sábado, 31 de outubro de 2026

Especial de Cinema


50ª Mostra de Cinema de SP termina, mas segue com repescagem
 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de SP terminou no dia 29, após 15 dias de evento, mas segue até o dia 04/11 com a tradicional repescagem, para o público interessado em assistir mais filmes essa edição. As sessões extras de 31 filmes apresentados na 50ª edição ocorrem em três espaços: Teatro Cultura Artística, CineSesc e Cine Satyros Bijou. Os ingressos estão disponíveis para compra na bilheteria dos cinemas no dia da sessão de cada filme, e as credenciais e pacotes de ingressos seguem válidos para a repescagem, com trocas de ingressos diretamente pelo aplicativo da Mostra.


Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra - e alguns estão na repescagem:
 
Mulher desconhecida
(Dinamarca/Letônia/Suécia– 2026, de May el-Toukhy)
 
Um dos longas mais contundentes exibidos na Mostra desse ano, o filme foi o vencedor do Leão de Ouro em Veneza e recebeu também o prêmio de melhor atriz no festival, para Mathilde Arcel (em um trabalho espetacular). É o novo longa da cineasta dinamarquesa de origem egípcia May el-Toukhy, do ótimo “Rainha de copas” (2019) – assim como o anterior, volta a colocar uma protagonista feminina envolvida em traição e desonra. Preste atenção pois o filme é construído nos detalhes: Marie (Mathilde Arcel) é uma babá dinamarquesa que também trabalha como faxineira na casa de um rico viúvo, Christian (Carsten Bjørnlund). O patrão, bem mais velho, afeiçoa-se à jovem e propõe um casamento, o que a tornará uma mulher da alta sociedade. São tempos do pós-guerra, e Marie esconde um segredo: na Segunda Guerra Mundial, ela manteve às escondidas um relacionamento com um soldado nazista. Até que boatos circulam no bairro de que alguém próximo a Christian estaria envolvido com os nazifascistas, o que chega ao conhecimento de Marie – na Dinamarca daquela época, há uma caça a quem apoiou o regime autoritário. Como o passado pode bater à sua porta e destruir a sua nova vida, para se proteger, ela será capaz de qualquer coisa, até de incriminar inocentes. É uma obra lenta, dialogada, que dá a guinada somente na metade, tornando-se um filme duro sobre estruturas de poder, bem como o papel da mulher na guerra e o controle do corpo feminino. A protagonista sai de uma jovem diminuída para uma vilã, tudo pelo poder e status (o que a torna uma figura a ser estudada, cheia de camadas e dilemas). Exibido nos festivais de Toronto, Busan e BFI London, o drama de guerra está na repescagem da 50ª Mostra, com sessão no dia 02/11, no CineSesc. Tem distribuição nacional pela California Filmes, que em breve o lançará nos principais cinemas.


 
Rehearsals for a Revolution
(República Tcheca/Espanha, 2026, de Pegah Ahangarani)
 
Filha de uma atriz e de um produtor iranianos, Pegah Ahangarani seguiu os passos da família e tornou-se tanto atriz como diretora. Proeminente, com uma carreira de três décadas (ela começou ainda na infância), agora dirige um autêntico documentário político, sobre a relação de seus entes com a Revolução Iraniana e o que veio depois no governo de seu país (o título não teve tradução em português, o que seria algo como “Ensaios para uma revolução”). A partir de registros históricos, com reportagens em mãos (de TV e jornais), ela constrói um retrato dos últimos 45 anos do Irã; da Revolução Xiita, em 1979, com a queda do Xá Reza Pahlavi e a ascensão dos aiatolás, aos infinitos protestos do povo nas ruas nas décadas de 80 e 90, até a Guerra do Irã de 2026, que começou em fevereiro, com um ataque conjunto e coordenado entre os Estados Unidos e Israel contra alvos militares, nucleares e lideranças em território iraniano (que matou o principal líder, o Aiatolá Ali Khamenei). São cinco personagens fieis na história, sendo parentes próximos a Pegah (como o pai e a mãe) e amigos. Junto a esse material jornalístico, ela traz vasto material particular, como vídeos caseiros da família, álbum de fotos, gravações de áudio, para entrelaçar o retrato político e social do Irã à sua história de vida, marcada pelos protestos nas ruas e perseguição política. Ela relembra de perdas, do afeto, das reuniões de família destruídas pela repressão e intolerância religiosa. Íntimo e revelador, fala de uma família que representou tanto a dor quanto a esperança de uma nação inteira. É narrado em primeira pessoa, pela própria cineasta, o que dá o tom de autoralidade. Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Cannes, passou em festivais importantes como Melbourne, Telluride e Toronto. Deve sair nos cinemas em breve.


