terça-feira, 24 de março de 2026

Especial de cinema

 
Festival “É Tudo Verdade” chega à 31ª edição com 75 títulos na programação
 
Os organizadores do “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” anunciaram na manhã de hoje, dia 24, em coletiva de imprensa, a programação da edição de 2026 (abaixo, o pôster oficial deste ano). Um dos festivais de cinema mais importantes do Brasil, a 31ª edição será realizada em São Paulo (em quatro salas de cinema) e no Rio de Janeiro (em três salas), de 9 a 19 de abril. As sessões são gratuitas, e estão na lista 75 filmes produzidos em 25 países, a maior parte deles première no Brasil. Segundo o diretor-fundador do “É Tudo Verdade”, Amir Labaki, “A nova safra de documentários reflete o espírito do tempo como em raros momentos. É notável a intersecção entre vida privada e história pública. Chama ainda a atenção a divisão do programa entre o retorno de grandes mestres e a revelação de uma nada menos inventiva nova geração”.


Em São Paulo, a abertura do festival será na noite do dia 08/04, em sessão para convidados na Cinemateca Brasileira, do filme “Bowie: O Ato Final” (2025) – documentário britânico sobre o cantor e compositor David Bowie, com direção de Jonathan Stiasny. No Rio, o festival começa com o documentário brasileiro sobre Alceu Valença “Vivo 76”, de Lírio Ferreira, apresentado também para convidados na noite do dia 09/04, no Estação Net Rio. O filme de encerramento, em ambas as cidades, será “Memória de ‘Os Esquecidos’”(2025), documentário coproduzido entre Espanha e México, sobre o filme “Os esquecidos” (1950), de Luis Buñuel.
Os títulos em competição deste ano se dividem em Mostras de Longas e Médias-metragens Brasileiros, Longas e Médias-metragens Internacionais, Curtas-metragens Brasileiros e Curtas-metragens Internacionais. Os vencedores serão conhecidos na cerimônia de premiação, que será realizada no dia 18/04, às 19 horas, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Como ocorre desde 2018, quando o “É Tudo Verdade” foi reconhecido como um “Qualifying Festival” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, os quatro vencedores das mostras competitivas estarão classificados para apreciação à disputa do Oscar de melhor documentário do ano seguinte, tanto para longas quanto curtas-metragens. Além dos filmes em competição, o festival exibirá títulos em Programas Especiais e nas mostras O Estado das Coisas, Foco Latino-Americano e Clássicos ‘É Tudo Verdade’.


Dentre os filmes de destaque da edição de 2026 do festival estão “A Fabulosa Máquina do Tempo” (2026), de Eliza Capai, exibido no Festival de Berlim; “Retiro - A Casa dos Artistas” (2026), de Roberto Berliner e Pedro Bronz; “Mestre Zu” (2026), de Zelito Viana; e “Bardot” (2025), de Alain Berliner, Elora Thevenet, exibido no Festival de Cannes. Em São Paulo o festival acontece no IMS Cultural, Cinesesc, CCSP e Cinemateca Brasileira, enquanto no Rio as sessões serão em três salas do Estação Net Rio.
 
Outros destaques
 
A cineasta novaiorquina Vivian Ostrovsky (criada no Rio de Janeiro) é tema de uma retrospectiva com curadoria da cineasta e pesquisadora Fernanda Pessoa. Serão apresentados 14 filmes dela, como “Copacabana Beach” (1983) e “Domínio Público” (1996) - a mostra inclui um curta inédito sobre Vivian dirigido por Fernanda, “V.O por F.P” (2026). O festival prestará homenagem também a cineastas falecidos entre 2025 e 2026, como Jean-Claude Bernardet, com a exibição de “Sobre Anos 60 (2000), Luiz Ferraz e Rubens Crispim Jr., com “Em Nome do Jogo” (2025), Silvio Da-Rin, com “Missão 115” (2018), e Silvio Tendler, com “Os Anos JK: Uma Trajetória Política” (1980).
No dia 11/04 o festival realizará, com a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, a “23ª Conferência Internacional do Documentário” - A programação completa será divulgada em breve. Em parceria com o Sesc SP, o festival promoverá nos dias 16 e 17/4, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, um ciclo de encontros entre realizadores e pesquisadores, sobre as experiências no campo da produção não-ficcional contemporânea.



O festival apresenta também, em parceria com a Spcine, uma masterclass com o cineasta Jorge Bodanzky, no Centro Cultural São Paulo, onde será exibido o doc “Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky” (2025), realizado em parceria com Liliane Maia.
Pela primeira vez, serão apresentadas sessões infantis no “É Tudo Verdade”: na mostra intitulada “É Tudinho Verdade”, serão exibidos filmes dirigidos por David Reeks e Renata Meirelles sobre o universo das brincadeiras infantis em diferentes regiões do Brasil. As exibições acontecem no CineSesc e na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e no Estação NET Rio, no Rio.
No streaming, serão exibidos 10 curtas com exclusividade pelo Itaú Cultural Play.
A 31ª edição do “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” conta com o patrocínio do Itaú, a parceria do Sesc-SP e o apoio cultural da Spcine, Galo da Manhã, Fundação Itaú e Itaú Cultural. A realização é do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, e Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas.
Confira abaixo todos os títulos da edição 2026 separados nas competições correspondentes.
 
Competição Internacional: Longas ou Médias-metragens
 
Atlas do Desaparecimento
 
Direção: Manuel Correa
Espanha, Noruega; 84 minutos; 2026
Sinopse: Após oitenta anos de silêncio, novas tecnologias forenses ajudam um grupo de famílias a reconstruir o destino de seus pais, cujos corpos foram roubados e secretamente levados ao mausoléu de seu algoz durante a ditadura franquista na Espanha (1939-1975).
 
Benita
 
Direção: Alan Berliner
EUA; 81 minutos; 2025
Sinopse: A partir do arquivo pessoal da cineasta experimental nova-iorquina Benita Raphan, o diretor constrói o retrato de uma vida artística marcada por brilhantismo, humor e uma intensa luta existencial.
 
Desfecho
 
Direção: Michał Marczak
Polônia, França; 105 minutos; 2026
Sinopse: Daniel não ouviu seu filho de 16 anos sair de casa numa madrugada. Ele não sabe o que o levou até uma ponte sobre o impetuoso rio Vístula, em Varsóvia. Sabe apenas que foi o último lugar onde o jovem foi visto.
 
Dezembro
 
Direção: Lucas Gallo
Argentina, Uruguai; 105 minutos; 2025
Sinopse: O filme reconstrói a crise argentina de 2001, utilizando material de arquivo restaurado, capturando a espontaneidade dos protestos e a instabilidade política que levou à renúncia de cinco presidentes.
 
Entre Irmãos
 
Direção: Tom Fassaert
Holanda, Bélgica; 105 minutos; 2026
Sinopse: Os irmãos idosos René e Rob não conseguem viver juntos, nem um sem o outro. René leva uma vida reclusa, em uma casa tomada por objetos e acúmulos. Quando as coisas ameaçam sair do controle, seu irmão mais novo intervém.
 
Um Filme de Medo
 
Direção: Sergio Oksman
Espanha, Portugal; 72 minutos; 2025
Sinopse: Durante as férias de verão, um documentarista e seu filho de doze anos se hospedam em um hotel abandonado em Lisboa – um hotel vazio como o do filme O Iluminado. O menino é assombrado por histórias de monstros e fantasmas.
 
