Cinco
tipos de medo
Thriller
brasileiro dirigido por Bruno Bini, que também assina a produção, o roteiro e a
montagem, em seu segundo filme, depois de “Loop” (2020), em mais uma obra instigante
e original. Ele entrelaça cinco histórias de violência urbana trazendo à tona
relações humanas fragilizadas, marcadas por desejo, vingança e sobrevivência. Rodado
em Cuiabá (MT), o filme (que tem muito de drama e suspense) se destaca pela
narrativa fragmentada, cujas tramas, independentes, vão se cruzando. Temos ali
Murilo, um jovem músico que, após quase perder a vida em uma UTI, tem um caso
com Marlene, sua enfermeira. Ela, no entanto, vive um relacionamento abusivo
com Sapinho, um traficante visto como protetor da comunidade onde moram. Surge
então a policial Luciana, que prende Sapinho e, movida por vingança,
desencadeia uma série de eventos que atingem em cheio o advogado Ivan, um homem
duvidoso que manipula informações a seu favor. Os núcleos narrativos se cruzam
em momentos de violência, perseguição e escolhas morais, carregado com um clima
de tensão e incerteza no ar (imagens reforçadas pela boa fotografia noturna,
quase claustrofóbica). Cada personagem tem um “tipo de medo”, como o da morte,
o da solidão e o da verdade, e cada passo dado os faz refletir sobre suas
inseguranças. Produzido pela Plano B Filmes e Druzina Content, marca a estreia
nos cinemas de Bella Campos (modelo e atriz da novela “Pantanal”) e participação
do rapper e cantor Xamã em seu segundo filme. Todos estão bem, com seriedade
nos papeis, que incluem ainda as atrizes Barbara Colen, de “Bacurau”, e Rejane
Farias, de “Marte Um”, e os atores Jonathan Haaggensen, de “Cidade de Deus”, e Zécarlos
Machado, da série “Sessão de terapia”. O filme venceu quatro prêmios no Festival
de Gramado (melhor filme, roteiro, montagem e ator coadjuvante para Xamã) e é
uma das boas estreias da semana nos cinemas brasileiros, com distribuição da Downtown
Filmes.
Caso
137
Indicado
à Palma de Ouro em 2025, o ótimo thriller francês “Caso 137” tem direção firme assinada
pelo veterano Dominik Moll, cineasta que gosto muito, de “Harry chegou para
ajudar” (2000), “O monge” (2011) e “A noite do dia 12” (2022). E estrelado por
Léa Drucker, premiada nesse papel com o César de melhor atriz – querida na
França, fez mais de 90 longas, como “Custódia” (2017) e “Close” (2022). O filme
acompanha Stéphanie Bertrand (Léa Drucker), uma policial da Corregedoria Francesa
(IGPN), encarregada de investigar um jovem gravemente ferido em uma
manifestação em Paris. O caso, de número 137, embora não contenha provas de
abuso policial, ganha novos contornos quando ela descobre que a vítima é de sua
cidade natal, colocando em choque sua disciplina profissional. Entre a sala de
interrogatório, análise de imagens do caso e conversas informais com colegas de
trabalho, Stéphanie entra de cabeça numa investigação pessoal complexa, que
mudará tanto sua vida quanto a do investigado. Dominik Moll escreveu o bom roteiro
junto do premiado roteirista Gilles Marchand, em mais uma parceria – juntos escreveram
outros quatro filmes. “Caso 137” é um estudo sobre comportamento humano frente
aos dilemas éticos da profissão, atingindo o universo da IGPN (Inspeção Geral
da Polícia Nacional), que controla e fiscaliza todas as polícias da França –
por isso o longa traz um ambiente marcado por tensões e desconfiança, já que os
agentes policiais investigam colegas e enfrentam hostilidade interna. É uma das
boas estreias da semana nos cinemas, disponível em 15 salas do país, como as
capitais SP e RJ. A distribuição é da Autoral Filmes.
A
conspiração Condor
O novo
filme do cineasta André Sturm (gestor do Cine Belas Artes e fundador da
distribuidora Pandora Filmes) tenta se firmar como um thriller político sério
sobre os bastidores das mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João
Goulart, ambas ocorridas em 1976, num intervalo de quatro meses, mas o
resultado deixa muito, mas muito a desejar. A obra investigativa especula sobre
as mortes, que muitos acreditam ter sido um assassinato cometido pelos homens da
Ditadura. A história narra uma jornalista (Mel Lisboa) buscando respostas e
cruzando dados, além de entrevistar pessoas importantes da época, como o ex-governador
da Guanabara e também jornalista Carlos Lacerda (Pedro Bial, numa ponta de dois
minutos). Apesar do potencial histórico e da relevância do tema, a execução se
mostra pouco envolvente e sem vitalidade – tudo é morno, desinteressante,
previsível. A própria dúvida gerada no filme em torno do possível assassinato de
JK e de Jango é esvaziada. O título faz referência à Operação Condor, uma
campanha de repressão política no auge da Ditadura, que envolveu seis países da
América do Sul, como Brasil e Argentina, e que aqui durou de 1975 a 1983; com apoio
dos Estados Unidos, havia um serviço de inteligência para perseguir, torturar e
matar opositores políticos - questão histórica que mal é citada no filme, infelizmente.
No elenco há muitos nomes conhecidos, como Don Stulbach, Marat Descartes, Zécarlos
Machado, Luciano Chirolli, Nilton Bicudo, Liz Reis e o próprio Sturm numa
pontinha. Queria ter me envolvido, mas não foi dessa vez... Lançado nos cinemas
em 9 de abril, com distribuição da Pandora Filmes.
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