terça-feira, 29 de setembro de 2026

Resenhas especiais

 
O fotógrafo e o carteiro: O crime que parou a Argentina
 
Documentário sobre a investigação do assassinato do jornalista José Luis Cabezas, um crime que chocou a Argentina no final dos anos 90.
 
Documentário da Netflix de 2022 sobre a investigação em torno do assassinato do fotojornalista José Luis Cabezas, ocorrido em 25 de janeiro de 1997, em Pinamar, que se tornou um dos episódios mais marcantes da história recente da Argentina. Sequestrado, o fotógrafo da destacada revista Notícias foi torturado e morto. Meses antes, ele fez a primeira imagem pública do empresário Alfredo Yabrán, um magnata poderoso, de forte influência no governo da época, que evitava ser fotografado. Yabrán era acusado de lavar dinheiro para o tráfico de drogas e armas. A foto de Yabrán ilustrou a capa da revista Notícias e foi vista como uma afronta ao empresário. O caso terminou em uma trama de vingança envolvendo criminosos e policiais corrompidos, cujo filme procura explorar bem a partir de reportagens da época e entrevistas. O assassinato de Cabezas tornou-se uma mensagem de intimidação contra o jornalismo e a liberdade de expressão, no país em que a ditadura havia terminado há menos de 15 anos – lembrando que na Argentina a ditadura (1976-1983) foi a mais violenta da América do Sul, que resultou em mais de 30 mil desaparecidos. A tragédia gerou enorme comoção nacional, com marchas e manifestações em prol dos direitos humanos, da justiça e da liberdade de expressão, com o lema “No se olviden de Cabezas”, transformando o fotógrafo em símbolo da luta contra a impunidade. Mais um bom documentário investigativo da Netflix, disponível no catálogo do streaming.
 
O fotógrafo e o carteiro: O crime que parou a Argentina (El fotografo y el cartero: El crimen de Cabezas). Argentina, 2022, 106 minutos. Documentário. Colorido. Dirigido por Alejandro Hartmann. Distribuição: Netflix
 
 

Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência
 
Numa cidadezinha do norte da Europa, dois homens passam o dia andando de lá para cá, cruzando com personagens excêntricos, pelas ruas, farmácias e mercearias, na tentativa de vender bugigangas.
 
Roy Andersson é um dos cineastas mais singulares da Suécia, conhecido por transformar o cinema em uma espécie de galeria de pinturas vivas, onde a estética visual e o humor absurdo se unem para refletir sobre a condição humana. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2014, “Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência” é um dos filmes mais melancólicos e representativos do diretor e roteirista, que iniciou a carreira ainda no fim dos anos 60 (e que por muito tempo trabalhou com publicidade). Dois idosos perambulam pela cidade onde moram mostrando artefatos antigos e novos para serem vendidos, que refletem um pouco sobre o mundo. Eles passam de porta em porta, em casas e comércio, apresentando as estranhas bugigangas, enquanto o tempo parece parar. É uma comédia dramática, de humor frio, que critica costumes do povo sueco, numa obra cuja composição é feita de esquetes curtos, com a estética peculiar que se tornaria marca registrada de Andersson, o “tableau”: câmera estática, iluminação pálida, cores esmaecidas (os personagens parecem zumbis, com o rosto esbranquiçado, semelhantes a uma pintura), personagens rígidos (sem demonstrar sentimentos), cenários meticulosamente criados (que dão a sensação de hiper-realidade). E sempre situações tragicômicas que revelam a banalidade e a profundidade da vida cotidiana. Os fragmentos curtos, quanto reunidos, refletem sobre a solidão, o vazio, o alto consumismo e a melancolia da vida moderna, bem como o absurdo da existência e a alienação social. Tudo é muito inusitado, lento, com algo surreal que paira nos esquetes, num tipo originalíssimo de se fazer cinema. Fita para público que curte cinema alternativo, um típico longa-metragem de festival. Disponível em DVD (com distribuição da Mares Filmes em parceria com a Versátil Home Video) e em streamings de cinema cult.
 
Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron). Suécia/Alemanha/Noruega/França/Dinamarca, 2014, 101 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Roy Andersson. Distribuição: Mares Filmes e Versátil Home Video

* Resenhas publicadas na minha coluna de cinema na revista "Mais Magazine", de Lins (SP) - edição de agosto/setembro de 2026

domingo, 27 de setembro de 2026

Resenhas especiais

 
Funny girl: A garota genial
 
A atriz e cantora Fanny Brice (Barbra Streisand) inicia sua carreira nos palcos da Broadway, tornando-se a mulher mais bem paga do teatro musical americano.
 
