terça-feira, 21 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Naufrágio: O pesadelo do Costa Concordia
 
Mais um dos tantos documentários da Netflix sobre reconstituição de tragédias reais, desta vez envolvendo o naufrágio do Costa Concordia, um imponente navio de cruzeiro. O caso aconteceu em 13 de janeiro de 2012, quando, numa viagem com 4.200 pessoas, a embarcação se chocou contra as rochas próximas à Ilha de Giglio, na Itália. O navio passou por uma manobra arriscada do capitão, que o levou muito próximo da costa. O impacto com as pedras destruiu parte do casco, que fez com que o navio inclinasse e houvesse perda de energia elétrica. A demora da tripulação em ordenar a evacuação agravou o cenário, gerando pânico e desorganização entre os passageiros. Foram horas de desespero para colocar todos em botes, enquanto a embarcação submergia nas águas. O resultado: 32 pessoas mortas, dezenas de feridos e a fuga do capitão Francesco Schettino, que abandonou o navio antes do término do resgate (sua justificativa foi de que teria “escorregado” para dentro de um bote salva-vidas, mas em 2015 ele foi condenado por homicídio culposo, naufrágio e abandono, recebendo pena de 16 anos de prisão). Devido à dimensão do desastre e ao porte da embarcação, o resgate do Costa Concordia tornou-se a operação marítima mais complexa e cara já realizada – e a tragédia em si entrou para a História como um dos maiores desastres marítimos dos últimos anos. O filme da Netflix relembra o caso, com entrevistas dolorosas de passageiros que perderam familiares, de sobreviventes e de parte da tripulação do Costa Concordia. Há muito material de arquivo, como reportagens da época, muitas delas italianas, e imagens inéditas, somente agora liberadas para uso, do resgate das vítimas. Um bom filme, que nos deixa apreensivos diante do impacto daquela noite interminável - após o naufrágio do Costa Concordia, a indústria de cruzeiros implementou mais de 30 novas políticas de segurança, como mudanças nas leis e práticas marítimas globais que incluem a obrigatoriedade de treinamento de emergência antes do navio zarpar, restrições severas de acesso à ponte de comando e a exigência de planejamento de rotas com antecedência.
 

 
A divina Sarah Bernhardt
 
A Imovision lançou nos cinemas no último fim de semana dois filmes de títulos parecidos que relembram a trajetória de mulheres no cinema: “A divina Sarah Bernhardt” e “Diva futura”, ambos de 2024 e somente agora chegando nas salas brasileiras. “A divina Sarah Bernhardt” é uma regular biografia da atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923), com enfoque nos anos finais de sua vida, quando debilitada após a amputação da perna direita, em 1915. Nesse período passava boa parte do tempo ou deitada em uma cama ou sentada numa cadeira, devido à pouca mobilidade provocada pelas dores intensas no quadril. Enfermeiros a transportavam para lá e para cá, em apresentações, gravações e afazeres domésticos. Aclamada como a “Divina Sarah”, tornou-se uma das atrizes mais importantes de sua época, referência nos palcos franceses, e que no cinema (sua carreira na tela foi curta) esteve numa das primeiras versões de “A dama das camélias”, em 1912, no papel central, da cortesã Marguerite Gauthier. Egocêntrica, temperamental, recusava-se a abandonar a cena, atuando em filmes mudos, peças teatrais, deitada ou apoiada em cadeiras. Essa obstinação em permanecer ativa até os últimos instantes reforçava a imagem de uma artista indomável, ainda que o corpo já não acompanhasse sua energia criativa. Quem a interpreta Sarah é uma atriz francesa que gosto muito, versátil em comédias e dramas, Sandrine Kiberlain, premiada com o César, de “Mademoiselle Chambon” (2009) e “A garota radiante” (2021 – escrito e dirigido por ela). Ela faz uma Sarah cercada por antíteses: ora enérgica para atuar, ora agressiva com as pessoas que a cercavam (sua biografia conta que era uma mulher intempestiva, que gritava com qualquer um que a contrariasse). Vestia roupas chiques, tinha bom gosto e mantinha relações intensas com escritores e atores, como Lucien Guitry (no filme interpretado pelo sempre condizente Laurent Lafitte), membro da Comédie-Française e diretor do teatro Renaissance. Tinha amizades com intelectuais célebres, como os dramaturgos e escritores Victor Hugo, Émile Zola, Alexandre Dumas (alguns aparecem no filme), que a viam como musa inspiradora. O trato do filme é na personalidade forte e independente de Sarah, que desafiava convenções e não hesitava em confrontar colegas ou diretores se tivesse razão. A postura incisiva, de mulher geniosa, refletia nas relações afetivas (raramente ela mantinha algo duradouro com os homens de sua vida), e isto atingia também seu trabalho no cinema (Sarah não compreendia bem a Sétima Arte, por isso fez menos de 5 filmes, a maioria curtas, e chegou a ordenar a destruição de filmes que participou que não lhe agradavam). Ela morreu em 1923, em Paris, de complicações renais, tendo um dos funerais mais impressionantes da história: o caixão cruzou as principais vias de Paris, sua morte comoveu multidões, reunindo mais de 35 mil pessoas até o cemitério Père-Lachaise, onde estão sepultadas diversas personalidades do universo das artes. Mais um bom trabalho do diretor Guillaume Nicloux (de “O vale do amor”, “Os confins do mundo” e “A religiosa”).
 