 
Amor possível
(Coreia do Sul/EUA, 2026, de Lee Chang-dong)
 
Exibido nos festivais de San Sebastián, Zurique e Toronto, o novo trabalho do veterano cineasta sul-coreano Lee Chang-dong, diretor de dois filmes que gosto muito, “Poesia” (2010) e “Em chamas” (2018), venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza. E não por acaso, pois é um trabalho caprichado de sua carreira e um dos excelentes filmes do ano (foi adquirido pela Netflix, que o lançará no streaming em 06/11, junto de um curta dele que tem relação com a história, chamado “Heartbeat”). Singelo, feito com delicadeza, é um drama intimista que analisa profundas relações pessoais, sobre duas famílias opostas que se encontram aleatoriamente e desenvolvem um vínculo afetivo. De um lado um casal em crise econômica, a pacata Mi-ok (Jeon Do-yeon) e o marido Ho-seok (Sul Kyung-gu), um operário recém-demitido; eles têm um filho pequeno, o marido batalha contra a depressão após um incidente durante uma greve na empresa, e a mulher apara as arestas em casa para lidar com a turbulência financeira. Eles conhecem outro casal, Ye-ji (Cho Yeo-jeong), uma documentarista que está gravado um filme sobre trabalhadores desempregados, e o marido, que vem de uma família rica; eles vivem numa casa luxuosa e vestem roupas de grife. Uma relação aparentemente inquebrável surge entre os quatro personagens centrais, que dá início quando Mi-ok aceita participar com o marido do documentário de Ye-ji, sendo gravados dia e noite em casa, pelas ruas, nos passeios semanais. O filme examina o choque de classes tendo a precarização do trabalho como símbolo dos contrastes na atual Coreia do Sul, país que registra jornadas exaustivas de trabalhadores e avanço da automação. O diretor, também o roteirista, dosa humor em vários momentos para não tornar o longa incômodo, já que a trama poderia resvalar num filme triste, difícil de acompanhar; dá certo, o diretor tem domínio técnico do texto, de enquadramentos (a fotografia é lindíssima) e do trabalho do elenco. Para ver e refletir.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Especial de cinema

 
50ª Mostra de SP anuncia vencedores e programa de repescagem
 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de SP terminou ontem, mas segue até o dia 04/11 com a tradicional repescagem, para o público interessado em assistir mais filmes da programação. Na edição dos 50 anos da Mostra foram exibidos 390 títulos de 93 países, como longas, médias e curtas-metragens. Na noite de ontem foi anunciada a lista dos premiados, no Teatro Cultura Artística. O júri (composto pelo cineasta estadunidense Boots Riley, o cineasta iraniano Ali Asgari, o cineasta colombiano Cesar Augusto Acevedo e a cineasta brasileira Laís Bodanzky) escolheu como melhor ficção da Competição Novos Diretores “Cinco Anos, Quatro Meses”, uma coprodução Colômbia e EUA, de Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio. O melhor documentário da Competição Novos Diretores foi “O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas”, produção do Peru e Catar, de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada. A cineasta Fernanda Tovar, de “Chicas Tristes”, coprodução México, Espanha e França, recebeu o Prêmio do Júri de Melhor Direção, enquanto o Prêmio Especial do Júri foi para o documentário norte-americano “Edward Said: Entre Mundos”, de Maiken Baird.


Os premiados pelo júri receberam o Troféu Bandeira Paulista, uma criação da artista plástica Tomie Ohtake. Os quatro membros escolheram entre os longas mais votados pelo público após as exibições da primeira semana do evento dentro da Competição Novos Diretores, para primeiro e segundo filmes. Os favoritos do público foram “Fernanda”, de Pedro Waddington, na categoria documentário brasileiro, e “Feito Pipa”, de Allan Deberton, e “100 Dias”, de Carlos Saldanha, entre os filmes de ficção brasileiros. A audiência ainda escolheu “O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas”, de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada, como melhor documentário internacional, e o japonês “O Sentido da Vida”, de Ryūsuke Hamaguchi, como melhor ficção internacional.
O júri da crítica concedeu dois prêmios: o de melhor filme internacional foi para “Chicas Tristes”, de Fernanda Tovar, e o de melhor filme brasileiro para “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco.
Já o Prêmio Netflix foi para “Talismã”, de Thais Fujinaga (a Netflix entregou pelo quarto ano consecutivo o prêmio, concedido a um título brasileiro participante da 50ª Mostra que ainda não tem contrato com serviço de streaming, a partir da escolha de uma comissão julgadora independente liderada pela plataforma; agora, o vencedor é adquirido pela empresa e exibido em diversos países). O Prêmio Paradiso foi para “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr (prêmio que dá apoio à distribuição nos cinemas a um dos filmes da seção Mostra Brasil, cujo auxílio visa o lançamento comercial da obra escolhida e assim estimula a conexão com o público).
O 4º Prêmio BRADA, de direção de arte, foi para o alemão “O Julgamento de Hein”, de Kai Stänicke (escolhido po
r um coletivo de diretoras de arte do Brasil, que traz a visão de profissionais mulheres sobre o audiovisual, destacando o trabalho criativo, visual e sensorial da direção artística).


Em sua segunda edição, o Prêmio Prisma Queer foi para a coprodução Alemanha, Sérvia e EUA “Eu Planto Minha Mão no Jardim”, de Boris Hadžija e Hoda Taher, como melhor filme internacional, e o brasileiro “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, como melhor filme brasileiro. O filme brasileiro “A Paixão Segundo G.H.B.”, de Gustavo Vinagre e Viva Couto, levou o Prêmio Especial do Júri – o Prisma Queer visa celebrar, visibilizar e fomentar a produção audiovisual LGBTQIA+ no Brasil e no mundo.
Outros prêmios entregues na 50ª Mostra: Prêmio Humanidade para o diretor Marco Bechis; e Prêmio Leon Cakoff para os cineastas James Gray e S.S. Rajamouli e ao produtor Paulo Branco.
 
