sábado, 2 de maio de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

 
O drama
 
Novo longa da A24 dirigido e roteirizado por Kristoffer Borgli, cineasta norueguês em seu segundo trabalho nos Estados Unidos (o anterior foi um que gosto muito, o maluco “O homem dos sonhos”, com Nicolas Cage), que continua em exibição nos cinemas pela quinta semana consecutiva, com distribuição da Diamond Films. E vem fazendo uma carreira surpreendente, por ser uma excêntrica comédia dramática sobre os altos e baixos de dois noivos na véspera do casamento. É estrelado por Zendaya e Robert Pattinson, que interpretam respectivamente Emma e Charlie. Eles são um casal apaixonado à espera do casamento dos sonhos. Cada um tem suas manias e estranhezas; ela é bem tímida, de olhar curioso sobre as pessoas, enquanto ele, meio bobalhão e atrapalhado. Às vésperas da cerimônia, porém, um segredo do passado de Emma vem à tona quando ela faz um comentário aparentemente banal na mesa com amigos, em um encontro regado a vinho. A fala de Emma causa espanto e ameaça a relação dela com Charlie, enquanto os dois amigos ali presentes se afastam. As horas, a partir de então, serão uma calamidade, que colocarão à prova a sobrevivência daquela relação conjugal. Borgli, que explora dilemas existenciais em todos os seus trabalhos, como nos três longas anteriores, “Energético” (2017), “Doente de mim mesma” (2022) e “O homem dos sonhos” (2023), retorna ao tema misturando romance, suspense e comédia mordaz, criando uma linha tênue entre o drama íntimo e a ironia desconfortável. Contando com uma atmosfera inquietante, o filme traz à tona uma discussão inevitável nos tempos de hoje: a fragilidade dos relacionamentos modernos, focando na imaturidade de um jovem casal que não sabe o que fazer com um segredo do passado. A dupla Zendaya-Pattinson, cotadíssimos para os prêmios de cinema da temporada de 2027, está perfeita, numa sintonia fora de série (seja no amor ou no ódio), e o elenco conta com participações excelentes de Alana Haim (de “Licorice Pizza”), Mamoudou Athie (de “Tipos de gentileza”) e Hailey Gates (de “Marty Supreme”). A trilha sonora do indicado ao Oscar Daniel Pemberton intensifica a carga emocional do longa, cuja produção é assinada por Ari Aster. São 106 minutos que passam voando, deixando um gostinho de “quero mais”.
 
 
Suspiria
 
Na última segunda-feira publiquei um texto sobre o relançamento em 4K nos cinemas de “Veneno para as fadas”, um cultuado folk horror mexicano. O filme voltou às telas na semana passada, juntamente com a cópia restaurada, também em 4K, de “Suspiria” (1977), outra emblemática fita de terror que fez a cabeça do público cinéfilo e se tornou referência no gênero. É considerada a magnum opus do lendário cineasta italiano Dario Argento, hoje na ativa aos 85 anos, e uma das pérolas do horror fantástico. Psicodélico, brutal, com cenas fortíssimas de sangue e mortes escabrosas, o terror bruxo, cuja base é o giallo sobrenatural, acompanha a história de Suzy Bannion (Jessica Harper), uma jovem dançarina americana que chega a uma renomada escola de balé em Friburgo, no sul da Alemanha. Hospedada no local com mais de 10 garotas, que estão lá para serem treinadas para a dança, pouco a pouco suspeita que a academia é assombrada por uma antiga entidade. A moça ouve sussurros noturnos, bem como o ronco de uma mulher idosa; vermes aparecem no teto, e algumas das meninas desaparecem na calada da noite. A apreensão atinge não só Suzy, mas as colegas de quarto. 


As indagações das dançarinas são levadas para as diretoras da academia de balé, Miss Tanner (Alida Valli) e Madame Blanc (Joan Bennett), que não dão ouvidos. Até que Suzy vê o mal reinar ao seu lado. O impacto de “Suspiria” vai além do roteiro fabuloso: está também na estética visual alucinante, marcada por cores intensas vermelhas, pink e azul neon, ao lado da iluminação expressionista (inclusive na geometria dos quartos e enquadramentos, que remetem ao Expressionismo Alemão). A trilha sonora, da banda Goblin (que aqui assinam “Goblins”, e tinha como mentor o paulistano Claudio Simonetti), intensifica a experiência sensorial, criando um ambiente hipnótico, perturbador, claustrofóbico. Não tem jeito: saímos magnetizados de cada sessão de “Suspiria”, e olha que já vi o filme mais de 10 vezes, um de meus preferidos do mestre Argento. Olhem só: além do relançamento os cinemas, o filme ganhou uma edição oficial limitada em VHS no Brasil, gesto que resgata a aura analógica que marcou os anos 1980 e 1990 (foto abaixo). A cópia restaurada em 4K realça as cores deslumbrantes dessa obra-prima do cinema de horror, realizada pelo laboratório alemão TLEFilms, que corrigiu danos nos negativos de 35 mm. Vale lembrar que “Suspiria” é o primeiro capítulo da trilogia “As três mães”, seguido por “A mansão do inferno” (1980) e “O retorno da maldição - A mãe das lágrimas” (2007), que são independentes, mas tratam do mal sobrenatural. Em 2018 o diretor italiano Luca Guadagnino refez o filme, com uma nova linguagem, que ficou até boa, “Suspiria: A dança do medo”. Com quase meio século de existência, o filme continua a ser celebrado pela crítica e pelo público, e que bom foi redescoberto para voltar para a telona. Continua em cartaz pela segunda semana, com distribuição da FJ Cines.


 
Placar: A revista militante
 
Assisti entusiasmado a esse bom documentário realizado em 2025 para se comemorar os 55 anos da revista Placar, da editora Abril. Fundada em 1970, em pleno auge da Ditadura, a revista, que nasceu para se divulgar o esporte no Brasil, logo começou a estampar na capa reportagens especiais sobre democracia e política. Críticas sociais vinham não só no editorial, mas da fala de esportistas consagrados, transformando a Placar numa revista de linha progressista (e por isso, foi perseguida pelos militares).  O documentário relembra capas históricas com Pelé e o Santos FC, entrevistas políticas com jogadores de pensamento progressista, como Sócrates, e furos como a Máfia da Loteria Esportiva - primeiro grande escândalo de manipulação de resultados no futebol brasileiro, revelado em outubro de 1982 pela revista e que envolvia mais de 120 nomes de dirigentes e jogadores. Jornalistas e editores da Placar sofreram censura e ameaças, mas a revista nunca abriu mão de seus posicionamentos fortes. Contam histórias para o doc jogadores como Casagrande, Afonsinho (que defendeu a Lei do Passe e foi entrevistado várias vezes sobre o tema) e Zico, e quem é o ponto focal do filme é o ex-diretor e jornalista esportivo Juca Kfouri. Outros jornalistas brasileiros trazem seus pontos de vista sobre a Placar, como Celso Unzelte e Arnaldo Ribeiro, bem como o ex-diretor Carlos Maranhão, o fotógrafo Ronaldo Kotscho, o treinador e comentarista esportivo Paulo Roberto Falcão e Martha Esteves, uma das primeiras repórteres femininas da Placar. Em certo momento fazem um mea culpa ao reconhecer comentários misóginos em algumas edições e sexualização de esportistas femininas, por exemplo em matérias de jogadoras de futebol de areia e uma capa com Susane Werner quase seminua segurando uma bola para tapar os peitos, parecendo capa de Playboy (que era do grupo Abril também). Ao ver o filme, assista até aos créditos finais, onde tem participação de Pelé em erros de gravação para o documentário – ele já estava debilitado e faleceria logo depois. Exibido nos cinemas em agosto do ano passado, está disponível gratuitamente no Sesc digital até dia 10/05.


 
O comunista
 
Está disponível gratuitamente até o dia 04/05 no canal do Youtube do CPC-Umes Filmes mais uma pérola do cinema soviético praticamente desconhecida do grande público. Um filme vigoroso, de drama, que se passa num período crucial da História da Rússia: a Revolução Bolchevique. Em 1919, no auge da Guerra Civil, centenas de trabalhadores chegam de trem à cidade de Zagora, na região da taiga russa (cercada por florestas boreais que cobrem grande parte da Rússia até a Sibéria). Eles instalam-se em casebres na localidade para erguer uma usina elétrica e futuramente uma cidade. O jovem Vassily Gubanov (Evgeniy Urbanskiy), um homem de poucas palavras, mas de enorme consciência crítica, é nomeado chefe do grupo. Dia a dia passa a sofrer hostilidade dos funcionários por estar disposto a denunciar um esquema de corrupção envolvendo parte da equipe. A crise se instala quando recebe ameaças de morte, o que coloca seu trabalho em jogo. Realizado na comemoração dos 40 anos da Revolução Russa (iniciada em 1917 e finalizada em 1922), o filme veio em plena transformação do cinema russo moderno, sendo até hoje uma obra crítica notável, autoral na linguagem e feito sob uma fotografia excepcional nas reais colinas da taiga russa. Foi o maior filme do diretor Yuli Raizman, contando com uma grandiosa interpretação de uma lenda do cinema soviético, Evgeniy Urbanskiy (1932-1965), falecido precocemente de acidente de carro – ele participou de obras premiadas, como os indicados à Palma de Ouro “A balada do soldado” (1959) e “A carta que não se enviou” (1960). Em “O comunista”, seu personagem se torna um herói, um porta-voz que representa a coragem do povo russo. O filme recebeu menção Honrosa no Festival de Veneza, único festival em que foi exibido, e agora está no streaming do CPC-Umes em uma excelente cópia restaurada pela Mosfilm, o centenário estúdio russo que permanece ativo.
 

Especial de cinema


Especial “Psicose” - parte 2


Psicose 3
 
No motel de sua propriedade, Norman Bates (Anthony Perkins) conhece uma jovem freira que abandonou o convento após uma tragédia, Maureen (Diana Scarwid). Ela se hospeda lá, e os dois têm uma forte atração. Dias depois, mortes macabras de hóspedes ocorrem, e uma repórter, Tracy (Roberta Maxwell), decide investigar os casos por conta própria.
 
Fazer continuações de filmes clássicos é uma prática constante (e antiga) da indústria de Hollywood. Na década de 1980, a criatividade girava a todo vapor nos Estados Unidos, uma época de grandes transformações na música, na moda, na literatura e nas artes em geral. O cinema viu nascer os filmes slasher, o cinema sangrento que atraía os olhares curiosos do público jovem. Aproveitando a onda dos slasher movies dos anos 80, surgiu a proposta de duas sequências de uma obra-prima indiscutível do cinema, “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock. Ideia ousada, cujo resultado poderia dar muito errado. “Psicose 2” (1983) foi dirigido pelo australiano Richard Franklin, um cineasta bem hitchcockiano, da Ozploitation. A sequência trazia o sinistro personagem Norman Bates de volta ao convívio social, depois de ficar internado 22 anos num sanatório pelos assassinatos cometidos. Aparentemente estava “curado” de sua doença – o Transtorno Dissociativo de Imagem (TDI), em que ouvia vozes da mãe morta e atacava as pessoas em nome dela, vestindo-se como a Sra. Norma Bates. Empregado agora como chapeiro numa lanchonete, Norman percebe que sua mente começa a bagunçar de novo, a voz da matriarca reincide em seu ouvido e sua sanha assassina emerge. Ágil, mata mais gente e descobre uma trama conspiratória envolvendo Lila (Vera Miles), irmã de Marion Crane (Janet Leigh), assassinada no filme anterior, e a filha dela, Mary (Meg Tilly), que criam situações bizarras para enlouquecê-lo. E uma revelação fecha o filme, de uma meiga senhora chamada Srta. Spool (Claudia Bryar) que confessa ser a verdadeira mãe de Norman, pois é irmã de Norma e foi ela quem criou o menino na ausência da outra. Como retribuição àquela informação preciosa, Norman mata a idosa com uma pá... A rotina psicótica de Norman estaria de volta. Agora, em “Psicose III” (1986), Norman se depara com uma jovem com traços semelhantes - pelo menos carrega uma morte nas costas e tem dilemas tenebrosos que levam a sérias perturbações. Em “Psicose III”, duas histórias se encontram, com dois personagens que se aproximam em suas condições: Norman Bates e a noviça Maureen (Diana Scarwid, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por “Bar Max”, de 1981). Ela abandona o convento após se envolver na morte acidental de uma freira. Maureen duvida de sua fé e pergunta onde está Deus. Na fuga do convento, pega carona na rua com um lunático (Jeff Fahey, de “O passageiro do futuro”, de 1992), que, horas depois, na estrada, tenta estuprá-la. Ela agride o homem e corre por uma área deserta. Enquanto isso, Norman Bates tranquilamente caça pássaros para fazer taxidermia. Ele empalha os animais com zelo e perfeição. Relembra quando matou a Srta. Spool, no filme anterior, mas para a polícia ela está desaparecida (a trama se passa um mês depois dos acontecimentos do outro longa, e cenas dele em preto-e-branco são inseridas). Reabre o Bates Motel, mesmo o local estando sujo e abandonado. O destino faz Maureen, a noviça, reencontrar-se com o estuprador, que agora trabalha temporariamente no Bates Motel, contratado por Norman. Ela se hospeda lá. Norman então volta a ouvir a voz da mãe odiosa e vingativa, que morreu há muitos anos. Ele sente desejo pela mulher, um desejo reprimido a vida toda por Norma, a mãe, a ponto de espiar Maureen pelo buraco da parede – no original “Psicose”, o personagem olhava por um buraco escondido atrás de um quadro. A ‘mãe’ o proíbe de chegar perto daquela ‘prostituta’. Norman resiste e reluta, tendo novos tormentos. Até que a mãe exige que ele mate Maureen e todas as mulheres que cruzarem o motel na beira da estrada.



