Festival do Rio abre com mais de 300 filmes, premiados em Cannes e Berlim
Alguns dos filmes da programação eu já conferi em festivais que cobri ao longo desse ano, como Berlinale, Olhar de Cinema, In-Edit Brasil e É Tudo Verdade. Republico, portanto, com alguns ajustes, críticas que escrevi sobre eles, acrescidas dos dias de exibição no Festival do Rio. Confira abaixo:
(EUA, 2026, de Beth de Araújo)
Assisti a 16 longas no Festival de Berlim de 2026, a maior parte em sessão de imprensa na Berlinale Palast, e “Josephine” foi o filme que teve mais aplausos da imprensa (composta por 1200 jornalistas e críticos de cinema do mundo inteiro). O aplauso acalorado como resposta não tem exagero nenhum: é um dos melhores títulos do Festival de Berlim, que me deixou extasiado. Na coletiva de imprensa, uma hora depois da exibição, com a participação do elenco, fui saber, pelas falas da diretora Beth de Araújo, que a história era verídica, baseada em uma ocorrência de estupro que ela presenciou quando tinha oito anos de idade. Tudo fez mais sentido, me causando mais impacto. Beth, que tem descendência brasileira por parte de pai e chinesa por parte de mãe, vive em São Francisco há muitas décadas e escreveu o roteiro puxando essa dolorosa imagem do passado, de como foi atravessada por um trauma ao ser testemunha de um crime sexual. O filme começa com Josephine (papel cativante e de pura singularidade da garotinha Mason Reeves), uma menina de oito anos, caminhando pelo parque Golden Gate em São Francisco ao lado do pai, Damien (Channing Tatum). Ela anda mais à frente dele e segue por um corredor de árvores altas, até que se esconde atrás de um tronco e vê algo estranho a poucos metros: é um homem cometendo estupro contra uma mulher. A garota observa sem entender a cena, até que Damien chega, percebe o ocorrido e corre atrás do criminoso, ligando em seguida para a polícia. Confusa, pois viu uma mulher gritar de dor e ser forçada a algo que não queria, a menina aguarda a polícia. E a partir daí sua rotina infantil é estraçalhada, sendo assombrada constantemente pela figura do abusador sexual (que aparece em suas visões, no quarto, na escola). Josephine desenvolve um comportamento violento, e os pais tentam encontrar uma solução para ajudá-la (quem interpreta a mãe de Josephine é Gemma Chan, em ótimo papel também). Mais uma questão surge e instalará uma nova crise na família e dentro do íntimo da menina, quando ela terá de depor no tribunal sobre o caso, já que é a única testemunha do estupro. Josephine passa a enxergar o mundo com um olhar duro, pessimista, reflexo do que viu no parque e da pressão que sofre agora para ir todo dia na delegacia relembrar o trágico ocorrido. Beth filma a menina em primeiro plano, com closes perfeitos para demonstrar a angústia silenciosa que a pequena protagonista enfrenta – e que é ela, Beth, no passado. A construção do filme mergulha na tensão familiar, com enfoque na instabilidade dos pais e no novo modo de enxergar a vida de Josephine (que perde um pouco do encanto da infância ao levar um baque como aquele). Recebeu o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio do Público em Sundance no mês passado, e em Berlim concorreu Urso de Ouro. Sessões no Festival do Rio nos dias 09, 10 e 11/10.
Rose
(Áustria e Alemanha, 2026, de Markus Schleinzer)
“Rose” integrou a competição oficial da Berlinale 2026 e foi um forte candidato ao Urso de Ouro – ganhou o de melhor atriz, num papel estupendo e desafiador, Sandra Hüller. A fita de arte de altíssimo impacto visual marca o retorno de Markus Schleinzer, diretor de “Angelo” (2018), num trabalho difícil de ser realizado e que tem tudo para dar a Sandra Hüller indicação ao Oscar no próximo ano: ela está extraordinária, em uma performance de precisão emocional. A fotografia em preto-e-branco de Gerald Kerkletz é arrebatadora com seus contrastes duros e texturas quase táteis, que dá ao longa uma aura de fábula sombria. Trata-se de um folk tale inspirado em um provável caso real, de uma mulher do início do século XVII que utiliza a identidade de um homem morto para ser aceita em uma sociedade regida pela religião. A história se passa em algum lugar longínquo da Alemanha. Rose é uma desconhecida que chega a um vilarejo protestante e se identifica como um soldado recém-saído da guerra. Com uma queimadura no rosto e uma cicatriz profunda na bochecha (marcas daquela guerra), ela apresenta aos moradores de lá documentos que indicam a herança de um lote de terra abandonado. Rose se instala numa casa na floresta, e naquele pedaço de chão tido como seu, passa a plantar e colher, sendo aceita pelos aldeões. Até que é forçada a se casar; para tanto, apresentam para ela uma mulher vinda de uma cidade vizinha. Sandra Hüller tem uma força de expressão indescritível, traz carga dramática, sentimento no olhar e na delicadeza dos gestos para levar nas costas uma história sobre construção de identidade e combate à intolerância, de uma mulher solitária que tem de se esconder para ser aceita, desde mudar o nome até usar roupas apertadas para apagar os traços de mulher. Schleinzer transforma essa premissa histórica em um estudo sobre moralidade, patriarcado e violência estrutural, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa e de um olhar profundamente humano. Sublime na forma, a plasticidade da paisagem salta da tela, verdadeiros quadros fotogênicos. As locações são do Vale de Glasebach (Glasebachtal), localizado no estado alemão da Saxônia-Anhalt. Indicado ainda ao Teddy Bear em Berlim, deve ser finalista do Oscar do próximo ano nas categorias de melhor filme estrangeiro, atriz e fotografia. Sessões no Festival do Rio nos dias 03, 04, 05, 06, 07, 08, 10 e 11/10.
