terça-feira, 30 de junho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings


Criaturas extraordinariamente brilhantes

Preparem-se para um dos filmes mais encantadores da temporada e traz uma interpretação deslumbrante, como sempre, da veterana Sally Field, num trabalho digno de indicação ao Oscar. A nova produção da Netflix, inspirada no best-seller de Shelby Van Pelt, é um drama sensível de uma amizade improvável, que se torna uma metáfora sobre perseverança. A trama acompanha Tova (Sally Field), viúva que trabalha como zeladora noturna em um aquário de uma pequena cidade costeira. Ela por muito tempo buscou respostas acerca do desaparecimento do filho, ocorrido há muito tempo. Tova, certo dia, percebe algo enigmático com um dos polvos do aquário central que ela limpa todos os dias, chamado Marcellus; ele é um polvo-gigante-do-Pacífico, uma espécie rara de ser encontrada, dotado de inteligência e memória extraordinárias. Aparentemente ele se comunica com aquela senhora por meio de movimentos. Tova passa a observar o animal, conversa com ele, e do outro lado do vidro, Marcellus ouve a voz e a sente, respondendo com gestos sutis. Até que na história surge Cameron (Lewis Pullman), um jovem em busca de pistas sobre o pai biológico. O encontro dos três abre caminho para revelações que unirão suas trajetórias, expondo segredos guardados pelas águas e pelo silêncio. O lance do roteiro de John Whittington e Olivia Newman (que também é a diretora, e antes fez outro filme com uma protagonista solitária, “Um lugar bem longe daqui”) é tornar o aquário um espaço simbólico de dores humanas e a possibilidades de recomeço. A relação entre Tova e Marcellus comprova isto, um vínculo fora do comum que mexe com todos os sentidos. O polvo, observador e guardião de memórias, representa o inconsciente coletivo e a necessidade de enfrentar o passado, enquanto Tova é a resiliência diante da perda (mas que nunca desmorona, procurando até o fim encontrar o filho sumido). Sally Field brilha em todos os minutos que aparece, trazendo humanidade para aquele papel delicado, comovente, que há tempos não mexia comigo no cinema. Filho de Bill Pullman e ator de “Top gun: Maverick”, Lewis Pullman também entrega um bom papel, ao lado do ator veterano que está super afiado, num de seus melhores trabalhos, o irlandês Colm Meaney (que faz o dono do mercadinho local, apaixonado por Tova). Um filme para mexer com nosso íntimo.
 

 
Uma infância alemã
 
Não me pegou o novo filme de Fatih Akin, cineasta alemão de origem turca, que estreou na última semana nos cinemas pela Imovision. Prefiro o diretor com sua mão firme para contar histórias amargas e violentas do que em dramas superficiais e arrastados, como é caso dessa obra biográfica, que mais parece uma fac-símile simplória dos cult movies iranianos dos anos 90. A narrativa enxuta trata dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial na vida de uma família adepta ao nazismo. Tudo é pelos olhos de um garoto daquela casa, Nanning, vivido por Jasper Billerbeck. Ele é filho de um oficial nazista, que se refugia com a mãe e o irmão na ilha de Amrum, após a destruição da casa em Hamburgo. O contexto é a morte de Hitler, em abril de 1945, que colocaria dias contados para o desmoronamento da guerra. O tempo inteiro é uma jornada de lá para cá desse menino tentando conseguir ingredientes para fazer um pão para a mãe doente (daí a ideia de um filme iraniano, muitos deles com jornadas infantis pela cidade, e esse aqui também lembra, mas feito com menos paixão, o recente “O bolo do presidente”). O filme nasceu das memórias de infância de Hark Bohm (1939-2025), roteirista e colaborador de Akin, que cresceu em Amrum, ilha reclusa no Mar do Norte, no extremo norte da Alemanha, cuja maré traiçoeira inunda as praias em minutos. Bohm planejava dirigir a obra, mas após sua morte, Akin assumiu o projeto como homenagem póstuma, mantendo o roteiro original – Bohm aparece numa pontinha, segundos antes dos créditos. Essa ligação pessoal dá ao longa um tom íntimo, mesmo dentro de um contexto histórico amplo e pouco aprofundado. Exibido no Festival de Cannes, não é de todo ruim, poderá agradar uma parcela do público, mas quem conhece o cinema de Akin, sente que ele não está do jeito que costuma: visceral, tenso, sombrio, como nos impactantes “The cut” (2014), “Em pedaços” (017) e “O bar da luva dourada” (2019), filmes autorais que o levaram a um patamar acima de sua carreira.
 