Fordlândia Panacea
 
Direção: Susana de Sousa Dias
Portugal, Brasil; 67 minutos; 2025
Sinopse: Um filme sobre o presente e o passado da antiga company-town fundada por Henry Ford na floresta amazônica em 1928. Revelando as mais recentes descobertas no terreno, expõe as tramas que têm enredado a vila ao longo das últimas dezenas de anos.
 
Mamãe Está Aqui
 
Direção: Adriana Loeff, Claudia Abend
Uruguai; 84 minutos; 2026
Sinopse: Quatro mulheres trabalham na criação de uma peça de teatro. À medida que a noite de estreia se aproxima, revelam-se suas histórias de maternidade: a jornada de adoção de uma mãe solo; o nascimento do primeiro bebê de duas mães; a batalha pela vida de uma criança.
 
Meu Pai e Gaddafi
 
Direção: Jihan
EUA, Líbia; 88 minutos; 2025
Sinopse: Quando a diretora tinha seis anos, seu pai voou para o Cairo e nunca mais voltou. Após servir no regime cada vez mais brutal de Muammar Gaddafi, Mansur Rashid Kikhia desertou do governo e tornou-se líder da oposição pacífica.
 
Os Olhos de Gana
 
Direção: Ben Proudfoot
EUA; 90 minutos; 2025
Sinopse: O filme acompanha o documentarista Chris Hesse, que atuou como cinegrafista pessoal de Kwame Nkrumah. Aos 93 anos, Hesse corre contra o tempo para repatriar um acervo de mil filmes que registraram o nascimento da independência africana nas décadas de 1950 e 1960.
 
Shooting
 
Direção: Netalie Braun
Israel; 80 minutos; 2025
Sinopse: Três histórias, apoiadas por materiais de arquivo nunca antes revelados e por acesso raro a figuras-chave, ecoam a profunda conexão entre a indústria de cinema e televisão de Israel e o aparato de segurança.
 
Túmulo de Gelo
 
Direção: Robin Hunzinger
França, Suécia, Noruega; 78 minutos; 2025
 
Sinopse: Em 11 de julho de 1897, três homens partem de Svalbard em um balão de hidrogênio, rumo ao Polo Norte. Nunca mais são vistos. Trinta e três anos depois, em 6 de agosto de 1930, um navio de caça às focas faz uma descoberta perturbadora na remota ilha de Kvitøya.
 
 
Competição Brasileira: Longas ou Médias-Metragens
 
Apopcalipse Segundo Baby
 
Direção: Rafael Saar
Brasil; 110 minutos; 2026
Sinopse: Uma viagem em primeira pessoa pela trajetória da cantora Baby do Brasil. A partir de sua pluralidade transgressora, o filme revisita esse caminho, da liberdade dos Novos Baianos ao brilho da carreira solo; do espírito hippie ao pop multicolorido.
 
A Fabulosa Máquina do Tempo
 
Direção: Eliza Capai
Brasil; 70 minutos; 2026
Sinopse: Numa pequena cidade do sertão do Piauí, as meninas brincam entre o passado miserável de suas mães e seus sonhos fantásticos de futuro. Ali, onde o homem ainda é o gigante da mulher, elas se aventuram na travessia da infância para a adolescência.
 
Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha
 
Direção: Luis Abramo e Pedro Rossi
Brasil; 89 minutos; 2025
Sinopse: A trajetória não linear e além do tempo de Fernando Coni Campos, um dos grandes artistas e contadores de histórias do cinema brasileiro, autor de filmes premiados como Viagem ao Fim do Mundo (1968), Ladrões de Cinema (1977) e O Mágico e o Delegado (1983).
 
Patrulha Maria da Penha
 
Direção: André Bomfim
Brasil; 90 minutos; 2025
Sinopse: Em Maceió, policiais lutam para romper o ciclo de violência contra as mulheres. Eles fazem parte da Patrulha Maria da Penha, uma equipe da PM que acompanha de perto mulheres beneficiadas por medidas protetivas de urgência – algumas correndo risco de morte.
 
Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas
 
Direção: Carlos Adriano
Brasil; 103 minutos; 2026
Sinopse: O filme-ensaio discute as possibilidades e impossibilidades de fazer uma adaptação brasileira da obra monumental do escritor francês Marcel Proust (1871-1922), Em Busca do Tempo Perdido, escrito entre 1906 e 1922 e publicado de 1913 a 1927 em sete volumes.
 
Retiro - A Casa dos Artistas
 
Direção: Roberto Berliner e Pedro Bronz
Brasil; 95 minutos; 2026
Sinopse: O filme é um mergulho no Retiro dos Artistas, instituição centenária no Rio de Janeiro, voltada à acolhida de artistas na terceira idade. Uma reflexão sobre o ciclo da vida e o papel da arte no Brasil, com uma perspectiva poética e intimista dos atuais residentes da instituição.
 
Sagrado
 
Direção: Alice Riff
Brasil; 90 minutos; 2026
Sinopse: O filme acompanha a rotina de professores e funcionários de uma escola pública em Diadema, na Grande São Paulo. A partir de situações do cotidiano, personagens são revelados, assim como uma história de luta e resistência popular.
 
 
Competição Internacional: Curtas-Metragens
 
Bem-Vinda à Casa, Sardas
 
Direção: Huiju Park
Reino Unido, Coreia do Sul; 26 minutos; 2025
Sinopse: Pela primeira vez em quatro anos, uma filha retorna a Daegu, na Coreia do Sul, determinada a pôr fim à guerra doméstica que marcou sua infância. Apesar dos esforços para encontrar paz, as cicatrizes do passado permanecem sem resolução
 
Como Ouvir Chafarizes
 
Direção: Eva Sajanová
Eslováquia; 10 minutos; 2025
Sinopse: O filme propõe um ensaio sobre a ocupação de espaços públicos a partir de chafarizes que ganham vida – cada um tem sua própria personalidade e conta uma história diferente. Eles se manifestam para que as pessoas os notem, os percebam e cuidem deles.
 
Desde que Eles Não nos Encontrem
 
Direção: Maja Górczak
Polônia; 13 minutos; 2025
Sinopse: O filme recupera um curta-metragem da primeira estudante de direção da Escola de Cinema de Lodz, na Polônia. ​​Stefania Swieca, que morreu em São Paulo, em 2001, publicou, sob pseudônimo, um livro de memórias de sua experiência no gueto de Varsóvia.
 
Elegia para os Perdidos
 
Direção: William Hong-xiao Wei
Reino Unido, França, Espanha; 29 minutos; 2025
Sinopse: O filme entrelaça as memórias íntimas de uma jovem migrante chinesa na Europa pós-pandemia com narrativas públicas de resistência. Ela e sua comunidade atravessam o segredo, a repressão, a sobrevivência, a precariedade iminente e o deslocamento.
 
Se Não Gosta, Não Olhe
 
Direção: Margaux Fournier
França; 29 minutos; 2025
 
Sinopse: Todos os dias, Joëlle encontra suas amigas aposentadas na praia do Bain des Dames, em Marselha. Como em um teatro a céu aberto, elas riem, conversam sobre amor, sexo, corpos que envelhecem e reinventam o mundo com a liberdade de quem não tem mais nada a provar.
 
Silêncio Azul
 
Direção: Matías Rojas Ruz
Chile; 15 minutos; 2025
Sinopse: Na costa de Manquemapu, num dos cantos mais isolados da Região dos Lagos no Chile, o filme investiga as memórias dos moradores locais sobre o navio Janequeo, que naufragou em 1965 e deixou 51 mortos.
 