Elementos do cinema slasher já apareciam no filme 2, como mortes violentas e sanguinárias e um ‘whodunnit’ - mesmo o público sabendo que é o psicopata Norman com as roupas da mãe. Mas no terceiro capítulo o slasher vem mais forte, brutal e evidente, num filme de terror psicológico violento rodado pelo próprio Anthony Perkins, que nunca tinha dirigido um longa sequer. Roteirista de “A mosca” (1986) junto de David Cronenberg, Charles Edward Pogue escreveu uma história de delírios e tormentos, adaptado da ideia original do livro de Robert Bloch, que une os personagens Norman e Maureen – ele, que acredita falar com a mãe morta, e ela, uma noviça suicida que coloca à prova sua fé, envolvida na morte de uma freira que caiu do alto de uma catedral. Enquanto Norman tenta viver sua vida isolado no motel da família e fazendo taxidermia, ela procura compreender os motivos que a levaram a deixar o convento. O Motel Bates vai de mal a pior, sem clientes – numa das cenas vemos o local tomado por poeira da estrada e galhos secos em volta, e a casa dele, ao fundo, decrépita e assustadora. A guinada na trama vem com uma nova onda de assassinatos brutais que explode com a chegada de Maureen no motel – ponto alto do roteiro de Pogue, que cria expectativa no olhar atento do público que espera por sangue slasheriano. Jovens que fazem uma parada lá morrem de forma cruel, com o pescoço rasgado ou o corpo perfurado por faca – na altura do campeonato já sabemos quem mata, não? A polícia inicia uma intensa investigação, e uma repórter segue no encalço de Norman. As mortes são mais elaboradas e violentas que nos filmes anteriores, talvez as mais impactantes da trilogia, com momentos de puro banho de sangue.
Perkins domina bem a direção por ser um iniciante, entregando uma obra confessional, autoral, sem meio termo, com ampla liberdade em posicionar seu personagem visceral. Faz inclusive uma homenagem certeira ao mestre Hitchcock na sequência final, voltando ao primeiro filme, com Norman detido pela polícia e levado no banco de trás – ele pensa, pensa, ouve vozes, só que agora carrega consigo a mão da mãe mumificada.
O filme veio no terço final da década do slasher, fechando uma trilogia sinistra de terror psicológico para o cinema. Quatro anos mais tarde resgataram a franquia num telefilme competente, “Psicose IV: O começo” (1990 – também conhecido por “Psicose IV: A revelação”), novamente com Perkins num de seus últimos trabalhos – ele morreria aos 60 anos em 1992, em decorrência de uma pneumonia provocada pela Aids.


Norman Bates integra a galeria dos personagens memoráveis da Sétima Arte, uma figura complexa, enigmática e também assustadora, que até hoje repercute entre os fãs do cinema devido ao desempenho formidável de Anthony Perkins frente ao papel. “Psicose 2” e “Psicose III” são continuações pouco conhecidas do grande público e subestimadas pelos críticos, por estar na sombra da obra-prima original. Merecem uma atenção, pois em cada um desses filmes novos elementos e explicações do universo de Bates são erigidos, que ajudam a decifrar a mente conflitante do célebre personagem. Disponível em DVD pela Universal Pictures, acaba de sair em Bluray na caixa “Coleção Psicose”, da Versátil Home Video, que contém dois discos, reunindo “Psicose 2”, “Psicose IV: O começo” e o remake de Gus Van Sant “Psicose”, de 1998. No box, mais de quatro horas de extras, cards colecionáveis e um livreto de 44 páginas. Também está disponível para aluguel em streamings como Prime Video, Youtube Filmes, Claro TV e Apple TV.
 
* Resenha publicada no livreto que acompanha a caixa em Bluray “Coleção Psicose”, lançado recentemente pela Versátil Home Video (texto contém o título “Norman, a mamãe continua aqui!” – Uma análise de “Psicose III”)
 
Psicose 3 (Psycho III). EUA, 1986, 93 minutos. Terror/Drama. Preto-e-branco/Colorido. Dirigido por Anthony Perkins. Distribuição: Universal Pictures e no box “Coleção Psicose”, da Versátil Home Vídeo
 
 
Psicose IV: O começo
 
Velho e cansado, Norman Bates (Anthony Perkins) ouve no rádio um programa em que a apresentadora Fran Ambrose (CCH Pounder) aborda o tema do matricídio (filhos que matam as mães). Pensativo sobre aquilo, resolve ligar para a emissora e contar sua história, com um nome falso. Bates relembrará a atormentada juventude ao lado da mãe, Norma (Olivia Hussey).
 
Produzido para a TV, “Psicose IV: O começo” funciona tanto como uma prequela (filme que conta a origem de um personagem) quanto uma continuação (já que se passa no tempo presente, em que Norman, velho e cansado, relembra sua juventude). Personagem icônico do cinema de horror, Norman Bates, agora idoso e sob tratamento psiquiátrico, participa de um programa de rádio para falar sobre sua criação. Durante uma longa conversa ao vivo com uma apresentadora, ele relembra a infância e a juventude, marcadas pela relação abusiva com a mãe, Norma, uma mulher neurótica e repressora, o que moldaria sua mente perturbada. O longa alterna entre o presente e flashbacks, revelando como Norman se tornou o assassino que conhecemos, trazendo uma narrativa mais íntima, sobre trauma e manipulação. Subestimado na época do lançado e sem o impacto cinematográfico dos dois primeiros filmes, “Psicose IV: O começo” é relevante por aprofundar a origem psicológica de Norman (algo que seria destrinchado depois na ótima série de cinco temporadas “Bates Motel”, com Vera Farmiga e Freddie Highmore). O telefilme se destaca por oferecer uma perspectiva mais trágica do protagonista, transformando-o em vítima de circunstâncias familiares - apesar de a produção televisiva limitar a grandiosidade estética, o longa é valorizado pelos fãs como uma peça-chave para compreender o que está por trás de Norman Bates.



Perkins já estava doente, aparecendo pouco no filme (ele faleceria dois anos depois, em decorrência de uma pneumonia provocada pela Aids), dando espaço para o bom Henry Thomas como o jovem Norman (ator mirim de “E.T. – O extraterrestre”). O diretor Mick Garris já era experiente no mundo do terror, realizador de making of de cultuadas fitas do gênero dos anos 80, como de “Grito de horror” e “Videodrome”, passando por episódios da série “Histórias maravilhosas” (1985-1987) e do filme “Criaturas 2” (1988). Depois de fazer “Psicose IV”, dirigiu obras de Stephen King para o audiovisual, como o filme “Sonâmbulos” (1992) e as minisséries “A dança da morte” (1994) e “O iluminado” (1997). O roteirista do original “Psicose”, Joseph Stefano, voltou aqui para escrever essa adaptação, procurando garantir traços fieis da história e do personagem – e seria ele a refazer o roteiro para o remake de 1998, de Gus Van Sant, aquele filme que ainda divide a opinião da crítica e do público (para mim, penoso e sofrível). Conta com participação de duas atrizes muito boas, CCH Pounder, de “Bagdad Café” (1987), como a apresentadora de rádio que entrevista Norman, e Olivia Hussey, falecida há um ano, como Norma Bates – Olivia eternizou Julieta de Shakespeare na versão de “Romeu e Julieta” (1968), de Franco Zeffirelli. PS: Nos anos 90 o filme saiu em VHS pela CIC com outro subtítulo, “Psicose IV: A revelação”. Agora pode ser visto em boa resolução em Bluray, na caixa “Coleção Psicose”, da Versátil Home Video, que contém dois discos, reunindo “Psicose 2”, “Psicose III” e o remake de Gus Van Sant - no box, mais de quatro horas de extras, cards colecionáveis e um livreto de 44 páginas.
 