 
Um triste e belo mundo
 
Rodada em Beirute, a coprodução Líbano, Alemanha, Estados Unidos, Arábia Saudita e Catar é um singelo drama, para todos os públicos (de classificação indicativa de 14 anos), sobre o encontro e depois a separação que marcam a vida de dois personagens em 30 anos na capital e maior cidade libanesa. Nino é um rapaz sonhador, completamente oposto de Yasmina, uma garota de visão realista do mundo. Eles nasceram com diferença de minutos no mesmo hospital de Beirute, em meio às tensões político-religiosas que atravessavam o país. O Líbano vivenciava uma mistura de divisões religiosas, guerras civis e externas e corrupção desde os anos 1950, que criou um sistema fragilizado, com forte crise econômica e a presença de milhões de refugiados que deixaram metade da população na pobreza. Nesse triste mundo, Nino e Yasmina se encontram depois de anos e podem ali se apaixonar, mas algo irá os separar, até um possível reencontro no futuro. O roteiro sobre chegadas e partidas marcada pela memória coletiva de um país em constante transformação é o mote do delicado filme de drama/romance com doses tênues de humor e nítida crítica social, que evita melodramas e exageros nas performances.  A fotografia é um encanto, com paletas multicromáticas que alternam entre tons frios, que evocam a dor, e cores quentes, que iluminam momentos de esperança dos protagonistas. Cada enquadramento é pensado como uma pintura, revelando poesia nos espaços urbanos e nas paisagens naturais. Primeiro longa de ficção do libanês Cyril Aris, que assina o roteiro ao lado de Bane Fakih, a obra é narrada com energia visual vibrante, percorrendo o Líbano em diferentes épocas. O diretor traz muito de si e do lugar onde mora, falando de memória, dor, distância e possíveis reencontros da vida. No Festival de Veneza de 2025 conquistou o prêmio do público na Jornada dos Autores e foi o título do Libano selecionado como a indicação oficial do país ao Oscar desse ano. Agora é hora de vê-lo na tela grande: o filme estreou na última semana em cinemas selecionados, com distribuição da Pandora Filmes.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Nota do blogueiro

 
Cine Debate traz neste sábado filme brasileiro premiado em festivais nacionais
 
O Cine Debate de junho, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, exibe no próximo sábado, dia 27/06, a partir das 14 horas, o filme brasileiro “Kasa Branca” (2024). Escrito e dirigido por Luciano Vidigal, o drama, com toques de humor e crítica social, ganhou prêmios em diversos festivais de cinema, como o Festival do Rio e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, no Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida, com mediação da equipe do Sesc.


 
Sinopse: Três adolescentes da periferia do Rio, Dé, Adrianim e Martins, combinam de levar a avó de um deles, que está em fase terminal de Alzheimer, para passar os últimos dias numa confraternização entre amigos. Eles cruzam a cidade inteira levando a idosa (Teca Pereira) na cadeira de rodas até o local do encontro, numa jornada de amizade, esperança e retribuição.
 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

domingo, 21 de junho de 2026

Especial de cinema

 
Festival In-Edit Brasil segue com dezenas de documentários inéditos ao público
 
Teve início no último dia 17/06 o 18º “In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical”, que segue até dia 28 com 64 filmes para o público, de forma gratuita, em salas de cinema de São Paulo e em plataformas de streaming. Um dos festivais de documentário mais aguardados pelo público, a edição 2026 apresenta curtas e longas nacionais e internacionais. As sessões ocorrem em seis salas da capital paulista: CineSesc, Cine Bijou, SPcine Olido (CCSP), Spcine Paulo Emílio (CCSP), Cine Matilha (Matilha Cultural, localizado no bairro República) e Cinemateca Brasileira; a programação incluiu ainda 18 filmes em três streamings nacionais, aberto ao público (Sesc Digital, Itaú Cultural Play e SPcine Play), além de shows, exposições, feira de vinil e livros, encontros e bate-papos com convidados especiais.


O In-Edit Brasil é uma realização da In Brasil Cultural, do Ministério da Cultura (via Lei Rouanet), do Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Sesc São Paulo, e conta com patrocínio do Itaú Unibanco e da Spcine, além da parceria com a Cinemateca Brasileira. O festival foi criado em Barcelona, na Espanha, em 2003, e é realizado no Brasil desde 2009. Paralelamente ocorrem edições do In-Edit em cinco países: Espanha, Chile, Países Baixos, Grécia e México, além de, no Brasil, contar com mostras itinerantes em cidades do interior de São Paulo, como Piracicaba e São Luiz do Paraitinga. Conheça mais sobre o Festival In-Edit Brasil no instagram https://www.instagram.com/ineditbrasil/ e no site oficial https://br.in-edit.org. Confira abaixo mais filmes que assisti no festival e indico:
 
 
Ninguém pode provar nada: A inacreditável história de Ezequiel Neves
(2025, de Rodrigo Pinto)
 
Grande documentário exibido no “In-edit” 2026 que concorre ao prêmio principal do festival, na programação da Competição Nacional. O filme recupera a vasta e multifacetada carreira do jornalista, diretor de cinema, ator, compositor de músicas e produtor musical mineiro Ezequiel Neves (1935-2010). Figura marcante na contracultura, no auge do cinema marginal brasileiro, tinha o apelido de “Exagerado Número 1” não por acaso: ele contava histórias incríveis que, conforme o título do filme, ninguém podia provar. Suas divagações, misturadas a situações reais e outras bem exageradas, ajudou a definir seu estilo de vida e suas criações artísticas. Neves ficou marcado no campo musical, como produtor e mentor de Cazuza e do Barão Vermelho, além de revelar bandas como Made in Brazil (ele assinou música como “Codinome Beija-Flor”, “Exagerado” e “Por que a gente é assim?”), ajudando a consolidar o rock no Brasil dos anos 80. Perseguido na ditadura pelas falas afiadas e mente altamente ousada, foi um jornalista crítico, de estilo irreverente, que escreveu crônicas até hoje lembradas na revista Rolling Stone. Por causa de seu posicionamento crítico e impulsivo, comprou brigas homéricas com Rita Lee, por exemplo, que era uma companheira de trabalho, encerrando uma amizade de décadas. O filme reúne depoimentos de amigos jornalistas, como Nelson Motta, familiares e músicos, trazendo também muitas fotos de arquivo, vídeos antigos e material inédito de Neves recém-revelado, feitos no ano da sua morte, em 2010. O filme é uma viagem para o interior desse artista lendário, com suas histórias fantásticas, algumas lorotas, verdades e fantasias. O filme conta com três sessões, abrindo hoje no Festival, dia 21, e ainda nos dias 27 e 28/06. 