A Classicline lançou recentemente no mercado “Barbra – The Funny Collection”, um box em DVD contendo os dois premiados filmes musicais com Barbra Streisand em que ela interpreta a estrela da Broadway Fanny Brice (1891-1951). São dois discos com cards colecionáveis e com as cópias em boa imagem e som de “Funny girl: A garota genial” (1968) e a continuação, “Funny lady” (1975). Ambos os filmes são uma cinebiografia autêntica de Fanny, que além da Broadway foi estrela do rádio norte-americano, lembrada por sua voz marcante, humor irreverente e pela vida tumultuada, principalmente por causa dos relacionamentos amorosos com homens vigaristas.


Neste primeiro filme, Barbra tinha 26 anos, estreando aqui nos cinemas, e pelo contagiante papel ganhou o Oscar de melhor atriz (dividido com Katharine Hepburn por “O leão no inverno”). O foco do longa é a entrada de Fanny na série de espetáculos da Broadway “Ziegfeld Follies”, em 1910, quando ela tinha apenas 19 anos. Nascida Fania Borach em 29 de outubro de 1891, em Manhattan, filha de imigrantes judeus, cresceu em um ambiente modesto. Sua mãe, Rose Stern, era uma figura forte e protetora, com quem Brice manteve uma relação próxima, embora marcada por tensões típicas de uma jovem que buscava independência – a mãe era viciada em jogos de baralho (no filme é interpretada por Kay Medford, que recebeu indicação ao Oscar de atriz coadjuvante). Desde cedo, Fanny demonstrava talento para o palco, o que a fez abandonar a escola para se dedicar ao mundo do entretenimento. Com 13 anos, em 1904, participou de audições artísticas, treinava por conta canto e dança, até que em 1910 foi descoberta por Florenz Ziegfeld (no filme “Funny girl” interpretado por Walter Pidgeon) e tornou-se uma das estrelas das célebres Ziegfeld Follies, onde brilhou com números cômicos e canções que se tornaram clássicos, como “My man” e “Second hand Rose”. As Ziegfeld Follies foram uma série de espetáculos teatrais luxuosos de variedades (vaudeville) apresentados na Broadway entre 1907 e 1931, que misturavam música, dança, comédia e esquetes e com inspiração parisiense, como os cabarés. O lugar lançou Fanny e outros nomes importantes, como W. C. Fields, Eddie Cantor e Josephine Baker.




A carreira de Fanny se expandiu para o rádio, onde criou a personagem Baby Snooks, uma criança travessa que conquistou o público e a manteve popular até sua morte. Teve uma vida amorosa conturbada (e o filme traz um bom enfoque sobre isto), casando-se três vezes: primeiro com Frank White (que não aparece nos filmes), depois com o charmoso, mas vigarista enrolado com grandes quantias de dinheiro escusos Nicky Arnstein (papel de Omar Sharif nos dois filmes), com quem teve dois filhos, e por fim com o produtor Billy Rose (James Caan, no segundo filme, “Funny Lady), um showman e empresário da Broadway que tinha humor instável. Seu casamento com Arnstein foi marcado por escândalos, já que ele esteve envolvido em atividades criminosas, o que trouxe sofrimento e humilhação pública para Fanny - e quase a levou ao fim da carreira. “Funny girl” é um filme musical com drama e romance contagiante, com linda fotografia e figurino, além de ótimos números musicais - foi o filme de maior bilheteria de 1968 nos EUA, indicado a oito Oscars, incluindo melhor filme, edição e trilha sonora, e premiando Barbra (que também venceu o Globo de Ouro naquele ano). E conta com a exímia direção do lendário cineasta William Wyler, diretor premiado com três Oscars, de clássicos como “Tarde demais”, “A princesa e o plebeu” e “Ben-Hur” – “Funny girl” foi seu penúltimo trabalho.
 
Funny girl: A garota genial (Funny girl). EUA, 1968, 151 minutos. Drama/Romance. Colorido. Dirigido por William Wyler. Distribuição: Classicline
 
 
Funny lady
 
Já consolidada no mundo das artes, a atriz e cantora Fanny Brice (Barbra Streisand) enfrenta um relacionamento abusivo com seu produtor, Billy Rose (James Caan), um showman da Broadway que se tornaria seu marido, durante a Grande Depressão.
 
