Crítico
“Crítico”
marca a estreia de Kleber Mendonça Filho como diretor de longa-metragem, já
revelando muito da sua inquietação que atravessaria a carreira. O filme,
lançado em 2008, nasceu de uma ideia simples, mas de forte apelo: reunir
depoimentos de críticos de cinema, cineastas brasileiros e estrangeiros e
atores e atrizes para discutir a relação de quem faz e quem analisa filmes.
Kleber, que começou a carreira como crítico em Recife, aproveitou sua rede de
contatos e cobertura de festivais nacionais e internacionais para colher
entrevistas em diferentes contextos – o resultado é um mosaico de vozes que se
cruzam e se contradizem. Filme de abertura da Mostra de Tiradentes de 2008, o
documentário traz 70 depoimentos de profissionais do cinema do mundo todo, como
dos críticos Luiz Zanin, Deborah Young, Pierre Murat e Bertrand Bonello (que
depois viria a ser diretor de cinema), o teórico de cinema e escritor Michel
Ciment, e uma vastidão de cineastas, como Jafar Panahi, Catherine Hardwicke,
Hector Babenco, Elia Suleiman, Claudio Assis, Daniel Burman, Costa-Gavras, Gus
Van Sant, Nelson Pereira dos Santos, Julian Schnabel, Sergio Bianchi, Roberto
Gervitz, Fernando Meirelles, Beto Brant, Luiz Carlos Lacerda, Tom Tykwer,
Eduardo Coutinho, Curtis Hanson, Daniel Filho, Phillip Noyce, Richard
Linklater, Carlos Reichenbach, Walter Salles e Carlos Saura, além de atores,
como Fernanda Torres e Samuel L. Jackson. Entre um depoimento e outro, Kleber
alterna cenas de filmes cult (como de David Lynch, que aliás dá um depoimento
em voz apenas), cenas de sets de filmagens (que participou) e de festivais onde
esteve, como Berlim. É um registro completo e extenso, de enorme dedicação e
amor ao cinema, que demorou oito anos para ele realizar (Mendonça fez as
gravações entre os anos de 1999 e 2007), num processo artesanal, sem grandes
recursos, em que dispunha apenas de sua câmera e microfone para gravar conversas
informais em mesas e corredores. O resultado são pontos de vista sobre o papel
da crítica de cinema, a relação dela com o público, a subjetividade do crítico,
a importância dessa profissão ao longo do tempo, a tensão que existe na relação
entre críticos e cineastas, a seleção do que o público deve ou não ver. Não
procura respostas, mas mostra como o olhar crítico pode ser tanto um aliado na
difusão do cinema quanto um obstáculo para quem cria, dependendo da
perspectiva. Na época do doc, Kleber tinha 40 anos, e este foi seu primeiro
longa-metragem após alguns curtas exibidos em festivais internacionais, como “Vinil
verde” (2004). É um trabalho independente que antecipa a sensibilidade de
Mendonça para observar relações sociais e culturais, algo que se tornaria marca
registrada em filmes posteriores como “O som ao redor” (2012), “Aquarius” (2016)
e “O agente secreto” (2025).
“Crítico” também foi o primeiro trabalho da
CinemaScópio, produtora de Kleber fundada naquele ano, 2008, ao lado da esposa Emilie
Lesclaux (produtora de cinema e cientista social de origem francesa), com que
se casou um ano antes (juntos, produziriam todos os filmes que vieram em
seguida). Distribuição do doc agora pela Vitrine Filmes. PS - O documentário é um dos destaques da nova mostra de cinema do Sesc, a “Mostra Farol - O cinema entre a memória e o agora”, lançada em março desse ano, que traz filmes lançamentos e clássicos feitos por cineastas autorais de 12 países, criadores de obras de linguagem própria e estética revolucionária. Foram 31 filmes na programação, entre sessões presenciais no Cinesesc (entre março e abril) e online (gratuitos na plataforma do Sesc Digital, com títulos até amanhã dia 20/05, incluindo “Crítico”), com longas que vão do drama intimista ao body horror, que tocam em temas como violência doméstica, imigração e sexualidade. Dentre os títulos da Mostra Farol estão os clássicos “Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão” (de Pedro Almodóvar) e “Rio, 40 graus” (de Nelson Pereira dos Santos) e os recém-lançados “Alpha” (de Julia Ducournau) e “O senhor dos mortos” (de David Cronenberg).
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