sábado, 7 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas


Kokuho – O preço da perfeição
 
O longa japonês exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes concorre ao Oscar de melhor maquiagem e cabelo, e é a estreia da semana nos cinemas brasileiros, com distribuição da Sato Company em parceria inédita com a Imovision. Foi fenômeno de público no Japão, talvez por retratar o ‘kabuki’, antiga e icônica manifestação teatral do país, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, cuja origem vem do século XVII, combinando música, dança e intepretação dramática em performances estilizadas e figurinos e cenários exuberantes. Baseado no romance de sucesso de Shuichi Yoshida (no livro de mesmo nome, “Kokuho” lançado em 2018), é um drama sensível, quase uma poesia humanista, cuja trama se passa em Nagasaki 20 anos depois da bomba, em 1964. Um jovem, Kikuo Tachibana (Soya Kurokawa), vê o pai, líder da máfia Yakuza, morrer. Desamparado, ele é adotado por um veterano ator de kabuki, Hanai Hanjiro (Ken Watanabe), que se apresenta em salões e clubes reservados para homens, dentre eles a famosa casa Tanba-ya. Kikuo vira um irmão de alma do filho do mestre, Shunsuke Ogaki (Ryûsei Yokohama). Os dois então entregam-se ao fazer artístico do kabuki – Kikuo muda de nome (para Toichiro), realizando performances notórias, em que apenas os homens podiam atuar (inclusive interpretando papeis femininos). Dividido em duas fases, com tempo presente e o desenrolar para os próximos anos (ou seja, a juventude e depois a idade madura do protagonista), tem um trabalho sério dos atores; Soya Kurokawa, que brilhou em “Monster” (2023), é Kikuo jovem, enquanto Ryô Yoshizawa, astro da franquia de quatro filmes de ação épica “Kingdom” (2019-2024), faz o personagem na idade adulta, quando vira Toichiro. Atores coadjuvantes também se destacam, como Ryûsei Yokohama (conhecido como dublador de animes no Japão) e Ken Watanabe, um monstro sagrado, indicado ao Oscar de coadjuvante por “O último samurai” (2003). Figurino e maquiagem saltam aos olhos, são elementos apurados e essenciais para a história, que trazem todo o conceito do kabuki, numa história marcada por irmandade e dedicação à arte. Além de Cannes, passou pelos festivais de Toronto, Shanghai, Bangkok, Busan e Rio. A direção é impecável, cheio de sutilezas, assinada por Lee Sang-il, cineasta japonês de origem coreana, que adaptou para o Japão o premiado filme de Clint Eastwood “Os imperdoáveis” (2013) e dirigiu a série “Pachinko” (2024). Quando assisti me remeteu a chinês “Adeus, minha concubina” (1993), cuja história traz semelhanças imediatas (a amizade duradoura, de mais de 70 anos, de duas crianças em meio ao fazer artístico, aqui a Ópera de Pequim). Como é uma obra autoral repleta de detalhes, no formato de uma saga, tem duração acima do normal, com 175 minutos (que, confesso, nem vi passar). “Kokuho” é imperdível, um dos melhores lançamentos do ano. Foi o representante oficial do Japão na shortlist do Oscar de filme estrangeiro de 2026, ficando de fora da lista dos indicados.
 