Continuação de “Funny girl”, filme que deu o Oscar de atriz a Barbra Streisand, e uma boa sequencia dos acontecimentos da vida e da carreira da atriz e cantora Fanny Brice, fenômeno da Broadway. Fanny Brice era uma mulher inteligente, espirituosa e resiliente, capaz de transformar suas dores pessoais em arte. No palco encantava e emocionava o público, e a autenticidade aliada ao humor a tornaram uma figura única no cenário artístico americano daquele período. Sua vida inspirou o musical da Broadway “Funny Girl” (1964), adaptado para o cinema em 1968, e a continuação, “Funny Lady” (1975). Ela permanece como símbolo da mulher que desafiou padrões, conquistou espaço em um meio dominado por homens e deixou uma marca indelével na cultura americana. Sua história de ascensão, amores complicados e talento inquestionável continua a inspirar gerações, especialmente através das interpretações de Streisand que eternizaram sua trajetória.




Seguindo os passos do primeiro filme, “Funny girl”, este mantém drama e romance, mas com menos números musicais e menos alegria na vida da personagem central, já que enfrentou relacionamentos amorosos abusivos que a machucaram profundamente. “Funny lady” carrega um forte ar melancólico, retratando cortes importantes do final da vida da biografada, mais adulta e madura, tendo como força motriz o trabalho de Barbra, uma atriz e cantora que gosto muito. Fanny morreu em 29 de maio de 1951, em Beverly Hills, vítima de uma hemorragia cerebral, aos 59 anos. “Funny lady” recebeu cinco indicações ao Oscar (como fotografia, som e figurino) e seis ao Globo de Ouro, incluindo melhor filme de comédia ou musical, atriz e ator. A direção é de Herbert Ross, de “A garota do adeus” e “Flores de aço”. Disponível em DVD pela Classicline no box “Barbra – The Funny Collection”, que vem junto com o primeiro filme.
 
Funny lady (Idem). EUA, 1975, 136 minutos. Drama/Romance. Colorido. Dirigido por Herbert Ross. Distribuição: Classicline

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Nota de cinema

 
Cine Debate exibe neste sábado filme sobre deficiência visual
 
O Cine Debate de setembro, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, promove no próximo sábado, dia 26/09, mais uma sessão de filme aberto ao público. A partir das 14 horas, será exibido o drama brasileiro “Saudade fez morada aqui dentro” (2022), dirigido por Haroldo Borges. Exibido em festivais como Málaga, Mar del Plata e Shanghai, foi premiado no Festival do Rio (como melhor filme na seção Novos Rumos) e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, no Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida, com mediação da equipe do Sesc.
 
Sinopse: Bruno, um garoto de 15 anos, morador no sertão da Bahia, tem uma doença degenerativa que faz com que ele perca a visão. Sua adolescência será marcada por aprendizados, bem como a resiliência para enfrentar preconceitos e diferenças.



 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completou 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. As próximas sessões são:
 
31/10 – 14h – “Nosferatu” (2024)
28/11 – 14h – “A cor púrpura” (2023)
05/12 – 14h – “Sete oportunidades” (1925)
 
Conheça mais sobre o projeto em
https://www.facebook.com/cinedebateimes

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Resenha especial e estreia da semana


Resenha especial

Queda livre: A tragédia do Caso Boeing
 
Documentário sobre a investigação do Caso Boeing, que envolveu dois acidentes aéreos da empresa ocorridos num curto espaço de tempo, de cinco meses, entre 2018 e 2019 - o primeiro na Indonésia e o segundo, na Etiópia, e juntos resultaram na morte de 346 pessoas.
 
Doc da Netflix na linha de investigação, realizado em 2022, que procura destrinchar o caso de dois acidentes aéreos da Boeing, com o mesmo modelo de avião, o 737 MAX. O primeiro desastre aéreo ocorreu em 29 de outubro de 2018, cuja aeronave caiu no mar de Java logo após decolar de Jacarta, na Indonésia, resultando na morte de 189 pessoas (entre passageiros e tripulantes); o segundo veio num curto espaço de tempo, menos de cinco meses depois, algo nunca visto na aviação mundial: na Etiópia, 157 pessoas morreram na queda de um Ethiopian Airlines (voo ET302), registrado em 10 de março de 2019, minutos após decolar da capital, Adis Abeba, com destino a Nairóbi, no Quênia. Cruzando os dados, investigadores contratados pela aviação observaram documentos que levaram a conclusões assustadoras, como reutilização de peças antigas em aviões modernos, além da falta de vistoria regular regida em lei. A partir de entrevistas com aviadores, jornalistas que cobriram o caso e familiares das vítimas (que viram seus entes queridos horas antes de morrer), o filme demonstra como a ganância transformou-se numa crise corporativa sem precedentes dentro de uma das marcas de aviões mais respeitadas do mundo, a Boeing, fundada nos EUA em 1916. O filme acompanha a investigação por trás do caso, o julgamento dos responsáveis e os protestos das famílias em busca de justiça, na frente do tribunal. Exibido no Festival de Sundance, o doc é assinado pela diretora Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014), com roteiro de Keven McAlester (também indicado pelo filme de Rory, “Vietnam”). Nesse ano Rory realizou a continuação, também para a Netflix, o filme, chamado “Queda livre: As consequências do Caso Boeing” (2026) – que se aprofunda no caso, agora partindo das denúncias de um chefe de operações da Boeing, John Barnett, sobre falhas técnicas de aeronaves que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Assista a dobradinha dos doism recomendo!
 