(Áustria e Alemanha, 2026, de Markus Schleinzer)
“Rose” integrou a competição oficial da Berlinale 2026 e foi um forte candidato ao Urso de Ouro – ganhou o de melhor atriz, num papel estupendo e desafiador, Sandra Hüller. A fita de arte de altíssimo impacto visual marca o retorno de Markus Schleinzer, diretor de “Angelo” (2018), num trabalho difícil de ser realizado e que tem tudo para dar a Sandra Hüller indicação ao Oscar no próximo ano: ela está extraordinária, em uma performance de precisão emocional. A fotografia em preto-e-branco de Gerald Kerkletz é arrebatadora com seus contrastes duros e texturas quase táteis, que dá ao longa uma aura de fábula sombria. Trata-se de um folk tale inspirado em um provável caso real, de uma mulher do início do século XVII que utiliza a identidade de um homem morto para ser aceita em uma sociedade regida pela religião. A história se passa em algum lugar longínquo da Alemanha. Rose é uma desconhecida que chega a um vilarejo protestante e se identifica como um soldado recém-saído da guerra. Com uma queimadura no rosto e uma cicatriz profunda na bochecha (marcas daquela guerra), ela apresenta aos moradores de lá documentos que indicam a herança de um lote de terra abandonado. Rose se instala numa casa na floresta, e naquele pedaço de chão tido como seu, passa a plantar e colher, sendo aceita pelos aldeões. Até que é forçada a se casar; para tanto, apresentam para ela uma mulher vinda de uma cidade vizinha. Sandra Hüller tem uma força de expressão indescritível, traz carga dramática, sentimento no olhar e na delicadeza dos gestos para levar nas costas uma história sobre construção de identidade e combate à intolerância, de uma mulher solitária que tem de se esconder para ser aceita, desde mudar o nome até usar roupas apertadas para apagar os traços de mulher. Schleinzer transforma essa premissa histórica em um estudo sobre moralidade, patriarcado e violência estrutural, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa e de um olhar profundamente humano. Sublime na forma, a plasticidade da paisagem salta da tela, verdadeiros quadros fotogênicos. As locações são do Vale de Glasebach (Glasebachtal), localizado no estado alemão da Saxônia-Anhalt. Indicado ainda ao Teddy Bear em Berlim, deve ser finalista do Oscar do próximo ano nas categorias de melhor filme estrangeiro, atriz e fotografia. Sessões no Festival do Rio nos dias 03, 04, 05, 06, 07, 08, 10 e 11/10.
(EUA/Reino Unido, 2026, de Lance Hammer)
Um dos longas mais belos (e trágicos) do Festival de Berlim de 2026, a coprodução britânica-americana (lá exibida com o título original “Queen at sea”) é um devastador retrato sobre a impotência da velhice, que reúne um elenco em estado de graça – todos estavam cotados para os prêmios principais da Berlinale, e a dupla de veteranos Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay acabaram levando, dividindo o prêmio de coadjuvantes. Uma família é atravessada pela demência da mãe, Leslie (Anna Calder-Marshall), que já não fala e expressa pouco seus sentimentos. Ela é cuidada pelo atual marido, Martin (Tom Courtenay), ambos com mais de 80 anos. Certa manhã, a filha, Amanda (Juliette Binoche), vai visitar a mãe e leva um choque ao vê-la transando com o padrasto. Ela expulsa Martin da cama e ameaça chamar a polícia – segundo Amanda, ele não deveria mais fazer sexo com Leslie, já que a idosa fica estática, sem reação, alegando uma agressão às vontades da mãe. Martin e Amanda iniciam um duro embate moral que arrastará toda a discussão do filme, trazendo luz para temas como velhice, doença, decisões próprias, cuidado, companhia e solidão. O diretor e roteirista Lance Hammer, que venceu o Prêmio do Júri em Berlim pelo filme, dirige com maestria seu segundo longa-metragem fazendo um belo trabalho de atores, com presença marcante do trio composto por Anna Calder-Marshall, Tom Courtenay (numa interpretação notavelmente contundente) e Juliette Binoche. Uma história paralela, menos importante, é traçada, sobre a filha jovem e rebelde de Amanda, Sara (papel de Florence Hunt), que pouco acrescenta à trama original. Nossa atenção toda é voltada para a crescente crise que se instala naquela família, fazendo com que nossos olhos não saiam da tela um minuto sequer. Gostei muito e espero que o filme ganhe asas em outros festivais e chegue logo ao circuito no Brasil para que o público conheça. Sessões no Festival do Rio nos dias 04, 05 e 07/10.