 
Diva Futura
 
Junto de “A divina Sarah Bernhardt” (2024), a Imovision lançou nas salas brasileiras no último fim de semana outro cult movie que retrata figuras femininas no cinema. Aqui temos a história real da agência publicitária italiana Diva Futura, criada no início dos anos 1980, em Roma, pelo fotógrafo e cineasta Riccardo Schicchi (1953-2012). O empreendimento cultural descobriu modelos e logo ficaria famoso por realizar filmes pornôs europeus, distribuídos depois no mundo todo. A agência tinha a proposta de profissionalizar e dar visibilidade aos artistas do setor, principalmente atrizes que não tinham reconhecimento, apesar de certo talento. Schicchi cunhou o termo “porn-star” para valorizar seus agenciados, colocando-os em pé de igualdade com ícones italianos da Sétima Arte e da TV. No filme ele é interpretado por Pietro Castellitto, filho do veterano astro Sergio Castellitto. Ele está bem no protagonismo da fita – um ator de boas expressões, que já atuou em vários filmes e até dirigiu, apesar da pouca idade (34 anos). Na história ele abre a agência, relativamente pequena, que viraria um estúdio de gravação também; revelou principalmente três mulheres que do dia para a noite viraram estrelas do cinema adulto: Ilona Staller, a Cicciolina, que depois seria deputada; Moana Pozzi, atriz que chegou a se candidatar à prefeitura de Roma (e faleceu nova, aos 33 anos, de câncer); e Eva Henger, que também ganhou notoriedade como modelo. E agenciou ainda Rocco Siffredi, o ‘Rocco’ da produtora de cinema pornô que fez sucesso nos anos 90. As três mulheres ganham vida na tela, interpretadas respectivamente por Lidija Kordic, Denise Capezza e Tesa Litvan, cada uma com seu estilo de atuação, misturando delicadeza, sensualidade e energia. Elas trazem vigor para a história sobre o universo do cinema erótico/pornô da época, com seu glamour e cores radiantes. A Diva Futura escandalizou setores conservadores da sociedade italiana, chegou a ser impedida de trabalhar pela polícia e quase fechou no auge de seu funcionamento (ela perdeu força no final dos anos 1990, acompanhando mudanças no mercado e o desgaste da imagem pública de suas estrelas). O filme vai entremeando a trajetória dessas mulheres e do diretor da agência, mostrando tanto o glamour delas quanto o preconceito enfrentado. O impacto da Diva Futura foi cultural e político não só na Itália, mas na Europa toda, um fenômeno que consolidou a pornografia como indústria cultural. Cicciolina (conhecida pelos peitos avantajados), depois levou a discussão sobre sexualidade para dentro do parlamento, enquanto Moana Pozzi legitimou sua imagem pública na política, em campanhas para prevenir doenças sexuais. O filme é um trabalho peculiar da cineasta, atriz e produtora Giulia Louise Steigerwalt – ela fez o roteiro adaptando as páginas do livro “Oltraggio al pudore”, da jornalista Debora Attanasio (com colaboração de Ricardo Schicchi e Eva Henger). Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2024, está em exibição nos cinemas do Reserva Cultural, com distribuição exclusiva da Imovision.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 4