Queda livre: A tragédia do Caso Boeing (Downfall: The case against Boeing). EUA, 2022, 89 minutos. Documentário. Colorido. Dirigido por Rory Kennedy. Distribuição: Netflix


Estreia da semana - Nos cinemas


Morte e vida Madalena

Fazendo alusão à “Morte e vida Severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, o novo filme do inventivo cineasta cearense Guto Parente tem fortes traços com o clássico poema regionalista da literatura brasileira. Ambos tratam de um longo percurso de um personagem solitário, em meio aos desafios do mundo, cercado por obstáculos sociais. Parente volta a estudar personagens queer complexos, aqui trazendo uma protagonista com mutas camadas, Madalena (ótimo papel da atriz travesti Noá Bonoba, também professora e pesquisadora). Ela é uma produtora de cinema, que está grávida e prestes a rodar uma fita de ficção científica B, cujo roteiro foi deixado pelo falecido pai. Madalena tem a rotina revirada quando Davi (Marcus Curvelo), o diretor do filme e seu ex-marido, desaparece do set. Cheia de dúvidas e maus pressentimentos, ela investiga por conta próprio o sumiço de Davi. O bebê dela está para nascer, o que a motiva a querer gravar logo o filme, mesmo sem a presença do diretor. O longa é uma comédia dramática cheia de subtramas, sobre as andanças dessa personagem que se transforma durante aquela jornada de busca pelo marido e de ser mãe de primeira viagem – sem contar os desafios para as gravações no set. Vê-se um filme dentro de outro filme, metalinguagem pura, com momentos de incerteza sobre aquilo que vemos ser da cabeça da protagonista, algo real ocorrendo ou se aquilo tudo é do roteiro do longa em execução. Para complexar ainda mais o roteiro, a personagem tem devaneios, sonhos misteriosos, enquanto as cenas nítidas de como ela quer o filme aparecem em imagens caóticas, assombradas. Como em “Inferninho” e “Doce amianto”, o cineasta faz um cinema queer contemporâneo unindo fantasia, estética camp, figuras marginalizadas complexas e altas doses de melancolia, entregando aqui um dos filmes de destaque do ano, que gostei demais. Tanto que foi exibido e premiado em importantes festivais nacionais e internacionais, como Ciné+ no FidMarseille 2025 (França), Festival de Brasília, Mostra de Cinema de São Paulo e MixBrasil. Em exibição nos principais cinemas com distribuição da Embaúba Filmes.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2


Os trapaceiros de Garibaldi
 
Drama histórico exibido no Festival de Rotterdam, escrito e dirigido pelo diretor Roberto Andó, um veterano cineasta que faz obras de arte ao mesmo tempo cult e moderno. Novamente trabalha com o nome mais importante da Itália do momento, premiado ano passado em Veneza, Toni Servillo – eles fizeram juntos pelo menos três longas que gosto muito, ‘Viva a liberdade’ (2013), ‘As confissões’ (2016) e ‘A estranha comédia da vida’ (2022). Nesta intrigante história real ocorrida nos anos finais do Risorgimento, a Unificação Italiana, Servillo interpreta o coronel siciliano Vincenzo Orsini, que liderou tropas para enfrentar o exército Bourbon, na campanha de 1860, de Giuseppe Garibaldi (papel aqui de Tommaso Ragno). Orsini e Garibaldi criam a Expedição dos Mil, na tentativa de conquistar Palermo; para tanto, organizam um mirabolante plano, de simular a retirada dos soldados para enganar os inimigos. Um filme de estratégias militares, que lembra uma partida de xadrez, onde cada movimento é decisivo. Apesar de poucos recursos, Andó realizou um filme diferenciado, de uma história esquecida e que se tornou emblemática para a Unificação da Itália na metade do século XIX. Bom figurino de época e diálogos auspiciosos impulsionam a trama de disputa de território e heroísmo. Exibido no 20º Festival de Cinema Italiano no Brasil, em 2025, com o título provisório e “A ilusão”, estreia hoje nas principais salas de cinema, com distribuição da Pandora Filmes.