 
Por um destino insólito
 
Mais um clássico em edição comemorativa que a Pandora Filmes traz para o Brasil. Esta é a cópia restaurada em 4K, feita em 2024 para celebrar os 50 anos do filme italiano, exibida na seção ‘Veneza Clássicos’ do Festival de Veneza de 2024. O restauro dos negativos originais foi feito pela Cinemateca de Bolonha em parceria com a Minerva Pictures e a Mediaset, entregando um produto belíssimo quanto a imagem e som, com toda a cor vívida que a obra merecia. É uma das fitas mais cultuadas da cineasta italiana Lina Wertmüller (escrito e dirigido por ela), rodada na costa de Tortolí, na Sardenha, um lugar paradisíaco, com formações rochosas e um mar brilhante. A comédia dramática de sobrevivência envolve dois personagens que brigam todo o tempo, uma mulher e um homem, que enlouquecem quando o bote em que navegam quebra no Mar Mediterrâneo. Ela é Raffaella Pavone Lanzetti (Mariangela Melato), de nome pomposo, uma herdeira rica e prepotente, que não para um minuto de falar; ele é Gennarino (Giancarlo Giannini), marinheiro simplório anticapitalista, todo irritado e bruto. Os dois terão de conviver debaixo do sol escaldante quando o bote fica à deriva no meio do mar; quando conseguem chegar a uma ilha deserta, intensifica-se entre os dois um jogo de poder. Com muitas cenas em alto-mar, gravadas naquela região do sul da Itália, é um filme muito engraçado, com diálogos afiados e modernos sobre política e papeis de gênero, uma espécie de “A guerra dos Roses” na praia. Lina Wertmüller (1928-2021) era uma diretora politizada, por isso o filme não passa pano na discussão sobre estruturas sociais - feito exatamente num período onde o cinema italiano era carregado de engajamento, na era pós-Neorrealismo, no auge do cinema político de Elio Petri e Giuliano Montaldo. São apenas dois personagens que dominam a cena o filme inteiro, e a dupla Mariangela-Giannini está muito afinada. Raffaella e Gennarino vão escalando discussões de dentro do barco até a ilha, culminando na inversão de papeis (o que é uma mistura de humor ácido com crítica social). Lina e Giannini fizeram nove filmes juntos, e “Por um destino insólito” pode ser compreendido dentro de uma trilogia com “Mimi, o metalúrgico” (1972) e “Pasqualino Sete Belezas” (1975). Ela o dirigiu com Mariangela Melato no ano anterior em outra comédia, “Amor e anarquia” (1973), sendo a primeira mulher a receber indicação ao Oscar de melhor direção (por “Pasqualino”). Um ano antes de falecer, com 91 de idade, subiu aos palcos para ganhar um Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra, em 2020. Em 2025 “Por um destino insólito” saiu em um box em DVD pela Versátil, na caixa “O cinema de Lina Wertmüller”, com seis filmes em 3 DVDs. Como boa parte dos filmes italianos da época, o título original era longo, praticamente um manuscrito poético (“Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto). PS: O diretor Guy Ritchie o adaptou em 2002 como um presente para sua então esposa, Madonna, fazendo um dos piores filmes do cinema, “Destino insólito”. Madonna interpretou a personagem de Mariangela, e Adriano Giannini, o papel de seu pai, Giancarlo. O resultado: uma bomba catastrófica, vencedora do Razzie e que encabeça a lista de filmes que nunca deveriam ter existido...


Cine clássico



Levada da breca
 
Um paleontólogo todo correto (Cary Grant) viaja para uma cidade para encontrar vestígios de um esqueleto de brontossauro. Conhece, por acaso, uma herdeira doidinha e super agitada (Katherine Hepburn), que se apaixona perdidamente por ele. Os dois se envolvem em trapalhadas gigantescas.
 
Comédia maluca da RKO Pictures, um dos ‘Big five’ estúdios da Era de Ouro de Hollywood (que produziu, por exemplo, sucessos como “King Kong” e “Cidadão Kane”), e uma de minhas preferidas, que nunca canso de rever. É um barato ver Cary Grant e Katherine Hepburn se entregando de corpo e alma a uma história cheia de peripécias, e juntos mantêm química perfeita, em situações burlescas e descontroladas. Eles vivem um casal improvável que se enroscam em trapalhadas de tirar o folego. Há cenas memoráveis, como o acidente com um caminhão de aves, em que eles transportam uma onça mascote (de nome Baby, que dá nome ao filme), e quando Grant veste um roupão feminino cheio de plumas para receber visita em casa. É uma das grandes “screwball comedies” norte-americanas, as chamadas “comédias malucas” de Hollywood, um gênero popular da década de 30 que reunia personagens em inúmeras confusões, quase um pastelão, e que fazia as salas de cinema encherem de gente. Cary Grant virou símbolo deste tipo de filme, como pode ser visto em outros exemplares, como “Cupido é moleque travesso” (1937) e “Jejum de amor” (1940).


