terça-feira, 27 de outubro de 2026

Nota de cinema

 
Cine Debate exibe nova versão de ‘Nosferatu’, filme de terror gótico
 
O Cine Debate de outubro, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, promove no próximo sábado, dia 31/10, mais uma sessão de filme aberto ao público. A partir das 14 horas, será exibida a nova versão de “Nosferatu” (2024), terror gótico inspirado no clássico livro “Drácula”, de Bram Stoker. Com direção do visionário cineasta Robert Eggers, o filme, de classificação 16 anos, concorreu a quatro Oscars, como melhor fotografia e figurino, e foi exibido em mais de 50 festivais de cinema ao redor do mundo. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, no Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida.


 
Sinopse: Na Alemanha do século XIX, Thomas Hutter (Nicholas Hoult), um corretor de imóveis, é enviado a negócios para as isoladas montanhas da Transilvânia. O seu objetivo é fechar a venda de uma nova propriedade com o rico e misterioso Conde Orlok (Bill Skarsgård). Ao chegar ao castelo daquele homem, Hutter descobre que o nobre é, na verdade, o mal encarnado: um vampiro milenar. Orlok planeja se mudar para a cidade alemã trazendo consigo uma peste avassaladora.
 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completou 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. As próximas sessões são:
 
28/11 – 14h – “A cor púrpura” (2023)
05/12 – 14h – “Sete oportunidades” (1925)
 
Conheça mais sobre o projeto em
https://www.facebook.com/cinedebateimes

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2


Meu verão na Sicília
 
Exibido na edição passada do Festival de Cinema Italiano no Brasil (2025), chega agora aos cinemas, com distribuição da Pandora, um dos filmes de arte mais bonitos da temporada, cuja história é singela e de grande beleza plástica. Um filme sobre infância e suas descobertas. Um garotinho rebelde de 11 anos, Nico (Marco Fiore), vai passar a temporada de verão com uma tia idosa e muito religiosa, Gela (Aurora Quattrocchi), num casarão rústico no coração da Sicília. Conflitos geracionais e choque de cultura entre a criança e a velha, num lugar desconhecido com pessoas estranhas, transformarão aquele menino, que aos poucos cede e cria forte vínculo com a senhora. É uma história de amadurecimento, de um menino que vivia escondido no quarto com o celular na mão até florescer, chegando a participar de rodas de conversa da tarde com as amigas idosas da tia (além de descobrir um possível segredo da família que ficaram há anos guardados). Outro mundo se abrirá para o protagonista infantil quando passa a se relacionar com gente da mesma idade, crianças que moram nos sobrados vizinhos. O agradável filme traz paisagens paradisíacas da Sicília, com suas praias reluzentes; design de produção caprichado dos casarões rústicas de lá e o bom desempenho em cena da tia e do garoto que criam vínculos também são elementos construídos cautelosamente para que o longa seja fluido, emocionante. Trata bastante do conflito geracional, uma criança Alfa, um nativo digital, em um lugar onde existe telefone discado, sem conexão com internet, tendo o menino de encontrar meios para se comunicar e se entreter (daí a relação com as crianças que ainda brincam de correr e jogos de rua). Paira no ar nostalgia, do reencontro com um velho mundo que ficou para trás. Vencedor de dois prêmios no Festival de Locarno de 2025, dentre eles o de melhor atriz para a octogenária Aurora Quattrocchi (nascida e criada na região em que se passa o filme, Palermo, Sicília), é o primeiro longa da roteirista e diretora Margherita Spampinato, que estreia bem nessa obra delicada, para toda a família.
 

