terça-feira, 14 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 4


A mulher mais rica do mundo
 
Com 50 anos de carreira nas costas, Isabelle Huppert é uma atriz completa, que já trabalhou com grandes nomes do cinema. Tem uma centena de filmes no currículo, de gêneros variados, e uma coleção de prêmios. Aos 72 anos, ela estrela com maestria esse drama sobre disputa e poder no mundo corporativo, que acaba de chegar na plataforma de streaming Filmelier+. Tem uma figura real por trás da história fictícia: é livremente inspirado na vida da bilionária Liliane Bettencourt, herdeira dos cosméticos L’Oréal, por muito tempo apelidada de “a mulher mais rica do mundo”. Sua trajetória foi marcada por intensa disputa familiar e judicial sobre o controle da fortuna, envolvendo acusações de manipulação por parte de um fotógrafo e escândalos de corrupção que atingiram o alto escalão do governo francês (ela faleceu em 2017 aos 94 anos). Na trama, acompanhamos Marianne Farrère, interpretada por Isabelle Huppert, magnata da indústria de cosméticos. Ela é influente no mundo empresarial, apesar de ser difícil de lidar. Sua vida aparentemente sólida começa a ruir quando conhece Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), um escritor e fotógrafo ambicioso, cuja aproximação desperta sentimentos intensos entre ambos. A amizade dos dois desencadeará uma série de eventos que colocarão em risco o dinheiro e a estabilidade de sua família. O envolvimento de Marianne e Fantin abriu espaço para doações milionárias, suspeitas de corrupção e segredos sombrios ligados ao passado da fortuna construída, revelando como o luxo pode esconder dramas de proporções quase trágicas. O filme é um denso retrato psicológico sobre a controversa personalidade em cheque, explorando o contraste entre o poder absoluto e a fragilidade emocional de Marianne, ao mesmo tempo em que expõe a luta de sua filha desconfiada, Frédérique Spielman (Marina Foïs), pelo controle do império. Tem uma boa mistura de romance, drama e thriller, com diálogos afiados e atmosfera elegante. Com direção e roteio de Thierry Klifa, de “Tudo o que nos separa” (2017), o filme esteve em Cannes onde concorreu ao Queer Palm no ano passado.



Salvação
 
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2026 e filme de encerramento do Festival Olhar de Cinema, “Salvação” (“Kurtulus”) é um dos filmes mais poderosos do ano, uma obra de mestre que mistura drama e thriller (a gradação da violência me lembrou a estrutura de outro filme semelhante, “Dheepan – O refúgio”, ganhador da Palma de Ouro em 2015). O filme, uma coprodução de seis países (Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia e Arábia Saudita), é inspirado em uma trágica história de disputa por terras e vingança entre famílias. Em uma aldeia remota no alto das montanhas, na fronteira da Turquia com a Síria, membros de um clã exilado retornam para a região. Eles reivindicam parte do território, o que reacende uma antiga crise entre duas famílias. O irmão do líder local é assombrado por estranhos presságios, que tiram seu sono. Ele acredita que aquilo seja um aviso sagrado, o que o coloca em atrito com o irmão. Paralelamente, as duas famílias rivais se organizam para negociar a divisão das terras, gerando um mal-estar na comunidade. O filme funciona como uma parábola sobre extremismo religioso e político – na história uma população devota será instrumentalizada por um mentor fanático a cometer um massacre, usando as palavras de Deus para o ato, como costuma ocorrer em ataques terroristas. A obra faz alusão a um crime de proporções devastadoras ocorrido em 4 de maio de 2009, no vilarejo de Bilge, província de Mardin, sudeste da Turquia, quando homens armados e mascarados, membros de uma mesma família de milicianos, invadiram uma festa de noivado com granadas e fuzis, matando 44 pessoas, incluindo os noivos, mulheres e crianças. Os atiradores pertenciam ao clã curdo Çelebi, e foram motivados por uma antiga disputa de terras e contra a união das duas famílias. O caso chocou o mundo, tomou conta dos noticiários, e agora o filme procura fazer um retrato do sórdido fato. Em seu quinto longa-metragem, o diretor e roteirista turco Emin Alper faz um estudo sobre os crimes de ódio motivados por política e religião, atrelados também a outras questões (a disputa por território). Ele rodou no verdadeiro local onde ocorreu o caso do massacre, em Mardin, na Turquia, o que deixa a história ainda mais assustadora. Um grande filme, com uma fotografia de muitas tonalidades (com destaque para as cenas noturnas nas grutas, com os clarões das chamas – algo quase sobrenatural, de terror). Nos cinemas brasileiros pela Pandora Filmes.


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