Copan
O
gigantesco edifício Copan, fincado na avenida Ipiranga, no centro de São Paulo,
é o personagem central desse filme-mosaico interessantíssimo, que agrega
elementos notórios em sua produção, como fotografia, som e edição. Coprodução
Brasil e França, dirigido por Carine Wallauer, o filme, grande vencedor do ‘É
Tudo Verdade’ de 2025 (onde assisti) na ‘Competição Brasileira de Longas ou
Médias-Metragens’, acompanha histórias de moradores e funcionários do antigo
prédio, inaugurado em 1966, cuja arquitetura singular de linhas sinuosas foi
concebida por Oscar Niemeyer. É considerado o edifício com maior estrutura de
concreto armado do país, em seus 115 metros de altura, 32 andares e 1160
apartamentos divididos em seis blocos – e lá residem pessoas de diferentes
classes sociais, sem contar os mais de 70 estabelecimentos comerciais. A câmera
fica estacionada observando a rotina das pessoas no edifício, dentro e fora dos
apartamentos – o filme foi gravado durante a campanha presidencial de 2022, e
muito traz desse ambiente, tratando da disputa acirrada entre os candidatos
Lula e Bolsonaro, e os ânimos exaltados de apoiadores dos dois lados. O filme
faz um reflexo sobre desigualdade social e a questão da moradia na maior cidade
da América Latina. O início e o término do filme se completam com uma gravação
impressionante, acredito eu que de drone, que lentamente se aproxima do
edifício e, no desfecho do doc, vai se afastando. Um dos melhores longas do
festival ‘É Tudo Verdade’ de 2025, o doc foi exibido em festivais importantes
como CPH:DOX, importante festival de documentários, em Copenhagen. Acaba de estrear
nos principais cinemas do Brasil, com distribuição da Vitrine Filmes.
Seis
dias naquela primavera
Diretor
belga que sigo há muito tempo, de filmes cult como “A economia do amor”, “Seguir
em frente” e “Um silêncio”, Joachim Lafosse lança seu novo trabalho, um drama
feminino de enorme força íntima. Coprodução entre Bélgica, França e Luxemburgo,
o filme foi premiado no Festival de San Sebastián nas categorias de direção e roteiro
(também dele, em parceria com outros dois roteiristas), e é inspirado em
lembranças da infância dele, mantendo na obra um tom confessional e humano. É a
história de Sana (Eye Haïdara, de “Assim é a vida”), uma mãe que decide levar os
filhos gêmeos para a praia durante as férias da primavera. Após contratempos, mãe
e filhos ficam às escondidas na luxuosa casa dos antigos sogros, na Riviera
Francesa, por seis dias. Será um tempo de descobertas, como perda da inocência
e a união familiar. A fragilidade econômica da mãe se confronta com o poder
material da família paterna, eixo dramático do longa, tudo revelado pelos olhos
das crianças. A produção se destaca pela fotografia lindíssima (de sol e calor
na região da Riviera) de Jean-François Hensgens, além da montagem cuidadosa de
Marie-Hélène Dozo, que reforça o ritmo contemplativo. Lafosse constrói mais um
filme com mise-en-scène delicada, marcada por silêncios e gestos sutis, que
traduzem a intimidade e a tensão social – ele aqui revisita sua própria
trajetória para falar de desigualdade, pertencimento e família, além de afeto e
da beleza que resiste nas dificuldades cotidianas. Recomendo conhecerem o
cinema desse diretor autor brilhante. “Seis dias naquela primavera” está em
exibição nos cinemas brasileiros das principais capitais, como São Paulo,
Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, com distribuição da Zeta Filmes.
A
vida secreta de Kika
Chegou na
semana passada na plataforma de streaming Filmelier+ esse filme novíssimo, de
2025, exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes e que é primeiro longa
de ficção da diretora francesa Alexe Poukine (que atua como documentarista). É
um drama feminino visceral sobre sobrevivência, protagonizada por Manon Clavel,
de “A verdade” (2019), num esplêndido e complexo papel, o de uma jovem mãe grávida,
que ficou viúva há pouco e precisa enfrentar escolhas inesperadas para
sustentar a família em formação. Ela se chama Kika, uma assistente social ainda
aturdida com a morte prematura do marido, com quem teve um relacionamento
intenso. Ela cuida da primeira filha, ainda pequena, e agora, com um filho para
chegar, decide vender roupas íntimas usadas por ela pela internet, um fetichismo
que existe aos montes por aí. Devido à urgência financeira, entra aos poucos no
mundo do mercado sexual digital. Poukine constrói o retrato de uma mulher
vulnerável, dividida entre o trabalho formal e um outro ganha-pão que é novidade
para ela, mas malvisto e feito às escondidas. Ela é testada todo dia pela
sociedade, portanto é tomada por um dilema moral. Há elementos de outros filmes
de temática semelhante, da mulher que tem papel duplo envolvendo sexo para
sobreviver, como “Jeanne Dielman” (1975) e “Irina Palm” (2007), e todos os três
trazem figuras femininas poderosas na tela, de mulheres que não sucumbem nem ao
machismo nem a hipocrisia dos valores pregados pela sociedade. Sem estereótipos
ou melodrama, o filme (que tem uma ótima fotografia que evoca a pessoalidade da
protagonista) amplia a discussão sobre como mulheres em situação de fragilidade
(tanto emocional quanto financeira) são forçadas a recorrer a alternativas
inesperadas para sobreviver. Um filme que gostei de conhecer e que recomendo.
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