segunda-feira, 16 de março de 2026

Especial de cinema

 
Oscar 2026: ‘Uma batalha após a outra’ é o grande vencedor da noite enquanto ‘O agente secreto’ fica sem estatuetas
 
A cerimônia de entrega do Oscar 2026, realizada ontem no Teatro Dolby, em Los Angeles, deu a “Uma batalha após a outra”, de Paul Thomas Anderson (foto abaixo), as principais estatuetas da noite. Das 13 categorias, ganhou seis: melhor filme, direção, roteiro adaptado, montagem, ator coadjuvante para Sean Penn (que não estava presente) e casting/elenco (nova categoria do Oscar, lançada nesse ano). “Pecadores”, que contabilizava o maior número de indicações da História do Oscar (16 a todo) ganhou quatro: melhor roteiro original, fotografia (dado pela primeira vez a uma mulher, Autumn Durald Arkapaw), trilha sonora e ator para Michael B. Jordan (categoria em que o brasileiro Wagner Moura disputava por “O agente secreto”). Falando em “O agente secreto”, o filme não recebeu nenhum prêmio – a aposta do público e de parte da crítica era de que poderia levar a de melhor ator e a de filme internacional – esta acabou entregue para o norueguês “Valor sentimental”. Outros longas de grande repercussão ganharam prêmios, dentre eles “Frankenstein”, levando em três categorias técnicas (melhor direção de arte, figurino e maquiagem e cabelo), e “Avatar: Fogo e cinzas”, que venceu o de efeitos visuais. “Hamnet: A vida antes de Hamlet”, que tinha oito indicações, recebeu apenas o de melhor atriz (para Jessie Buckley). “Marty Supreme” foi o azarão da noite – estava na lista do maior número de indicações de 2026, nove ao todo, porém não ganhou em nenhuma. Um fato raro ocorreu na premiação de ontem: na categoria de melhor curta-metragem em live-action dois filmes empataram, recebendo juntos as estatuetas: “Os cantores” e “Duas pessoas trocando saliva” – da primeira cerimônia do Oscar, em 1929, até agora, isto se sucedeu sete vezes, em categorias variadas.


A 98ª festa de entrega do Oscar contou com transmissão no Brasil pela TNT, HBO Max e Rede Globo, além do site do G1 e pelo Youtube oficial da Academia. Confira abaixo a lista completa dos vencedores (é o primeiro de cada categoria).
 
Melhor filme
 
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'
'Bugonia'
'F1: O filme'
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'O agente secreto'
'Valor sentimental'
'Sonhos de trem'
 
Direção
 
Paul Thomas Anderson, 'Uma batalha após a outra'
Chloé Zhao, 'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
Josh Safdie, 'Marty Supreme'
Joachim Trier, 'Valor sentimental'
Ryan Coogler, 'Pecadores'
 
Atriz
 
Jessie Buckley, 'Hamnet: A vida antes de Hamlet' 
(foto abaixo)
Rose Byrne, 'Se eu tivesse pernas, eu te chutaria'
Kate Hudson, 'Song Sung Blue - Um sonho a dois'
Renate Reinsve, 'Valor sentimental'
Emma Stone, 'Bugonia'
 
Ator
 
Michael B. Jordan, 'Pecadores' (foto abaixo)
Timothée Chalamet, 'Marty Supreme'
Leonardo DiCaprio, 'Uma batalha após a outra'
Ethan Hawke, 'Blue Moon'
Wagner Moura, 'O agente secreto'
 


Atriz coadjuvante
 
Amy Madigan, 'A hora do mal'
Elle Fanning, 'Valor sentimental'
Inga Ibsdotter Lilleaas, 'Valor sentimental'
Wunmi Mosaku, 'Pecadores'
Teyana Taylor, 'Uma batalha após a outra'
 
Ator coadjuvante
 
Sean Penn, 'Uma batalha após a outra'
Benicio Del Toro, 'Uma batalha após a outra'
Jacob Elordi, 'Frankenstein'
Delroy Lindo, 'Pecadores'
Stellan Skarsgård, 'Valor sentimental'
 
Roteiro original
 
'Pecadores'
'Blue Moon'
'Foi apenas um acidente'
'Marty Supreme'
'Valor sentimental'
 
Roteiro adaptado
 
'Uma batalha após a outra'
'Bugonia”
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Sonhos de trem'
'Frankenstein'
 
Filme internacional
 
'Valor sentimental' - Noruega
'Foi apenas um acidente' - França
'O agente secreto' - Brasil
'A voz de Hind Rajab' - Tunísia
'Sirât' - Espanha
 
Animação
 
'Guerreiras do K-Pop'
'Zootopia 2'
'Arco'
'Elio'
'A pequena Amélie'
 
Documentário
 
'Um Zé Ninguém contra Putin'
'A vizinha perfeita'
'Alabama: Presos do sistema'
'Embaixo da luz de neon'
'Rompendo rochas'
 
Montagem
 
'Uma batalha após a outra'
'F1: O filme'
'Marty Supreme'
'Valor sentimental'
'Pecadores'
 
Direção de arte
 
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'
 
Fotografia
 
'Pecadores'
'Uma batalha após a outra'
'Sonhos de trem'
'Frankenstein'
'Marty Supreme'
 
Efeitos visuais
 
'Avatar: Fogo e cinzas'
'F1: O filme'
'Jurassic World: Recomeço'
'O ônibus perdido'
'Pecadores'
 
Maquiagem e cabelo
 
'Frankenstein'
'Kokuho: O preço da perfeição'
'Pecadores'
'Coração de lutador: The Smashing Machine'
'A meia-irmã feia'
 
Figurino
 
'Frankenstein'
'Avatar: Fogo e cinzas'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'Pecadores'
 
Elenco/Casting
 
'Uma batalha após a outra'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Marty Supreme'
'O agente secreto'
'Pecadores'
 
Som
 
'F1: O filme'
'Frankenstein'
'Uma batalha após a outra'
'Pecadores'
'Sirât'
 
Trilha sonora original
 
'Pecadores'
'Bugonia'
'Frankenstein'
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'
'Uma batalha após a outra'
 
Canção original
 
'Golden', de 'Guerreiras do K-Pop'
'I lied to you', de 'Pecadores'
'Dear me', de 'Diane Warren: Relentless'
'Sweet dreams of Joy', de 'Viva Verdi!'
'Train dreams', de 'Sonhos de trem'
 
Curta-metragem em live-action
 
'Os cantores'
'Duas pessoas trocando saliva'
'Um amigo de Dorothy'
'O drama menstrual de Jane Austen's'
'Butcher's stain'
 
Animação de curta-metragem
 
'A garota que chorava pérolas'
'As três irmãs'
'Butterfly'
'Forevergreen'
'Retirement Plan'
 
Melhor documentário em curta-metragem
 
'Quartos vazios'
'Armado com uma câmera: Vida e morte de Brent Renaud'
'O diabo não tem descanso'
'Children no more: “Were and are gone'
'Perfectly a strangeness'
 
* Fotos extraídas dos sites da Band, Variety e Folha de S.Paulo

sábado, 14 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas


Minha querida família
 
A cineasta, atriz e artista plástica Isild Le Besco retorna às telas com “Minha querida família”, que está nos cinemas brasileiros com distribuição da Fênix Filmes. Trata-se de uma fita francesa autoral sobre os altos e baixos das relações familiares. A história transcorre em um fim de semana, quando uma família marca um reencontro. São muitas pessoas, que vem de lugares distantes, e ficam hospedadas na casa de uma idosa apelidada carinhosamente de Queen (Marisa Berenson). No passado, ela foi cantora e chamada até de div, mas hoje mora reclusa numa antiga casa de campo. A aconchegante residência recebe os netos e as filhas dela, que conhecem lá novos primos. A filha mais velha de Queen, Estelle (Élodie Bouchez), acaba de voltar de Roma com a filha pequena após uma crise conjugal. Os dias serão marcados por rodadas de vinho, risos e piadas, jantares, brincadeiras ao ar livre ao redor da idílica paisagem, memórias afetivas e também situações mal resolvidas, incluindo mágoas e ressentimentos. Uma dramédia que vira dramalhão sobre uma família que retorna às origens para um reencontro que será marcado por alegria, mas também brigas. Bem fotografado e com boas atuações, dentre elas Marisa Berenson, consagrada atriz de “Cabaret” (1972) e “Barry Lyndon” (1975) como a matriarca que tenta ajeitar todos os lados da família. Teve passagem pelo Festival de Locarno em 2024 e pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
 

