Futuro
futuro
Está em
cartaz nos cinemas essa ficção científica distópica brasileira, novo trabalho
de Davi Pretto, diretor de “Rifle” (2016) e “Continente” (2024), que foi o
vencedor do Troféu Candango de melhor longa no Festival de Brasília, além de
ter ganhado lá também os prêmios de roteiro, montagem e menção honrosa para o
ator Zé Maria Pescador (uma descoberta incrível esse ator). É um drama scifi
desafiador que cria uma Porto Alegre chuvosa, uma metrópole decadente,
conflitante e labiríntica, marcada pela presença da Inteligência Artificial e
por uma estranha síndrome neurológica. Na trama, acompanhamos K (Zé Maria
Pescador), um homem que andarilha pela cidade, sem memória. Ele é acolhido por
um senhor solitário (João Carlos Castanha) em seu simples casebre. A relação
entre os dois vira um misto de sexo e companheirismo, até K se viciar em um
dispositivo tecnológico: sentado à frente da peça, o objeto lança um triângulo
infravermelho em sua testa, que o faz conhecer uma outra cidade e situações
absurdas. O filme funciona como metáfora para os dilemas contemporâneos: a
dependência tecnológica, a fragilidade da memória num mundo tomado pela rapidez
das coisas e a luta por sentido em um mundo cada vez mais fragmentado e mediado
por máquinas. Filme de atmosfera sombria e pessimista, faz críticas diretas em
como a tecnologia nos molda, com dispositivos viciantes, transformando sem
volta os humanos. Filme de festival, com pegada diferente e nada fácil de
digerir (por isso mesmo interessante, que vale conhecer). Exibido no Festival
Olhar de Cinema, está nos principais cinemas do país, com distribuição da
Cajuína Filmes.
Toquinho:
Encontros e um violão
Documentário
que celebra os 80 anos do cantor e compositor Toquinho (nascido Antonio Pecci
Filho), um músico notável, que percorreu o samba, os afrosambas e a MPB, tendo longa
parceria com Vinicius de Moraes. Dirigido por Erica Bernardini, diretora do Festival
de Cinema Italiano no Brasil (onde o filme estreou na edição de 2024), o doc
acompanha as cinco décadas de carreira do artista, entrelaçando memórias
pessoais a entrevistas antigas e imagens de arquivo (muitas da infância e juventude
dele, além de turnês no Brasil e na Itália, sua segunda “casa”). É uma obra
afetuosa, com Toquinho gravado especialmente para o longa, falando para a câmera
e tocando palinhas, enquanto as imagens de outrora dele cobrem o filme. Há depoimentos
de amigos que relembram parcerias na música com Toquinho, como Ivan Lins, Jane
Duboc, Carlinhos Vergueiro e até a icônica cantora italiana que gravou suas canções
Ornella Vanoni (falecida no final do ano passado). O violão surge como
protagonista, não apenas como instrumento, mas como extensão da identidade de
Toquinho, e revela sua habilidade em unir técnica refinada e sensibilidade
popular. No filme viajamos com canções do artista que fizeram sucesso, como “Tarde
em Itapuã” e “Regra três”, estas em parceria com Vinicius, e “Aquarela”. É um
filme simples na forma, na própria edição sem muitos recursos, mas bem intencionado,
que celebra merecidamente a vida e a trajetória desse grande músico brasileiro.
Está em cartaz nos principais cinemas do país com distribuição da Pandora
Filmes.

Nós
acreditamos em você
Está na
minha lista particular das melhores estreias do ano esse drama belga de forte
impacto emocional, dirigido e roteirizado pela dupla estreante Charlotte
Devillers e Arnaud Dufeys. Recebeu Menção Especial de Melhor Primeiro
Longa-Metragem na Berlinale 2025, e agora está nos principais cinemas
brasileiros pela distribuidora Filmes do Estação. É uma história tensa que olhar
atento aos detalhes, cuja trama acontece integralmente em poucas horas, em uma
sala fechada. Ali está Alice, uma mãe que trava uma batalha judicial pela
guarda dos filhos após acusar o ex-companheiro de crimes sexuais contra eles
(menores de idade). O que deveria ser um processo centrado na proteção das
crianças vira do avesso, em um julgamento da própria conduta da mãe, revelando um
sistema que fragiliza a vítima. Na sala estão a juíza do caso, assistentes
jurídicos, agentes de segurança, advogados e o pai, acusado do crime. A angústia
cresce a cada depoimento, e o filme trabalha muito bem esse ponto, com foco na
protagonista, interpretada brilhantemente pela belga Myriem Akheddiou, atriz de
“O garoto da bicicleta” (2011) e “Titane” (2021). O longa aborda um tema discutido
amplamente na sociedade hoje, a violência sexual contra crianças dentro do
ambiente doméstico, e trabalha a coragem, a dor e a urgência dessa mãe na
tentativa de provar os crimes sobre seus filhos - mas descredibilizada a todo
instante pelo olhar da justiça, que duvida de suas palavras. Gravado no formato
4:3 (ou 1.33:1, conhecido por “tela cheia”), tem predominância de primeiros
planos, que tornam o filme angustiante e claustrofóbico, aproximando o
espectador das expressões e silêncios dos personagens. Conciso em seus 78
minutos de duração, é uma obra séria e competente, que merece ser vista e
debatida.

Marsupilami – Confusões a bordo
Comédia de aventura infantil feita na França, o filme estreou nos cinemas no último fim de semana, pela Paris Filmes. É um passatempo (bem passatempo mesmo), tipo uma Sessão da Tarde, para crianças, que mistura atores reais e animação digital. E que resgata um personagem famoso na França, criado em quadrinhos nos anos 50 por André Franquin, o Marsupilami. No passado, Marsupilami ganhou seriado animado, telefilme, e agora é a maior produção sobre ele, dirigido e estrelado pelo comediante Philippe Lacheau. A história acompanha um funcionário de um zoológico que, para salvar seu emprego, aceita transportar secretamente um pacote vindo de um país chamado Palômbia. Ele viaja de cruzeiro ao lado da ex-esposa, do filho e de um colega atrapalhado, e descobrem que estão carregando um filhote de Marsupilami, criatura rara e travessa (uma espécie de marsupial, amarelo, com traços de onça pintada). Só que atrás deles estará uma gangue que quer capturar o animalzinho, dando início a uma sucessão de confusões. É uma história cheia de corre-corre, para crianças pequenas, que conhecerão um novo formato do famoso personagem, agora em computação gráfica (isso o atualiza e dá novos rumos para as antigas histórias de Franquin). Atores franceses conhecidos aparecem no longa, como Jamel Debbouze e Jean Reno. Achei engraçadinho, mas nada além do trivial em filmes desse naipe.
