domingo, 14 de junho de 2026

Resenhas especiais - Parte 1


A primeira Barbie negra
 
Documentário sobre a criação da primeira Barbie negra, nos anos 80, que, ao mesmo tempo, revolucionou o mercado de brinquedos e auxiliou a repensar as questões da branquitude nos Estados Unidos.
 
O documentário dirigido pela cineasta preta Lagueria Davis mergulha em um tema que transcende brinquedos: a representação racial e os reflexos da branquitude nos Estados Unidos. O roteiro, super bem amarrado, parte dos experimentos sociais com bonecas nos anos de 1960, que revelavam como a ausência da diversidade reforçava a segregação. Esse pano de fundo histórico preparou o terreno para a chegada tardia da primeira Barbie negra oficial, lançada apenas em 1980 (uma boneca alta, magra, de cabelos black, com roupas coloridas, inspirada na cantora Diana Ross). Apesar de revolucionária, a boneca recebeu pouca divulgação e ainda carregava elementos estéticos dos anos 70, mostrando como a indústria demorava a reconhecer plenamente a identidade negra. O doc ganha força ao trazer depoimentos de funcionárias da Mattel (a empresa criadora da Barbie), colecionadoras de bonecas e figuras públicas pretas como a atriz indicada ao Oscar Gabourey Sidibe, que compartilham suas experiências de identificação com a boneca. A ideia do doc partiu da tia da cineasta Lagueria, Beulah Mae Mitchell, de 84 anos, ex-funcionária da Mattel, que relembra sua trajetória e a inquietação diante da ausência de uma Barbie negra. Por pressão social, da mídia e da política, depois da Barbie negra, concorrentes passaram a lançar bonecas em diferentes tons de pele, como a linha Shani, ampliando o espectro de representatividade. Esse movimento revela que a luta por diversidade não é apenas mercadológica, mas profundamente cultural e política. Exibido em festivais de destaque, como Cleveland, Nashville, Hot Docs, Heartland e SXSW, o doc é da Netflix, disponível no streaming. Mais do que uma investigação sobre um ícone da indústria cultural, é um retrato pungente de como brinquedos podem se tornar instrumentos de exclusão ou de revolução. A Barbie negra não é apenas uma boneca: tornou-se um marco simbólico na luta por reconhecimento das meninas pretas – e o documentário faz bem em contar essa história.
 
A primeira Barbie negra (Black Barbie: A documentary). EUA, 2023, 94 minutos. Documentário. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Lagueria Davis. Distribuição: Netflix
 
 
Outstanding: A comedy revolution
 
Documentário que reúne diversos ícones do stand up comedy LGBTQIAPN+ que discutem sobre representatividade no mundo do humor.
 
Produzido pela Netflix, o documentário reúne em um auditório 22 artistas de diferentes países que se identificam como gays, lésbicas, transsexuais e bissexuais, para uma conversa sobre representatividade no mundo do humor, especialmente o stand up comedy, modalidade de shows cômicos usual nos Estados Unidos (e que nos últimos anos “pegou” no Brasil). Exibida no Festival de Tribeca, a produção celebra uma noite histórica realizada em 7 de maio de 2022, no Teatro Grego de Los Angeles, intitulada Stand Out, com diversos atores e atrizes LGBTQIAPN+, como Eddie Izzard, Lily Tomlin, Rosie O’Donnell, Sandra Bernhard, Judy Gold, Wanda Sykes e Robin Tyler (esta, pioneira do humor, uma das primeiras a assumir publicamente sua identidade lésbica no stand up, hoje com 81 anos). O filme não se limita a registrar o espetáculo aberto ao público, e sim analisa a trajetória da cena queer dentro da comédia, mostrando como o stand up se consolidou como parte da cultura contemporânea e ganhou força como espaço de afirmação, resistência e liberdade. Os depoimentos ressaltam a importância da representatividade e da visibilidade, conectando o humor às lutas históricas da comunidade gay, como o marco de Stonewall em 1969, que sacudiu a mídia e abriu caminho para discussões mais amplas sobre direitos humanos para todos e todas. “Outstanding” funciona como uma grande reflexão, evidenciando como o riso pode ser uma ferramenta de inclusão, memória e transformação social.
 
Outstanding: A comedy revolution (Outstanding: A comedy revolution). EUA, 2024, 99 minutos. Documentário. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Page Hurwitz. Distribuição: Netflix

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