A
fúria
Do
movimento Cinema Novo, somente Ruy Guerra está vivo, e na ativa, aos 94 anos. As
produções cinematográficas do cineasta moçambicano radicado no Brasil atravessam
sete décadas: do primeiro curta-metragem, “Quand le soleil dort” (1954), e o
primeiro longa, o “Os cafajestes” (1962), até chegar à “A fúria” (2024), filme
que encerra uma trilogia iniciada no auge do referido Cinema Novo. A “Trilogia
dos Fuzis” abria com o hipnotizante “Os fuzis” (1964), cruzava com “A queda”
(1978) – ambos premiados no Festival de Berlim, e encerra com “A fúria”, que
acaba de estrear nos cinemas, após vencer dois prêmios na edição passada do
Festival de Brasília. Seu novo longa é uma obra simbólica que reúne ilustres personagens
dos dois trabalhos anteriores - enquanto em “Os fuzis” (um de meus filmes
brasileiros preferidos) expunham-se a fome e a repressão no sertão e em “A queda”
discutiam-se dilemas morais e corrupção no ambiente urbano e empresarial com as
mesmas figuras (vividas por Nelson Xavier, Hugo Carvana e Paulo César Peréio),
“A fúria” traz uma ampla discussão sobre o mundo político no Brasil da última
década, focando na ganância e a degradação institucional. Personagem central
nos anteriores, Mário, um ex-operário da construção civil (antes papel de
Nelson Xavier, mas neste aqui interpretado por Ricardo Blat) enfrenta os
espectros da ditadura e da corrupção política no país. Ele volta do mundo dos
mortos (ele foi assassinado na ditadura) para assombrar o sogro e empreiteiro
Salatiel (Lima Duarte), um empresário inescrupuloso, e Feijó (Daniel Filho), um
político disposto a tudo para calar as pessoas. Diferente dos dois primeiros
filmes, que privilegiavam o realismo e locações abertas, este novo capítulo foi
rodado em estúdio, com cenários sombrios e estilizados, que o aproximam à
linguagem do teatro, reforçando a atmosfera alegórica. O clima é de devaneios e
loucura, com enquadramentos fortes no rosto dos atores, uma pegada meio
expressionista. A narrativa é direta, dividindo personagens entre justos e
corruptos, num longo embate em plena época de crise moral e institucional (com
direito até a um Bolsonaro no desfecho). O elenco entrega o melhor de si: Blat,
Duarte e Filho, além de Grace Passô, Simone Spoladore e participações rápidas
de Paulo César Pereio, Maria Gladys, Antonio Pitanga e Urutau Guajajara. Misturando
drama e thriller político, o filme é uma fábula quase dantesca sobre memória,
justiça e as feridas abertas da Ditadura, contando com as experimentações
estéticas que Ruy Guerra sempre se apropriou muito bem. Ele dirige a direção com
Luciana Mazzotti, sua ex-mulher e roteirista também. Está pela segunda semana
em exibição nos cinemas pela Pandora Filmes – antes de ver, recomendo conhecer
os anteriores (em “A fúria” há cenas dos filmes “Os fuzis” e “A queda”, que
retornam como lembranças dos personagens e serve para o público ter base para o
desdobramento daqueles anos todos).
Michael
“Michael”
é o filme do ano que vem arrastando muita gente ao cinema e, como não poderia
ser diferente em biografias de ícones pop, dividindo a opinião do público e da
crítica. Dirigido com vigor e emoção entusiástica por Antoine Fuqua (diretor de
obras policiais, parte delas com Denzel Washington, como “Dia de treinamento” e
“O protetor), é uma cinebiografia grandiosa do cantor e compositor Michael
Jackson (1958-2009), que contagiou o mundo com suas canções vibrantes, porém
esteve envolvido em uma série de polêmicas, como acusações de abuso sexual
infantil e mudanças drásticas na aparência de clareamento de pele. Na altura do
campeonato, fala-se muito na retirada dessas polêmicas do roteiro. Vamos
analisar: Hollywood é careta na hora de retratar fielmente uma personalidade
pública, ainda mais um nome de relevância e querido por uma legião de fãs como
Michael, portanto deu espaço para fazer um filme mais positivo sobre ele; segundo
ponto, o filme é assinado pelos irmãos de Jackson como produtores, e como os
casos de pedofilia caíram por terra em 2005, após Michael ser absolvido de
todas as acusações, resolveram não mexer no vespeiro. Por enquanto, pois, como
já é sabido, haverá uma parte 2 em breve (que está em produção). Discutiremos o
que está na tela e não aquilo que poderia ter sido: “Michael” é uma
cinebiografia contagiante, um filmão publicitário que faz o público se
emocionar, cantar e dançar junto. Filme feito para fã, com longas cenas reinventadas
de shows dele, misturando espetáculo musical e drama familiar. O longa acompanha