 
Mother’s baby
 
Outra instigante fita de arte europeia dirigida por uma mulher estreia nos cinemas brasileiros (desta vez com distribuição da Autoral Filmes). Johanna Moder, cineasta austríaca, entrega em seu novo trabalho um drama perturbador que se aproxima do terror psicológico, ao investigar os temores de uma mãe diante da maternidade. Julia (Marie Leuenberger – de “Mulheres divinas”) é a protagonista, uma maestrina de 40 anos que tenta com muito custo engravidar após tratamento em uma clínica de fertilidade. O médico garante o bom resultado de um tratamento experimental, até que semanas depois ela descobre a gravidez. O nascimento do bebê se transforma em um pesadelo: a criança é afastada de seus braços, e quando finalmente Julia a reencontra, passa a desconfiar se aquele é realmente seu filho. O filme é uma espiral de paranoias envolvendo uma mãe em colapso emocional após a maternidade. O filme constrói um ambiente sufocante, marcado por paleta de cores escuras e densas, que reforça a sensação de paranoia e desorientação daquela mulher. O bebê nunca é mostrado em cena, recurso que intensifica a dúvida e a angústia da protagonista – e daí entra uma trama estranha, com axolotes (aquela espécie de salamandra aquática), que irá observar Julia e ficar em sua mente. A felicidade idealizada da maternidade dá lugar aqui a um estado de terror íntimo, desmontando o clichê de que o nascimento de uma criança é sempre sinônimo de alegria. Gostei do filme, mas vejo que não é para qualquer um, já que se torna um thriller psicológico amargo, complexo. O longa conta ainda com Hans Löw (de “Toni Erdmann”) e Claes Bang (de “The Square: A arte da discórdia”) no elenco. Produção conjunta entre Áustria, Suíça e Alemanha, foi exibida em première no 75º Festival de Berlim, onde disputou o Urso de Ouro. PS: Não teve o título traduzido no Brasil, sendo exibido em inglês.
 
 
Missão refúgio
 
Ric Roman Waugh, diretor especialista em fitas explosivas de ação, emplacou este ano dois filmes no cinema: “Destruição final 2” (2026), com Gerard Butler, e “Missão refúgio” (2026), com Jason Statham, que estreou anteontem no Brasil, pela Diamond Films. É cinemão de puro movimento, com um dos melhores trabalhos de Statham, aqui envelhecido, de barba branca. Ele interpreta Mason, ex-agente especial que vive recluso em sua casa à beira-mar. A rotina solitária é interrompida quando salva uma jovem, Jessie (Bodhi Rae Breathnach), de um afogamento durante uma tempestade. O gesto heroico, no entanto, desencadeia uma perseguição implacável: perigosos bandidos passam a caçar os dois, obrigando Mason a recorrer às suas habilidades para proteger a menina. Mason se transforma na figura do protetor, disposto a qualquer coisa, inclusive justiça com as próprias mãos, para sobreviver. É um filme também de fuga constante, marcado por porradaria, tensão e violência.  O elenco de apoio é de peso: tem Bill Nighy, indicado ao Oscar por “Viver” (2022), Naomi Ackie, de “Sorry, Baby” (2025), e Harriet Walter, da série “Succession” (2018-2023). Passatempo de fim de semana com a pipoca na mão para os fãs de fitas corriqueiras com tiroteios e pancadaria, que conta com sequências absurdas de ação que explodem em alta voltagem.



sexta-feira, 13 de março de 2026

Resenhas especiais


A ilha do milharal
 
Um camponês e sua neta cuidam de um milharal em uma pequena ilha no rio Inguri, na divisa da Georgia com a Abecásia, região independente fronteiriça com a Rússia. Há uma guerra civil ocorrendo que envolve conflitos étnicos. As ilhas da região são intermitentes, surgem e desaparecem devido às enchentes. O velho e a neta constroem em meio ao milharal uma cabana, onde moram e guardam o milho, até que são surpreendidos com a chegada de um refugiado de guerra.
 
Rodado na Geórgia, pequeno país euroasiático marcado por sua história de guerra civil, conflitos étnicos e disputas com a Rússia desde que se tornou independente, com o fim da URSS nos anos 1990, o drama se passa inteiramente em uma ilhota cortada pelo Rio Inguri. Nesse cenário de tensão, acompanhamos o passar de meses na vida de um idoso e sua neta, que vivem do cultivo de milho. O homem dedica seus dias à construção de um simples casebre de madeira para armazenar a colheita, até que a chegada inesperada de um fugitivo de guerra altera a dinâmica da família. Há um outro risco na região, que são as enchentes, que alagam a ilha e destroem as plantações. Com pouquíssimos diálogos, o filme de arte é um exercício de contemplação, com uma narrativa que aposta na força da imagem: a fotografia da ilha é belíssima, contrastando com o som constante de tiros ao longe e a presença silenciosa de soldados em barcos – que recriam o medo da guerra. Não há mortes nem violência física, e o que se impõe é uma simbólica violência psicológica, marcada pelo isolamento dos personagens e pelo ruído de balas que permeia cada cena. O resultado é uma obra sobre relações familiares no campo e o peso da guerra sem recorrer ao espetáculo da destruição. Exibido nos festivais de Karlovy, San Sebastian, Tóquio e BFI London.


