Entre
nós – Uma dose extra de amor
Exibido
no festival SXSW, a comédia romântica dirigida por Chad Hartigan, de “Memórias
de um amor” (2020), busca renovar o gênero com uma história moderna, que aposta
em personagens carismáticos em situações inesperadas para falar de amor e amadurecimento.
Olivia (Zoey Deutch, de “Nouvelle Vague”), uma garota em uma fase crucial da
carreira, conhece Connor (Jonah Hauer-King, de “Casa de dinamite”), um rapaz
boa pinta, que chama a atenção das mulheres. Em meio a encontros e desencontros,
a relação entre os dois vira uma espécie de amizade colorida. Numa noite
aparentemente normal, os dois trombam com Jenny (Ruby Cruz, de “Bottoms”);
sentam-se na mesma mesa de bar, conversam sobre vários assuntos e resolvem
participar de um ménage. A noite de sexo entre os três evolui para um
complicado triângulo amoroso, também uma disputa entre quem ficará com quem –
até que Olivia e Jenny surgem grávidas no mesmo dia. O filme guarda surpresa, é
afetuoso, com frescor e ousadia, sem os clichês de fitinhas românticas água com
açúcar. O elenco central sustenta os personagens, de três pessoas que curtem a
vida em balada e bar e de repente se veem futuros pais e mães. Há uma boa reflexão
sobre o mundo do amor moderno e suas contradições (no caso um relacionamento
que se equilibra entre triângulo amoroso e trisal). Exibido nos cinemas
brasileiros em dezembro, com distribuição da Paris Filmes, chega agora ao
streaming (disponível no catálogo do Prime Video) – eu assisti sem apostar
muito e saí com boas impressões da sessão. Recomendo.
Elefantes
fantasmas
Werner
Herzog, cineasta mentor do novo cinema alemão nos anos 70 e 80, aos 83 anos
continua na ativa melhor do que nunca. Trabalhou com Klaus Kinski em obras
cultuadas, como “Aguirre – A cólera dos deuses” (1972) e “Fitzcarraldo” (1982),
chegou a fazer participações em produções americanas como ator, e há mais de
duas décadas roda documentários ambientais, sobre a relação do homem com a
natureza, narrados por ele, como “O homem urso” (2005), “Encontros no fim do
mundo” (2007 – indicado ao Oscar de doc), “Visita ao inferno” (2016) e agora
“Elefantes fantasmas” (2025). O veterano cineasta apresentou esse seu último
trabalho, feito com a National Geographic, no Festival de Veneza do ano
passado, recebendo um prêmio especial, depois levando o filme para festivais
como Telluride, Hamptons e Rio. Em “Elefantes fantasmas” ele realiza um trabalho
criterioso de pesquisa, sobre a jornada de ambientalistas ao fim do mundo em
busca de uma manada de elefantes que se esconderam por décadas da caça e da
guerra civil que assolou a Angola; Herzog, ao lado de um grupo de rastreadores
e pesquisadores nas terras altas da Angola, procuram por vestígios dos chamados
“elefantes fantasmas”, criaturas quase míticas, que aparecem sem ninguém
perceber e somem. Na expedição que demora semanas, vai o renomado biólogo Steve
Boyes, que estuda fauna e flora na África, além de nativos angolanos, que
analisam pegadas e resquícios de alimentos no amplo ecossistema da região; também
observam imagens de câmeras espalhadas em pontos estratégicos de árvores para
chegar até os distintos elefantes – muitos acreditam que esses animais nem
existam, já que é fato raro vê-los. É um documentário investigativo fascinante
pelo reino animal da África, com seus mistérios e crenças. Produção da Disney,
National Geographic e Hulu, está disponível agora no streaming da Disney+.