Ganhadora de quatro Oscars, Katherine está maravilhosa, trazendo a atenção toda nela como uma protagonista carismática e envolvente. Antes de virar um dos mestres do faroeste, dirigindo dezenas de westerns com John Wayne, Howard Hawks fez muitos filmes policiais, romances, dramas sociais e comédias, como esta. O filme foi lançado em DVD pela Versátil há muitos anos e recentemente saiu pela Classicline, na mesma versão, com ótima imagem e som.
 
Levada da breca (Bringing up baby). EUA, 1938, 102 minutos. Comédia. Preto-e-branco. Dirigido por Howard Hawks. Distribuição: Classicline
 
 

Estamos todos bem
 
Matteo Scuro (Marcello Mastroianni) é um idoso que bota um sorriso no rosto e viaja atrás dos filhos no dia de seu aniversário. Todo ano eles vinham visitá-lo em casa, saindo de diferentes regiões da Itália. Esse ano nenhum se prontificou a vir, então Matteo parte de trem para reencontrá-los, nesta que pode ser a última viagem de sua vida.
 
Drama melancólico com momentos de graça e humor com um personagem memorável, o velho Matteo, brilhantemente interpretado por Mastroianni, que integra a galeria de figuras inesquecíveis que ele fez na telona. No filme o idoso viajante de trem olha para a câmera e conversa com os espectadores, sempre risonho, enquanto segue um longo caminho para reencontrar os filhos – esta “quebra da quarta parede” ficou perfeita para o tipo de filme que se propõe, pensando em envolver o público na história, num estilo confessional. Ele é um idoso solitário, quase no fim da vida; puxa conversa com passageiros desconhecidos no trem, mostra a eles fotos antigas dos filhos quando crianças, mas as pessoas não dão bola. Ele está radiante, suas memórias o levam para 40 atrás quando os filhos passeavam com ele na praia. Fã de música clássica, colocou o nome deles de peças e personagem de óperas, como Tosca e Canio. Só que a realidade é outra – as crianças estão crescidas, são pessoas formadas, casadas, todos atarefados no trabalho. Matteo, tomado pelo amor e ao mesmo tempo solidão, parte nessa jornada atravessando o país em busca de um abraço. É um filme envolvente e que emociona, feito com maestria por um dos maiores cineastas vivos da Itália, Giuseppe Tornatore (hoje com 69 anos), que o rodou logo após o maior sucesso dele, “Cinema Paradiso” (1988). Prepare os lenços e embarque nesta viagem emotiva ao lado de Mastroianni, numa obra que discute a velhice e a relação de pais e filhos.


Indicado à Palma de Ouro, ganhou o prêmio do Juri Ecumênico em Cannes. A trilha sonora de Ennio Morricone, parceiro de Tornatore, é um deleite musical. Teve um bom remake americano, com Robert De Niro no papel central, “Estão todos bem” (2009), que também recomendo.
 
Estamos todos bem (Stanno tutti bene). Itália/França, 1990, 121 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Giuseppe Tornatore. Distribuição: Versátil Home Video

terça-feira, 3 de março de 2026

Resenhas especiais


Coleção “Rios vermelhos”
 
A Classicline, distribuidora brasileira de filmes em DVD e Bluray, acaba de lançar no mercado a coleção “Rios vermelhos”, em uma caixa com um DVD que traz os dois filmes policiais franceses da cinessérie. São eles: “Rios vermelhos” (2000) e “Rios vermelhos II – Anjos do apocalipse” (2004). Confira resenhas abaixo:


 
Rios vermelhos (2000)
 
