terça-feira, 11 de agosto de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Insaciável
 
O cinema de terror australiano vem ganhando forma nos últimos anos, redesenhado do movimento Ozploitation dos anos 70 e 80 que ativou o gênero no país. “Insaciável” é um bom exemplo de como se fazer filmes assustadores com dimensão crítica. Eu o vi na première europeia na Berlinale desse ano, na sessão Berlinale Special Midnight, ainda com o título original, “Saccharine”, e gostei muito. E agora o filme acaba de estrear nos cinemas do Brasil, pela Diamond Films. É uma produção independente escrita e dirigida por Natalie Erika James, de outro bom filme cult de terror de anos atrás, “Relíquia macabra” (2020). É um terror psicológico com forte comentário à cultura fitness, com ecos de body horror. O inquietante longa acompanha Hana (Midori Francis, de “Bons meninos”), uma estudante de Medicina que descobre uma fórmula mágica para emagrecer: comprimidos manipulados em laboratório com cinzas de pessoas que foram cremadas (é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de comer doces e percebe que seu peso estagnou mesmo frequentando academia - e quando experimenta a pílula, vê o resultado em poucos dias. Hana não conta para ninguém sobre o remédio. Paralelamente a isto, nas aulas de anatomia, estuda a dissecação de um cadáver de aparência chocante, a de uma mulher com mais de 200 quilos, toda inchada. Hana sente algo estranho naquele corpo estirado na mesa e passa a ter alucinações. O pesadelo na vida da universitária atinge o ápice quando o fantasma da morta aparece para ela em reflexos nos talheres de cozinha, nos cantos da casa, perto da geladeira. O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher disposta a qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de corpo humano demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema que o longa procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que realmente provocam medo, numa boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem no elenco Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”, aqui no papel da melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido ator australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da protagonista). Filme de terror para o público que curte uma reinvenção no gênero.


Ágon
 
Fita cult escondida no streaming da Mubi, “Ágon” (2025) é uma obra simbólica e de estética subversiva que desmonta a aura heroica do esporte olímpico para revelar sua face mais dura e silenciosa. No longa, três atletas italianas (uma judoca, uma esgrimista e uma atiradora) estão em meio aos fictícios Jogos de Ludoj de 2024. Elas, em seus mundos particulares, enfrentam dilemas: uma luta contra uma lesão que ameaça a carreira, outra revive o trauma de um acidente que expõe os limites da ética esportiva, e a terceira mulher encara o julgamento público nas redes sociais. Os lances rápidos, os cortes secos, os raros diálogos, num estilo semi-documental, com câmera próxima e fotografia granulada, formam a estética reveladora desse filme de arte para público específico, que marca a estreia do cineasta Giulio Bertelli – ele escreveu o roteiro de forma colaborativa com outros cinco roteiristas. O título é uma referência ao termo grego agon que significa “conflito”, surgido há mais de 2300 anos na Grécia Antiga, que descrevia tanto os jogos olímpicos e competições artísticas quanto os debates formais no teatro ou na filosofia, representando o impulso humano para vencer e buscar a excelência. O termo espalhou-se para a Mitologia (nome de um daimon, um espírito ou divindade menor que personificava os desafios e as disputas solenes), e foi amplamente utilizado no teatro grego, para designar o momento de debate formal ou confronto verbal entre dois personagens, base sintética para termos que viriam a posteriori, como protagonista e antagonista. No filme o ágon é um embate tanto físico quanto duramente psicológico e social, que rompe com a estrutura das vidas das personagens para sempre. O filme também faz uma crítica ao espetáculo olímpico: por trás da busca pelas medalhas há corpos exaustos e identidades pressionadas pela mídia para se chegar ao pódium. Coprodução Itália, França e EUA, o filme recebeu dois prêmios especiais na Semana da Crítica do Festival de Veneza 2025.


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Confira resenhas de seis documentários imperdíveis – três deles em exibição nos principais cinemas do Brasil e outros três nos streamings Sesc Digital e Netflix.


Miguel Ángel Blanco: As 48 horas que mudaram a Espanha
 
Documentário investigativo da Netflix, feito na Espanha, sobre o “Caso Miguel Ángel Blanco”, um sequestro seguido de morte que vitimou o jovem político espanhol de 29 anos, cometido pelo grupo separatista basco ETA em 1997. Economista de formação, Blanco era na época vereador do Partido Popular (partido liberal e conservador). Conhecido pela vida simples, era apaixonado por música e esportes. Em julho de 1997, foi sequestrado por membros do ETA, que exigia do governo espanhol a transferência de seus presos para cárceres no País Basco em até 48 horas, sob ameaça de executar Blanco. O ultimato gerou uma onda de protestos pela Espanha inteira, que tomou conta das ruas das principais cidades, com milhões de pessoas que pediam a libertação do político. A mobilização, social e política, era uma tentativa de impedir o assassinato de Blanco. Quando o prazo expirou, o ETA cumpriu a ameaça, baleando o político com um tiro na cabeça. O jovem ficou vários dias no hospital lutando pela vida, gerando nova onda de comoção no país. Na época, o ETA tocava o terror na região – fundado em 1959, o “Euskadi Ta Askatasuna”, que em basco significa "Pátria Basca e Liberdade", assassinou até aquela data 800 indivíduos, como policiais, militares, políticos e funcionários do governo espanhol. O caso de Miguel Blanco tornou-se um divisor de águas na relação da sociedade espanhola com o terrorismo: o país uniu todos os partidos políticos em prol da criação de novas leis para criminalizar o ETA e os atentados terroristas em geral. O que também colaborou para o declínio do grupo separatista, que encerrou a luta armada em 2011 e se dissolveu por completo em 2018. O documentário é composto por vasto arquivo de época, como reportagens de TV e entrevistas, além de depoimentos atuais de pessoas ligadas ao caso. Filme feito com seriedade e ampla pesquisa, tratando como a mídia sensacionalizou o caso, mas também foca no despertar da consciência coletiva em torno de uma tragédia que virou um símbolo de resistência e luta.

