Criaturas
extraordinariamente brilhantes
Preparem-se
para um dos filmes mais encantadores da temporada e traz uma interpretação deslumbrante,
como sempre, da veterana Sally Field, num trabalho digno de indicação ao Oscar.
A nova produção da Netflix, inspirada no best-seller de Shelby Van Pelt, é um
drama sensível de uma amizade improvável, que se torna uma metáfora sobre perseverança.
A trama acompanha Tova (Sally Field), viúva que trabalha como zeladora noturna
em um aquário de uma pequena cidade costeira. Ela por muito tempo buscou respostas
acerca do desaparecimento do filho, ocorrido há muito tempo. Tova, certo dia, percebe
algo enigmático com um dos polvos do aquário central que ela limpa todos os dias,
chamado Marcellus; ele é um polvo-gigante-do-Pacífico, uma espécie rara de ser
encontrada, dotado de inteligência e memória extraordinárias. Aparentemente ele
se comunica com aquela senhora por meio de movimentos. Tova passa a observar o
animal, conversa com ele, e do outro lado do vidro, Marcellus ouve a voz e a
sente, respondendo com gestos sutis. Até que na história surge Cameron (Lewis
Pullman), um jovem em busca de pistas sobre o pai biológico. O encontro dos
três abre caminho para revelações que unirão suas trajetórias, expondo segredos
guardados pelas águas e pelo silêncio. O lance do roteiro de John Whittington e
Olivia Newman (que também é a diretora, e antes fez outro filme com uma protagonista
solitária, “Um lugar bem longe daqui”) é tornar o aquário um espaço simbólico de
dores humanas e a possibilidades de recomeço. A relação entre Tova e Marcellus comprova
isto, um vínculo fora do comum que mexe com todos os sentidos. O polvo,
observador e guardião de memórias, representa o inconsciente coletivo e a
necessidade de enfrentar o passado, enquanto Tova é a resiliência diante da
perda (mas que nunca desmorona, procurando até o fim encontrar o filho sumido).
Sally Field brilha em todos os minutos que aparece, trazendo humanidade para
aquele papel delicado, comovente, que há tempos não mexia comigo no cinema. Filho
de Bill Pullman e ator de “Top gun: Maverick”, Lewis Pullman também entrega um
bom papel, ao lado do ator veterano que está super afiado, num de seus melhores
trabalhos, o irlandês Colm Meaney (que faz o dono do mercadinho local,
apaixonado por Tova). Um filme para mexer com nosso íntimo.
Uma infância
alemã
Não me
pegou o novo filme de Fatih Akin, cineasta alemão de origem turca, que estreou
na última semana nos cinemas pela Imovision. Prefiro o diretor com sua mão
firme para contar histórias amargas e violentas do que em dramas superficiais e
arrastados, como é caso dessa obra biográfica, que mais parece uma fac-símile simplória
dos cult movies iranianos dos anos 90. A narrativa enxuta trata dos últimos
dias da Segunda Guerra Mundial na vida de uma família adepta ao nazismo. Tudo é
pelos olhos de um garoto daquela casa, Nanning, vivido por Jasper Billerbeck. Ele
é filho de um oficial nazista, que se refugia com a mãe e o irmão na ilha de
Amrum, após a destruição da casa em Hamburgo. O contexto é a morte de Hitler, em
abril de 1945, que colocaria dias contados para o desmoronamento da guerra. O
tempo inteiro é uma jornada de lá para cá desse menino tentando conseguir
ingredientes para fazer um pão para a mãe doente (daí a ideia de um filme
iraniano, muitos deles com jornadas infantis pela cidade, e esse aqui também
lembra, mas feito com menos paixão, o recente “O bolo do presidente”). O filme
nasceu das memórias de infância de Hark Bohm (1939-2025), roteirista e
colaborador de Akin, que cresceu em Amrum, ilha reclusa no Mar do Norte, no
extremo norte da Alemanha, cuja maré traiçoeira inunda as praias em minutos.
Bohm planejava dirigir a obra, mas após sua morte, Akin assumiu o projeto como
homenagem póstuma, mantendo o roteiro original – Bohm aparece numa pontinha, segundos
antes dos créditos. Essa ligação pessoal dá ao longa um tom íntimo, mesmo
dentro de um contexto histórico amplo e pouco aprofundado. Exibido no Festival
de Cannes, não é de todo ruim, poderá agradar uma parcela do público, mas quem conhece
o cinema de Akin, sente que ele não está do jeito que costuma: visceral, tenso,
sombrio, como nos impactantes “The cut” (2014), “Em pedaços” (017) e “O bar da
luva dourada” (2019), filmes autorais que o levaram a um patamar acima de sua
carreira.
Um
triste e belo mundo
Rodada em
Beirute, a coprodução Líbano, Alemanha, Estados Unidos, Arábia Saudita e Catar é
um singelo drama, para todos os públicos (de classificação indicativa de 14 anos),
sobre o encontro e depois a separação que marcam a vida de dois personagens em
30 anos na capital e maior cidade libanesa. Nino é um rapaz sonhador, completamente
oposto de Yasmina, uma garota de visão realista do mundo. Eles nasceram com
diferença de minutos no mesmo hospital de Beirute, em meio às tensões político-religiosas
que atravessavam o país. O
Líbano vivenciava uma mistura de divisões religiosas, guerras civis e externas
e corrupção desde os anos 1950, que criou um sistema fragilizado, com forte crise
econômica e a presença de milhões de refugiados que deixaram metade da
população na pobreza. Nesse triste mundo, Nino e Yasmina se encontram depois de
anos e podem ali se apaixonar, mas algo irá os separar, até um possível reencontro
no futuro. O roteiro sobre chegadas e partidas marcada pela memória coletiva de
um país em constante transformação é o mote do delicado filme de drama/romance com
doses tênues de humor e nítida crítica social, que evita melodramas e exageros
nas performances. A fotografia é um encanto,
com paletas multicromáticas que alternam entre tons frios, que evocam a dor, e
cores quentes, que iluminam momentos de esperança dos protagonistas. Cada
enquadramento é pensado como uma pintura, revelando poesia nos espaços urbanos
e nas paisagens naturais. Primeiro longa de ficção do libanês Cyril Aris, que assina
o roteiro ao lado de Bane Fakih, a obra é narrada com energia visual vibrante, percorrendo
o Líbano em diferentes épocas. O diretor traz muito de si e do lugar onde mora,
falando de memória, dor, distância e possíveis reencontros da vida. No Festival
de Veneza de 2025 conquistou o prêmio do público na Jornada dos Autores e foi o
título do Libano selecionado como a indicação oficial do país ao Oscar desse
ano. Agora é hora de vê-lo na tela grande: o filme estreou na última semana em
cinemas selecionados, com distribuição da Pandora Filmes.
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