Psicose IV: O começo (Psycho IV: The beginning). EUA, 1990, 96 minutos. Terror/Drama. Colorido. Dirigido por Mick Garris. Distribuição: No box “Coleção Psicose”, da Versátil Home Vídeo

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Especial de cinema

 
Especial “Psicose”
 
Psicose
 
Marion Crane (Janet Leigh), uma jovem secretária, rouba dinheiro da empresa onde trabalha e foge de carro para reencontrar o namorado. No caminho, durante uma tempestade, para em um motel à beira da estrada, hospedando-se no sinistro Bates Motel, de propriedade de um homem atormentado chamado Norman (Anthony Perkins).
 
Obra-prima da Sétima Arte, um clássico absoluto e divisor de águas no cinema de suspense, o filme “Psicose”, de Alfred Hitchcock (1899-1980), mudou a forma de se fazer filmes em uma época de grande transformação na indústria de Hollywood. Gêneros populares como comédia, musical e faroeste já tinham esgotado seu repertório. O colapso da Era de Ouro era anunciado com a lei antitruste para venda de cinemas e com o sistema de estúdios entrando em derrocada. E a TV começava a se popularizar. O cinema necessitava de uma reformulação imediata – o que surgiria nos anos 60 com a Nova Hollywood, trazendo diretores-autores entregando obras extremamente originais e disruptivas na forma e no conteúdo. “Psicose” veio nesse período de transição, do velho para o novo cinema, um filme pioneiro em muitos aspectos. A começar do roteiro ousado: Marion Crane (Janet Leigh), uma jovem secretária, rouba dinheiro de seu trabalho e foge de carro em busca de uma nova vida. Sozinha, na estrada sob chuva, faz uma parada no isolado Bates Motel, um motel antigo administrado pelo tímido e enigmático Norman Bates (Anthony Perkins). O que parecia uma noite de descanso se transforma em um terrível assassinato: Marion é morta a facadas no chuveiro enquanto toma banho. Tudo indica que quem a matou foi a mãe de Norman, Sra. Norma Bates, uma idosa que mora no casarão da família, aos fundos do motel, e controla o filho todo minuto, não dando paz para ele. A trama de roer as unhas se desenrola em torno do mistério daquele assassinato e de outros que virão, bem como a identidade da mãe de Norman e da investigação do desaparecimento de Marion. “Psicose” é considerado um Hitchcock subversivo, um filme classe A de um diretor inglês que já era consolidado no cinema americano com clássicos de suspense, como “Festim diabólico” (1948), “Pacto sinistro” (1951), “O homem que sabia demais” (1956), “Um corpo que cai” (1958) e “Intriga internacional” (1959), parte destes com um fino humor que poucos conseguiram associar ao conteúdo.




“Psicose” não, é um suspense de horror, um filme macabro e ousado para a época, com planos e enquadramentos que atingem o ápice da estética virtuosa do maior cineasta de todos os tempos. A cena do chuveiro é arrepiante, tudo embaçado, com a trilha memorável de Bernard Herrmann – e quem diria que um diretor, naquela época, deixasse sua protagonista morrer (e outra, ela aqui é uma anti-heroína, uma ladra que dá um golpe no trabalho e rouba a firma para viver bem ao lado de um namorado). A cena do chuveiro levou sete dias para ser filmada e utilizou mais de 70 ângulos diferentes - curiosamente, o sangue visto na cena era, na verdade, calda de chocolate (há um documentário super legal sobre os bastidores da gravação da cena, chamado “78/52: A cena do chuveiro de Hitchcock”, de 2017, dirigido por Alexandre O. Philippe). A direção meticulosa e o uso inovador da montagem criaram uma atmosfera de tensão que permanece insuperável ainda hoje. O filme não apenas redefiniu o gênero, mas também influenciou gerações de cineastas. A construção psicológica de Norman Bates é outro ponto firme, trazendo profundidade rara para vilões, tornando-o um dos personagens mais perturbadores já criados (cheio de camadas e complexidades que passaríamos horas aqui descrevendo). A crítica da época se dividiu, mas rapidamente o longa foi reconhecido como obra-prima, estudado em cursos de cinema e psicologia. Hitchcock comprou os direitos do livro de Robert Bloch, lançado um ano antes (que li e recomendo), de forma anônima e adquiriu todas as cópias disponíveis para manter o mistério da trama. Hitchcock era exigente não só dirigindo seus atores e aterrorizando as atrizes; fora do set também, por exemplo, fez questão de proibir a entrada de espectadores após o início da sessão, para preservar o impacto da narrativa. Recebeu, na época, quatro indicações ao Oscar: de melhor atriz coadjuvante para Janet Leigh (única indicação da atriz, que pelo papel ganhou o Globo de Ouro – ela foi casada com Tony Curtis e é mãe de Jamie Lee Curtis), diretor (a quinta e última indicação dele como diretor, que nunca ganhou nada), fotografia (um trabalho impressionante de John L. Russell) e direção de arte. O clássico de suspense fez tanto a cabeça do público que rendeu três continuações diretas com Anthony Perkins na pele de Norman Bates, sendo duas para cinema (1983 e 1986) e uma para a TV (1990), além de um remake (de Gus Van Sant, de 1998), a série “Bates Matel” (2013-2017) e até um telefilme pouco conhecido que traz um novo personagem para essa ousada franquia, “Bates Motel” (1987, com Bud Cort). Disponível em DVD e Bluray pela Universal Pictures, e para aluguel em streamings como Prime Video, Claro TV e Apple TV.
 
Psicose (Psycho). EUA, 1960, 109 minutos. Terror/Drama. Preto-e-branco. Dirigido por Alfred Hitchcock. Distribuição: Universal Pictures
 
 
Psicose 2
 
Norman Bates (Anthony Perkins) deixa o hospital psiquiátrico 20 anos depois de ser acusado de vários assassinatos. Ele retorna para o velho casarão da família, aos fundos do decrépito e agora abandonado Bates Motel, e passa a trabalhar em um restaurante ali perto. Certo dia, influenciado por uma colega de trabalho, a garçonete Mary (Meg Tilly), resolve reabrir o motel para os clientes. Em poucos dias novas mortes brutais ocorrem, colocando Norman sob a mira da investigação.
 
Mais de duas décadas depois de “Psicose” (1960), numa época tomada pelo cinema slasher, Hollywood se debruçou em um novo capítulo de sangue do personagem Norman Bates, voltando a ser interpretado pelo sinistro Anthony Perkins. A história também segue 20 anos após os assassinatos no Motel Bates; Norman é liberado de um hospital psiquiátrico, já reabilitado. Ele retorna ao motel da família e também passa a trabalhar na cozinha de um restaurante, tentando reconstruir a vida. Mas logo se vê sob tormento ao receber estranhos telefonemas e cartas supostamente vindas de sua falecida mãe, Norma. Enquanto tenta provar sua sanidade, assassinatos brutais ocorrem a poucos passos dele, levantando dúvidas sobre a recuperação de Norman e de quem está por trás dos crimes. Paralelamente surge na história uma garota chamada Mary (Meg Tilly), garçonete que trabalha com Norman no fast food, e ainda Lila (Vera Miles), que retorna 20 anos depois em busca de respostas da morte da irmã, Marion Crane (que no original foi interpretada por Janet Leigh). “Psicose II” surpreendeu ao não ser apenas uma continuação oportunista, mas uma obra tão densa quanto a original, que explorava a fragilidade psicológica de Norman. Ele está reabilitado, mas a voz da mãe volta a ecoar em sua mente, enquanto ele a vê parada todos os dias na janela de casa o observando. Dirigido pelo australiano Richard Franklin, discípulo de Hitchcock e realizador dos filmes de terror e suspense “Patrick” (1978) e “Enigma da estrada” (1981), o filme vai para a linha do terror sanguinário – tudo o que Hitchcock economizou de violência lá, por ser outra época, Franklin descamba aqui, com cenas horrorosas de esfaqueamento, típicas do slasher movie que predominava naquela época.