 
Amor tóxico
 
Outro documentário investigativo da Netflix na linha de true crime, desta vez um complexo triângulo amoroso com inúmeras reviravoltas. Como são três personagens envolvidos em uma imbricada história de casamento, obsessão e manipulação psicológica, é bom prestar bastante atenção para não perder o fio da meada. O caso em questão ocorreu na cidade de Anaheim, Califórnia, entre 2016 e 2021. A história gira em torno de Ian Diaz, um oficial de justiça recém-casado com a esposa Angela Connell, grávida na época, e a ex-noiva dele, Michelle Hadley, que acabou acusada de perseguição (stalker). Tudo começou quando Angela passou a receber emails ameaçadores de um remetente anônimo que se identificava como “Lilithistruth”. As mensagens, algumas obscenas, outras de ameaça de morte, falavam em vingança, num tom perturbador. Angela acionou a polícia duas ou três vezes (e o filme mostra todas as gravações caseiras da época, de celular e câmeras de vigilância internas da casa), porém a situação escalou para uma invasão à casa de Diaz e a tentativa de estupro da mulher. Michelle, a ex, foi acusada dos crimes e presa após minuciosa investigação de que ela estaria por trás do envio dos emails. A mídia a retratou como vilã em uma narrativa de ciúme e vingança. No entanto, uma nova linha de investigação se abriu, descobrindo que o caso era muito mais complexo: tanto Angela quanto Ian atuavam diretamente numa rede de manipulação digital e falsificação de provas, que confundiu autoridades policiais, juízes e, claro, a opinião pública. O documentário, com plot twists absurdos, que parecem ter saaídos de filmes eletrizantes de ação (só que aqui é a vida real), mostra como esse episódio se transformou em um verdadeiro “circo midiático” acusando pessoas injustamente. Fiquei na frente da TV sem piscar, nesse bom documentário da Netflix que instiga e nos faz pensar como a justiça pode ser falha, jogando para a cadeia pessoas inocentes.


 
Ecos do Teatro Experimental do Negro
 
A Pandora Filmes lançou nos cinemas no final de semana passado esse grande (e praticamente desconhecido) documentário independente que vale o ingresso (e muito mais a reflexão). “Ecos do Teatro Experimental do Negro” tece um olhar cuidadoso, e com muita pesquisa e entrevistas, sobre os atores e atrizes pretos no palco brasileiro. O filme foca no surgimento do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado em 1944 por Abdias do Nascimento, e as históricas encenações mantidas pelo grupo por duas décadas (até 1961). Nascimento foi um artista múltiplo, ator, poeta, escritor, dramaturgo e artista plástico, além de professor universitário, senador e ativista dos direitos humanos. Apesar do temperamento difícil como apontam alguns entrevistados, foi uma das vozes para consolidar a arte negra nos palcos e nas telas, rompendo padrões e estereótipos da época. O TEN virou um marco cultural ao colocar elenco inteiramente negro no centro da cena teatral e transformar o teatro em espaço de afirmação política e estética contra o racismo. O TEN nasceu da indignação de Abdias do Nascimento ao que na época era a naturalização da blackface (um ator branco se pintar de tinta preta para interpretar um personagem negro). A blackface foi um recurso muito utilizado no cinema desde seus primórdios, além da TV e no teatro, levando o TEN a criar um projeto que propiciasse protagonismo a atores negros, bem como sua formação profissional (na época uma das defesas do uso da blackface foi de que haviam poucos atores e atrizes negros, o que de fato existiu mesmo, conforme apontam entrevistados do documentário). O TEN colaborou para a reafirmação da identidade negra e um local para se expandir a conscientização social. Reunia gente comum que queria ser ator: trabalhadores, empregadas domésticas e pessoas sem formação artística, oferecendo cursos de alfabetização e iniciação cultural para que pudessem atuar. Contribuíram para o grupo pensadores e dramaturgos brancos, como Darcy Ribeiro, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues (que escreveu peças para o TEN, como “Anjo Negro”). A primeira peça do TEN ocorreu em 1945, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com “O imperador Jones”, uma peça clássica de Eugene O’Neill, tradicionalmente feita por brancos, só que agora por um elenco negro (citado no filme). No documentário vemos nomes ligados ao TEN, como Ruth de Souza e Léa Garcia, que se tornariam grandes atrizes do país. Outros entrevistados contam a influência do TEN em suas carreiras, como os veteranos atores Zezé Motta e Milton Gonçalves, a poetisa Leda Maria Martins, o cineasta Joel Zito Araújo e nomes da TV e do cinema atuais, como Taís Araújo, Lázaro Ramos e Ailton Graça. Daqueles filmes para sair pensando e olhar como as artes evoluíram de meio século para cá na questão racial (mesmo sabendo que ainda há muito a ser construído para se chegar à igualdade social).
 

