Festival
“Olhar de Cinema” termina amanhã; confira mais filmes vistos
O “Olhar
de Cinema – Festival Internacional de Curitiba”, que está em sua 15ª edição com
80 filmes na programação, termina amanhã, dia 13 de junho. São exibidos curtas
e longas-metragens nacionais e internacionais, distribuídos em oito mostras.
Criado como um festival de cinema independente em 2012, o Olhar de Cinema já
levou mais de 250 mil pessoas para as salas de cinema e exibiu mais de 1200
filmes do mundo inteiro. Consolida-se, assim, como um dos mais importantes
festivais internacionais de cinema do Brasil. Além das exibições de filmes, há
também o Seminário de Cinema de Curitiba (com debates, palestras e encontros
com profissionais do audiovisual), três oficinas e o CuritibaLab (laboratório
de pós-produção de filmes, com consultoria de montagem e marketing). O festival
acontece em cinco locais de exibição: Cine Passeio, Museu Oscar Niemeyer
(Auditório Poty Lazzarotto), Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Ópera de
Arame.
Confira
abaixo mais filmes que assisti no festival e recomendo:
Barbara
forever (2026)
Grande
vencedor do Teddy Bear na Berlinale de 2026, prêmio entregue a obras de
temática LGBTQIAPN+, o documentário de estreia de Brydie O'Connor é uma
homenagem de corpo e alma a uma cineasta independente que marcou a cena da
contracultura novaiorquina dos anos 60 e 70, Barbara Hammer (1939-2019). O
filme acompanha o legado deixado por ela na fotografia, no cinema e na
videoarte, com seus trabalhos ousados sobre o corpo feminino e questões de
gênero. Barbara deixou marcas tanto no cinema experimental quanto na arte
contemporânea ao trazer para o centro da discussão as experiências lésbicas e
feministas vividas por ela e por suas companheiras. Construiu uma carreira
original, produzindo mais de 90 obras audiovisuais entre filmes, fotografias, performances,
videoarte, colagens e instalações, inspirada por nomes como a diretora Maya
Deren. Explorou técnicas visuais inovadoras, desde montagem fragmentada a
sobreposição de imagens e experimentações com o corpo em movimento, criando uma
linguagem única que desafiava convenções abrindo espaço para formas diferentes de
representação (num período em que havia uma profusão de novidades no campo das
artes visuais, décadas de 60 e 70). A obra de Barbara é pioneira porque, em uma
época em que a homossexualidade feminina era invisibilizada, colocou o desejo e
a intimidade entre mulheres como protagonistas, em filmes que chegaram a
festivais, como “Dyketactics” (1974), “Women I love” (1976) e “Nitrate kisses”
(1992), este exibido em Toronto e Sundance. Parte de seus longas e
curtas-metragens tornaram-se marcos do cinema queer ao exibir o afeto e a
sexualidade lésbica de maneira poética, muito libertadora. O documentário traz momentos
de sua vida privada, declarações e depoimentos antigos e atuais, com ela mesma
em perspectiva e muito da colaboração de sua esposa, a ativista de direitos
humanos Florrie Burke, que ajudou na finalização do filme. No terço final, os
momentos mais duros: a descoberta do câncer de Barbara, que a levou a fazer
trabalhos sobre a finitude da vida. O doc também foi premiado em Sundance desse
ano, e é um dos grandes documentários da temporada. No festival Olhar de Cinema
está na seção “Exibições especiais” e conta com mais uma exibição, amanhã, dia
13/06.
Veludo
azul (1986)
A obra
máxima do cineasta David Lynch (pelo menos aquela que o grande público mais
lembra, depois de “Duna”) volta com tudo nas salas do festival Olhar de Cinema
em uma belíssima cópia restaurada em 4K, na comemoração de 40 anos do filme e
dos 80 anos do diretor (falecido em 2025). Cultuado desde seu lançamento em
1986, o filme não perdeu a forma. Uma obra que redefiniu os limites do cinema
americano e continua um desafio visual ao expor o contraste entre a aparência
idílica da vida suburbana e as pequenas violências que nos permeiam. Na pacata cidadezinha
de Lumberton, Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan) encontra uma orelha humana em
um matagal. Ele a recolhe e deixa para a polícia periciar. Mas aquele encontro
grotesco mexe demais com Jeffrey, então resolve fazer uma investigação própria,
com ajuda da garota ingênua que acaba de conhecer, Sandy (Laura Dern). Os dois
são levados ao perturbador submundo da cantora Dorothy Vallens (Isabella
Rossellini). Pelo caminho Jeffrey irá trombar com a gangue de um lunático perverso
chamado Frank Booth (Dennis Hopper), que usa um estranho gás de inalação que o
divide em duas personalidades (Baby e Daddy). Com cores vibrantes (com destaque
para o azul e o vermelho que serão recorrentes na estética cinematográfica de
Lynch, incluindo a série feita poucos anos depois que parece ter saído de
“Veludo azul”, “Twin Peaks”), o filme é um estudo sobre voyeurismo e desejos
reprimidos, com uma trama cheia de reviravoltas autênticas. Tudo se passa numa
cidade parada no tempo, que parece vinda dos anos 50, onde a corrupção começa a
surgir nos detalhes da investigação de Jeffrey. Lynch combina elementos do
cinema noir clássico com thriller psicológico moderno, criando uma atmosfera de
estranhamento que se tornou sua marca registrada – e finais chocantes com
direito a sangue para todo lado. É um jogo fascinante com personagens bizarros
(alguns caricatos de propósito), um roteiro complexo e uma trilha sonora conceitual
que mistura a originalidade de Angelo Badalamenti (parceiro de trabalho de
Lynch) com canções bregas românticas, como a canção-tema “Blue velvet” – tudo se
choca com a brutalidade dos acontecimentos que virão, reforçando a tensão entre
aparência e realidade. É uma estética híbrida que dialoga com Hitchcock, De
Palma, Fellini, Buñuel e Wilder. Os atores estão magistrais, e a lista de
participações é longa, incluindo Dean Stockwell, Brad Dourif e Hope Lange.