O primeiro filme da cinessérie francesa é baseado no bestseller homônimo de Jean-Christophe Grangé, escritor especializado no universo da investigação policial, com direção precisa de Mathieu Kassovitz (também um ator renomado, que escreveu o roteiro do longa). A trama acompanha o veterano inspetor Pierre Niemans (Jean Reno), enviado à cidade universitária de Guernon, nos Alpes Franceses, para investigar um assassinato brutal. Paralelamente, a mais de 300 quilômetros de lá, o novato agente policial Max Kerkerian (Vincent Cassel) apura a violação do túmulo de uma criança. Os dois casos se entrelaçam, revelando um segredo macabro ligado à elite acadêmica local. O thriller psicológico com suspense, ação e mortes violentas (as vítimas têm os olhos arrancados) é construído com atmosfera sombria, num perfeito cenário na neve (uma metáfora do isolamento), contando com um ritmo tenso e visual estilizado. Segue a linha de filmes em que o assassino só é revelado no desfecho, guardando reviravoltas e surpresas para o final. Por meio da linguagem de um cinemão de entretenimento, trata de um tema sério, a eugenia, que preocupou a Europa por muitas décadas. O trabalho do elenco é um dos pontos altos: Jean Reno entrega uma performance sólida, de um investigador severo, marcada pela gravidade e pela experiência de seu personagem, enquanto Vincent Cassel traz outra energia, um jovem inspetor que ouve rap e curte lutas marciais – eles criam uma dupla contrastante, mas que se completa no trabalho. A atriz Dominique Sanda aparece como uma freira cega, que auxilia na investigação, e o veterano Jean-Pierre Cassel, pai de Vincent, interpreta um médico. Exibido no Festival de San Sebastian, recebeu cinco indicações ao César, o Oscar francês, dentre as categorias a de melhor direção e de fotografia. Na época foi um dos grandes filmes do ano de policial com suspense, marcando o público e ganhando uma continuação em 2004, com o mesmo Jean Reno.

Rios vermelhos (Les rivières pourpres). França, 2000, 106 minutos. Ação/Suspense. Colorido. Dirigido por Mathieu Kassovitz. Distribuição: Classicline


 
Rios vermelhos II – Anjos do apocalipse (2004)
 
Quatro anos depois de “Rios vermelhos”, Jean Reno retorna na continuação como o inspetor Pierre Niemans, agora nomeado comissário. Ele investiga uma série de assassinatos em uma abadia, que parecem estar ligados a uma seita religiosa e a manuscritos apocalípticos. Para resolver o caso, conta com a ajuda do capitão Reda (Benoît Magimel), formando uma nova parceria. Quem os auxiliará na busca do cruel assassino que usa capuz e vestes de monge será uma policial especializada em estudos de religião, Marie (Camille Natta). A mudança de direção do primeiro para o segundo filme, de Mathieu Kassovitz para Olivier Dahan, não altera o resultado do suspense e ação, já que o filme tem ritmo acelerado e reviravoltas em uma trama complexa de investigação que atinge o Vaticano. O elenco mantém a força do protagonista, com Reno transmitindo autoridade e introspecção. Magimel adiciona frescor e dinamismo na dupla improvável de agentes policiais. O veterano astro de filmes de horror Christopher Lee faz participação especial, em mais uma interpretação de vilão em sua vasta carreira. A história tem tom sombrio, repleta de simbologias sacras que beira o gótico, com uma fotografia escura nos interiores de uma antiga abadia (filmado na verdadeira Abbaye Saint-André de Lavaudieu, em Le Bourg, abadia beneditina francesa do século XI), reforçando o suspense quase terror do longa – e que lembra “O nome da rosa”. Escrito e produzido por Luc Besson, velho parceiro de trabalho de Jean Reno, que fizeram juntos “O profissional” (1994). O diretor Olivier Dahan anos mais tarde dirigiria o premiadíssimo “Piaf – Um hino ao amor” (2007).