 
Três vezes adeus
 
Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras". Este seu último trabalho, “Três vezes adeus”, estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano, em julho, e hoje entra no circuito brasileiro de cinema, distribuído pela Autoral Filmes. Longa autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim” (2003), retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. O filme teve exibições nos festivais de Toronto e do Rio.



A Rebelião dos Jangadeiros
 
Documentário independente produzido em 2025, com direção de Cinthia Medeiros e Demitri Túlio, e produção executiva de Íris Sodré (Gavulino Filmes), o filme é uma aula didática viva sobre a Rebelião dos Jangadeiros, conhecida historicamente como a Greve dos Jangadeiros, ocorrida em 1881 no Porto de Fortaleza, Ceará. O que se viu ali tornou-se um marco fundamental do movimento abolicionista no Brasil e uma preparação para a Abolição dos escravos, que viria anos depois. Liderada por Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde (apelidado de Dragão do Mar), a revolta ocorreu em janeiro de 1881 no Porto de Fortaleza, consistindo na recusa coletiva dos jangadeiros em transportar pessoas escravizadas para os navios negreiros que as transportaria para os mercados de café nas regiões Sul e Sudeste. Com o famoso lema de que "no porto do Ceará não se embarcam mais escravos", a rebelião paralisou o tráfico interprovincial na região, abrindo uma ampla discussão na sociedade brasileira daquele período. A mobilização popular foi decisiva para acelerar o fim da escravidão no Nordeste, fazendo com que o Ceará se tornasse o primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão, em 27 de março de 1884, quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea. O filme é repleto de depoimentos de historiadores, museólogos, antropólogos e ativistas sociais, sentados em uma sala olhando para a câmera, em que lembram curiosidades, dados históricos e fatos relevantes daquele movimento pioneiro, que rompia não só com trabalho forçado, mas de ideais racistas e de um sistema todo de controle dos corpos negros. O longa, de apenas 79 minutos, mistura aos depoimentos imagens (como desenhos da época e ilustrações de livros de História) e animações modernas. O filme está em exibição gratuita no streaming Sesc Digital até o dia 11/10 – em https://sesc.digital/home


Bom garoto

O cineasta polonês Jan Komasa realiza obras complexas e bem contraditórias, de narrativa moderna e visual ousado. Antes de “Bom garoto” (2025), ele fez dois longas que acho geniais, o indicado ao Oscar de filme estrangeiro “Corpus Christi” (2019), sobre um jovem detento que abre uma igreja, e “Rede de ódio” (2020), da Netflix, que veio no meio da pandemia e trata de uma conspiração política por meio das fake news. Os anteriores a esses eu não vi, que são dois outros, “A sala do suicídio” (2011) e “Varsóvia 44” (2014). “Bom garoto” é o primeiro trabalho do diretor fora da terra natal, rodado no Reino Unido com atores premiados e até indicados a Oscar. “Heel” ou “Good boy” (recebeu esses dois títulos originais) é um suspense psicológico com alta dose de humor macabro e um denso clima perturbador, explorando os limites da moralidade. É uma trama complexa e bizarra, em que acompanhamos Tommy (Anson Boon), um jovem de 19 anos mergulhado em drogas, violência e exibicionismo nas redes sociais. Após uma noite de excessos, é sequestrado por Chris (Stephen Graham, premiado com o Emmy, o Globo de Ouro e o Bafta pela minissérie “Adolescência”) e sua esposa Kathryn (Andrea Riseborough, indicada ao Oscar por “A sorte grande”), que decidem “reeducá-lo” em sua residência isolada. O casal, que bate fora do bumbo, utiliza o lar como um cativeiro, sem comunicação com o mundo exterior. Ali também mora o filho pequeno do casal, Jonathan (Kit Rakusen). Chris e Kathryn desenvolvem uma estranha obsessão em transformar Tommy em um “bom garoto”. O rapaz fica numa coleira pendurada no teto, em trilhos, inicialmente no porão escuro; com o passar dos dias, a família libera mais espaços para o jovem percorrer, sempre com o pescoço amarrado com a corrente cruzando os trilhos. Entre castigos físicos, leituras de clássicos literários e recompensas por comportamento adequado, Tommy passa por uma experiência de tortura psicológica e condicionamento social. O filme nasceu da colaboração entre os roteiristas Bartek Bartosik e Naqqash Khalid, que se inspiraram em debates sobre juventude desgovernada e os limites da disciplina familiar. O argumento do diretor é inspirado em casos reais de jovens que transformaram a delinquência em espetáculo online, viciados em redes sociais – e Komasa imaginou o que aconteceria se alguém decidisse impor uma cura radical a essas atitudes. Há momentos sufocantes, tensos, num filme que explora a Síndrome de Estocolmo e a manipulação mental. O elenco é um dos pontos altos, com destaque para Stephen Graham, Andrea Riseborough e Anson Boon. Komasa, vale destacar, explora novamente, com inteligência, o tema do vício nas redes sociais, depois de o fazer em “Rede de ódio” (aqui o protagonista, alvo daquela família, é um exibicionista/narcisista, que tem voz ativa nas mídias e utiliza o espaço para sustentar seu ego). PS: No mesmo ano de “Bom garoto”, 2025, o diretor lançou outro filme ótimo, também inspirado nas redes e no uso desenfreado das fake news para corroer a democracia americana, um filmão que acaba de estrear na Prime Video, “O aniversário” (com Diane Lane, Kyle Chandler e Dylan O'Brien). “Bom garoto” se destacou em festivais internacionais, como Toronto, BFI London e Roma, e agora chega com exclusividade no Brasil na plataforma Filmelier.


