segunda-feira, 18 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2


Colisão: Acidente ou homicídio?
 
Documentário de true crime da Netflix sobre um acidente de carro fatal que aos poucos virou um extenso caso policial que terminou em acusação de homicídio. A produção se destaca por sua abordagem investigativa e pela tensão constante entre versões conflitantes – da condutora sobrevivente e da família das duas vítimas que morreram. O caso ocorreu em julho de 2022, em Strongsville, Ohio (EUA), quando a jovem Mackenzie Shirilla, de 17 anos, bateu seu automóvel contra uma parede de tijolos, na área urbana da cidade, matando o namorado Dominic Russo e o melhor amigo dele, Davion Flanagan. Em 2023, Mackenzie foi considerada culpada por homicídio doloso e outros 11 crimes, recebendo pena de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. O que inicialmente parecia um acidente de trânsito logo fervilhou em uma investigação complexa, levantando dúvidas sobre motivação, responsabilidade e verdade. O documentário segue com entrevistas, registros policiais e análises jurídicas, bem como vídeos do acidente flagrado por câmeras de vigilância e depoimentos de várias pessoas à época para a polícia, além de mensagens de celulares e depoimentos atuais de familiares das vítimas. O público é conduzido a refletir sobre como a percepção de um evento pode mudar quando novos elementos vêm à tona. O título é provocador, nos perguntando até que ponto a linha entre acidente e homicídio pode ser tênue, e como a justiça lida com essa ambiguidade.


 
Surda
 
Nesse delicado drama espanhol sobre maternidade e inclusão acompanhamos Ângela (Miriam Garlo), uma mulher surda que acaba de se tornar mãe e compartilha com afinco essa experiência ao lado de seu marido, que é ouvinte, Héctor (Álvaro Cervantes). A chegada do bebê expõe os desafios universais da maternidade e, no caso de Ângela, as barreiras para uma mulher surda em uma sociedade pouco preparada para acolher pessoas com deficiência. O filme nasceu de um curta-metragem de mesmo nome, “Surda” (2021), indicado ao Goya - nele contracenam a atriz surda Miriam Garlo sob direção da irmã, Eva Libertad – e agora ambas retornaram no longa (que venceu três prêmios Goya, consagrando Miriam Garlo como a primeira surda a receber o prêmio de atriz revelação). O roteiro é inspirado na própria trajetória de Miriam, escrito pela irmã Eva, ou seja, um projeto autoral feito em família. A obra trabalha sons alternados com momentos de profundo silêncio para mostrar as relações da personagem na sociedade, explorando de forma sensível temas como autonomia, maternidade, isolamento e comunicação. A própria câmera, com movimentos sutis, privilegia silêncios e gestos, num trabalho primoroso da equipe técnica. O trabalho de Álvaro Cervantes como o marido de Ângela, premiado como melhor ator coadjuvante no Goya, complementa a performance de Miriam com naturalidade, reforçando a dinâmica de um casal que precisa reinventar sua comunicação diante das exigências da vida com um bebê. O longa também recebeu o Prêmio do Público na Mostra Panorama do Festival de Berlim, além de exibições em festivais como Guadalajara, Seattle e Málaga. Estreou no último fim de semana nos cinemas do Brasil, com sessões que contam com legenda descritiva, audiodescrição e Libras via aplicativo ‘Conecta’, reforçando o compromisso da obra com a acessibilidade. A distribuição nas salas é pela Retrato Filmes.


 
Um dia de sorte em Nova York
 
É a estreia da semana do Filmelier+, streaming que apresenta ao público filmes de vários países e épocas. Exibido no Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Camera, o longa, de 2025, é um íntimo retrato sobre a imigração numa das maiores cidades do mundo, Nova York. O filme acompanha 48 horas na rotina de Lu (Chang Chen), jovem chinês que acaba de se instalar em Manhattan e consegue um emprego como entregador de comida. Nas primeiras horas nas ruas, sua bicicleta elétrica é furtada, e ele então corre contra o tempo para localizar sua principal ferramenta de trabalho. Está para chegar na cidade sua família (esposa e a filha), e Lu acaba de ter uma séria discussão com o proprietário do apartamento que alugou – ou seja, seu dia não pisca para a sorte. O filme acompanha esses momentos angustiantes e decisivos na vida de Lu, que luta por dignidade e reconhecimento. É uma visão amarga de Nova York, da cidade que não dorme, focando na figura de um homem dividido entre o Oriente e o Ocidente, trabalhando sob chuva e frio para propiciar condições mais dignas para a família. Partindo da ideia central do clássico neorrealista “Ladrões de bicicleta” (1948), o primeiro longa do diretor coreano-canadense Shi-Zheng Chen é uma adaptação para o cinema de seu curta-metragem premiado em Cannes e Toronto, “Same old” (2022), sobre a rotina de um entregador em Nova York. Conta com um ótimo trabalho de Chang Chen, de “Duna”, nua interpretação sem exageros ou melodrama – ator e diretor foram indicados ao Film Independent Spirit Awards deste ano pelo filme. Assisti, gostei e recomendo.

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