O personagem central é retratado como um atormentado, dividido entre o desejo de normalidade e os fantasmas do passado. Anthony Perkins entrega uma atuação intensa, humanizando Norman sem perder o caráter ameaçador. O filme conquistou fãs ao oferecer uma narrativa sólida e intrigante, e é para mim uma das boas franquias com continuações sólidas (como “O poderoso chefão” e os dois primeiros “Tubarão”). A atmosfera sombria e melancólica reflete o peso dos anos sobre o protagonista, e como o seu interior ainda é abalado. O roteiro foi escrito por Tom Holland, que mais tarde dirigiria “A hora do espanto” (1985) e “Brinquedo assassino” (1988). Foi rodado em grande parte nos cenários originais da Universal, preservados desde 1960, e guarda a ambientação do original, com um desfecho aterrador e cheio de dúvidas, que seria um convite para novas continuações (o que aconteceu). Disponível em DVD pela Universal Pictures, acaba de sair em Bluray na caixa “Coleção Psicose”, da Versátil Home Video, que contém dois discos, reunindo “Psicose III”, “Psicose IV: O começo” e o remake de Gus Van Sant “Psicose”, de 1998. No box, mais de quatro horas de extras, cards colecionáveis e um livreto de 44 páginas (foto abaixo). Também está disponível para aluguel em streamings como Prime Video, Claro TV e Apple TV.



Psicose 2 (Psycho II). EUA, 1983, 113 minutos. Terror/Drama. Preto-e-branco/Colorido. Dirigido por Richard Franklin. Distribuição: Universal Pictures e no box “Coleção Psicose”, da Versátil Home Vídeo

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas e no streaming – Parte 1


Mãe e filho
 
Dois filmes iranianos foram destaque na programação da Mostra Internacional de Cinema de SP do ano passado, onde os assisti: “Foi apenas um acidente”, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, de Jafar Panahi (que esteve no evento para receber o prêmio Humanidade), e “Mãe e filho” (exibido com “Woman and child”). O drama, coproduzido na França, também teve sessões no Festival de Cannes de 2025, concorrendo à Palma de Ouro, num trabalho exímio do cineasta Saeed Roustayi, que tem muito a nos contar. Aprecio os cult movies iranianos desde minha inserção no mundo da crítica, há quase 30 anos, e este é um daqueles dramas de sufocar a alma. É a história de uma enfermeira viúva (Parinaz Izadyar – muito bem como protagonista) que trabalha em um hospital e mora com o filho rebelde. O garoto causa problemas na escola e acaba suspenso das aulas. Prestes a noivar com o novo namorado, relacionamento não aceito pela família, a enfermeira sofre um baque quando um incidente mata seu filho. O longa é dividido em dois momentos: antes da estranha morte do garoto, mostrando os dias turbulentos daquela mulher cuja rotina é ficar no hospital e cuidar do rapaz, e depois do fato trágico, quando a mulher embarca numa jornada de investigação pessoal para desvendar o ocorrido. As duas partes, juntas, formam uma obra densa, dolorosa, de uma mãe disposta a enfrentar o mundo por justiça ao filho morto. Filmes iranianos de drama com suspense, como os de Asghar Farhadi, nos prendem com suas sólidas tramas, e este, apesar de não ser dele, lembra muito e é uma ótima recomendação. Estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Retrato Filmes.
 

 
Yiya Murano: Morte na hora do chá
 
Documentário da Netflix que acaba de estrear lá, o filme trata da primeira serial killer da Argentina, Yiya Murano (1930-2014), uma senhorinha que ficou conhecida como “A envenenadora de Montserrat” (em referência ao bairro onde ela circulava). O filme argentino resgata do baú dos noticiários da época uma série de reportagens, além de arquivos policiais, juntando depoimentos atuais do filho dela, que foi dublê de cinema, Martin Murano, de investigadores, jornalistas e familiares das vítimas. Martin nunca se deu bem com a mãe e foi um dos idealizadores do documentário; ele relembra que desde criança não tinha relação com Yiya, e quando os casos dos crimes vieram à tona, afastou-se de vez dela. Yiya tinha quase 50 anos quando foi acusada de envenenar várias mulheres de mesma idade para dar um golpe milionário. As mortes ocorreram por envenenamento, na Buenos Aires dos anos 70 e 80 – Yiya colocava veneno em doces na hora do chá da tarde na casa das vítimas. Segundo contam no filme, ela era uma senhora de boa aparência, vestia-se bem e frequentava a noite badalada da Avenida Corrientes. Quando o caso envolvendo assassinatos explodiu, ela negou até o fim da vida. O destaque do filme, que acho importante aqui colocar, está no comportamento errôneo da mídia que a colocou no pedestal de celebridade; Yiya virou um ícone pop na Argentina, dava entrevistas em talk shows sobre o caso, não se importando com as críticas. Em certo momento da vida, já bem idosa, não ligava mais de ser chamada de envenenadora, e suas aparições batendo boca com o filho em TV aberta e revidando com os espectadores chegam a ser sensacionalismo fuleiro, verdadeiras piadas de mau gosto. Isto acende um alerta de como emissoras, inclusive brasileiras, dão voz a bandidos vangloriando seus comportamentos (o que a meu ver é falta de ética jornalística, já que focam apenas em audiência). O diretor Alejandro Hartmann havia realizado para a Netflix diversos docs sobre casos policiais reais na Argentina, como o filme “O fotógrafo e o carteiro: O crime que parou a Argentina” (2022) - sobre o assassinato do fotojornalista José Luis Cabezas, em 1997, cometido por um empresário que quis silenciar a vítima, e “O caso dos irmãos Menendez” (2024), sobre os irmãos que mataram os pais, além das minisséries “Quem matou María Marta?” (2020) e “Nahir: O segredo de um crime” (2024). Já havia uma minissérie dramatizada sobre o caso Yiya, intitulado “Yiya” (2025), da Flow, uma TV a cabo argentina – e agora este filme da Netflix vem para atualizar a história.
 

