Tambor
sem fronteiras
Documentário
da gaúcha Adriana Gonçalves Ferreira que trata do candombe, manifestação
afro-uruguaia marcada pelo som dos tamboriles (tambores) de pele única,
composto por três instrumentos fundamentais - piano (grave), repique (tenor) e
chico (contralto), profundamente enraizada na história do Uruguai, onde é
considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2009. Criado
no período colonial (entre os séculos XVIII e XIX) por populações escravizadas
de origem bantu, o candombe é um cortejo com dança e ritmos carnavalescos, que
inclui figuras como a Mama Vieja (matriarca), o Gramillero (curandeiro) e o
Escobero (quem abre caminho), muito visto em Montevidéu e no interior do
Uruguai, mas também em regiões dos pampas do Rio Grande do Sul. Por isso o documentário
acompanha músicos dos dois países, na fronteira Brasil e Uruguai - as filmagens
ocorreram em cidades gaúchas e uruguaias, fruto de intercâmbio cultural
iniciado em 2015 pelo projeto Pampa Sem Fronteiras; e dessa troca nasceu um
grupo importante de resistência que leva o candombe para todos os lugares,
Grillos Candomberos de Bagé, que aparece no filme. Produzido pela Finish
Produtora, o filme estreou em duas cidades do Rio Grande do Sul após exibição
no 17º Festival Internacional de Cinema da Fronteira (em Bagé), Bagé e Porto
Alegre, e no próximo dia 19 será exibido em Santa Maria (RS), com sessão
gratuita e comentada pela equipe do longa. Um documentário musical independente
de grande valor artístico/cultural.

Pepi,
Luci, Bom e outras garotas de montão
Segundo
filme Pedro Almodóvar, na época com 30 anos, escrito e dirigido por ele, dois
anos depois da estreia em “Fode... Fode... Me fode Tim” (1978). É uma fita irreverente,
ousada, esteticamente pobre e com humor estranho. Nessa primeira fase experimental
do diretor, ele faz um retrato da efervescência cultural da Espanha
pós-franquista. O filme narra a história de Pepi (Carmen Maura), jovem
madrilenha que busca vingança após ser violentada por um policial. Ela conhece
Luci (Eva Siva), dona de casa submissa que descobre prazer na humilhação, e Bom
(Alaska), cantora punk que encarna a rebeldia da contracultura. Aquelas três mulheres,
com seus gritos e exageros, representam uma crítica social sobre tabus de
gênero e sexualidade, em um país em plena transformação. O longa veio no auge
da Movida Madrileña, movimento artístico da contracultura que explodiu na
Madrid dos anos 70 e redefiniu a estética no cinema, moda, música, literatura e
artes visuais – ele foi produzido pela Figaro Films, ligada à Movida, e só
cinco anos depois Almodóvar fundaria sua produtora pessoal ao lado do irmão Agustín,
a El Deseo. A fotografia crua, os cenários improvisados, a imagem com riscos e
imperfeições e o estilo artesanal revelam as limitações orçamentárias e também
a disrupção criativa de Almodóvar (na época m nome desconhecido). O filme tem
elementos do teatro, da performance, da estética kitsch, diálogos provocativos e
a mistura de melodrama com comédia escandalosa que permeariam todo o cinema do
cineasta espanhol. Em seguida viriam outros trabalhos cult dele dessa primeira
fase, “Labirinto de paixões” (1982), “Maus hábitos” (1983 - considerado blasfemo,
pois trazia um convento com freiras lésbicas e dopadas de cocaína) e “O que eu fiz
para merecer isto?” (1984), em que reunia sempre o mesmo elenco, como Cecilia
Roth, Carmen Maura e Marisa Paredes. Somente na década seguinte viriam seus
maiores sucessos comerciais e indicações a Oscar, como “Mulheres à beira de um
ataque de nervos”, “Ata-me”, “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela” e outros. Exibido
no Festival de San Sebastián, está em cópia restaurada na plataforma em
streaming Sesc Digital até hoje, gratuito.
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