Nino de sexta a segunda
Em exibição nos cinemas (pela distribuidora Filmes do Estação), o drama francês premiado no César e exibido nos Festivais de Cannes e Toronto acompanha quatro dias na vida de um jovem que é diagnosticado com câncer após um exame de rotina devido a uma dor de garganta. Nino recebe a notícia numa sexta-feira e fica perplexo; ele passa o fim de semana, até segunda-feira, preparando-se para o tratamento e lidando com expectativa, ansiedade e medos. A ficha demora a cair, Nino não compreende a situação delicada em que está (mas a única coisa que resta a ele é aceitar e fazer o tratamento). Nino resolve contar para as pessoas próximas, como a mãe e alguns amigos. O filme é uma jornada de emoções de um personagem solitário cruzando ruas e distritos de Paris refletindo uma dor que o atravessa. É um filme íntimo, que capta o que acontece ao redor daquele protagonista vagando pela cidade – pessoas dançando em boate, a agitação das ruas da capital, ele de bike olhando pela paisagem, enquanto sua mente tenta abstrair a notícia da doença. Serão dias decisivos para Nino nessa caminhada de descobertas e reflexão sobre morte, vida, e tudo o que ele cultivou até então. Exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2025, deu a Théodore Pellerin o prêmio de ator revelação (realmente um trabalho impressionante desse jovem ator canadense nascido na parte francesa, em Quebec, num filme todo dele). Lembra, mas é menos amargo que “É apenas o fim do mundo” (2016, de Xavier Dolan), uma fita que gosto muito, também sobre um jovem com doença terminal visitando família e amigos para contar a notícia estarrecedora. Exibido ainda nos Festivais de Toronto e do Rio, venceu o César de melhor primeiro filme (para a diretora Pauline Loquès) e também de ator revelação.
Era uma vez minha mãe
Novo título da California Filmes que entra nos principais cinemas brasileiros, a dramédia francesa coproduzida no Canadá é um bonito filme familiar, baseado na autobiografia do advogado francês Roland Perez, hoje um importante jurista. O título faz referência à mãe dele, Esther, uma mulher judia agarrada a princípios que a levaram até o fim a cuidar do filho – Roland nasceu com uma deficiência no pé que dificultava sua locomoção, e com auxílio da mãe, superou preconceitos e conseguiu estudar e se formar em Direito. São décadas na relação entre os dois, dos anos 60 até o presente; em uma família falante e agitada, Roland nasceu sob proteção daquela mãe que não media esforço em integrar o filho aos amigos do condomínio onde moravam e levá-lo no colo para passear pela cidade (já que ele não conseguia andar bem). O menino tem como fã a cantora popular da época Sylvie Vartan – ele canta suas músicas, tenta dançar como ela e sonha em encontrá-la (na trilha sonora do filme, há várias músicas da cantora, como “Irrésistiblement”, e Sylvie aparece numa rápida ponta como ela mesma, além de cenas dela antigas de TV). São vários atores interpretando Roland nas diferentes fases da vida do personagem (Gabriel Hyvernaud o faz dos 3 aos 5 anos, Naim Naji, dos 5 aos 7, Noé Schecroun, dos 11 aos 13, até a fase adulta, interpretado pelo bom ator Jonathan Cohen, de “Bastardos inglórios”). A mãe é encenada por Leïla Bekhti, atriz francesa de origem argelina, de “O profeta”, num papel acolhedor e reluzente, alternando momentos de drama e humor (a atriz foi indicada aqui ao César na categoria). É escrito e dirigido por Ken Scott, do filme inspirado em fatos reais “Meus 533 filhos” (2011, depois adaptado para uma versão americana com Vince Vaugh, “De repente pai”). Conta com bom trabalho de direção de arte, que refaz as décadas de 60 e 70 com todo aquele brilho, cores vibrantes e roupas extravagantes. Um filme sensível e agradável sobre uma mãe lutando contra tudo e todos para dar o melhor a seu filho.


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