Era uma vez minha 1ª vez


Adaptação para os cinemas do livro "Era uma vez minha 1ª vez", que foi sucesso entre os jovens, escrito por Thalita Rebouças (que é também atriz e jornalista, e hoje um dos nomes de destaque da literatura adolescente moderna). E segue a linha dos outros livros da autora que viraram cinema, que discutem relacionamentos afetivos e familiares entre os adolescentes, como “Fala sério, mãe!” e “Ela disse, ele disse”. O longa, em cartaz nos cinemas brasileiros, sofreu alterações no curso das histórias da obra original, incluindo redução no número das personagens (de seis para quatro, que são Teresa, Clara, Tuca e Patty, interpretadas por Letícia Braga, Castorine, Lívia Silva e Duda Matte). No entanto, manteve a essência da discussão, sobre amadurecimento e sexualidade, de forma bem humorada. A linguagem parece com a do livro, direta, com astral lá em cima, ora com momentos cômicos ora dramáticos (quando surgem dúvidas sobre o florescer da idade, em que as meninas adolescentes conversam sobre a “primeira vez”, tanto o beijo quanto o sexo). O quarteto de melhores amigas faz um pacto para perder a virgindade até a formatura, que está chegando, e a partir daí cada uma vivencia sua própria jornada de descobertas, com erros e acertos nos sentimentos e nas atitudes com os prováveis parceiros. É um filme para público teen, com sacadas e gírias daquela idade, às vezes romantizado demais, e serve como passatempo para o público adolescente (que se reconhecerá em várias cenas). Não é um tipo de filme que curto, acho a proposta repetitiva e há outros melhores que este, porém tá valendo à garotada que está em busca de filme que não exige filosofia nem tanta originalidade. O longa tem produção e distribuição da Na Paralela Filmes, com codistribuição de A Fábrica, em parceria com a RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio, além de coprodução da Warner Bros. Pictures e RioFilme, e investimento do BRDE, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual e da Ancine.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 1

 
A quinta portuguesa
 
Coprodução Portugal e Espanha, o drama protagonizado pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (de “Pulp fiction”) foi rodado inteiramente em Madri, no ambiente metropolitano, e também em uma verdadeira quinta portuguesa (antiga propriedade rural que possui casa de habitação cercada por terras para a agricultura, jardins ou vinhedos). O filme de arte foi um dos últimos trabalhos do ator espanhol Manolo Solo, protagonista da trama ao lado de Maria (ele começou a carreira como músico no rock sevilhano, atuou em longas como “O labirinto do fauno” e faleceu há pouco mais de um mês, após longa batalha contra o câncer). Solo interpreta Fernando, um professor de Geografia em busca da esposa, que desapareceu. Ele não encontra mais forças na procura, está sem rumo, até que assume outra identidade: ele se muda de Madri para o interior de Portugal, para trabalhar como jardineiro em uma quinta. Lá conhece Amalia (Maria de Medeiros), uma dona de casa, e inicia com ela forte amizade, marcada por situações dramáticas e por um desafio, que é o de manter em sigilo a verdadeira identidade. Um filme de drama com romance sobre escolhas e identidade, que gira em torno de um personagem pacato que, após um baque, muda de vida radicalmente, a ponto de se transformar em outro cidadão. Paira no ar uma sensação de estranhamento a todo instante (já que Fernando “vira” uma nova pessoa), e a alteração de ambientes (a mudança dele da Madri atual para uma fazenda portuguesa arcaica, no interior do país) serve como metáfora dessa transformação. Os atores estão muito bem, e o filme tem fotografia bonita e adequada dos lugares. O longa passou em festivais internacionais como Festival de Málaga e Bafici, exibido no Festival do Rio e agora está nos cinemas, distribuído pela Kajá Filmes. Quem dirige é a cineasta Avelina Prat, também roteirista, que fez anteriormente “Vasil” (2022).
 

