Labirinto dos garotos perdidos
Novo
filme de terror B queer do jovem cineasta paulistano Matheus Marchetti, que
parece encerrar uma trilogia com personagens saídos do universo da fantasia e
do sobrenatural, formada anteriormente por “As núpcias de Drácula” (2018) e
“Verão fantasma” (2022). Com uma estética que lembra teatro (poucos atores em
cena num ambiente fechado), o filme acompanha Miguel, um rapaz do interior que
chega à cidade grande e se envolve em encontros inesperados com homens que o
desejam de forma voluptuosa. Um assassino de gays ronda a noite, colocando-o
sob a mira do criminoso. Novamente Marchetti desconcerta o público em uma
narrativa ousada, com cenas fortes de sexo, em uma trama de muitas camadas, que
transita entre horror, fantasia e romance. A atuação do elenco se assemelha à
performance artística, como se fosse uma peça filmada que encarna poesia,
movimentos de dança e experimentações estéticas, tudo em um cenário
multicolorido (o onírico carrega traços até de “Suspiria”, de Dario Argento). É
uma fábula urbana repleta de sedução, desejo e perigo constante - o longa foi
exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Fantaspoa de 2025,
confirmando o diretor como um dos nomes mais instigantes do cinema independente
brasileiro contemporâneo. PS: Foi escolhido como o primeiro lançamento
brasileiro nos cinemas pela Filmicca, plataforma de streaming dedicada ao
cinema autoral e cult (que conta com curadoria voltada a obras de mulheres,
narrativas negras e LGBTQIAPN+). Estreou na última semana, em salas selecionadas.

Criadas
Primeiro
longa da cineasta Carol Rodrigues, o filme sobre racismo estrutural estreou nos
cinemas brasileiros na última semana, com distribuição da Vitrine Filmes. A
abordagem sensível (e cheia de simbolismos nas entrelinhas) das marcas do
racismo e das contradições familiares marcam o longa que tem um tema urgente. Ele
mistura drama psicológico e realismo fantástico para transformar uma casa em
espaço vivo de memórias, afetos e violências que atravessam gerações. A
premissa é o reencontro das primas Sandra (Mawusi Tulani), mulher negra
retinta, e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), negra de pele clara, que cresceram
juntas na mesma residência, mas em posições sociais distintas. Sandra retorna para
buscar uma fotografia da mãe, antiga empregada doméstica da família, e topa com
Mariana vivendo naquele lugar. Esse reencontro desperta lembranças da infância,
mas também ressentimentos, revelando feridas não cicatrizadas. Entra em cena Raquel
(Rudmira Fula), imigrante angolana responsável pela limpeza da casa. Aquela
antiga residência vai além de um mero cenário: torna-se personagem central, já
que nela se cruzam passado e presente, expondo hierarquias raciais e sociais
ainda vigentes. O longa discute ainda precarização do trabalho, ancestralidade,
solidão, invisibilidade profissional e o peso do trabalho doméstico nas
relações brasileiras, utilizando um tom sobrenatural para tensionar memórias
coloniais – são muitos temas, mas são bem delineados nesse drama íntimo e muito
pessoal. Produzido ao longo de oito anos, “Criadas” é inspirado em vivências da
própria família da diretora e roteirista Carol Rodrigues. Conquistou o prêmio
de melhor atriz para suas protagonistas, Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti,
na mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2025. Com produção da Gato do
Parque Cinematográfica, em coprodução com Telecine, Canal Brasil, NayMovie,
Cinefilm, Volta Filmes e Netas de Esméria, está nos cinemas com distribuição da
Vitrine Filmes.

E
seus filhos depois deles
Dirigido
por Ludovic e Zoran Boukherma (irmãos gêmeos franceses), de “Teddy” (2020), o drama
premiado nos Festivais de Veneza e Sevilha de 2024 tem como inspiração o
romance homônimo vencedor do Prêmio Goncourt de Nicolas Mathieu, de 2018. É um
retrato intenso da juventude francesa dos anos 1990, um típico “Coming of age” que
acompanha a passagem da infância para a adolescência de Anthony (vivido pelo ator
Paul Kircher), período marcado pela descoberta do sexo, rivalidades e o peso da
desigualdade social. A história se desenrola em Heillange, um vale esquecido no
leste da França, onde o calor sufocante do verão de 1992 serve de pano de fundo
para encontros e conflitos. Anthony, de 14 anos, vive grudado com o primo,
curtem um lago próximo da cidade e lá ele conhece Steph (Angelina Woreth). A menina
será seu primeiro amor; para impressioná-la, decide pegar a moto do pai sem
permissão e ir a uma festa, onde cruzará o caminho de Hacine (Sayyid El Alami),
jovem rebelde de origem árabe. A tensão entre os dois rapazes se estenderá por
anos a fio, com brigas violentas no meio da rua, ameaças e vingança. A história
acompanha quatro anos na vida de Anthony (no caso, quatro verões), nos quais os
destinos de Anthony, Steph e Hacine se entrelaçam. O amor juvenil e a falta de
perspectivas se mesclam em uma comunidade marcada pela estagnação econômica e o
preconceito racial (que reflete muito da França daquela época). Os diretores
conseguiram reunir romance juvenil e drama social de uma forma orgânica,
altamente crítica e super pessoal, que gera interesse do público jovem e dos adultos.
O carismático ator Paul Kircher entrega um grande trabalho, por isso recebeu o prêmio
de “Jovem ator” no Festival de Veneza. O filme está nos cinemas pela Imovision.

Eternidade
Após
passar nos cinemas brasileiros em dezembro de 2025, chega agora na Apple TV
essa comédia romântica fantasiosa sobre vida após a morte, que é um deleite, um
entretenimento de qualidade que serve para consumo a todos os públicos (o longa
é original da A24 em parceria com a AppleTV). Quando o assisti, essa semana,
lembrei imediatamente de dois filmes de comédia dos anos 90 que me marcaram na
infância, “Um visto para o céu” (1991) e “Morrendo e aprendendo” (1993), que
tratam de espíritos decidindo se vão ou se ficam. Há inclusive situações bem
semelhantes entre os três títulos. Em “Eternidade”, cada pessoa, após morrer,
tem uma semana para decidir onde e com quem passará o resto da eternidade. Os
espíritos dos recém-falecidos esperam numa espécie de limbo; nesse lugar se
encontram três personagens: Larry (Miles Teller), Joan (Elizabeth Olsen) e Luke
(Callum Turner), num dilema metafísico que se transforma em uma jornada de
encontros e desencontros repleto de romance e confusões. A narrativa segue um
fluxo de momentos absurdos, ironicamente brincando com o tema da morte de forma
leve e explorando a ideia de que até no além a convivência continua sendo
determinante. Com ritmo ágil e humor afiado, a obra traz reflexões existenciais
em uma comédia simpática, cuja atmosfera oscila entre o surreal e o cotidiano.
O trabalho sem exagero dos três atores centrais é outro chamariz para o divertido
filme.
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