 
A fabulosa máquina de colher ouro
 
Interessantíssimo documentário independente chileno dirigido por Alfredo Pourailly que está disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital. Rodado em 2024, traz denúncia social e poesia visual para narrar a vida de Toto, um garimpeiro de 60 anos que vive na Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina. Ele trabalhou por mais de 40 anos nas minas de ouro no pé de uma montanha andina em condições duríssimas, sem direito à seguridade social; hoje, debilitado pela idade e pelo esforço físico, percebe que sua sobrevivência está sob ameaça. Seu filho, Jorge, um jovem vaqueiro, planeja a construção de uma máquina artesanal, com sucata, capaz de colher ouro com mais eficiência. O rapaz modela a máquina no computador, faz esboços, recolhe peças antigas e sucatas e cria uma espécie de colheitadeira que escava as pedras e retira o ouro – símbolo de esperança e futuro para uma região perdida. O pai adoece, parece estar em seus dias finais, mas acredita que viverá um tempo trabalhando com o filho na nova máquina de colher ouro. O doc denuncia o trabalho extenuante e a precariedade social enfrentados por trabalhadores em lugares remotos, ao mesmo tempo que celebra a resiliência e a criatividade popular. A máquina criada pelo vaqueiro não é apenas uma solução prática: ela se torna metáfora de dignidade, sobrevivência e reinvenção da vida. Mostra o dia a dia daquela família no meio do gelo, um vínculo terno entre pai e filho, que se torna o motor da narrativa, mostrando como o cuidado familiar pode substituir políticas públicas ausentes – e na visão de Jorge como o empreendedorismo sustentável pode transformar realidades cada vez mais apagadas. O documentário chileno traz ainda ricas paisagens da Terra do Fogo, cercada por geleiras e os Andes, com uma atmosfera melancólica, porém poética. Premiado no Festival de Guadalajara, o filme foi exibido em importantes festivais de cinema documentário, como Hot Docs no Canadá, IDFA na Holanda e Doc NYC nos Estados Unidos.
 

 
Não sei viver sem palavras
 
Estreia hoje nos cinemas pela Bretz Filmes esse documentário sobre um dos nomes de maior destaque da literatura brasileira do século XX, o escritor Ignácio de Loyola Brandão. Nascido no interior de São Paulo, em Araraquara, Ignácio, prestes a completar 90 anos, relembra fatos notáveis de sua longa trajetória no mundo da escrita - de jornalista perseguido na Ditadura Militar a cinéfilo de carteirinha (seu sonho sempre foi ser diretor de filmes e acabou sendo crítico de cinema), marcou gerações de leitores com seus romances e contos que retratavam as complexidades do Brasil e da terra que adotou, São Paulo. Sentado no escritório de trabalho, ele revira a gaveta de fotos e arquivos pessoais para o filho, André Brandão, que é o diretor do filme – são memórias de família, da saudade da cidade natal, do medo da repressão na Ditadura, de quando, por um triz, não morreu quando descobriu um aneurisma cerebral e das inspirações que o levaram a lançar livros reveladores na década de 70, como ‘Zero’ e ‘Cadeiras proibidas’. E também vemos um Ignácio fazer um mea-culpa sobre a ausência como pai na criação dos filhos, já que se entregou inteiramente no ofício de escrever. Exibido no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP de 2025, o longa é bem narrado, com puro lirismo, em que o público é levado a decifrar os labirintos da mente de um genial escritor.
 
 
A fabulosa máquina do tempo
 
Sensação no Festival de Berlim desse ano, onde concorreu aos prêmios Crystal Bear (na seção Generation Kplus, voltado a filmes infanto-juvenis) e o de melhor documentário, o filme da diretora de “Incompatível com a vida” (2023), Eliza Capai, é uma joia a ser descoberta – e espero que o público o encontre logo. Com uma mistura de fantasia e aventura em uma narrativa marcada pela busca de reconexão com o passado e pela descoberta de futuros possíveis, o doc (que em muitas vezes lembra ficção) acompanha um grupo de meninas na cidadezinha de Guaribas, no sul de Piauí, lugar que ficou conhecido por receber o projeto-piloto “Fome Zero”, em 2003, por ser um município com baixo IDH, sem saneamento básico e de extrema pobreza. Elas têm imaginação fértil, falam o que vem na mente e, numa das brincadeiras diárias, planejam inventar uma máquina do tempo que as transporte para épocas distintas. O filme é uma viagem na mente das meninas, todo composto pela cultura oral, de histórias da carochinha, lendas e folclore, intercaladas pelas crenças religiosas e de perspectivas para um futuro próximo. Nessa jornada de descobertas, as crianças, em meio a um local marcado pela seca, relembram histórias da avó, sobre a fome que assolou a região, bem como do machismo estrutural que ainda permeia a sociedade onde vivem. As imagens são carregadas de forte teor visual/psicológico, principalmente as locações em Guaribas, localizado nas entranhas do sertão. Assisti na Berlinale desse ano, e para mim foi um dos melhores filmes do Festival. Também foi exibido no “É Tudo Verdade” 2026 e estreia hoje nos principais cinemas brasileiros pela Descoloniza Filmes.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2