 
Não existe almoço grátis
 
Chega aos cinemas brasileiros, distribuído pela Descoloniza Filmes, o bom documentário independente que trata do trabalho de mulheres à frente do projeto “Cozinha Solidária”, criado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e instituído por lei em 2023 no Brasil. Ele surgiu na pandemia da Covid-19 como uma resposta direta à fome que atingiu milhões de brasileiros, fornecendo alimentação gratuita e de qualidade a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social. A iniciativa consistiu em montar cozinhas comunitárias em diferentes regiões do país, oferecendo refeições gratuitas e de qualidade para esse grupo de pessoas. Além das refeições, o projeto, que ainda existe e virou símbolo da solidariedade em tempos de crise, busca fortalecer laços comunitários para garantir dignidade, funcionando com voluntários e doações. Um dos lugares de atuação foi a favela Sol Nascente, em Ceilândia, no Distrito Federal – e é nesse espaço que o filme busca a composição das imagens. Os cinegrafistas acompanharam a rotina de três mulheres negras, voluntárias e organizadoras da Cozinha Solidária, Bizza, Jurailde e Socorro, durante semanas, para mostrar os bastidores e o trabalho delas. O recorte da história é a posse do presidente Lula, e elas estão encarregadas de cozinhar para centenas de militantes do movimento que chegarão a Brasília para assistir à cerimônia de posse do presidente, no dia 1º de janeiro de 2023. Conhecemos a trajetória e os sonhos dessas três lideranças, além de questões essenciais para elas, como a luta política, o trabalho voluntário de igual para igual, a religião, a ancestralidade e a família. Sol Nascente é considerada a maior favela do Brasil em número de habitantes (70 mil ao todo), localizada a menos de 30 quilômetros da capital; durante a pandemia, verificou-se ali graves condições de saúde, fome, desemprego e falta de acesso a serviços básicos. Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o filme esteve na programação de festivais como ForumdocBH, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (onde foi consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e recebeu a Menção Honrosa do Júri Oficial), a Mostra Ecofalante (onde venceu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular), o Olhar de Cinema e o Festival de Cinema de Vitória.



Viva Marília
 
Fantástico documentário e uma das melhores estreias do cinema independente brasileiro desse ano, o filme é um merecido e honroso tributo à memória da atriz que foi a cara de uma geração e até hoje inspiradora para a classe artística, Marília Pêra (1943-2015). Atriz versátil (para o humor e o drama, seja nos palcos ou na TV), também diretora de peças teatrais e admirada pelos fãs, Marília teve uma trajetória que atravessou cinco décadas. Carioca, filha de atores (Manuel Pêra e Dinorah Marzullo), esteve ligada ao palco desde a infância, estreando aos quatro anos em uma companhia teatral. Nos anos 1960 e 1970, consolidou-se como uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, destacando-se em peças como “O teu cabelo não nega” em que interpretou Carmen Miranda, e que ao longo da carreira voltaria a interpretar Carmen em teatro, TV e filmes. Além de atuar, dedicou-se à direção de espetáculos, especialmente musicais, como “Irma Vap” fazendo dessa peça um estrondo de bilheteria. Na TV, estreou em 1965 na novela “Rosinha do Sobrado” e logo se tornou presença marcante em produções da Rede Globo. Atuou em novelas como “O cafona”, “Brega & chique” e “Top model”, brilhou em minisséries como “O Primo Basílio”, onde deu vida à vilã Juliana, e no cinema participou de mais de 20 filmes, entre eles o impactante “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco, que lhe trouxe reconhecimento internacional e reafirmou sua força dramática. A vida pessoal de Marília foi marcada por vários casamentos, entre eles com Nelson Motta e, mais tarde, com Bruno Faria, com quem permaneceu até o fim da vida. Teve três filhos, conciliando maternidade com uma carreira intensa e premiada – e o doc explora essa sua condição, de atrelar a dura vida de mãe à ebulição de ensaios e gravações. O doc mostra a partir de gravações de peças, entrevistas e cenas de filmes e novelas a formação dessa atriz ímpar, que virou ícone da cultura brasileira, abriu caminhos para as atrizes no mundo das artes cênicas e deixou um legado de amor ao palco. O veterano diretor Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), de “Avaeté – Semente da vingança”, dirige a obra, que tem codireção de Esperança Motta, filha de Marilia com Nelson Motta – ela é a narradora também, e o roteiro é assinado pelo próprio Nelson. Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Resenhas especiais



Heróis de barro
 
Durante uma expedição ao México para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, em 1916, o major do Exército Thomas Thorn (Gary Cooper) é incumbido de resgatar cinco soldados para serem condecorados com a maior honraria do Congresso americano. Ele terá de trazer o grupo a salvo até a base militar de Cordura. No caminho haverá conflitos e ataques na divisa dos dois países.
 