Sonhos de Apagão
 
Direção: Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso, Andrea Settembrini
Cuba, Itália; 20 minutos; 2025
Sinopse: Ao cair da noite em Cuba, a escuridão do “apagón” engole tudo, mas a vida continua: um padre folheia as páginas do Gênesis; um músico cego canta para sua esposa; um menino desafia seu professor para uma interminável partida de xadrez.
 
Todas as Folhas São do Vento
 
Direção: Andrea Rabasa Jofre
México; 17 minutos; 2025
Sinopse: A diretora combina três entrevistas e uma narrativa ficcional para explorar o silêncio que há anos envolve sua família. Num exercício de memória e reflexão, ela procura compreender como o passado revolucionário de seus pais se relaciona com o abandono de sua irmã.
 
Turno da Noite
 
Direção: Megumi Lim
Ucrânia; 29 minutos; 2025
Sinopse: No escuro, sob toque de recolher na ucraniana Kharkiv, uma tensão silenciosa percorre suas ruas vazias. Pessoas que trabalham à noite enfrentam a rotina e o risco, já que a Rússia ataca quando os moradores tentam dormir.
 
 
Competição Brasileira: Curtas-Metragens
 
Os Arcos Dourados de Olinda
 
Direção: Douglas Henrique
Brasil; 24 minutos; 2025
Sinopse: Olinda é palco de uma guerra fria tardia entre a primeira prefeita comunista do Brasil e o primeiro McDonald’s na cidade. O que fez Olinda ficar conhecida como a primeira cidade do mundo a falir um McDonald’s?
 
O Dia em que Minha Avó Fugiu de Casa
 
Direção: Victor Costa Lopes
Brasil; 17 minutos; 2026
Sinopse: Um encontro entre uma avó e um neto gera um filme inesperado.
 
Divino: Sua Alma, Sua Lente
 
Direção: Clea Torres e Gilson Costta
Brasil; 29 minutos; 2025
Sinopse: Acompanha a trajetória do cineasta xavante Divino Tserewahú. Entre memórias, arquivos e vivências na Terra Indígena Sangradouro, o filme revela como o cinema se tornou um instrumento de luta, preservação cultural e inspiração para novas gerações.
 
Filme-Copacabana
 
Direção: Sofia Leão
Brasil; 13 minutos; 2025
Sinopse: Uma jovem senta-se em uma cadeira de praia em uma calçada movimentada de Copacabana e, como se estivesse diante de uma tela de cinema, assiste ao que está à sua frente: uma sinfonia urbana tropical.
 
Inquietas
 
Direção: Thaina Morais
Brasil; 13 minutos; 2025
Sinopse: Uma mulher caminha pelas ruas de Natal evocando memórias e inquietações de mulheres que sonharam, resistiram e escreveram a história da cidade. Um retrato sensível da força feminina em meio às tradições e rupturas do tempo.
 
Não Existe Ninja de Pele Preta
 
Direção: Erik Ely
Brasil; 25 minutos; 2026
Sinopse: No universo cosplay, onde tudo pode ser adaptado, a mera mudança do tom de pele de um personagem ainda enfrenta resistência. Em meio a desafios, como o preconceito racial e de gênero, a cosplayer Kami Júpiter mostra que todos podem se ver representados.
 
Natureza Morta
 
Direção: Diran Serafim
Brasil; 15 minutos; 2025
Sinopse: Ao ver uma notícia sobre um acidente com um motoboy, Lucas, um fotógrafo transmasculino, pensa reconhecer João, por quem foi apaixonado na adolescência. Atravessado pelas lembranças, ele revisita imagens da Cohab da Zona Leste de São Paulo.
 
Talvez Meu Pai Seja Negro
 
Direção: Flávia Santana
Brasil; 24 minutos; 2025
Sinopse: Flávia embarca com seu pai em uma jornada íntima de investigação sobre suas raízes, após uma revelação que altera sua árvore genealógica. Entre documentos, fotos e memórias, o curta atravessa temas como apagamentos, paternidade, identidade racial e pertencimento.
 
Tanaru
 
Direção: Júlia Mariano
Brasil; 16 minutos; 2025
Sinopse: A Terra Indígena Tanaru guarda a memória e a história do “índio do buraco”, último indígena de seu povo, que sobreviveu ao massacre que assolou Rondônia na década de 1990.
 
 
Foco Latino-Americano
 
Mailin
 
Direção: María Silvia Esteve
Argentina, França, Romênia; 89 minutos; 2025
Sinopse: Durante oito anos, Mailin buscou justiça por ter sido abusada sexualmente na infância, na Argentina. O agressor, um padre amigo da família, fez muitas outras vítimas. O filme reúne relatos, imagens de arquivo e gravações em áudio do processo contra ele.
 
Sem Título # 11: Um Analecto à Mula
 
Direção: Carlos Adriano
Brasil; 27 minutos; 2026
Sinopse: Baseado na obra do poeta cubano José Lezama Lima (1910-1976), o filme tem como eixo o poema Rapsódia para a Mula (livro A Fixidez, 1949), recitado na voz do autor.
 
Um Sonho Errante
 
Direção: Sofía Betarte
Uruguai; 77 minutos; 2025
Sinopse: Yoaris, uma mulher cubana, percorre Montevidéu de motocicleta trabalhando para um aplicativo de entregas. Enquanto tenta se reconectar com a filha, que chegou de Cuba após três anos de separação, as coisas não saem como o esperado.
 
 
Programas Especiais
 
Me Dá a Bola!
 
Direção: Liz Garbus, Elizabeth Wolff
EUA; 101 minutos; 2025
Sinopse: Com entrevistas inéditas e imagens de arquivo, o filme faz um retrato de Billie Jean King, a tenista americana que mudou o mundo dos esportes nos anos 1970 e é considerada uma das maiores atletas de todos os tempos.
 
Mestre Zu
 
Direção: Zelito Viana
Brasil; 70 minutos; 2026
Sinopse: Em um encontro na casa do cineasta Zelito Viana, jornalistas, familiares e amigos que conviveram e trabalharam com Zuenir Ventura revisitam memórias e episódios que marcaram sua trajetória.
 
 
O Estado das Coisas
 
Baisanos
 
Direção: Andrés Khamis Giacoman, Francisca Khamis Giacoman
Chile, Espanha, Palestina; 14 minutos; 2025
Sinopse: Acompanhando os Baisanos, torcedores do Club Deportivo Palestino, time de futebol chileno fundado em 1920, o filme alterna entre dois narradores que encarnam o Chile e a Palestina, refletindo sobre identidade, o significado do retorno e as muitas formas de voltar.
 
Carcereiras
 
Direção: Julia Hannud
Brasil; 94 minutos; 2026
Sinopse: Ana Paula e Mariana trilham caminhos paralelos como agentes penitenciárias, distantes de suas raízes e laços afetivos. Enquanto Mariana sonha com uma transferência que impulsione sua carreira e vida adulta, Ana Paula almeja o retorno a São Paulo e a vida na metrópole.
 
O Cio da Terra
 
Direção: Rivelino Mourão
Brasil; 74 minutos; 2026
Sinopse: No mês de junho, celebra-se não só a fartura e a colheita, mas também a fé, a festa e o desejo. É tempo de Cio da Terra. A Festa do Pau da Bandeira une fiéis e brincantes em um ritual de força e ousadia. Uma celebração em constante transformação e cheia de contradições.
 