Xica da Silva
 
50 anos se passaram do lançamento de “Xica da Silva”, filme de enorme bilheteria na época e uma das maiores obras de Cacá Diegues. Agora, o filme histórico retorna para as principais salas de cinema do país em inédita versão restaurada, na Sessão Vitrine Petrobras (da Vitrine Filmes). Clássico realizado pela Embrafilme em plena ditadura militar, o longa que consagrou Zezé Motta volta com recuperação de imagem e som (lembrando que muitos filmes brasileiros em película perderam qualidade com o tempo, e agora as restaurações digitais recuperam cenas perdidas e limpam trechos com ruídos, riscos e problemas técnicos). “Xica da Silva” foi um marco absoluto da cinematografia brasileira; lançado originalmente em 1976, levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas, inserindo uma protagonista preta no centro da história (o que rompia com estereótipos e paradigmas de representação). Sem contar o peso dessa história real, que aborda temas como poder, liberdade, desejo e desigualdade social. Xica da Silva foi uma figura real da História do Brasil Colônia. Nascida Francisca da Silva de Oliveira por volta de 1732 no Arraial do Milho Verde, atual município de Serro, em Minas Gerais, era filha de Antônio Caetano de Sá, um militar português, e de Maria da Costa, uma africana escravizada trazida da Costa da Mina. Durante a juventude, Xica foi propriedade de diferentes senhores, chegando a ter um filho com o médico Manuel Pires Sardinha. Em 1753, foi comprada por João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes representante da Coroa Portuguesa e um dos homens mais ricos da colônia (no filme interpretado por Walmor Chagas). A relação entre os dois transformou sua vida: João Fernandes concedeu-lhe liberdade e manteve com ela uma união estável por cerca de 15 anos, da qual nasceram treze filhos. A partir desse momento, Xica passou a ser chamada de Francisca da Silva de Oliveira e conquistou prestígio e poder em uma sociedade que, em geral, marginalizava pessoas pretas e ex-escravizadas. Sua ascensão social foi notável e controversa: Xica viveu em uma luxuosa residência, frequentou círculos da elite e tornou-se uma figura influente no Arraial do Tijuco (hoje Diamantina). Essa posição incomodava parte da aristocracia branca, que via com resistência a presença de uma mulher negra em espaços de poder e riqueza. Ainda assim, sua história se consolidou como símbolo de mobilidade social e resistência às estruturas raciais e sociais da época. Xica virou parte do imaginário cultural brasileiro, inspirando livros, peças de teatro, música, série e filme, lembrada como “a escrava que virou rainha”. No filme, Cacá Diegues estabelece a historiografia como didática, contando detalhes de sua vida numa interpretação soberba de Zezé Motta. Os figurinos coloridos lembram algo carnavalesco, e a narrativa fluida alternando drama e romance com piadas e humor jocoso se tornam recurso para prender a atenção do espectador. Um filme caro para a época, suntuoso, rodado em lindas locações reais do interior de Minas Gerais, como Diamantina, cuja arquitetura realça o barroco brasileiro (época dos arraias e vilas e a predominância do estilo de casas portuguesas). Jorge Ben compôs a música para o filme, que se tornaria famosa, até hoje cantada. O roteiro de Antonio Callado e de Diegues foi baseado tanto no livro “Xica da Silva”, de João Felício dos Santos, quanto no livro-documento histórico de 1868 de seu tio, o historiador Joaquim Felício dos Santos, “Memórias do Distrito de Diamantina”. No elenco uma série de nomes conhecidos, como Elke Maravilha, Altair Lima, Rodolfo Aren, José Wilker, Stepan Nercessian e Clementino Kelé. Uma preciosidade do cinema brasileiro de volta às telonas.






domingo, 26 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1


Futuro futuro
 
Está em cartaz nos cinemas essa ficção científica distópica brasileira, novo trabalho de Davi Pretto, diretor de “Rifle” (2016) e “Continente” (2024), que foi o vencedor do Troféu Candango de melhor longa no Festival de Brasília, além de ter ganhado lá também os prêmios de roteiro, montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador (uma descoberta incrível esse ator). É um drama scifi desafiador que cria uma Porto Alegre chuvosa, uma metrópole decadente, conflitante e labiríntica, marcada pela presença da Inteligência Artificial e por uma estranha síndrome neurológica. Na trama, acompanhamos K (Zé Maria Pescador), um homem que andarilha pela cidade, sem memória. Ele é acolhido por um senhor solitário (João Carlos Castanha) em seu simples casebre. A relação entre os dois vira um misto de sexo e companheirismo, até K se viciar em um dispositivo tecnológico: sentado à frente da peça, o objeto lança um triângulo infravermelho em sua testa, que o faz conhecer uma outra cidade e situações absurdas. O filme funciona como metáfora para os dilemas contemporâneos: a dependência tecnológica, a fragilidade da memória num mundo tomado pela rapidez das coisas e a luta por sentido em um mundo cada vez mais fragmentado e mediado por máquinas. Filme de atmosfera sombria e pessimista, faz críticas diretas em como a tecnologia nos molda, com dispositivos viciantes, transformando sem volta os humanos. Filme de festival, com pegada diferente e nada fácil de digerir (por isso mesmo interessante, que vale conhecer). Exibido no Festival Olhar de Cinema, está nos principais cinemas do país, com distribuição da Cajuína Filmes.



Toquinho: Encontros e um violão
 
Documentário que celebra os 80 anos do cantor e compositor Toquinho (nascido Antonio Pecci Filho), um músico notável, que percorreu o samba, os afrosambas e a MPB, tendo longa parceria com Vinicius de Moraes. Dirigido por Erica Bernardini, diretora do Festival de Cinema Italiano no Brasil (onde o filme estreou na edição de 2024), o doc acompanha as cinco décadas de carreira do artista, entrelaçando memórias pessoais a entrevistas antigas e imagens de arquivo (muitas da infância e juventude dele, além de turnês no Brasil e na Itália, sua segunda “casa”). É uma obra afetuosa, com Toquinho gravado especialmente para o longa, falando para a câmera e tocando palinhas, enquanto as imagens de outrora dele cobrem o filme. Há depoimentos de amigos que relembram parcerias na música com Toquinho, como Ivan Lins, Jane Duboc, Carlinhos Vergueiro e até a icônica cantora italiana que gravou suas canções Ornella Vanoni (falecida no final do ano passado). O violão surge como protagonista, não apenas como instrumento, mas como extensão da identidade de Toquinho, e revela sua habilidade em unir técnica refinada e sensibilidade popular. No filme viajamos com canções do artista que fizeram sucesso, como “Tarde em Itapuã” e “Regra três”, estas em parceria com Vinicius, e “Aquarela”. É um filme simples na forma, na própria edição sem muitos recursos, mas bem intencionado, que celebra merecidamente a vida e a trajetória desse grande músico brasileiro. Está em cartaz nos principais cinemas do país com distribuição da Pandora Filmes.