“Heróis de barro” é um dos tantos filmes adaptados da literatura do romancista Glendon Swarthout (que dedicou a carreira a livros de faroeste). Insere-se na linha do “western psicológico”, que foca na mente dos personagens deixando os tradicionais tiroteios em segundo plano - essas obras exploram a solidão e os medos dos pistoleiros e soldados em cenários áridos e arriscados. O pano de fundo do longa é a Expedição Punitiva (ou “Expedição Pancho Villa”), operação militar do Exército dos Estados Unidos no México entre 1916 e 1917 que levou para lá 10 mil soldados para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, que tinha iniciado ao lado de Emiliano Zapata a Revolução Mexicana. O major vai com um pequeno grupo de pessoas a um lugar desconhecido, de terreno irregular, sob o sol escaldante. Entra em crise ao se ver cercado num ambiente hostil, e a missão começa a desmoronar. O filme prioriza o lado psicológico, mas tem cenas de bangue-bangue, duelos e pitadas de romance (a figura feminina é de Rita Hayworth, femme fatale do cinema, de filmes noir como “Gilda”). Gary Cooper, lenda do gênero western (de “Matar ou morrer”), entrega uma atuação madura, marcada pela introspecção, num de seus últimos trabalhos (seria seu penúltimo filme, já que morreria dois anos depois, em 1961). O filme questiona mitos do Oeste americano, mostrando que a glória militar pode ser tão frágil quanto a areia que cobre o deserto (por isso os heróis de barro). Quem dirige é Robert Rossen, cineasta e roteirista que durante o Macarthismo (o "caça às bruxas" anticomunista nos EUA) foi incluído na lista negra, impedido de trabalhar e convocado a depor no comitê do Congresso – depois de recusar a devassa contra colegas, cedeu à pressão em 1953 e entregou o nome de 57 pessoas. Acabou tendo dificuldades de voltar ao cinema, sendo “Heróis de barro” um dos poucos que ele fez depois do interrogatório – um de seus últimos trabalhos seria o mais famoso e simbólico a tudo o que enfrentou no “caça às bruxas”, “Desafio à corrupção” (1961), indicado a nove Oscars (incluindo ator para Paul Newman) e ganhador de dois. Em DVD pela Classicline.
 
Heróis de barro (They came to Cordura). EUA, 1959, 123 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Robert Rossen. Distribuição: Classicline
 
 
Sangue por sangue
 
Entre 1835 e 1836, na Guerra pela independência do Texas, um homem deixa o Forte Álamo para ajudar outras pessoas no conflito separatista entre EUA e México.
 
Diretor de 12 filmes faroeste, sendo sete com Randolph Scott, Budd Boetticher realizou aqui um de seus notórios trabalhos. Glenn Ford, lenda do cinema western, protagoniza, travando uma luta cruel no Texas, como um homem em uma missão quase impossível. Ação, honra e vingança envolvem o filme em torno da lenda do Álamo, antiga missão espanhola transformada em forte militar, situada na cidade de San Antonio, no estado do Texas (o local ficou famoso por causa da Batalha do Álamo, ocorrida em 1836, que se tornou um símbolo de resistência e sacrifício na luta pela independência do Texas em relação ao México). Ford interpreta John Stroud, um homem que abandona o famoso cerco para proteger sua família, e por isso acaba marcado como traidor. Ao retornar para as terras, descobre que seus entes foram mortos, e sua jornada passa a ser de busca por justiça. O filme traz todos os elementos típicos do faroeste: vastas paisagens texanas, emboscadas, cavalgadas e o embate entre colonos e forças mexicanas. E ainda trata de um fato real: na Revolução do Texas, os colonos americanos e tejanos (mexicanos que apoiavam o Texas) se rebelaram contra o governo centralizador de Santa Anna, pois queriam formar um governo próprio, sendo duramente reprimidos pelo general mexicano Antonio López de Santa Anna. “Sangue por sangue” é um faroeste de excelência, cheio de vigor e com personagens cercados por dilemas morais (que marcariam os filmes do diretor Budd Boetticher). Em DVD pela Classicline.
 
Sangue por sangue (The man from the Alamo). EUA, 1953, 79 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Budd Boetticher. Distribuição: Classicline

* Textos publicados na coluna Middia Cinema, na revista Middia (de Catanduva-SP), edição de Agosto/Setembro de 2026

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