(Brasil, 2026, de Lírio Ferreira)
Novo trabalho do diretor pernambucano Lírio Ferreira, cuja carreira é alternada entre filmes de ficção, como “Baile perfumado” (1996) e “Árido movie” (2005), e documentário (ele já realizou docs sobre Cacá Diegues, Cartola e Cachorro Grande, por exemplo). Ferreira volta-se, novamente, ao universo da música, agora para trazer um pouco sobre Alceu Valença, focando no emblemático álbum “Vivo” (1976), primeiro disco ao vivo do cantor e segundo álbum solo dele, que entrou em listas do mundo todo como um dos discos mais influentes daquela década. O doc celebra tanto os 50 anos de “Vivo” quanto os 80 anos de Alceu (que comemorou aniversário em julho), reunindo entrevistas atuais dele e muito material de arquivo. “Vivo” trazia músicas importantes do repertório, como “Sol e chuva” e “Papagaio do futuro”, marcado por influências da psicodelia, misturando ritmos como rock, pop, forró e experimentações de vanguarda (algo típico nos processos criativos de Valença, a mistura efusiva de sons e ritmos). Nesse percurso audiovisual, o cantor e compositor surge como figura central do underground nordestino, articulando música, poesia e rebeldia estética em um momento de efervescência política – 1976 era Ditadura, e Alceu e amigos compositores, como Geraldo Azevedo, que aparece no doc, foram perseguidos e presos em tal período. Trata-se de um tributo à vitalidade de Alceu Valença e à potência transformadora da música nordestina. “Vivo” foi o filme de abertura do Festival “É Tudo Verdade” no Rio (quando assisti), esteve na Competição Nacional do festival In-edit e agora tem sessões no Festival do Rio, nos dias 06, 07 e 08/10.
(EUA, 2026, de Brydie O'Connor)
Grande vencedor do Teddy Bear na Berlinale de 2026, prêmio entregue a obras de temática LGBTQIAPN+, o documentário de estreia de Brydie O'Connor é uma homenagem de corpo e alma a uma cineasta independente que marcou a cena da contracultura novaiorquina dos anos 60 e 70, Barbara Hammer (1939-2019). O filme acompanha o legado dela na fotografia, no cinema e na videoarte, com seus trabalhos ousados sobre o corpo feminino e questões de gênero. Barbara deixou marcas tanto no cinema experimental quanto na arte contemporânea ao trazer para o centro da discussão as experiências lésbicas e feministas vividas por ela e por suas companheiras. Construiu uma carreira original, produzindo mais de 90 obras audiovisuais entre filmes, fotografias, performances, videoarte, colagens e instalações, inspirada por nomes como a diretora Maya Deren. Explorou técnicas visuais inovadoras, desde montagem fragmentada a sobreposição de imagens e experimentações com o corpo em movimento, criando uma linguagem única que desafiava convenções abrindo espaço para formas diferentes de representação (num período em que havia uma profusão de novidades no campo das artes visuais, décadas de 60 e 70). A obra de Barbara é pioneira porque, em uma época em que a homossexualidade feminina era invisibilizada, colocou o desejo e a intimidade entre mulheres como protagonistas, em filmes que chegaram a festivais, como “Dyketactics” (1974), “Women I love” (1976) e “Nitrate kisses” (1992), este exibido em Toronto e Sundance. Parte de seus longas e curtas-metragens tornaram-se marcos do cinema queer ao exibir o afeto e a sexualidade lésbica de maneira poética e muito libertadora. O documentário traz momentos de sua vida privada, declarações e depoimentos antigos e atuais, com ela mesma em perspectiva e muito da colaboração de sua esposa, a ativista de direitos humanos Florrie Burke, que ajudou na finalização do filme. No terço final, os momentos mais duros: a descoberta do câncer de Barbara, que a levou a fazer trabalhos sobre a finitude da vida. O doc também foi premiado em Sundance desse ano, e é um dos grandes documentários da temporada. Assisti ao filme no festival curitibano Olhar de Cinema, e agora tem sessões especiais no Festival do Rio, nos dias 03 e 11/10.











