terça-feira, 26 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2 (21/05)


Erupcja
 
Um dos filmes mais curtos (de duração) que assisti recentemente, com seus enxutos 71 minutos, “Erupcja” é uma fita experimental rápida, com a cantora, DJ e compositora britânica que vem se jogando no cinema alternativo, Charli XCX (este ano ela lançou também o mockumentary “The moment”, que teve sessões no Festival de Berlim, onde assisti, e depois estreou no Brasil com baixíssima repercussão). “Erupcja” (palavra em polonês que significa “Erupção”) surge como uma experiência cinematográfica que mistura drama feminino e um humor diferentão, recorrendo a metáfora da erupção vulcânica para explorar sentimentos pessoais. O filme foi inteiramente rodado nas ruas da Polônia, gravado com estilo de cinema artesanal/caseiro, com câmera na mão, naquela estética que balança a imagem ao acompanhar os personagens se movimentando de lá para cá. Na história, a jovem Nel (Lena Góra) leva uma vida serena em uma floricultura na capital polonesa, Varsóvia, até ser surpreendida pela visita de Bethany (Charli XCX), amiga de infância que está na região para turistar. A vinda da Bethany desperta em Nel memórias e desejos reprimidos; enquanto isso, um vulcão próximo entra em erupção, espelhando as cinzas e as ondas de calor (uma combustão simbólica, que envolve o dilema emocional entre aquelas duas mulheres). Há outras alegorias sutis no filme: a dualidade da delicadeza das flores com imagens de lava e fumaça, as conversas ambíguas entre as amigas, a relação controversa com seus namorados etc. Charli XCX, além de protagonizar (e está bem no papel), assina o roteiro ao lado do diretor, Pete Ohs, e da atriz Lena Góra, bem como produz a fita, demonstrando compromisso com o cinema autoral. Seu papel dá dimensão a uma figura vulnerabilizada, que vai se transmutando no decorrer da intensidade da história, que trata de amizade e desejos profundamente reprimidos. Filme produzido no auge do sucesso do disco de Charli “Brat”, que virou um fenômeno pop que ditou regras de comportamento e moda (o que é tratado no longa posterior dela, “The moment”). Selecionado para o Festival Internacional de Toronto, o filme teve exibições em outros festivais de renome, como SXSW, Torino, Thessaloniki, Miami, IndieLisboa, Guadalajara e na Mostra Internacional de Cinema de SP. Entrou em cartaz no último fim de semana, com distribuição da Imovision.


 
Vivendo no limite
 
Dirigido por Jinghao Zhou (em seu segundo trabalho), o drama com suspense produzido na China é uma fita intensa que se passa no universo competitivo da patinação artística, expondo a tensão entre duas patinadoras durante os preparativos de um campeonato – e o filme não deixa de lado outros subtemas, como a pressão familiar em busca do sucesso e os dilemas emocionais das atletas. A estética do filme é fenomenal, um trabalho de mestre com grandes cenas de patinação, em que a câmera captura closes nos patins riscando o gelo, enquadramentos por cima e por baixo das atletas, além de cenas em que as duas personagens centrais se confrontam em diálogo combativos. O longa acompanha Jiang (Zifeng Zhang), uma promissora patinadora que tenta de tudo para ascender na carreira, sob o olhar implacável da mãe e treinadora, Wang (Yili Ma). A relação entre as duas é de disciplina rigorosa, que não fica só no ambiente da casa, mas mais ainda nas quadras. A relação entre ambas aumenta a tensão psicológica do filme e revela como o amor pode ser dominado e até destruído pelo controle em excesso. Na pista, Jiang encontra-se com Zhong (Xiangyuan Ding), que vê nela um reflexo de próprias inseguranças. Até que Wang passa a treinar Zhong, estabelecendo uma rivalidade entre as duas patinadoras. Rivalidade esta que se torna uma busca pela perfeição e também uma obsessão, levando as duas garotas a um jogo intenso de confrontos. A direção de Zhou recorre a um fino trabalho, com ótima fotografia de Yu Jing-Pin, principalmente a dos treinos no gelo (com cores frias, num ambiente cercado e solitário). Não é apenas um filme sobre competição esportiva, e sim uma obra densa sobre os limites da ambição e os custos do reconhecimento e sucesso (em certos aspectos lembra “Eu, Tonya”, em especial a relação controversa da patinadora com a mãe temperamental). Uma fita que inquieta, aguça nossa percepção e comprova mais uma vez a qualidade do cinema chinês contemporâneo. 
Distribuído no Brasil pela A2 Filmes, que disponibilizou a produção em streamings como Prime Video, Looke, Apple TV, Google Play e Claro TV.

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