Rios vermelhos II – Anjos do apocalipse (Les rivières pourpres II - Les anges de l'apocalypse). França/Itália/Reino Unido, 2004, 100 minutos. Ação/Suspense. Colorido. Dirigido por Olivier Dahan. Distribuição: Classicline


segunda-feira, 2 de março de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas e streamings - Parte 2


Feliz aniversário em Belgrado
 
Estreou no fim de semana pela Pandora Filmes a cultuada comédia dramática da Sérvia, estreia da diretora e roteirista daquele país, Milica Tomović. Lançado em 2021 na seção Panorama do Festival de Berlim (concorrendo ao Teddy Bear, que premia filmes de temática gay), traz uma trama divertida sobre uma festa de família que dá errado. O ano é 1993, na capital da então Iugoslávia, Belgrado, num período marcado pela desintegração do país, com protestos pelas ruas, sanções internacionais, ataques por bomba pela OTAN e hiperinflação. É um período turbulento dentro e fora, e para o povo, caótico nas questões sociais e políticas. Mesmo em face às dificuldades, Marijana (Dubravka Kovjanic) quer manter a família unida e para isto acontecer, organiza a festa de oito anos da filha Minja (Katarina Dimic). O aniversário, simples e improvisado, ganha cores com fantasias das Tartarugas Ninja, um bolo feito com margarina barata e refresco em garrafas reaproveitadas. Enquanto as crianças brincam sem limites, os adultos se reúnem na cozinha, e ali começam discussões políticas, flertes, bebedeira e “lavação de roupa suja”, revelando tensões e afetos de uma geração que presenciava em tempo real o colapso da Iugoslávia (que se desmembraria, entre 1991 e 1995, em sete países, como Croácia, Macedônia do Norte e Sérvia). A diretora, nascida em 1986 na antiga Iugoslávia, conta que há no filme lembranças de sua infância (podendo ser ela a garotinha Minja), ou seja, fez uma obra nostálgica, com críticas sociais e um humor mordaz. Há um paralelo com os estranhos tempos atuais, de guerras avassaladoras - a região onde a diretora vive, nos Balcãs, está colada à Ucrânia, atacada pela Rússia desde 2014. Filme de arte bem posto, atual, que mexe com nossos sentidos.
 

 
Embaixo da luz de neon
 
Indicado ao Oscar de melhor documentário na edição deste ano, o profundo e emocionante filme acompanha a intimidade das poetisas Andrea Gibson e Megan Falley, focando no diagnóstico de câncer incurável de uma delas. Revela uma jornada marcada por humor, poesia e amor inabalável em meio ao penoso tratamento oncológico de Andrea (que era também ativista em prol dos direitos LGBTQIAPN+). A fotografia no interior da residência do casal, com um brilhante jogo de luzes, reforça as imagens delicadas do carinho entre as duas mulheres, fazendo do longa uma obra sincera, que nos toca e faz encher os olhos de lágrimas. É uma poesia visual que metaforicamente remete ao trabalho delas (que escrevem poemas). O diretor Ryan White, de “Boa noite Oppy” (2022), constrói uma história difícil, mas que equilibra leveza e dramaticidade, mostrando como o casal transforma a mortalidade em celebração da vida. O título faz referência à ideia de encontrar beleza mesmo em tempos sombrios. Após conquistar prêmios em festivais internacionais, como Sundance, Seatlle e Cleveland, estreou na Apple TV em novembro de 2025. É forte candidato para ganhar o Oscar este ano, um filme de abordagem diferenciada, muito espirituoso, que não se concentra apenas em mostrar a doença da personagem retratada, e sim como ela ressignifica a dor e a proximidade da morte em algo que sublima a própria existência.