Nós acreditamos em você
 
Está na minha lista particular das melhores estreias do ano esse drama belga de forte impacto emocional, dirigido e roteirizado pela dupla estreante Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Recebeu Menção Especial de Melhor Primeiro Longa-Metragem na Berlinale 2025, e agora está nos principais cinemas brasileiros pela distribuidora Filmes do Estação. É uma história tensa que olhar atento aos detalhes, cuja trama acontece integralmente em poucas horas, em uma sala fechada. Ali está Alice, uma mãe que trava uma batalha judicial pela guarda dos filhos após acusar o ex-companheiro de crimes sexuais contra eles (menores de idade). O que deveria ser um processo centrado na proteção das crianças vira do avesso, em um julgamento da própria conduta da mãe, revelando um sistema que fragiliza a vítima. Na sala estão a juíza do caso, assistentes jurídicos, agentes de segurança, advogados e o pai, acusado do crime. A angústia cresce a cada depoimento, e o filme trabalha muito bem esse ponto, com foco na protagonista, interpretada brilhantemente pela belga Myriem Akheddiou, atriz de “O garoto da bicicleta” (2011) e “Titane” (2021). O longa aborda um tema discutido amplamente na sociedade hoje, a violência sexual contra crianças dentro do ambiente doméstico, e trabalha a coragem, a dor e a urgência dessa mãe na tentativa de provar os crimes sobre seus filhos - mas descredibilizada a todo instante pelo olhar da justiça, que duvida de suas palavras. Gravado no formato 4:3 (ou 1.33:1, conhecido por “tela cheia”), tem predominância de primeiros planos, que tornam o filme angustiante e claustrofóbico, aproximando o espectador das expressões e silêncios dos personagens. Conciso em seus 78 minutos de duração, é uma obra séria e competente, que merece ser vista e debatida.


Marsupilami – Confusões a bordo

Comédia de aventura infantil feita na França, o filme estreou nos cinemas no último fim de semana, pela Paris Filmes. É um passatempo (bem passatempo mesmo), tipo uma Sessão da Tarde, para crianças, que mistura atores reais e animação digital. E que resgata um personagem famoso na França, criado em quadrinhos nos anos 50 por André Franquin, o Marsupilami. No passado, Marsupilami ganhou seriado animado, telefilme, e agora é a maior produção sobre ele, dirigido e estrelado pelo comediante Philippe Lacheau. A história acompanha um funcionário de um zoológico que, para salvar seu emprego, aceita transportar secretamente um pacote vindo de um país chamado Palômbia. Ele viaja de cruzeiro ao lado da ex-esposa, do filho e de um colega atrapalhado, e descobrem que estão carregando um filhote de Marsupilami, criatura rara e travessa (uma espécie de marsupial, amarelo, com traços de onça pintada). Só que atrás deles estará uma gangue que quer capturar o animalzinho, dando início a uma sucessão de confusões. É uma história cheia de corre-corre, para crianças pequenas, que conhecerão um novo formato do famoso personagem, agora em computação gráfica (isso o atualiza e dá novos rumos para as antigas histórias de Franquin). Atores franceses conhecidos aparecem no longa, como Jamel Debbouze e Jean Reno. Achei engraçadinho, mas nada além do trivial em filmes desse naipe.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

A noite de Alaíde
 
A cantora e compositora carioca Alaíde Costa é homenageada em um documentário no ano em que comemora 90 de idade. Uma das maiores vozes da música brasileira, Alaíde sempre selecionou para o repertório de seus shows e discos canções melancólicas da MPB e da Bossa Nova, o que virou uma marca da artista. Filha de um forneiro de padaria e de uma lavadeira, desde pequena demonstrou talento para o canto, participando de concursos de calouros em rádios e circos, onde se destacou ainda adolescente. Em 1955 iniciou a carreira profissional como crooner em bailes no Rio de aneiro até lançar, no ano seguinte, o primeiro álbum, o que abriu caminho para uma trajetória de seis décadas na música. Foi uma das primeiras mulheres negras a entrar no movimento da Bossa Nova, gravando com Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Baden Powell, Johnny Alf e João Gilberto. Sua voz delicada e afinada lhe garantiu reconhecimento como uma intérprete singular. No documentário em primeira pessoa, Alaíde relembra infância, juventude e fase adulta, tratando de temas como preconceito racial e as dificuldades para se consolidar no mercado da música (em um ambiente dominado por homens). Com sua voz suave, por vezes demonstrando timidez, ela conta boas histórias nesse filme que mistura linguagens: é documentário com dramatização (Alaíde é interpretada por atrizes mirins e adolescentes de acordo com as fases da vida), e uso de estéticas variadas, como rotoscopia (animação por cima das gravações reais) e animação em 2D, além de entrevistas e apresentações antigas da cantora e arquivo de fotos das décadas de 40 a 70. Essa estética diferenciada vem da mente da diretora especializada em linguagem híbrida, Liliane Mutti, que havia trabalhado algo nessa perspectiva em “Miúcha – A voz da Bossa Nova” (2022). O filme estreou no último fim de semana simultaneamente nos cinemas do Brasil e de Portugal, pela Bretz Filmes, após percorrer festivais nacionais e internacionais, como Telluride, TIFF, IDFA, CPH:DOX, o In-edit Brasil 2026 e o Marché du Film, em Cannes. Haverá amanhã, dia 22/07, sessão especial no Reserva Cultural em São Paulo, às 20h10, seguido de debate com integrantes da equipe do filme. O longa tem licenciamento no Globoplay e em breve entrará no catálogo do Canal Curta!