A história
de um gorila
Outro
excelente documentário sobre o reino animal chega ao Brasil, desta vez um filme
britânico da Netflix, que estreou na plataforma no último dia 17. É conduzido por
David Attenborough, um dos mais respeitados naturalistas do mundo, ex-diretor
da BBC e que por mais de 60 anos apresentou programas de TV sobre vida selvagem.
Aqui, David relata sua primeira experiência com o bebê gorila Pablo, quando viajou
para a Ruanda nos anos 70 e lá teve o encontro marcante com o animal. Ele acompanhou
todo o crescimento dele, bem como a relação com os outros animais. No filme as
imagens de arquivo relembram esses momentos afetuosos, e não apenas a ternura dos
encontros, mas o impacto que teve na trajetória de David como divulgador
científico e seus estudos sobre macacos. O filme foca na relação de David com
os descendentes diretos de Pablo (que viveu mais de 34 anos, morrendo em 2008),
um símbolo da continuidade e da força da espécie. Responsável por popularizar o
reino animal na mídia, David, irmão mais novo do ator e diretor Richard Attenborough,
apresenta um filme cativante, nos moldes das produções da National Geographic, trazendo
informações diretas de um jeito fácil de entender – ele completa em maio, 100
anos de idade. Dirigem dois nomes de destaque do universo do documentário:
James Reed, um dos diretores de “Professor Polvo” (2020), ganhador do Oscar, e Callum
Webster, que juntos fizeram a aclamada minissérie indicada ao Bafta “O império
dos chimpanzés” (2023).
Meus amigos indesejáveis: Parte I - Último ar em Moscou
Com a
impressionante duração de 324 minutos (o que pode ser um impeditivo para
alguns), o novo documentário político da Mubi é um exercício de como o jornalismo
é alvo constante de perseguição na Era Putin. Para trazer isto à tona, a
diretora e roteirista de origem russa Julia Loktev acompanha por meses um grupo
de jornalistas independentes em Moscou antes da invasão da Ucrânia, em 2022. O
período é de tensão, já que a mídia não pode exercer plenamente a liberdade de
expressão no país. Putin acusa quem o critica de opositor do regime, colocando
seus nomes na lista de “agentes estrangeiros” - muitos já foram exilados e
outros morreram de forma misteriosa. O documentário é um compilado desses dias de
privação e medo, com relatos surpreendentes de dentro daquele núcleo jornalístico,
composto quase todo por mulheres, apontando como as ameaças chegam a cada um. A
diretora parte de sua própria inquietação para revelar como o regime
autoritário invade instituições, criminalizando pessoas para encobrir a verdade
e moldar o pensamento ultranacionalista (que depois viraria pró-guerra). Reportar
a realidade sobre a invasão da Ucrânia tornou-se um ato de coragem que custou a
liberdade ou o exílio daqueles jornalistas combativos. Figuras como as
jornalistas e ativistas Anna Nemzer e Elena Kostyuchenko mostram o rosto para discutir
os dilemas éticos da profissão, na tentativa de manter a independência de seus
trabalhos. A Era Putin é retratada como um tempo em que a lealdade ao governo é
exigida como prova de cidadania, e qualquer desvio pode resultar em perseguição
– depois da invasão da Ucrânia, a situação piorou muito quanto aos direitos do
povo e do trabalho jornalístico. Um filme sério, de atmosfera sufocante, cujo
título simboliza a repressão à liberdade. O mérito da obra está em transformar
uma investigação pessoal em crítica política incisiva, servindo como um testemunho
de uma triste época. Todos os jornalistas envolvidos no doc tiveram de deixar a
Rússia nos primeiros dias da invasão da Ucrânia, juntamente com milhares de
opositores da guerra, considerados traidores da pátria. Exibido nos festivais
de Berlim e Nova York, concorreu ao prêmio de melhor documentário no Independent
Spirit Awards. A diretora e roteirista prepara a parte 2, que está em pós-produção
e se chamará “Meus amigos indesejáveis: Parte II - Exílio”, previsto para final
deste ano.
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