a jornada de descoberta de Michael no universo musical. A primeira parte (os 25
minutos iniciais) focam na formação de “The Jackson 5”, a banda de Michael e
seus quatro irmãos, que surgiu dentro de casa com comando austero do pai, Joe
Jackson, que se tornaria o empresário de grande parte da trajetória de artista
depois. Na segunda parte, o filme traz Michael procurando carreira solo, ainda
se dividindo no Jackson 5 (que viraria “The Jacksons”), até 1979, quando lançou
um disco que surpreendeu, vendendo milhões de cópia, “Off rhe wall” (1979),
produzido por Quincy Jones. O disco trazia faixas que ficaram no topo da parada
das rádios, como "Don't stop 'til you get enough" e "Rock with
you". A terceira parte do longa é a tentativa incessante de Michael sair
das garras do pai patrão, um homem austero, difícil, violento, que batia nele quando
criança. Enquanto Michael tenta atravessar a rua nessa nova fase da carreira, a
sombra do pai o persegue. É quando ele lança o épico disco “Thriller” (1982), o
que fez o cantor explodir e se tornar um dos 10 músicos pop mais influentes dos
anos 80 – a partir daí a crise familiar aumenta, tentando lidar com o pai
furioso, que não aceitava o sucesso do filho mais novo longe dos irmãos na
banda que ele criou em Gary. Michael tinha apoio secreto da mãe, enquanto os
irmãos seguiram aos poucos outras carreiras fora da música. O filme se divide
bem entre o palco e os ensaios nas gravadoras com as questões familiares de
Michael e seu dia a dia: mostra ele adotando animais que depois manteria no
rancho apelidado de Neverland, como o chimpanzé Bubbles, lhamas e girafa (foram
mais de 130 animais diferentes), a fixação por Peter Pan (por isso o nome do
rancho) e a descoberta do vitiligo. Sem dúvida a interpretação de Jaafar
Jackson, sobrinho do astro, de 29 anos, é o ponto máximo do filme – o rapaz ficou
a cara do tio e em muitos momentos até melhor que Michael no palco (sem ofensa
a Michael, que admirava como músico). Jaafar (que é filho de Jermaine) afinou a
voz, emagreceu, ficou com silhueta idêntica ao do tio, e seu rosto surpreende
pelas semelhanças. É a estreia do rapaz no cinema, após uma breve carreira como
cantor e dançarino, e com certeza será indicado a Oscar e outros prêmios em
2027. Colman Domingo faz muito bem o papel do pai, num trabalho difícil, um
homem violento que bate no filho e o fulmina com seu olhar arregalado (o personagem
usa anéis e correntes, de sobrancelha pintada, lentes claras, mas esse over era
o estilo do verdadeiro Joe Jackson). E Nia Long interpreta a mãe conciliadora, Katherine
Jackson, num bom papel também – Katherine está viva, com 96 anos. Outros atores
valem destaque, como Juliano Valdi (o Michael do período Jackson 5), Mike Myers
como o empresário musical Walter Yetnikoff, dono da CBS Records, KeiLyn Durrel
Jones como o chefe de segurança e motorista de Michael Bill Bray, que trabalhou
com ele por mais de 25 anos e foi seu fiel escudeiro, chamado por Michael de
“pai”, e Milles Teller como o advogado de muitos artistas famosos da época John
Branca. O filme faz enorme carreira nos Estados Unidos e Brasil; em seu
primeiro fim de semana arrecadou mais de US$ 217 milhões, tornando-se a maior
estreia de uma cinebiografia na História do cinema, e acumula, nessa terceira
semana nas salas de mais de 80 países, U$ 440 milhões em bilheteria (superando
o orçamento. de U$ 155 mi). Os ótimos figurinos próximos do real fazem o
recorte da época, há momentos de puro encanto e musicalidade (como as gravações
do clipe de “Thriller” com os zumbis), ou seja, é um filme de entretenimento
classe A para homenagear a carreira de um astro inigualável, mesmo que as
polêmicas fiquem de fora (acordos judiciais e a supervisão do espólio de
Jackson limitaram também a profundidade da adaptação de sua vida para o cinema,
que se concentra em celebrar o mito em vez de confrontar suas contradições - inclusive
a irmã Janet Jackson não aceitou participar por desacordos no roteiro e
desavenças familiares, segundo contou à imprensa a outra irmã de Michael, La
Toya Jackson). Vamos aguardar a parte 2 para saber que tipo de história e
informações serão lá colocadas – a Lionsgate informou essa semana que a continuação
terá Antoine Fuqua na direção, e que ele já gravou as primeiras cenas, cuja trama
segue a partir de 1988, após o lançamento do disco “Bad”, de 1987, e da última
turnê de Michael com os irmãos; o roteiro continuará de John Logan (indicado a
três Oscars) e a produção de Graham King, vencedor do Oscar por “Bohemian rhapsody”. Nos cinemas pela Universal Pictures.