Insaciável
O cinema
de terror australiano vem ganhando forma nos últimos anos, redesenhado do
movimento Ozploitation dos anos 70 e 80 que ativou o gênero no país. “Insaciável”
é um bom exemplo de como se fazer filmes assustadores com dimensão crítica. Eu o
vi na première europeia na Berlinale desse ano, na sessão Berlinale Special
Midnight, ainda com o título original, “Saccharine”, e gostei muito. E agora o
filme acaba de estrear nos cinemas do Brasil, pela Diamond Films. É uma
produção independente escrita e dirigida por Natalie Erika James, de outro bom
filme cult de terror de anos atrás, “Relíquia macabra” (2020). É um terror
psicológico com forte comentário à cultura fitness, com ecos de body horror. O
inquietante longa acompanha Hana (Midori Francis, de “Bons meninos”), uma
estudante de Medicina que descobre uma fórmula mágica para emagrecer:
comprimidos manipulados em laboratório com cinzas de pessoas que foram cremadas
(é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de comer doces e percebe que seu peso
estagnou mesmo frequentando academia - e quando experimenta a pílula, vê o
resultado em poucos dias. Hana não conta para ninguém sobre o remédio. Paralelamente
a isto, nas aulas de anatomia, estuda a dissecação de um cadáver de aparência
chocante, a de uma mulher com mais de 200 quilos, toda inchada. Hana sente algo
estranho naquele corpo estirado na mesa e passa a ter alucinações. O pesadelo
na vida da universitária atinge o ápice quando o fantasma da morta aparece para
ela em reflexos nos talheres de cozinha, nos cantos da casa, perto da geladeira.
O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher disposta a
qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de corpo humano
demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema que o longa
procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que realmente
provocam medo, numa boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem no elenco
Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”, aqui no papel da
melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido ator
australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da
protagonista). Filme de terror para o público que curte uma reinvenção no gênero.

Ágon
Fita cult
escondida no streaming da Mubi, “Ágon” (2025) é uma obra simbólica e de estética
subversiva que desmonta a aura heroica do esporte olímpico para revelar sua
face mais dura e silenciosa. No longa, três atletas italianas (uma judoca, uma
esgrimista e uma atiradora) estão em meio aos fictícios Jogos de Ludoj de 2024.
Elas, em seus mundos particulares, enfrentam dilemas: uma luta contra uma lesão
que ameaça a carreira, outra revive o trauma de um acidente que expõe os
limites da ética esportiva, e a terceira mulher encara o julgamento público nas
redes sociais. Os lances rápidos, os cortes secos, os raros diálogos, num
estilo semi-documental, com câmera próxima e fotografia granulada, formam a
estética reveladora desse filme de arte para público específico, que marca a
estreia do cineasta Giulio Bertelli – ele escreveu o roteiro de forma
colaborativa com outros cinco roteiristas. O título é uma referência ao termo
grego agon que significa “conflito”, surgido há mais de 2300 anos na Grécia
Antiga, que descrevia tanto os jogos olímpicos e competições artísticas quanto
os debates formais no teatro ou na filosofia, representando o impulso humano
para vencer e buscar a excelência. O termo espalhou-se para a Mitologia (nome de
um daimon, um espírito ou divindade menor que personificava os desafios e as
disputas solenes), e foi amplamente utilizado no teatro grego, para designar o
momento de debate formal ou confronto verbal entre dois personagens, base sintética
para termos que viriam a posteriori, como protagonista e antagonista. No filme
o ágon é um embate tanto físico quanto duramente psicológico e social, que rompe
com a estrutura das vidas das personagens para sempre. O filme também faz uma
crítica ao espetáculo olímpico: por trás da busca pelas medalhas há corpos
exaustos e identidades pressionadas pela mídia para se chegar ao pódium. Coprodução
Itália, França e EUA, o filme recebeu dois prêmios especiais na Semana da
Crítica do Festival de Veneza 2025.
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