Mãe
e filho
Dois
filmes iranianos foram destaque na programação da Mostra Internacional de
Cinema de SP do ano passado, onde os assisti: “Foi apenas um acidente”,
ganhador da Palma de Ouro em Cannes, de Jafar Panahi (que esteve no evento para
receber o prêmio Humanidade), e “Mãe e filho” (exibido com “Woman and child”). O
drama, coproduzido
na França, também teve sessões no Festival de Cannes de 2025, concorrendo à
Palma de Ouro, num trabalho exímio do cineasta Saeed Roustayi, que tem muito a
nos contar. Aprecio os cult movies iranianos desde minha inserção no mundo da
crítica, há quase 30 anos, e este é um daqueles dramas de sufocar a alma. É a
história de uma enfermeira viúva (Parinaz Izadyar – muito bem como
protagonista) que trabalha em um hospital e mora com o filho rebelde. O garoto
causa problemas na escola e acaba suspenso das aulas. Prestes a noivar com o
novo namorado, relacionamento não aceito pela família, a enfermeira sofre um
baque quando um incidente mata seu filho. O longa é dividido em dois momentos: antes
da estranha morte do garoto, mostrando os dias turbulentos daquela mulher cuja
rotina é ficar no hospital e cuidar do rapaz, e depois do fato trágico, quando
a mulher embarca numa jornada de investigação pessoal para desvendar o
ocorrido. As duas partes, juntas, formam uma obra densa, dolorosa, de uma mãe
disposta a enfrentar o mundo por justiça ao filho morto. Filmes iranianos de
drama com suspense, como os de Asghar Farhadi, nos prendem com suas sólidas
tramas, e este, apesar de não ser dele, lembra muito e é uma ótima
recomendação. Estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição
da Retrato Filmes.
Yiya
Murano: Morte na hora do chá
Documentário
da Netflix que acaba de estrear lá, o filme trata da primeira serial killer da
Argentina, Yiya Murano (1930-2014), uma senhorinha que ficou conhecida como “A
envenenadora de Montserrat” (em referência ao bairro onde ela circulava). O
filme argentino resgata do baú dos noticiários da época uma série de reportagens,
além de arquivos policiais, juntando depoimentos atuais do filho dela, que foi
dublê de cinema, Martin Murano, de investigadores, jornalistas e familiares das
vítimas. Martin nunca se deu bem com a mãe e foi um dos idealizadores do documentário;
ele relembra que desde criança não tinha relação com Yiya, e quando os casos dos
crimes vieram à tona, afastou-se de vez dela. Yiya tinha quase 50 anos quando
foi acusada de envenenar várias mulheres de mesma idade para dar um golpe
milionário. As mortes ocorreram por envenenamento, na Buenos Aires dos anos 70
e 80 – Yiya colocava veneno em doces na hora do chá da tarde na casa das vítimas.
Segundo contam no filme, ela era uma senhora de boa aparência, vestia-se bem e
frequentava a noite badalada da Avenida Corrientes. Quando o caso envolvendo
assassinatos explodiu, ela negou até o fim da vida. O destaque do filme, que
acho importante aqui colocar, está no comportamento errôneo da mídia que a
colocou no pedestal de celebridade; Yiya virou um ícone pop na Argentina, dava
entrevistas em talk shows sobre o caso, não se importando com as críticas. Em
certo momento da vida, já bem idosa, não ligava mais de ser chamada de
envenenadora, e suas aparições batendo boca com o filho em TV aberta e revidando
com os espectadores chegam a ser sensacionalismo fuleiro, verdadeiras piadas de
mau gosto. Isto acende um alerta de como emissoras, inclusive brasileiras, dão
voz a bandidos vangloriando seus comportamentos (o que a meu ver é falta de
ética jornalística, já que focam apenas em audiência). O diretor Alejandro
Hartmann havia realizado para a Netflix diversos docs sobre casos policiais
reais na Argentina, como o filme “O fotógrafo e o carteiro: O crime que parou a
Argentina” (2022) - sobre o assassinato do fotojornalista José Luis Cabezas, em
1997, cometido por um empresário que quis silenciar a vítima, e “O caso dos irmãos
Menendez” (2024), sobre os irmãos que mataram os pais, além das minisséries “Quem
matou María Marta?” (2020) e “Nahir: O segredo de um crime” (2024). Já havia
uma minissérie dramatizada sobre o caso Yiya, intitulado “Yiya” (2025), da
Flow, uma TV a cabo argentina – e agora este filme da Netflix vem para
atualizar a história.
