Eclipse
Filha do
casal de cineastas Helena Ignez (também atriz) e Rogério Sganzerla (mente por
trás do Cinema Marginal), Djin Sganzerla construiu sua carreira entre atuação,
direção, produção cinematográfica e roteiro, além de ter sido apresentadora do
Canal Brasil por muito tempo. Fez mais de 20 filmes como atriz e dirigiu dois
longas, “Mulher oceano” (2020) e “Eclipse” (2025), esta uma obra densa, complexa,
que mistura diversos gêneros e é tão boa e original quanto o primeiro trabalho
atrás das câmeras – e em ambos ela interpreta a protagonista. “Eclipse” estreou
nos cinemas brasileiros na semana passada, e é um filme de narrativa ousada,
que desafia convenções. Estrutura-se como um mosaico de imagens que se
entrelaçam em torno de uma mulher em constante deslocamento e desintegração. Essa
personagem é a astrônoma Cleo (Djin Sganzerla), que está grávida, e no turbilhão
das emoções causadas pelo desafio de ser mãe, é surpreendida com a chegada de
Nalu (Lian Gaia), sua meia-irmã bem mais nova, de origem indígena. Distantes,
Cleo e Nalu iniciam uma fase de reconexão familiar, tomadas por memórias
perturbadoras que as levam para uma jornada humana até então desconhecida. No
meio disso tudo, Cleo suspeita que o marido, Tony (Sergio Guizé), esteja envolvido
com hackers e crimes digitais. Com mistura de sonhos e realidade, o filme
independente (produzido pela Mercúrio Produções, com codistribuição da Pandora
Filmes) traz para a tela questões importantes da atualidade por meio de uma
obra que vai além do drama familiar: fala-se do patriarcado, das falsas aparências
no casamento, da violência doméstica e o uso da deep web para aliciamento de
crianças. Há subtramas para cada um desses assuntos que se conectam com sobriedade
(apesar de serem distantes). O eclipse do título é uma metáfora sobre as inúmeras
dualidades do filme: da ciência e ancestralidade (envolvendo as crenças das
duas irmãs), e do silenciamento da mulher contra o protagonismo que elas
assumem quando passam ao controle de suas vidas. Exibido na 49ª Mostra de
Cinema Internacional de São Paulo, o filme conta com ótima atuação de Djin e
participação no elenco de Sérgio Guizé, Selma Egrei, Helena Ignez, Luís Melo,
Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce, Pedro Goifman e Julia Katharine.
O
fim de Saturno
Primorosa
continuação de “O caminho para Saturno” (1967), thriller de espionagem soviético
que foi rodado um ano depois e segue os acontecimentos do primeiro filme. No capítulo
anterior, funcionários da segurança do Estado Soviético infiltraram-se na agência
secreta de inteligência nazista “Saturno”, que realizava serviços escusos para
Moscou, e obtiveram dados de 127 agentes envolvidos. O que se segue agora é a consequência
da descoberta, um caso inspirado em fatos verídicos. O filme se passa na
Segunda Guerra Mundial e acompanha os oficiais da inteligência soviética em mais
um desdobramento da luta contra agentes alemães infiltrados. Os oficiais soviéticos
conseguiram desinformar o inimigo com ajuda de relatórios falsos, uma
estratégia de contraespionagem que dá um pontapé para a desarticulação nazista em
vários países da Europa. Esse é o motor dramático da obra, que revela não
apenas a astúcia dos protagonistas, como também o jogo psicológico que permeava
a guerra secreta. É um exemplo clássico do cinema soviético de espionagem, que
combina tensão com forte carga ideológica. A direção recorre a uma atmosfera
sombria, marcada por cenários austeros e uma excelente fotografia em
preto-e-branco que reforça o clima de paranoia e vigilância daquela época. Exalta-se
a inteligência soviética e sua capacidade de vencer o inimigo não pela força,
mas pela sagacidade – os nazistas são mostrados com vilões cruéis, mas
vulneráveis, passíveis de derrota. Rodado em ambientes fechados que reconstroem
salas de reunião sigilosas e escritórios da Segunda Guerra Mundial, o filme é
um achado impressionante do desconhecido (por muitos) cinema soviético feito no
auge da Guerra Fria. Conta com o mesmo grupo do filme anterior: elenco (com
destaque para Mikhail Volkov, Georgi Zhzhyonov e Evgeniy Kuznetsov), direção de
Villen Azarov, roteiristas e produtores. O filme está disponível para ver
gratuitamente na plataforma da CPC-Umes no Youtube até amanhã, dia 18/05, em cópia
restaurada pelos estúdios da Mosfilm – em
https://www.youtube.com/@cpc-umesfilmes23
Martin
Short: Uma vida de comédia
O diretor
norte-americano Lawrence Kasdan, de “Corpos ardentes” e “Silverado”, dois filmes
aplaudidos dos anos 80, realiza seu primeiro documentário em 45 anos de
carreira. E justamente uma homenagem ao ator Martin Short, com quem trabalhou apenas
uma vez, em “Dr. Mumford: Inocência ou culpa?” (1999) - mas de lá para cá desenvolveu
forte amizade com o astro da comédia. Ganhador de dois prêmios Emmy, Martin
Short (hoje aos 76 anos) consagrou-se como um dos grandes nomes do Saturday
Night Live, icônico programa de humor da TV americana, além de participações
engraçadíssimas em inúmeros outros programas, sem contar os filmes (como “Três amigos”
e “Os três fugitivos”). No documentário, Martin Short é a estrela principal,
num filme em que ele relembra a trajetória marcada por altos e baixos, a
relação com a família e os amigos, suas viagens e a recepção de colegas de
elenco em sua casa de veraneio, que ficou famosa pelos encontros regados a música,
vinho e piadas (frequentavam lá amigos pessoais dele como Steven Martin, Eugene
Levy e Catherine O’Hara – que falam ao filme também). É uma obra afetuosa, com
certa melancolia, que celebra a versatilidade de Short, que transitou por
décadas entre o palco, a televisão e o cinema com uma energia radiante, sempre
disposto a criar novos personagens. O filme explora também seus dramas pessoais,
o homem por trás das máscaras, com as fragilidades e perdas (em fevereiro deste
ano, durante as gravações do doc, sua filha Katherine, de 42 anos, cometeu suicídio,
o que o abalou profundamente e o fez terminar seu relacionamento de quase dois
anos com a atriz Meryl Streep – eles se conheceram nas gravações da famosa
série com Steve Martin “Only murders in the building”). O filme tem ritmo ágil,
pontuado por imagens de arquivo bem pessoais, como gravações de vídeos caseiros
de festas e encontros do ator, bastidores e making of, além de cenas de filmes,
séries e esquetes em programas humorísticos. O documentário, da Netflix,
equilibra irreverência, drama e autocrítica, expondo com delicadeza a vida de
um ator que é dos mais completos e queridos tanto do público quanto dos colegas
de cena.
