A 50ª
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de
evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e
espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no
streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao
público:

A
morte não tem dono
(Venezuela/Canadá/Itália/Luxemburgo
– 2026, de Jorge Thielen Armand)
Exibido
na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, a produção venezuelana é a
representante do país para uma vaga ao Oscar 2027 de melhor filme estrangeiro.
Drama sobre colonialismo e disputa de propriedade, traz no elenco a atriz
italiana Asia Argento, filha do mestre do cinema de terror Dario Argento, em um
papel voraz, cuja trama fica toda em seu entorno. Ela é uma mulher de cinquenta
anos que viaja para a Venezuela para vender a plantação de cacau do falecido
pai. Chegando à antiga mansão da família, no meio da mata, repara que no lugar
estão morando funcionários da colheita; ela tenta negociar a saída deles, mas a
conversa é em vão. Resolve fazer justiça, pegando em armas para expulsar o
grupo, o que inicia um banho de sangue. A violência de uma mulher branca, rica
e herdeira, contra um grupo de trabalhadores rurais simboliza no filme o
colonialismo, a disputa de posse que termina em sangue, num filme dramático autoral
de ar sombrio (e com momentos que lembram o próprio terror psicológico). Há muitas
qualidades técnicas e estéticas, da fotografia estranha, levemente distorcida, ao
uso pontual dos sons da natureza, aliado a momentos de silêncio da
protagonista, que parece entrar em um pesadelo sem fim. Não é uma obra fácil,
há uma série de elementos históricos que remetem aos resquícios do colonialismo
europeu, e muitos diálogos de embate. Os filmes do cineasta Jorge Thielen
Armand (que é diretor, produtor e roteirista) trabalham nessa linha de memória
e colonialismo, como em “La soledad” e “La fortaleza”. Está na seção
Perspectiva Internacional da Mostra, com sessões nos dias 22, 23, 24 e 28/10.
Ray
Gunn
(EUA/Canadá/Espanha – 2026, de Brad Bird)
Animação
fresquinha, que acaba de ser exibida em première mundial nesse mês no BFI
Londres e agora estaciona na 50ª Mostra, na seção Perspectiva Internacional. O
filme é um barato total, para entrar de cabeça, ainda mais quem é inserido no mundo
do cinema clássico; isso porque a animação (mais para adultos do que crianças) é
cheia de metalinguagem e referências à Sétima Arte, numa divertida mistura de
cinema noir com ficção científica (como se fosse uma fita B dos anos 50). O
engraçado é a constante tensão do visual dos anos 40, com detetives de
terno-e-gravata, em salas com móveis rústicos, com paisagens futuristas, de
carros voadores. Na cidade de Metropia, tomada por arranha-céus de 800 andares,
carros possantes que voam como aviões e luzes neon por todo canto, o charmoso detetive
particular Ray Gunn (voz de Sam Rockwell) se envolve numa conspiração de assassinato
e espionagem envolvendo uma estrela de cinema arrogante, Vênus Nova (voz de Scarlett
Johansson), alienígenas e mafiosos. Para que sua investigação chegue ao fim,
contará com ajuda do parceiro de polícia, um velho alienígena verde de um olho
só, Olhívio (voz de Tom Waits). Humor, ação, romance, suspense, tudo vira uma boa
miscelânea nesta que é uma das melhores animações do ano, original do começo ao
fim, e que deve ser candidata ao Oscar 2027. Também uma homenagem ao cinema
noir, com detetive em crise, femme fatale e o submundo do crime. Brad Bird é o diretor
e roteirista, brilhante mais uma vez (ex-Disney e Pixar, criador de sucessos
como “Os incríveis” e “Ratatouille”). Longa que demorou 30 anos para ser concebido
(segundo Brad Bird), é produzido pela Skydance com a Netflix, e deve estrear no
streaming em 18/12. Conta com sessões na Mostra ainda nos dias 22, 24 e 25/10.
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