Repescagem
 
Também foi anunciado ontem, dia 29, o programa de repesagem da 50ª. Mostra. As sessões extras de 31 filmes apresentados durante o evento ocorrem entre hoje, dia 30/10, a 04/11, no CineSesc e no Cine Satyros Bijou. No Teatro Cultura Artística haverá exibições entre hoje e domingo, dia 01/11. Os ingressos estão disponíveis para compra na bilheteria dos cinemas no dia da sessão de cada filme. As credenciais e pacotes de ingressos seguem válidos para a repescagem, com trocas de ingressos diretamente pelo aplicativo da Mostra. Confira abaixo a programação de cada local:
 
 
Teatro Cultura Artística
 
30 de outubro, sexta
 
12h00: La Libertad Doble, de Lisandro Alonso
14h10: Diário de um Velho Louco, de Wayne Wang
16h40: Sombras da Nação, de Lucas Crystal + A Casa do Vento, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu
19h10: A História do Concreto, de John Wilson
21h20: Salão de Beleza, de Nathalia Acevedo
 
31 de outubro, sábado
 
12h00: Carmen, o Pássaro Rebelde, de Sébastien Laudenbach
13h50: Silvestre, de João César Monteiro
16h10: Projecto Global, de Ivo M. Ferreira
18h50: A Aventura Sonhada, de Valeska Grisebach
22h00: O Calor, de Stéphane Demoustier
 
1º de novembro, domingo
 
12h00: O Diário de uma Camareira, de Radu Jude
14h00: Clarissa, de Arie Esiri e Chuko Esiri
16h45: A Condessa Sangrenta, de Ulrike Ottinger
19h15: Deixem-nos Passar, Caros Ancestrais, de Lav Diaz
 

 
Cine Satyros Bijou
 
Sexta-feira, 30 de outubro
 
15h00: A Providência e a Guitarra, de João Nicolau
17h30: Todas as Minhas Viagens São Viagens de Regresso, de Manuel Ponce de León
20h00: The Sandbox, de Kenya-Jade Pinto
 
 
Sábado, 31 de outubro
 
15h00: A Batalha do Chile – Primeira Parte: A Insurreição da Burguesia, de Patricio Guzmán
17h00: Aquí, de Tiago Guedes
20h45: Atcha Atcha, de Mamadou Dia
 
Domingo, 1º de novembro
 
15h00: A Batalha do Chile – Segunda Parte: O Golpe de Estado, de Patricio Guzmán
17h00: O Rei das Rosas, de Werner Schroeter
19h15: A Aventura Sonhada, de Valeska Grisebach
 
Segunda-feira, 2 de novembro
 
15h00: A Batalha do Chile – Terceira Parte: O Poder Popular, de Patricio Guzmán
17h00: Poucos de Nós, de Šarūnas Bartas
19h15: Frágil como o Mundo, de Rita Azevedo Gomes
 
Terça-feira, 3 de novembro
 
15h00: O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas, de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada
17h00: Cinco Anos, Quatro Meses, de Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio
19h00: Chicas Tristes, de Fernanda Tovar
 
Quarta-feira, 4 de novembro
 
15h00: O Diário de uma Camareira, de Radu Jude
17h00: Union Town, de Barbara Kopple
19h30: Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco
 

 
CineSesc
 
Sexta-feira, 30 de outubro
 
15h00: Emergency Exit, de Lluis Miñarro
18h00: Roma Elastica, de Bertrand Mandico
20h30: A Prisioneira (La Captive), de Chantal Akerman
 
Sábado, 31 de outubro
 
15h00: Uma Vida, Um Manifesto, de Jean-Gabriel Périot
17h30: Ha-Chan: De Volta à Dança!, de Josef Kubota Wladyka
20h15: O Samurai e o Prisioneiro, de Kiyoshi Kurosawa
 
 
Domingo, 1ª de novembro
 
18h00: Fernanda, de Pedro Waddington
20h30: 144 - Apocalipse Não, de J.P. Cuenca
 
Segunda-feira, 2 de novembro
 
15h00: London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli
17h30: Talismã, de Thais Fujinaga
19h30: Mulher Desconhecida, de May el-Toukhy
 
Terça-feira, 3 de novembro
 
15h00: A Paixão Segundo G.H.B., de Gustavo Vinagre e Viva Couto
17h00: Edward Said: Entre Mundos, de Maiken Baird
19h30: O Sentido da Vida, de Ryūsuke Hamaguchi
 


Quarta-feira, 4 de novembro
 
15h00: Everytime, de Sandra Wollner
 
 
Realização e patrocínio
 
A Mostra de 2026 conta com o patrocínio master da Petrobrás, o patrocínio do Itaú, a parceria institucional do Sesc, a parceria da SPCine e da Prefeitura de São Paulo, o fomento do ProAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, a colaboração da Embratur e da Netflix, o apoio do Projeto Paradiso, a promoção da Globofilmes, do Canal Brasil, Folha de S.Paulo, da TV Cultura, da Arte 1, do Instituto Bandeirantes e da Revista Piauí, além do apoio técnico da Quanta e do Cultura Artística. Realização: Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Site oficial da Mostra: https://mostra.org/ (além de redes sociais, como Facebook e Instagram).

Cine Clássico


THX 1138

No século XXV, em um futuro distópico, as pessoas não têm nomes, apenas designações com letras e números (como placas de carro). Elas vivem confinadas em uma sociedade subterrânea totalmente rígida. Os indivíduos moram em celas dentro de um complexo clínico, monitorados por androides que observam tudo por câmeras. O amor e os desejos são reprimidos, até que THX 1138 (Robert Duvall) e LUH 3417 (Maggie McOmie) se apaixonam e decidem fugir para a superfície da Terra.
 
