sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Especial de Cinema

 
50ª Mostra Intl. de Cinema de SP segue com filmes de destaque
 
Iniciada ontem, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, nesta edição de 50 anos, segue com dezenas de filmes diários em mais de 50 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming. Confira abaixo filmes já assistidos e que indico:


 
Deixem-nos passar, caros ancestrais
(Filipinas - 2026, de Lav Diaz)
 
Todo novo filme do cineasta filipino Lav Diaz entra na programação da Mostra de SP, e foi aqui que conheci o cinema desse diretor. Diaz realiza filmes marcados pela extrema duração (que variam entre três e cinco horas), recorrente fotografia em preto e branco, gravação em locações (quase sempre em florestas), longos planos estáticos e também é o roteirista das obras, de forte discussão da História política e social das Filipinas. Um dos principais expoentes do slow cinema, Diaz é o maior nome do cinema de seu país, cujos filmes marcam presença em festivais como Cannes, Berlim e Veneza. “Deixem-nos passar, caros ancestrais” é outra obra orgânica autoral dentro de sua filmografia típica, que parece derivar das anteriores e volta a tratar das origens do seu povo e da relação deles com a natureza - mas aqui puxando outro tema, a colonização. A história se passa no início do século XVII nas Ilhas Filipinas. Um padre espanhol leva o catolicismo para dentro das florestas, onde habitam os indígenas. Ele tem boa relação com aquela comunidade, mas é evidentemente uma figura que veio para colonizar, implantar a cultura branca e a religião aos futuros convertidos. Porém os indígenas resistem com seus ritos próprios, sua devoção e hábitos. O drama se passa integralmente nas florestas nuas sob o som de cigarras, tratando do contraste entre civilização e dominação (a Espanha invadiu as Filipinas e por três séculos manteve os domínios daquelas terras). Vencedor de um prêmio especial no Festival de Veneza, o filme integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23 e 25/10 e 01/11.

 
 
Atlas mágico
(Singapura - 2026, de Sun Xun)
 
Animação surrealista de Singapura que demorou 10 anos para ser produzida (de 2016 a 2026). No meio desse período veio a pandemia da covid, e o diretor (Sun Xun) optou em alterar o roteiro trazendo uma perspectiva mais densa e de visão assustadora de futuro, de confinamento e controle em uma sociedade tomada pelo autoritarismo. O isolamento social pela pandemia proporcionou a ele reunir ilustradores do mundo inteiro a fim de terminar o projeto. “Atlas mágico” fala de uma sociedade controlada, durante o chamado “Império de Luosha” (fictício, apenas criado no roteiro). Um mágico recém-chegado a uma região longínqua daquele império é preso pelo temido imperador, cujo governo é especializado em apagamento histórico (desde documentos a mapas, tornando as pessoas escravizadas, sem memória). Até que ele se encontra com um garoto perdido na multidão, que o faz viajar pelo tempo e espaço. É uma animação que mistura nanquim com ilustrações modernas pintadas a mão, numa história que vai mudando conforme as entradas dos personagens em uma espécie de multiverso dentro de um atlas mágico, onde há ditadores cruéis, animais que assumem formas humanas, criaturas bizarras, uma criança como símbolo de esperança e uma peste que dizima as pessoas (em referência ao coronavírus). Parece um sonho dentro de outro sonho, em um ambiente distópico e caótico. Animação adulta, com muitos diálogos e forte comentário social. Exibido no Festival de Locarno, onde concorreu ao Leopardo de Ouro, o filme integra a Competição Novos Diretores da 50ª Mostra, com exibição nos dias 18, 23 e 26/10.

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