Alma
negra - Do quilombo ao baile
Realizado
em 2024, com exibição em diversos festivais no Brasil e no mundo, como Festival
do Rio, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival de Havana, Fest
Aruanda (na Paraíba), Mostra de Cinema de Tiradentes e In-Edit Brasil, o
excelente documentário é uma das melhores estreias do ano, que acaba de chegar
aos principais cinemas do país. Com roteiro de Mariana Pamplona e Flavio
Frederico (que dirige o filme), o longa reúne dezenas de nomes da música negra para
celebrar a soul music no Brasil, percorrendo da década de 60 até agora. Shows
históricos de Tim Maia, Cassiano e Gérson King Combo trouxeram a black music
para o repertório nacional, com músicos pretos utilizando os palcos para performances
descoladas e engajamento político. O filme foca nos bailes black que dominaram
os espaços coletivos a partir dos anos 70, principalmente no Rio e em SP e RJ, reverenciado
como uma força de resistência e reforço da identidade preta. Misturando cenas
de shows e de entrevistas antigas (de músicos como Tim Maia e intelectuais como
Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez) com depoimentos atuais (de Carlos Dafé, Nelson
Motta, Toni Tornado, Zezé Motta, Seu Jorge e Sandra Sá), o filme tem um ritmo dançante,
montagem super ágil, cuja trilha sonora é assinada por Eduardo Bidlovski, DJ conhecido
pelo nome artístico de BiD que produziu álbuns de Chico Science e Nação Zumbi. Com
produção da Kinoscópio, em coprodução com a SoulCity, e distribuição da
Synapse, o documentário é um amplo mergulho na cultura afrobrasileira a partir
de um estilo de música que virou ato político e de pertencimento em um país
marcado pela desigualdade social e discriminação contra pessoas pretas.
Fanon
Muito
se aguardou por uma cinebiografia de Franz Fanon (1925-1961), psiquiatra martinicano
que se tornou um pensador crítico do colonialismo - e transcorridos 55 anos de
sua morte, continua uma das vozes mais estudadas sobre a decolonialidade (eu,
por exemplo, o estudei no meu Mestrado na PUC, especialmente seus dois livros-chave,
“Os condenados da Terra” e “Pele negra, máscaras brancas”). O filme não é uma
biografia completa de Fanon (da infância à morte), e sim de parte de sua
trajetória, com foco no período que viveu e trabalhou na Argélia colonial, entre
1953 e 1956, e lá sua prática médica se entrelaçou com a luta política e o
engajamento revolucionário. O longa apresenta Fanon (interpretado brilhantemente
por Alexandre Bouyer, em seu terceiro longa e o primeiro como protagonista) em
sua chegada ao hospital psiquiátrico de Blida, na Argélia sob domínio da França.
Ali, seus métodos humanistas e inovadores entram em choque com a rigidez
institucional, revelando tanto sua visão avançada sobre a saúde mental quanto a
postura ética diante da opressão colonial. À medida que a Guerra da Argélia se
intensifica, Fanon se aproxima da Frente de Libertação Nacional (FLN), movimento
nacionalista de libertação do país. Fanon torna-se um militante ativo contra o
domínio francês, e seu posicionamento influenciaria em seguida outros
movimentos de libertação, como o dos povos sufocados na África e os da América
Latina sob regime de ditaduras. O filme mostra como a vida pessoal de Fanon, ao
lado da esposa Josie (papel de Déborah François, de “A datilógrafa”), foi atravessada
por dilemas e violências que o tragaram para dentro do centro da resistência na
FLN. Fanon defendia que a descolonização não era somente um processo político,
mas cultural e subjetivo, que ampliava a libertação também dos corpos e das
consciências – por isso sua voz ecoa nos tempos de hoje. Coprodução França, Luxemburgo,
Canadá e Bélgica rodada na Tunísia e Martinica, tem uma direção interessada de
Jean-Claude Flamand-Barny (que assina como Jean-Claude Barny), que dá um
tratamento digno para o personagem em seu roteiro ao lado de Philippe Bernard.
Como espectadores, vemos o percurso de um intelectual que rompeu fronteiras
entre medicina, filosofia e política, tornando-se referência mundial no
pensamento decolonial. O filme foi realizado em celebração ao centenário de
nascimento de Fanon, em 2025, e infelizmente não teve o devido reconhecimento em
festivais tampouco em premiações (só exibido em festivais menores). Está nos
principais cinemas brasileiros, com distribuição da Fênix Filmes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário