Caminhos
do crime
Elegante
thriller de assalto (nos Estados Unidos chamado de “Heist movie”) que traz um
olhar sobre poder e lealdade. É uma adaptação do romance de Don Winslow,
escritor norte-americano que tem diversos livros na lista dos mais vendidos do
The New York Times, com roteiro e direção de Bart Layton – o trabalho anterior
dele foi justamente um filme policial de assalto, “Uma aventura perigosa”
(2018). Ambientado em Los Angeles, o longa traz Mike Davis (Chris Hemsworth),
um ladrão meticuloso que realiza assaltos ao longo da rodovia 101, extensa via
norte-sul da Califórnia que tem mais de 2400 quilômetros. Ele rouba joias,
dinheiro e objetos valiosos. Seus passos cruzam com Sharon Colvin (Halle
Berry), corretora de seguros em crise pessoal, e com Lou Lubesnick (Mark
Ruffalo), detetive obstinado que percebe um padrão nos crimes e decide capturá-lo.
O roteiro é um jogo dramático intenso de caçada a um bandido audacioso, em que cada
personagem lida com dilemas morais que ultrapassam a lógica da polícia X
ladrão. Layton imprime ao filme uma estética que lembra elementos de “Fogo
contra fogo”, de Michael Mann, apostando em uma série de situações perigosas aos
personagens (que utilizam disfarces para se infiltrar e cometer crimes) e
sequências de perseguição que transformam Los Angeles em um espaço alucinante.
O elenco é um dos pontos altos: Hemsworth está bem como o bandido contido e até
carismático, Ruffalo encarna um investigador obsessivo, e Berry, sumida das
telas, traz densidade emocional à única personagem feminina da trama. Há ainda
Barry Keoghan, ótimo na pele de um criminoso impulsivo, Nick Nolte, como o
veterano chefe do submundo, e participação especial de Jennifer Jason Leigh. A longa
duração (140 minutos) não atrapalha o sabor do movimentado filme, que empolga e
surpreende (confesso que tenho um fraco por filmes de assalto, e este me chamou
a atenção por fugir do padrão, ser estiloso e vibrante). Dos estúdios MGM, passou
nos cinemas brasileiros em fevereiro deste ano, com distribuição pela Sony
Pictures, e agora está disponível no catálogo do Prime Video.
Parque
Lezama
O veterano
cineasta argentino Juan José Campanella, do ganhador do Oscar “O segredo dos
seus olhos” (2009), lançou no início do mês seu novo trabalho, uma produção da
Netflix que mistura comédia e drama e é inspirada na peça da Broadway da década
de 80 “Eu não sou Rappaport”, de Herb Gardner. A simpática história é sobre dois
idosos que se conhecem no banco da praça do Parque Lezama, em Buenos Aires (na
peça original a ambientação é no Central Park), e ali ficam um dia inteiro conversando
sobre o passado, a carreira, a velhice, bem como filosofias de vida, política e
projetos para o futuro. Eles são León Schwartz (Luis Brandoni), um ex-militante
comunista de temperamento agitado, e Antonio Cardozo (Eduardo Blanco), um senhor
pacato, com Parkinson, que evita confrontos. O filme todo é naquela praça, com
dois personagens trazendo memórias e discussões acaloradas, desde o raiar de um
dia de sol até o anoitecer. A diferença entre eles gera atrito, mas também
cumplicidade, revelando como visões de mundo contrastantes podem se
complementar. Figuras passageiras cruzarão por ali, alguns em busca de conexão,
outros com segundas intenções (como trombadinhas), mas nada abalará a força do
encontro dos dois idosos solitários. Rodado no charmoso Parque Lezama,
localizado no bairro histórico de San Telmo, em Buenos Aires, o filme se desenvolve
nos diálogos da dupla de atores – o longa tem formato teatral, como muitos diálogos,
elenco enxuto e apenas uma ambientação. É, em essência, uma reflexão sobre
amizade, envelhecimento e persistência dos sonhos, caprichadamente conduzida
por um dos melhores diretores da atualidade da Argentina. O ator Eduardo Blanco,
de “Clube da lua” (2004), está ótimo (envelheceram seu personagem com maquiagem
e cabelo), assim como o veterano Luis Brandoni dá um show (foi seu último
trabalho no cinema, ator de uma centena de filmes argentinos, que faleceu semana
passada, no dia 20 de abril, aos 86 anos). Aliás, a Argentina perdeu em abril três
figuras expressivas do cinema: além de Brandoni, faleceram os diretores Luis Puenzo,
de “A história oficial” (no dia 21, aos 80 anos), e Adolfo Aristarain, de “Lugares
comuns” (falecido ontem, dia 26, aos 82 anos).