 
Sacrifício
 
Segue pela segunda semana nos principais cinemas brasileiros com distribuição da Diamond Films o excêntrico filme de múltiplos gêneros “Sacrifício”, que adianto, adorei demais - e estreará em breve na Netflix dos EUA e pode ser que venha para o streaming Netflix Brasil. Em todo caso, se puder, veja na telona, pois o impacto é sensorial. Esqueçam as notas baixas do filme no IMDB, Rotten Tomatoes e Letterboxd (se alguém se instrui por esses sites-termômetro), o filme é um barato, divertido, e ao mesmo tempo assustador pelas críticas sociais à grã-finagem que dedica algumas horas por ano para as causas beneméritas. A começar do diretor, Romain Gavras, filho do excepcional cineasta grego de thrillers políticos e de contestação Costa-Gavras (de “Z” e “Estado de sítio”), um de meus cineastas favoritos: ele aprendeu cinema com o pai (está longe de ser igual), mas consegue adensar discussões sobre racismo e tomada das ruas para manifestações políticas, como fez nos dois ótimos filmes anteriores, “Nosso dia chegará” (2010) e “Athena” (2022 – esse da Netflix). Dessa vez reuniu um elenco de peso, premiados com Emmy e indicados a Oscar: voltou a trabalhar com o bom Vincent Cassel, trouxe junto Chris Evans, Anya Taylor-Joy, Sam Richardson, Salma Hayek e John Malkovich, além de participações especiais do rapper Yung Lean e da cantora agora atriz Charli XCX. O filme já começa colocando os personagens num ambiente exótico: no meio de uma pedreira isolada na Grécia, um grupo de ricões prepara um banquete dos deuses para um megaevento beneficente. É um espetáculo televisionado com dançarinos, comidas pomposas, gente elegante, dentre eles Mike Tyler, um ator galanteador (Chris Evans). Do lado de fora, um grupo de ambientalistas revolucionário, liderado por Joan (Anya Taylor-Joy), com armas em punho, invade o lugar, rende as pessoas e faz exigências. Eles acreditam que um vulcão a poucos quilômetros entrará em erupção, e devido à magnitude, colocará fim não só a eles, mas como ao planeta todo. O medo toma conta dos convidados, pessoas são agredidas (uma mulher tem a mão decepada) até que outra dose de absurdo é injetada: parte dos convidados terá de participar de um ritual de sacrifício para impedir a fúria do vulcão. O filme é uma jornada caótica, envolvendo uma espécie de culto pagão com terrorismo, que faz uma sátira inteligente da alta sociedade hipócrita, com seus discursos vazios e excessos. Misturando ação com drama, comédia e suspense, foi escrito por Gavras ao lado de outro bom roteirista que ficou conhecido pelos fãs de séries, Will Arbery (da premiada “Succession”). A estética do filme foi devidamente planejada, com cenários abertos e grandiosos, fotografia estupenda, cenas em slow motion alternadas com imagens de muito movimento. É cinema engajado, contestatório, de discussão afiada, com um tipo de humor que poderá desagradar alguns/algumas. Chris Evans está num grande momento, solto como uma pluma, muito engraçado (fazendo um papel também de crítica ao ego das estrelas do cinema), e todo elenco de apoio manda bala com seus exageros propositais. Curti o filme e entrei nele de cabeça.
 

 
Zona Zero
 
Depois do estrondoso filme de terror “Invasão zumbi” (2016), o diretor sul-coreano Yeon Sang-ho volta com adrenalina máxima em mais uma fita do gênero, “Zona Zero” (2026). Entre “Invasão” e “Zona”, ele fez filmes medianos e ruins, incluindo a péssima continuação “Invasão zumbi 2: Península” (2020) – mas agora esqueçam esse hiato e assistam ao novo trabalho dele, uma fita empolgante, assustadora, ao mesmo tempo escatológica. Exibido na seção Midnight do Festival de Cannes e aqui no Brasil no início do mês tanto no 4º Korean Film Festival (KOFF) quanto no Festival do Rio, o longa tem traços de “O despertar dos mortos”, cult movie de zumbi de George A. Romero dos anos 70, inclusive a ambientação. Em Seul, capital do país, no térreo de um arranha-céu que abriga um laboratório de biotecnologia, um grupo de pessoas sobrevive a uma estranha infestação que transforma humanos em zumbis agressivos. A proliferação do vírus mutante saiu do laboratório durante uma conferência de cientistas. Um grupo de pessoas não se contamina e se une, abrigando-se nas lojas de um shopping que fica no térreo. Eles descobrem que os zumbis, que soltam nas paredes uma gosma branca formando uma teia de aranha, desenvolvem uma forma de inteligência coletiva para rastrear os passos dos vivos e viram uma colônia (por isso o título em inglês é “Colony”). O grupo de sobreviventes precisa rapidamente arquitetar planos para fugir, na medida em que os mortos vão aprendendo a como controlar o espaço onde se proliferam. É da linhagem de horror corporal com ação e muita adrenalina, com cenas nojentas de meleca branca, vômitos, sangue e gritaria. Pulei de susto em várias cenas apreensivas, nesse filme claustrofóbico inteiramente transcorrido no prédio (desde lojas ao estacionamento). Segue nos cinemas pela Paris Filmes.
 

