domingo, 10 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

 
O caminho para Saturno
 
Pérola de fotografia impressionante disponível gratuitamente até amanhã à noite (dia 11/05) no canal do CPC-Umes Filmes no Youtube. Restaurado no ano passado pela Mosfilm, o maior estúdio da Rússia, este é um filme raro realizado na URSS no auge da Guerra Fria, que traz contexto da época. Com direção de Villen Azarov, o drama de guerra rodado em preto-e-branco dramatiza um tema complexo: a infiltração de um agente russo em um clã nazista secreto. Na história, o Capitão Krylov (Mikhail Volkov), oficial de inteligência soviético, infiltra-se na organização “Saturno”, centro de sabotagem nazista, para conquistar a confiança de seus líderes e obter informações vitais a Moscou. O personagem central é inspirado em uma figural verdadeira, o agente Aleksandr Ivanovich Kozlov, apelidado de Baikal-60, que aos 23 anos, em 1943, até o ano seguinte, expôs mais de 100 agentes da inteligência hitlerista – que depois da guerra foram condenados. O filme é baseado no livro “Saturno é quase invisível”, de 1963, do jornalista e romancista Vassily Ardamatsky, especializado em thriller de espionagem. O longa reflete a tensão política da Guerra Fria e a memória da luta contra o nazismo, que havia acabado duas décadas antes. A caprichada produção utilizou tropas reais do Distrito Militar dos Cárpatos para dar autenticidade às cenas, filmadas em locações abertas em vez de estúdios, o que exigiu enorme esforço técnico e reforçou o realismo da história. A estética austera, de imagens duras com o PB, vem na estreia do estilo da época, em que o cinema funcionava como instrumento cultural, político e até didático. Teve uma continuação, “O fim de Saturno”, realizado no ano posterior, em 1968, com mesmo elenco, direção e equipe; enquanto na primeira história a ideia era levantar informações dos nazistas para Moscou, a continuação foca no revide soviético, quando oficiais da inteligência da URSS conseguiram desinformar o inimigo com a ajuda de relatórios falsos. “O fim de Saturno” contará com sessão online gratuita na plataforma da CPC-Umes no Youtube na próxima semana (de 15 a 18/05) – em https://www.youtube.com/@cpc-umesfilmes23


 
Aqui não entra luz
 
Estreando no cinema, a diretora Karol Maia realiza um documentário que nasce de uma experiência íntima e profunda: filha de uma ex-empregada doméstica, ela transformou memórias pessoais em investigação sobre o trabalho das domésticas no Brasil. O documentário independente reúne relatos de diversas mulheres que atuaram ou atuam no setor, e seu filme abre reflexões de como marcas da escravidão ainda aparecem nos lares contemporâneos. Com a câmera em punho e enfoque nos rostos das personagens, ela percorre São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, colocando as entrevistadas em lugares de destaque; elas falam sobre a profissão de doméstica, do preconceito, da relação com patrões e com a família. A ideia do “quarto de empregada” (aquele quartinho pequeno, isolado, com pouca ventilação, que muitos apartamentos e casas possuíam) simboliza no filme a velha lógica colonial da senzala e a Casa Grande – algo com frequência citado no doc. A pesquisa de Karol, de abordagem antropológica e sociológica, iniciou-se em 2017; agora pronto, a obra revela como a arquitetura e o cotidiano naturalizam desigualdades históricas. Karol narra em primeira pessoa, articula histórias pessoais, outras de pesquisa e reportagens lidas, e escuta atentamente às experiências de várias mulheres e seus familiares. Filmes como este servem de estudo sobre trabalho informal, exploração e precarização na sociedade atual, por isso indico todos e todas a assistirem. Produzido pelo Apiário Estúdio Criativo, com coprodução da Surreal Hotel Arts, venceu dois prêmios especiais no Festival de Brasília de 2025, e agora está nos cinemas, distribuído pela Embaúba Filmes.


  
Artacho Jurado: Sinfonia de um arquiteto
 
Nos últimos três anos foram produzidos três documentários brasileiros sobre arquitetura, tanto sobre a história por trás de edifícios imponentes, como “Pele de Vidro” (2023) e “Copan” (2025), quanto sobre as personalidades criadoras, no caso este que acaba de estrear nos cinemas, “Artacho Jurado: Sinfonia de um arquiteto” (2026), com direção da dupla Pedro Gorski e Teresa Eça. Assisti sem pretensão e saí com a impressão de ter visto um dos melhores documentários do ano, um filme vivo, didático, imersivo e com boas histórias ali contadas, que ensina sobre a arquitetura no Brasil pelos olhos de um genial esteta do ramo, João Artacho Jurado (1907–1983). Autodidata, sem formação acadêmica, filho de anarquistas espanhóis, levantou edifícios icônicos em São Paulo, que ainda são objetos de estudo, como o Bretagne, o Viadutos, o Louvre, o Saint Honoré e o Cinderela, prédios que desafiaram o modernismo com cores, formas orgânicas e espaços de convivência incomuns. Com ampla visão publicitária (área que seguiu por um período), Jurado deixou marcas profundas na paisagem urbana de São Paulo. Foi com sua construtora Monções, a partir de 1946, que desenvolveu projetos de estilo modernista com referências clássicas e art déco, voltados à classe média. O filme acompanha seu processo de criação, com uma montagem sinfônica, juntando arquitetura, cinema, música clássica (que Jurado adorava) e poesia, em depoimentos de familiares, jornalistas, pesquisadores no assunto, arquitetos e amigos, além de moradores de edifícios que ele projetou, que abrem seus lares para mostrar na prática o que Artacho havia elaborado e que deu muito certo (como as vistas contemplativas, entradas de ar com cobogós, arquitetura com desenhos ousados etc). O filme foi realizado pela Pink Flamingo, com coprodução do Canal Curta!, patrocínio do Itaú e distribuição nos cinemas pela Kajá Filmes.

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