Backrooms:
Um não-lugar
Terror
instigante com forte clima de mistério que leva para o cinema a estranha atmosfera
criada por Kane Parsons em seu seriado homônimo no YouTube anos atrás. Ele
transforma uma lenda da internet em uma experiência sensorial marcada pelo
minimalismo visual. Quem assistiu à série do Youtube (disponível gratuitamente
no perfil de Parsons) sabe que é uma doideira aquilo tudo, um seriado desconexo,
cujos episódios são irregulares e não dependem um do outro. Trago um pouco da
série para caminhar para algumas explicações em torno do filme que vem fazendo
sucesso inesperado nas salas de cinema. Em 2022 Parsons (apelidado de Kane
Pixels) criou o projeto de vídeos “The Backrooms”, inspirado em “liminal
spaces”, conceito de jogos de salas fechadas e abandonadas, em que alguém (em
primeira pessoa) explora o ambiente, sem saber o que irá encontrar pelo
trajeto. Às vezes há flashes ao fundo de uma criatura disforme, em outros sons
peculiares de vozes vindas de uma rádio, em outros passos e até de gente
correndo com trajes de proteção de material radioativo. Esses episódios foram
inspirados nas tais creepypastas (lendas de terror que inundam fóruns da
internet, criadas por anônimos) e found footage. Entre 2022 e 2025 o jovem
cineasta Parsons (veja que prodígio, começou a série aos 16 anos na internet e
conquistou milhões de visualizações com seus vídeos) lançou 25 episódios de
duração variada (de 1 a 40 minutos cada), totalizando 176 minutos, sempre no
mesmo cenário: um ambiente com quartos infinitos de cor amarelada, com perfeita
geometria. A série descontinuada traz conceitos de scifici envolvendo
cientistas, lixo tóxico, criaturas e tensão permanente (eu assisti à série
todinha, alguns episódios são bem instigantes, outros são sem sentido total e
cansativos). O filme agora amplia a visão de Parsons (hoje com 20 anos de
idade) para uma trama com começo, meio e fim, diferente da série. Nele, vemos o
proprietário de uma loja de móveis (Chiwetel Ejiofor) frustrado com a vida, que
faz terapia e mora num espaço improvisado numa sala do próprio trabalho. Um dia
vê uma luz estranha na divisória de uma das paredes da loja; ao tocá-la, ele se
transpõe para uma outra dimensão, um “não-lugar”, que é exatamente o Backroom
da série: um lugar infinito, inabitado, extradimensional, formado por
corredores de labirintos e salas amarelas. Ali, a realidade como conhece parece
se esvair. Escuta um som estranho, há manequins espalhados, vozes vindas de um
walkie talkie, fios que conectam televisores, cadeiras amontadas, ou seja, tudo
muito confuso. Ele explora o local, até que sai para contar o que viu para sua
terapeuta (Renata Reinsve), que duvida então de sua sanidade. Até que o homem
monta um grupo de pessoas para entrar no Backroom e filmar os espaços. Eles se
perdem e ficam em salas separadas, percebem que há uma presença sinistra ali, e
desaparecem. Então a terapeuta vai até lá verificar o sumiço do paciente,
descobrindo a fenda luminosa que a transporta para as salas infinitas. O filme
trata o tempo todo de um medo intenso de um lugar desconhecido e vazio,
interminável, de pura repetição. Os personagens são levados à loucura quando
entram em outros tipos de quartos, um vermelho com árvores de natal, um que
parece um spa com piscinas, todo alagado. O que seria o Backroom? É um lugar
que existe fora da realidade ou apenas dentro da cabeça dos personagens? O
tempo todo o longa faz esse questionamento. O design é fiel à estética dos
vídeos que viralizaram na web: paredes amareladas, carpete gasto, iluminação
fluorescente (realmente um design efusivo, o ponto alto do filme, com mais de
80 cenários diferentes, cada vez mais amedrontadores, bem caóticos). Esse
minimalismo não é apenas visual, mas conceitual: o espaço é desprovido de
identidade, reforçando a ideia do “não-lugar”, onde o ser humano perde
referências. A atmosfera segue os efeitos digitais discretos, usados para
sugerir presenças invisíveis e distorções espaciais, o que dá muito certo nesse
filme que pegou em cheio o público (de um orçamento mínimo, de U$ 10 milhões, já
arrecadou nas salas U$ 210 mi). Há uma aura de filme bizarro, estranhíssimo,
que vem atiçando a curiosidade do público, por isso essa bilheteria – além de
trazer dois atores de peso, indicados ao Oscar, em ótimos papéis (o britânico Ejiofor
e a norueguesa Renata). A marca da produtora A24 é também chamariz, sempre
trazendo filmes conceituais e diferenciados do mercado tão saturado de filmes
de terror. Parsons é mestre em VFX, processo digital feito na pós-produção, que
utiliza cenas reais com CGI, recorrendo a simulação 3D, composições, remoção de
objetos indesejados etc, que o fez tanto na série quanto no filme. Norte-americano,
ele reuniu um pouco da profissão dos pais para sua formação e até colocou algo
disso no filme: o pai era programador de videogames e a mãe, terapeuta (o que
explica o papel de Renata Reinsve). Estudou desde cedo efeitos visuais e jogos,
e quando criou seu canal no Youtube em 2015, para postar jogos de Minecraft e
memes, criou o “Backroom”, que viralizou rapidamente. Agora no seu primeiro
contato com o cinema, nessa adaptação, ele mantém a parte boa e a essência da
obra conceitual do seriado, explorando também os conflitos humanos e o poder da
mente, com uma estética caseira, mas avassaladora - mistura cenas de câmera
manual em primeira pessoa (estilo “A bruxa de Blair”) com gravações de atores na
frente da câmera. Cai um pouco na parte final, porém ainda assusta (definiria o
filme como um terror psicológico com ficção científica).

Cordélicos
– A origem do Cabra da Peste
Animação
brasileira independente lançada nos cinemas no último fim de semana pela
Retrato Filmes, é uma fita que explora o cordel para o público jovem, com muito
humor, ação e traços peculiares, com uso de formas que recorrem à xilogravura.
Há de se notar ainda elementos de ficção científica e estética cyberpunk, com
canções populares rítmicas, que criam um sertão futurista onde cangaceiros
viajam no tempo para enfrentar o mítico vilão Cabra da Peste. O longa dirigido
por Ale McHaddo (pioneira no cinema de animação, que lá atrás fez o bizarro
curta que ganhou festivais “A lasanha assassina”) parte de uma premissa curiosa:
levar as tradições seculares do cordel para o mundo tecnológico da ficção
científica, criando um contraste inimaginável. A trama acompanha um grupo de
cangaceiros que encontram e usam uma máquina do tempo, e são lançados ao ano de
3333. Nesse futuro distópico, o sertão se converte em um “Neo Nordeste” povoado
por robôs, alienígenas e recursos super avançados, ainda marcado pela memória
cultural do cangaço. O vilão Cabra da Peste os persegue até lá para uma
vingança. Há crítica social e texturas de uma rica brasilidade nesse filme
engraçado, dinâmico, curtinho, que cativa pelos personagens e seus sotaques,
cujas vozes são feitas por ótimos atores, como Bruno Garcia (como Capitão
Rocha), Tadeu Mello (como Sid), Raissa Xavier (Bonita), Carol Góes (Rimbi),
Marcelo Mansfield (Cabra da Peste), Felipe Mazzoni (Tatux e Corisco) e o cantor
e ator Falcão (como Falcão Espacial). Diversão ágil para crianças e jovens.
Todo
mundo em pânico
As
bilheterias no mundo engordaram com o novo “Todo mundo em pânico”, o sexto
filme da franquia que retornou com tudo aos cinemas no último fim de semana, uma
fita escrachada que implode os vícios da cultura americana e parodia os filmes
de terror da atual safra (além de fazer uma série de autocríticas do próprio
elenco). A comédia besteirol é de uma liberdade criativa infinita, bem superior
aos anteriores (que foram ficando envelhecidos, esculachados, mal-feitos e sem
sentido). Há reciclagem das piadas e referências, reunindo o elenco original (como
Regina Hall, os irmãos Marlon e Shawn Wayans, Anna Faris, Lochlyn Munro, Chris
Elliott, Carmen Electra e Dave Sheridan), que usam e abusam de zoeiras,
cafonices e ousadia para manter o legado da franquia. As piadas políticas se
superam: tem citações aos movimentos “Me too” e “Vidas negras importam”,
críticas ferozes a Trump e sua polícia fascista que caça imigrantes, o “Ice”,
referência à invasão ao Capitólio, a Musk e ao pedófilo Jeffrey Epstein.
Criticam a cultura das lives e dos influencers e a era do cancelamento, caçoam
da linguagem como gírias e pronome neutro, e parodiam mais de 20 longas da
última década, não só de terror, mas animações e policial, como “Corra!”, “Pânico”,
“Pecadores”, “Halloween”, “Guerreiras do K-pop”, “Sorria”, “Michael”, “Longlegs
– Vínculo mortal”, “A substância”, “John Wick” e “Bailarina, “Candyman”, “A hora
do mal” e até uma passagem de segundos, muito engraçada, de “As branquelas”.
Abre com Teyana Taylor como ela mesma numa referência a ter perdido o Oscar
desse ano. Curti e rachei de rir em alguns momentos (pelo menos me aliviei
nesse puro suco de entretenimento que não se disfarça em ser “enlatado cultural”).
Como disse, é bem melhor que os filmes anteriores da franquia que completou 26
anos – quase todos os outros foram campeões de indicações no Razzie Awards, com
Lindsay Lohan e Carmen Electra vencendo de “pior atriz”, junto de The Stinkers
Bad Movie Awards, que também existiu em Los Angeles por quase 30 anos para
premiar os piores. A cinessérie nasceu em 2000, numa década marcada pelo
besteirol que enchia as salas de jovens (como “American pie” e “Jackass”), e a
cada dois anos aparecia um novo filme zoeira do grupo; desde 2013 não havia um exemplar,
e este, que se chamaria “parte 6”, devido ao lapso de tanto tempo, ficou, a
mando da distribuidora Universal, apenas “Todo mundo em pânico” - já que também
em nenhum há relações diretas de continuação. Está nos cinemas fazendo boa
bilheteria - vá para rir muito e se soltar, e espere até os últimos minutos,
pois há duas cenas pós-créditos.