Eu só conhecia a versão de cinema, de 86 minutos, que havia saído em DVD há muito tempo pela Warner Bros, desse cult movie do cinema scifi, e agora fiquei deslumbrado com a cópia restaurada em 4K da versão do diretor, com dois minutos a mais (88 minutos), exibida no Festival de Berlim em 2017 e disponível na HBO Max. Foi o filme de estreia do visionário diretor George Lucas, que mudou a cara dos blockbusters norte-americanos quando lançou “Star Wars” na mesma década. Depois de uma série de curtas experimentais para a faculdade de cinema da California (USC), onde estudou, Lucas, na época com 26 anos, estendeu o roteiro de um de seus curtas universitários, intitulado “Labirinto eletrônico THX 1138 4EB” (1967), sobre um homem fugindo de um labirinto em um futuro incerto. Criou, no longa, uma fábula de romance e opressão num mundo distópico; a história se passa num futuro inimaginável, no século XXV. A população tem a mente e o corpo controlados pelo governo, em um regime totalitário. As pessoas são proibidas de se amar – e quem tentar pode ser eliminado, até que THX se apaixona por uma mulher, LUH, fazendo de tudo para ficarem juntos. O filme surfa na onda de “1984”, de George Orwell, com a opressão/repressão do governo, e “Westworld”, com vigilantes robôs que caçam humanos. Os cidadãos, sem exceção, são forçados a consumir drogas diárias fornecidas pelo Estado para reprimir sentimentos, o livre-arbítrio e desejos sexuais, nunca tendo acesso à superfície do planeta, considerada um local inabitável ou proibido. A história e o conceito são de Lucas, com roteiro dele e corroteirizado por Walter Murch, que depois seguiu para a área de edição e som, onde foi premiado com três Oscars. Segundo Lucas conta, a história se apropriava da atmosfera política particular dos Estados Unidos daquela época, que poderia levar a um futuro ameaçador controlado por políticos autoritários. Lançado na época no Festival de Cannes, traz ótima trilha sonora eletrônica de Lalo Schifrin e uma fotografia brilhante.


O design teve inspiração no cinema japonês futurista, com as cápsulas onde as pessoas ficam confinadas – os cenários são minimalistas, tudo branco, como se passasse a ideia de pureza e limpeza. Foi um dos primeiros filmes de Robert Duvall, num trabalho memorável, e produzido por um mentor de Lucas que se tornaria seu melhor amigo, Francis Ford Coppola, na recém-formada produtora dele, a American Zoetrope. Filmado em Los Angeles em 1969, enfrentou problemas com a Warner Bros, que não aceitou a qualidade do filme e não investiu no marketing – mexeram muito na edição e acabou sendo fracasso de público, virando cult com o tempo. Depois de “THX 1138”, Lucas faria “Loucuras de verão” (1973) até chegar “Star Wars: Episódio IV - Uma nova esperança” (1977), quando fundou a produtora LucasFilm.
 
THX 1138 (Idem). EUA, 1971, 88 minutos. Ficção científica/Drama. Colorido. Dirigido por George Lucas. Distribuição: Warner Bros.
 
 
O fantasma de Mora Tau
 
Das profundezas do oceano, tripulantes mortos saem de um navio naufragado com direção à costa de uma cidade na África chamada Mora Tau. Os zumbis querem impedir um grupo de caçadores de recompensas a resgatar uma caixa de diamantes presa nos restos da embarcação onde morreram, sessenta anos atrás.
 
Terror B do final dos anos 50 que inspirou dois filmes nas décadas posteriores, “Ondas do pavor” (também conhecido por “Horror em alto-mar”, de 1977, sobre zumbis nazistas que saem de um barco afundado) e “The fog – A bruma assassina” (1980), de John Carpenter, cuja história é ainda mais parecida, em torno de piratas mortos que surgem de um nevoeiro para trazer de volta um tesouro milenar guardado em uma igreja. O longa é uma pequena joia perdida, resgatada pela distribuidora Versátil, que encontra preciosidades para lançar em mídia física aos colecionadores – o filme aparece como extra no segundo disco da coleção “Zumbis no cinema – vol. 6”, cuja caixa acompanha “A maldição dos zumbis” (1989), “A maldição do necrotério” (1991), “Um tira do outro mundo” (1988) e “Holocausto zumbi” (1980). Está em boa cópia este que foi um precursor dos zombie movies uma década antes do principal deles, “A noite dos mortos-vivos” (1968), de George A. Romero. Há momentos de tensão, com as criaturas andando lentamente atrás das vítimas, em uma fita que é uma aventura com terror (já que trata de um estilo muito explorado no cinema de aventura da época, o de caçadores de tesouro, porém aqui diante dos mortos enfurecidos).


Em preto-e-branco, vale a descoberta desse filme esquecido. Quem dirige é Edward L. Cahn, cineasta independente, de origem polonesa, que realizou mais de 120 longas entre os anos 30 e 60, muitos destes filmes B.
 
