Diamantes
Fenômeno
de bilheteria na Europa, o novo trabalho do cineasta turco naturalizado na
Itália Ferzan Özpetek, de “O primeiro que disse” (2010) e outros 25 curtas e
longas, é uma homenagem ao universo da moda visto por dentro do cinema. Retrata
duas histórias distintas, mas que se complementam, divididas entre presente e
passado, cuja força feminina é a base desse drama de estética vibrante, que exibe
com detalhes os bastidores da transformação de tecidos em figurinos
elegantíssimos que serão destinados a celebridades que os usarão nas gravações
de um filme. O enredo traz um diretor de cinema, no tempo atual, planejando a
execução de um longa-metragem com suas atrizes preferidas, pensando no figurino
ideal para a obra; isto os transpõe para 50 anos antes, na década de70, em um
ateliê comandado por duas irmãs da família Canova, Alberta (Luisa Ranieri, de
“A mão de Deus”) e Gabriella (Jasmine Trinca, de “O quarto do filho”), cujas
personalidades são conflitantes. Cada uma tem um modo de pensar e agir. Com
elas, trabalham funcionárias que enfrentam dilemas universais: violência
doméstica, luto, paixões e maternidade. No ateliê, aquele grupo de mulheres
trocam segredos em conversas reservadas (um espaço de sororidade), trabalham
arduamente com o tempo contado e se unem em torno de um ideal comum: elaborar
os figurinos mais bonitos do cinema. Özpetek costura as historietas com
referências cinematográficas aos montes, como uma cena da escadaria que remete
à “Crepúsculo dos deuses”. O filme também é especial para o cineasta, uma
espécie de memórias do seu primeiro trabalho, nas décadas de 70 e 80, como
assistente de direção na Sartoria Tirelli, uma antiga casa italiana de
figurinos para o cinema. Além de Luisa e Jasmine, no elenco há outras mulheres
carismáticas que trazem vivacidade para a história, como Sara Bosi, Elena Sofia
Ricci, Anna Ferzetti (filha do falecido ator italiano Gabriele Ferzetti), Paola
Minaccioni e participação do ator Stefano Accorsi. Sucesso estrondoso na
Itália, onde liderou bilheterias por quase dois anos (o filme é de 2024),
passou em cinemas de mais de 40 países, chegando agora ao Brasil pela Pandora
Filmes, depois de ter sido exibido no Festival de Cinema Italiano no Brasil.
Hokum:
O pesadelo da bruxa
Estamos
em uma boa temporada de filmes de horror que vem levando muita gente para as
salas de cinema. Somente em maio estrearam no Brasil sete do gênero: “Exit 8”, “Dolly
– A boneca maldita”, “Love kills” (este brasileiro), “Passageiro do mal”, “Obsessão”,
“Backrooms: Um não-lugar” e “Hokum”. Os três últimos assisti numa tacada, no
último fim de semana, e gostei. Vamos para “Hokum”, um baita terror atmosférico
com um personagem só, trancado em uma pousada mal-assombrada. Nesse folk horror
inspirado em uma lenda urbana irlandesa, o ator Adam Scott (de “Krampus: O terror
do natal”) interpreta Ohm Bauman, um escritor de livros de aventura conhecido, mas
egocêntrico, que viaja para o interior da Irlanda com o objetivo de cumprir o
último desejo dos pais falecidos recentemente: espalhar as cinzas deles no
local onde se conheceram, uma floresta de sequoias. Ele também está lá para
terminar seu próximo livro, portanto se hospeda por alguns dias em uma antiga
pousada. Escuta de duas pessoas histórias funestas sobre o lugar, de que num
dos quartos nupciais uma bruxa foi aprisionada. O cômodo é mantido em segredo, isolado
por portas maciças reforçadas com cadeados. Inicialmente ele não dá bola para o
caso, mas quando uma funcionária do hotel, com quem ele conversava, desaparece,
Bauman resolve explorar os cantos da misteriosa pousada. O escritor não imagina
no que está se metendo, até se enfurnar em um pesadelo interminável. O filme é
assustador, conduzindo o espectador por uma narrativa de luto, segredos e
forças sobrenaturais, com momentos de angústia e sustos de pular da cadeira. O longa
anterior do cineasta Damian McCarthy, “Oddity: Objetos obscuros” (2024), mexia
com temas parecidos (como isolamento, figuras míticas amaldiçoadas, resolução
de crimes do passado), e agora reúne tudo isso em um terror mais explícito e de
ambiguidades (aqueles dias de terror são reais ou está na mente do protagonista?).