domingo, 1 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 1


Arco
 
Indicado ao Oscar de melhor animação neste ano, “Arco”, primeiro longa dirigido por Ugo Bienvenu, com codireção de Gilles Cazaux, que foi do departamento de arte de “Planeta fantástico” (1973) e da série “As aventuras de Tintim” (1991-1992), acaba de chegar aos cinemas pela Mares Filmes, em parceria com a Mubi. Coprodução França, Reino Unido e EUA, é um dos filmes mais bonitos, coloridos e sensíveis da safra atual. Desde sua estreia mundial no Festival de Cannes, ele tem chamado atenção pela combinação do visual, com elementos gráficos marcantes, e o roteiro delicado, que em muitos aspectos lembra “ET – O extraterrestre” (1982). A animação acompanha a jornada de Arco, um menino de 10 anos que mora com os pais em outro planeta, num futuro distante (perto do ano 3000). As casas do futuro ficam em comunidades suspensas por plataformas de metal, acima das nuvens. Arco tem o sonho de fazer seu primeiro voo; ele bota sua capa de arco-íris, mas uma tentativa inesperada o lança em uma viagem no tempo, transportando-o para o ano de 2075. Ele cai em um mundo desconhecido, não entende para onde foi. Ele está na casa de uma menina de sua idade, chamada Iris, que mora com um robô faz-tudo, Mikki, em uma cidade protegida por uma redoma de vidro. Os três se tornam próximos, embarcando em uma missão para devolver Arco ao seu lar – no entanto serão caçados por um trio de exploradores e cientistas que detêm um objeto importante do menino do futuro, que sem ele não poderá viajar no tempo para voltar para casa. A estética de “Arco” é um espetáculo de encher os olhos: criado inteiramente em animação 2D, reúne cores vibrantes, que evocam a leveza da infância e, ao mesmo tempo, a estranheza de um futuro tecnológico. A paleta cromática funciona como recurso narrativo: tons quentes remetem à esperança e ao vínculo humano, enquanto os frios reforçam a atmosfera futurista e a solidão das cidades protegidas por redomas. A fluidez dos traços e a composição das cenas criam uma sensação de movimento constante, como se o próprio tempo fosse uma personagem. Essa escolha estética confere ao filme identidade visual particular, que faz uma transição entre a tradição da animação artesanal com uma fita contemporânea e imersiva. É uma aventura fantástica, também uma reflexão para jovens e crianças sobre o tempo, a memória e os laços da infância, que celebra a imaginação. Segundo o diretor Ugo Bienvenu, roteirista do filme, ele o escreveu na pandemia da covid, trazendo dois personagens solitários em suas casas (uma referência ao isolamento social provocado pelo vírus) e buscando levar ao público jovem uma mensagem de otimismo em tempos de crise. Além da indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro de animação, foi nomeado ao Bafta de melhor filme para crianças, cinco indicações ao César, incluindo melhor animação, cinco indicações no Annie Awards, e o prêmio de melhor filme no maior festival de filmes infanto-juvenis do mundo, o Annecy. A produção é assinada pela atriz Natalie Portman, que comprou e investiu na ideia. Para ver, encartar-se e se emocionar.

 
 
A sapatona galáctica
 
Outra animação que segue nos cinemas, desde o dia 12 de fevereiro, esta para adultos, é a fita australiana “A sapatona galáctica”, premiada em diversos festivais pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Dirigido pela dupla Emma Hough Hobbs e Leela Varghese, combina comédia, aventura e elementos do mundo da ficção científica em uma história doidinha de um romance queer intergaláctico, não deixando de levantar a bandeira da representatividade como manifesto público. A protagonista é Saira, uma princesa espacial lésbica, bastante tímida, recém-abandonada pela ex-namorada, Kiki, uma caçadora de recompensas. Quando Kiki é raptada por criaturas perigosas (os “homeliens”, um grupo de homens héteros valentões), Saira decide resgatá-la, seguindo uma longa viagem entre dois mundos com uma nova amiga, uma cantora pop não-binária. As duas, numa nave capenga, cheia de problemas técnicos, cruzará a “gayláxia”, obrigando Saira a enfrentar medos e limitações. O filme é um barato, um caos danado, com diálogos engraçados, alguns apimentados, e forte comentário social do universo queer. Integra a safra das animações contemporâneas ousadas, escapando das convenções e banalidades para levar uma discussão sobre amor gay, respeito, identidade, pertencimento e autoconfiança – a protagonista, em vez de armas, usa o discurso para lutar (algo muito representativo e demolidor). As personagens são divertidas, a aventura é perspicaz, a estética é um desbunde de cores chocantes e formas inusitadas. A irreverente animação percorreu um circuito prestigiado de festivais internacionais, como Berlim, Sydney e Rio, onde conquistou o Prêmio Félix no ano passado, dedicado a produções nacionais e internacionais de temática LGBTQIAPN+. Outro prêmio que recebeu no Brasil foi o de melhor Filme Internacional pelo público, no MixBrasil, festival que existe há mais de 30 anos voltado à diversidade. Ainda nos cinemas pela Synapse Distribution.



