terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Especia de cinema


76º Festival de Berlim reúne obras autorais de impacto temático e visual
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) continua a todo vapor na capital alemã até o dia 22 de fevereiro. Vitrine do cinema mundial e um dos festivais de cinema mais importantes da Europa, a Berlinale apresenta esse ano mais de 400 filmes de diversos países, que exploram temas urgentes, como imigração, identidades de gênero, o papel da mulher na sociedade, intolerância religiosa, extremismo político etc. Obras autorais despertam a atenção pela qualidade técnica, provocando impacto visual imediato. Confira abaixo títulos que assisti no festival e que recomendo:



The moment
(Reino Unido e EUA - 2026, 103 minutos, de Aidan Zamiri)
 
Após estreia mundial no Festival de Sundance em janeiro e duas exibições em cinemas reservados nos Estados Unidos e Canadá, chega à Berlinale o mockumentary produzido e estrelado pela cantora britânica Charli xcx que mergulha nos altos e baixos de um artista pop contemporâneo. É um filme barulhento, de enorme furor, apresentado na seção Panorama e que tem a assinatura da produtora A24. Charli faz uma autointerpretação, em um filme que explora à exaustão os bastidores de um show musical. Sua personagem (ela mesma) enfrenta expectativas esmagadoras impostas tanto pela indústria quanto as que alimenta. A estrela pop, já consolidada, equilibra a pressão, a autocrítica e o desejo de autenticidade no período que antecede a primeira grande turnê da carreira. É de Charli o argumento original, confiado a Aidan Zamiri, cineasta e fotógrafo escocês radicado em Londres, que se tornou uma das figuras centrais da estética pop atual. Seu trabalho, reconhecido em videoclipes de Charli e Billie Eilish, combina um quê dos anos 2000, humor irônico, autocrítica feroz e um estilo lo-fi estilizado. Em “The moment”, ele leva essa assinatura visual para um território mais íntimo, expondo a vulnerabilidade por trás da persona pública de Charli – todo gravado com câmera em movimento, das andanças, erros e acertos da artista e sua equipe na preparação de um show. O filme, uma comédia dramática, caminha entre a fronteira da ficção e da realidade, ironizando o mundo dos músicos pop para revelar uma artista que tenta manter o controle enquanto tudo ao redor parece desmoronar. Charli caçoa da era Brat, estilo que virou fenômeno em 2024, popularizado por ela no álbum de mesmo nome, em que trata da nova juventude, de espírito livre, rebelde e hedonista (a cor verde-limão do disco volta como estética em “The moment”). O resultado é um olhar afiado sobre o significado de performar sucesso num mundo que exige presença constante. Detalhe que até as músicas de Charli tocam na trilha sonora, como “Boom clap” e “360”. No elenco há coadjuvantes curiosíssimos, com destaque para Rosana Arquette, como a empresária prestes a infartar, e o sueco Alexander Skarsgård, num papel que extra risadas sem fim, como o diretor contratado para conduzir o show da cantora. Estreia nos cinemas do Brasil e de outros países nesta semana.
 
 
Nightborn
(Finlândia/França/Reino Unido/Lituânia - 2026, 92 minutos, de Hanna Bergholm)
 
E eis que na Berlinale aparece um body horror com bebê monstro para discutir o papel de mãe em uma sociedade patriarcal, recorrendo a um humor (bem estranho) para amenizar o gore que respinga na tela. É um filme finlandês que se passa inteiramente em uma casa localizada nas adjacências de um bosque, onde mora o casal Saga (Seidi Haarla) e Jon (Rupert Grint). No lar cercado por árvores, onde Saga passou a infância, nasce o bebê deles. Mas desde o parto percebem que ali não existe uma criança igual às outras: o recém-nascido tem pelos por todo o corpo e unhas afiadas. Na amamentação, Saga fica machucada, de seu peito escorre sangue, e na hora de dormir, o bebê a deixa com hematomas no braço de tanto que a aperta. Inquieta, a mãe não consegue dialogar com o marido (sobre nenhum assunto), ambos brigam, e Jon fica mais distante. Resta a Saga cuidar sozinha daquele estranho filho, que passa a ter comportamentos fora do comum. Enquanto o pai não vê nada de errado ali, Saga trava uma batalha contra uma verdade que a assombra, iniciando conflitos com outros familiares, como a mãe controladora. O longa trata da pressão da maternidade e da depressão pós-parto, focando em uma mulher que vai enlouquecendo por não conseguir cuidar do filho recém-nascido. A sociedade exige dela a figura de mãe exemplar, forçada a exercer um papel que a sobrecarrega a ponto de viver apenas para a criança (o trabalho da atriz finlandesa Seidi Haarla, de “Compartimento número 6”, é afiadíssimo, com momentos de tensão, humor e dor). O terror corporal na figura da criança com traços animalescos (em determinado momento o nenezinho só se alimenta de carne crua desenvolvendo um instinto primitivo que o faz se comunicar com a natureza) dá ao filme a dimensão de fantasia e horror como uma fábula. A criança nunca aparece, só a vemos de lado e de costas no colo da mãe, instigando a curiosidade de quem assiste. No passado, filmes com recém-nascidos malditos já levantava questões sobre o desalento da maternidade, como “O bebê de Rosemary”, sendo este “Nightborn” um esperto derivado que serve para uma reflexão sobre o tema. O filme está na competição da Berlinale concorrendo ao Urso de Ouro.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
76º Festival de Berlim se destaca por filmes com protagonismo feminino
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) segue até o dia 22 de fevereiro na capital alemã e apresenta ao público uma programação repleta de filmes históricos e sociais, muitos deles com forte protagonismo feminino. Histórias de mulheres em busca de liberdade, enfrentando o patriarcado e o preconceito e lutando para decidir sobre o próprio corpo. Atrizes premiadas como Sandra Hüller, Amy Adams e Juliette Binoche se destacam nas produções que estão em première mundial na Berlinale. Confira abaixo títulos que assisti:

 
Rose
(Áustria e Alemanha - 2026, 94 minutos, de Markus Schleinzer)
 
“Rose” integra a competição oficial da Berlinale 2026 e é forte candidata ao Urso de Ouro. A fita de arte de altíssimo impacto visual marca o retorno de Markus Schleinzer, diretor de “Angelo” (2018), num trabalho difícil de ser realizado e que tem tudo para render a Sandra Hüller o prêmio de melhor atriz no festival: ela está extraordinária, em uma performance de precisão emocional. A fotografia em preto-e-branco de Gerald Kerkletz é arrebatadora com seus contrastes duros e texturas quase táteis, que dá ao longa uma aura de fábula sombria. Trata-se de um folk tale inspirado em um provável caso real, de uma mulher do início do século XVII que utiliza a identidade de um homem morto para ser aceita em uma sociedade regida pela religião. A história se passa em algum lugar longínquo da Alemanha. Rose é uma desconhecida que chega a um vilarejo protestante e se identifica como um soldado recém-saído da guerra. Com uma queimadura no rosto e uma cicatriz profunda na bochecha (marcas daquela guerra), ela apresenta aos moradores de lá documentos que indicam a herança de um lote de terra abandonado. Rose se instala numa casa na floresta, e naquele pedaço de chão tido como seu, passa a plantar e colher, sendo aceita pelos aldeões. Até que é forçada a se casar; para tanto, apresentam para ela uma mulher vinda de uma cidade vizinha. Sandra Hüller tem uma força de expressão indescritível, traz carga dramática, sentimento no olhar e na delicadeza dos gestos para levar nas costas uma história sobre construção de identidade e combate à intolerância, de uma mulher solitária que tem de se esconder para ser aceita, desde mudar o nome até usar roupas apertadas para apagar os traços de mulher. Schleinzer transforma essa premissa histórica em um estudo sobre moralidade, patriarcado e violência estrutural, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa e de um olhar profundamente humano. Sublime na forma, a plasticidade da paisagem salta da tela, verdadeiros quadros fotogênicos. As locações são do Vale de Glasebach (Glasebachtal), localizado no estado alemão da Saxônia-Anhalt. Deve ser finalista do Oscar do próximo ano na categoria de filme estrangeiro, atriz e fotografia.
 
 
Un hijo própio
(México - 2026, 96 minutos, de Maite Alberdi)
 
Com apenas 42 anos de idade, a cineasta chilena Maite Alberdi já se destaca como um dos principais nomes do documentário contemporâneo. Reconhecida por transformar questões sociais e situações cotidianas em narrativas intimistas com linguagem que mistura documentário e ficção, tornou-se a primeira mulher chilena indicada ao Oscar – ela tem duas nomeações, de melhor documentário por “Agente duplo” (2020), uma criativa fusão entre o universo da espionagem e a rotina de um lar de idosos, e “A memória infinita” (2023), um delicado retrato de um casal de jornalistas diante do Alzheimer. Depois de arriscar uma fita ficcional para a Netflix em 2024, “No lugar da outra”, recorrendo a uma história verídica de assassinato e julgamento, retorna ao gênero que a consagrou, sua base de cinema, no documentário “Un hijo próprio”, que teve a première mundial no Festival de Berlim. Filmado no México, ela reconta com suas palavras a história verídica de Alejandra, uma mulher mexicana que simula uma gravidez, após pressão do marido e das expectativas sociais. Ela sofreu três abortos espontâneos, o que a fez desistir de ser mãe. Mas acaba por fingir a espera de um bebê por nove meses, sustentando uma mentira que a lançará em uma armadilha. Família e amigos se afastam, e a mídia transforma o caso num escândalo sem precedentes. Alberdi insere humor agridoce numa trama que seria de muita angústia e adota uma abordagem de docuficção, com depoimentos reais combinados com encenações de atores, como Ana Celeste no papel de Alejandra. Esses elementos fazem seu cinema autoral acontecer, criando um filme de linguagem própria e que, como tema central, explora as imposições culturais relacionadas à maternidade. Produção original da Netflix, ele deve integrar o catálogo da plataforma após sua circulação em festivais.
 
 
Fiz um foguete imaginando que você vinha
(Brasil - 2026, 92 minutos, de Janaina Marques)
 
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
Berlinale 2026 entra na primeira semana de exibição reunindo filmes autorais de mais de 70 países
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, chega à edição de 2026 com uma programação marcada por obras de forte caráter histórico e social. Um dos eventos de cinema mais importantes da Europa, o festival, que começou no último dia 12, segue até 22 de fevereiro com mais de 400 filmes na programação, distribuídas em diversas seções e mostras especiais. Neste ano, o júri internacional é presidido pelo cineasta alemão Wim Wenders.
O cinema brasileiro marca presença com oito produções distribuídas por diferentes seções do festival. Entre elas estão: “Se eu fosse vivo... vivia”, de André Novais Oliveira (Panorama), “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai (Generation Kplus), “Papaya”, animação de Priscilla Kellen (Generation Kplus), “Feito pipa”, de Alan Deberton (Generation Kplus), “Quatro meninas”, de Karen Suzane (Generation 14plus), “Fiz um foguete imaginando que você vinha”, de Janaina Marques (Forum) e “Nosso segredo”, dirigido por Grace Passô (Perspectives, nova seção competitiva).



Na competição principal, 22 filmes disputam o Urso de Ouro e o Urso de Prata, muitos deles abordando temas contemporâneos. Entre os destaques estão: “Rosebush pruning”, novo trabalho de Karim Aïnouz, coprodução entre Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha, com elenco estrelado por Callum Turner, Tracy Letts,Riley Keough, Jamie Bell, Elle Fanning e Pamela Anderson; “At the sea”, do húngaro Kornél Mundruczó, com Amy Adams; “A new Dawn”, animação japonesa de Yoshitoshi Shinomiya; “Yellow letters”, do premiado diretor turco İlker Çatak; “Josephine”, da cineasta Beth de Araújo, com Channing Tatum; “Queen at sea”, produção britânica com Juliette Binoche e Tom Courtenay; “Rose”, drama de época austríaco estrelado por Sandra Hüller; e “Nightborn”, drama com elementos de terror corporal protagonizado por Rupert Grint.
Fundada em 1951, a Berlinale consolidou-se como um dos três grandes festivais europeus, ao lado de Cannes e Veneza. Desde 2000, seu principal palco de exibições e recepções é o Theatre am Potsdamer Platz, conhecido como Berlinale Palast. As exibições ocorrem em diversos cinemas da capital alemã, como o Cubix Cine Star, na praça Alexanderplatz, Cinemaxx e Bluemax Theater, ambos na Potsdamer Platz, Uber Eats Music Hall, Urania e Zoo Palast. Ingressos e informações pelo site oficial do festival, em https://www.berlinale.de/en/home.html
Confira abaixo comentários de filmes que conferi na Berlinale 2026:
 
A prayer for the dying
(Suécia, Reino Unido, Grécia e Noruega - 2026, 95 minutos, de Dara Van Dusen)
 
Produção independente falada em inglês e sueco, é a estreia na direção da curtametragista norte-americana Dara Van Dusen, que entrega uma fita autoral de drama com elementos do western e uma história peculiar sobre honra em um cenário desafiador. Também escrito por ela, o filme tem como pano de fundo os primeiros anos após o fim da Guerra Civil Americana. Em 1870, em uma Wisconsin em reconstrução, a pequena cidade de Friendship é de terra arrasada. Os moradores trabalham arduamente em comunidade para reerguer o local. O sol escaldante aliado ao clima seco atormenta o ânimo da população. Um ex-combatente da Guerra de Secessão, que virou herói do povoado, Jacob Hansen (Johnny Flynn, de “Emma.” e “O alfaiate”), é nomeado xerife de Friendship devido à experiência em combates armados. Ele administra a segurança com vigor, espantando bandidos e ajudando os moradores. Casa-se com a jovem esposa e tem um bebê. Hansen também é pastor e levanta uma igreja no centro da cidade. Tudo parece sob controle, até que uma estranha epidemia se alastra pela região. Vários morrem da doença, então ele decide fechar a cidade com o aval de um médico sanitarista (John C. Reilly, de “Chicago”). Impotente e receoso com o futuro, Hansen é atormentado por imagens do passado, de quando há poucos anos viu os horrores da guerra. O filme traz um bom trabalho dos atores centrais em uma trama de ritmo crescente, narrado como um poema trágico, de morte anunciada. A ambientação em uma região árida, com forte presença do sol, aprisiona os personagens, cercados por uma epidemia mortal não identificada (um diálogo com a pandemia que enfrentamos recentemente), e aos poucos as incertezas do futuro emparedam aquele longínquo povoado. O protagonista é um bravo soldado dividido entre a nova família que construiu e os desgastantes ossos do ofício (Johnny Flynn atua de forma certeira, compondo uma figura que anda por uma linha tênue, equilibrando-se para não explodir, um papel maduro e sólido, auxiliado por John C. Reilly, em mais uma interpretação de destaque em sua vasta carreira). Da metade para o final o longa assume um tom catastrofista, em que os personagens sobreviventes são forçados ao vale tudo, com consequências brutais. No elenco, participações de Kristine Kujath Thorp (de “Doente de mim mesma”) e Gustav Lindh (de “O homem do norte”). Première mundial na nova seção da Berlinale, chamada “Perspectives” – o assisti em uma sessão lotada no Cubix, ontem.




Everybody digs Bill Evans
(EUA, Irlanda e Reino Unido - 2026, 102 minutos, de Grant Gee)
 
Em première mundial na Berlinale, concorre ao Urso de Ouro este drama rodado em preto-e-branco que biografa uma pequena parte da vida do pianista norte-americano Bill Evans (1929-1980), focando em quatro pontos entre 1961 e 1973: o relacionamento amoroso conflitante com a primeira esposa, Ellaine Schultz, que cometeu suicídio, a produção de seu disco mais famoso (que dá título ao filme), o retorno para a casa dos pais, na Flórida, e o vício em heroína. O ator norueguês Anders Danielsen Lie (de “Oslo, 31 de agosto”) performa bem como o melancólico pianista, que era referência no jazz, mas que vivia sob efeitos de sedativos e drogas, chegando a dormir na mesa durante as refeições. Lie tem em uma interpretação tácita, de poucas palavras, um cara introspectivo, inseguro e limitado no amor – o filme se concentra nos momentos de silêncio do personagem, quando não está tocando ou gravando, ou seja, em seu momento íntimo. Solitário, ele aguarda a entrega do seu segundo álbum, cujo atraso da gravadora o perturba; ele tem um romance de altos e baixos com Ellaine Schultz, uma namorada quase noiva, que logo comete suicídio, o que o abalará profundamente. Recorre à heroína injetável para suportar o luto e as decepções. Um tanto quanto pessimista, o filme evita sublimar o personagem, buscando exibir seu lado frágil, às vezes decadente. A fotografia em penumbras, com sombras fortes projetando a silhueta de Evans nas paredes, é uma opção forte de estética, que foge da convencionalidade. O único momento de descontração, que torna momentos do filme mais leve, está na aparição dos pais de Evans, interpretados brilhantemente por Bill Pullman e Laurie Metcalf – o casal está formidável, Pullman como um idoso reclamão, e Laurie como a mãe de origem russa, engraçada e ao mesmo tempo atenta aos vícios do filho. Destaque para Bill Pullman, num de seus trabalhos mais humanos, que raramente o vemos desempenhar com tamanha dignidade no cinema. Há escolhas interessantes de montagem: o filme se passa essencialmente em 1961, num PB sagaz, mas há flashforwards (passagens para o tempo futuro) coloridos com tons estourados, de 1973 e 1980 (este sobre a morte prematura do pianista), provocando uma dinâmica especial para a composição das imagens. Quem assina o filme é o diretor inglês Grant Gee, um conhecedor do mundo da música, já indicado ao Grammy e que fez clipes nos anos 90 de Radiohead.
 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas e no streaming - Parte 1

 
Dinheiro suspeito
 
Joe Carnahan, conhecido por seu cinema policial eletrizante, anda numa maré de filmes ruins. Lá no passado dirigira o ótimo “Narc” (2002), um de seus primeiros trabalhos, passando por bons entretenimentos de ação como “A última cartada” (2006) e “A perseguição” (2011), mas de uma década para cá tudo mudou, entregando bobagens atrás de bobagens. Agora, com a Netflix, deu a volta por cima numa fita policial engenhosa, que exige muita cabeça para acompanhar a tétrica trama de investigação e traição. É o melhor trabalho dele desta década, um thriller que mistura a brutalidade estilizada do cineasta com uma narrativa intrincada, repleta de reviravoltas. O filme se passa numa noite sem fim, quando um grupo de agentes, numa batida policial casual, depara-se com um esquema financeiro obscuro, envolvendo-os em uma espiral de perseguições e traições. Eles encontram numa casa investigada milhões de dólares escondidos em uma parede no sótão, alimentando uma disputa de quem ficará com a grana. Enquanto parte da equipe decide avisar o chefe da polícia, outros se articulam ali dentro para roubar a bolada. O dinheiro aqui é uma metáfora corrosiva do poder e da ambição, que leva os personagens a dilemas morais. Com uma fotografia sombria e diálogos desafiadores, o filme traz no elenco um bom trabalho de Ben Affleck e Matt Damon, parceiros de longa data, que sustentam a fita com atuações sólidas – aos poucos seus papeis vão se contrapondo, um como policial bom, e outro como o vilão. Joe Carnahan reafirma sua assinatura no cinema que explora a violência policial e a corrupção dentro da instituição de Estado. Um dos destaques do mês da Netflix.
 

 
Me ame com ternura
 
Novo drama pessoal da jovem cineasta francesa Anna Cazenave Cambet, que costuma abordar temáticas LGBTQIAPN+ em seus curtas e longas-metragens. O roteiro, assinado por ela, é inspirado no livro autobiográfico de Constance Debré, advogada e romancista, também francesa. A história acompanha parte da trajetória da verdadeira Constance, após a separação do marido e o novo relacionamento com uma mulher mais jovem, tendo o filho do casal no centro de uma disputa. No filme, a personagem principal é Clémence (Vicky Krieps), que após o divórcio enfrenta uma batalha judicial pela guarda do filho. O ex-marido, profundamente magoado pela decisão de Clémence em se divorciar, provoca o afastamento do menino, alegando que a mãe tem problemas psicológicos (mas fica subentendido o preconceito eu ele alimenta, já que ela está com uma mulher hoje). O filho não quer saber mais de Clémence, mas a mulher faz de tudo para retomar os laços com ele. Exibida no Festival de Cannes, a dramática fita traz uma atuação fora do comum de Vicky Krieps, atriz luxemburguesa que sempre se destaca nos filmes que participa. Ela tem um desempenho excepcional, profundamente equilibrado entre a sensatez de uma mulher em um novo relacionamento e a mãe disposta a tudo para ver o filho. Um papel representativo sobre mulheres independentes marcadas pelo abandono da família e alvo de preconceitos. Trabalha bem o delicado tema sobre maternidade e os desafios impostos pelo patriarcado mais rude. O filme teve exibição em Cannes, onde concorreu ao Queer Palm e ao ‘Um certo olhar’, e no Brasil foi exibido nos festivais do Rio e Mix Brasil. Está nos cinemas pela Imovision.
 

 
Alerta apocalipse
 
Diverti-me muito com esse filme scifi que desbunda para a comédia macabra e o terror corporal e aposta no grotesco e escatológico para fazer rir. É uma história caótica sobre um fungo misterioso que escapa de um laboratório e rapidamente se espalha pelos Estados Unidos, transformando pessoas e animais (como gatos e veados) em criaturas meio zumbis, meio parasitas. O medo se instala quando autoridades de saúde e o próprio governo não conseguem conter a epidemia, que atinge outros países, mergulhando a sociedade em um cenário de paranoia e violência. O visual caótico com cores surreais é um elemento interessante do filme que homenageia o cinema B do passado; explora o horror físico das mutações ao mesmo tempo em que brinca com o absurdo/nonsense. Há pequenas ironias, momentos chocantes, e tudo num contexto que rememora o da pandemia da covid questionando até onde a humanidade consegue manter sua sanidade diante do colapso. Daqueles filmes que não damos um centavo (ele passou despercebido nos cinemas brasileiros), mas que quando assistimos temos a sensação de ter valido a pena. O elenco é liderado por Liam Neeson, no papel de um cientista veterano, Joe Keery (da série “Stranger Things”) e participações especiais das atrizes Lesley Manville e Vanessa Redgrave. Nos cinemas pela Imagem Filmes.
 

 
A morte de um unicórnio
 
A produtora A24 mais uma vez aposta no cinema de horror estilizado e entrega um filme que mistura fantasia sombria, terror e humor ácido. Disponível no Prime Video, o longa parte de uma premissa absurda: um casal atropela acidentalmente um unicórnio na estrada e acaba sacrificando o animal. Eles voltam para casa traumatizados com o ocorrido. Só que a situação se transforma num grande pesadelo quando o bicho retorna dos mortos, agora como um unicórnio zumbi vingativo. Com certa ousadia, o filme brinca com o imaginário infantil, contrastando a magia do unicórnio com a brutalidade do terror sombrio - o animal, símbolo de pureza e inocência, vira uma aberração grotesca que persegue os protagonistas, expondo o ridículo e o sobrenatural da situação. Com jumpscares, mortes sangrentas (o unicórnio ataca com seu chifre) e ação, o filme é um pequeno achado no cinema autoral independente, contando no elenco com Paul Rudd e Jenna Ortega (como o casal caçado pelo monstro), além de Richard E. Grant, Téa Leoni e Will Poulter. Caótico e excêntrico, é mais uma fita que carrega a marca da A24, que sabe transformar o estranho em espetáculo.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2


