segunda-feira, 11 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 3

 
Tambor sem fronteiras
 
Documentário da gaúcha Adriana Gonçalves Ferreira que trata do candombe, manifestação afro-uruguaia marcada pelo som dos tamboriles (tambores) de pele única, composto por três instrumentos fundamentais - piano (grave), repique (tenor) e chico (contralto), profundamente enraizada na história do Uruguai, onde é considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2009. Criado no período colonial (entre os séculos XVIII e XIX) por populações escravizadas de origem bantu, o candombe é um cortejo com dança e ritmos carnavalescos, que inclui figuras como a Mama Vieja (matriarca), o Gramillero (curandeiro) e o Escobero (quem abre caminho), muito visto em Montevidéu e no interior do Uruguai, mas também em regiões dos pampas do Rio Grande do Sul. Por isso o documentário acompanha músicos dos dois países, na fronteira Brasil e Uruguai - as filmagens ocorreram em cidades gaúchas e uruguaias, fruto de intercâmbio cultural iniciado em 2015 pelo projeto Pampa Sem Fronteiras; e dessa troca nasceu um grupo importante de resistência que leva o candombe para todos os lugares, Grillos Candomberos de Bagé, que aparece no filme. Produzido pela Finish Produtora, o filme estreou em duas cidades do Rio Grande do Sul após exibição no 17º Festival Internacional de Cinema da Fronteira (em Bagé), Bagé e Porto Alegre, e no próximo dia 19 será exibido em Santa Maria (RS), com sessão gratuita e comentada pela equipe do longa. Um documentário musical independente de grande valor artístico/cultural.


 
Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão
 
Segundo filme Pedro Almodóvar, na época com 30 anos, escrito e dirigido por ele, dois anos depois da estreia em “Fode... Fode... Me fode Tim” (1978). É uma fita irreverente, ousada, esteticamente pobre e com humor estranho. Nessa primeira fase experimental do diretor, ele faz um retrato da efervescência cultural da Espanha pós-franquista. O filme narra a história de Pepi (Carmen Maura), jovem madrilenha que busca vingança após ser violentada por um policial. Ela conhece Luci (Eva Siva), dona de casa submissa que descobre prazer na humilhação, e Bom (Alaska), cantora punk que encarna a rebeldia da contracultura. Aquelas três mulheres, com seus gritos e exageros, representam uma crítica social sobre tabus de gênero e sexualidade, em um país em plena transformação. O longa veio no auge da Movida Madrileña, movimento artístico da contracultura que explodiu na Madrid dos anos 70 e redefiniu a estética no cinema, moda, música, literatura e artes visuais – ele foi produzido pela Figaro Films, ligada à Movida, e só cinco anos depois Almodóvar fundaria sua produtora pessoal ao lado do irmão Agustín, a El Deseo. A fotografia crua, os cenários improvisados, a imagem com riscos e imperfeições e o estilo artesanal revelam as limitações orçamentárias e também a disrupção criativa de Almodóvar (na época m nome desconhecido). O filme tem elementos do teatro, da performance, da estética kitsch, diálogos provocativos e a mistura de melodrama com comédia escandalosa que permeariam todo o cinema do cineasta espanhol. Em seguida viriam outros trabalhos cult dele dessa primeira fase, “Labirinto de paixões” (1982), “Maus hábitos” (1983 - considerado blasfemo, pois trazia um convento com freiras lésbicas e dopadas de cocaína) e “O que eu fiz para merecer isto?” (1984), em que reunia sempre o mesmo elenco, como Cecilia Roth, Carmen Maura e Marisa Paredes. Somente na década seguinte viriam seus maiores sucessos comerciais e indicações a Oscar, como “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Ata-me”, “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela” e outros. Exibido no Festival de San Sebastián, está em cópia restaurada na plataforma em streaming Sesc Digital até hoje, gratuito.



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