Devoradores
de estrelas
Uma das
sensações do cinema de 2026, o épico de ficção científica dirigido por Phil
Lord e Christopher Miller, baseado no best-seller “Project Hail Mary” de Andy
Weir, completa sete semanas em cartaz. Só na capital São Paulo permanece em 12
salas de cinema espalhadas pela cidade. Manteve-se na liderança em bilheteria
em vários países, incluindo aqui, e dos U$ 200 milhões de orçamento, já fez mais
de U$ 615 milhões pelo mundo. O space opera de caráter humanista, em vários
aspectos com apelo ao Hard Science Fiction, traz um Ryan Gosling sentimental e
solitário como um astronauta improvável, em uma missão de vida ou morte na
escuridão do espaço sideral. Ele é Ryland Grace, um professor de ciências que na
Terra, antes de embarcar na cápsula para a viagem, já era um homem sozinho, sem
esposa, filhos ou animais. Ele acorda a anos-luz de uma expedição, sem memória.
Perambulando pela nave, descobre que a tripulação está morta, e ele, o único
sobrevivente. Aos poucos vai compreendendo sua complicada situação, tentando
contato com a base nos Estados Unidos, principalmente com sua cientista-chefe,
Eva Stratt (Sandra Hüller). Os dias são cansativos e intermináveis, até que recebe
objetos, como forma de contato, de uma espécie de nave que aparece e desaparece
bem próxima. Ele bota a roupa de astronauta e se dirige à espaçonave vizinha, e
lá encontra uma criatura alienígena (eridiana) que lembra uma aranha, só que de
pedra, envolta em uma estrutura dura para armazenar amônia, gás que usa para respirar
(Rocky será seu apelido, cuja voz é emprestada do ator James Ortiz). Rocky também
tem uma missão semelhante à de Ryland: deter a ação de um astrófago recém-descoberto,
uma praga interestelar que consome a energia das estrelas (por isso o título) e
que em breve causará danos irreversíveis ao planeta, como a extinção da vida humana.
Os dois se tornam amigos, só que eles são muito diferentes: Ryaldn terá de descobrir
uma maneira de comunicação com o alienígena de pedra. É daqueles filmes de saga,
de longa duração, para ver na telona, com bom som e imagem – isso porque o
filme foi todo rodado em IMAX, tecnologia de câmeras de altíssima resolução, com
som imersivo e nitidez superior em telas gigantes. Parte do potencial do longa se
concentra nas concepções visual e sonora, por isso, reafirmo, se puder veja na sala
de cinema. O filme é uma mistura de espetáculo grandioso com cenas de aventura
e emoção, algumas que não deixam a gente piscar. É uma ficção científica
fortificada com doses de romance, ação, aventura e drama. O roteiro, fiel ao
espírito do livro, equilibra ciência com humor e pontos de profunda humanidade,
transformando a aventura espacial em uma reflexão sobre amizade, sacrifício,
trabalho em conjunto e empatia. Ryan Gosling está mais carismático do que
nunca, bem como Sandra Hüller abrilhanta na pequena participação que faz no
filme (os dois podem receber indicações a Globo de Ouro ou até Oscar em 2027). A
cativante trilha sonora do indicado ao Oscar por “Os 7 de Chicago” Daniel
Pemberton é um primor de trabalho. Vale destacar que a dupla de diretores Lord
e Miller, conhecidos por sua versatilidade em filmes que vão da animação “Uma
aventura Lego” à produção de “Homem-aranha: No Aranhaverso”, demonstram uma nova
rota na carreira com essa preciosidade scifi cheia de humor e intimidade. Eles estão
em fase de produção do novo filme scifi de viagem espacial, “Artemis”, também
baseada em obra de Andy Weir (o mesmo autor do livro que originou o filme “Perdido
em Marte”). Para mim, um dos melhores longas de cinema de 2026 (logo sairá no
streaming).
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