O fantasma de Mora Tau (Zombies of Mora Tau). EUA, 1957, 69 minutos. Terror. Preto-e-branco. Dirigido por Edward L. Cahn. Distribuição: Versátil Home Video

* Textos publicados na coluna Middia Cinema, da Middia Magazine, edição de agosto/setembro de 2026

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Especial de cinema

 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo termina amanhã, dia 29/10, mas ainda dá para ver muitos filmes da programação. Eles estão espalhados em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao público:


 
I love boosters
(EUA – 2026, de Boots Riley)
 
Uma das comédias nonsense mais iradas da temporada, um espetáculo de ideias malucas e cores vibrantes, cuja história envolve luta de classes utilizando o mundo da moda como pretexto. Um grupo de mulheres pretas (formado pelas atrizes Keke Palmer, Taylour Paige e Naomi Ackie, uma mais engraçada do que outra) é especializado em furtar roupas de luxo sem serem pegas; elas fazem daquilo um ato de rebeldia e revolução em tempos de puro consumismo na era do capitalismo selvagem. O alvo da vez será a grife de uma mulher poderosa, Christie Smith (Demi Moore), que adora destratar seus funcionários. Em mãos as três mulheres portam um dispositivo científico com tecnologia tanto de teletransporte quanto de desconstrução de produtos e aceleração situacional. O jogo está lançado, e vence quem for melhor na disputa. É de arrancar risos para quem se entregar a essa sátira nada convencional, que tem ritmo acelerado e pastelão aos montes, típico dos exageros do desenho animado. A edição é uma loucura, tudo rápido, que muda de lá para cá num estalar de dedos. Recebeu classificação indicativa de 18 anos devido a cenas de sexo e linguajar pesado. Tem no elenco ainda Don Cheadle, como um profeta do mundo econômico (debaixo de maquiagem pesada, que nem o reconhecemos), e LaKeith Stanfield, como um demônio sedutor. Exibido nos festivais de Seattle e South by Southwest Film Festival (SXSW), está na programação da Mostra, com uma sessão ainda hoje, dia 28.
 

 
Behemoth: Uma vida composta em peças
(EUA – 2026, de Tony Gilroy)
 
Pedro Pascal, um ator ativista e querido em Hollywood, demonstra aqui potencial para filmes dramáticos, depois de performar bem em comédias, ação e ficção científica (como o Mandaloriano, da série e do filme). Ele interpreta, na nova obra pessoal de Tony Gilroy (que escreveu e dirigiu, e é o mesmo do excelente “Conduta de risco”), um músico de orquestra, violoncelista de alta qualidade, que retorna para Los Angeles após viver incessantes turnês pelo mundo. Ele quer um momento de paz ao lado da família, também para se reencontrar como pessoa. No entanto, um último dever o chama: participar de uma gravação de trilhas sonoras para filmes de Hollywood. O filme, que é metalinguístico por natureza, tratando do som dentro do cinema, é passado e presente na vida do artista musical, conforme o subtítulo dá pistas; são fragmentos, peças, capítulos dos últimos 20 anos desse cara, desde laços amorosos a perdas que o abalaram profundamente. Essa trajetória o moldou nas artes, as dores e amores o ajudaram a se reinventar na carreira. Além do roteiro bem dividido e narrado, e o trabalho excelente de Pascal (candidato a prêmios no próximo ano pelo sólido papel), há muitas outras qualidades: o trabalho técnico de câmera, com passagens incríveis de um momento a outro, além de bons planos-sequência, a trilha e o som, e a atuação das coadjuvantes Olivia Wilde e Eva Victor, que estão incríveis, como sempre. Nomes conhecidos aparecem em pontas, como Matthew Lillard, Will Arnett, Zlatko Buric, Thomas Kretschmann, JoBeth Williams e Hank Azaria, nesse longa desconhecido, que ouvi falar por acaso na Mostra. Exibido nos festivais de Nova York, BFI London, Newport e Vancouver, está na programação da 50ª Mostra, com uma sessão ainda hoje, dia 28.
 

 
Medley
(Brasil – 2026, de Ana Luiza Azevedo)
 
Há tempos não ouvia falar de Ana Luiza Azevedo, diretora gaúcha que tem trabalho frequente como roteirista dos filmes de Jorge Furtado, que conheço desde o curta “Barbosa”, dos anos 80, e que realizou no fim dos anos 2000 um dos bons filmes daquela época, “Antes que o mundo acabe” (quando a conheci e a entrevistei no Festival de Goiânia). Ela retorna agora com “Medley”, título em referência à prova de quatro estilos na natação, já que a protagonista adolescente é uma nadadora. Lola, de 16 anos, tem dificuldade com o nado borboleta, sente a ausência do pai e tem conflitos com a mãe, que é uma pessoa amarga. Após brigar com ela, sai de casa para uma viagem em que irá recuperar lembranças dolorosas que ficaram guardadas. É um filme singelo coming-of-age, que equilibra drama intimista com leve romance, e se passa no Rio de Janeiro dos anos 90. Tem uma naturalidade nas interpretações, nada forçado, fotografia bem colocada, com estética própria, principalmente nas cenas de água e piscina. E traz o protagonismo juvenil para a tela, como a cineasta gosta e sabe fazer. Fita direcionado ao público mais jovem, que se identificará com os dilemas existenciais da nadadora. É uma adaptação do livro “Medley ou os dias em que aprendi a voar”, de Keka Reis, fenômeno da literatura infantojuvenil brasileira. O elenco tem Mel Maia (no centro do filme, super bem), Mariana Lima, André Ramiro e Leona Cavalli. Depois de estrear no Festival do Rio, chega à Mostra de SP, com sessão ainda hoje, dia 28/10. O filme estreia oficialmente nos cinemas amanhã, dia 29, com distribuição da Vitrine Filmes (na Sessão Vitrine Petrobras).

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Nota de cinema

 
Cine Debate exibe nova versão de ‘Nosferatu’, filme de terror gótico
 
O Cine Debate de outubro, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, promove no próximo sábado, dia 31/10, mais uma sessão de filme aberto ao público. A partir das 14 horas, será exibida a nova versão de “Nosferatu” (2024), terror gótico inspirado no clássico livro “Drácula”, de Bram Stoker. Com direção do visionário cineasta Robert Eggers, o filme, de classificação 16 anos, concorreu a quatro Oscars, como melhor fotografia e figurino, e foi exibido em mais de 50 festivais de cinema ao redor do mundo. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, no Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida.


 
Sinopse: Na Alemanha do século XIX, Thomas Hutter (Nicholas Hoult), um corretor de imóveis, é enviado a negócios para as isoladas montanhas da Transilvânia. O seu objetivo é fechar a venda de uma nova propriedade com o rico e misterioso Conde Orlok (Bill Skarsgård). Ao chegar ao castelo daquele homem, Hutter descobre que o nobre é, na verdade, o mal encarnado: um vampiro milenar. Orlok planeja se mudar para a cidade alemã trazendo consigo uma peste avassaladora.
 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completou 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. As próximas sessões são:
 
28/11 – 14h – “A cor púrpura” (2023)
05/12 – 14h – “Sete oportunidades” (1925)
 
Conheça mais sobre o projeto em
https://www.facebook.com/cinedebateimes

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2


Meu verão na Sicília
 
Exibido na edição passada do Festival de Cinema Italiano no Brasil (2025), chega agora aos cinemas, com distribuição da Pandora, um dos filmes de arte mais bonitos da temporada, cuja história é singela e de grande beleza plástica. Um filme sobre infância e suas descobertas. Um garotinho rebelde de 11 anos, Nico (Marco Fiore), vai passar a temporada de verão com uma tia idosa e muito religiosa, Gela (Aurora Quattrocchi), num casarão rústico no coração da Sicília. Conflitos geracionais e choque de cultura entre a criança e a velha, num lugar desconhecido com pessoas estranhas, transformarão aquele menino, que aos poucos cede e cria forte vínculo com a senhora. É uma história de amadurecimento, de um menino que vivia escondido no quarto com o celular na mão até florescer, chegando a participar de rodas de conversa da tarde com as amigas idosas da tia (além de descobrir um possível segredo da família que ficaram há anos guardados). Outro mundo se abrirá para o protagonista infantil quando passa a se relacionar com gente da mesma idade, crianças que moram nos sobrados vizinhos. O agradável filme traz paisagens paradisíacas da Sicília, com suas praias reluzentes; design de produção caprichado dos casarões rústicas de lá e o bom desempenho em cena da tia e do garoto que criam vínculos também são elementos construídos cautelosamente para que o longa seja fluido, emocionante. Trata bastante do conflito geracional, uma criança Alfa, um nativo digital, em um lugar onde existe telefone discado, sem conexão com internet, tendo o menino de encontrar meios para se comunicar e se entreter (daí a relação com as crianças que ainda brincam de correr e jogos de rua). Paira no ar nostalgia, do reencontro com um velho mundo que ficou para trás. Vencedor de dois prêmios no Festival de Locarno de 2025, dentre eles o de melhor atriz para a octogenária Aurora Quattrocchi (nascida e criada na região em que se passa o filme, Palermo, Sicília), é o primeiro longa da roteirista e diretora Margherita Spampinato, que estreia bem nessa obra delicada, para toda a família.
 

 
Sacrifício
 
Segue pela segunda semana nos principais cinemas brasileiros com distribuição da Diamond Films o excêntrico filme de múltiplos gêneros “Sacrifício”, que adianto, adorei demais - e estreará em breve na Netflix dos EUA e pode ser que venha para o streaming Netflix Brasil. Em todo caso, se puder, veja na telona, pois o impacto é sensorial. Esqueçam as notas baixas do filme no IMDB, Rotten Tomatoes e Letterboxd (se alguém se instrui por esses sites-termômetro), o filme é um barato, divertido, e ao mesmo tempo assustador pelas críticas sociais à grã-finagem que dedica algumas horas por ano para as causas beneméritas. A começar do diretor, Romain Gavras, filho do excepcional cineasta grego de thrillers políticos e de contestação Costa-Gavras (de “Z” e “Estado de sítio”), um de meus cineastas favoritos: ele aprendeu cinema com o pai (está longe de ser igual), mas consegue adensar discussões sobre racismo e tomada das ruas para manifestações políticas, como fez nos dois ótimos filmes anteriores, “Nosso dia chegará” (2010) e “Athena” (2022 – esse da Netflix). Dessa vez reuniu um elenco de peso, premiados com Emmy e indicados a Oscar: voltou a trabalhar com o bom Vincent Cassel, trouxe junto Chris Evans, Anya Taylor-Joy, Sam Richardson, Salma Hayek e John Malkovich, além de participações especiais do rapper Yung Lean e da cantora agora atriz Charli XCX. O filme já começa colocando os personagens num ambiente exótico: no meio de uma pedreira isolada na Grécia, um grupo de ricões prepara um banquete dos deuses para um megaevento beneficente. É um espetáculo televisionado com dançarinos, comidas pomposas, gente elegante, dentre eles Mike Tyler, um ator galanteador (Chris Evans). Do lado de fora, um grupo de ambientalistas revolucionário, liderado por Joan (Anya Taylor-Joy), com armas em punho, invade o lugar, rende as pessoas e faz exigências. Eles acreditam que um vulcão a poucos quilômetros entrará em erupção, e devido à magnitude, colocará fim não só a eles, mas como ao planeta todo. O medo toma conta dos convidados, pessoas são agredidas (uma mulher tem a mão decepada) até que outra dose de absurdo é injetada: parte dos convidados terá de participar de um ritual de sacrifício para impedir a fúria do vulcão. O filme é uma jornada caótica, envolvendo uma espécie de culto pagão com terrorismo, que faz uma sátira inteligente da alta sociedade hipócrita, com seus discursos vazios e excessos. Misturando ação com drama, comédia e suspense, foi escrito por Gavras ao lado de outro bom roteirista que ficou conhecido pelos fãs de séries, Will Arbery (da premiada “Succession”). A estética do filme foi devidamente planejada, com cenários abertos e grandiosos, fotografia estupenda, cenas em slow motion alternadas com imagens de muito movimento. É cinema engajado, contestatório, de discussão afiada, com um tipo de humor que poderá desagradar alguns/algumas. Chris Evans está num grande momento, solto como uma pluma, muito engraçado (fazendo um papel também de crítica ao ego das estrelas do cinema), e todo elenco de apoio manda bala com seus exageros propositais. Curti o filme e entrei nele de cabeça.
 

 
Zona Zero
 
Depois do estrondoso filme de terror “Invasão zumbi” (2016), o diretor sul-coreano Yeon Sang-ho volta com adrenalina máxima em mais uma fita do gênero, “Zona Zero” (2026). Entre “Invasão” e “Zona”, ele fez filmes medianos e ruins, incluindo a péssima continuação “Invasão zumbi 2: Península” (2020) – mas agora esqueçam esse hiato e assistam ao novo trabalho dele, uma fita empolgante, assustadora, ao mesmo tempo escatológica. Exibido na seção Midnight do Festival de Cannes e aqui no Brasil no início do mês tanto no 4º Korean Film Festival (KOFF) quanto no Festival do Rio, o longa tem traços de “O despertar dos mortos”, cult movie de zumbi de George A. Romero dos anos 70, inclusive a ambientação. Em Seul, capital do país, no térreo de um arranha-céu que abriga um laboratório de biotecnologia, um grupo de pessoas sobrevive a uma estranha infestação que transforma humanos em zumbis agressivos. A proliferação do vírus mutante saiu do laboratório durante uma conferência de cientistas. Um grupo de pessoas não se contamina e se une, abrigando-se nas lojas de um shopping que fica no térreo. Eles descobrem que os zumbis, que soltam nas paredes uma gosma branca formando uma teia de aranha, desenvolvem uma forma de inteligência coletiva para rastrear os passos dos vivos e viram uma colônia (por isso o título em inglês é “Colony”). O grupo de sobreviventes precisa rapidamente arquitetar planos para fugir, na medida em que os mortos vão aprendendo a como controlar o espaço onde se proliferam. É da linhagem de horror corporal com ação e muita adrenalina, com cenas nojentas de meleca branca, vômitos, sangue e gritaria. Pulei de susto em várias cenas apreensivas, nesse filme claustrofóbico inteiramente transcorrido no prédio (desde lojas ao estacionamento). Segue nos cinemas pela Paris Filmes.
 

 
O outro lado das redes
 
Logo após o lançamento mundial em Londres, em setembro, o filme continuação de “A rede social” (2010) teve première no Brasil durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de SP – e agora acaba de estrear nas salas, com distribuição da Sony Pictures. Dividiu o público e a crítica especializada (eu o assisti na sessão de coletiva de imprensa da Mostra, em 03/10), não está bem de bilheteria, porém nada disso impede meu comentário de colocá-lo na lista dos bons filmes de 2026. Não é segredo de que não sou fã de “A rede social”, que tratava do surgimento do Facebook pela mente de um jovem egóico, um intransigente estudante de Harvard chamado Mark Zuckerberg, hoje um dos homens mais ricos do mundo (e que está por trás da Meta e dos abusos infinitos que ela comete, inclusive influenciando negativamente a política). E é justamente esse o tema desse segundo filme, para mim muito melhor que o anterior (seja o elenco ou a trama espinhosa). A partir de fatos reais, aborda os bastidores de uma ampla investigação jornalística sobre o funcionamento oculto do Facebook (no caso a manipulação dos algoritmos). O filme, com uma mistura certeira de drama e humor, trata do vazamento do chamado “Facebook Files”: a engenheira de dados do Facebook, cientista e gestora de produto norte-americana Frances Haugen (interpretada por Mikey Madison), em 2021, juntou provas para servir como denunciante (whistleblower) do Facebook; ela entregou milhares de documentos internos confidenciais ao jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), repórter do The Wall Street Journal e à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) que depois provaram a existência de uma máquina do caos por trás da rede (que se vendia como uma rede social saudável, para troca de mensagens e contatos). A diretoria do Facebook sabia dos efeitos nocivos de suas plataformas, como manipulação de dados, o impacto negativo na saúde mental de adolescentes, o aumento da polarização política e a priorização do lucro em detrimento da segurança. Haugen entrou numa seara perigosa contra parte do sistema e afrontando autoridades poderosas. O filme acompanha a jornada solitária dessa mulher que teve apoio de um jornalista para jogar luz ao caso, que chacoalhou os EUA naquele ano em plena pandemia. Ela inclusive foi ao Senado e pressionou Zuckerberg a rever as condições da empresa. É um filme de denúncia feito com seriedade, com grandes interpretações - Mikey Madison, apesar de não se assemelhar em nada com a verdadeira Frances, dá um show, enquanto Jeremy Strong se desafia num papel frívolo de um Zuckerberg mais maduro (e ambos podem ser candidatos a Oscar ano que vem). O longa já abre com uma cena chocante, do uso descontrolado das redes (uma mulher rica, alcoolizada, desfere por longos minutos xingamentos racistas a policiais, gravando tudo e postando nas redes). Um filme para compreender o perigo que as redes provocam na sociedade, desde provocar o vício em telas e espalhar fake News até influenciar abertamente eleições (como a de Trump e a dos Bolsonaros). Por isso, exige-se imediata regulação delas.

