Mostra Intl. de Cinema de SP começa hoje; confira filmes de destaque
A Mostra de 2026 conta com o patrocínio master da Petrobrás, o patrocínio do Itaú, a parceria institucional do Sesc, a parceria da SPCine e da Prefeitura de São Paulo, o fomento do ProAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, a colaboração da Embratur e da Netflix, o apoio do Projeto Paradiso, a promoção da Globofilmes, do Canal Brasil, Folha de S.Paulo, da TV Cultura, da Arte 1, do Instituto Bandeirantes e da Revista Piauí, além do apoio técnico da Quanta e do Cultura Artística. Realização: Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Site oficial da Mostra: https://mostra.org/ (além de redes sociais, como Facebook e Instagram).
(Brasil - 2026, de Janaína Marques)
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026 e indicado lá ao Teddy Bear, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. O filme integra a Mostra Brasil da 50ª Mostra, com exibição nos dias 15 e 27/10.
(França/Senegal/Guiné-Bissau - 2026, de Alain Gomis)
“Dao” abre com uma definição que funciona como um manifesto: “Um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e une o mundo”. A partir desse discurso, o filme mergulha numa narrativa que oscila entre o íntimo e o performático, entre o que é vivido e o que é encenado. Gloria (Katy Correa), de 50 anos, é a protagonista, uma mulher africana que preserva na França suas tradições. Ela se prepara para o casamento da filha em Paris, mas a Cidade Luz se mostra como um dos polos desse movimento circular. O outro está em Guiné‑Bissau, onde anos atrás enterrou o pai, numa cerimônia marcada por dança e lembrança dos antepassados. O filme se transpõe entre as duas nações, rompendo as fronteiras entre documentário e ficção ao nos levar para um casting da produção de um filme; “Dao” é construído em duas partes, uma de um filme ficcional e a segunda, de uma espécie de documentário que registra a preparação daquele filme que será encenado. A voz fora de cena, quase onipresente, anuncia que o primeiro passo é formar esta família que surgirá na tela. Atores e não atores são convocados para serem os membros daquele clã familiar - não apenas no papel, mas na construção de uma comunidade temporária que atravessará continentes, rituais e lutos. É como se a obra cinematográfica nos lembrasse que toda família, real ou inventada, é sempre uma ficção partilhada. À medida que viajamos entre Paris e Guiné‑Bissau, as histórias individuais se entrelaçam com heranças comuns. Amor, risos, rituais, dor e memória surgem como fios condutores que costuram um tecido híbrido, onde fatos e imaginação se confundem. O movimento circular anunciado no início reaparece constantemente, não como metáfora abstrata, mas como forma de olhar: tudo retorna, tudo se dobra sobre si mesmo, tudo ecoa. É um filme sobre complexas relações humanas, feito de uma autoralidade que há tempos não via tão bem formatada na tela. Ele não apresenta divisão em capítulos, tudo é encaixado de forma discreta, com cortes que fazem o longa transitar entre a ficção e o documentário. As tradições ritualísticas da cultura de Guiné Bissau, evocadas pelo canto e a dança, seja para o luto ou para a comemoração do casamento, trazem ritmo e brilho para a composição estética desse riquíssimo filme que é o terceiro trabalho do diretor Alain Gomis indicado ao Urso de Ouro, seguido de “Aujourd'hui” (2012) e “Felicidade” (2017). Esteve na competição oficial da Berlinale, cotado para vencer o Urso de Ouro (o que não ocorreu). O filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 18, 20, 25 e 28/10.
(Brasil – 2026, de Tiago Melo)
Depois do excelente, mas bem inusitado “Azougue Nazaré” (2018), o cineasta pernambucano Tiago Melo volta a desafiar as convenções em mais uma obra autoral, “Yellow Cake”, que teve première no festival Olhar de Cinema depois de ser exibido no Festival de Rotterdam em janeiro deste ano. Não espere um filme fácil ou tão compreensível – o assisti na abertura do festival Olhar de Cinema, no Ópera de Arame, numa sessão com 1600 pessoas, e senti ali um misto de surpresa, dúvidas e aplausos. Misturando idioma português e inglês, com atores brasileiros e americanos (com momentos que conectam com “Bacurau”), é um filme simbólico sobre exploração do território (como um “neo-neocolonialismo” tecnológico, pelos norte-americanos) e os limites da sobrevivência em um mundo marcado por tensões ambientais. Na trama, um grupo de estrangeiros no sertão da Paraíba, na cidade de Picuí, buscam uma alternativa para acabar o mosquito aedes aegypti (transmissor da dengue). Ali é uma região rica de urânio, material radioativo capaz de eliminar a doença. O experimento se chama “Yellow Cake”, encabeçado por uma cientista brasileira (Rejane Faria) em conjunto com os americanos. Só que a situação foge totalmente de controle, desencadeando disputas políticas, econômicas e territoriais naquele fim de mundo. O filme tem uma trama muito particular para os tempos exaustivos que vivemos (de ameaças recorrentes de Trump de explorar minerais raros no Brasil), dialogando com a pressão social e como as comunidades periféricas lidam com as ameaças de invasão (personagens secundários entrarão nesse conflito, no caso os papéis de Tania Maria e Valmir do Côco). Tudo é árido e opressivo, com um toque menor de um humor mais direto (exatamente nas falas e ações de Tania Maria e Valmir do Côco). Parece ser futuro, mas um futuro sem distopia ou mudanças radicais de cenário – o que deixa o filme também ambíguo. O desfecho atinge a linha do brutal, quase um cinema raiz B de scifi setentista (o que gostei muito). O filme integra a Mostra Brasil da 50ª Mostra, com exibição nos dias 22 e 27/10.
(EUA - 2022, de James Gray)