Três lançamentos da A2 Filmes nos streamings
 
A distribuidora brasileira A2 Filmes lança nos streamings nacionais três novos títulos, de gêneros variados, realizados entre 2025 e 2026. Os filmes estão disponíveis para aluguel na Apple TV, Prime Video, Google Play, Claro TV+ e Vivo Play. Confira abaixo drops sobre eles:
 
O menino e o panda
 
Coprodução França/Bélgica, o filme de aventura infantil de 2025 segue a jornada de um garotinho chamado Tian, de 12 anos, que vai morar com a avó nas montanhas chinesas de Sichuan, o habitat dos pandas-gigantes.  Na temporada longe da vida urbana, ele passa a explorar as áreas verdes do local, as matas e riachos, até se deparar com um filhote de panda solitário, a quem dá o nome de Moon. Entre os dois nasce uma amizade que mudará para sempre a vida do garoto e a de sua família. É daqueles filmes leves, próprios para crianças, bem “Sessão da tarde”. Tudo muito sutil e nada demais, tratando sobre amizade com animais e jornada de autodescoberta. Talvez o diferencial esteja nas bonitas paisagens das montanhas da China, locações reais do berço dos pandas (e o animal do filme, Moon, é bem fofo). O diretor Gilles de Maistre é casado com a roteirista, Prune de Maistre – ele é sobrinho-neto do renomado diretor do Realismo Poético Francês René Clément, e junto da esposa fizeram outros filmes infantis com animais, como “A menina e o leão” (2018).
 
 
A canção que me salvou
 
Filme de drama musical gospel com o veterano ator Nick Nolte, numa história sobre redenção por meio da música. Depois de perder o pai, vítima de câncer, o jovem KJ (Dharon Jones, em sua estreia no cinema) foge de casa, passando boa parte do tempo nas ruas da Filadélfia. Pelos becos dominados pelo tráfico, ele perambula sem rumo aparente. Num dos parques da cidade, ele se encontra com Barry (Nick Nolte), um sem-teto desiludido. Com seu violão em mãos, KJ toca uma canção para Barry, que conhece muito sobre música. Um acolhe o outro, surge ali uma relação de afeto inesperada, e os dois recorrerão às canções para suavizar os tormentos que enfrentam. Curto, simplório, direto, é um filminho delicado sobre relações improváveis, empatia e o poder transformador da arte, produzido por estúdios ligados ao gospel norte-americano (como a história faz supor, em que os personagens utilizam da música religiosa para curar a alma). Não é filme do meu agrado, porém pode agradar a algum público que esteja procurando por algo nessa linha.
 
 
O velho fusca
 
Depois de ficar em cartaz por um mês nos cinemas, chega para aluguel no streaming a comédia brasileira “O velho fusca”, o novo trabalho do diretor e ator gaúcho Emiliano Ruschel (que vem desenvolvendo também carreira nos Estados Unidos). Esperava mais dessa comédia passatempo com bastante gente conhecida da TV e do cinema, como Cleo Pires, Caio Manhente, Tonico Pereira, Christian Malheiros e Danton Mello - mas infelizmente as participações são mal aproveitadas (o que demonstra a fragilidade na direção). O roteiro daria um filme mais legal e menos exaustivo, mas do jeito que ficou cairá no esquecimento. Junior (Caio Manhente) é um rapaz que descobre um fusca abandonado na garagem do avô ranzinza (Tonico Pereira). Ele negocia ficar com o veículo, dá um trato nele e aos poucos se estabiliza na relação com o idoso, que se afastou da família há muito tempo. Ao mesmo tempo Junior tem de lidar com suas amizades e com os compromissos da vida. A narração em primeira pessoa pelo protagonista é um lenga-lenga sem fim, sem contar que o longa é um desfile por points elegantes do Rio de Janeiro, como as praias de Copa e Ipanema, que soam bastante vazios. Para fechar, os diálogos carregam preconceitos e homofobia que não estão no gibi... Detestei tanto esse quanto o filme anterior de Ruschel, o pavoroso suspense “Segredos” (2024), que tem no elenco o próprio Ruschel fazendo par com Danni Suzuki.



Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Naufrágio: O pesadelo do Costa Concordia
 
Mais um dos tantos documentários da Netflix sobre reconstituição de tragédias reais, desta vez envolvendo o naufrágio do Costa Concordia, um imponente navio de cruzeiro. O caso aconteceu em 13 de janeiro de 2012, quando, numa viagem com 4.200 pessoas, a embarcação se chocou contra as rochas próximas à Ilha de Giglio, na Itália. O navio passou por uma manobra arriscada do capitão, que o levou muito próximo da costa. O impacto com as pedras destruiu parte do casco, que fez com que o navio inclinasse e houvesse perda de energia elétrica. A demora da tripulação em ordenar a evacuação agravou o cenário, gerando pânico e desorganização entre os passageiros. Foram horas de desespero para colocar todos em botes, enquanto a embarcação submergia nas águas. O resultado: 32 pessoas mortas, dezenas de feridos e a fuga do capitão Francesco Schettino, que abandonou o navio antes do término do resgate (sua justificativa foi de que teria “escorregado” para dentro de um bote salva-vidas, mas em 2015 ele foi condenado por homicídio culposo, naufrágio e abandono, recebendo pena de 16 anos de prisão). Devido à dimensão do desastre e ao porte da embarcação, o resgate do Costa Concordia tornou-se a operação marítima mais complexa e cara já realizada – e a tragédia em si entrou para a História como um dos maiores desastres marítimos dos últimos anos. O filme da Netflix relembra o caso, com entrevistas dolorosas de passageiros que perderam familiares, de sobreviventes e de parte da tripulação do Costa Concordia. Há muito material de arquivo, como reportagens da época, muitas delas italianas, e imagens inéditas, somente agora liberadas para uso, do resgate das vítimas. Um bom filme, que nos deixa apreensivos diante do impacto daquela noite interminável - após o naufrágio do Costa Concordia, a indústria de cruzeiros implementou mais de 30 novas políticas de segurança, como mudanças nas leis e práticas marítimas globais que incluem a obrigatoriedade de treinamento de emergência antes do navio zarpar, restrições severas de acesso à ponte de comando e a exigência de planejamento de rotas com antecedência.
 