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas e no streaming – Parte 2


A rainha do xadrez
 
Produção americana da diretora indicada ao Oscar pelo documentário “Last days in Vietnam” (2014) Rory Kennedy, filha do senador Robert Kennedy (assassinado em 1968, seis meses antes de ela nascer). A documentarista de olhar técnico realiza aqui um bom filme da Netflix, um doc sobre Judit Polgár (1976-), enxadrista húngara reconhecida como a melhor jogadora de xadrez de todos os tempos. Ela foi uma garota prodígio, tornou-se a Grande Mestra mais jovem da História, aos 15 anos, derrotando 11 campeões mundiais, incluindo o sagaz Garry Gasparov. Judit quebrou barreiras de gênero ao competir em um circuito absolutamente masculino. O filme é empolgante, bem realizado e que passa rápido, com depoimentos atuais de Judit e da família, incluindo o pai, László Polgár, que foi mentor por trás de tudo – ele tirou a menina da escola nos anos 80, montou um bunker de xadrez em casa para dar aulas para ela, num treinamento exaustivo que rendeu o resultado esperado. Também tem cenas de torneios que ela participou entre as décadas de 80 e 90, como as competições com Gasparov (retomaram aqui aquela partida polêmica que quase foi judicializada, um incidente em 1994 que ficou conhecido como “Toque-lance”, em que Gasparov moveu o cavalo, mas antes de soltá-lo, ao perceber o erro que poderia custar a partida, reposicionou rapidamente a peça). Um dos tantos documentários ótimos da Netflix, que estreou no início desse mês.
 

 
Living the land
 
Premiado com o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim (para o diretor chinês Huo Meng, em seu segundo filme, que traz traços do anterior, “Guo Zhao Guan”), “Living the land” (em português, “Cultivando a terra” ou “Vivendo a terra”) é um drama cativante que acompanha um longo processo de rituais de vida e trabalho de uma numerosa família na China rural dos anos 90. Filhos, pais, netos, avós e tios trabalham num pequeno lote de terras, onde também residem. Do nascer ao pôr-do-sol, sob sol e sob chuva, a família de agricultores cultiva trigo, matéria-prima de onde tirarão o sustento. Percebem que aldeões da região migraram para cidade em busca de novas oportunidades, porém optam em permanecer ali. Um dos filhos daquele núcleo pretende se casar e ir embora para a metrópole, deixando a família. O filme se mostra na essência daqueles agricultores durante o ciclo de um ano, acompanhando-os em suas passagens/ritos, como casamento e funeral, além dos conflitos cotidianos. É uma fita de arte contemplativa que transforma nosso olhar, registrando um contexto específico de uma época, a da abertura da China na virada dos anos 80 para os 90, com as reformas econômica e social, a mecanização do campo, a migração da área rural para a cidade e o fim das tradições milenares devido à modernidade. O olhar do diretor Meng (também roteirista e montador do longa) é ao mesmo tempo íntimo e panorâmico – ele cria esse embate cênico, com cenas nos detalhes e de repente longas tomadas abertas da propriedade de terras onde a família mora. Há muitas sequências de silêncio, sem trilha ou diálogos, só com a abundante paisagem rural à nossa frente. Personagem carismático do filme, Chuang, de 10 anos, aquele que permanece em sua aldeia enquanto tantos partem para as cidades, funciona como metáfora da resistência e da perda – e o menino é a representação do diretor do filme quando menor, já que a história é inspirada em sua família, criada no campo. A fotografia das terras agrícolas são verdadeiros quadros, uma pintura belíssima, sendo um grande acerto de filmagem, que traduz o que o diretor pretendia passar (e lembrar). Um filme tocante, que mexeu comigo - fiquei maravilhado e também refletindo por horas sobre essa bonita obra cinematográfica. Está disponível nos principais cinemas brasileiros, pela Autoral Filmes.
 