 
Devoradores de estrelas
 
Uma das sensações do cinema de 2026, o épico de ficção científica dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, baseado no best-seller “Project Hail Mary” de Andy Weir, completa sete semanas em cartaz. Só na capital São Paulo permanece em 12 salas de cinema espalhadas pela cidade. Manteve-se na liderança em bilheteria em vários países, incluindo aqui, e dos U$ 200 milhões de orçamento, já fez mais de U$ 615 milhões pelo mundo. O space opera de caráter humanista, em vários aspectos com apelo ao Hard Science Fiction, traz um Ryan Gosling sentimental e solitário como um astronauta improvável, em uma missão de vida ou morte na escuridão do espaço sideral. Ele é Ryland Grace, um professor de ciências que na Terra, antes de embarcar na cápsula para a viagem, já era um homem sozinho, sem esposa, filhos ou animais. Ele acorda a anos-luz de uma expedição, sem memória. Perambulando pela nave, descobre que a tripulação está morta, e ele, o único sobrevivente. Aos poucos vai compreendendo sua complicada situação, tentando contato com a base nos Estados Unidos, principalmente com sua cientista-chefe, Eva Stratt (Sandra Hüller). Os dias são cansativos e intermináveis, até que recebe objetos, como forma de contato, de uma espécie de nave que aparece e desaparece bem próxima. Ele bota a roupa de astronauta e se dirige à espaçonave vizinha, e lá encontra uma criatura alienígena (eridiana) que lembra uma aranha, só que de pedra, envolta em uma estrutura dura para armazenar amônia, gás que usa para respirar (Rocky será seu apelido, cuja voz é emprestada do ator James Ortiz). Rocky também tem uma missão semelhante à de Ryland: deter a ação de um astrófago recém-descoberto, uma praga interestelar que consome a energia das estrelas (por isso o título) e que em breve causará danos irreversíveis ao planeta, como a extinção da vida humana. Os dois se tornam amigos, só que eles são muito diferentes: Ryaldn terá de descobrir uma maneira de comunicação com o alienígena de pedra. É daqueles filmes de saga, de longa duração, para ver na telona, com bom som e imagem – isso porque o filme foi todo rodado em IMAX, tecnologia de câmeras de altíssima resolução, com som imersivo e nitidez superior em telas gigantes. Parte do potencial do longa se concentra nas concepções visual e sonora, por isso, reafirmo, se puder veja na sala de cinema. O filme é uma mistura de espetáculo grandioso com cenas de aventura e emoção, algumas que não deixam a gente piscar. É uma ficção científica fortificada com doses de romance, ação, aventura e drama. O roteiro, fiel ao espírito do livro, equilibra ciência com humor e pontos de profunda humanidade, transformando a aventura espacial em uma reflexão sobre amizade, sacrifício, trabalho em conjunto e empatia. Ryan Gosling está mais carismático do que nunca, bem como Sandra Hüller abrilhanta na pequena participação que faz no filme (os dois podem receber indicações a Globo de Ouro ou até Oscar em 2027). A cativante trilha sonora do indicado ao Oscar por “Os 7 de Chicago” Daniel Pemberton é um primor de trabalho. Vale destacar que a dupla de diretores Lord e Miller, conhecidos por sua versatilidade em filmes que vão da animação “Uma aventura Lego” à produção de “Homem-aranha: No Aranhaverso”, demonstram uma nova rota na carreira com essa preciosidade scifi cheia de humor e intimidade. Eles estão em fase de produção do novo filme scifi de viagem espacial, “Artemis”, também baseada em obra de Andy Weir (o mesmo autor do livro que originou o filme “Perdido em Marte”). Para mim, um dos melhores longas de cinema de 2026 (logo sairá no streaming).
 

Especial de Cinema

 
Coleção “Uma chamada perdida”
 
A Obras-primas do Cinema acaba de lançar em DVD a trilogia “Uma chamada perdida”, com os três filmes de horror japonês da franquia realizados entre 2003 e 2006. No box, em disco duplo, vem quatro cards colecionáveis e 1h de extras, como making of, entrevistas com elenco e diretor, cenas deletadas e finais alternativos. Confira abaixo textos meus sobre os filmes:


 
Uma chamada perdida
 
Estranhas ligações vindas do futuro atormentam um grupo de jovens no Japão. Ao recebê-las pelo celular, um a um morre de forma brutal.
 
O primeiro filme da trilogia “Uma chamada perdida”, dirigido pelo mestre japonês da violência gráfica Takashi Miike, é uma obra que sintetiza o medo tecnológico do início dos anos 2000. Lançado em 2003, no auge dos celulares no Japão e na Europa, a premissa é simples e perturbadora: jovens começam a receber no aparelho mensagens de voz vindas do futuro, anunciando a própria morte. Quando a mensagem chega, não tem escapatória: eles irão morrer. Miike, diretor dos violentos “Audição” (1999) e “Ichi, o assassino” (2001), constrói uma atmosfera de paranoia crescente, explorando o celular como um objeto cotidiano que se transforma em um tormento. A narrativa mistura elementos sobrenaturais com crítica social, refletindo a alienação, além da fragilidade dos laços humanos em uma sociedade que começava a ficar hiperconectada (em 2003 havia a expansão do celular como meio de comunicação, época que também se dava os primeiros passos para as redes sociais). O filme não se apoia apenas em jumpscares, mas em uma sensação constante de inevitabilidade, como se cada toque do celular fosse um presságio. A estética fria e os enquadramentos claustrofóbicos, com flashes de aparição de fantasmas medonhos, reforçam o desamparo dos personagens, enquanto o espectador é convidado a pensar sobre o impacto da tecnologia na vida moderna. Roteiro de Minako Daira adaptado do romance de Yasushi Akimoto – a história daria origem a duas continuações japonesas, a um remake americano, de mesmo título, de 2008, além de uma série homônima da TV japonesa de 10 capítulos, de 2005. PS – No ano do lançamento, em 2003, saiu com o título alternativo no Brasil de “Ligação perdida”.
 
Uma chamada perdida (Chakushin ari). Japão, 2003, 112 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Takashi Miike. Distribuição: Obras-primas do Cinema
 

 
Uma chamada perdida 2
 
Em Taiwan, um cozinheiro morre ao atender a ligação que seria de sua filha. Horas depois, outras pessoas morrem de forma misteriosa a partir de ligações telefônicas de celular.
 
A continuação de “Uma chamada perdida”, realizada dois anos depois, expande o universo criado por Takashi Miike, agora sob a direção de Renpei Tsukamoto (especializado em seriados japoneses). O filme mantém a premissa das chamadas fatais, mas desloca a ação para Taiwan, ampliando o alcance da maldição telefônica e sugerindo que o fenômeno transcende fronteiras culturais. A narrativa é mais investigativa, com personagens tentando compreender a origem das ligações e suas conexões com traumas familiares – tudo parte de uma professora do jardim de infância, chamada Kyoko, que ao visitar o namorado no restaurante onde ele trabalha, escuta um toque estranho no celular, aquele que um ano atrás aterrorizou pessoas no Japão; a partir daí, quem ouve o som termina morto. Menos impactante que o anterior, o segundo filme aprofunda a mitologia introduzindo dimensão mais trágica, onde o horror não é apenas sobrenatural, mas também humano: abusos, segredos e ressentimentos que ecoam através das gerações são apresentados ao longo da trama. A direção aposta em um ritmo mais lento, privilegiando a construção de mistério em vez de sustos imediatos. Essa escolha dá ao filme um tom melancólico, que reforça a ideia de que o verdadeiro terror está na repetição de padrões de dor e violência. Ao mesmo tempo que o longa amplia o escopo da narrativa, não perde de vista sua crítica social. O filme já tinha saído em DVD no passado e agora entra no box “Uma chamada perdida”.
 
