Erupcja
Um dos
filmes mais curtos (de duração) que assisti recentemente, com seus enxutos 71
minutos, “Erupcja” é uma fita experimental rápida, com a cantora, DJ e
compositora britânica que vem se jogando no cinema alternativo, Charli XCX
(este ano ela lançou também o mockumentary “The moment”, que teve sessões no
Festival de Berlim, onde assisti, e depois estreou no Brasil com baixíssima
repercussão). “Erupcja” (palavra em polonês que significa “Erupção”) surge como
uma experiência cinematográfica que mistura drama feminino e um humor
diferentão, recorrendo a metáfora da erupção vulcânica para explorar
sentimentos pessoais. O filme foi inteiramente rodado nas ruas da Polônia, gravado
com estilo de cinema artesanal/caseiro, com câmera na mão, naquela estética que
balança a imagem ao acompanhar os personagens se movimentando de lá para cá. Na
história, a jovem Nel (Lena Góra) leva uma vida serena em uma floricultura na
capital polonesa, Varsóvia, até ser surpreendida pela visita de Bethany (Charli
XCX), amiga de infância que está na região para turistar. A vinda da Bethany desperta
em Nel memórias e desejos reprimidos; enquanto isso, um vulcão próximo entra em
erupção, espelhando as cinzas e as ondas de calor (uma combustão simbólica, que
envolve o dilema emocional entre aquelas duas mulheres). Há outras alegorias
sutis no filme: a dualidade da delicadeza das flores com imagens de lava e
fumaça, as conversas ambíguas entre as amigas, a relação controversa com seus
namorados etc. Charli XCX, além de protagonizar (e está bem no papel), assina o
roteiro ao lado do diretor, Pete Ohs, e da atriz Lena Góra, bem como produz a
fita, demonstrando compromisso com o cinema autoral. Seu papel dá dimensão a
uma figura vulnerabilizada, que vai se transmutando no decorrer da intensidade
da história, que trata de amizade e desejos profundamente reprimidos. Filme
produzido no auge do sucesso do disco de Charli “Brat”, que virou um fenômeno
pop que ditou regras de comportamento e moda (o que é tratado no longa
posterior dela, “The moment”). Selecionado para o Festival Internacional de
Toronto, o filme teve exibições em outros festivais de renome, como SXSW, Torino,
Thessaloniki, Miami, IndieLisboa, Guadalajara e na Mostra Internacional de
Cinema de SP. Entrou em cartaz no último fim de semana, com distribuição da
Imovision.

Vivendo
no limite
Dirigido
por Jinghao Zhou (em seu segundo trabalho), o drama com suspense produzido na
China é uma fita intensa que se passa no universo competitivo da patinação
artística, expondo a tensão entre duas patinadoras durante os preparativos de
um campeonato – e o filme não deixa de lado outros subtemas, como a pressão
familiar em busca do sucesso e os dilemas emocionais das atletas. A estética do
filme é fenomenal, um trabalho de mestre com grandes cenas de patinação, em que
a câmera captura closes nos patins riscando o gelo, enquadramentos por cima e
por baixo das atletas, além de cenas em que as duas personagens centrais se
confrontam em diálogo combativos. O longa acompanha Jiang (Zifeng Zhang), uma
promissora patinadora que tenta de tudo para ascender na carreira, sob o olhar
implacável da mãe e treinadora, Wang (Yili Ma). A relação entre as duas é de
disciplina rigorosa, que não fica só no ambiente da casa, mas mais ainda nas
quadras. A relação entre ambas aumenta a tensão psicológica do filme e revela
como o amor pode ser dominado e até destruído pelo controle em excesso. Na
pista, Jiang encontra-se com Zhong (Xiangyuan Ding), que vê nela um reflexo de próprias
inseguranças. Até que Wang passa a treinar Zhong, estabelecendo uma rivalidade entre
as duas patinadoras. Rivalidade esta que se torna uma busca pela perfeição e também
uma obsessão, levando as duas garotas a um jogo intenso de confrontos. A
direção de Zhou recorre a um fino trabalho, com ótima fotografia de Yu Jing-Pin,
principalmente a dos treinos no gelo (com cores frias, num ambiente cercado e
solitário). Não é apenas um filme sobre competição esportiva, e sim uma obra
densa sobre os limites da ambição e os custos do reconhecimento e sucesso (em
certos aspectos lembra “Eu, Tonya”, em especial a relação controversa da
patinadora com a mãe temperamental). Uma fita que inquieta, aguça nossa
percepção e comprova mais uma vez a qualidade do cinema chinês contemporâneo. Distribuído no Brasil pela A2 Filmes, que disponibilizou a produção em streamings como Prime Video, Looke, Apple TV, Google Play e Claro TV.
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