A ilha do milharal (Simindis kundzuli). Geórgia/Alemanha/França/República Tcheca/Cazaquistão, 2014, 100 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por George Ovashvili. Distribuição: Zeta Filmes
 
 
 
Homo Argentum
 
Em Buenos Aires, 16 personagens diferentes, típicos da cidade grande, são retratados, em que se expõe suas hipocrisias e ambições.
 
Formidável comédia argentina que na verdade é uma crítica ácida aos costumes e modo de viver dos argentinos. O filme incomodou muita gente por lá e cinicamente foi aplaudida pelo presidente extremista Javier Milei – o político ou não entendeu as ridicularizações ali apresentadas, inclusive há uma sobre ele, ou fingiu ar de sábio. É um retrato de personagens que convivem na capital, do bancário ao relojoeiro, passando pelo presidente da República e pelo diretor de cinema (que lembra Pedro Almodóvar), alguns estereotipados, e todos mostrados em pequenas esquetes que duram de três a sete minutos. E todas protagonizadas pelo mesmo ator, o versátil Guillermo Francella, num tremendo tour de force – o veterano artista tem 70 anos, é um dos ídolos do cinema argentino, atuou em filmes premiados como “O segredo dos seus olhos” (2009), e suas 16 interpretações aqui são muito legais, colocando atores novos no chinelo. As historietas são independentes, mostrando a cara do ‘homem argentino médio’, uma nova escala na espécie humana, segundo o argumento original da obra. Desfilam no satírico filme o falso moralista, o alcaguete, o oportunista, o mentiroso, expondo as ambições e hipocrisia da sociedade.


É uma comédia que levanta polêmicas ao caçoar dos argentinos sem trégua, expondo as fragilidades humanas. A dupla de roteiristas e diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat, que fizeram crítica bem semelhante em “O cidadão ilustre” (2016), optou por uma narrativa não-linear, compilando fragmentos dessas figuras possivelmente reais para compor um mosaico cultural provocador. Distribuição no Brasil pela Disney (via Star Distribution), disponível no streaming Disney+.
 
Homo Argentum (Idem). Argentina, 2025, 98 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat. Distribuição: Disney+

sábado, 7 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas


Kokuho – O preço da perfeição
 
O longa japonês exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes concorre ao Oscar de melhor maquiagem e cabelo, e é a estreia da semana nos cinemas brasileiros, com distribuição da Sato Company em parceria inédita com a Imovision. Foi fenômeno de público no Japão, talvez por retratar o ‘kabuki’, antiga e icônica manifestação teatral do país, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, cuja origem vem do século XVII, combinando música, dança e intepretação dramática em performances estilizadas e figurinos e cenários exuberantes. Baseado no romance de sucesso de Shuichi Yoshida (no livro de mesmo nome, “Kokuho” lançado em 2018), é um drama sensível, quase uma poesia humanista, cuja trama se passa em Nagasaki 20 anos depois da bomba, em 1964. Um jovem, Kikuo Tachibana (Soya Kurokawa), vê o pai, líder da máfia Yakuza, morrer. Desamparado, ele é adotado por um veterano ator de kabuki, Hanai Hanjiro (Ken Watanabe), que se apresenta em salões e clubes reservados para homens, dentre eles a famosa casa Tanba-ya. Kikuo vira um irmão de alma do filho do mestre, Shunsuke Ogaki (Ryûsei Yokohama). Os dois então entregam-se ao fazer artístico do kabuki – Kikuo muda de nome (para Toichiro), realizando performances notórias, em que apenas os homens podiam atuar (inclusive interpretando papeis femininos). Dividido em duas fases, com tempo presente e o desenrolar para os próximos anos (ou seja, a juventude e depois a idade madura do protagonista), tem um trabalho sério dos atores; Soya Kurokawa, que brilhou em “Monster” (2023), é Kikuo jovem, enquanto Ryô Yoshizawa, astro da franquia de quatro filmes de ação épica “Kingdom” (2019-2024), faz o personagem na idade adulta, quando vira Toichiro. Atores coadjuvantes também se destacam, como Ryûsei Yokohama (conhecido como dublador de animes no Japão) e Ken Watanabe, um monstro sagrado, indicado ao Oscar de coadjuvante por “O último samurai” (2003). Figurino e maquiagem saltam aos olhos, são elementos apurados e essenciais para a história, que trazem todo o conceito do kabuki, numa história marcada por irmandade e dedicação à arte. Além de Cannes, passou pelos festivais de Toronto, Shanghai, Bangkok, Busan e Rio. A direção é impecável, cheio de sutilezas, assinada por Lee Sang-il, cineasta japonês de origem coreana, que adaptou para o Japão o premiado filme de Clint Eastwood “Os imperdoáveis” (2013) e dirigiu a série “Pachinko” (2024). Quando assisti me remeteu a chinês “Adeus, minha concubina” (1993), cuja história traz semelhanças imediatas (a amizade duradoura, de mais de 70 anos, de duas crianças em meio ao fazer artístico, aqui a Ópera de Pequim). Como é uma obra autoral repleta de detalhes, no formato de uma saga, tem duração acima do normal, com 175 minutos (que, confesso, nem vi passar). “Kokuho” é imperdível, um dos melhores lançamentos do ano. Foi o representante oficial do Japão na shortlist do Oscar de filme estrangeiro de 2026, ficando de fora da lista dos indicados.
 