 
O outro lado das redes
 
Logo após o lançamento mundial em Londres, em setembro, o filme continuação de “A rede social” (2010) teve première no Brasil durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de SP – e agora acaba de estrear nas salas, com distribuição da Sony Pictures. Dividiu o público e a crítica especializada (eu o assisti na sessão de coletiva de imprensa da Mostra, em 03/10), não está bem de bilheteria, porém nada disso impede meu comentário de colocá-lo na lista dos bons filmes de 2026. Não é segredo de que não sou fã de “A rede social”, que tratava do surgimento do Facebook pela mente de um jovem egóico, um intransigente estudante de Harvard chamado Mark Zuckerberg, hoje um dos homens mais ricos do mundo (e que está por trás da Meta e dos abusos infinitos que ela comete, inclusive influenciando negativamente a política). E é justamente esse o tema desse segundo filme, para mim muito melhor que o anterior (seja o elenco ou a trama espinhosa). A partir de fatos reais, aborda os bastidores de uma ampla investigação jornalística sobre o funcionamento oculto do Facebook (no caso a manipulação dos algoritmos). O filme, com uma mistura certeira de drama e humor, trata do vazamento do chamado “Facebook Files”: a engenheira de dados do Facebook, cientista e gestora de produto norte-americana Frances Haugen (interpretada por Mikey Madison), em 2021, juntou provas para servir como denunciante (whistleblower) do Facebook; ela entregou milhares de documentos internos confidenciais ao jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), repórter do The Wall Street Journal e à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) que depois provaram a existência de uma máquina do caos por trás da rede (que se vendia como uma rede social saudável, para troca de mensagens e contatos). A diretoria do Facebook sabia dos efeitos nocivos de suas plataformas, como manipulação de dados, o impacto negativo na saúde mental de adolescentes, o aumento da polarização política e a priorização do lucro em detrimento da segurança. Haugen entrou numa seara perigosa contra parte do sistema e afrontando autoridades poderosas. O filme acompanha a jornada solitária dessa mulher que teve apoio de um jornalista para jogar luz ao caso, que chacoalhou os EUA naquele ano em plena pandemia. Ela inclusive foi ao Senado e pressionou Zuckerberg a rever as condições da empresa. É um filme de denúncia feito com seriedade, com grandes interpretações - Mikey Madison, apesar de não se assemelhar em nada com a verdadeira Frances, dá um show, enquanto Jeremy Strong se desafia num papel frívolo de um Zuckerberg mais maduro (e ambos podem ser candidatos a Oscar ano que vem). O longa já abre com uma cena chocante, do uso descontrolado das redes (uma mulher rica, alcoolizada, desfere por longos minutos xingamentos racistas a policiais, gravando tudo e postando nas redes). Um filme para compreender o perigo que as redes provocam na sociedade, desde provocar o vício em telas e espalhar fake News até influenciar abertamente eleições (como a de Trump e a dos Bolsonaros). Por isso, exige-se imediata regulação delas.

sábado, 24 de outubro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Anatomia do caos
 
Com as eleições chegando, e o risco democrático que o Brasil corre, a distribuidora Descoloniza Filmes disponibilizou gratuitamente o documentário “Anatomia do caos” (2026) em suas redes, no Youtube, e na de parceiros até o dia 26/10, como o Instituto Conhecimento Liberta, Rede TVT e o canal do psicanalista Christian Dunker. O doc, que foi exibido nos principais cinemas no primeiro semestre desse ano, é um retrato assustador do governo de Jair Bolsonaro no enfrentamento da crise do coronavírus, entre 2020 e 2022. O longa vira um imenso mosaico com centenas de falas do ex-presidente, que viralizava discursos contra a vacina, contra a pandemia da covid, soltando fake News todo dia e fazendo chacota com a doença e os doentes. A diretora Dandara Ferreira teve acesso a imagens dos bastidores da CPI da Covid (aberta no Senado Federal para analisar e tratar do caso dentro da política) e traz os desdobramentos da investigação em torno do governo Bolsonaro e de outros atores políticos que conduziram erroneamente a crise sanitária do coronavírus, que resultou na morte de mais de 700 mil brasileiros. É um filme indigesto por natureza, por expor na tela figuras hipócritas e ensandecidas destilando desinformação no período mais cruel da História recente do país. O filme é também uma forma de analisar os mecanismos da estrutura de poder no governo passado, com toda a truculência contra jornalistas e o pânico social gerado com falas mentirosas e outras criminosas. Um filme para ver, estudar e nos alertar da tragédia de um passado super recente nas páginas da política brasileira. Link direto para os interessados em ver o filme - https://www.youtube.com/watch?v=8Gg9bZLbi18&t=11s
 

 
Naza
 
Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Vitrine Filmes o novo e contundente documentário dirigido pela dupla israelense Yuval Abraham e Rachel Szor, ganhadores do Oscar pelo filme “Sem chão” (“No other land”), em 2025. O jornalista Yuval Abraham e a ativista Rachel Szor se reúnem novamente para tratar da guerra sem precedentes e a consequente crise instalada na Faixa de Gaza pelas tropas israelenses. Em “Sem chão” (que ao lado deles tinha outro codiretor, Hamdan Ballal, sequestrado, preso e quase morto pelos militares israelenses devido à repercussão do filme anterior), a história se passava na zona de tiro de Masafer Yatta, região no sul da Cisjordânia (próxima a Hebron), composta por cerca de 20 aldeias palestinas que foram massacradas, o que forçou a população a fugir de lá. Agora, em “Naza” (2026), os diretores investigam os mecanismos de extermínio em massa na Faixa de Gaza, por Israel, a partir do ponto de vista de 24 soldados, militares e agentes de Inteligência do Exército que atuam em operações especiais na guerra iniciada em outubro de 2023. São depoimentos crus, reveladores, de deixar qualquer um estarrecido, com nó na garganta; sentados no terraço de um velho prédio em Tel Aviv, eles contam (parte deles com muita tranquilidade) como eram as missões que chegavam até eles: de matar qualquer um em movimento, com uso de equipamentos e armas de precisão, atirando bombas em bairros inteiros para eliminar integrantes do Hamas, a organização terrorista da Palestina. Em um dos depoimentos, um oficial relembra a suspeita de um integrante do Hamas num prédio, então ordenou o lançamento de um míssil; quase uma centena de inocentes morreu, e não localizaram o terrorista. Aí está o significado da palavra “Naza”, um acrônimo militar em hebraico utilizado pelos serviços de Inteligência de Israel para se referir a "danos colaterais", ou seja, a estimativa de quantos inocentes podem morrer em um ataque, mesmo que for para a captura de um membro do Hamas. Portanto, o filme evidencia o que a mídia estampa nos jornais pelo mundo afora: em Gaza ocorre um genocídio escancarado, orquestrado, aos olhos do mundo. Dados oficiais apontam mais de 74 mil mortos (incluindo 1.500 mortes registradas após o início do cessar-fogo) e 174 mil feridos em Gaza desde 2023, o que muitos acham subestimado. Crianças, bebês e mulheres são as principais vítimas, e há milhares de desaparecidos nos escombros – Gaza foi praticamente ao chão após inúmeros bombardeios nesses três anos de uma guerra insana autorizada pelo primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e com apoio dos Estados Unidos. O filme reúne esses depoimentos inéditos, de homens enfurnados numa guerra voraz, questionados pelos diretores em torno da ética militar. A première do filme ocorreu em setembro passado, no Festival de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro, e ganhou lá cinco prêmios, incluindo o Prêmio Especial do Júri. Também foi exibido nos festivais San Sebastián, Nova York, Zurique e Bolonha, e é forte candidato ao Oscar de melhor documentário de 2027. Um dos melhores documentários do ano. Assistam.

Dica especial de cinema


Nesses dias finais do período eleitoral, em tempos conturbados em que discursos fascistas voltam a circular na boca de candidatos ao pleito presidencial no Brasil, a distribuidora CPC-Umes Filmes (do Centro Popular de Cultura da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo, especializada em cinema russo e soviético) liberou hoje em seu canal do Youtube o clássico documentário "O fascismo de todos os dias" (1965), de Mikhail Romm, obra fundamental para compreender o que foi o fascismo na Europa e no mundo. O longa está disponível em sua versão integral (135 minutos), em cópia restaurada, gratuitamente. E ficará online até o dia 26/10 - só acessar https://www.youtube.com/watch?v=NxOV6_An3BE
Abaixo, confira resenha que escrevi sobre o filme quando de seu lançamento em DVD, em 2017. Republico a seguir o texto:


O fascismo de todos os dias

Ascensão e queda do Nazi-Fascismo contada com criatividade neste importante documentário soviético. Produzido pela Mosfilm, este documentário histórico de 1965 faz uma revisão cautelosa e dramática do surgimento do Nazismo e do Fascismo no mundo, com imagens impressionantes de Benito Mussolini e Adolf Hitler flagrados em caretas e discursos cabulosos, intercaladas com registros de hoje (no caso, o hoje era 1965), de como as pessoas encaravam o cotidiano após a guerra. Todo o material utilizado veio do Ministério de Propaganda do III Reich, outros da coleção particular de Hitler e muitos capturados de soldados alemães da SS, para remontar temas tétricos cruciais da Segunda Guerra Mundial, como o genocídio dos judeus, o ideal do Arianismo e a alienação das massas pelo regime totalitário. Perceba que a narração ácida e extasiante, feita pelo próprio diretor, Mikhail Romm, em seu penúltimo trabalho no cinema, é pontuada com comentários cínicos, ora com comicidade ora com duplos sentidos, numa construção cabalmente inusitada, daí a alta criatividade desse filme soviético.
Dividido em duas partes com uma gama incontável de capítulos entre eles, o doc mantém-se atual e deflagra reflexões constantes do dia a dia, sobre abuso de autoridade, preconceito, idolatrias em excesso, individualismo, censura e poder sem mensuração. Uma obra inigualável, para ser assistida com urgência, revista e discutida.

O fascismo de todos os dias (Obyknovennyy fashizm). URSS, 1965, 130 min. Documentário. PB. Dirigido por Mikhail Romm. Distribuição: CPC-Umes Filmes

* Publicado na coluna Middia Cinema, na revista Middia, edição de outubro/novembro de 2017.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Especial de Cinema

 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao público:


 
O homem mais solitário da cidade
(Áustria – 2026, de Tizza Covi e Rainer Frimmel)
 
Destaque no Festival de Berlim desse ano, o filme de arte austríaco compõe a programação da Perspectiva Internacional da Mostra de SP, com sessões ainda nos dias 23 e 25/10. É documentário com elementos de ficção, ambientado na Viena atual, e que retrata o dia a dia do lendário guitarrista, pianista, cantor e compositor austríaco Al Cook, conhecido como o "Rei Branco do Blues Negro". Influenciado por Elvis Presley, o artista de voz grave é recluso, quase não dá entrevistas, e sua música ficou notória por juntar o blues rural tradicional do Mississippi ao boogie e rhythm and blues. No filme, ele conta uma versão de si, do passado e do presente, recorrendo a memórias da juventude, de perdas e do trabalho no mundo da música. Ele está deixando o apartamento onde mora, que será demolido, e nessa despedida fica diante das câmeras, cara a cara com a dupla de entrevistadores (a dupla de cineastas premiados por “Vera”, Tizza Covi e Rainer Frimmel), falando de histórias melancólicas e outras bem humoradas. As imagens (bem montadas no filme) retratam ainda sua dedicação aos ensaios de piano, bem como os afazeres banais do cotidiano, demonstrando um homem solitário, que escreve músicas a mão, assiste à TV, vai ao bar bebericar sozinho ouvindo velhas canções no jukebox etc. Além de Berlim, foi exibido nos festivais de Nova York e Vancouver.


 
Emergency exit
(Espanha – 2025, de Lluís Miñarro)
 
Novo trabalho que a Mostra traz do veterano cineasta espanhol Lluís Miñarro, de “Estrela cadente” (2014) e “Love me not” (2019 – que eu assisti na Mostra). Em um ônibus com destino ao além (isto mesmo, para a morte), um grupo de pessoas excêntricas segue a viagem pela noite afora. Ali estão duas amigas idosas com roupas extravagantes, bregas, que falam banalidades (como viagens e joias), um padre com desejos pecaminosos com homens mais novos, uma atriz pomposa que relembra a carreira, uma antropóloga cansada, uma mãe com a filha pequena levando flores ao cemitério. Eles viajam sem parada, até que Eros, o deus do amor, surge na forma de um garotão seminu, atiçando a vontade de muitos daquele ônibus. Comédia inusitada, do cinema absurdo, curtinho, que arranca algumas risadas, mas sempre em tom melancólico. Último trabalho da atriz frequente de Pedro Almodóvar Marisa Paredes (que faleceu na finalização do filme, em 2024), e participação da diretora japonês Nami Kawase. Está na programação da Perspectiva Internacional da 50ª Mostra de SP, com sessões ainda nos dias 25, 26 e 28/10.


 
Lorca: A voz partida
(Espanha/Argentina – 2026, de Manuel Menchón)
 
Excelente documentário de linguagem original, que mistura desenho com fotos, vídeos e paisagens, sobre Federico García Lorca (1898–1936), um dos mais importantes poetas e dramaturgos espanhóis, membro de destaque da chamada Geração de 27 e que foi brutalmente assassinado por causa de seus posicionamentos, como a defesa de ideias progressistas e da homossexualidade (considerada uma afronta pela direita ultraconservadora). Lorca tornou-se alvo prioritário logo no início da Guerra Civil Espanhola, preso várias vezes, considerado um agitador, que mobilizava a classe artística e parte da sociedade civil. Defensor dos marginalizados, autor de peças contestatórias e polêmicas (como “Bodas de sangue” e “Yerma”), foi detido e sumariamente fuzilado por milícias fascistas ligadas ao general Francisco Franco. Tinha uma genialidade artística única, revitalizando o teatro e a poesia moderna ao fundir o vanguardismo (como o surrealismo) com a rica cultura popular da região da Espanha onde nasceu e viveu, a Andaluzia. O filme parte de um arquivo secreto guardado por um dos últimos amantes de Lorca, o jornalista e escritor Juan Ramírez de Lucas – pouco antes de falecer, em 2010, Lucas deixou que se revelassem cartas trocadas entre os dois e materiais inéditos sobre Lorca. O longa é um arquivo vivo de importante relevância, que revela um novo Lorca ao público. A narração do filme é do ator espanhol Álvaro Morte, que ficou conhecido pelo papel de O Professor na série da Netflix “La casa de papel”. Exibido no Festival de San Sebastián, é um dos grandes filmes da 50ª Mostra, em exibição na seção Perspectiva Internacional nos dias 26, 27, 28 e 29/10.

Especial de cinema

 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao público:


 
A morte não tem dono
(Venezuela/Canadá/Itália/Luxemburgo – 2026, de Jorge Thielen Armand)
 
Exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, a produção venezuelana é a representante do país para uma vaga ao Oscar 2027 de melhor filme estrangeiro. Drama sobre colonialismo e disputa de propriedade, traz no elenco a atriz italiana Asia Argento, filha do mestre do cinema de terror Dario Argento, em um papel voraz, cuja trama fica toda em seu entorno. Ela é uma mulher de cinquenta anos que viaja para a Venezuela para vender a plantação de cacau do falecido pai. Chegando à antiga mansão da família, no meio da mata, repara que no lugar estão morando funcionários da colheita; ela tenta negociar a saída deles, mas a conversa é em vão. Resolve fazer justiça, pegando em armas para expulsar o grupo, o que inicia um banho de sangue. A violência de uma mulher branca, rica e herdeira, contra um grupo de trabalhadores rurais simboliza no filme o colonialismo, a disputa de posse que termina em sangue, num filme dramático autoral de ar sombrio (e com momentos que lembram o próprio terror psicológico). Há muitas qualidades técnicas e estéticas, da fotografia estranha, levemente distorcida, ao uso pontual dos sons da natureza, aliado a momentos de silêncio da protagonista, que parece entrar em um pesadelo sem fim. Não é uma obra fácil, há uma série de elementos históricos que remetem aos resquícios do colonialismo europeu, e muitos diálogos de embate. Os filmes do cineasta Jorge Thielen Armand (que é diretor, produtor e roteirista) trabalham nessa linha de memória e colonialismo, como em “La soledad” e “La fortaleza”. Está na seção Perspectiva Internacional da Mostra, com sessões nos dias 22, 23, 24 e 28/10.
 


Ray Gunn
(EUA/Canadá/Espanha – 2026, de Brad Bird)

Animação fresquinha, que acaba de ser exibida em première mundial nesse mês no BFI Londres e agora estaciona na 50ª Mostra, na seção Perspectiva Internacional. O filme é um barato total, para entrar de cabeça, ainda mais quem é inserido no mundo do cinema clássico; isso porque a animação (mais para adultos do que crianças) é cheia de metalinguagem e referências à Sétima Arte, numa divertida mistura de cinema noir com ficção científica (como se fosse uma fita B dos anos 50). O engraçado é a constante tensão do visual dos anos 40, com detetives de terno-e-gravata, em salas com móveis rústicos, com paisagens futuristas, de carros voadores. Na cidade de Metropia, tomada por arranha-céus de 800 andares, carros possantes que voam como aviões e luzes neon por todo canto, o charmoso detetive particular Ray Gunn (voz de Sam Rockwell) se envolve numa conspiração de assassinato e espionagem envolvendo uma estrela de cinema arrogante, Vênus Nova (voz de Scarlett Johansson), alienígenas e mafiosos. Para que sua investigação chegue ao fim, contará com ajuda do parceiro de polícia, um velho alienígena verde de um olho só, Olhívio (voz de Tom Waits). Humor, ação, romance, suspense, tudo vira uma boa miscelânea nesta que é uma das melhores animações do ano, original do começo ao fim, e que deve ser candidata ao Oscar 2027. Também uma homenagem ao cinema noir, com detetive em crise, femme fatale e o submundo do crime. Brad Bird é o diretor e roteirista, brilhante mais uma vez (ex-Disney e Pixar, criador de sucessos como “Os incríveis” e “Ratatouille”). Longa que demorou 30 anos para ser concebido (segundo Brad Bird), é produzido pela Skydance com a Netflix, e deve estrear no streaming em 18/12. Conta com sessões na Mostra ainda nos dias 22, 24 e 25/10.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Especial de Cinema

 
Mostra de Cinema de SP continua em sua segunda semana
 
A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao público:


 
Trilogia “A Batalha do Chile”
(Cuba/Chile/França – 1975 a 1979, de Patricio Guzmán)
 