 
Paulo e Eliana
 
Rodado ao longo de 13 anos (2008–2021), o documentário “Paulo e Eliana” revela com rara sensibilidade o cotidiano de dois sobreviventes do surto de poliomielite que atingiu São Paulo nos anos de 1960. Paulo Henrique Machado e Eliana Zagui faziam parte de um grupo de 20 pacientes infantis internados no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo afetados pela pólio. Tetraplégicos, eles foram os únicos que resistiram à doença, vivendo para sempre em uma cama em um mesmo quarto no HC, dependentes de respiradores artificiais. Paulo e Eliana desenvolveram forte vínculo de amizade e transformaram essa condição em matéria de reflexão sobre resistência e desejo de viver. O filme (lançado em 2024, pouquíssimo comentado, e que descobri por acaso na plataforma do Sesc Digital) acompanha a rotina da dupla inseparável, incluindo suas conquistas fora das paredes do hospital. Paulo tornou-se youtuber, criando um canal geek sobre cinema e música e que também compartilhava experiências no HC – mantendo-se ativo até sua morte em 2020, aos 51 anos; já Eliana, encontrou na arte e na escrita uma forma de expressão: pintava e escrevia com a boca, publicou livros, até que em 2019 deixou o hospital para se casar, mudando-se para a casa do marido em Sumaré, no interior paulista. Mesmo diante da dificuldade de locomoção conseguiram viajar, frequentar shows musicais e experimentar pequenas vitórias. O longa acompanha a vida hospitalar como espaço de formação, mostrando a amizade de Paulo e Eliana como uma relação de cumplicidade em um lugar marcado por dependência e isolamento. Em frente às câmeras, mostram como são: sonhadores, brincalhões, criativos e generosos. É uma história de amor pela vida, que emociona os mais sensíveis, e serve como convite à reflexão sobre inclusão e sobrevivência. Lançado em 2024, foi produzido pela Canal Aberto e 11: Onze Filmes, com direção de Neide Duarte e Caue Angeli. Está disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, em https://sesc.digital

Nota do blogueiro

 
Cine Debate exibe amanhã filme sobre eutanásia com Denise Fraga
 
O Cine Debate, projeto de extensão do Imes Catanduva em parceria com o Sesc, exibe amanhã, dia 28/02, a partir das 14 horas, a comédia dramática “Sonhar com leões” (2024), coprodução Brasil, Espanha e Portugal. O filme participou de festivais internacionais como Tallinn e Guadalajara, foi premiado no Festival de Gramado e tem Denise Fraga no elenco. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, na sala de ginástica do Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida.

Sinopse – Gilda (Denise Fraga) é uma imigrante brasileira que vive em Lisboa. Descobre uma doença terminal, que pode dar a ela apenas um ano de vida. Determinada a assumir o controle do próprio destino, Gilda busca uma organização clandestina que promete ajudá-la a realizar a eutanásia.

 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. No próximo mês (em 28/03) o filme exibido no projeto será “Suçuarana” (2024), produção brasileira exibida nos festivais de Chicago e Brasília. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

Estreias da semana – Nos cinemas

Kokuho – O preço da perfeição   O longa japonês exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes concorre ao Oscar de melhor maquiage...