terça-feira, 30 de junho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings


Criaturas extraordinariamente brilhantes

Preparem-se para um dos filmes mais encantadores da temporada e traz uma interpretação deslumbrante, como sempre, da veterana Sally Field, num trabalho digno de indicação ao Oscar. A nova produção da Netflix, inspirada no best-seller de Shelby Van Pelt, é um drama sensível de uma amizade improvável, que se torna uma metáfora sobre perseverança. A trama acompanha Tova (Sally Field), viúva que trabalha como zeladora noturna em um aquário de uma pequena cidade costeira. Ela por muito tempo buscou respostas acerca do desaparecimento do filho, ocorrido há muito tempo. Tova, certo dia, percebe algo enigmático com um dos polvos do aquário central que ela limpa todos os dias, chamado Marcellus; ele é um polvo-gigante-do-Pacífico, uma espécie rara de ser encontrada, dotado de inteligência e memória extraordinárias. Aparentemente ele se comunica com aquela senhora por meio de movimentos. Tova passa a observar o animal, conversa com ele, e do outro lado do vidro, Marcellus ouve a voz e a sente, respondendo com gestos sutis. Até que na história surge Cameron (Lewis Pullman), um jovem em busca de pistas sobre o pai biológico. O encontro dos três abre caminho para revelações que unirão suas trajetórias, expondo segredos guardados pelas águas e pelo silêncio. O lance do roteiro de John Whittington e Olivia Newman (que também é a diretora, e antes fez outro filme com uma protagonista solitária, “Um lugar bem longe daqui”) é tornar o aquário um espaço simbólico de dores humanas e a possibilidades de recomeço. A relação entre Tova e Marcellus comprova isto, um vínculo fora do comum que mexe com todos os sentidos. O polvo, observador e guardião de memórias, representa o inconsciente coletivo e a necessidade de enfrentar o passado, enquanto Tova é a resiliência diante da perda (mas que nunca desmorona, procurando até o fim encontrar o filho sumido). Sally Field brilha em todos os minutos que aparece, trazendo humanidade para aquele papel delicado, comovente, que há tempos não mexia comigo no cinema. Filho de Bill Pullman e ator de “Top gun: Maverick”, Lewis Pullman também entrega um bom papel, ao lado do ator veterano que está super afiado, num de seus melhores trabalhos, o irlandês Colm Meaney (que faz o dono do mercadinho local, apaixonado por Tova). Um filme para mexer com nosso íntimo.
 

 
Uma infância alemã
 
Não me pegou o novo filme de Fatih Akin, cineasta alemão de origem turca, que estreou na última semana nos cinemas pela Imovision. Prefiro o diretor com sua mão firme para contar histórias amargas e violentas do que em dramas superficiais e arrastados, como é caso dessa obra biográfica, que mais parece uma fac-símile simplória dos cult movies iranianos dos anos 90. A narrativa enxuta trata dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial na vida de uma família adepta ao nazismo. Tudo é pelos olhos de um garoto daquela casa, Nanning, vivido por Jasper Billerbeck. Ele é filho de um oficial nazista, que se refugia com a mãe e o irmão na ilha de Amrum, após a destruição da casa em Hamburgo. O contexto é a morte de Hitler, em abril de 1945, que colocaria dias contados para o desmoronamento da guerra. O tempo inteiro é uma jornada de lá para cá desse menino tentando conseguir ingredientes para fazer um pão para a mãe doente (daí a ideia de um filme iraniano, muitos deles com jornadas infantis pela cidade, e esse aqui também lembra, mas feito com menos paixão, o recente “O bolo do presidente”). O filme nasceu das memórias de infância de Hark Bohm (1939-2025), roteirista e colaborador de Akin, que cresceu em Amrum, ilha reclusa no Mar do Norte, no extremo norte da Alemanha, cuja maré traiçoeira inunda as praias em minutos. Bohm planejava dirigir a obra, mas após sua morte, Akin assumiu o projeto como homenagem póstuma, mantendo o roteiro original – Bohm aparece numa pontinha, segundos antes dos créditos. Essa ligação pessoal dá ao longa um tom íntimo, mesmo dentro de um contexto histórico amplo e pouco aprofundado. Exibido no Festival de Cannes, não é de todo ruim, poderá agradar uma parcela do público, mas quem conhece o cinema de Akin, sente que ele não está do jeito que costuma: visceral, tenso, sombrio, como nos impactantes “The cut” (2014), “Em pedaços” (017) e “O bar da luva dourada” (2019), filmes autorais que o levaram a um patamar acima de sua carreira.
 

 
Um triste e belo mundo
 
Rodada em Beirute, a coprodução Líbano, Alemanha, Estados Unidos, Arábia Saudita e Catar é um singelo drama, para todos os públicos (de classificação indicativa de 14 anos), sobre o encontro e depois a separação que marcam a vida de dois personagens em 30 anos na capital e maior cidade libanesa. Nino é um rapaz sonhador, completamente oposto de Yasmina, uma garota de visão realista do mundo. Eles nasceram com diferença de minutos no mesmo hospital de Beirute, em meio às tensões político-religiosas que atravessavam o país. O Líbano vivenciava uma mistura de divisões religiosas, guerras civis e externas e corrupção desde os anos 1950, que criou um sistema fragilizado, com forte crise econômica e a presença de milhões de refugiados que deixaram metade da população na pobreza. Nesse triste mundo, Nino e Yasmina se encontram depois de anos e podem ali se apaixonar, mas algo irá os separar, até um possível reencontro no futuro. O roteiro sobre chegadas e partidas marcada pela memória coletiva de um país em constante transformação é o mote do delicado filme de drama/romance com doses tênues de humor e nítida crítica social, que evita melodramas e exageros nas performances.  A fotografia é um encanto, com paletas multicromáticas que alternam entre tons frios, que evocam a dor, e cores quentes, que iluminam momentos de esperança dos protagonistas. Cada enquadramento é pensado como uma pintura, revelando poesia nos espaços urbanos e nas paisagens naturais. Primeiro longa de ficção do libanês Cyril Aris, que assina o roteiro ao lado de Bane Fakih, a obra é narrada com energia visual vibrante, percorrendo o Líbano em diferentes épocas. O diretor traz muito de si e do lugar onde mora, falando de memória, dor, distância e possíveis reencontros da vida. No Festival de Veneza de 2025 conquistou o prêmio do público na Jornada dos Autores e foi o título do Libano selecionado como a indicação oficial do país ao Oscar desse ano. Agora é hora de vê-lo na tela grande: o filme estreou na última semana em cinemas selecionados, com distribuição da Pandora Filmes.

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