A mulher mais rica do mundo
 
Com 50 anos de carreira nas costas, Isabelle Huppert é uma atriz completa, que já trabalhou com grandes nomes do cinema. Tem uma centena de filmes no currículo, de gêneros variados, e uma coleção de prêmios. Aos 72 anos, ela estrela com maestria esse drama sobre disputa e poder no mundo corporativo, que acaba de chegar na plataforma de streaming Filmelier+. Tem uma figura real por trás da história fictícia: é livremente inspirado na vida da bilionária Liliane Bettencourt, herdeira dos cosméticos L’Oréal, por muito tempo apelidada de “a mulher mais rica do mundo”. Sua trajetória foi marcada por intensa disputa familiar e judicial sobre o controle da fortuna, envolvendo acusações de manipulação por parte de um fotógrafo e escândalos de corrupção que atingiram o alto escalão do governo francês (ela faleceu em 2017 aos 94 anos). Na trama, acompanhamos Marianne Farrère, interpretada por Isabelle Huppert, magnata da indústria de cosméticos. Ela é influente no mundo empresarial, apesar de ser difícil de lidar. Sua vida aparentemente sólida começa a ruir quando conhece Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), um escritor e fotógrafo ambicioso, cuja aproximação desperta sentimentos intensos entre ambos. A amizade dos dois desencadeará uma série de eventos que colocarão em risco o dinheiro e a estabilidade de sua família. O envolvimento de Marianne e Fantin abriu espaço para doações milionárias, suspeitas de corrupção e segredos sombrios ligados ao passado da fortuna construída, revelando como o luxo pode esconder dramas de proporções quase trágicas. O filme é um denso retrato psicológico sobre a controversa personalidade em cheque, explorando o contraste entre o poder absoluto e a fragilidade emocional de Marianne, ao mesmo tempo em que expõe a luta de sua filha desconfiada, Frédérique Spielman (Marina Foïs), pelo controle do império. Tem uma boa mistura de romance, drama e thriller, com diálogos afiados e atmosfera elegante. Com direção e roteio de Thierry Klifa, de “Tudo o que nos separa” (2017), o filme esteve em Cannes onde concorreu ao Queer Palm no ano passado.