 
A divina Sarah Bernhardt
 
A Imovision lançou nos cinemas no último fim de semana dois filmes de títulos parecidos que relembram a trajetória de mulheres no cinema: “A divina Sarah Bernhardt” e “Diva futura”, ambos de 2024 e somente agora chegando nas salas brasileiras. “A divina Sarah Bernhardt” é uma regular biografia da atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923), com enfoque nos anos finais de sua vida, quando debilitada após a amputação da perna direita, em 1915. Nesse período passava boa parte do tempo ou deitada em uma cama ou sentada numa cadeira, devido à pouca mobilidade provocada pelas dores intensas no quadril. Enfermeiros a transportavam para lá e para cá, em apresentações, gravações e afazeres domésticos. Aclamada como a “Divina Sarah”, tornou-se uma das atrizes mais importantes de sua época, referência nos palcos franceses, e que no cinema (sua carreira na tela foi curta) esteve numa das primeiras versões de “A dama das camélias”, em 1912, no papel central, da cortesã Marguerite Gauthier. Egocêntrica, temperamental, recusava-se a abandonar a cena, atuando em filmes mudos, peças teatrais, deitada ou apoiada em cadeiras. Essa obstinação em permanecer ativa até os últimos instantes reforçava a imagem de uma artista indomável, ainda que o corpo já não acompanhasse sua energia criativa. Quem a interpreta Sarah é uma atriz francesa que gosto muito, versátil em comédias e dramas, Sandrine Kiberlain, premiada com o César, de “Mademoiselle Chambon” (2009) e “A garota radiante” (2021 – escrito e dirigido por ela). Ela faz uma Sarah cercada por antíteses: ora enérgica para atuar, ora agressiva com as pessoas que a cercavam (sua biografia conta que era uma mulher intempestiva, que gritava com qualquer um que a contrariasse). Vestia roupas chiques, tinha bom gosto e mantinha relações intensas com escritores e atores, como Lucien Guitry (no filme interpretado pelo sempre condizente Laurent Lafitte), membro da Comédie-Française e diretor do teatro Renaissance. Tinha amizades com intelectuais célebres, como os dramaturgos e escritores Victor Hugo, Émile Zola, Alexandre Dumas (alguns aparecem no filme), que a viam como musa inspiradora. O trato do filme é na personalidade forte e independente de Sarah, que desafiava convenções e não hesitava em confrontar colegas ou diretores se tivesse razão. A postura incisiva, de mulher geniosa, refletia nas relações afetivas (raramente ela mantinha algo duradouro com os homens de sua vida), e isto atingia também seu trabalho no cinema (Sarah não compreendia bem a Sétima Arte, por isso fez menos de 5 filmes, a maioria curtas, e chegou a ordenar a destruição de filmes que participou que não lhe agradavam). Ela morreu em 1923, em Paris, de complicações renais, tendo um dos funerais mais impressionantes da história: o caixão cruzou as principais vias de Paris, sua morte comoveu multidões, reunindo mais de 35 mil pessoas até o cemitério Père-Lachaise, onde estão sepultadas diversas personalidades do universo das artes. Mais um bom trabalho do diretor Guillaume Nicloux (de “O vale do amor”, “Os confins do mundo” e “A religiosa”).
 

 
Diva Futura
 
Junto de “A divina Sarah Bernhardt” (2024), a Imovision lançou nas salas brasileiras no último fim de semana outro cult movie que retrata figuras femininas no cinema. Aqui temos a história real da agência publicitária italiana Diva Futura, criada no início dos anos 1980, em Roma, pelo fotógrafo e cineasta Riccardo Schicchi (1953-2012). O empreendimento cultural descobriu modelos e logo ficaria famoso por realizar filmes pornôs europeus, distribuídos depois no mundo todo. A agência tinha a proposta de profissionalizar e dar visibilidade aos artistas do setor, principalmente atrizes que não tinham reconhecimento, apesar de certo talento. Schicchi cunhou o termo “porn-star” para valorizar seus agenciados, colocando-os em pé de igualdade com ícones italianos da Sétima Arte e da TV. No filme ele é interpretado por Pietro Castellitto, filho do veterano astro Sergio Castellitto. Ele está bem no protagonismo da fita – um ator de boas expressões, que já atuou em vários filmes e até dirigiu, apesar da pouca idade (34 anos). Na história ele abre a agência, relativamente pequena, que viraria um estúdio de gravação também; revelou principalmente três mulheres que do dia para a noite viraram estrelas do cinema adulto: Ilona Staller, a Cicciolina, que depois seria deputada; Moana Pozzi, atriz que chegou a se candidatar à prefeitura de Roma (e faleceu nova, aos 33 anos, de câncer); e Eva Henger, que também ganhou notoriedade como modelo. E agenciou ainda Rocco Siffredi, o ‘Rocco’ da produtora de cinema pornô que fez sucesso nos anos 90. As três mulheres ganham vida na tela, interpretadas respectivamente por Lidija Kordic, Denise Capezza e Tesa Litvan, cada uma com seu estilo de atuação, misturando delicadeza, sensualidade e energia. Elas trazem vigor para a história sobre o universo do cinema erótico/pornô da época, com seu glamour e cores radiantes. A Diva Futura escandalizou setores conservadores da sociedade italiana, chegou a ser impedida de trabalhar pela polícia e quase fechou no auge de seu funcionamento (ela perdeu força no final dos anos 1990, acompanhando mudanças no mercado e o desgaste da imagem pública de suas estrelas). O filme vai entremeando a trajetória dessas mulheres e do diretor da agência, mostrando tanto o glamour delas quanto o preconceito enfrentado. O impacto da Diva Futura foi cultural e político não só na Itália, mas na Europa toda, um fenômeno que consolidou a pornografia como indústria cultural. Cicciolina (conhecida pelos peitos avantajados), depois levou a discussão sobre sexualidade para dentro do parlamento, enquanto Moana Pozzi legitimou sua imagem pública na política, em campanhas para prevenir doenças sexuais. O filme é um trabalho peculiar da cineasta, atriz e produtora Giulia Louise Steigerwalt – ela fez o roteiro adaptando as páginas do livro “Oltraggio al pudore”, da jornalista Debora Attanasio (com colaboração de Ricardo Schicchi e Eva Henger). Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2024, está em exibição nos cinemas do Reserva Cultural, com distribuição exclusiva da Imovision.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 4


