O delator
Fita porrada
de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um
lançamento exclusivo nos principais streamings brasileiros com distribuição da
A2 Filmes. Como todo bom entretenimento policial feito na Coreia do Sul, carrega
uma trama ágil, cheia de peripécias e reviravoltas, envolvendo aqui o submundo
do crime, com corrupção policial e delações usadas por bandidos para a redução
da pena na cadeia. Em um bairro tomado pelo tráfico de drogas, dois “yadang”
(informantes) atuam como intermediários entre criminosos e autoridades,
manipulando provas e dados para benefício próprio. A dupla se infiltra em um
grupo de bandidos perigosos, e a cada passo dado são encurralados por policiais
corrompidos e organizações escusas. O filme, original e com críticas sociais, trabalha
bem o tema das questões legais em torno do tráfico de drogas na Coreia do Sul, lá
considerado um crime gravíssimo - o país possui uma das legislações antidrogas
mais rígidas do mundo, e o governo adota há muito tempo uma política de
"tolerância zero" tanto para o comércio quanto para o consumo de
substâncias ilícitas. Nesse ambiente, surgem personagens que se desviam, corrompem
corporações e tentam se proteger nas delações premiadas (algo agora em vigor no
país). Preste atenção já que há muitos detalhes nas subtramas das figuras
centrais do longa – ao todo há pelo menos três histórias que correm paralelas,
aos poucos se afunilando até o movimentado desfecho (com lutas marciais, tiros
e mortes violentas). No elenco, destacam-se os atores Yoo Hai Jin, de “O
motorista de taxi” (2017), e Park Hae-joon, de “12.12: O dia” (2023). Engatei no
filme, é uma boa pedida e poderá agradar fãs do cinema policial oriental. Pode
ser encontrado para aluguel em plataformas digitais de streaming e VOD, como
Claro TV+, Vivo Play, Apple TV, Prime Video e Google Play.
Gonzaguinha
– Da maior liberdade
Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival
de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao
compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu
falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a
começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas
linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta
Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos
dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação,
cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas,
trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a
ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os
capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que
você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica,
outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura
militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa,
Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz
Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a
bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado
dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha
fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos
tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês
juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada
minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime
militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da
época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições).
Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando
seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social.
Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na
primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais
contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista
completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua
geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do
documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está
num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que
trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB
(como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela
cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas
célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela”
(2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas
na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais
cinema com distribuição da Synapse Distribution.