 
O cravista
(2025, de Luiz Eduardo Ozório)
 
Um dos bons documentários do “In-edit” deste ano, o filme faz uma singela homenagem ao músico Roberto de Regina (1927–2025), figura singular na História da música erudita brasileira. Médico anestesiologista de formação, era um apaixonado por música clássica e um artista por vocação. Destacou-se como cravista, regente coral e luthier, e o maior precursor do revivalismo da música antiga no Brasil. Ficou conhecido por disseminar no Brasil o cravo, instrumento musical de teclas que nasceu na Europa no século XII, 400 anos antes do piano (que se inspirou no cravo tanto no formato quanto no som). O cravo tem formato semelhante ao de um piano de cauda, mas menor, com um som típico, produzido quando pequenas palhetas batem nas cordas (como um violão). O filme foi gravado anos antes do falecimento de Regina, boa parte em sua casa, em Guaratiba (RJ), onde lá construiu a célebre Capela Magdalena, que virou um templo da música antiga, com concertos frequentes, reunindo músicos, admiradores e público em geral (mesmo após a morte de seu mentor, o local ainda permanece vivo, agora com o nome Espaço Cultural Maestro Roberto de Regina). Reconhecido como um “artista da Renascença”, Regina deixou um impressionante legado na música erudita, que agora o documentário procura desvendar. O doc está na programação da Competição Nacional, e conta com três sessões presenciais, abrindo hoje no festival, dia 21, e ainda nos dias 25 e 26/06. O filme também está online, gratuito, no Itaú Cultural Play.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Especial de cinema

 
In-Edit Brasil 2026 começa com mais de 60 filmes na programação
 
O 18º “In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical” teve início ontem (dia 17) e segue até dia 28 de junho de forma gratuita em salas de cinema de São Paulo e em plataformas de streaming. Um dos festivais de documentário mais aguardados pelo público, a edição 2026 conta na programação com 64 filmes nacionais e internacionais. Longas e curtas do Panorama Brasileiro estão divididos em cinco mostras: Competição Nacional, Mostra Brasil, Brasil.doc, Curta Um Som e Especial, enquanto os do Panorama Mundial estão distribuídos nas mostras Panorama, Instituto Cervantes e Flashback, além de uma homenagem a Rob Reiner (cineasta falecido em dezembro do ano passado). As sessões ocorrem em seis salas da capital paulista: CineSesc, Cine Bijou, SPcine Olido (CCSP), Spcine Paulo Emílio (CCSP), Cine Matilha (Matilha Cultural, localizado no bairro República) e Cinemateca Brasileira; a programação incluiu ainda 18 filmes em três streamings nacionais, aberto ao público (Sesc Digital, Itaú Cultural Play e SPcine Play), além de shows, exposições, feira de vinil e livros, encontros e bate-papos com convidados especiais.
O In-Edit Brasil é uma realização da In Brasil Cultural, do Ministério da Cultura (via Lei Rouanet), do Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Sesc São Paulo, e conta com patrocínio do Itaú Unibanco e da Spcine, além da parceria com a Cinemateca Brasileira.


O festival foi criado em Barcelona, na Espanha, em 2003, e é realizado no Brasil desde 2009. Paralelamente ocorrem edições do In-Edit em cinco países: Espanha, Chile, Países Baixos, Grécia e México, além de, no Brasil, contar com mostras itinerantes em cidades do interior de São Paulo, como Piracicaba e São Luiz do Paraitinga. Conheça mais sobre o Festival In-Edit Brasil no instagram https://www.instagram.com/ineditbrasil/ e no site oficial https://br.in-edit.org
Confira filmes que assisti no festival e indico:
 
Massa funkeira
(Brasil, 2025, de Ana Rieper)
 
Documentário musical sobre o universo do funk, gênero musical popular que fala das ruas, com linguagem dinâmica, aborda sexo e modos de viver de maneira livre e, às vezes, arbitrária. O filme capta depoimentos de cantoras e cantores de funk (que ganha ouvintes e adeptos todos os dias) em que contam as inspirações diárias, de sua visão de mundo, e de como as letras e as danças expressam identidade, resistência e desejo. Produzido nas comunidades periféricas do Brasil, traz cenas de bailes e pancadão, com todo o linguajar pesado que sintetiza esse movimento da música que ganhou fama a partir dos anos 90, que celebra a diversidade cultural. Da diretora dos documentários musicais ‘Vou rifar meu coração’ (2012) e ‘Clementina’ (2018), Ana Rieper. Exibido na Mostra Internacional de SP, está na Competição Brasileira do festival In-edit, com sessões nos dias 20, 25 e 27/06.


