“É
Tudo Verdade” segue gratuito em SP e RJ; no festival estão 75 filmes de 25
países
O “É
Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” segue com 75 de filmes gratuitos
para o público até o dia 19/04, em cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro. Festival
de cinema importante do Brasil, o É Tudo Verdade está em sua 31ª edição, este
ano apresentando longas, médias e curtas-metragens de 25 países. Confira abaixo
mais títulos que já conferi no Festival e que recomendo:

Bowie:
O ato final
(Reino
Unido, 2025, de Jonathan Stiasny)
Documentário
britânico do cineasta especializado em séries de TV Jonathan Stiasny que traz
um ponto de virada na carreira musical de David Bowie (1947-2016), dos anos 80
para os 90, um período crítico em que o cantor e compositor se viu massacrado
pela mídia devido aos últimos trabalhos. Um filme que se afasta da biografia
tradicional – aquela que conta do nascimento à ascensão de uma personalidade;
aqui o foco, como o título diz, são os últimos anos da carreira de Bowie, o “Camaleão
do rock”, que se renovava a cinco anos no estilo musical que refletia no
visual. O recorte do filme é de 1983, quando lançou o álbum “Let’s dance”, logo
após a “Trilogia de Berlim”, passando pela fase das experimentações eletrônicas
e do Tin Machine, até culminar no último álbum, “Blackstar”, lançado dois dias
antes da morte dele, em janeiro de 2016. O doc reúne cenas de shows desse
período, ensaios fotográficos para revistas e entrevistas da época em que a crítica
detonava seus trabalhos (chegando a julgá-lo de “grande vergonha”, e algumas em
que Bowie foi agressivo com jornalistas). Traz também depoimentos atuais de músicos
de sua banda, que tocaram turnês com ele (como Earl Slick e Mike Garson), além
de músicos amigos, como Gary Kemp (da banda Spandau Ballet) e Moby. O
documentário mostra um Bowie inquieto, que não se curvou à mídia apesar das
críticas daquele período final, capaz de se reinventar até o fim, e reforça
como sua arte funcionou como resistência diante da doença que o matou (ele enfrentou
o câncer por dois anos em sigilo, enquanto produzia o álbum de despedida). Sensível
e reflexivo, o doc é muito bem feito e um presentão para os fãs. Estreou nos
cinemas do Reino Unido em dezembro de 2025, e foi o filme de abertura do É Tudo
Verdade em SP. Conta com mais uma exibição no festival, em 19/04, no RJ.

Carcereiras
(Brasil,
2026, de Julia Hannud)
Primeiro
longa na direção da produtora paulista Julia Hannud (antes ela codirigiu o doc
de 2019 “Saudade mundão”), que é um dos melhores filmes brasileiros da edição
deste ano do É Tudo Verdade. Acompanha duas mulheres, Ana Paula e Mariana, que
abandonam raízes e família para trabalhar em uma profissão de risco, como agentes
penitenciárias em presídios femininos. Um universo duro, repleto de conflitos,
em que as duas se veem sozinhas em outra cidade, sem amigos, tendo de lidar com
frustrações e pressões diárias. O filme revela uma rotina marcada por
disciplina, mostrando como essas mulheres vivem entre a rigidez do uniforme e
os impactos emocionais de um trabalho que raramente ganha espaço na mídia. Mesmo
diante dos problemas, as duas têm astral lá em cima, o que as ajuda a suportar
o peso da função. A linguagem do filme traz uma câmera que observa as duas
tanto no trabalho quanto em casa e acrescenta depoimentos delas, o que aproxima
o espectador da realidade das protagonistas. O filme, cuja montagem é um ponto
altíssimo da obra, explora, nas entrelinhas, as contradições da profissão: de
um lado, a necessidade de sustento misturado com a saudade da família, e de
outro, a exposição à violência e ao desgaste psicológico. O Brasil tem a
terceira maior população carcerária feminina do mundo, o que amplia, nesse
filme, o debate sobre gênero e desigualdade, ressaltando a precariedade das
unidades prisionais destinadas às mulheres. A première do doc se deu no
festival É Tudo Verdade, e conta com mais três exibições, em 17 e 19/04, todas no
RJ.
Apopcalipse
segundo Baby
(Brasil,
2026, de Rafael Saar)
Novo trabalho
autoral do cineasta carioca Rafael Saar, que já dirigiu documentários musicais,
além de especiais para TV, de nomes cultuados da música brasileira, como Maria
Alcina (no filme “Sem vergonha”) e a dupla Luli & Lucina (no maravilhoso “Yorimatã”).
Agora ele faz uma viagem tresloucada ao mundo de Baby Consuelo, a Baby do
Brasil, num doc inteiramente narrado por ela (em primeira pessoa). A obra se
constrói a partir da pluralidade transgressora da artista, hoje com 73 anos;
ela relembra quando fugiu de casa aos 17 para explorar o campo da música, onde
conheceu no Rio Luiz
Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira e com eles fundou o grupo “Os Novos
Baianos”. Com muitas imagens de arquivo, de bastidores e dos shows, Baby também
relembra o espírito hippie nos anos 70, período influenciado pela
contracultura, e depois o pop multicolorido que marcou sua presença na década de
80. O filme reforça a liberdade criativa da cantora e compositora (cuja
inspiração principal foi Janis Joplin), sua versatilidade, o estrondo de seus figurinos
extravagantes e ousados e a vida compartilhada com o cantor e compositor Pepeu
Gomes, com quem teve seis filhos. O terço final do doc foca no trabalho atual de
Baby, como pregadora religiosa (e os motivos, como visões sagradas, que a
levaram a incursionar ao campo religioso). “Apopcalipse segundo Baby” é um
retrato da liberdade a partir da própria natureza multifacetada da cantora,
mostrando como a artista atravessou décadas sem se enquadrar nos padrões. A première
do doc se deu no festival É Tudo Verdade, e o filme tem ainda exibição no
festival nos dias 13 (em SP e Rio) e 14 (no Rio).
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