O acidente do piano
 
Músico (apelidado de Mr. Oizo), produtor, roteirista e um dos diretores mais excêntricos do cinema contemporâneo, Quentin Dupieux retorna com toda autoralidade em “O acidente do piano” (2025), novo lançamento da Mubi que chegou ao streaming na semana passada. O filme, uma comédia dramática nonsense, conta com sua marca registrada: narrativa absurda que chega próximo do surrealismo, com personagens estranhos em um mundo em desalinho. Não há linearidade nem clímax ou situações previsíveis em seu cinema. A trama parte de um evento banal: um piano cai de uma janela e quase mata uma jovem influenciadora digital (Adèle Exarchopoulos, atriz de “Azul é a cor mais quente”). Ela tem escoriações pela cabeça e corpo. Passa o tempo todo com um gesso no braço. Irritadiça e temperamental, a mulher observa tudo ao redor, enquanto é envolvida em situações insólitas, muitas delas bizarras, como chantagens de desconhecidos. O acaso e o surreal se entrelaçam para questionar a lógica do cotidiano, num filme de arte que satiriza a cultura dos influencers e das subcelebridades em busca do sucesso a qualquer preço. Quem conhece os filmes de Dupieux, principalmente os últimos, “Yannick” (2023) e “O segundo ato” (2024), sabe que não são obras fáceis de compreender; elas desafiam as convenções do cinema, contando com diálogos complexos que duram cenas inteiras, e dividem opinião do público. Não é melhor do cineasta, mas tem ali boas provocações. Adèle Exarchopoulos está muito bem como a jovem protagonista no centro do caos. Um filme para inseridos no cinema autoral francês de Dupieux.



 
Toque familiar
 
Premiado em três categorias da seção Horizons do Festival de Veneza de 2024 (dentre eles melhor atriz e melhor diretora), o drama intimista de Sarah Friedland fala, de maneira sentimental, sobre a senilidade, explorando como a memória e o afeto se tornam territórios instáveis diante da deterioração física e mental. O roteiro acompanha um filho que entrega sua mãe para uma casa de repouso. A idosa, Ruth (uma interpretação solar de Kathleen Chalfant, na época com 79 anos), tem demência, diagnosticada há pouco tempo. De início, não entende o motivo de estar naquela moradia assistida, reluta em ficar lá e receber atenção de enfermeiros. Com os dias ela vai compreendendo e lidando com as dificuldades da memória e da locomoção, à medida que estabelece novas relações afetivas. O filme se destaca pelo trabalho sensível de Kathleen, cujas lentes ficam nela o tempo todo, captando toques, olhares e gestos. A fotografia é espetacular, que inspira leveza em cada detalhe. Os momentos de silêncio da personagem traduzem a impotência diante da inevitabilidade da condição humana – veja que mesmo contida, a atriz tem forte presença em um papel que diz tudo, mesmo sem usar palavras. Curtinho (em seus 89 minutos), o delicado filme tem um tom naturalista, que parece um documentário de tão verdadeiro. Disponível no streaming da Reserva Imovision.
 

 
Infinite icon: Uma memória visual
 
Depois do documentário “This is Paris” (2020), a modelo, cantora e atriz Paris Hilton volta aos holofotes para contar mais de sua biografia em “Infinite icon” (2026), doc lançado nos cinemas brasileiros no último fim de semana pela Sato Company. O filme se aproveita da nova turnê musical de Paris, que dá nome ao último álbum dela, “Infinite icon”, que entrelaça partes do show em Los Angeles e entrevistas recentes dela. Tem uma construção em formato de lembranças, por isso o subtítulo “Memória visual”: Paris conta sobre a infância e juventude, de sua família rica e poderosa (ela é neta do fundador da rede de hotéis Hilton), os abusos físicos e mentais quando ficou em um internato para jovens até os primeiros passos na música na cultura clubber (o que lhe rendeu críticas ofensivas). Ela relembra o estrelato no mundo da mídia (passando pela moda, música, o cinema e os reality shows), fala com emoção o tempo do internato e as críticas pesadas quando era motivo de chacota em manchetes de tabloides. Ela traz para o filme o parceiro, Carter Reum, pai de seus dois filhos, nascidos de barriga de aluguel, e os reais motivos para voltar ao cenário da música - ela lançou apenas um álbum, em 2006, até chegar “Infinite icon” 20 anos depois. A montagem inclui entrevistas novas e antigas, vídeos caseiros, reportagens e cenas do show atual, bem como momentos de bastidores (como um making of). Um presente para os fãs dela, um filme bem realizado com estética própria do mundo multicolorido de Paris. Dirigido por J.J. Duncan e Bruce Robertson, conta com participação de Sia, que fez parceria em seu novo disco.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1