Uma chamada perdida 2 (Chakushin ari 2). Japão, 2005, 105 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Renpei Tsukamoto. Distribuição: Obras-primas do Cinema
 

 
Uma chamada perdida: A vingança
 
Para se vingar do bullying sofrido na escola, uma jovem estudante se utiliza de ligações sinistras para eliminar os colegas de sala maldosos durante uma excursão.
 
Encerrando a trilogia da cinessérie de horror japonês, o filme, dirigido pelo especialista em séries e filmes policiais Manabu Asô, é uma coprodução Japão e Coreia do Sul cuja abordagem é mais direta e comercial que os antecessores. A trama gira em torno de uma jovem que sofre bullying na escola e se utiliza da maldição telefônica para se vingar durante uma excursão. O filme aposta em uma estética mais próxima do cinema de horror adolescente, com ritmo acelerado e maior uso de efeitos visuais (as aparições de fantasmas continuam assustadoras). Apesar de sacrificar parte da atmosfera sombria dos anteriores, o terceiro longa oferece momentos de tensão eficazes – parte da história ocorre agora na Coreia do Sul (lembrando que os anteriores eram respectivamente no Japão e em Taiwan), e uma conclusão certeira tenta dar sentido ao ciclo das mortes. O destaque está em humanizar a entidade por trás das chamadas, revelando motivações ligadas ao sofrimento e ao desejo de vingança – e aqui começa a se discutir um assunto hoje aquecido, mas na época precursor, que são os vídeos virais na internet. Ainda que não alcance a complexidade psicológica do primeiro filme, cumpre o papel de encerrar a franquia de cinema com sofisticação, oferecendo ao público jumpscares, cenas com mortes sangrentas e uma reflexão sobre bullying na escola. A trilogia foi um marco do horror japonês contemporâneo, que transformava o celular em símbolo de medo e isolamento – depois dele muitos filmes imitaram a premissa, inclusive dois anos depois houve um remake americano (muito, mas muito ruim), de mesmo título, “Uma chamada perdida” (de 2008, com Edward Burns, Shannyn Sossamon e Ray Wise).
 
Uma chamada perdida: A vingança (Chakushin ari final). Japão/Coreia do Sul, 2006, 109 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Manabu Asô. Distribuição: Obras-primas do Cinema

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2


Caminhos do crime
 
Elegante thriller de assalto (nos Estados Unidos chamado de “Heist movie”) que traz um olhar sobre poder e lealdade. É uma adaptação do romance de Don Winslow, escritor norte-americano que tem diversos livros na lista dos mais vendidos do The New York Times, com roteiro e direção de Bart Layton – o trabalho anterior dele foi justamente um filme policial de assalto, “Uma aventura perigosa” (2018). Ambientado em Los Angeles, o longa traz Mike Davis (Chris Hemsworth), um ladrão meticuloso que realiza assaltos ao longo da rodovia 101, extensa via norte-sul da Califórnia que tem mais de 2400 quilômetros. Ele rouba joias, dinheiro e objetos valiosos. Seus passos cruzam com Sharon Colvin (Halle Berry), corretora de seguros em crise pessoal, e com Lou Lubesnick (Mark Ruffalo), detetive obstinado que percebe um padrão nos crimes e decide capturá-lo. O roteiro é um jogo dramático intenso de caçada a um bandido audacioso, em que cada personagem lida com dilemas morais que ultrapassam a lógica da polícia X ladrão. Layton imprime ao filme uma estética que lembra elementos de “Fogo contra fogo”, de Michael Mann, apostando em uma série de situações perigosas aos personagens (que utilizam disfarces para se infiltrar e cometer crimes) e sequências de perseguição que transformam Los Angeles em um espaço alucinante. O elenco é um dos pontos altos: Hemsworth está bem como o bandido contido e até carismático, Ruffalo encarna um investigador obsessivo, e Berry, sumida das telas, traz densidade emocional à única personagem feminina da trama. Há ainda Barry Keoghan, ótimo na pele de um criminoso impulsivo, Nick Nolte, como o veterano chefe do submundo, e participação especial de Jennifer Jason Leigh. A longa duração (140 minutos) não atrapalha o sabor do movimentado filme, que empolga e surpreende (confesso que tenho um fraco por filmes de assalto, e este me chamou a atenção por fugir do padrão, ser estiloso e vibrante). Dos estúdios MGM, passou nos cinemas brasileiros em fevereiro deste ano, com distribuição pela Sony Pictures, e agora está disponível no catálogo do Prime Video.


 
Parque Lezama
 
O veterano cineasta argentino Juan José Campanella, do ganhador do Oscar “O segredo dos seus olhos” (2009), lançou no início do mês seu novo trabalho, uma produção da Netflix que mistura comédia e drama e é inspirada na peça da Broadway da década de 80 “Eu não sou Rappaport”, de Herb Gardner. A simpática história é sobre dois idosos que se conhecem no banco da praça do Parque Lezama, em Buenos Aires (na peça original a ambientação é no Central Park), e ali ficam um dia inteiro conversando sobre o passado, a carreira, a velhice, bem como filosofias de vida, política e projetos para o futuro. Eles são León Schwartz (Luis Brandoni), um ex-militante comunista de temperamento agitado, e Antonio Cardozo (Eduardo Blanco), um senhor pacato, com Parkinson, que evita confrontos. O filme todo é naquela praça, com dois personagens trazendo memórias e discussões acaloradas, desde o raiar de um dia de sol até o anoitecer. A diferença entre eles gera atrito, mas também cumplicidade, revelando como visões de mundo contrastantes podem se complementar. Figuras passageiras cruzarão por ali, alguns em busca de conexão, outros com segundas intenções (como trombadinhas), mas nada abalará a força do encontro dos dois idosos solitários. Rodado no charmoso Parque Lezama, localizado no bairro histórico de San Telmo, em Buenos Aires, o filme se desenvolve nos diálogos da dupla de atores – o longa tem formato teatral, como muitos diálogos, elenco enxuto e apenas uma ambientação. É, em essência, uma reflexão sobre amizade, envelhecimento e persistência dos sonhos, caprichadamente conduzida por um dos melhores diretores da atualidade da Argentina. O ator Eduardo Blanco, de “Clube da lua” (2004), está ótimo (envelheceram seu personagem com maquiagem e cabelo), assim como o veterano Luis Brandoni dá um show (foi seu último trabalho no cinema, ator de uma centena de filmes argentinos, que faleceu semana passada, no dia 20 de abril, aos 86 anos). Aliás, a Argentina perdeu em abril três figuras expressivas do cinema: além de Brandoni, faleceram os diretores Luis Puenzo, de “A história oficial” (no dia 21, aos 80 anos), e Adolfo Aristarain, de “Lugares comuns” (falecido ontem, dia 26, aos 82 anos).