“Veludo azul” veio depois do fiasco de “Duna” e recebeu indicação ao Oscar de
direção, e no Globo de Ouro de melhor roteiro e ator coadjuvante para Hopper
(sinistro no papel que marcou sua carreira). Na telona o filme fica ainda mais
grandioso. No festival Olhar de Cinema está na seção “Olhares Clássicos Cine
Passeio” e conta com mais uma exibição, amanhã, dia 13/06.

Futuro
Futuro (2025)
Ficção
científica distópica brasileira, o novo trabalho de Davi Pretto, diretor de
“Rifle” (2016) e “Continente” (2024), foi o vencedor do Troféu Candango de melhor
longa no Festival de Brasília, além de ter ganhado lá também os prêmios de roteiro,
montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador (uma descoberta
incrível esse ator). É um drama scifi desafiador que cria uma Porto Alegre chuvosa,
uma metrópole decadente, conflitante e labiríntica, marcada pela presença da Inteligência
Artificial e por uma estranha síndrome neurológica. Na trama, acompanhamos K (Zé
Maria Pescador), um homem que andarilha pela cidade, sem memória. Ele é
acolhido por um senhor solitário (João Carlos Castanha) em seu simples casebre.
A relação entre os dois vira um misto de sexo e companheirismo, até K se viciar
em um dispositivo tecnológico: sentado à frente da peça, o objeto lança um triângulo
infravermelho em sua testa, que o faz conhecer uma outra cidade e situações
absurdas. O filme funciona como metáfora para os dilemas contemporâneos: a
dependência tecnológica, a fragilidade da memória num mundo tomado pela rapidez
das coisas e a luta por sentido em um mundo cada vez mais fragmentado e mediado
por máquinas. Filme de atmosfera sombria e pessimista, faz críticas diretas em
como a tecnologia nos molda, com dispositivos viciantes, transformando sem
volta os humanos. Filme de festival, com pegada diferente e nada fácil de
digerir (por isso mesmo interessante, que vale conhecer). Teve três sessões
especiais no Festival Olhar de Cinema e já tem data de estreia oficial nos cinemas
brasileiros: dia 23/07, com distribuição da Cajuína Filmes.

Yellow
Cake (2026)
Depois
do excelente, mas bem inusitado “Azougue Nazaré” (2018), o cineasta
pernambucano Tiago Melo volta a desafiar as convenções em mais uma obra
autoral, “Yellow Cake”, que teve première no festival Olhar de Cinema depois de
ser exibido no Festival de Rotterdam em janeiro deste ano. Não espere um filme fácil
ou tão compreensível – o assisti na abertura do festival, no Ópera de Arame, numa
sessão com 1600 pessoas, e senti ali um misto de surpresa, dúvidas e aplausos. Misturando
idioma português e infgles, com atores brasileiros e americanos (com momentos que
conectam com “Bacurau”), é um filme simbólico sobre exploração do território
(como um “neo-neocolonialismo” tecnológico, pelos norte-americanos) e os
limites da sobrevivência em um mundo marcado por tensões ambientais. Na trama, um
grupo de estrangeiros no sertão da Paraíba, na cidade de Picuí, buscam uma
alternativa para acabar o mosquito aedes aegypti (transmissor da dengue). Ali é uma
região rica de urânio, material radioativo capaz de eliminar a doença. O experimento
se chama “Yellow Cake”, encabeçado por uma cientista brasileira (Rejane Faria)
em conjunto com os americanos. Só que a situação foge totalmente de controle, desencadeando
disputas políticas, econômicas e territoriais naquele fim de mundo. O filme tem
uma trama muito particular para os tempos exaustivos que vivemos (de ameaças recorrentes
de Trump de explorar minerais raros no Brasil), dialogando com a pressão social
e como as comunidades periféricas lidam com as ameaças de invasão (personagens
secundários entrarão nesse conflito, no caso os papéis de Tania Maria e Valmir
do Côco). Tudo é árido e opressivo, com um toque menor de um humor mais direto
(exatamente nas falas e ações de Tania Maria e Valmir do Côco). Parece ser
futuro, mas um futuro sem distopia ou mudanças radicais de cenário – o que
deixa o filme também ambíguo. O desfecho atinge a linha do brutal, quase um
cinema raiz B de scifi setentista (o que gostei muito). Deve estrear em breve
no Brasil, aguardem para ver!
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