 
Por um destino insólito
 
Mais um clássico em edição comemorativa que a Pandora Filmes traz para o Brasil. Esta é a cópia restaurada em 4K, feita em 2024 para celebrar os 50 anos do filme italiano, exibida na seção ‘Veneza Clássicos’ do Festival de Veneza de 2024. O restauro dos negativos originais foi feito pela Cinemateca de Bolonha em parceria com a Minerva Pictures e a Mediaset, entregando um produto belíssimo quanto a imagem e som, com toda a cor vívida que a obra merecia. É uma das fitas mais cultuadas da cineasta italiana Lina Wertmüller (escrito e dirigido por ela), rodada na costa de Tortolí, na Sardenha, um lugar paradisíaco, com formações rochosas e um mar brilhante. A comédia dramática de sobrevivência envolve dois personagens que brigam todo o tempo, uma mulher e um homem, que enlouquecem quando o bote em que navegam quebra no Mar Mediterrâneo. Ela é Raffaella Pavone Lanzetti (Mariangela Melato), de nome pomposo, uma herdeira rica e prepotente, que não para um minuto de falar; ele é Gennarino (Giancarlo Giannini), marinheiro simplório anticapitalista, todo irritado e bruto. Os dois terão de conviver debaixo do sol escaldante quando o bote fica à deriva no meio do mar; quando conseguem chegar a uma ilha deserta, intensifica-se entre os dois um jogo de poder. Com muitas cenas em alto-mar, gravadas naquela região do sul da Itália, é um filme muito engraçado, com diálogos afiados e modernos sobre política e papeis de gênero, uma espécie de “A guerra dos Roses” na praia. Lina Wertmüller (1928-2021) era uma diretora politizada, por isso o filme não passa pano na discussão sobre estruturas sociais - feito exatamente num período onde o cinema italiano era carregado de engajamento, na era pós-Neorrealismo, no auge do cinema político de Elio Petri e Giuliano Montaldo. São apenas dois personagens que dominam a cena o filme inteiro, e a dupla Mariangela-Giannini está muito afinada. Raffaella e Gennarino vão escalando discussões de dentro do barco até a ilha, culminando na inversão de papeis (o que é uma mistura de humor ácido com crítica social). Lina e Giannini fizeram nove filmes juntos, e “Por um destino insólito” pode ser compreendido dentro de uma trilogia com “Mimi, o metalúrgico” (1972) e “Pasqualino Sete Belezas” (1975). Ela o dirigiu com Mariangela Melato no ano anterior em outra comédia, “Amor e anarquia” (1973), sendo a primeira mulher a receber indicação ao Oscar de melhor direção (por “Pasqualino”). Um ano antes de falecer, com 91 de idade, subiu aos palcos para ganhar um Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra, em 2020. Em 2025 “Por um destino insólito” saiu em um box em DVD pela Versátil, na caixa “O cinema de Lina Wertmüller”, com seis filmes em 3 DVDs. Como boa parte dos filmes italianos da época, o título original era longo, praticamente um manuscrito poético (“Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto). PS: O diretor Guy Ritchie o adaptou em 2002 como um presente para sua então esposa, Madonna, fazendo um dos piores filmes do cinema, “Destino insólito”. Madonna interpretou a personagem de Mariangela, e Adriano Giannini, o papel de seu pai, Giancarlo. O resultado: uma bomba catastrófica, vencedora do Razzie e que encabeça a lista de filmes que nunca deveriam ter existido...


Cine clássico



Levada da breca
 
Um paleontólogo todo correto (Cary Grant) viaja para uma cidade para encontrar vestígios de um esqueleto de brontossauro. Conhece, por acaso, uma herdeira doidinha e super agitada (Katherine Hepburn), que se apaixona perdidamente por ele. Os dois se envolvem em trapalhadas gigantescas.
 
Comédia maluca da RKO Pictures, um dos ‘Big five’ estúdios da Era de Ouro de Hollywood (que produziu, por exemplo, sucessos como “King Kong” e “Cidadão Kane”), e uma de minhas preferidas, que nunca canso de rever. É um barato ver Cary Grant e Katherine Hepburn se entregando de corpo e alma a uma história cheia de peripécias, e juntos mantêm química perfeita, em situações burlescas e descontroladas. Eles vivem um casal improvável que se enroscam em trapalhadas de tirar o folego. Há cenas memoráveis, como o acidente com um caminhão de aves, em que eles transportam uma onça mascote (de nome Baby, que dá nome ao filme), e quando Grant veste um roupão feminino cheio de plumas para receber visita em casa. É uma das grandes “screwball comedies” norte-americanas, as chamadas “comédias malucas” de Hollywood, um gênero popular da década de 30 que reunia personagens em inúmeras confusões, quase um pastelão, e que fazia as salas de cinema encherem de gente. Cary Grant virou símbolo deste tipo de filme, como pode ser visto em outros exemplares, como “Cupido é moleque travesso” (1937) e “Jejum de amor” (1940).


Ganhadora de quatro Oscars, Katherine está maravilhosa, trazendo a atenção toda nela como uma protagonista carismática e envolvente. Antes de virar um dos mestres do faroeste, dirigindo dezenas de westerns com John Wayne, Howard Hawks fez muitos filmes policiais, romances, dramas sociais e comédias, como esta. O filme foi lançado em DVD pela Versátil há muitos anos e recentemente saiu pela Classicline, na mesma versão, com ótima imagem e som.
 
Levada da breca (Bringing up baby). EUA, 1938, 102 minutos. Comédia. Preto-e-branco. Dirigido por Howard Hawks. Distribuição: Classicline
 
 

Estamos todos bem
 
Matteo Scuro (Marcello Mastroianni) é um idoso que bota um sorriso no rosto e viaja atrás dos filhos no dia de seu aniversário. Todo ano eles vinham visitá-lo em casa, saindo de diferentes regiões da Itália. Esse ano nenhum se prontificou a vir, então Matteo parte de trem para reencontrá-los, nesta que pode ser a última viagem de sua vida.
 
Drama melancólico com momentos de graça e humor com um personagem memorável, o velho Matteo, brilhantemente interpretado por Mastroianni, que integra a galeria de figuras inesquecíveis que ele fez na telona. No filme o idoso viajante de trem olha para a câmera e conversa com os espectadores, sempre risonho, enquanto segue um longo caminho para reencontrar os filhos – esta “quebra da quarta parede” ficou perfeita para o tipo de filme que se propõe, pensando em envolver o público na história, num estilo confessional. Ele é um idoso solitário, quase no fim da vida; puxa conversa com passageiros desconhecidos no trem, mostra a eles fotos antigas dos filhos quando crianças, mas as pessoas não dão bola. Ele está radiante, suas memórias o levam para 40 atrás quando os filhos passeavam com ele na praia. Fã de música clássica, colocou o nome deles de peças e personagem de óperas, como Tosca e Canio. Só que a realidade é outra – as crianças estão crescidas, são pessoas formadas, casadas, todos atarefados no trabalho. Matteo, tomado pelo amor e ao mesmo tempo solidão, parte nessa jornada atravessando o país em busca de um abraço. É um filme envolvente e que emociona, feito com maestria por um dos maiores cineastas vivos da Itália, Giuseppe Tornatore (hoje com 69 anos), que o rodou logo após o maior sucesso dele, “Cinema Paradiso” (1988). Prepare os lenços e embarque nesta viagem emotiva ao lado de Mastroianni, numa obra que discute a velhice e a relação de pais e filhos.


