terça-feira, 16 de junho de 2026

Resenhas especiais - Parte 3


À sombra do vulcão
 
Os últimos dias de vida do cônsul britânico no México Geoffrey Firmin (Albert Finney), um homem autodestrutivo, consumido pelo álcool, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
 
Astro inglês indicado a cinco Oscars, Albert Finney (1936-2019) entrega aqui uma das mais brilhantes atuações do cinema, reafirmando seu talento e poder em cena. Complexo, cheio de nuances e camadas, é um drama amargo, que se passa no Dia dos Mortos, em Cuernavaca, no México, em 1938. Na cidade tomada pela festa popular em homenagem aos falecidos, o cônsul britânico Geoffrey Firmin perambula de bar em bar, falando alto, caindo pelas ruas. Alcoólatra, ele abandona o cuidado de si mesmo, envolve-se em conflitos com vizinhos, ao mesmo tempo em que busca uma reconciliação com a esposa (papel igualmente surpreendente de Jacqueline Bisset). Tempo presente e memórias do passado se reorganizam na frente do protagonista, revelando camadas de dor, arrependimento e fragilidade. Há uma atmosfera de angústia, derrota e morte no ar, que faz crer que o personagem está em seus últimos dias. Trata-se de uma adaptação do romance existencial de Malcolm Lowry, um clássico absoluto da literatura inglesa, publicado em 1947, que mantém o clima sombrio da obra. Tal atmosfera se dá pela exímia fotografia de Gabriel Figueroa, mexicano que trabalhou com Luis Buñuel, que imprime beleza plástica às imagens do vilarejo reforçando o contraste entre a festividade popular e a decadência do personagem. Finney recebeu indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro, e Jacqueline Bisset, ao Globo de Ouro.


Dirigido pelo mestre John Huston em sua fase final, o filme também recebeu indicação ao Oscar de trilha sonora, assinada por Alex North, e foi lembrado em Cannes, concorrendo à Palma de Ouro. Está disponível em DVD pela Versátil Home Vídeo.
 
À sombra do vulcão (Under the volcano). EUA/México, 1984, 112 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por John Huston. Distribuição: Versátil Home Video
 
 
A rainha Margot
 
Em 1572, a França vivia mergulhada em violentas guerras religiosas entre católicos e protestantes. Para apaziguar os conflitos, Catarina de Médicis (Virna Lisi), mãe do rei Carlos IX (Jean-Hugues Anglade), obriga a filha Margarida de Valois, conhecida como Margot (Isabelle Adjani), a se casar com um primo distante, Henrique de Navarra (Daniel Auteuil), líder dos huguenotes (nome dado aos protestantes franceses adeptos ao Calvinismo) e primeiro monarca da Casa de Bourbon. O enlace, celebrado em Paris, deveria simbolizar a reconciliação, mas vira estopim de uma das maiores tragédias da História francesa: a Noite de São Bartolomeu, quando milhares de protestantes foram brutalmente assassinados pelos católicos.
 
Drama de época com ares de romance gótico, o premiado filme de Patrice Chéreau é inspirado no romance de Alexandre Dumas (pai), primeira parte de uma série de livros históricos de Dumas intitulado “Os romances Valois”. Com precisão histórica e sem economia de violência, o falecido Chéreau recriou a tensão da França no reinado de Carlos IX (compreendido entre 1560 e 1574), focando no casamento da princesa católica Margot com o protestante Henrique de Navarra, que serviria para liquidar com a guerra religiosa entre os dois grupos, travada há 10 anos. Até a metade, o filme reconta os passos desse casamento forjado, bem como a trama política por trás disso tudo, até culminar, da metade para o fim, com o trágico episódio da Noite de São Bartolomeu, que começou em Paris e se espalhou para diversas cidades da França durante dois dias. Naquela noite de 23 de agosto de 1572, houve uma terrível repressão católica contra os huguenotes – estima-se que entre 5 e 25 mil pessoas foram massacradas (os números são incertos até hoje). Isabelle Adjani brilha como Margot, ao lado de Daniel Auteuil, Vincent Perez, Jean-Hugues Anglade e Virna Lisi (que interpreta uma implacável Catarina de Médicis, uma senhora maquiavélica). A superprodução, com trilha de Goran Bregović, conquistou o Prêmio do Júri e o de melhor atriz em Cannes (justamente para Virna Lisi), e é considerada uma das mais impactantes representações da Noite de São Bartolomeu no cinema. Indicado ainda ao Oscar de figurino, ao Globo de Ouro de filme estrangeiro e ao Bafta de produção estrangeira, ganhou cinco prêmios Cesar, o Oscar francês, nas categorias de melhor atriz (Isabelle), coadjuvantes (Anglade e Virna), fotografia e figurino – aliás, figurino, direção de arte e fotografia são de um capricho ímpar, um verdadeiro estudo de representação e contexto, que recria perfeitamente a França do século XVI.


Sensual, ao mesmo tempo violento, o filme ficou conhecido na época do extinto VHS, e saiu em DVD em duas ocasiões – pela editora NBO, em 2010, em formato incorreto de tela, com cortes, totalizando 143 minutos, e pela Versátil Home Video, em 2020, na versão do diretor (com 153 minutos) – a cópia da Versátil está ótima, que foi restaurada pela Pathé, e o filme vem em disco duplo com 1h30 de extras e no enquadramento correto de tela, Widescreen. Um de meus filmes de época preferidos. Recomendo!
 
A rainha Margot (La reine Margot). França/Alemanha/Itália, 1994, 153 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Patrice Chéreau. Distribuição: NBO (DVD de 2010) e Versátil Home Video (DVD de 2020)
 

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