Crianças no Fogo
 
Direção: Evgeny Afineevsky
Ucrânia, República Tcheca, EUA; 108 minutos; 2025
Sinopse: Retornando às ruas onde filmou seu documentário indicado ao Oscar Inverno em Chamas: A Luta da Ucrânia pela Liberdade, o diretor convida sobreviventes dos sequestros e ataques russos a compartilharem suas histórias.
 
 
Clássicos É Tudo Verdade
 
Bardot
 
Direção: Alain Berliner, Elora Thevenet
França, Bélgica; 90 minutos; 2025
Sinopse: Em 1973, Brigitte Bardot abandonou os holofotes, para se tornar ativista pelos direitos dos animais e pelo meio ambiente. Aos 90 anos, ela mergulha em sua própria história, permitindo o acesso à intimidade de sua propriedade privada na Riviera Francesa.
 
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
 
Direção: Rosemberg Cariry
Brasil; 87 minutos; 1986
Sinopse: Depoimentos e imagens recontam o massacre sofrido pela comunidade liderada pelo beato paraibano José Lourenço no sertão do Ceará. O local se tornou alvo de políticos e religiosos após a Intentona Comunista de 1935. Cópia restaurada inédita.
 
Wilsinho Galileia
 
Direção: João Batista de Andrade
Brasil; 65 minutos; 1978
Sinopse: Proibido pela censura durante a ditadura militar, o filme intercala entrevistas com reconstituições para contar a vida do assaltante e homicida Wilsinho Galileia, morto pela polícia aos dezoito anos, no final dos anos 1970. Exibido em retrospectiva no É Tudo Verdade 2001 sobre a fase inicial do Globo Repórter.
 
 
Homenagens
 
Os Anos JK: Uma Trajetória Política
 
Direção: Silvio Tendler
Brasil; 110 minutos; 1980
Sinopse: O legado do presidente Juscelino Kubitscheck (1902-1976) é o objeto deste documentário, que investiga suas realizações, como a construção de Brasília, sua política desenvolvimentista e as crises políticas vividas antes, durante e depois de seu governo.
 
Em Nome do Jogo
 
Direção: Luiz Ferraz e Lu Guimarães
Brasil; 73 minutos; 2025
Sinopse: Em Salvador, futebol e fé se entrelaçam de forma única. Jogadores, torcedores e religiosos revelam como a devoção move paixões dentro e fora dos campos. Do candomblé ao catolicismo, do evangélico ao padre torcedor, o documentário explora rituais, vitórias e derrotas.
 
Missão 115
 
Direção: Silvio Da-Rin
Brasil; 87 minutos; 2018
Sinopse: Missão 115 foi o nome atribuído pelo DOI-Codi a uma suposta operação de “vigilância” durante show no Riocentro em 1981. Na verdade, tratava-se de um atentado a bomba. Pela primeira vez, um dos membros daquela equipe conta detalhes da operação.
 
Sobre Anos 60
 
Direção: Jean-Claude Bernardet
Brasil; 30 minutos; 2000
Sinopse: Ensaio documental que revisita as tensões e transformações sociais do Brasil na década de 1960, usando imagens de arquivo, trechos de filmes e registros de jornal. É o 13º episódio da série Panorama Histórico Brasileiro, produzida pelo Itaú Cultural.
 
 
Retrospectiva
 
Copacabana Beach
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 10 minutos; 1983
Sinopse: Um olhar bem-humorado sobre o que acontece todas as manhãs nas calçadas da praia de Copacabana. Condicionamento físico à brasileira, com uma pitada de futebol e toques de Carmen Miranda.
 
CORrespondência e REcorDAÇÕES
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 10 minutos; 2012
Sinopse: Baseado em uma correspondência entre a artista brasileira Ione Saldanha e a cineasta, este retrato foi realizado para uma exposição no MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro.
 
Domínio Público
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 13 minutos; 1996
Sinopse: Uma aventura livre e irreverente envolvendo boxeadores do Brooklyn e bolas quicando, dançarinos catalães e cães provençais. O Douro, o Danúbio, Biarritz e o Brasil são registrados no lendário filme Super 8 Kodachrome 40, hoje para sempre desaparecido.
 
Elizabeth Bishop: Do Brasil, com Amor
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 68 minutos; 2025
Sinopse: O filme mergulha no período íntimo e transformador que a poeta norte-americana Elizabeth Bishop viveu no Brasil, desde o início dos anos 1950 até meados da década de 1970, quando viveu um amor inesperado com a arquiteta e urbanista brasileira Lota de Macedo Soares.
 
Hiatus
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 6 minutos; 2018
Sinopse: A protagonista deste filme é a reclusa e introspectiva escritora ucraniano-brasileira Clarice Lispector (1920-1977). O filme se baseia em uma única entrevista para a TV, de 1977, exibida apenas após sua morte.
 
Idas e Vindas
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 12 minutos; 1984
Sinopse: Um mês no campo. Durante o verão, um grupo de amigos aluga uma casa no sul da França. Pessoas chegam e partem, circulando entre galinhas, cães e gatos. Sons brincalhões e uma colagem musical excêntrica compõem a trilha sonora.
 
Losing the Thread
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 8 minutos; 2014
Sinopse: Para refletir sobre como moda e estilo se entrelaçam, mas também são influenciados pelo brilho e pelo capricho individuais, o filme costura Coco Chanel, Courrèges, Cole Porter e Kaiser Karl a momentos de filmes de época.
 
M.M. em Movimento
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 35 minutos; 1992
Sinopse: O filme se baseia em filmagens de seis coreografias de Monnier (de 1988 a 1991), registradas em ensaios e apresentações.
 
Movie (V.O.)
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 8 minutos; 1982
Sinopse: Com uma câmera Super 8, de Paris a Berlim, de Amsterdã ao Rio, de Jerusalém a Nova York, filmando apenas à noite. Cantores húngaros, cantos tribais indianos, árias de ópera e, ocasionalmente, um samba compõem a trilha sonora deste diário “filmado à mão”.
 
Nikita Kino
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 40 minutos; 2002
Sinopse: O filme mistura imagens de família captadas pela diretora durante visitas a parentes em Moscou, a partir dos anos 1960, com arquivos soviéticos do mesmo período.
 
Son Chant
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 12 minutos; 2020
Sinopse: Ao revisitar suas gravações em MiniDV feitas ao longo da última década, a diretora redescobriu uma sequência noturna esquecida de Chantal Akerman e Sonia Wieder-Atherton saindo de uma brasserie onde haviam jantado em Montparnasse.
 
Tatitude
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 3 minutos; 2009
Sinopse: Uma deliciosa atualização do clássico de Jacques Tati As Férias do Sr. Hulot. Gaivotas grasnam, ondas quebram e banhistas se divertem em intermináveis dias de verão passados na praia. Tatitude sugere que areia, água e sol são os elementos básicos de uma vida feliz.
 
The Title Was Shot
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 9 minutos; 2009
Sinopse: Composto por fragmentos de dezenas de filmes, datados entre os anos de 1920 e 1990, o curta apresenta cowboys, índios e donzelas em perigo.
 
U.S.S.A.
 
Direção: Vivian Ostrovsky
EUA; 12 minutos; 1985
Sinopse: EUA + URSS = USSA. O filme trata de fronteiras borradas, a partir da história pessoal da diretora, que nasceu em Nova York, de pais russos e tchecos, foi criada no Brasil e educada na França. Um coquetel cultural, filmado em Super 8, em Moscou, Nova York, Milão, Berlim e Paris.
 
