Araki, o que acende o alerta de um inimigo infiltrado na própria casa. É um filmão épico, com todos os elementos do cinema samurai do Japão Feudal, como disputa de território e poder, estratégias de guerra, jogos psicológicos e alianças improváveis para derrotar o inimigo. Preste atenção, pois são inúmeros diálogos, personagens com diversas camadas e subtramas envolventes. Exibido nos festivais de Cannes e Sydney, o filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 25, 26 e 28/10.

sábado, 17 de outubro de 2026

Especial de Cinema

 
50ª Mostra Intl. de Cinema de SP segue com filmes de destaque
 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo filmes já assistidos e que indico:


 
A ginasta
(EUA – 2026, de Charlotte Glynn)
 
Drama independente norte-americano, o filme é um pequeno retrato sobre a relação de pai e filha em uma cidade industrial do interior dos EUA no início dos anos 90. Monica é uma jovem ginasta, focada nos treinos para participar em breve de uma competição nacional. Certo dia fere o joelho num ensaio. Impossibilitada de continuar treinando, e muito aflita com o futuro, ela passa por sessões de fisioterapia e fica sob os cuidados do pai, um homem instável e mulherengo. Monica tem o apoio da treinadora, única pessoa com quem consegue se abrir (ela, para complicar, sofre bullying na escola). Dia a dia tenta lidar com o pai, que via na filha uma esperança de dias melhores inclusive de ajuda financeira em casa. Filme típico da Mostra, um trabalho pouco conhecido, que traz sinceridade nas atuações do trio central, composto pelos atores Ethan Embry (de “Comportamento suspeito”), Britney Wheeler e Margarita Levieva. Feito por uma diretora, Charlotte Glynn, que busca a potência do elenco em seus enquadramentos com closes e planos americanos, além do uso de uma fotografia correta. Exibido no Festival de Roterdã, está na Competição Novos Diretores da Mostra, com exibição nos dias 17, 18, 24 e 26/10.




Diário de uma camareira
(Romênia/França - 2026, de Radu Jude)
 
Mais um filme irreverente do diretor romeno Radu Jude, já ganhador do Urso de Ouro (pelo filme exibido na Mostra de 2021 “Má sorte no sexo ou Pornô Acidental”). Ele é um cineasta mega autoral, que costuma pintar uma Romênia contraditória, cercada pela hipocrisia, moralismo e a exploração do trabalho. Suas obras estão sempre na Mostra de SP, e desta vez, com “Diário de uma camareira”, ele revisita o clássico livro do francês Octave Mirbeau (lançado em 1900), que na década de 60 já havia virado filme pelas mãos de Buñuel. Bem diferente da versão do cineasta espanhol-mexicano, o filme já informa nos créditos iniciais que é uma “variação” do livro, em que atualiza a história para os dias atuais. Reunindo elenco francês (como os conhecidos Mélanie Thierry e Vincent Macaigne), a obra feita em duas línguas (francês e romeno) acompanha dois meses na vida de uma jovem camareira, Gianina (Ana Dumitrascu), entre início de outubro até o dia de Natal. É um pouco do dia a dia da garota, entre os cuidados de um menino de classe média e a relação com a família dele, os Donnadieu. Sua rotina é marcada pelas mesmas atividades (cozinhar, cuidar do menino); longe da filha, conversa com ela por vídeos no celular. Gianina quer ser atriz, e nas horas vagas passa a ensaiar uma peça política/erótica. Radu Jude utiliza de cortes secos e brutos, até interrompendo diálogos, para novamente ironizar falsos moralismos e criticar a sociedade e seus excessos. O humor está nos detalhes das conversas e em algumas cenas nonsense – as sequências das três peças de teatro que Gianina atua, por exemplo, podem não ser reais e sim imaginações da personagem. Gostei do filme, que serve para quem costuma apreciar o cinema desse diretor de linguagem própria. O filme integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 20, 21, 24 e 26/10 e 01/11.
 

 
A terra de meu pai
(Polônia/Alemanha/Itália/França - 2026, de Paweł Pawlikowski)
 
Um dos filmes mais aguardados da Mostra desse ano, o drama de época inspirado em fatos verídicos é o novo trabalho do diretor polonês Paweł Pawlikowski, que volta a discutir temas de guerra (como o nazismo e os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial), depois de “Ida” e “Guerra fria”. Aqui ele trata da relação da atriz e tradutora Erika Mann com o pai, o renomado escritor Nobel de Literatura duas vezes Thomas Mann (1875-1955), em sua viagem de volta, por um breve período, à Alemanha, com o fim da Segunda Guerra. O retorno à Alemanha com a filha (o que nunca ocorreu com ela, pelos relatos, mas sim em companhia da esposa) será de um vazio gritante, em um país dividido, quebrado e destruído. O ano é 1949, e Mann vai para lá no bicentenário de Goethe, seu “mentor” literário, para receber dois prêmios, um em Frankfurt e outro em Weimar, cidades respectivamente onde nasceu e morreu Goethe. Mann é uma persona non grata para boa parte dos intelectuais, acusado de traidor da pátria devido ao seu posicionamento político contra o regime nazista e à recusa em retornar à Alemanha após a queda de Adolf Hitler, Mann A acusação partiu majoritariamente de intelectuais e cidadãos alemães que haviam permanecido no país durante a ditadura nazista, vendo Mann deixar o país para ir aos EUA no nazismo. Mann está velho e enfrenta problemas com o filho, Klaus, um viciado em drogas (apesar de escritor e jornalista de mão cheia). Drama político, o filme traz muito sarcasmo e ironias, além de planos grandiosos com imagens marcantes (como a do funeral do filho e o gran finale numa catedral ao som da música clássica “Jesus bleibet meine Freude”, do alemão Bach). A fotografia em PB, típica do cineasta, é um trabalho de mestre, que gera todo os contrastes existenciais que o filme discute, sobre vida e morte, alento e desalento. Sandra Hüller como Erika e o veterano Hanns Zischler como Thomas estão formidáveis na construção dos personagens (e tem também uma participação mínima, de menos de cinco minutos, de August Diehl, como Klaus). Vencedor do prêmio de melhor direção em Cannes, é um forte candidato ao Oscar do próximo ano (nas categorias de fotografia, direção de arte, roteiro, filme estrangeiro e edição). O filme, distribuído no Brasil pela Imovision em parceria com a Mubi, integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 18, 19 e 20/10, e estreia nos cinemas em 29/10.

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

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