sábado, 24 de outubro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Anatomia do caos
 
Com as eleições chegando, e o risco democrático que o Brasil corre, a distribuidora Descoloniza Filmes disponibilizou gratuitamente o documentário “Anatomia do caos” (2026) em suas redes, no Youtube, e na de parceiros até o dia 26/10, como o Instituto Conhecimento Liberta, Rede TVT e o canal do psicanalista Christian Dunker. O doc, que foi exibido nos principais cinemas no primeiro semestre desse ano, é um retrato assustador do governo de Jair Bolsonaro no enfrentamento da crise do coronavírus, entre 2020 e 2022. O longa vira um imenso mosaico com centenas de falas do ex-presidente, que viralizava discursos contra a vacina, contra a pandemia da covid, soltando fake News todo dia e fazendo chacota com a doença e os doentes. A diretora Dandara Ferreira teve acesso a imagens dos bastidores da CPI da Covid (aberta no Senado Federal para analisar e tratar do caso dentro da política) e traz os desdobramentos da investigação em torno do governo Bolsonaro e de outros atores políticos que conduziram erroneamente a crise sanitária do coronavírus, que resultou na morte de mais de 700 mil brasileiros. É um filme indigesto por natureza, por expor na tela figuras hipócritas e ensandecidas destilando desinformação no período mais cruel da História recente do país. O filme é também uma forma de analisar os mecanismos da estrutura de poder no governo passado, com toda a truculência contra jornalistas e o pânico social gerado com falas mentirosas e outras criminosas. Um filme para ver, estudar e nos alertar da tragédia de um passado super recente nas páginas da política brasileira. Link direto para os interessados em ver o filme - https://www.youtube.com/watch?v=8Gg9bZLbi18&t=11s
 

 
Naza
 
Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Vitrine Filmes o novo e contundente documentário dirigido pela dupla israelense Yuval Abraham e Rachel Szor, ganhadores do Oscar pelo filme “Sem chão” (“No other land”), em 2025. O jornalista Yuval Abraham e a ativista Rachel Szor se reúnem novamente para tratar da guerra sem precedentes e a consequente crise instalada na Faixa de Gaza pelas tropas israelenses. Em “Sem chão” (que ao lado deles tinha outro codiretor, Hamdan Ballal, sequestrado, preso e quase morto pelos militares israelenses devido à repercussão do filme anterior), a história se passava na zona de tiro de Masafer Yatta, região no sul da Cisjordânia (próxima a Hebron), composta por cerca de 20 aldeias palestinas que foram massacradas, o que forçou a população a fugir de lá. Agora, em “Naza” (2026), os diretores investigam os mecanismos de extermínio em massa na Faixa de Gaza, por Israel, a partir do ponto de vista de 24 soldados, militares e agentes de Inteligência do Exército que atuam em operações especiais na guerra iniciada em outubro de 2023. São depoimentos crus, reveladores, de deixar qualquer um estarrecido, com nó na garganta; sentados no terraço de um velho prédio em Tel Aviv, eles contam (parte deles com muita tranquilidade) como eram as missões que chegavam até eles: de matar qualquer um em movimento, com uso de equipamentos e armas de precisão, atirando bombas em bairros inteiros para eliminar integrantes do Hamas, a organização terrorista da Palestina. Em um dos depoimentos, um oficial relembra a suspeita de um integrante do Hamas num prédio, então ordenou o lançamento de um míssil; quase uma centena de inocentes morreu, e não localizaram o terrorista. Aí está o significado da palavra “Naza”, um acrônimo militar em hebraico utilizado pelos serviços de Inteligência de Israel para se referir a "danos colaterais", ou seja, a estimativa de quantos inocentes podem morrer em um ataque, mesmo que for para a captura de um membro do Hamas. Portanto, o filme evidencia o que a mídia estampa nos jornais pelo mundo afora: em Gaza ocorre um genocídio escancarado, orquestrado, aos olhos do mundo. Dados oficiais apontam mais de 74 mil mortos (incluindo 1.500 mortes registradas após o início do cessar-fogo) e 174 mil feridos em Gaza desde 2023, o que muitos acham subestimado. Crianças, bebês e mulheres são as principais vítimas, e há milhares de desaparecidos nos escombros – Gaza foi praticamente ao chão após inúmeros bombardeios nesses três anos de uma guerra insana autorizada pelo primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e com apoio dos Estados Unidos. O filme reúne esses depoimentos inéditos, de homens enfurnados numa guerra voraz, questionados pelos diretores em torno da ética militar. A première do filme ocorreu em setembro passado, no Festival de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro, e ganhou lá cinco prêmios, incluindo o Prêmio Especial do Júri. Também foi exibido nos festivais San Sebastián, Nova York, Zurique e Bolonha, e é forte candidato ao Oscar de melhor documentário de 2027. Um dos melhores documentários do ano. Assistam.

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