A 50ª
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo segue em sua segunda semana de
evento, com exibição de mais de 390 filmes de 90 países em 50 salas de cinema e
espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no
streaming. Confira abaixo mais bons filmes que conferi na Mostra e indico ao
público:

O
homem mais solitário da cidade
(Áustria
– 2026, de Tizza Covi e Rainer Frimmel)
Destaque
no Festival de Berlim desse ano, o filme de arte austríaco compõe a programação
da Perspectiva Internacional da Mostra de SP, com sessões ainda nos dias 23 e
25/10. É documentário com elementos de ficção, ambientado na Viena atual, e que
retrata o dia a dia do lendário guitarrista, pianista, cantor e compositor
austríaco Al Cook, conhecido como o "Rei Branco do Blues Negro".
Influenciado por Elvis Presley, o artista de voz grave é recluso, quase não dá
entrevistas, e sua música ficou notória por juntar o blues rural tradicional do
Mississippi ao boogie e rhythm and blues. No filme, ele conta uma versão de si,
do passado e do presente, recorrendo a memórias da juventude, de perdas e do
trabalho no mundo da música. Ele está deixando o apartamento onde mora, que
será demolido, e nessa despedida fica diante das câmeras, cara a cara com a
dupla de entrevistadores (a dupla de cineastas premiados por “Vera”, Tizza Covi
e Rainer Frimmel), falando de histórias melancólicas e outras bem humoradas. As
imagens (bem montadas no filme) retratam ainda sua dedicação aos ensaios de
piano, bem como os afazeres banais do cotidiano, demonstrando um homem solitário,
que escreve músicas a mão, assiste à TV, vai ao bar bebericar sozinho ouvindo
velhas canções no jukebox etc. Além de Berlim, foi exibido nos festivais de
Nova York e Vancouver.

Emergency
exit
(Espanha
– 2025, de Lluís Miñarro)
Novo
trabalho que a Mostra traz do veterano cineasta espanhol Lluís Miñarro, de “Estrela
cadente” (2014) e “Love me not” (2019 – que eu assisti na Mostra). Em um ônibus
com destino ao além (isto mesmo, para a morte), um grupo de pessoas excêntricas
segue a viagem pela noite afora. Ali estão duas amigas idosas com roupas extravagantes,
bregas, que falam banalidades (como viagens e joias), um padre com desejos
pecaminosos com homens mais novos, uma atriz pomposa que relembra a carreira, uma
antropóloga cansada, uma mãe com a filha pequena levando flores ao cemitério.
Eles viajam sem parada, até que Eros, o deus do amor, surge na forma de um garotão
seminu, atiçando a vontade de muitos daquele ônibus. Comédia inusitada, do
cinema absurdo, curtinho, que arranca algumas risadas, mas sempre em tom melancólico.
Último trabalho da atriz frequente de Pedro Almodóvar Marisa Paredes (que
faleceu na finalização do filme, em 2024), e participação da diretora japonês
Nami Kawase. Está na programação da Perspectiva Internacional da 50ª Mostra de
SP, com sessões ainda nos dias 25, 26 e 28/10.

Lorca:
A voz partida
(Espanha/Argentina
– 2026, de Manuel Menchón)
Excelente
documentário de linguagem original, que mistura desenho com fotos, vídeos e
paisagens, sobre Federico García Lorca (1898–1936), um dos mais importantes
poetas e dramaturgos espanhóis, membro de destaque da chamada Geração de 27 e
que foi brutalmente assassinado por causa de seus posicionamentos, como a
defesa de ideias progressistas e da homossexualidade (considerada uma afronta
pela direita ultraconservadora). Lorca tornou-se alvo prioritário logo no
início da Guerra Civil Espanhola, preso várias vezes, considerado um agitador, que
mobilizava a classe artística e parte da sociedade civil. Defensor dos marginalizados,
autor de peças contestatórias e polêmicas (como “Bodas de sangue” e “Yerma”), foi
detido e sumariamente fuzilado por milícias fascistas ligadas ao general
Francisco Franco. Tinha uma genialidade artística única, revitalizando o teatro
e a poesia moderna ao fundir o vanguardismo (como o surrealismo) com a rica
cultura popular da região da Espanha onde nasceu e viveu, a Andaluzia. O filme
parte de um arquivo secreto guardado por um dos últimos amantes de Lorca, o
jornalista e escritor Juan Ramírez de Lucas – pouco antes de falecer, em 2010, Lucas
deixou que se revelassem cartas trocadas entre os dois e materiais inéditos
sobre Lorca. O longa é um arquivo vivo de importante relevância, que revela um
novo Lorca ao público. A narração do filme é do ator espanhol Álvaro Morte, que
ficou conhecido pelo papel de O Professor na série da Netflix “La casa de papel”.
Exibido no Festival de San Sebastián, é um dos grandes filmes da 50ª Mostra, em
exibição na seção Perspectiva Internacional nos dias 26, 27, 28 e 29/10.
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