 
Veneno para as fadas
 
Do fim da pandemia para cá, nos últimos quatro anos, as distribuidoras viram uma janela de oportunidade para lançar, nos cinemas, filmes clássicos em versões restauradas, uma maneira de atrair tanto o cinéfilo para as salas quanto apresentar títulos de outrora para a nova geração. Retornaram aos cinemas recentemente edições de aniversário de blockbusters como “Tubarão”, “De volta para o futuro”, as franquias de cinema “Harry Potter” e “Crepúsculo”, bem como obras cult, como “Paris, Texas”, “Incêndios” e “Amores brutos”. Só no último fim de semana dois longas europeus de terror voltaram para a telona em ótima cópia restaurada em 4K: o italiano “Suspiria” (1977), de Dario Argento, e o mexicano “Veneno para as fadas” (1986), de Carlos Enrique Taboada, demonstrando que há espaço para filmes antigos seja em cinemas de shopping ou de rua. “Veneno para as fadas” é um assustador filme do terror mexicano moderno, vencedor de três Prêmios Ariel em 1986, também um persuasivo suspense psicológico sobre os medos da criança. Simbólico, o longa foi o último trabalho do diretor Carlos Enrique Taboada (1929-1997), cineasta que abriu espaço ao cinema de horror no México a partir da década de 60 (são dele também, desse gênero e desse período, as obras de horror de fantasia e mistério “Até o vento em medo”, “O livro de pedra” e “O andarilho na chuva”). Com forte atmosfera gótica e utilizando elementos do folk horror, o filme explora o imaginário infantil a partir do encontro de duas garotinhas que acabam de se conhecer; uma é Flavia, que se muda para a cidade onde reside Verónica, sua colega de escola, que se apresenta como bruxa. A amizade entre elas evolui para uma relação de poder e manipulação, na qual uma será submissa à outra. A fantasia e a crueldade infantil mesclam-se criando um ambiente de tensão psicológica interminável. Os jogos aparentemente ingênuos que elas fazem de invocar Satanás culminarão em fatos sobrenaturais de arrepiar o cabelo. Taboada recorre a manejos não-sensacionalistas nem explícitos para contar sua história; tudo é subentendido, nas entrelinhas, com penumbras e silhuetas, o que torna a obra ainda mais assustadora. O terror é sugestivo, nasce da imaginação das crianças e daquilo que parece ser, tornando a experiência do espectador incômoda (tem uma cena rápida da bruxa no caldeirão que arrepia). Rodado na Cidade do México, com orçamento modesto, cenários cotidianos e fotografia sombria, o filme conta com bom trabalho das atrizes infantis, Ana Patricia Rojo (como Verónica) e Elsa María Gutiérrez (Flavia). A volta do longa restaurado em 4K nos cinemas, com distribuição da Filmicca, enaltece (e homenageia) o cinema desse cineasta desconhecido de muitos, apresentando ao público uma obra com mais nitidez em som e imagem. A Filmicca é um streaming nacional e independente de cinema autoral e cult, com lançamentos semanais, incluindo obras inéditas e de festivais. Possui vasto acervo com mais de 500 títulos disponíveis, incluindo obras de importantes realizadores como Chantal Akerman, Kiyoshi Kurosawa, André Novais Oliveira, David Cronenberg, Mia Hansen-Løve, Miloš Forman, Víctor Erice e Djibril Diop Mambéty. E com “Veneno para as fadas”, a proposta da Filmicca é distribuir mais títulos nas salas de cinema. PS: Quem quiser conhecer mais do cinema de horror mexicano, a Versátil Home Video já lançou mais de 20 títulos em DVD, em boxes especiais, como o próprio “Veneno para fadas” e “O andarilho na chuva”, além dos cultuados “O morcego”, “Satanico pandemonium”, “A tia Alejandra” e “Alucarda”.

sábado, 25 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1


A voz de Deus
 
Exibido em première no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, onde ganhou o prêmio de edição, e depois no Festival de Brasília e na Mostra Internacional de Cinema de SP de 2025, o documentário do diretor de “A flecha e a farda” (2020), Miguel Antunes Ramos, escrito por ele e pela premiada cineasta Alice Riff (diretora de “Meu corpo é político”), estreou na semana passada em cinemas selecionados do Brasil. O filme é um estudo sobre religião e mídia em um país dividido pela política. Ramos faz um olhar íntimo sobre o universo dos pregadores mirins evangélicos, trazendo para a pauta duas personalidades midiáticas: Daniel Pentecoste, que nos anos 2000 se tornou o pregador infantil mais famoso do país, numa época em que as redes sociais engatinhavam, e João Vitor Ota, fenômeno das redes sociais que reúne atualmente milhares de seguidores no TikTok e Instagram. Daniel, duas décadas depois, sente hoje o peso do passado, principalmente a cobrança do pai, que se envolveu com política (defensor ferrenho de Bolsonaro) e queria o filho ativo nas pregações. Daniel se afastou dos holofotes e segue outras formas da espiritualidade, desafiado a se reinventar após o fim da fama precoce – segundo ele, vive agora uma nova forma de relação com a igreja, afirmando que sua fé permanece viva, mas sustentada menos pela rigidez dogmática e mais pela mensagem de amor do evangelho. Já João está no auge da visibilidade digital, ostentando nas redes. A reflexão envolve a relação de religião, mídia e política no Brasil, ainda mais quando essas figuras são crianças e adolescentes, expostas à espetacularização das plataformas, no caldo da cultura do “show do eu” (como expôs a antropóloga argentina Paula Sibilia). Filmado ao longo de cinco anos, o longa cruza a trajetória de Daniel e João por meio de vídeos antigos e depoimentos atuais num paralelismo entre as duas faces das pregações religiosas no mundo evangélico. Continua nos cinemas pela Embaúba Filmes.


 
Thelma
 
Comédia de ação sensível com mais um trabalho memorável da carismática atriz June Squibb, que transforma uma história pessoal em reflexão sobre envelhecimento, autonomia e afeto. June tinha 94 anos quando fez o filme (que é de 2024), demonstrando vitalidade em um papel que diverte e emociona. Ela é um caso à parte: trabalhou a vida inteiro no teatro e só foi aparecer no cinema na década de 90, com mais de 60 anos de idade. Em “Thelma”, June interpreta a protagonista, uma senhorinha que está aprendendo a manejar a tecnologia. Ela começa a usar o celular e o computador para os afazeres do dia a dia: pagar contas, enviar email, conversar com parentes. Um dia, cai em um golpe telefônico, acreditando que mandou dinheiro para o neto, e perde U$ 10 mil. Desesperada com o ocorrido, ela vai por conta própria atrás dos falsários para recuperar a grana, embarcando em uma jornada improvável pela cidade de Los Angeles. O roteiro equilibra humor e melancolia ao explorar duas situações da personagem central: como ela é infantilizada pela família e a vulnerabilidade dos idosos frente à tecnologia - mas a protagonista se impõe e demonstra capacidade de agir por conta. Josh Margolin, o diretor e roteirista que aqui estreou em longa-metragem, inspirou-se em sua avó para conceber Thelma Post, uma idosa espirituosa, ao mesmo tempo irônica. Outros personagens se destacam na história, como o neto dela (papel de Fred Hechinger, de “O pálido olho azul”), a filha (Parker Posey, de “Pânico 3”) e um velho amigo, que empresta uma scooter motorizada para Thelma percorrer a cidade - interpretado por Richard Roundtree, o Shaft do cinema, em seu último filme (ele faleceu logo após as gravações, em outubro de 2023). Exibido nos festivais de Sundance, Miami e Cleveland, foi indicado ao Critics Choice de melhor comédia e ao Film Independent Spirit Awards de melhor atriz para June. Acaba de entrar no catálogo da Netflix.

Estreias do mês – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

  O drama   Novo longa da A24 dirigido e roteirizado por Kristoffer Borgli, cineasta norueguês em seu segundo trabalho nos Estados Unidos (o...