V.O por F.P
 
Direção: Fernanda Pessoa
Brasil; 15 minutos; 2026
Sinopse: Curta inédito sobre a cineasta homenageada, dirigido pela curadora.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 3


Enzo
 
O drama francês “Enzo”, dirigido por Robin Campillo (nascido no Marrocos, mas criado na França), estreou nos cinemas brasileiros no último fim de semana, com distribuição da Mares Filmes. Ele foi o título escolhido para abrir a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2025. Em seu novo trabalho, o diretor de “120 batimentos por minuto” (2017) marca um momento emocionante na carreira: ele presta uma homenagem ao falecido diretor e roteirista Laurent Cantet, velho parceiro de trabalho com quem esteve lado a lado desde “A agenda” (2001). Cantet escreveu o roteiro de “Enzo” meses antes de falecer de câncer, em 2024, mas não o terminou. Campillo o finalizou reunindo sua marca autoral e tentando reelaborar ideias do amigo morto. Cantet e Campillo fizeram diversos filmes, alternando direção e roteiro, com obras de teor social focado na juventude da Geração Z, como o vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado ao Oscar de filme estrangeiro “Entre os muros da escola” (2008). A história aqui acompanha Enzo (Eloy Pohu), um jovem de 16 anos que decide trilhar um caminho inesperado ao se tornar aprendiz de pedreiro, contrariando os planos de sua família burguesa, que imaginava para ele uma carreira de prestígio. Enzo vive com os pais num casarão no sul da França, e quando explica sobre o que quer fazer, crescem tensões familiares. Ele briga com o pai, Paolo (Pierfrancesco Favino), e abandona tudo para trabalhar no canteiro de obras, onde conhece Vlad (Maksym Slivinskyi), um imigrante ucraniano que está ali para exercer a mesma função. Os dois iniciam uma amizade que mudará o rumo de ambos – mas Enzo percebe que está se apaixonando pelo colega. O contraste entre o ambiente privilegiado da família e a realidade do trabalho manual dá ao filme uma força dramática que invade o âmago do protagonista, numa fita que mistura crítica social e descoberta íntima. Quem estrela é o estreante Eloy Pohu, que recebeu indicação ao prêmio de Melhor Ator Promissor no Lumière Awards, e entrega um papel sério, sem ser piegas. Em Cannes o filme recebeu indicação ao Queer Palm, e no Brasil teve sua première na Mostra Internacional de Cinema de SP do ano passado. Um filme sobre a juventude em transformação, com suas aspirações, livre-arbítrio e cobranças. Virou um testamento/tributo ao legado artístico de Laurent Cantet.
 
 
Operação Y
 
Também conhecida como “Operação Y e outras aventuras de Shurik” (1965), a comédia nonsense soviética é mais uma fita pastelão de um mestre do assunto, Leonid Gaidai (1923-1993), cineasta que fez pérolas do cinema russo que misturava aventura, comédia e ação, sem deixar a crítica social de lado. Todos os filmes dele são em velocidade acelerada, como “A prisioneira do Cáucaso” (1966), “Braço de diamante” (1969) e “12 cadeiras” (1971), e um parece derivar do outro. “Operação Y” é diversão na veia, uma fita criativa e popular na época, que agora chega ao Brasil com ótima restauração feita pela Mosfilm, o maior estúdio de cinema da Rússia, fundado há mais de 100 anos. São três histórias independentes que giram em torno do estudante Shurik (Aleksandr Demyanenko, ator de quase todos os filmes de Gaidai). Em cada episódio, o jovem protagonista se enrosca em situações hilárias: presencia uma briga no ônibus, enfrenta criminosos, envolve-se em confusões amorosas, tem de passar por provas acadêmicas, é alvo de assalto e se perde em apartamentos parecidos. A linguagem dinâmica do filme, em ritmo feroz de corre-corre, passando daqui pra lá em segundos, torna a obra memorável, propositalmente caricata. Gaidai (pode ser visto com a grafia Gayday) reúne elementos da comédia slapstick (pastelão) com romance e aventura para lançar um olhar ao modo de vida soviético dos anos 60, abordando temas como a vida urbana, as tensões da época (Guerra Fria) e as crises da juventude. Está em exibição gratuita até a noite de hoje no streaming da CPC-Umes Filmes, em https://www.youtube.com/@cpc-umesfilmes23



domingo, 22 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 2


A graça
 
Seis filmes da Mubi integraram a programação 2025 do Festival do Rio: ‘La grazia’, ‘Órfão’, ‘Valor sentimental’, ‘Alpha’, ‘The mastermind’ e ‘Morra, amor’. Assisti a todos lá, e gostei muito de ‘La grazia’, agora em cartaz nos cinemas como “A graça”. A Mubi é uma das queridinhas dos cinéfilos que percorrem festivais de cinema, provedora que traz em seu catálogo filmes independentes e outros premiados. “A graça” é o novo Paolo Sorrentino, diretor italiano celebrado, cultuado pelo mundo, de ‘A grande beleza’ e ‘Parthenope – Os amores de Nápoles’, que vi no Festival do Rio do ano retrasado. Seu novo longa é mais uma sátira social inteligente repleta de metáforas e referências diretas ao mundo da política. O grande ator Toni Servillo, parceiro frequente de Sorrentino, interpreta o presidente da Itália, Mariano de Santis, um homem indagador e que observa tudo ao seu redor. Viúvo, sente diariamente a falta da esposa; católico ferrenho, abre uma crise consigo e com o partido quando é forçado a assinar a lei de eutanásia e mais dois pedidos de perdão relacionados a homicídios do passado – por isso, ele tem de dar a “graça” aos envolvidos. Dilemas morais e éticos tiram seu sono nos últimos dias de seu governo, enquanto tem de escolher nomes para sua sucessão. Filme de abertura do Festival de Veneza de 2025, onde ganhou sete prêmios, dentre eles melhor ator para Servillo, é uma obra complexa, assim como todo filme de Sorrentino – aqui ele está mais contido com as exuberâncias dos personagens, pisando mais no chão, mas nunca deixando seu estilo inusitado de contar grandes histórias. Estreou nos cinemas brasileiros neste fim de semana, com distribuição da Pandora Filmes em parceria com a Mubi.


 
Pele de Vidro
 
Filha do arquiteto francês radicado no Brasil Roger Zmekhol (1928-1976), a cineasta Denise Zmekhol realiza aqui um documentário-homenagem ao seu pai, em que revisita o legado dele, analisando o projeto de maior destaque de sua carreira na arquitetura, o icônico edifício Wilton Paes de Almeida, localizado no Largo do Paissandu, no Centro velho de São Paulo e apelidado de “Pele de Vidro”. O arranha-céu modernista virou símbolo de uma São Paulo em transformação, erguido ao longo dos anos 60 e inaugurado em 1968, com 24 andares. Era um prédio vistoso, reluzente, inteiramente de vidro, depois tombado pelo Patrimônio Histórico da capital paulista. Ficou abandonado por décadas, até virar moradia de pessoas sem-teto. O filme nasce desse reencontro inesperado: entre memória pessoal (da cineasta que volta ao Brasil depois de 20 anos morando nos Estados Unidos, para investigar os desejos e o trabalho do pai falecido) e realidade social, abrindo uma reflexão sobre o problema da moradia no Brasil. O longa estava em construção quando ocorreu o incêndio que fez o prédio desabar, em maio de 2018, deixando sete mortos e dois desaparecidos nos escombros - na época, 140 famílias ocupavam o local. Em meio a imagens dos arquivos pessoais de Roger, Denise (que é uma premiada documentarista) faz toda a narração, dando um discurso poético e ao mesmo tempo nostálgico para a obra. Coprodução Brasil e EUA, o doc percorreu mais de 60 festivais nacionais e internacionais, como Festival de Shangai e a Mostra Internacional de Cinema de SP, e agora está exibição nos principais cinemas do país, com distribuição da Autoral Filmes.
 