Salvação
 
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2026 e filme de encerramento do Festival Olhar de Cinema, “Salvação” (“Kurtulus”) é um dos filmes mais poderosos do ano, uma obra de mestre que mistura drama e thriller (a gradação da violência me lembrou a estrutura de outro filme semelhante, “Dheepan – O refúgio”, ganhador da Palma de Ouro em 2015). O filme, uma coprodução de seis países (Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia e Arábia Saudita), é inspirado em uma trágica história de disputa por terras e vingança entre famílias. Em uma aldeia remota no alto das montanhas, na fronteira da Turquia com a Síria, membros de um clã exilado retornam para a região. Eles reivindicam parte do território, o que reacende uma antiga crise entre duas famílias. O irmão do líder local é assombrado por estranhos presságios, que tiram seu sono. Ele acredita que aquilo seja um aviso sagrado, o que o coloca em atrito com o irmão. Paralelamente, as duas famílias rivais se organizam para negociar a divisão das terras, gerando um mal-estar na comunidade. O filme funciona como uma parábola sobre extremismo religioso e político – na história uma população devota será instrumentalizada por um mentor fanático a cometer um massacre, usando as palavras de Deus para o ato, como costuma ocorrer em ataques terroristas. A obra faz alusão a um crime de proporções devastadoras ocorrido em 4 de maio de 2009, no vilarejo de Bilge, província de Mardin, sudeste da Turquia, quando homens armados e mascarados, membros de uma mesma família de milicianos, invadiram uma festa de noivado com granadas e fuzis, matando 44 pessoas, incluindo os noivos, mulheres e crianças. Os atiradores pertenciam ao clã curdo Çelebi, e foram motivados por uma antiga disputa de terras e contra a união das duas famílias. O caso chocou o mundo, tomou conta dos noticiários, e agora o filme procura fazer um retrato do sórdido fato. Em seu quinto longa-metragem, o diretor e roteirista turco Emin Alper faz um estudo sobre os crimes de ódio motivados por política e religião, atrelados também a outras questões (a disputa por território). Ele rodou no verdadeiro local onde ocorreu o caso do massacre, em Mardin, na Turquia, o que deixa a história ainda mais assustadora. Um grande filme, com uma fotografia de muitas tonalidades (com destaque para as cenas noturnas nas grutas, com os clarões das chamas – algo quase sobrenatural, de terror). Nos cinemas brasileiros pela Pandora Filmes.


domingo, 12 de julho de 2026

Resenhas especiais

 
Especial “Invasores de corpos”
 
Vampiros de almas
 
Médico em viagem a uma cidadezinha da California estuda um caso bizarro: os habitantes estão sendo trocados por formas similares vindas de outro mundo.
 
Obra cult do cinema B norte-americano, o filme de Don Siegel (que se tornaria um mestre do western, gravando muitos filmes com Clint Eastwood) tornou-se um marco do cinema de ficção científica. Baseado no livro de Jack Finney, que compilou suas histórias de invasores alienígenas publicadas no Collier's Magazine, uma revista conhecida da época (o livro foi publicado há alguns anos no Brasil pela Darkside), o filme traz a história do médico Miles Bennell (Kevin McCarthy), que após um congresso médico, viaja a uma cidadezinha da California, Santa Mira, para acompanhar o estranho caso de pessoas que acreditam que seus familiares não são quem são: segundo eles, mudaram de comportamento, estão frios e distantes. Cético, o médico resolve investigar o caso, e aos poucos descobre que as pessoas estão sendo substituídas por réplicas alienígenas sem emoções, geradas em estranhos casulos em estufas. É uma estranha forma de vida que caiu na Terra sem explicação, e faz um duplo da pessoa, criando um novo ser, sem sentimento, para que o mundo seja recriado. O médico tenta alertar a população, mas é tarde demais, pois muitos já se transformaram. Produzido com orçamento modesto (U$ 415 mil), na febre dos filmes scifi B dos anos 50, destacou-se por sua atmosfera claustrofóbica e final sombrio, que reforça a sensação de impotência diante de uma invasão alienígena. A ideia do longa vai além: tem embutida uma crítica social sobre o perigo de se perder a individualidade em meio às pressões políticas e culturais da época – há aqui uma série de alegorias sobre a paranoia da Guerra Fria, de agentes russos infiltrados (seriam eles os alienígenas?) e o Macarthismo; vale lembrar que EUA e URSS, na época, estremeciam o mundo com seus embates ideológicos, e na terra do Tio Sam o Congresso ameaçava cineastas e produtores acusados de serem comunistas, perseguindo radicalmente a classe e os colocando no ostracismo. Um grande filme do cinema, para ser visto e revisto. Saiu em edições avulsas por diversas distribuidoras ao longo dos anos áureos do DVD, e recentemente num box da trilogia principal pela Classicline. Ganhará em breve versão restaurada em bluray pela Versátil Home Vídeo, em uma caixa com os quatro filmes da série - versões de 1956, 1978, 1993 e 2007 (está em pré-venda no site da distribuidora).
 
Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers). EUA, 1956, 80 min. Ficção científica/Terror. Preto-e-branco. Dirigido por Don Siegel. Distribuição: Classicline
 
 
Invasores de corpos
 
Agente de vigilância sanitária investiga uma estranha forma de vida que veio do espaço; pessoas estão sendo trocadas por réplicas idênticas, e aparentemente o governo norte-americano está por trás do caso.
 
Excelente remake da fita B que se tornou cult “Vampiros de almas”, agora colorido, que conta com grande elenco e atualiza com perspicácia a história de paranoia e alegoria política (além de ser uma fita de terror assustadora). Dirigido por Philip Kaufman (que depois faria “Os eleitos” e “A insustentável leveza do ser”), o filme transpõe a história para São Francisco, ampliando a escala urbana e intensificando o clima de angústia e estranhezas. Elizabeth Driscoll (Brooke Adams) percebe mudanças estranhas no comportamento de seu namorado após levar para casa uma planta incomum. Um inspetor de vigilância sanitária é chamado, Matthew Bennell (Donald Sutherland, ótimo no papel central), e passa a estudar com precisão o caso ao lado de Elizabeth. Eles descobrem que alienígenas estão duplicando humanos enquanto dormem, gerando-os em casulos gigantes. O filme se destaca por uma nova atmosfera sombria, trilha inquietante e efeitos visuais eficientes, como os corpos se desfazendo, misturados a uma gosma orgânica. Ao contrário da versão de 1956, o pessimismo é ainda maior: não há salvação, apenas a inevitável assimilação dos corpos humanos pelos alienígenas. A obra traz novas simbologias, já que o contexto histórico e político mudou em 20 anos: sai da Guerra Fria e do Macartismo para a paranoia do caso Watergate, ocorrido quatro anos antes. Reflete assim o desencanto dos anos 1970, marcado por crises políticas e sociais, e sugere que a alienação urbana e a desconfiança entre indivíduos já eram sintomas de uma sociedade em colapso. A abertura do filme mostra a contaminação vinda de outro planeta, com uma estranha substância se espalhando com uma fina nuvem caindo na terra. Tem cenas de perseguição, jumpscares e escatologia, e participações especiais de Leonard Nimoy (o Dr. Spock de “Star Trek”), Kevin Mccarthy (o astro do anterior) e uma ponta não-creditada de Robert Duvall bem no início, como um padre no balanço. Saiu em DVD há muitos anos pela MGM/20th Century Fox e recentemente num box da trilogia principal pela Classicline. Ganhará em breve versão restaurada em bluray pela Versátil Home Vídeo, em uma caixa com os quatro filmes da série - versões de 1956, 1978, 1993 e 2007 (está em pré-venda no site da distribuidora).
 
Invasores de corpos (Invasion of the body snatchers) EUA, 1978, 115 min. Ficção científica/Terror. Colorido. Dirigido por Philip Kaufman. Distribuição: Classicline e MGM/20th Century Fox


Invasores de corpos – A invasão continua
 
No Alabama, uma adolescente e seu pai descobrem um plano sinistro do Exército de substituição de humanos por réplicas idênticas vindas de outro planeta.
 