Amizade tóxica
 
Lançado há pouco na plataforma Paramount Plus, a comédia independente do estreante cineasta Andrew DeYoung aposta no desconforto como mola propulsora da narrativa, subvertendo um tema tão batido no cinema, sobre a amizade improvável de dois desconhecidos. Aqui o inusitado ganha forma nos detalhes da história e na relação dos dois personagens centrais, mergulhando nos limites da amizade – e de como a intimidade pode escorregar para a destruição. Na história, dois homens acabam de se conhecer: eles são novos vizinhos, o solitário e impulsivo Craig (Tim Robinson) e um músico de bem com a vida, Austin (Paul Rudd). Craig se aproxima de Austin, no primeiro momento respeitosamente, até que o dois se veem presos em situações cada vez mais absurdas, onde pequenos atritos do cotidiano se transformam em paranoia e perseguição. O comediante Tim Robinson, especialista em humor que beira o constrangimento, entrega uma atuação que mistura fragilidade e excentricidade, num personagem carente e patético que pra mim já se tornou icônico (vou sempre lembrar dele aqui), um cara pegajoso que tenta forçar uma amizade com o vizinho. Paul Rudd, protagonista de “Homem-formiga” (2015), com seu timing preciso, traz dinamismo ao papel do vizinho que cai numa tremenda cilada ao se encontrar com o cara que mora ao seu lado – seu trabalho é muito bom, dá ritmo à comédia. Juntos, eles fazem do desconforto uma ferramenta narrativa, provocando risadas nervosas e reflexões sobre até onde a convivência pode ir. O filme se inscreve na tradição das comédias autorais que desafiam o público a rir do incômodo, em muitos momentos levando para situações-limite. Não é humor casual nem previsível: é estranho, por vezes cruel, com narrativa ousada. O filme recebeu indicação ao Critics Choice de melhor comédia neste ano e exibido no Festival de Toronto.


 
Kaguya: A princesa espacial
 
Primeira aposta do ano da Netflix em anime, “Kaguya: A princesa espacial” (2026) é um bom exemplar de animação japonesa que mistura de maneira eclética temas e gêneros, que vai do drama à ficção científica, passando pelo musical e pela comédia adolescente. Faz uma fusão do folclore ancestral japonês com o scifi moderno repleto de cores neon e rosa cintilante – Kaguya é a princesa que, segundo a lenda japonesa do século X, nasceu dentro de um bambu e foi cuidada por um cortador de lenha, tornando-se uma princesa cobiçada, que recebeu a alcunha de “Filha da Lua” (em 2013 saiu uma delicada animação que contava os detalhes desse folclore, filme indicado ao Oscar, que recomendo, “O conto da princesa Kaguya”). Aqui a princesa é uma garota serelepe, e longos cabelos loiros, que foge da Lua e vai parar na Terra. Ela aparece na casa de uma adolescente emburrada, Iroha, que vive sob estresse e cansaço da escola. Juntas seguem uma jornada de amizade e descobertas, até que Kaguya oferece a Iroha uma visita ao seu lar, no espaço sideral. Um filme teenager com história bacana, movimentada e com muita ação, que trata das incertezas da adolescência, da procura pela identidade e autonomia. É uma aventura colorida com músicas dançantes e ritmo frenético. O desenho de produção recorre a elementos da iconografia clássica japonesa alternado com um design intergaláctico que brilha os olhos. Essa releitura da lenda de Kaguya para o público jovem antenado nos streamings é um acerto da Netflix.
 
 
Sequestro: Elizabeth Smart
 
Novo documentário investigativo da Netflix que está no top 10 dos filmes mais vistos nessa semana. Volta-se a um caso policial estranho ocorrido em 2002 em Salt Lake City, no estado americano de Utah, que permanece como um dos mais misteriosos dos Estados Unidos. Aos 14 anos, Elizabeth Smart foi raptada de dentro de seu quarto enquanto dormia. Ameaçada com uma faca por um homem chamado Brian David Mitchell, foi levada por ele a um cativeiro nas montanhas, sem comunicação com a família. Elizabeth ficou aprisionada por nove meses, enquanto familiares e a polícia a procuravam desesperadamente. O sequestrador cometia abusos psicológicos com a garota, utilizando para tanto uma doutrina religiosa que servia para privá-la de tudo. Havia com Brian uma cúmplice, Wanda Barzee, que vez ou outra saía com a menina pelas ruas, colocando disfarces em Elizabeth, para que não fosse reconhecida. É um caso instigante e perverso, contado pela própria sobrevivente, Elizabeth, que expôs as dolorosas memórias como maneira de exorcizar o passado. Ela conta com detalhes para as câmeras toda a trajetória de medo e violência sofrida – hoje ela é uma ativista pelos direitos das crianças e adolescentes. No doc há um extenso material inédito com fotos e reportagens antigas que ajudam a reconstituir o crime. Uma das primeiras estreias do ano da Netflix, é um documentário angustiante, dirigido por Benedict Sanderson, já ganhador de dois Baftas TV.