 
A mensageira
 
Vencedor do Urso de Prata – Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2025, o longa confirma sem temor a força do cinema argentino contemporâneo, em um filme de pura beleza cinematográfica. A grandeza da obra reside no roteiro e no impacto das imagens, rodado em um preto-e-branco incrível. Tem a estrutura de um road movie intimista, em que acompanha Anika (Anika Bootz), uma menina prodígio que se comunica com animais vivos e mortos. Os avós, Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto), veem nela a oportunidade de ganhar dinheiro e começam a percorrer lugarejos oferecendo consultas mediúnicas para pessoas que são tutoras de pets. Eles viajam de van pela Argentina, cruzando diversas cidades do interior, movidos pela fé e também na busca do sustento diário. Os personagens do filme transicionam entre o mundo místico (a menina com o “dom” de ouvir animais) e o charlatanismo (a visão da sociedade sobre aquele trabalho, apontado como farsa), cujo enredo e até o PB me lembraram “Lua de papel” (1973), aquele da garotinha que vende bíblias com o pai adotivo por cidades do interior americano, até que se juntam com uma dançarina para fazer os negócios lucrarem. O trio central aqui não é retratado como mau-caráter ou exploradores da fé, tudo fica num limiar; o diretor expõe a fragilidade humana diante da perda e da despedida, e o oportunismo surge não como vilania, mas como estratégia de resistência, onde verdade, encenação e necessidade se confundem. Os atores de “A mensageira” atuam com intensidade: a garota Anika alterna leveza infantil e melancolia, enquanto Mara e Marcelo dão voz às ambiguidades desse núcleo familiar. Há muitas passagens contemplativas, sem diálogos, só com a captura de paisagens incríveis do interior da Argentina numa fotografia primorosa- o filme é uma coprodução Argentina, Espanha e Uruguai. Acumula prêmios em festivais internacionais, como Pequim (Melhor atriz coadjuvante e fotografia), San Sebastián (Horizontes Latinos) e Viña del Mar (Melhor filme), além da Berlinale já citada. Fund também é o roteirista, o produtor e o montador do filme, fazendo, portanto, uma obra autoral pensada e formatada completamente por ele. Em exibição nos cinemas brasileiros, distribuído pelo Filmes do Estação.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 1

 
 
A pequena Amélie
 
Indicado ao Oscar de melhor animação deste ano, a produção franco-belga é uma pequena joia do desenho contemporâneo, extremamente delicado e introspectivo, que vem conquistando público e crítica por todo o mundo. Mais do que um filme infantil, trata-se de uma obra que reflete a infância como experiência filosófica e emocional, elevando o gênero a um patamar de arte poética. Dirigido pela dupla estreante Maïlys Vallade e Liane-Cho Han Jin Kuang, que trabalharam juntos no departamento de arte da animação “O pequeno príncipe” (2015), o filme é baseado em um livro autobiográfico da escritora belga Amélie Nothomb, intitulado “The character of rain” (em francês, “Métaphysique des tubes”, que dá nome ao filme). É sobre a infância dessa escritora, narrado por ela de forma íntima e sensível, de quando era uma criança que descobriu o mundo aos três anos de idade. Na verdade, Amélie nasceu como uma criança disfuncional: não se mexia, vivia em estado de letargia, só piscando. Vinha de uma família rica da Bélgica que morava em Kobe, no Japão, super bem cuidada pelos pais, diplomatas, e o irmão. Pelas crenças japonesas, era chamada de “Criança divina” (uma “Okosama”), passando os três primeiros anos só na cadeira observando as coisas com seus grandes olhos esverdeados. Quando desperta, aos três, saindo daquela paralisia, descobre o mundo e sua profusão de cores, formas e sons, criando um forte vínculo com a governanta japonesa, Nishio-san, que a apresenta à natureza e a ensina sobre emoções escondidas. Visualmente, a obra tem uma fusão estética de paletas suaves, quase minimalistas, que induzem ao teor contemplativo proposto pelo filme. Tornou-se um fenômeno nos festivais internacionais, vencedor do Prêmio do Público em Annecy e que acumulou sete indicações ao Annie Awards, incluindo melhor filme, direção e roteiro. Também foi indicado ao Bafta, Critics Choice, Satellite e Globo de Ouro de melhor animação, além de indicação ao Golden Camera no Festival de Cannes. Serve para crianças, jovens e adultos com sua história filosófica e de enorme graça. Curtinho, tem 74 minutos, que passam voando. Gostei bastante e foi um dos meus filmes de animação preferidos do ano, ao lado de “Arco”. Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Mares Filmes e Alpha Filmes.
 

 
Cara de um, focinho de outro
 
Nova animação da Disney/Pixar, a produção norte-americana que está nos principais cinemas brasileiros é um frescor criativo do estúdio. Mesmo não tendo tanto marketing de divulgação, até que vai bem de bilheteria (confesso que nem sabia do filme). Foi escrito e dirigido por Daniel Chong, em sua estreia com longa-metragem, ele que criou a série da Cartoon Network “Ursos sem curso” (2014-2019) e foi do departamento de arte da Disney e depois da Illumination (de “Minions”, por exemplo). A animação cheia de humor e vida apresenta Mabel, uma garota de 19 anos apaixonada por animais, que decide usar em si própria uma tecnologia secreta ultramoderna capaz de transferir a consciência humana para bichos robóticos. Por que Mabel deseja isso? Porque o prefeito da cidade pretende destruir uma área de proteção dos castores para levantar um novo bairro; então, a menina se lança naquele experimento, conseguindo transferir sua consciência em um castor robótico, que irá se infiltrar no reino animal para proteger o habitat natural deles. No filme, a personagem adentra nos mistérios do mundo animal que vão além do que se poderia imaginar, vivenciando aventuras que misturam humor, emoção e reflexões profundas sobre a relação entre humanos e natureza. Os personagens são carismáticos, principalmente os animais, que dão o ar da graça, em uma animação com forte mensagem ecológica em tempos que a palavra de ordem é a degradação do planeta. O filme também trata com sabedoria sobre ética na ciência, sem perder o tom divertido característico das obras da Disney/Pixar.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Especial de cinema

 
Oscar 2026: ‘Uma batalha após a outra’ é o grande vencedor da noite enquanto ‘O agente secreto’ fica sem estatuetas
 
A cerimônia de entrega do Oscar 2026, realizada ontem no Teatro Dolby, em Los Angeles, deu a “Uma batalha após a outra”, de Paul Thomas Anderson (foto abaixo), as principais estatuetas da noite. Das 13 categorias, ganhou seis: melhor filme, direção, roteiro adaptado, montagem, ator coadjuvante para Sean Penn (que não estava presente) e casting/elenco (nova categoria do Oscar, lançada nesse ano). “Pecadores”, que contabilizava o maior número de indicações da História do Oscar (16 a todo) ganhou quatro: melhor roteiro original, fotografia (dado pela primeira vez a uma mulher, Autumn Durald Arkapaw), trilha sonora e ator para Michael B. Jordan (categoria em que o brasileiro Wagner Moura disputava por “O agente secreto”). Falando em “O agente secreto”, o filme não recebeu nenhum prêmio – a aposta do público e de parte da crítica era de que poderia levar a de melhor ator e a de filme internacional – esta acabou entregue para o norueguês “Valor sentimental”. Outros longas de grande repercussão ganharam prêmios, dentre eles “Frankenstein”, levando em três categorias técnicas (melhor direção de arte, figurino e maquiagem e cabelo), e “Avatar: Fogo e cinzas”, que venceu o de efeitos visuais. “Hamnet: A vida antes de Hamlet”, que tinha oito indicações, recebeu apenas o de melhor atriz (para Jessie Buckley). “Marty Supreme” foi o azarão da noite – estava na lista do maior número de indicações de 2026, nove ao todo, porém não ganhou em nenhuma. Um fato raro ocorreu na premiação de ontem: na categoria de melhor curta-metragem em live-action dois filmes empataram, recebendo juntos as estatuetas: “Os cantores” e “Duas pessoas trocando saliva” – da primeira cerimônia do Oscar, em 1929, até agora, isto se sucedeu sete vezes, em categorias variadas.


