quinta-feira, 18 de junho de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas e streamings - Parte 2


Labirinto dos garotos perdidos
 
Novo filme de terror B queer do jovem cineasta paulistano Matheus Marchetti, que parece encerrar uma trilogia com personagens saídos do universo da fantasia e do sobrenatural, formada anteriormente por “As núpcias de Drácula” (2018) e “Verão fantasma” (2022). Com uma estética que lembra teatro (poucos atores em cena num ambiente fechado), o filme acompanha Miguel, um rapaz do interior que chega à cidade grande e se envolve em encontros inesperados com homens que o desejam de forma voluptuosa. Um assassino de gays ronda a noite, colocando-o sob a mira do criminoso. Novamente Marchetti desconcerta o público em uma narrativa ousada, com cenas fortes de sexo, em uma trama de muitas camadas, que transita entre horror, fantasia e romance. A atuação do elenco se assemelha à performance artística, como se fosse uma peça filmada que encarna poesia, movimentos de dança e experimentações estéticas, tudo em um cenário multicolorido (o onírico carrega traços até de “Suspiria”, de Dario Argento). É uma fábula urbana repleta de sedução, desejo e perigo constante - o longa foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Fantaspoa de 2025, confirmando o diretor como um dos nomes mais instigantes do cinema independente brasileiro contemporâneo. PS: Foi escolhido como o primeiro lançamento brasileiro nos cinemas pela Filmicca, plataforma de streaming dedicada ao cinema autoral e cult (que conta com curadoria voltada a obras de mulheres, narrativas negras e LGBTQIAPN+). Estreou na última semana, em salas selecionadas.


 
Criadas
 
Primeiro longa da cineasta Carol Rodrigues, o filme sobre racismo estrutural estreou nos cinemas brasileiros na última semana, com distribuição da Vitrine Filmes. A abordagem sensível (e cheia de simbolismos nas entrelinhas) das marcas do racismo e das contradições familiares marcam o longa que tem um tema urgente. Ele mistura drama psicológico e realismo fantástico para transformar uma casa em espaço vivo de memórias, afetos e violências que atravessam gerações. A premissa é o reencontro das primas Sandra (Mawusi Tulani), mulher negra retinta, e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), negra de pele clara, que cresceram juntas na mesma residência, mas em posições sociais distintas. Sandra retorna para buscar uma fotografia da mãe, antiga empregada doméstica da família, e topa com Mariana vivendo naquele lugar. Esse reencontro desperta lembranças da infância, mas também ressentimentos, revelando feridas não cicatrizadas. Entra em cena Raquel (Rudmira Fula), imigrante angolana responsável pela limpeza da casa. Aquela antiga residência vai além de um mero cenário: torna-se personagem central, já que nela se cruzam passado e presente, expondo hierarquias raciais e sociais ainda vigentes. O longa discute ainda precarização do trabalho, ancestralidade, solidão, invisibilidade profissional e o peso do trabalho doméstico nas relações brasileiras, utilizando um tom sobrenatural para tensionar memórias coloniais – são muitos temas, mas são bem delineados nesse drama íntimo e muito pessoal. Produzido ao longo de oito anos, “Criadas” é inspirado em vivências da própria família da diretora e roteirista Carol Rodrigues. Conquistou o prêmio de melhor atriz para suas protagonistas, Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti, na mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2025. Com produção da Gato do Parque Cinematográfica, em coprodução com Telecine, Canal Brasil, NayMovie, Cinefilm, Volta Filmes e Netas de Esméria, está nos cinemas com distribuição da Vitrine Filmes.



E seus filhos depois deles
 
Dirigido por Ludovic e Zoran Boukherma (irmãos gêmeos franceses), de “Teddy” (2020), o drama premiado nos Festivais de Veneza e Sevilha de 2024 tem como inspiração o romance homônimo vencedor do Prêmio Goncourt de Nicolas Mathieu, de 2018. É um retrato intenso da juventude francesa dos anos 1990, um típico “Coming of age” que acompanha a passagem da infância para a adolescência de Anthony (vivido pelo ator Paul Kircher), período marcado pela descoberta do sexo, rivalidades e o peso da desigualdade social. A história se desenrola em Heillange, um vale esquecido no leste da França, onde o calor sufocante do verão de 1992 serve de pano de fundo para encontros e conflitos. Anthony, de 14 anos, vive grudado com o primo, curtem um lago próximo da cidade e lá ele conhece Steph (Angelina Woreth). A menina será seu primeiro amor; para impressioná-la, decide pegar a moto do pai sem permissão e ir a uma festa, onde cruzará o caminho de Hacine (Sayyid El Alami), jovem rebelde de origem árabe. A tensão entre os dois rapazes se estenderá por anos a fio, com brigas violentas no meio da rua, ameaças e vingança. A história acompanha quatro anos na vida de Anthony (no caso, quatro verões), nos quais os destinos de Anthony, Steph e Hacine se entrelaçam. O amor juvenil e a falta de perspectivas se mesclam em uma comunidade marcada pela estagnação econômica e o preconceito racial (que reflete muito da França daquela época). Os diretores conseguiram reunir romance juvenil e drama social de uma forma orgânica, altamente crítica e super pessoal, que gera interesse do público jovem e dos adultos. O carismático ator Paul Kircher entrega um grande trabalho, por isso recebeu o prêmio de “Jovem ator” no Festival de Veneza. O filme está nos cinemas pela Imovision.


 
Eternidade
 
Após passar nos cinemas brasileiros em dezembro de 2025, chega agora na Apple TV essa comédia romântica fantasiosa sobre vida após a morte, que é um deleite, um entretenimento de qualidade que serve para consumo a todos os públicos (o longa é original da A24 em parceria com a AppleTV). Quando o assisti, essa semana, lembrei imediatamente de dois filmes de comédia dos anos 90 que me marcaram na infância, “Um visto para o céu” (1991) e “Morrendo e aprendendo” (1993), que tratam de espíritos decidindo se vão ou se ficam. Há inclusive situações bem semelhantes entre os três títulos. Em “Eternidade”, cada pessoa, após morrer, tem uma semana para decidir onde e com quem passará o resto da eternidade. Os espíritos dos recém-falecidos esperam numa espécie de limbo; nesse lugar se encontram três personagens: Larry (Miles Teller), Joan (Elizabeth Olsen) e Luke (Callum Turner), num dilema metafísico que se transforma em uma jornada de encontros e desencontros repleto de romance e confusões. A narrativa segue um fluxo de momentos absurdos, ironicamente brincando com o tema da morte de forma leve e explorando a ideia de que até no além a convivência continua sendo determinante. Com ritmo ágil e humor afiado, a obra traz reflexões existenciais em uma comédia simpática, cuja atmosfera oscila entre o surreal e o cotidiano. O trabalho sem exagero dos três atores centrais é outro chamariz para o divertido filme.

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