Indicado à Palma de Ouro em Cannes, a terceira parte da trilogia “Invasores de corpos” é assinada de Abel Ferrara, diretor de filmes sujos e marginais que mostravam o submundo nu e cru de Nova York dos anos 80 e 90 (como “Sedução e vingança” e “O rei de Nova York”). Na versão de Ferrara, a trama se desloca para uma base militar no sul dos EUA, onde a adolescente Marti Malone (Gabrielle Anwar) percebe que pessoas ao seu redor estão sendo substituídas por um duplo. São alienígenas ocultados pelo governo numa base militar, para fins de experiência genética. O ambiente rígido e disciplinado do exército intensifica a metáfora: em um espaço já marcado pela obediência, a invasão torna-se imperceptível. Menos celebrado que os antecessores, o filme traz momentos memoráveis, como a atuação de Meg Tilly e seu monólogo arrepiante sobre a inevitabilidade da incorporação alienígena. A adaptação foca na experiência íntima e psicológica da protagonista, ao lado do pai, tentando alertar a população a fugir do Alabama onde ocorre a expansão dos casos de assimilação alienígena. Novamente se explora o horror da perda de identidade e da fragilidade humana frente ao desconhecido – e reforça teorias de conspiração envolvendo o governo norte-americano, de que as Forças Armadas acobertariam casos de alienígenas capturados, como o Caso Roswell e o Majestic12. Há no filme participações especiais de R. Lee Ermey e Forest Whitaker. Saiu em DVD há muito tempo atrás pela Warner Bros. e recentemente num box da trilogia pela Classicline. Ganhará em breve versão restaurada em bluray pela Versátil Home Vídeo, em uma caixa com os quatro filmes da série - versões de 1956, 1978, 1993 e 2007 (está em pré-venda no site da distribuidora).
 
Invasores de corpos – A invasão continua (Body snatchers). EUA, 1993, 87 min. Ficção científica/Terror. Colorido. Dirigido por Abel Ferrara. Distribuição: Classicline e Warner Bros.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 3


Três vezes adeus
 
Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras", e seu último trabalho estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano. O festival, que ocorreu de 25/06 a 01/07, continua em repescagem em itinerância por várias cidades do país, e “Três vezes adeus” também conta com novas exibições (no dia 11 será em Búzios, no RJ, e dias 11 e 14 em Fortaleza, Ceará). Filme autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim”, retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. Exibido nos festivais de Toronto e do Rio, já tem data para estrear no circuito de cinemas do Brasil: 1º de outubro (com distribuição da Autoral Filmes).
 

 
Franz
 
Outro filme de uma cineasta importante de nosso tempo, a polonesa Agnieszka Holland, veterana no cinema, que ajudou a fundar o Cinema da Inquietação Moral (Kino Moralnego Niepokoju) nos anos 70 – movimento que, por meio de filmes, criticava a corrupção do governo, a censura e a falta de ética na sociedade. Hoje, aos 77 anos, continua firme em seus ideais e fazendo um filme a cada três anos – de 2019 para cá realizou quatro, um melhor que outro, com destaque para “O charlatão” e “Zona de exclusão”. Em “Franz” se volta a uma simples e didática cinebiografia do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), grande nome do realismo fantástico. O filme é um mosaico com passagens fundamentais de sua infância e juventude, entre Praga e Viena – Kafka viveu pouco, morrendo aos 40 anos de tuberculose. Nascido em 1883, em Praga, então parte do Império Austro-Húngaro, em uma família judaica de classe média, desde cedo viveu sob as regras rígidas de seu pai, Hermann Kafka, cuja personalidade autoritária marcou sua vida e sua obra. Estudou em escolas alemãs e, mais tarde, ingressou na Universidade Alemã de Praga, onde se formou em Direito. Apesar de seguir carreira como funcionário em companhias de seguros, sua verdadeira paixão era a escrita, que desenvolvia nas horas livres, muitas vezes em conflito com a rotina exaustiva do trabalho. Durante sua vida, Kafka publicou poucas obras, entre elas o célebre conto “A metamorfose” em 1915, que lhe trouxe reconhecimento literário. Seus livros refletiam temas como alienação, burocracia opressiva e o absurdo da existência, influenciados tanto por sua relação difícil com o pai quanto pelo contexto político e cultural da Europa daquele período (durante a Primeira Guerra). O filme mostra um pouco disso e muito do campo pessoal, com Kafka em suas relações marcadas por instabilidade, incluindo o noivado com Felice Bauer e um relacionamento intenso com a jornalista Milena Jesenská. Em 1917, foi diagnosticado com tuberculose, doença que agravou sua fragilidade física e o levou a períodos de internação em sanatórios. Vivia fraco pelas ruas, escarrando sangue, por longos dias acamado. Após anos de luta contra a enfermidade, faleceu em 3 de junho de 1924, em um sanatório próximo a Viena, vítima da tuberculose laríngea. O filme, que se chamaria “Franz antes de Kafka”, foi o representante da Polônia no último Oscar, mas ficou de fora da lista final. É uma boa biografia (não excelente), tem no elenco atores corretos de várias nacionalidades, como tchecos, poloneses, austríacos e alemães, com destaque para Idan Weiss, que faz o Kafka, em um de seus primeiros papeis no cinema. Exibido nos Festivais de Toronto, San Sebastián e Rio, estreia nos cinemas nesse fim de semana, pela A2 Filmes.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos streamings – Parte 2


As ovelhas detetives
 
Deixou de ir para as salas cinemas e entrou direto no Prime Video essa comédia policial que só tem aparência infantil. Mas não é. É um filme de mistério com pitadas de humor sarcástico sobre um rebanho de ovelhas que decide investigar o assassinato do pastor que cuida delas. Ele é George (Hugh Jackman), um homem solitário que vive num trailer no alto de uma montanha na Irlanda. Cuida das ovelhas como filhas, e todas têm um nome conforme seus comportamentos (Mimosa, Valente etc). Ele as tosa, brinca e quando cai a noite lê romances policiais no descampado para dormirem. Quando George vira as costas, as ovelhas conversam entre elas, como humanos. George, apesar de recluso, é amigável com as pessoas, vai sempre para a cidade onde conversa com qualquer um. Até que ele é encontrado morto, causando um choque na cidadezinha. As ovelhas, assustadas, resolvem desvendar o crime procurando pistas pelo caminho. Elas se unem num grupo chamado Ovelhas Detetives. O filme é apresentado em primeira pessoa, Jackman narrando, falando das ovelhas e da comunidade onde mora. E quando o caso policial começa, a trama cai no colo dos animais, virando um filme de aventura policial caprichado, engraçado e dinâmico. As ovelhas, uma mais cômica que outra, investigam com atenção o crime a partir da resolução dos casos policiais das histórias que George contava para elas antes de dormir (ou seja, George mal sabia que estava formando legistas e peritas). Os animais seguem pistas, desconfiam de vizinhos e enfrentam situações inusitadas, revelando segredos da comunidade e conduzindo o público por uma narrativa cheia de reviravoltas. Com direção de Kyle Balda (criador de “Meu malvado favorito”) e roteiro de Craig Mazin (das séries “Chernobyl” e “The last of us”), a produção se destaca pelo elenco de nomes de peso e efeitos visuais convincentes em CG que dão vida e movimento realista aos animais, criando uma experiência surpreendente. O elenco humano conta com Emma Thompson, Nicholas Braun e Nicholas Galitzine, e as vozes das ovelhas são interpretadas por Julia Louis-Dreyfus e Patrick Stewart, por exemplo, trazendo personalidade, leveza e carisma. A combinação de atuações sólidas com dublagens expressivas e uma história ágil garantem que o filme funcione tanto como sátira quanto como uma história de investigação envolvente. O filme é uma adaptação do livro alemão “Three bags full”, de Leonie Swann, escrito 20 anos atrás, e tem na trilha sonora músicas pop dançantes dos aos anos, como "I'm gonna be (500 miles)", de The Proclaimers. Achei um barato e recomendo.