A 98ª festa de entrega do Oscar contou com transmissão no Brasil pela TNT, HBO Max e Rede Globo, além do site do G1 e pelo Youtube oficial da Academia. Confira abaixo a lista completa dos vencedores (é o primeiro de cada categoria).
 
Melhor filme
 
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'
'Bugonia'
'F1: O filme'
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'O agente secreto'
'Valor sentimental'
'Sonhos de trem'
 
Direção
 
Paul Thomas Anderson, 'Uma batalha após a outra'
Chloé Zhao, 'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
Josh Safdie, 'Marty Supreme'
Joachim Trier, 'Valor sentimental'
Ryan Coogler, 'Pecadores'
 
Atriz
 
Jessie Buckley, 'Hamnet: A vida antes de Hamlet' 
(foto abaixo)
Rose Byrne, 'Se eu tivesse pernas, eu te chutaria'
Kate Hudson, 'Song Sung Blue - Um sonho a dois'
Renate Reinsve, 'Valor sentimental'
Emma Stone, 'Bugonia'
 
Ator
 
Michael B. Jordan, 'Pecadores' (foto abaixo)
Timothée Chalamet, 'Marty Supreme'
Leonardo DiCaprio, 'Uma batalha após a outra'
Ethan Hawke, 'Blue Moon'
Wagner Moura, 'O agente secreto'
 


Atriz coadjuvante
 
Amy Madigan, 'A hora do mal'
Elle Fanning, 'Valor sentimental'
Inga Ibsdotter Lilleaas, 'Valor sentimental'
Wunmi Mosaku, 'Pecadores'
Teyana Taylor, 'Uma batalha após a outra'
 
Ator coadjuvante
 
Sean Penn, 'Uma batalha após a outra'
Benicio Del Toro, 'Uma batalha após a outra'
Jacob Elordi, 'Frankenstein'
Delroy Lindo, 'Pecadores'
Stellan Skarsgård, 'Valor sentimental'
 
Roteiro original
 
'Pecadores'
'Blue Moon'
'Foi apenas um acidente'
'Marty Supreme'
'Valor sentimental'
 
Roteiro adaptado
 
'Uma batalha após a outra'
'Bugonia”
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Sonhos de trem'
'Frankenstein'
 
Filme internacional
 
'Valor sentimental' - Noruega
'Foi apenas um acidente' - França
'O agente secreto' - Brasil
'A voz de Hind Rajab' - Tunísia
'Sirât' - Espanha
 
Animação
 
'Guerreiras do K-Pop'
'Zootopia 2'
'Arco'
'Elio'
'A pequena Amélie'
 
Documentário
 
'Um Zé Ninguém contra Putin'
'A vizinha perfeita'
'Alabama: Presos do sistema'
'Embaixo da luz de neon'
'Rompendo rochas'
 
Montagem
 
'Uma batalha após a outra'
'F1: O filme'
'Marty Supreme'
'Valor sentimental'
'Pecadores'
 
Direção de arte
 
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'
 
Fotografia
 
'Pecadores'
'Uma batalha após a outra'
'Sonhos de trem'
'Frankenstein'
'Marty Supreme'
 
Efeitos visuais
 
'Avatar: Fogo e cinzas'
'F1: O filme'
'Jurassic World: Recomeço'
'O ônibus perdido'
'Pecadores'
 
Maquiagem e cabelo
 
'Frankenstein'
'Kokuho: O preço da perfeição'
'Pecadores'
'Coração de lutador: The Smashing Machine'
'A meia-irmã feia'
 
Figurino
 
'Frankenstein'
'Avatar: Fogo e cinzas'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'Pecadores'
 
Elenco/Casting
 
'Uma batalha após a outra'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'O agente secreto'
'Pecadores'
 
Som
 
'F1: O filme'
'Frankenstein'
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'
'Sirât'
 
Trilha sonora original
 
'Pecadores'
'Bugonia'
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Uma batalha após a outra'
 
Canção original
 
'Golden', de 'Guerreiras do K-Pop'
'I lied to you', de 'Pecadores'
'Dear me', de 'Diane Warren: Relentless'
'Sweet dreams of Joy', de 'Viva Verdi!'
'Train dreams', de 'Sonhos de trem'
 
Curta-metragem em live-action
 
'Os cantores'
'Duas pessoas trocando saliva'
'Um amigo de Dorothy'
'O drama menstrual de Jane Austen's'
'Butcher's stain'
 
Animação de curta-metragem
 
'A garota que chorava pérolas'
'As três irmãs'
'Butterfly'
'Forevergreen'
'Retirement Plan'
 
Melhor documentário em curta-metragem
 
'Quartos vazios'
'Armado com uma câmera: Vida e morte de Brent Renaud'
'O diabo não tem descanso'
'Children no more: “Were and are gone'
'Perfectly a strangeness'
 
* Fotos extraídas dos sites da Band, Variety e Folha de S.Paulo

sábado, 14 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas


Minha querida família
 
A cineasta, atriz e artista plástica Isild Le Besco retorna às telas com “Minha querida família”, que está nos cinemas brasileiros com distribuição da Fênix Filmes. Trata-se de uma fita francesa autoral sobre os altos e baixos das relações familiares. A história transcorre em um fim de semana, quando uma família marca um reencontro. São muitas pessoas, que vem de lugares distantes, e ficam hospedadas na casa de uma idosa apelidada carinhosamente de Queen (Marisa Berenson). No passado, ela foi cantora e chamada até de div, mas hoje mora reclusa numa antiga casa de campo. A aconchegante residência recebe os netos e as filhas dela, que conhecem lá novos primos. A filha mais velha de Queen, Estelle (Élodie Bouchez), acaba de voltar de Roma com a filha pequena após uma crise conjugal. Os dias serão marcados por rodadas de vinho, risos e piadas, jantares, brincadeiras ao ar livre ao redor da idílica paisagem, memórias afetivas e também situações mal resolvidas, incluindo mágoas e ressentimentos. Uma dramédia que vira dramalhão sobre uma família que retorna às origens para um reencontro que será marcado por alegria, mas também brigas. Bem fotografado e com boas atuações, dentre elas Marisa Berenson, consagrada atriz de “Cabaret” (1972) e “Barry Lyndon” (1975) como a matriarca que tenta ajeitar todos os lados da família. Teve passagem pelo Festival de Locarno em 2024 e pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
 