Está na seção Filmes Restaurados da 50ª Mostra a trilogia “A Batalha do Chile”, documentário político monumental de Patricio Guzmán (o cineasta chileno viria para a Mostra, mas faleceu há menos de um mês, aos 85 anos). Além da Trilogia, a Mostra exibe outro documentário dele, “O primeiro ano” (1972), sobre o mesmo assunto (os anos do governo Allende e a derrocada institucional com o brutal Golpe Militar). Os filmes todos estão em excelente cópia restaurada, com distribuição pela Mubi, que também acaba de inserir a Trilogia em seu catálogo, já disponível no streaming. “A Batalha do Chile” é um registro histórico do final do governo de Salvador Allende até o Golpe Militar e seus desdobramentos na sociedade em 1973. É composta pelos capítulos “A Insurreição da Burguesia” (1975), “O Golpe de Estado” (1976) e “O Poder Popular” (1979), três produções feitas entre Cuba, Chile e França. São documentários em preto-e-branco reunindo gravações de jornalistas e do próprio Guzmán, que lutou contra a ditadura chilena por meio de seu cinema de contestação – ele chegou a ser preso após a morte de Allende, em 1973, e depois partiu para o exílio, para a França e depois Cuba, onde editou a trilogia. Os filmes estão com imagens recuperadas com ampla nitidez, juntos são um cinema documental aterrador dos bastidores da política turbulenta do Chile entre os anos de 1972 e 1975, focando na polarização dos dois grupos rivais à época – a Unidade Popular (UP), de esquerda, contra os grupos de centro, formado pelo Partido Democrata Cristão (PDC), aliado à direita, o Partido Nacional (PN), e na queda do governo democrático pelos militares, liderados por Augusto Pinochet. Na parte 1, “A Insurreição da Burguesia” (1975), acompanhamos a forte oposição ao governo da Unidade Popular (UP), incluindo greves patronais, boicotes econômicos, a agitação da classe média e a articulação de setores conservadores com apoio financeiro externo (como dos Estados Unidos); na parte 2, “O Golpe Militar” (1976), o enfoque são os dias decisivos de setembro de 1973, registrando a derrocada institucional, a movimentação das forças armadas e o bombardeio ao palácio presidencial de La Moneda, que culminou com a morte de Allende, e a consequente tomada do poder pelos militares. E por fim, na parte 3, “O Poder Popular” (1979), como a sociedade civil reagiu aos anos da ditadura, como se organizou para sobreviver em meio a reformas neoliberais profundas, forte repressão política e a desigualdade (aqui vemos centenas de grupos de poder popular resistindo e ajudando na distribuição de comida para os mais necessitados). Os filmes, exibidos em festivais como Cannes e Nova York, serão exibidos em dias diferentes e alguns em sequência, entre 22 e 28/10 (confira no site da Mostra as datas, horários e locais). Vale conferir.



O dia em que ela volta
(Coreia do Sul – 2026, de Hong Sang-soo)
 
11º filme do cineasta sul-coreano Hong Sang-soo exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP (desde 2011) e o nono que eu assisto aqui. Na edição deste ano tem ainda outro dele na programação, também produzido em 2026, “Onde repousar meus olhos” (vencedor dos prêmios de melhor direção, melhor atuação - para Kim Min-hee, e do Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Locarno). “O dia em que ela volta” é mais um olhar da vida cotidiana na Coreia, e mais um filme do que está por trás do fazer cinema: são seis capítulos curtos em torno de um dia na vida de uma atriz renomada (Song Seon-mi) que retorna à carreira após afastamento (segundo ela, por motivos de maternidade e vício em bebida). Animada, ela se senta em um bar alemão para dar entrevistas sobre sua carreira - os três capítulos iniciais são da atriz em três entrevistas distintas. Ali ela trata do passado e do presente, e fala muito sobre particularidades suas. Os capítulos finais são do retorno dela para casa e do reencontro com a filha. Quem conhece Sang-soo verá ali seu cinema por completo: enquadramento fixo por longo tempo, fotografia em um lúcido preto-e-branco, longos planos com diálogos, poucos cortes e poucos cenários/tomadas. Tem ali suas metalinguagens e seus desafios estéticos, numa história leve, com bom humor. Exibido nos Festivais de Berlim e Moscou, o filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23, 26 e 27/10.


 
Aqui não é o seu lugar
(Romênia – 2026, de Florin Serban)
 
O cotidiano de um cirurgião viúvo, chefe do principal hospital de uma cidade romena, é abalado quando o filho adolescente aparece com um machucado na perna e logo em seguida a polícia o investiga por um crime bárbaro (o assassinato de um homem com um objeto contundente na cabeça). A única coisa que o espectador vê, de repente, é um corpo jogado após um ataque noturno de uma gangue de rapazes mascarados que vandalizam carros na rua. Essa é a premissa de uma história de ritmo vagaroso, que privilegia longas cenas de ambiente interno, paisagens urbanas e olhares dos personagens (com seus silêncios que também comunicam). Florin Serban, o diretor, produtor e roteirista, opta por ser um observador daquela relação de pai e filho diante de uma tragédia que demora a ser explicada. Ele utiliza cortes de cenas na mesa de cirurgia, da cidade em movimento, do jantar entre pai e filho, da conversa do cirurgião no hospital etc. Não é uma obra fácil (até pela duração, de 154 minutos), com aquelas figuras solitárias melancólicas, de pouca comunicação. Eu gostei, pois entrei no clima da trama e nesse tipo de cinema que a Mostra costuma trazer e treinar o olhar do público para narrativas diferenciadas. Vencedor do Leopardo de Ouro e de outros três prêmios no Festival de Locarno, o drama com momentos de suspense integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 20, 22 e 25/10.