 
Vivo 76
(Brasil, 2026, de Lírio Ferreira)
 
Novo trabalho do diretor pernambucano Lírio Ferreira, cuja carreira é alternada entre filmes de ficção, como “Baile perfumado” (1996) e “Árido movie” (2005), e documentário (ele já realizou docs sobre Cacá Diegues, Cartola e Cachorro Grande, por exemplo). Ferreira volta-se, novamente, ao universo da música, agora para trazer um pouco sobre Alceu Valença, focando no emblemático álbum “Vivo” (1976), primeiro disco ao vivo do cantor e segundo álbum solo dele, que entrou em listas do mundo todo como um dos discos mais influentes daquela década. O doc celebra tanto os 50 anos de “Vivo” quanto os 80 anos de Alceu (que comemora em julho próximo), reunindo entrevistas atuais dele e muito material de arquivo. “Vivo” trazia músicas importantes do repertório, como “Sol e chuva” e “Papagaio do futuro”, marcado por influências da psicodelia, misturando ritmos como rock, pop, forró e experimentações de vanguarda (algo típico nos processos criativos de Valença, a mistura efusiva de sons e ritmos). Nesse percurso audiovisual, o cantor e compositor surge como figura central do underground nordestino, articulando música, poesia e rebeldia estética em um momento de efervescência política – 1976 era Ditadura, e Alceu e amigos compositores, como Geraldo Azevedo, que aparece no doc, foram perseguidos e presos em tal período. Trata-se de um tributo à vitalidade de Alceu Valença e à potência transformadora da música nordestina. “Vivo” foi o filme de abertura do Festival “É Tudo Verdade” no Rio e agora está na Competição Nacional do festival In-edit, com sessões nos dias 23, 26 e27/06.


 
Apopcalipse segundo Baby
(Brasil, 2026, de Rafael Saar)
 
Novo trabalho autoral do cineasta carioca Rafael Saar, que já dirigiu documentários musicais, além de especiais para TV, de nomes cultuados da música brasileira, como Maria Alcina (no filme “Sem vergonha”) e a dupla Luli & Lucina (no maravilhoso “Yorimatã”). Agora ele faz uma viagem tresloucada ao mundo de Baby Consuelo, a Baby do Brasil, num doc inteiramente narrado por ela (em primeira pessoa). A obra se constrói a partir da pluralidade transgressora da artista, hoje com 73 anos; ela relembra quando fugiu de casa aos 17 para explorar o campo da música, onde conheceu no Rio Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira e com eles fundou o grupo “Os Novos Baianos”. Com muitas imagens de arquivo, de bastidores e dos shows, Baby também relembra o espírito hippie nos anos 70, período influenciado pela contracultura, e depois o pop multicolorido que marcou sua presença na década de 80. O filme reforça a liberdade criativa da cantora e compositora (cuja inspiração principal foi Janis Joplin), sua versatilidade, o estrondo de seus figurinos extravagantes e ousados e a vida compartilhada com o cantor e compositor Pepeu Gomes, com quem teve seis filhos. O terço final do doc foca no trabalho atual de Baby, como pregadora religiosa (e os motivos, como visões sagradas, que a levaram a incursionar ao campo religioso). “Apopcalipse segundo Baby” é um retrato da liberdade a partir da própria natureza multifacetada da cantora, mostrando como a artista atravessou décadas sem se enquadrar nos padrões. A première do doc se deu no festival ‘É Tudo Verdade’, e agora está na seção ‘Mostra Brasil’ do festival In-edit, com sessões nos dias 20 e 26/06.



Ary
(Brasil, 2025, de André Weller)
 
Achei um barato o documentário que retrata vida e obra do mestre da música brasileira Ary Barroso (1903-1964), compositor de sambas e de músicas carnavalescas de sucesso. Curtinho – tem apenas 71 minutos, é narrado em primeira pessoa por Lima Duarte – ele lê diários e escritos pessoais de Ary. O filme constrói o mosaico que foi a trajetória do artista mineiro – pianista desde os oito anos, compositor a partir dos 15, estudante de Direito, viveu entre o Rio e os Estados Unidos, onde trabalhou como arranjador de filmes em Hollywood. Foi descoberto por Walt Disney e compôs, na década de 40, músicas para antigas animações dos estúdios Disney, como ‘Alô, amigos’ e ‘Você já foi à Bahia?’. Poucos sabem, e no doc mostra, ele chegou a receber indicação ao Oscar de melhor canção original pelo filme ‘Brazil’ (1944). Alegre, descontraído, com um rico material de arquivo dos carnavais no Rio e de trechos musicais dos filmes da Disney com as composições de Ary, o filme mistura ficção, com atores encenando momentos de sua vida – com participação rápida, por exemplo, de Stepan Nercessian e Leo Jaime. Músicas conhecidas do compositor aparecem, como ‘No rancho fundo’, ‘No tabuleiro da baiana’, ‘Risque’, ‘Na baixa do sapateiro’, ‘Os quindins de Iaiá’ e, claro a famosíssima ‘Aquarela do Brasil’, que fez a cabeça dos norte-americanos, virando tema de vários filmes hollywoodianos. Direção do documentarista André Weller, de ‘Rubem Braga: Olho as nuvens vagabundas’ (2013). Exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP de 2025, está na seção ‘Mostra Brasil’ do festival In-edit, com sessões nos dias 21 e 27/06, e online, no Sesc Digital (até dia 01/07).