 
Mother’s baby
 
Outra instigante fita de arte europeia dirigida por uma mulher estreia nos cinemas brasileiros (desta vez com distribuição da Autoral Filmes). Johanna Moder, cineasta austríaca, entrega em seu novo trabalho um drama perturbador que se aproxima do terror psicológico, ao investigar os temores de uma mãe diante da maternidade. Julia (Marie Leuenberger – de “Mulheres divinas”) é a protagonista, uma maestrina de 40 anos que tenta com muito custo engravidar após tratamento em uma clínica de fertilidade. O médico garante o bom resultado de um tratamento experimental, até que semanas depois ela descobre a gravidez. O nascimento do bebê se transforma em um pesadelo: a criança é afastada de seus braços, e quando finalmente Julia a reencontra, passa a desconfiar se aquele é realmente seu filho. O filme é uma espiral de paranoias envolvendo uma mãe em colapso emocional após a maternidade. O filme constrói um ambiente sufocante, marcado por paleta de cores escuras e densas, que reforça a sensação de paranoia e desorientação daquela mulher. O bebê nunca é mostrado em cena, recurso que intensifica a dúvida e a angústia da protagonista – e daí entra uma trama estranha, com axolotes (aquela espécie de salamandra aquática), que irá observar Julia e ficar em sua mente. A felicidade idealizada da maternidade dá lugar aqui a um estado de terror íntimo, desmontando o clichê de que o nascimento de uma criança é sempre sinônimo de alegria. Gostei do filme, mas vejo que não é para qualquer um, já que se torna um thriller psicológico amargo, complexo. O longa conta ainda com Hans Löw (de “Toni Erdmann”) e Claes Bang (de “The Square: A arte da discórdia”) no elenco. Produção conjunta entre Áustria, Suíça e Alemanha, foi exibida em première no 75º Festival de Berlim, onde disputou o Urso de Ouro. PS: Não teve o título traduzido no Brasil, sendo exibido em inglês.
 
 
Missão refúgio
 
Ric Roman Waugh, diretor especialista em fitas explosivas de ação, emplacou este ano dois filmes no cinema: “Destruição final 2” (2026), com Gerard Butler, e “Missão refúgio” (2026), com Jason Statham, que estreou anteontem no Brasil, pela Diamond Films. É cinemão de puro movimento, com um dos melhores trabalhos de Statham, aqui envelhecido, de barba branca. Ele interpreta Mason, ex-agente especial que vive recluso em sua casa à beira-mar. A rotina solitária é interrompida quando salva uma jovem, Jessie (Bodhi Rae Breathnach), de um afogamento durante uma tempestade. O gesto heroico, no entanto, desencadeia uma perseguição implacável: perigosos bandidos passam a caçar os dois, obrigando Mason a recorrer às suas habilidades para proteger a menina. Mason se transforma na figura do protetor, disposto a qualquer coisa, inclusive justiça com as próprias mãos, para sobreviver. É um filme também de fuga constante, marcado por porradaria, tensão e violência.  O elenco de apoio é de peso: tem Bill Nighy, indicado ao Oscar por “Viver” (2022), Naomi Ackie, de “Sorry, Baby” (2025), e Harriet Walter, da série “Succession” (2018-2023). Passatempo de fim de semana com a pipoca na mão para os fãs de fitas corriqueiras com tiroteios e pancadaria, que conta com sequências absurdas de ação que explodem em alta voltagem.



sexta-feira, 13 de março de 2026

Resenhas especiais


A ilha do milharal
 
Um camponês e sua neta cuidam de um milharal em uma pequena ilha no rio Inguri, na divisa da Georgia com a Abecásia, região independente fronteiriça com a Rússia. Há uma guerra civil ocorrendo que envolve conflitos étnicos. As ilhas da região são intermitentes, surgem e desaparecem devido às enchentes. O velho e a neta constroem em meio ao milharal uma cabana, onde moram e guardam o milho, até que são surpreendidos com a chegada de um refugiado de guerra.
 
Rodado na Geórgia, pequeno país euroasiático marcado por sua história de guerra civil, conflitos étnicos e disputas com a Rússia desde que se tornou independente, com o fim da URSS nos anos 1990, o drama se passa inteiramente em uma ilhota cortada pelo Rio Inguri. Nesse cenário de tensão, acompanhamos o passar de meses na vida de um idoso e sua neta, que vivem do cultivo de milho. O homem dedica seus dias à construção de um simples casebre de madeira para armazenar a colheita, até que a chegada inesperada de um fugitivo de guerra altera a dinâmica da família. Há um outro risco na região, que são as enchentes, que alagam a ilha e destroem as plantações. Com pouquíssimos diálogos, o filme de arte é um exercício de contemplação, com uma narrativa que aposta na força da imagem: a fotografia da ilha é belíssima, contrastando com o som constante de tiros ao longe e a presença silenciosa de soldados em barcos – que recriam o medo da guerra. Não há mortes nem violência física, e o que se impõe é uma simbólica violência psicológica, marcada pelo isolamento dos personagens e pelo ruído de balas que permeia cada cena. O resultado é uma obra sobre relações familiares no campo e o peso da guerra sem recorrer ao espetáculo da destruição. Exibido nos festivais de Karlovy, San Sebastian, Tóquio e BFI London.


A ilha do milharal (Simindis kundzuli). Geórgia/Alemanha/França/República Tcheca/Cazaquistão, 2014, 100 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por George Ovashvili. Distribuição: Zeta Filmes
 
 
 
Homo Argentum
 
Em Buenos Aires, 16 personagens diferentes, típicos da cidade grande, são retratados, em que se expõe suas hipocrisias e ambições.
 
Formidável comédia argentina que na verdade é uma crítica ácida aos costumes e modo de viver dos argentinos. O filme incomodou muita gente por lá e cinicamente foi aplaudida pelo presidente extremista Javier Milei – o político ou não entendeu as ridicularizações ali apresentadas, inclusive há uma sobre ele, ou fingiu ar de sábio. É um retrato de personagens que convivem na capital, do bancário ao relojoeiro, passando pelo presidente da República e pelo diretor de cinema (que lembra Pedro Almodóvar), alguns estereotipados, e todos mostrados em pequenas esquetes que duram de três a sete minutos. E todas protagonizadas pelo mesmo ator, o versátil Guillermo Francella, num tremendo tour de force – o veterano artista tem 70 anos, é um dos ídolos do cinema argentino, atuou em filmes premiados como “O segredo dos seus olhos” (2009), e suas 16 interpretações aqui são muito legais, colocando atores novos no chinelo. As historietas são independentes, mostrando a cara do ‘homem argentino médio’, uma nova escala na espécie humana, segundo o argumento original da obra. Desfilam no satírico filme o falso moralista, o alcaguete, o oportunista, o mentiroso, expondo as ambições e hipocrisia da sociedade.


É uma comédia que levanta polêmicas ao caçoar dos argentinos sem trégua, expondo as fragilidades humanas. A dupla de roteiristas e diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat, que fizeram crítica bem semelhante em “O cidadão ilustre” (2016), optou por uma narrativa não-linear, compilando fragmentos dessas figuras possivelmente reais para compor um mosaico cultural provocador. Distribuição no Brasil pela Disney (via Star Distribution), disponível no streaming Disney+.
 
Homo Argentum (Idem). Argentina, 2025, 98 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat. Distribuição: Disney+

Especial de cinema

  Festival “É Tudo Verdade” chega à 31ª edição com 75 títulos na programação   Os organizadores do “É Tudo Verdade – Festival Internacional ...