sábado, 24 de outubro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Anatomia do caos
 
Com as eleições chegando, e o risco democrático que o Brasil corre, a distribuidora Descoloniza Filmes disponibilizou gratuitamente o documentário “Anatomia do caos” (2026) em suas redes, no Youtube, e na de parceiros até o dia 26/10, como o Instituto Conhecimento Liberta, Rede TVT e o canal do psicanalista Christian Dunker. O doc, que foi exibido nos principais cinemas no primeiro semestre desse ano, é um retrato assustador do governo de Jair Bolsonaro no enfrentamento da crise do coronavírus, entre 2020 e 2022. O longa vira um imenso mosaico com centenas de falas do ex-presidente, que viralizava discursos contra a vacina, contra a pandemia da covid, soltando fake News todo dia e fazendo chacota com a doença e os doentes. A diretora Dandara Ferreira teve acesso a imagens dos bastidores da CPI da Covid (aberta no Senado Federal para analisar e tratar do caso dentro da política) e traz os desdobramentos da investigação em torno do governo Bolsonaro e de outros atores políticos que conduziram erroneamente a crise sanitária do coronavírus, que resultou na morte de mais de 700 mil brasileiros. É um filme indigesto por natureza, por expor na tela figuras hipócritas e ensandecidas destilando desinformação no período mais cruel da História recente do país. O filme é também uma forma de analisar os mecanismos da estrutura de poder no governo passado, com toda a truculência contra jornalistas e o pânico social gerado com falas mentirosas e outras criminosas. Um filme para ver, estudar e nos alertar da tragédia de um passado super recente nas páginas da política brasileira. Link direto para os interessados em ver o filme - https://www.youtube.com/watch?v=8Gg9bZLbi18&t=11s
 

 
Naza
 
Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Vitrine Filmes o novo e contundente documentário dirigido pela dupla israelense Yuval Abraham e Rachel Szor, ganhadores do Oscar pelo filme “Sem chão” (“No other land”), em 2025. O jornalista Yuval Abraham e a ativista Rachel Szor se reúnem novamente para tratar da guerra sem precedentes e a consequente crise instalada na Faixa de Gaza pelas tropas israelenses. Em “Sem chão” (que ao lado deles tinha outro codiretor, Hamdan Ballal, sequestrado, preso e quase morto pelos militares israelenses devido à repercussão do filme anterior), a história se passava na zona de tiro de Masafer Yatta, região no sul da Cisjordânia (próxima a Hebron), composta por cerca de 20 aldeias palestinas que foram massacradas, o que forçou a população a fugir de lá. Agora, em “Naza” (2026), os diretores investigam os mecanismos de extermínio em massa na Faixa de Gaza, por Israel, a partir do ponto de vista de 24 soldados, militares e agentes de Inteligência do Exército que atuam em operações especiais na guerra iniciada em outubro de 2023. São depoimentos crus, reveladores, de deixar qualquer um estarrecido, com nó na garganta; sentados no terraço de um velho prédio em Tel Aviv, eles contam (parte deles com muita tranquilidade) como eram as missões que chegavam até eles: de matar qualquer um em movimento, com uso de equipamentos e armas de precisão, atirando bombas em bairros inteiros para eliminar integrantes do Hamas, a organização terrorista da Palestina. Em um dos depoimentos, um oficial relembra a suspeita de um integrante do Hamas num prédio, então ordenou o lançamento de um míssil; quase uma centena de inocentes morreu, e não localizaram o terrorista. Aí está o significado da palavra “Naza”, um acrônimo militar em hebraico utilizado pelos serviços de Inteligência de Israel para se referir a "danos colaterais", ou seja, a estimativa de quantos inocentes podem morrer em um ataque, mesmo que for para a captura de um membro do Hamas. Portanto, o filme evidencia o que a mídia estampa nos jornais pelo mundo afora: em Gaza ocorre um genocídio escancarado, orquestrado, aos olhos do mundo. Dados oficiais apontam mais de 74 mil mortos (incluindo 1.500 mortes registradas após o início do cessar-fogo) e 174 mil feridos em Gaza desde 2023, o que muitos acham subestimado. Crianças, bebês e mulheres são as principais vítimas, e há milhares de desaparecidos nos escombros – Gaza foi praticamente ao chão após inúmeros bombardeios nesses três anos de uma guerra insana autorizada pelo primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e com apoio dos Estados Unidos. O filme reúne esses depoimentos inéditos, de homens enfurnados numa guerra voraz, questionados pelos diretores em torno da ética militar. A première do filme ocorreu em setembro passado, no Festival de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro, e ganhou lá cinco prêmios, incluindo o Prêmio Especial do Júri. Também foi exibido nos festivais San Sebastián, Nova York, Zurique e Bolonha, e é forte candidato ao Oscar de melhor documentário de 2027. Um dos melhores documentários do ano. Assistam.

Especial de Cinema

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