A mulher mais rica do mundo
 
Com 50 anos de carreira nas costas, Isabelle Huppert é uma atriz completa, que já trabalhou com grandes nomes do cinema. Tem uma centena de filmes no currículo, de gêneros variados, e uma coleção de prêmios. Aos 72 anos, ela estrela com maestria esse drama sobre disputa e poder no mundo corporativo, que acaba de chegar na plataforma de streaming Filmelier+. Tem uma figura real por trás da história fictícia: é livremente inspirado na vida da bilionária Liliane Bettencourt, herdeira dos cosméticos L’Oréal, por muito tempo apelidada de “a mulher mais rica do mundo”. Sua trajetória foi marcada por intensa disputa familiar e judicial sobre o controle da fortuna, envolvendo acusações de manipulação por parte de um fotógrafo e escândalos de corrupção que atingiram o alto escalão do governo francês (ela faleceu em 2017 aos 94 anos). Na trama, acompanhamos Marianne Farrère, interpretada por Isabelle Huppert, magnata da indústria de cosméticos. Ela é influente no mundo empresarial, apesar de ser difícil de lidar. Sua vida aparentemente sólida começa a ruir quando conhece Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), um escritor e fotógrafo ambicioso, cuja aproximação desperta sentimentos intensos entre ambos. A amizade dos dois desencadeará uma série de eventos que colocarão em risco o dinheiro e a estabilidade de sua família. O envolvimento de Marianne e Fantin abriu espaço para doações milionárias, suspeitas de corrupção e segredos sombrios ligados ao passado da fortuna construída, revelando como o luxo pode esconder dramas de proporções quase trágicas. O filme é um denso retrato psicológico sobre a controversa personalidade em cheque, explorando o contraste entre o poder absoluto e a fragilidade emocional de Marianne, ao mesmo tempo em que expõe a luta de sua filha desconfiada, Frédérique Spielman (Marina Foïs), pelo controle do império. Tem uma boa mistura de romance, drama e thriller, com diálogos afiados e atmosfera elegante. Com direção e roteio de Thierry Klifa, de “Tudo o que nos separa” (2017), o filme esteve em Cannes onde concorreu ao Queer Palm no ano passado.



Salvação
 
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2026 e filme de encerramento do Festival Olhar de Cinema, “Salvação” (“Kurtulus”) é um dos filmes mais poderosos do ano, uma obra de mestre que mistura drama e thriller (a gradação da violência me lembrou a estrutura de outro filme semelhante, “Dheepan – O refúgio”, ganhador da Palma de Ouro em 2015). O filme, uma coprodução de seis países (Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia e Arábia Saudita), é inspirado em uma trágica história de disputa por terras e vingança entre famílias. Em uma aldeia remota no alto das montanhas, na fronteira da Turquia com a Síria, membros de um clã exilado retornam para a região. Eles reivindicam parte do território, o que reacende uma antiga crise entre duas famílias. O irmão do líder local é assombrado por estranhos presságios, que tiram seu sono. Ele acredita que aquilo seja um aviso sagrado, o que o coloca em atrito com o irmão. Paralelamente, as duas famílias rivais se organizam para negociar a divisão das terras, gerando um mal-estar na comunidade. O filme funciona como uma parábola sobre extremismo religioso e político – na história uma população devota será instrumentalizada por um mentor fanático a cometer um massacre, usando as palavras de Deus para o ato, como costuma ocorrer em ataques terroristas. A obra faz alusão a um crime de proporções devastadoras ocorrido em 4 de maio de 2009, no vilarejo de Bilge, província de Mardin, sudeste da Turquia, quando homens armados e mascarados, membros de uma mesma família de milicianos, invadiram uma festa de noivado com granadas e fuzis, matando 44 pessoas, incluindo os noivos, mulheres e crianças. Os atiradores pertenciam ao clã curdo Çelebi, e foram motivados por uma antiga disputa de terras e contra a união das duas famílias. O caso chocou o mundo, tomou conta dos noticiários, e agora o filme procura fazer um retrato do sórdido fato. Em seu quinto longa-metragem, o diretor e roteirista turco Emin Alper faz um estudo sobre os crimes de ódio motivados por política e religião, atrelados também a outras questões (a disputa por território). Ele rodou no verdadeiro local onde ocorreu o caso do massacre, em Mardin, na Turquia, o que deixa a história ainda mais assustadora. Um grande filme, com uma fotografia de muitas tonalidades (com destaque para as cenas noturnas nas grutas, com os clarões das chamas – algo quase sobrenatural, de terror). Nos cinemas brasileiros pela Pandora Filmes.


Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

Insaciável   O cinema de terror australiano vem ganhando forma nos últimos anos, redesenhado do movimento Ozploitation dos anos 70 e 80 que ...