A figura da bruxa aparece nas penumbras, o que gera dúvidas e mais medo no espectador,
sendo uma metáfora inevitável da morte. O roteiro tem uma boa construção, com
um desfecho regular e cenas bem fotografadas de ambientes escuros (que provocam
a tensão necessária para esse tipo de filme). Está nos cinemas pela Diamond
Films.
Obsessão
Filme de
terror do momento, que está na boca do público jovem, vem lotando sessões nas
salas de exibição e causando uma série de sentimentos controversos – eu, por exemplo,
fiquei baqueado, pois aquilo tudo mexeu comigo, já que é um filme de pura
tensão psicológica que causa mal-estar. Realizado em 2025 por um cineasta
independente desconhecido, Curry Barker (que o escreveu e dirigiu), o filme foi
exibido no Festival de Toronto e, após um ano, entrou no circuito mundial,
incluindo no Brasil, com distribuição da Universal Pictures. É um terror
psicológico inquietante, com roteiro original trazendo jumpscares eficazes,
assustadores, que faz com que até desviemos o olhar nas cenas em que sabemos que
o horror explodirá na tela. Um aparente romance juvenil vira um pesadelo
sobrenatural de raízes profundas. O enredo acompanha Bear (Michael Johnston),
um rapaz solitário, que procura um novo amor após o término com a namorada. Um
dia, em uma loja de souvenirs, compra um brinquedo misterioso chamado One Wish
Willow (Salgueiro da Sorte), capaz de realizar um único desejo. Ao pedir para
ser amado por sua melhor amiga de infância, Nikki (Inde Navarrette), ele vê seu
sonho se concretizar de forma imediata. Eles iniciam um romance descomunal, só
que o amor de Nikki se converte em obsessão. O comportamento de Nikki oscila,
como se fosse duas pessoas diferentes: a garota cuidadosa, afetiva, vira em
poucos segundos uma pessoa histérica, amarga, capaz de loucuras para ter o
namorado por perto. Bear descobre que o desejo escolhido terá um preço sombrio
e irreversível. A premissa, aparentemente simples, é engenhosa, dando ao filme
uma originalidade rara no gênero, que explora os limites entre desejo, paixão e
destruição. Há momentos tensos que deixarão o público de cabelo em pé, tamanho o
clima sombrio que o diretor conseguiu instaurar. O roteiro mescla drama íntimo
com terror sobrenatural, sem recorrer a clichês, e tudo muito pessimista,
incluindo o desfecho arrasador. O filme é de puro clima de paranoia,
perseguição, loucura e claustrofobia, com tensão crescente – prepare o coração,
já adianto. Há toda uma discussão crítica sobre os relacionamentos sufocantes,
principalmente os da atualidade, dos tempos das redes sociais, fugazes e
passageiros, que corroem o casal; de um lado, um jovem inseguro que necessita
ser amado a qualquer custo, e de outro, uma garota consumida pela necessidade de
ter o namorado por perto, não o deixando sair sozinho, nem falar com os amigos.
Michael Johnston e Inde Navarrette entregam personagens difíceis de
interpretar, dando um show de performance. Eu curti o filme, um dos melhores de
terror do ano. Assista, se possível, no escurinho do cinema (para quem gosta de
levar sustos) e preste atenção em todos os detalhes.