sexta-feira, 12 de junho de 2026

Especial de cinema - Parte 2


Festival “Olhar de Cinema” termina amanhã; confira mais filmes vistos
 
O “Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba”, que está em sua 15ª edição com 80 filmes na programação, termina amanhã, dia 13 de junho. São exibidos curtas e longas-metragens nacionais e internacionais, distribuídos em oito mostras. Criado como um festival de cinema independente em 2012, o Olhar de Cinema já levou mais de 250 mil pessoas para as salas de cinema e exibiu mais de 1200 filmes do mundo inteiro. Consolida-se, assim, como um dos mais importantes festivais internacionais de cinema do Brasil. Além das exibições de filmes, há também o Seminário de Cinema de Curitiba (com debates, palestras e encontros com profissionais do audiovisual), três oficinas e o CuritibaLab (laboratório de pós-produção de filmes, com consultoria de montagem e marketing). O festival acontece em cinco locais de exibição: Cine Passeio, Museu Oscar Niemeyer (Auditório Poty Lazzarotto), Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Ópera de Arame.


Confira abaixo mais filmes que assisti no festival e recomendo:
 
Barbara forever (2026)
 
Grande vencedor do Teddy Bear na Berlinale de 2026, prêmio entregue a obras de temática LGBTQIAPN+, o documentário de estreia de Brydie O'Connor é uma homenagem de corpo e alma a uma cineasta independente que marcou a cena da contracultura novaiorquina dos anos 60 e 70, Barbara Hammer (1939-2019). O filme acompanha o legado deixado por ela na fotografia, no cinema e na videoarte, com seus trabalhos ousados sobre o corpo feminino e questões de gênero. Barbara deixou marcas tanto no cinema experimental quanto na arte contemporânea ao trazer para o centro da discussão as experiências lésbicas e feministas vividas por ela e por suas companheiras. Construiu uma carreira original, produzindo mais de 90 obras audiovisuais entre filmes, fotografias, performances, videoarte, colagens e instalações, inspirada por nomes como a diretora Maya Deren. Explorou técnicas visuais inovadoras, desde montagem fragmentada a sobreposição de imagens e experimentações com o corpo em movimento, criando uma linguagem única que desafiava convenções abrindo espaço para formas diferentes de representação (num período em que havia uma profusão de novidades no campo das artes visuais, décadas de 60 e 70). A obra de Barbara é pioneira porque, em uma época em que a homossexualidade feminina era invisibilizada, colocou o desejo e a intimidade entre mulheres como protagonistas, em filmes que chegaram a festivais, como “Dyketactics” (1974), “Women I love” (1976) e “Nitrate kisses” (1992), este exibido em Toronto e Sundance. Parte de seus longas e curtas-metragens tornaram-se marcos do cinema queer ao exibir o afeto e a sexualidade lésbica de maneira poética, muito libertadora. O documentário traz momentos de sua vida privada, declarações e depoimentos antigos e atuais, com ela mesma em perspectiva e muito da colaboração de sua esposa, a ativista de direitos humanos Florrie Burke, que ajudou na finalização do filme. No terço final, os momentos mais duros: a descoberta do câncer de Barbara, que a levou a fazer trabalhos sobre a finitude da vida. O doc também foi premiado em Sundance desse ano, e é um dos grandes documentários da temporada. No festival Olhar de Cinema está na seção “Exibições especiais” e conta com mais uma exibição, amanhã, dia 13/06.
 


Veludo azul (1986)
 
A obra máxima do cineasta David Lynch (pelo menos aquela que o grande público mais lembra, depois de “Duna”) volta com tudo nas salas do festival Olhar de Cinema em uma belíssima cópia restaurada em 4K, na comemoração de 40 anos do filme e dos 80 anos do diretor (falecido em 2025). Cultuado desde seu lançamento em 1986, o filme não perdeu a forma. Uma obra que redefiniu os limites do cinema americano e continua um desafio visual ao expor o contraste entre a aparência idílica da vida suburbana e as pequenas violências que nos permeiam. Na pacata cidadezinha de Lumberton, Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan) encontra uma orelha humana em um matagal. Ele a recolhe e deixa para a polícia periciar. Mas aquele encontro grotesco mexe demais com Jeffrey, então resolve fazer uma investigação própria, com ajuda da garota ingênua que acaba de conhecer, Sandy (Laura Dern). Os dois são levados ao perturbador submundo da cantora Dorothy Vallens (Isabella Rossellini). Pelo caminho Jeffrey irá trombar com a gangue de um lunático perverso chamado Frank Booth (Dennis Hopper), que usa um estranho gás de inalação que o divide em duas personalidades (Baby e Daddy). Com cores vibrantes (com destaque para o azul e o vermelho que serão recorrentes na estética cinematográfica de Lynch, incluindo a série feita poucos anos depois que parece ter saído de “Veludo azul”, “Twin Peaks”), o filme é um estudo sobre voyeurismo e desejos reprimidos, com uma trama cheia de reviravoltas autênticas. Tudo se passa numa cidade parada no tempo, que parece vinda dos anos 50, onde a corrupção começa a surgir nos detalhes da investigação de Jeffrey. Lynch combina elementos do cinema noir clássico com thriller psicológico moderno, criando uma atmosfera de estranhamento que se tornou sua marca registrada – e finais chocantes com direito a sangue para todo lado. É um jogo fascinante com personagens bizarros (alguns caricatos de propósito), um roteiro complexo e uma trilha sonora conceitual que mistura a originalidade de Angelo Badalamenti (parceiro de trabalho de Lynch) com canções bregas românticas, como a canção-tema “Blue velvet” – tudo se choca com a brutalidade dos acontecimentos que virão, reforçando a tensão entre aparência e realidade. É uma estética híbrida que dialoga com Hitchcock, De Palma, Fellini, Buñuel e Wilder. Os atores estão magistrais, e a lista de participações é longa, incluindo Dean Stockwell, Brad Dourif e Hope Lange. “Veludo azul” veio depois do fiasco de “Duna” e recebeu indicação ao Oscar de direção, e no Globo de Ouro de melhor roteiro e ator coadjuvante para Hopper (sinistro no papel que marcou sua carreira). Na telona o filme fica ainda mais grandioso. No festival Olhar de Cinema está na seção “Olhares Clássicos Cine Passeio” e conta com mais uma exibição, amanhã, dia 13/06.