Chicas tristes
(México/França/Espanha – 2026, de Fernanda Tovar)
 
Gostei mais da composição e da técnica do filme do que a própria história (sobre amadurecimento de adolescentes, tantas vezes já exploradas no cinema). Vencedor do Urso de Cristal de melhor filme na seção Generation 14plus do Festival de Berlim deste ano, “Chicas tristes” traz duas amigas de 16 anos, Paula e La Maestra, que nutrem uma amizade inseparável. Elas praticam natação e são as melhores da equipe, e se preparam para o campeonato panamericano. Paula, numa noite entre amigos, fica com um rapaz e faz sexo com ele. No outro dia, La Maestra percebe algo estranho ocorrendo com Paula, que se distancia dela. A suspeita é de que a jovem tenha sido estuprada, o que muda radicalmente a relação entre as duas e de Paula com a família. Um filme que começa mais leve e vai se adensando com as complexidades daquela amizade profunda e do ocorrido com a personagem Paula. A parte técnica da qual falei envolve cenas belíssimas com uso de plongée e contra-plongée (como as imagens submersas na água na piscina ao som de “Anunciação”, de Alceu Valença”, do eclipse, do reflexo do celular para se comunicar com os aviões, tudo muito formidável e que dão uma rica moldura). Tem trilha sonora caribenha, com salsa, samba brasileiro e rock alternativo, e um bom trabalho das amigas, interpretadas por Rocio Guzman e Darana Alvarez. É o segundo filme mexicano que está na Mostra com trilha sonora brasileira (o outro é “Homem ao mar”, de GAL Garcia Bernal). Está na Competição Novos Diretores, com sessões nos dias 20, 21, 24 e 26/10.


 
A vida e as mortes de Wilson Shedd
(EUA – 2026, de Tim Blake Nelson)
 
Drama prisional baseado em história verídica que teve première recentemente no Festival de Toronto e agora chega com exclusividade à mostra de Cinema de SP. E é um dos melhores filmes desta edição, que recomendo. Escrito e dirigido pelo ator Tim Blake Nelson (em seu sexto filme na direção), que aparece numa ponta, o filme tem um grande trabalho de Amanda Seyfried como Karen, uma professora que vai trabalhar na reeducação de presos em uma penitenciaria de segurança máxima. Ela vai ensiná-los escrita criativa e noções de literatura. Um deles é Wilson Shedd (Scoot McNairy), preso por matar quatro pessoas, incluindo a cunhada; Karen o ajuda a desenvolver textos onde ele pode relembrar pontos do passado, incluindo os crimes, como forma de se livrar daquele tormento. A partir daí ela começa a entrar no universo de Shedd, lendo o que ele escreve; Karen se afeiçoa àquela figura errante, porém enigmática - no filme, a narração do ator conduz os flashbacks de sua vida pregressa ligada a crimes violentos. A professora enfrenta um dilema moral ao deixar sua rotina de lado para se entregar aos cuidados daquele homem encarcerado, ao mesmo tempo que enfrenta um relacionamento abusivo do namorado, com quem mora (ele bate nela com frequência e a trai com mulheres dentro de casa). Tudo muda quando Shedd entra para a lista dos próximos condenados no corredor da morte. Uma boa direção com ótimo trabalho do elenco, incluindo Scoot McNairy no papel-título. A sequência final é difícil de acompanhar e digerir, uma das cenas mais chocantes já vistas de pena de morte. Está na Perspectiva Internacional da Mostra, com sessões nos dias 
20, 22 e 25/10 – espero que o público assista a esse filme sério e duro, que traz questões sensíveis sobre violência doméstica, reeducação de presos e de pena de morte.


 
 
Na terra de Arto
(França/Armênia – 2025, de Tamara Stepanyan)
 
Cineasta nascida na Armênia, filho de atores, Tamara Stepanyan viveu como refugiada no Líbano nos anos 90 após a queda da União Soviética. Em 2025 ela escreveu e dirigiu dois filmes sobre seu país de origem, o documentário “Meus fantasmas armênios” (exibido em Berlim, sobre o pai ator e a carreira dela como diretora) e “Na terra de Arto”, uma ficção mas com pano de fundo real. O filme é autoral e se passa nos anos 2020, nos conflitos de terra de Karabakn, na região montanhosa do Cáucaso, que funcionou como um Estado autoproclamado independente e de maioria étnica armênia (chamado de República de Artsakh), mas que após a ofensiva militar ficou sob controle do Azerbaijão. Nessas terras chega Céline (Camille Cottin, atriz francesa, de “Casa Gucci”), que está pela primeira vez ali. Ela tem uma missão: acompanhar a documentação da morte de seu marido, Arto. Descobre que ele viveu com outra identidade, envolvido com a guerra na região. A ida de Céline para Karabakn será uma viagem de descobertas do falecido marido, que mora em sua mente como um fantasma; ela irá descortinar seu passado, percorrendo o território e relembrando seus passos. Drama emotivo e eficiente rodado nas verdadeiras terras de Guiumri, conta com ótima fotografia e bom trabalho de Camille Cottin, que sustenta o filme nas costas (veja uma participação rápida no final do multifacetado ator Denis Lavant). Exibido nos Festivais de Locarno e Jerusalem, é o representante oficial da Armenia para uma vaga ao Oscar 2027. O filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 25, 27, 28 e 29/10. Distribuição da Autoral Filmes.

Nota de cinema

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