sexta-feira, 29 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 3


Copan
 
O gigantesco edifício Copan, fincado na avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, é o personagem central desse filme-mosaico interessantíssimo, que agrega elementos notórios em sua produção, como fotografia, som e edição. Coprodução Brasil e França, dirigido por Carine Wallauer, o filme, grande vencedor do ‘É Tudo Verdade’ de 2025 (onde assisti) na ‘Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens’, acompanha histórias de moradores e funcionários do antigo prédio, inaugurado em 1966, cuja arquitetura singular de linhas sinuosas foi concebida por Oscar Niemeyer. É considerado o edifício com maior estrutura de concreto armado do país, em seus 115 metros de altura, 32 andares e 1160 apartamentos divididos em seis blocos – e lá residem pessoas de diferentes classes sociais, sem contar os mais de 70 estabelecimentos comerciais. A câmera fica estacionada observando a rotina das pessoas no edifício, dentro e fora dos apartamentos – o filme foi gravado durante a campanha presidencial de 2022, e muito traz desse ambiente, tratando da disputa acirrada entre os candidatos Lula e Bolsonaro, e os ânimos exaltados de apoiadores dos dois lados. O filme faz um reflexo sobre desigualdade social e a questão da moradia na maior cidade da América Latina. O início e o término do filme se completam com uma gravação impressionante, acredito eu que de drone, que lentamente se aproxima do edifício e, no desfecho do doc, vai se afastando. Um dos melhores longas do festival ‘É Tudo Verdade’ de 2025, o doc foi exibido em festivais importantes como CPH:DOX, importante festival de documentários, em Copenhagen. Acaba de estrear nos principais cinemas do Brasil, com distribuição da Vitrine Filmes.
 

 
Seis dias naquela primavera
 
Diretor belga que sigo há muito tempo, de filmes cult como “A economia do amor”, “Seguir em frente” e “Um silêncio”, Joachim Lafosse lança seu novo trabalho, um drama feminino de enorme força íntima. Coprodução entre Bélgica, França e Luxemburgo, o filme foi premiado no Festival de San Sebastián nas categorias de direção e roteiro (também dele, em parceria com outros dois roteiristas), e é inspirado em lembranças da infância dele, mantendo na obra um tom confessional e humano. É a história de Sana (Eye Haïdara, de “Assim é a vida”), uma mãe que decide levar os filhos gêmeos para a praia durante as férias da primavera. Após contratempos, mãe e filhos ficam às escondidas na luxuosa casa dos antigos sogros, na Riviera Francesa, por seis dias. Será um tempo de descobertas, como perda da inocência e a união familiar. A fragilidade econômica da mãe se confronta com o poder material da família paterna, eixo dramático do longa, tudo revelado pelos olhos das crianças. A produção se destaca pela fotografia lindíssima (de sol e calor na região da Riviera) de Jean-François Hensgens, além da montagem cuidadosa de Marie-Hélène Dozo, que reforça o ritmo contemplativo. Lafosse constrói mais um filme com mise-en-scène delicada, marcada por silêncios e gestos sutis, que traduzem a intimidade e a tensão social – ele aqui revisita sua própria trajetória para falar de desigualdade, pertencimento e família, além de afeto e da beleza que resiste nas dificuldades cotidianas. Recomendo conhecerem o cinema desse diretor autor brilhante. “Seis dias naquela primavera” está em exibição nos cinemas brasileiros das principais capitais, como São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, com distribuição da Zeta Filmes.
 

 
A vida secreta de Kika
 
Chegou na semana passada na plataforma de streaming Filmelier+ esse filme novíssimo, de 2025, exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes e que é primeiro longa de ficção da diretora francesa Alexe Poukine (que atua como documentarista). É um drama feminino visceral sobre sobrevivência, protagonizada por Manon Clavel, de “A verdade” (2019), num esplêndido e complexo papel, o de uma jovem mãe grávida, que ficou viúva há pouco e precisa enfrentar escolhas inesperadas para sustentar a família em formação. Ela se chama Kika, uma assistente social ainda aturdida com a morte prematura do marido, com quem teve um relacionamento intenso. Ela cuida da primeira filha, ainda pequena, e agora, com um filho para chegar, decide vender roupas íntimas usadas por ela pela internet, um fetichismo que existe aos montes por aí. Devido à urgência financeira, entra aos poucos no mundo do mercado sexual digital. Poukine constrói o retrato de uma mulher vulnerável, dividida entre o trabalho formal e um outro ganha-pão que é novidade para ela, mas malvisto e feito às escondidas. Ela é testada todo dia pela sociedade, portanto é tomada por um dilema moral. Há elementos de outros filmes de temática semelhante, da mulher que tem papel duplo envolvendo sexo para sobreviver, como “Jeanne Dielman” (1975) e “Irina Palm” (2007), e todos os três trazem figuras femininas poderosas na tela, de mulheres que não sucumbem nem ao machismo nem a hipocrisia dos valores pregados pela sociedade. Sem estereótipos ou melodrama, o filme (que tem uma ótima fotografia que evoca a pessoalidade da protagonista) amplia a discussão sobre como mulheres em situação de fragilidade (tanto emocional quanto financeira) são forçadas a recorrer a alternativas inesperadas para sobreviver. Um filme que gostei de conhecer e que recomendo.



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