 
 
Futuro Futuro (2025)
 
Ficção científica distópica brasileira, o novo trabalho de Davi Pretto, diretor de “Rifle” (2016) e “Continente” (2024), foi o vencedor do Troféu Candango de melhor longa no Festival de Brasília, além de ter ganhado lá também os prêmios de roteiro, montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador (uma descoberta incrível esse ator). É um drama scifi desafiador que cria uma Porto Alegre chuvosa, uma metrópole decadente, conflitante e labiríntica, marcada pela presença da Inteligência Artificial e por uma estranha síndrome neurológica. Na trama, acompanhamos K (Zé Maria Pescador), um homem que andarilha pela cidade, sem memória. Ele é acolhido por um senhor solitário (João Carlos Castanha) em seu simples casebre. A relação entre os dois vira um misto de sexo e companheirismo, até K se viciar em um dispositivo tecnológico: sentado à frente da peça, o objeto lança um triângulo infravermelho em sua testa, que o faz conhecer uma outra cidade e situações absurdas. O filme funciona como metáfora para os dilemas contemporâneos: a dependência tecnológica, a fragilidade da memória num mundo tomado pela rapidez das coisas e a luta por sentido em um mundo cada vez mais fragmentado e mediado por máquinas. Filme de atmosfera sombria e pessimista, faz críticas diretas em como a tecnologia nos molda, com dispositivos viciantes, transformando sem volta os humanos. Filme de festival, com pegada diferente e nada fácil de digerir (por isso mesmo interessante, que vale conhecer). Teve três sessões especiais no Festival Olhar de Cinema e já tem data de estreia oficial nos cinemas brasileiros: dia 23/07, com distribuição da Cajuína Filmes.


 
Yellow Cake (2026)
 
Depois do excelente, mas bem inusitado “Azougue Nazaré” (2018), o cineasta pernambucano Tiago Melo volta a desafiar as convenções em mais uma obra autoral, “Yellow Cake”, que teve première no festival Olhar de Cinema depois de ser exibido no Festival de Rotterdam em janeiro deste ano. Não espere um filme fácil ou tão compreensível – o assisti na abertura do festival, no Ópera de Arame, numa sessão com 1600 pessoas, e senti ali um misto de surpresa, dúvidas e aplausos. Misturando idioma português e infgles, com atores brasileiros e americanos (com momentos que conectam com “Bacurau”), é um filme simbólico sobre exploração do território (como um “neo-neocolonialismo” tecnológico, pelos norte-americanos) e os limites da sobrevivência em um mundo marcado por tensões ambientais. Na trama, um grupo de estrangeiros no sertão da Paraíba, na cidade de Picuí, buscam uma alternativa para acabar o mosquito aedes aegypti (transmissor da dengue). Ali é uma região rica de urânio, material radioativo capaz de eliminar a doença. O experimento se chama “Yellow Cake”, encabeçado por uma cientista brasileira (Rejane Faria) em conjunto com os americanos. Só que a situação foge totalmente de controle, desencadeando disputas políticas, econômicas e territoriais naquele fim de mundo. O filme tem uma trama muito particular para os tempos exaustivos que vivemos (de ameaças recorrentes de Trump de explorar minerais raros no Brasil), dialogando com a pressão social e como as comunidades periféricas lidam com as ameaças de invasão (personagens secundários entrarão nesse conflito, no caso os papéis de Tania Maria e Valmir do Côco). Tudo é árido e opressivo, com um toque menor de um humor mais direto (exatamente nas falas e ações de Tania Maria e Valmir do Côco). Parece ser futuro, mas um futuro sem distopia ou mudanças radicais de cenário – o que deixa o filme também ambíguo. O desfecho atinge a linha do brutal, quase um cinema raiz B de scifi setentista (o que gostei muito). Deve estrear em breve no Brasil, aguardem para ver!

Nenhum comentário:

Especial de cinema - Parte 2

Festival “Olhar de Cinema” termina amanhã; confira mais filmes vistos   O “Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba”, que está e...