Estreias da semana - Nos cinemas e streamings - Parte 2


Labirinto dos garotos perdidos
 
Novo filme de terror B queer do jovem cineasta paulistano Matheus Marchetti, que parece encerrar uma trilogia com personagens saídos do universo da fantasia e do sobrenatural, formada anteriormente por “As núpcias de Drácula” (2018) e “Verão fantasma” (2022). Com uma estética que lembra teatro (poucos atores em cena num ambiente fechado), o filme acompanha Miguel, um rapaz do interior que chega à cidade grande e se envolve em encontros inesperados com homens que o desejam de forma voluptuosa. Um assassino de gays ronda a noite, colocando-o sob a mira do criminoso. Novamente Marchetti desconcerta o público em uma narrativa ousada, com cenas fortes de sexo, em uma trama de muitas camadas, que transita entre horror, fantasia e romance. A atuação do elenco se assemelha à performance artística, como se fosse uma peça filmada que encarna poesia, movimentos de dança e experimentações estéticas, tudo em um cenário multicolorido (o onírico carrega traços até de “Suspiria”, de Dario Argento). É uma fábula urbana repleta de sedução, desejo e perigo constante - o longa foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Fantaspoa de 2025, confirmando o diretor como um dos nomes mais instigantes do cinema independente brasileiro contemporâneo. PS: Foi escolhido como o primeiro lançamento brasileiro nos cinemas pela Filmicca, plataforma de streaming dedicada ao cinema autoral e cult (que conta com curadoria voltada a obras de mulheres, narrativas negras e LGBTQIAPN+). Estreou na última semana, em salas selecionadas.


 
Criadas
 
Primeiro longa da cineasta Carol Rodrigues, o filme sobre racismo estrutural estreou nos cinemas brasileiros na última semana, com distribuição da Vitrine Filmes. A abordagem sensível (e cheia de simbolismos nas entrelinhas) das marcas do racismo e das contradições familiares marcam o longa que tem um tema urgente. Ele mistura drama psicológico e realismo fantástico para transformar uma casa em espaço vivo de memórias, afetos e violências que atravessam gerações. A premissa é o reencontro das primas Sandra (Mawusi Tulani), mulher negra retinta, e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), negra de pele clara, que cresceram juntas na mesma residência, mas em posições sociais distintas. Sandra retorna para buscar uma fotografia da mãe, antiga empregada doméstica da família, e topa com Mariana vivendo naquele lugar. Esse reencontro desperta lembranças da infância, mas também ressentimentos, revelando feridas não cicatrizadas. Entra em cena Raquel (Rudmira Fula), imigrante angolana responsável pela limpeza da casa. Aquela antiga residência vai além de um mero cenário: torna-se personagem central, já que nela se cruzam passado e presente, expondo hierarquias raciais e sociais ainda vigentes. O longa discute ainda precarização do trabalho, ancestralidade, solidão, invisibilidade profissional e o peso do trabalho doméstico nas relações brasileiras, utilizando um tom sobrenatural para tensionar memórias coloniais – são muitos temas, mas são bem delineados nesse drama íntimo e muito pessoal. Produzido ao longo de oito anos, “Criadas” é inspirado em vivências da própria família da diretora e roteirista Carol Rodrigues. Conquistou o prêmio de melhor atriz para suas protagonistas, Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti, na mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2025. Com produção da Gato do Parque Cinematográfica, em coprodução com Telecine, Canal Brasil, NayMovie, Cinefilm, Volta Filmes e Netas de Esméria, está nos cinemas com distribuição da Vitrine Filmes.



E seus filhos depois deles
 
Dirigido por Ludovic e Zoran Boukherma (irmãos gêmeos franceses), de “Teddy” (2020), o drama premiado nos Festivais de Veneza e Sevilha de 2024 tem como inspiração o romance homônimo vencedor do Prêmio Goncourt de Nicolas Mathieu, de 2018. É um retrato intenso da juventude francesa dos anos 1990, um típico “Coming of age” que acompanha a passagem da infância para a adolescência de Anthony (vivido pelo ator Paul Kircher), período marcado pela descoberta do sexo, rivalidades e o peso da desigualdade social. A história se desenrola em Heillange, um vale esquecido no leste da França, onde o calor sufocante do verão de 1992 serve de pano de fundo para encontros e conflitos. Anthony, de 14 anos, vive grudado com o primo, curtem um lago próximo da cidade e lá ele conhece Steph (Angelina Woreth). A menina será seu primeiro amor; para impressioná-la, decide pegar a moto do pai sem permissão e ir a uma festa, onde cruzará o caminho de Hacine (Sayyid El Alami), jovem rebelde de origem árabe. A tensão entre os dois rapazes se estenderá por anos a fio, com brigas violentas no meio da rua, ameaças e vingança. A história acompanha quatro anos na vida de Anthony (no caso, quatro verões), nos quais os destinos de Anthony, Steph e Hacine se entrelaçam. O amor juvenil e a falta de perspectivas se mesclam em uma comunidade marcada pela estagnação econômica e o preconceito racial (que reflete muito da França daquela época). Os diretores conseguiram reunir romance juvenil e drama social de uma forma orgânica, altamente crítica e super pessoal, que gera interesse do público jovem e dos adultos. O carismático ator Paul Kircher entrega um grande trabalho, por isso recebeu o prêmio de “Jovem ator” no Festival de Veneza. O filme está nos cinemas pela Imovision.


 
Eternidade
 
Após passar nos cinemas brasileiros em dezembro de 2025, chega agora na Apple TV essa comédia romântica fantasiosa sobre vida após a morte, que é um deleite, um entretenimento de qualidade que serve para consumo a todos os públicos (o longa é original da A24 em parceria com a AppleTV). Quando o assisti, essa semana, lembrei imediatamente de dois filmes de comédia dos anos 90 que me marcaram na infância, “Um visto para o céu” (1991) e “Morrendo e aprendendo” (1993), que tratam de espíritos decidindo se vão ou se ficam. Há inclusive situações bem semelhantes entre os três títulos. Em “Eternidade”, cada pessoa, após morrer, tem uma semana para decidir onde e com quem passará o resto da eternidade. Os espíritos dos recém-falecidos esperam numa espécie de limbo; nesse lugar se encontram três personagens: Larry (Miles Teller), Joan (Elizabeth Olsen) e Luke (Callum Turner), num dilema metafísico que se transforma em uma jornada de encontros e desencontros repleto de romance e confusões. A narrativa segue um fluxo de momentos absurdos, ironicamente brincando com o tema da morte de forma leve e explorando a ideia de que até no além a convivência continua sendo determinante. Com ritmo ágil e humor afiado, a obra traz reflexões existenciais em uma comédia simpática, cuja atmosfera oscila entre o surreal e o cotidiano. O trabalho sem exagero dos três atores centrais é outro chamariz para o divertido filme.


Cinco da tarde

Filme brasileiro de marca autoral (escrito e dirigido por Eduardo Nunes) que beira o contemplativo ao discutir os desdobramentos do luto familiar pelo ponto de vista de uma adolescente. Anabel (Bárbara Luz), de 17 anos, perdeu a avó recentemente; ela vive reclusa e tenta seguir os dias, difíceis pela ausência daquela mulher que era uma segunda mãe. Ao retornar ao apartamento onde a avó morava, Anabel se depara com uma vizinha com quem não tinha contato, Meiko (Sharon Cho). Pela fresta da porta, ela observa a garota oriental, e seu semblante chama sua atenção. Aos poucos Anabel e Meiko desenvolvem uma forte conexão - juntas, ora no apartamento de uma, ora no da outra, dançam, dividem segredos e compartilham sentimentos particulares, e muito próximos ao mundo das duas, como solidão e necessidade de pertencimento. O preto-e-branco é o charme desse filme independente, uma estética que dramatiza as passagens e reforça a ideia do luto e da reconstrução. É uma obra sobre amadurecimento e reencontros inesperados, com bonitas imagens (internas e externas), jogo de sombras muito bem planejados e longos planos. O ritmo lento, a falta de trilha sonora e o silêncio da protagonista trazem uma atmosfera de suspensão do tempo, em mais um trabalho intimista do premiado cineasta carioca de “Sudoeste” (2012) e “Unicórnio” (2018). Exibido no Festival do Rio em 2023, foi produzido pela 3 Tabela Filmes, com coprodução do Bando à Parte. Está nos cinemas brasileiros, com distribuição da 3 Tabela Filmes.


As correntes
 
Em seu mais novo longa-metragem, a cineasta argentina, mas radicada na Suíça, Milagros Mumenthaler firma-se como uma das grandes vozes do cinema feminino latino-americano da atualidade. A sensibilidade ao retratar mulheres em crise se constrói novamente aqui, numa narrativa marcada por dilemas e crises emocionais. Lina (Isabel Aimé González-Sola, de “Feliz aniversário”), estilista argentina no auge da carreira, viaja à Suíça para receber um prêmio. Em um gesto inesperado, ela se joga no Ródano, o principal rio que corta o país. Dias depois, ao retornar a Buenos Aires, percebe que está diferente; ela desenvolve fobia à água, sente algo estranho por dentro, completamente transformada. Lina guarda segredo sobre o episódio do rio, e nota que seus pensamentos são outros, inclusive na relação com as pessoas. É uma obra metafórica, intimista, cujas correntes do rio, que vão e vem, tornam-se um elemento significativo no filme, que remete à vulnerabilidade e desajustes do mundo da estilista, revelando como o sucesso pode esconder fragilidades profundas. O filme também traz momentos reflexivos e outros contemplativos, principalmente na bela fotografia de cidades suíças como Genebra e as do rio Ródano. Para marcar a ideia de antíteses e dilemas da protagonista, o filme procura contrapor ambientes de luzes com as águas do rio, que reforçam a sensação de transformação. Obra de rara beleza, uma experiência também sensorial, num filme toca no âmago. Exibido nos festivais de San Sebastián (onde ganhou um prêmio especial), Toronto e Rio, estreia essa semana no Brasil, com distribuição da Filmes do Estação.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 1

 
Amor apocalipse
 
Comédia romântica sentimental, com um roteiro que fica longe da obviedade, que se situa num pré-apocalipse capaz de colocar fim ao planeta. Nesse momento de incertezas, surge uma inesperada ligação afetiva entre um rapaz depressivo (Patrick Hivon), dono de um canil, e uma jovem feliz da vida (Piper Perabo), que trabalha em uma empresa de lâmpadas solares terapêuticas. O mundo está prestes a acabar, com ruas devastadas e gente fugindo, mas os dois, ao se encontrar, parecem ter algo de bom para compartilhar nesses dias tensos. O apocalipse funciona como alegoria dos temores atuais e também uma moldura para destacar a resiliência dos vínculos humanos – a pergunta que o filme tenta responder é “Pode o amor nascer num ambiente de catástrofe anunciada”? O roteiro combina ironia com delicadeza, alternando momentos de riso com instantes de emoção, trazendo atuações sinceras dos dois protagonistas (destaque para a americana indicada ao Globo de Ouro Piper Perabo, que surgiu no fim dos anos 90, em fitas populares como “Showbar”, depois sumiu, reapareceu em fitas B e agora presente em seriados de sucesso como “Yellowstone”). Com direção de Anne Émond (de “A jovem Juliette”), o filme, uma produção canadense, participou de festivais como Cannes (na Quinzena dos Cineastas), Toronto e a Mostra Internacional de Cinema de SP, e agora estreou em salas de cinemas do Brasil, com distribuição da Synapse Distribution.
 
 
Buenos Aires
 
Buenos Aires é aqui, no sertão pernambucano! A partir dessa ideia meio maluca, o inusitado documentário brasileiro investiga a relação dos argentinos com o Brasil, mais especificamente com a Zona da Mata de Pernambuco, no coração do Nordeste. Lá, existe um município chamado Buenos Aires, onde boa parte dos moradores falam espanhol. Eles conhecem profundamente a História da capital argentina e adoram um esporte tradicional de lá, o futebol (inclusive cultuam o jogador Messi). Uma professora de espanhol conduz o cativante doc trazendo as referências de personagens e lugares daquela cidadezinha de 13 mil habitantes, localizada a 79 km do Recife, marcada por paisagem de contrastes sociais. Nunca houve vestígios da passagem de portenhos pela região, portanto o mistério acerca das origens de Buenos Aires ronda o imaginário popular, bem como o estudo dos historiadores. Dirigido pela cineasta pernambucana Tuca Siqueira (que conheceu a fundo a cidade na última década), a mesma diretora de “Iracemas”, o filme, que originalmente se chamaria “Buenozaire”, acompanha a rotina dos habitantes e os fortes vínculos deles com o país vizinho – em certo momento, vê-se inclusive casas pintadas com diversas cores, como se fossem o Caminito argentino. O filme carrega um tom de fábula, tem uma narrativa simples, mas que prende a atenção pelas histórias de seus personagens (muito legais para se conhecer). Produção da Garimpo Filmes, estreou nos cinemas no último fim de semana, com distribuição da Arthouse Distribuidora. 


Olhe o mar
 
Coproduzido pela Disney e em exibição nos cinemas brasileiros pela Autoral Filmes, a comédia dramática franco-belga é uma adaptação de um filme mexicano de 2018 chamado “Ya veremos”, agora assinado por Emmanuel Poulain-Arnaud (de “O teste”). A maior alteração de um filme para o outro está na idade do personagem central – antes uma criança, agora um adolescente. O longa acompanha Chris (Audrey Fleurot) e Antoine (Dany Boon), pais divorciados que mal conseguem conviver, mas são obrigados a deixar de lado as desavenças quando descobrem que Milo (Ewan Bourdelles), de 16 anos, sofre de uma doença rara e degenerativa nos olhos, a retinite pigmentosa, que o levará à cegueira total. Os dois combinam uma viagem diferente com o menino, até a praia de Hossegor, no sudoeste da França, para que veja o mar pela última vez. O filme com tom de despedida equilibra momentos de ternura e humor, em torno de uma viagem que será tanto física quanto emocional (tendo o mar como metáfora dos turbilhões emocionais daquela família). O diretor Poulain-Arnaud, que já explorou dinâmicas familiares em obras anteriores, opta por sutilezas e cenas afetivas para suavizar a dureza da história (ele utilizou como base uma dolorosa experiência real, quando foi acometido por um câncer e por pouco não faleceu). O bom trabalho do elenco (com destaque para o comediante Dany Boon, aqui mais contido e mais dramático) se alia a uma belíssima fotografia litorânea, que valoriza o mar e as praias da charmosa região. Prepare os lenços para um filme de pura emoção.

