Queda
livre: As consequências do Caso Boeing
Novo
documentário investigativo da Netflix, que dá continuidade ao doc “Queda livre:
A tragédia do Caso Boeing” (2022), um estarrecedor caso de negligência e ganância
que abalou os setores da aviação mundial. O filme parte de uma série de
denúncias de um chefe de operações da empresa de aviação sobre falhas técnicas de
aviões que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Ele era John
Barnett, engenheiro de qualidade que atuou na referida empresa de aviação por
mais de 30 anos. A crise corporativa devido às falhas sistêmicas de segurança
na Boeing veio à tona quando Barnett levou o caso para autoridades superiores e
se tornou peça-chave para desvendar os obscuros segredos da empresa. Ele virou
um denunciante (whistleblower), fazendo alertas públicos sobre os riscos dos
aviões da Boeing. Barnett expôs documentos sobre situações críticas de aeronaves:
portas se romperam nas alturas, tetos se abriram, fuselagem com problemas e até
desastres aéreos (como os dois acidentes do modelo 737 MAX, que resultaram na
morte de 346 pessoas e na suspensão mundial dos voos da frota entre 2018 e 2019
- o primeiro ocorrido na Indonésia e o segundo, na Etiópia). Na investigação
que o filme faz, descobre-se que a empresa reutilizava peças de outros aviões e
não promovia vistorias regulares neles. Barnett foi ameaçado de morte, até que
morreu em 2024, um dia depois de depor no tribunal – ele foi encontrado morto
com um tiro na cabeça na camionete onde estava, o que levantou suspeitas sobre
a causa mortis (e o filme também explora isso, na parte final). Com a morte do engenheiro,
outros funcionários resolveram denunciar a Boeing – abrindo espaço para
denúncias contra outras empresas de aviação. O documentário é um estudo de caso
sobre desmandos e negligência de uma multinacional importante do mercado, cuja
trama nos prende, reunindo reportagens antigas contundentes e depoimentos novos,
muitos de autoridades, juízes, investigadores e engenheiros. É dirigido pela
cineasta Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014)
e que havia realizado o filme anterior.
Song
Sung Blue – Um sonho a dois
Drama
musical que mistura realidade e ficção para retratar a vida do casal de músicos
de Milwaukee, Wisconsin (EUA), Mike Sardina (1951-2006) e Claire Sardina
(1961-), que percorreram os Estados Unidos com turnês de tributo a Neil Diamond
e utilizavam o nome artístico de “Lightning & Thunder”. A dupla começou no
fim dos anos 80, em palcos pequenos da região de Milwaukee, e com o passar do
tempo gravaram música em estúdio, participaram de festivais grandes e até
abriram um show de Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder – tudo isso
retratado nessa formidável cinebiografia. O longa é baseado no documentário
homônimo de Greg Kohs, “Song Sung Blue” (2008), e traz como destaque o bom trabalho
dos atores centrais, Hugh Jackman e Kate Hudson (indicada, pelo papel, aos
principais prêmios da temporada, como Bafta, Oscar e Globo de Ouro). A história
segue os altos e baixos da formação musical desses dois artistas, mostrando a
dificuldade em trilhar o caminho na carreira independente, além de trazer os
dramas pessoais do casal (ele dependente do álcool e atormentado pela Guerra do
Vietnã, onde lutou, e ela o apoiando como esposa, companheira e artista).
Enquanto Lightning tinha a voz potente interpretando canções de Diamond,
Thunder fazia back vocal dele e também alternava os shows com música country de
Patsy Cline. O diretor Craig Brewer, de “Ritmo de um sonho” (2005), condensa
anos de acontecimentos da carreira da dupla em uma linha temporal curta, mas
precisa, intensificando os conflitos e emoções. Com uma fotografia de cores
vivas e vibrantes, "Song Sung Blue" é uma celebração à música de Neil
Diamond, tratando de superação, resistência e desprendimento, ao mesmo tempo em
que expõe a vulnerabilidade humana diante das adversidades. Na trilha sonora,
um passeio musical em obras máximas de Diamond, como “Sweet Caroline”, “I am...
I said” e “Holly Holy”. Estreou recentemente no Prime Video (com distribuição
no Brasil pela Universal Pictures).
Anistia
79
Alusivo
documentário brasileiro aos 47 anos da Lei da Anistia, decretado em 1979, em um
período crítico da Ditadura Militar no Brasil. O longa traz os primeiros
movimentos no exterior para a anistia (que ficou ampla, geral e irrestrita),
quando no Parlamento Italiano, em Roma, entre junho e julho de 1979, foi
realizada a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades
Democráticas no Brasil. O encontro, de três dias, juntou cerca de 500 pessoas,
incluindo exilados políticos, intelectuais, ativistas de direitos humanos e
figuras da resistência à ditadura militar (como Apolônio de Carvalho, Gregório
Bezerra e Francisco Julião). A Conferência foi a maior reunião da diáspora brasileira
fora do país durante a Ditadura (que continuava aqui exilando, perseguindo e
matando). O trunfo ideativo do filme é reunir gravações inéditas, todas com
imagem restaurada, que foram feitas no Congresso por um militante de esquerda
exilado na França, Hamilton Lopes dos Santos. Praticamente o filme todo é um
compilado dessas imagens poderosas, em preto-e-branco, encontradas pela
diretora do filme, Anita Leandro, no acervo da Universidade de Nanterre, nos
arredores de Paris, e analisadas por pessoas que sentiram na pele a Ditadura,
como familiares, e amigos íntimos dos retratados naquela reunião. Aparecem nas gravações
Francisco Julião (das Ligas Camponesas), Apolonio de Carvalho, Carmela Pezzuti,
Manuel da Conceição, Rolando Frati, Luís Travassos e Márcio Moreira Alves,
parte desses exilados. Quase meio século depois, as gravações ressurgem para reacender
o debate sobre as tristes páginas da História do país, do Estado repressivo da
ditadura e da impunidade dos torturadores, trazendo paralelos com o Brasil
atual (já que o golpismo e os afãs ditatoriais ainda rondam por aqui). No
filme, 11 pessoas assistem pela primeira vez, depois de tanto tempo, àquelas imagens,
e emocionadas relembram a História e seus personagens. A Conferência ocorreu às
vésperas da sanção da Lei da Anistia no Brasil (Lei nº 6.683, de agosto de
1979), planejada para debater pontos limitantes dela – e serviu para denunciar
os crimes e as torturas da ditadura militar brasileira perante a opinião
pública mundial e o parlamento europeu. Acabou sancionada pelo presidente João
Figueiredo em 28 de agosto daquele ano, sendo um marco no processo de
redemocratização do Brasil. Deu perdão tanto aos opositores do regime quanto aos
agentes do Estado (torturadores e militares) - por isso ampla, geral e
irrestrita. As consequências diretas da Lei foram o retorno dos exilados (como
líderes políticos, intelectuais e artistas), a libertação de presos políticos
detidos nos presídios brasileiros e a reorganização política, permitindo a
partir de 1980 a volta do pluripartidarismo, a restituição dos direitos
políticos a cidadãos que haviam sido cassados pelo regime e as eleições
diretas. É um filme-estudo de História, didático, importante para os dias de
hoje. Foi premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu os prêmios
de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Nos cinemas pela Embaúba
Filmes.