A mulher
mais rica do mundo
Com 50
anos de carreira nas costas, Isabelle Huppert é uma atriz completa, que já trabalhou
com grandes nomes do cinema. Tem uma centena de filmes no currículo, de gêneros
variados, e uma coleção de prêmios. Aos 72 anos, ela estrela com maestria esse
drama sobre disputa e poder no mundo corporativo, que acaba de chegar na
plataforma de streaming Filmelier+. Tem uma figura real por trás da história
fictícia: é livremente inspirado na vida da bilionária Liliane Bettencourt,
herdeira dos cosméticos L’Oréal, por muito tempo apelidada de “a mulher mais
rica do mundo”. Sua trajetória foi marcada por intensa disputa familiar e
judicial sobre o controle da fortuna, envolvendo acusações de manipulação por
parte de um fotógrafo e escândalos de corrupção que atingiram o alto escalão do
governo francês (ela faleceu em 2017 aos 94 anos). Na trama, acompanhamos
Marianne Farrère, interpretada por Isabelle Huppert, magnata da indústria de
cosméticos. Ela é influente no mundo empresarial, apesar de ser difícil de
lidar. Sua vida aparentemente sólida começa a ruir quando conhece Pierre-Alain
Fantin (Laurent Lafitte), um escritor e fotógrafo ambicioso, cuja aproximação
desperta sentimentos intensos entre ambos. A amizade dos dois desencadeará uma
série de eventos que colocarão em risco o dinheiro e a estabilidade de sua
família. O envolvimento de Marianne e Fantin abriu espaço para doações
milionárias, suspeitas de corrupção e segredos sombrios ligados ao passado da
fortuna construída, revelando como o luxo pode esconder dramas de proporções
quase trágicas. O filme é um denso retrato psicológico sobre a controversa personalidade
em cheque, explorando o contraste entre o poder absoluto e a fragilidade
emocional de Marianne, ao mesmo tempo em que expõe a luta de sua filha
desconfiada, Frédérique Spielman (Marina Foïs), pelo controle do império. Tem
uma boa mistura de romance, drama e thriller, com diálogos afiados e atmosfera
elegante. Com direção e roteio de Thierry Klifa, de “Tudo o que nos separa”
(2017), o filme esteve em Cannes onde concorreu ao Queer Palm no ano passado.
Salvação
Vencedor
do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2026 e filme de encerramento
do Festival Olhar de Cinema, “Salvação” (“Kurtulus”) é um dos filmes mais poderosos
do ano, uma obra de mestre que mistura drama e thriller (a gradação da violência
me lembrou a estrutura de outro filme semelhante, “Dheepan – O refúgio”,
ganhador da Palma de Ouro em 2015). O filme, uma coprodução de seis países (Turquia,
França, Países Baixos, Grécia, Suécia e Arábia Saudita), é inspirado em uma trágica
história de disputa por terras e vingança entre famílias. Em uma aldeia remota
no alto das montanhas, na fronteira da Turquia com a Síria, membros de um clã
exilado retornam para a região. Eles reivindicam parte do território, o que
reacende uma antiga crise entre duas famílias. O irmão do líder local é assombrado
por estranhos presságios, que tiram seu sono. Ele acredita que aquilo seja um
aviso sagrado, o que o coloca em atrito com o irmão. Paralelamente, as duas famílias
rivais se organizam para negociar a divisão das terras, gerando um mal-estar na
comunidade. O filme funciona como uma parábola sobre extremismo religioso e
político – na história uma população devota será instrumentalizada por um mentor
fanático a cometer um massacre, usando as palavras de Deus para o ato, como
costuma ocorrer em ataques terroristas. A obra faz alusão a um crime de
proporções devastadoras ocorrido em 4 de maio de 2009, no vilarejo de Bilge,
província de Mardin, sudeste da Turquia, quando homens armados e mascarados,
membros de uma mesma família de milicianos, invadiram uma festa de noivado com
granadas e fuzis, matando 44 pessoas, incluindo os noivos, mulheres e crianças.
Os atiradores pertenciam
ao clã curdo Çelebi, e foram motivados por uma antiga disputa de terras e contra
a união das duas famílias. O caso chocou o mundo, tomou conta dos noticiários,
e agora o filme procura fazer um retrato do sórdido fato. Em seu quinto longa-metragem,
o diretor e roteirista turco Emin Alper faz um estudo sobre os crimes de ódio motivados
por política e religião, atrelados também a outras questões (a disputa por
território). Ele rodou no verdadeiro local onde ocorreu o caso do massacre, em Mardin,
na Turquia, o que deixa a história ainda mais assustadora. Um grande filme, com
uma fotografia de muitas tonalidades (com destaque para as cenas noturnas nas
grutas, com os clarões das chamas – algo quase sobrenatural, de terror). Nos cinemas
brasileiros pela Pandora Filmes.
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