Quo vadis, Aida?
 
Disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, este é um dos grandes filmes de 2020, que fiz questão de rever na última semana – e novamente fiquei impactado com a obra peculiar da cineasta bósnia Jasmila Zbanic. Não é fácil assisti-lo, é um filme duro, amargo, que comove, uma história ficcional dentro de um contexto real, o Massacre de Srebrenica, ocorrido na Bósnia em 1995. No drama de guerra, Aida Selmanagic (Jasna Djuricic) é uma tradutora da Organização das Nações Unidas (ONU) que presencia a cidade bósnia de Srebrenica, uma zona segura durante a Guerra da Bósnia, ser tomada pelo exército sérvio. Dos milhares de reféns estão seus dois filhos e o marido. Correndo de um abrigo a outro, ela tenta de tudo para colocar o nome dos três na lista de pessoas a serem protegidas dos guerrilheiros. Jasna Djuricic é um espetáculo de atriz, dando humanidade e eloquência ao papel da tradutora confinada na região de guerra na corrida incessante contra o tempo para salvar sua família (ela é casada de verdade com o ator Boris Isakovic, que faz o general Ratko Mladić, responsável pelo genocídio em Srebrenica). O filme faz uma denúncia contundente ao genocídio na Bósnia, recorrendo a um dos fatos mais marcantes da Guerra da Bósnia, e decisivo para o fim dela, o Massacre de Srebrenica, em 1995, quando oito mil bósnios muçulmanos foram executados pelo exército sérvio. As vítimas tinham idade entre 15 e 80 anos, mortos a mando do temido general Ratko Mladić (muitos anos depois ele foi preso e condenado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade). O que houve ali foi uma limpeza étnica, em uma região considerada “zona de segurança” pela ONU, Srebrenica – os corpos dos bósnios foram enterrados em valas comuns, demorando anos para serem descobertos. O título é uma expressão latina de origem bíblica, significando “Para onde vai, Aida?”, que se refere à pergunta do apóstolo Pedro a Cristo ressuscitado quando fugia da perseguição do imperador Nero aos cristãos. No filme há uma perseguição nitidamente cruel de um povo a outro, por questões territoriais e religiosas, e o roteiro preciso não deixa nada se dissipar. Pode ser visto como um thriller político, e seu forte teor emocional poderá causar mal-estar (o desfecho é um dos mais amargos que já vi no cinema). A diretora e roteirista bósnia Jasmila Zbanic conta que o filme serve como uma reparação histórica – ela escreveu o roteiro adaptado do livro “Under the UN Flag: The international community and the Srebrenica genocide”, de Hasan Nuhanovic, um sobrevivente do massacre. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro (representando a Bósnia e Herzegovina), concorreu ao Leão de Ouro em Veneza e foi exibido no Festival de Toronto. Fotografia e direção de arte ótimas, filmado na cidade de Mostar, a 300 quilômetros de Srebrenica.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Nota do blogueiro

 
Cine Debate abre programação de 2026 com o premiado ‘Anora’
 
O Cine Debate, projeto de extensão do Imes Catanduva, abre 2026 com uma programação repleta de filmes premiados, de várias origens e épocas. Neste sábado, dia 31/01, a partir das 14 horas, o projeto retorna com a exibição de “Anora” (2024, de 139 minutos), produção independente norte-americana vencedora da Palma de Ouro no Festival de Cannes e também de cinco Oscars (melhor filme, melhor direção para Sean Baker, melhor atriz para Mikey Madison, melhor roteiro original e melhor edição). A comédia dramática virou sensação em festivais do mundo inteiro, indicado e premiado ainda no Bafta e no Critics Choice. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, na sala de ginástica do Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida.


 
Sinopse – Anora (Mikey Madison) é uma jovem stripper do Brooklyn, que trabalha em uma badalada boate. Certa noite, conhece Ivan (Mark Eydelshteyn), filho de um oligarca russo, um dos homens mais ricos de seu país. Eles se casam por impulso, numa festa privada, e vivem um conto de fadas. Até que os pais descobrem o passado de Anora decidindo anular o casamento dos dois.
 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. No próximo mês (em 28/02) o filme exibido no projeto será “Sonhar com leões” (2024), coprodução Brasil, Espanha e Portugal, com Denise Fraga no elenco. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

Especia de cinema

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