Veneno
para as fadas
Do fim
da pandemia para cá, nos últimos quatro anos, as distribuidoras viram uma
janela de oportunidade para lançar, nos cinemas, filmes clássicos em versões
restauradas, uma maneira de atrair tanto o cinéfilo para as salas quanto apresentar
títulos de outrora para a nova geração. Retornaram aos cinemas recentemente edições
de aniversário de blockbusters como “Tubarão”, “De volta para o futuro”, as
franquias de cinema “Harry Potter” e “Crepúsculo”, bem como obras cult, como “Paris,
Texas”, “Incêndios” e “Amores brutos”. Só no último fim de semana dois longas
europeus de terror voltaram para a telona em ótima cópia restaurada em 4K: o
italiano “Suspiria” (1977), de Dario Argento, e o mexicano “Veneno para as fadas”
(1986), de Carlos Enrique Taboada, demonstrando que há espaço para filmes
antigos seja em cinemas de shopping ou de rua. “Veneno para as fadas” é um assustador
filme do terror mexicano moderno, vencedor de três Prêmios Ariel em 1986, também
um persuasivo suspense psicológico sobre os medos da criança. Simbólico, o
longa foi o último trabalho do diretor Carlos Enrique Taboada (1929-1997), cineasta
que abriu espaço ao cinema de horror no México a partir da década de 60 (são
dele também, desse gênero e desse período, as obras de horror de fantasia e
mistério “Até o vento em medo”, “O livro de pedra” e “O andarilho na chuva”). Com
forte atmosfera gótica e utilizando elementos do folk horror, o filme explora o
imaginário infantil a partir do encontro de duas garotinhas que acabam de se
conhecer; uma é Flavia, que se muda para a cidade onde reside Verónica, sua colega
de escola, que se apresenta como bruxa. A amizade entre elas evolui para uma
relação de poder e manipulação, na qual uma será submissa à outra. A fantasia e
a crueldade infantil mesclam-se criando um ambiente de tensão psicológica interminável.
Os jogos aparentemente ingênuos que elas fazem de invocar Satanás culminarão em
fatos sobrenaturais de arrepiar o cabelo. Taboada recorre a manejos não-sensacionalistas
nem explícitos para contar sua história; tudo é subentendido, nas entrelinhas,
com penumbras e silhuetas, o que torna a obra ainda mais assustadora. O terror é
sugestivo, nasce da imaginação das crianças e daquilo que parece ser, tornando a
experiência do espectador incômoda (tem uma cena rápida da bruxa no caldeirão
que arrepia). Rodado na Cidade do México, com orçamento modesto, cenários
cotidianos e fotografia sombria, o filme conta com bom trabalho das atrizes
infantis, Ana Patricia Rojo (como Verónica) e Elsa María Gutiérrez (Flavia). A
volta do longa restaurado em 4K nos cinemas, com distribuição da Filmicca, enaltece
(e homenageia) o cinema desse cineasta desconhecido de muitos, apresentando ao
público uma obra com mais nitidez em som e imagem. A Filmicca é um streaming
nacional e independente de cinema autoral e cult, com lançamentos semanais,
incluindo obras inéditas e de festivais. Possui vasto acervo com mais de 500
títulos disponíveis, incluindo obras de importantes realizadores como Chantal
Akerman, Kiyoshi Kurosawa, André Novais Oliveira, David Cronenberg, Mia
Hansen-Løve, Miloš Forman, Víctor Erice e Djibril Diop Mambéty. E com “Veneno
para as fadas”, a proposta da Filmicca é distribuir mais títulos nas salas de
cinema. PS: Quem quiser conhecer mais do cinema de horror mexicano, a Versátil
Home Video já lançou mais de 20 títulos em DVD, em boxes especiais, como o
próprio “Veneno para fadas” e “O andarilho na chuva”, além dos cultuados “O morcego”,
“Satanico pandemonium”, “A tia Alejandra” e “Alucarda”.
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