Resenhas especiais - Parte 3


À sombra do vulcão
 
Os últimos dias de vida do cônsul britânico no México Geoffrey Firmin (Albert Finney), um homem autodestrutivo, consumido pelo álcool, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
 
Astro inglês indicado a cinco Oscars, Albert Finney (1936-2019) entrega aqui uma das mais brilhantes atuações do cinema, reafirmando seu talento e poder em cena. Complexo, cheio de nuances e camadas, é um drama amargo, que se passa no Dia dos Mortos, em Cuernavaca, no México, em 1938. Na cidade tomada pela festa popular em homenagem aos falecidos, o cônsul britânico Geoffrey Firmin perambula de bar em bar, falando alto, caindo pelas ruas. Alcoólatra, ele abandona o cuidado de si mesmo, envolve-se em conflitos com vizinhos, ao mesmo tempo em que busca uma reconciliação com a esposa (papel igualmente surpreendente de Jacqueline Bisset). Tempo presente e memórias do passado se reorganizam na frente do protagonista, revelando camadas de dor, arrependimento e fragilidade. Há uma atmosfera de angústia, derrota e morte no ar, que faz crer que o personagem está em seus últimos dias. Trata-se de uma adaptação do romance existencial de Malcolm Lowry, um clássico absoluto da literatura inglesa, publicado em 1947, que mantém o clima sombrio da obra. Tal atmosfera se dá pela exímia fotografia de Gabriel Figueroa, mexicano que trabalhou com Luis Buñuel, que imprime beleza plástica às imagens do vilarejo reforçando o contraste entre a festividade popular e a decadência do personagem. Finney recebeu indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro, e Jacqueline Bisset, ao Globo de Ouro.


Dirigido pelo mestre John Huston em sua fase final, o filme também recebeu indicação ao Oscar de trilha sonora, assinada por Alex North, e foi lembrado em Cannes, concorrendo à Palma de Ouro. Está disponível em DVD pela Versátil Home Vídeo.
 
À sombra do vulcão (Under the volcano). EUA/México, 1984, 112 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por John Huston. Distribuição: Versátil Home Video
 
 
A rainha Margot
 
Em 1572, a França vivia mergulhada em violentas guerras religiosas entre católicos e protestantes. Para apaziguar os conflitos, Catarina de Médicis (Virna Lisi), mãe do rei Carlos IX (Jean-Hugues Anglade), obriga a filha Margarida de Valois, conhecida como Margot (Isabelle Adjani), a se casar com um primo distante, Henrique de Navarra (Daniel Auteuil), líder dos huguenotes (nome dado aos protestantes franceses adeptos ao Calvinismo) e primeiro monarca da Casa de Bourbon. O enlace, celebrado em Paris, deveria simbolizar a reconciliação, mas vira estopim de uma das maiores tragédias da História francesa: a Noite de São Bartolomeu, quando milhares de protestantes foram brutalmente assassinados pelos católicos.
 
Drama de época com ares de romance gótico, o premiado filme de Patrice Chéreau é inspirado no romance de Alexandre Dumas (pai), primeira parte de uma série de livros históricos de Dumas intitulado “Os romances Valois”. Com precisão histórica e sem economia de violência, o falecido Chéreau recriou a tensão da França no reinado de Carlos IX (compreendido entre 1560 e 1574), focando no casamento da princesa católica Margot com o protestante Henrique de Navarra, que serviria para liquidar com a guerra religiosa entre os dois grupos, travada há 10 anos. Até a metade, o filme reconta os passos desse casamento forjado, bem como a trama política por trás disso tudo, até culminar, da metade para o fim, com o trágico episódio da Noite de São Bartolomeu, que começou em Paris e se espalhou para diversas cidades da França durante dois dias. Naquela noite de 23 de agosto de 1572, houve uma terrível repressão católica contra os huguenotes – estima-se que entre 5 e 25 mil pessoas foram massacradas (os números são incertos até hoje). Isabelle Adjani brilha como Margot, ao lado de Daniel Auteuil, Vincent Perez, Jean-Hugues Anglade e Virna Lisi (que interpreta uma implacável Catarina de Médicis, uma senhora maquiavélica). A superprodução, com trilha de Goran Bregović, conquistou o Prêmio do Júri e o de melhor atriz em Cannes (justamente para Virna Lisi), e é considerada uma das mais impactantes representações da Noite de São Bartolomeu no cinema. Indicado ainda ao Oscar de figurino, ao Globo de Ouro de filme estrangeiro e ao Bafta de produção estrangeira, ganhou cinco prêmios Cesar, o Oscar francês, nas categorias de melhor atriz (Isabelle), coadjuvantes (Anglade e Virna), fotografia e figurino – aliás, figurino, direção de arte e fotografia são de um capricho ímpar, um verdadeiro estudo de representação e contexto, que recria perfeitamente a França do século XVI.


Sensual, ao mesmo tempo violento, o filme ficou conhecido na época do extinto VHS, e saiu em DVD em duas ocasiões – pela editora NBO, em 2010, em formato incorreto de tela, com cortes, totalizando 143 minutos, e pela Versátil Home Video, em 2020, na versão do diretor (com 153 minutos) – a cópia da Versátil está ótima, que foi restaurada pela Pathé, e o filme vem em disco duplo com 1h30 de extras e no enquadramento correto de tela, Widescreen. Um de meus filmes de época preferidos. Recomendo!
 
A rainha Margot (La reine Margot). França/Alemanha/Itália, 1994, 153 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Patrice Chéreau. Distribuição: NBO (DVD de 2010) e Versátil Home Video (DVD de 2020)
 

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings

Criaturas extraordinariamente brilhantes Preparem-se para um dos filmes mais encantadores da temporada e traz uma interpretação deslumbrante...