Indicado à Palma de Ouro, ganhou o prêmio do Juri Ecumênico em Cannes. A trilha sonora de Ennio Morricone, parceiro de Tornatore, é um deleite musical. Teve um bom remake americano, com Robert De Niro no papel central, “Estão todos bem” (2009), que também recomendo.
 
Estamos todos bem (Stanno tutti bene). Itália/França, 1990, 121 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Giuseppe Tornatore. Distribuição: Versátil Home Video

terça-feira, 3 de março de 2026

Resenhas especiais


Coleção “Rios vermelhos”
 
A Classicline, distribuidora brasileira de filmes em DVD e Bluray, acaba de lançar no mercado a coleção “Rios vermelhos”, em uma caixa com um DVD que traz os dois filmes policiais franceses da cinessérie. São eles: “Rios vermelhos” (2000) e “Rios vermelhos II – Anjos do apocalipse” (2004). Confira resenhas abaixo:


 
Rios vermelhos (2000)
 
O primeiro filme da cinessérie francesa é baseado no bestseller homônimo de Jean-Christophe Grangé, escritor especializado no universo da investigação policial, com direção precisa de Mathieu Kassovitz (também um ator renomado, que escreveu o roteiro do longa). A trama acompanha o veterano inspetor Pierre Niemans (Jean Reno), enviado à cidade universitária de Guernon, nos Alpes Franceses, para investigar um assassinato brutal. Paralelamente, a mais de 300 quilômetros de lá, o novato agente policial Max Kerkerian (Vincent Cassel) apura a violação do túmulo de uma criança. Os dois casos se entrelaçam, revelando um segredo macabro ligado à elite acadêmica local. O thriller psicológico com suspense, ação e mortes violentas (as vítimas têm os olhos arrancados) é construído com atmosfera sombria, num perfeito cenário na neve (uma metáfora do isolamento), contando com um ritmo tenso e visual estilizado. Segue a linha de filmes em que o assassino só é revelado no desfecho, guardando reviravoltas e surpresas para o final. Por meio da linguagem de um cinemão de entretenimento, trata de um tema sério, a eugenia, que preocupou a Europa por muitas décadas. O trabalho do elenco é um dos pontos altos: Jean Reno entrega uma performance sólida, de um investigador severo, marcada pela gravidade e pela experiência de seu personagem, enquanto Vincent Cassel traz outra energia, um jovem inspetor que ouve rap e curte lutas marciais – eles criam uma dupla contrastante, mas que se completa no trabalho. A atriz Dominique Sanda aparece como uma freira cega, que auxilia na investigação, e o veterano Jean-Pierre Cassel, pai de Vincent, interpreta um médico. Exibido no Festival de San Sebastian, recebeu cinco indicações ao César, o Oscar francês, dentre as categorias a de melhor direção e de fotografia. Na época foi um dos grandes filmes do ano de policial com suspense, marcando o público e ganhando uma continuação em 2004, com o mesmo Jean Reno.

Rios vermelhos (Les rivières pourpres). França, 2000, 106 minutos. Ação/Suspense. Colorido. Dirigido por Mathieu Kassovitz. Distribuição: Classicline


 
Rios vermelhos II – Anjos do apocalipse (2004)
 
Quatro anos depois de “Rios vermelhos”, Jean Reno retorna na continuação como o inspetor Pierre Niemans, agora nomeado comissário. Ele investiga uma série de assassinatos em uma abadia, que parecem estar ligados a uma seita religiosa e a manuscritos apocalípticos. Para resolver o caso, conta com a ajuda do capitão Reda (Benoît Magimel), formando uma nova parceria. Quem os auxiliará na busca do cruel assassino que usa capuz e vestes de monge será uma policial especializada em estudos de religião, Marie (Camille Natta). A mudança de direção do primeiro para o segundo filme, de Mathieu Kassovitz para Olivier Dahan, não altera o resultado do suspense e ação, já que o filme tem ritmo acelerado e reviravoltas em uma trama complexa de investigação que atinge o Vaticano. O elenco mantém a força do protagonista, com Reno transmitindo autoridade e introspecção. Magimel adiciona frescor e dinamismo na dupla improvável de agentes policiais. O veterano astro de filmes de horror Christopher Lee faz participação especial, em mais uma interpretação de vilão em sua vasta carreira. A história tem tom sombrio, repleta de simbologias sacras que beira o gótico, com uma fotografia escura nos interiores de uma antiga abadia (filmado na verdadeira Abbaye Saint-André de Lavaudieu, em Le Bourg, abadia beneditina francesa do século XI), reforçando o suspense quase terror do longa – e que lembra “O nome da rosa”. Escrito e produzido por Luc Besson, velho parceiro de trabalho de Jean Reno, que fizeram juntos “O profissional” (1994). O diretor Olivier Dahan anos mais tarde dirigiria o premiadíssimo “Piaf – Um hino ao amor” (2007).

Rios vermelhos II – Anjos do apocalipse (Les rivières pourpres II - Les anges de l'apocalypse). França/Itália/Reino Unido, 2004, 100 minutos. Ação/Suspense. Colorido. Dirigido por Olivier Dahan. Distribuição: Classicline


segunda-feira, 2 de março de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas e streamings - Parte 2


Feliz aniversário em Belgrado
 
Estreou no fim de semana pela Pandora Filmes a cultuada comédia dramática da Sérvia, estreia da diretora e roteirista daquele país, Milica Tomović. Lançado em 2021 na seção Panorama do Festival de Berlim (concorrendo ao Teddy Bear, que premia filmes de temática gay), traz uma trama divertida sobre uma festa de família que dá errado. O ano é 1993, na capital da então Iugoslávia, Belgrado, num período marcado pela desintegração do país, com protestos pelas ruas, sanções internacionais, ataques por bomba pela OTAN e hiperinflação. É um período turbulento dentro e fora, e para o povo, caótico nas questões sociais e políticas. Mesmo em face às dificuldades, Marijana (Dubravka Kovjanic) quer manter a família unida e para isto acontecer, organiza a festa de oito anos da filha Minja (Katarina Dimic). O aniversário, simples e improvisado, ganha cores com fantasias das Tartarugas Ninja, um bolo feito com margarina barata e refresco em garrafas reaproveitadas. Enquanto as crianças brincam sem limites, os adultos se reúnem na cozinha, e ali começam discussões políticas, flertes, bebedeira e “lavação de roupa suja”, revelando tensões e afetos de uma geração que presenciava em tempo real o colapso da Iugoslávia (que se desmembraria, entre 1991 e 1995, em sete países, como Croácia, Macedônia do Norte e Sérvia). A diretora, nascida em 1986 na antiga Iugoslávia, conta que há no filme lembranças de sua infância (podendo ser ela a garotinha Minja), ou seja, fez uma obra nostálgica, com críticas sociais e um humor mordaz. Há um paralelo com os estranhos tempos atuais, de guerras avassaladoras - a região onde a diretora vive, nos Balcãs, está colada à Ucrânia, atacada pela Rússia desde 2014. Filme de arte bem posto, atual, que mexe com nossos sentidos.
 

 
Embaixo da luz de neon
 
Indicado ao Oscar de melhor documentário na edição deste ano, o profundo e emocionante filme acompanha a intimidade das poetisas Andrea Gibson e Megan Falley, focando no diagnóstico de câncer incurável de uma delas. Revela uma jornada marcada por humor, poesia e amor inabalável em meio ao penoso tratamento oncológico de Andrea (que era também ativista em prol dos direitos LGBTQIAPN+). A fotografia no interior da residência do casal, com um brilhante jogo de luzes, reforça as imagens delicadas do carinho entre as duas mulheres, fazendo do longa uma obra sincera, que nos toca e faz encher os olhos de lágrimas. É uma poesia visual que metaforicamente remete ao trabalho delas (que escrevem poemas). O diretor Ryan White, de “Boa noite Oppy” (2022), constrói uma história difícil, mas que equilibra leveza e dramaticidade, mostrando como o casal transforma a mortalidade em celebração da vida. O título faz referência à ideia de encontrar beleza mesmo em tempos sombrios. Após conquistar prêmios em festivais internacionais, como Sundance, Seatlle e Cleveland, estreou na Apple TV em novembro de 2025. É forte candidato para ganhar o Oscar este ano, um filme de abordagem diferenciada, muito espirituoso, que não se concentra apenas em mostrar a doença da personagem retratada, e sim como ela ressignifica a dor e a proximidade da morte em algo que sublima a própria existência.


Especial de cinema

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