O assassinato de Rachel Nickell
 
Novo documentário de true crime (que a Netflix é expert em fazer), que reconstrói um caso policial marcante da década de 1990 no Reino Unido. Em julho de 1992, Rachel Nickell, jovem mãe de 23 anos, foi assassinada a facadas em Wimbledon Common, Londres, enquanto passeava com o filho de dois anos e o cachorro da família. O crime ocorreu pela manhã, na rua, num dia comum. O menino presenciou o crime, e apesar de pequeno, sem entender direito o que ocorria ali, tentou ajudar a mãe, sem sucesso. Ele se tornou a única testemunha direta, o que ampliou o choque público daquele crime. O filme reúne trechos de reportagens, depoimentos antigos e atuais de policiais e familiares de Rachel, para montar um mosaico investigativo ao público. A polícia fez uma operação desastrosa, envolvendo uma agente infiltrada que buscava induzir um frequentador do parque, suspeito do crime, a confessar. Vendo que a estratégia era ilegal e sem provas concretas, aquilo fracassou, deixando o indivíduo marcado pelo estigma de suspeito durante anos. O documentário mostra como a pressão midiática e os erros policiais transformaram o caso em um verdadeiro circo, atrasando a justiça e expondo falhas graves no sistema investigativo. Somente em 2008 novas análises de DNA identificaram o verdadeiro culpado, cujos detalhes são colocados no filme. A produção da Netflix combina ainda entrevistas com jornalistas, além de imagens de arquivo, para mostrar não apenas o fato trágico, mas também o impacto duradouro sobre o filho de Rachel, Alex Hanscombe, e sobre seu pai, André Hanscombe, também discutindo seriamente como erros policiais e julgamentos precipitados podem destruir vidas e fragilizar o sistema judiciário pelos olhos da opinião pública. Um bom doc da Netflix, que estreou em 04 de junho.


Nota do blogueiro

 
Cine Debate realiza neste sábado sessão gratuita de filme brasileiro, no Sesc
 
O Cine Debate de julho, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, antecipa sua sessão mensal de cinema para o próximo sábado, dia 11/07. A partir das 14 horas, será exibido o filme brasileiro “Malês” (2024), dirigido e protagonizado por uma lenda viva do cinema nacional, Antônio Pitanga. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, no Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida, com mediação da equipe do Sesc.


 
Sinopse: Drama que faz uma reconstituição história da Revolta dos Malês, considerada a maior rebelião urbana de escravizados da História do Brasil. Ocorreu na madrugada de 24 para 25 de janeiro de 1835, em Salvador, Bahia, e foi organizada por negros islamizados (chamados de "malês", que significa muçulmano). A revolta teve como principais objetivos o fim da escravidão, a conquista da liberdade religiosa e o controle da cidade.
 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

sábado, 4 de julho de 2026

Nota do blogueiro

Caros e caras, há 10 dias abri (finalmente) meu cadastro no Letterboxd. Estou registrando lá, dia a dia, os filmes que já assisti ao longo da vida, bem como repostando no 'reviews' da página as resenhas que escrevo no blog  e em outros canais. Já transferi quase metade dos registros que estavam no Filmow (página que eu fazia avaliações de filmes desde janeiro de 2013) - no Filmow os números são de 17.095 filmes e séries vistos, sendo 15.700 filmes, 435 séries e de 830 curtas-metragens, e 1920 críticas escritas; já no Letterboxd, até este momento, marquei cerca de 7.870 filmes/minisséries assistidos.
Gostei do Letterboxd, o site é funcional e viciante. Para me seguir: https://letterboxd.com/felipebrida



E continuo fazendo as pontuações e publicando críticas e resenhas no Filmow, uma rede colaborativa 100% brasileira. Meu cadastro lá é https://filmow.com/@felipebosobrida.
Até lá, pessoal!

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

Naufrágio: O pesadelo do Costa Concordia   Mais um dos tantos documentários da Netflix sobre reconstituição de tragédias reais, desta vez en...