Pompeia:
Sob as nuvens
Gianfranco
Rosi, premiado diretor e produtor de cinema italiano, reafirma sua posição como
um dos maiores documentaristas contemporâneos ao construir um retrato poético (e
bem multifacetado) de Nápoles, cidade localizada a 25 quilômetros da histórica
Pompeia, que foi dizimada pelo vulcão Vesúvio há 1950 anos. O filme, rodado em preto-e-branco,
traz, em pequenos fragmentos, a vida cotidiana de uma comunidade que convive
com a presença constante de dois vulcões vizinhos, o Vesúvio e o Campi Flegrei,
símbolo de ameaça permanente. Pompeia virou um sítio arqueológico e parada para
turismo, que movimenta a economia da região de Nápoles. Rosi, de “Fogo no mar”
(2016 - indicado ao Oscar), articula um mosaico que transita entre o íntimo e o
universal, revelando gestos simples da rotina dos moradores e os ecos de
séculos de cultura e tragédia. Ele evita o formato tradicional de documentário:
não há entrevistas, nem narrações didáticas ou guiada, tudo são passagens
contemplativas, de escavadores procurando vestígios, esculturas preservadas da
época, pessoas ligando para bombeiros por causa da sensação de terremotos,
imagens de sobrevoo sobre os vulcões. A narrativa se desenrola como um fluxo de
imagens belamente fotografadas (em um PB estonteante) que alternam o
extraordinário e o banal, criando uma atmosfera de contemplação. A trilha
sonora de Daniel Blumberg, compositor britânico ganhador do Oscar por “O
brutalista” (2024), intensifica essa sensação, funcionando como contraponto
emocional às cenas de ruas, rostos e paisagens. O título remete à sombra das
nuvens que pairam sobre Pompeia e Nápoles, metáfora da convivência entre beleza
e risco, passado e presente. Vencedor do prêmio especial do Júri no Festival de
Veneza de 2025, onde concorreu ao Leão de Ouro, a fita de arte está disponível
na plataforma da Mubi.
Betty
Blue
E
retorna para os cinemas brasileiros neste final de semana um de meus filmes de
arte preferidos, que consagrou o falecido cineasta Jean-Jacques Beineix, bem
como foi o ponto de partida da carreira dos principais nomes do elenco. O filme
está de volta em uma excelente cópia com novo master em 4K pela Pandora Filmes,
em edição comemorativa de seus 40 anos. A envolvente trama acompanha Zorg (Jean-Hugues
Anglade), um jovem pintor que restaura casas de praia na Riviera Francesa e que
pretende ser escritor. Certo dia aparece pelo bairro uma bela moça, de nome Betty
(Béatrice Dalle), que desperta a atenção de Zorg. Os dois iniciam um tórrido
relacionamento, mas aos poucos o rapaz percebe que Betty é neurótica e violenta.
Drama e romance erótico entram com tudo nesse road movie melancólico, de cores
quentes vivas, e uma interpretação intensa da atriz Béatrice Dalle, estreante no
terceiro filme do diretor Jean-Jacques Beineix (1946-2022), criador do
movimento Cinema du Look (“Cinema do Olhar”), ao lado de Leos Carax e Luc
Besson. Tal movimento explorava a juventude marginalizada da França das décadas
de 80 e 90, por meio de filmes estilizados e de visual elegante. Beineix dirigiu
antes, dentro do “Olhar”, “Diva – Paixão perigosa” (1981) e “A lua na sarjeta”
(1983), porém “Betty Blue” tornou-se especial no coração dos cinéfilos. Betty
entrou para a galeria de personagens marcantes do cinema, uma protagonista de
espírito livre, ao mesmo tempo instável e temperamental, que vai enlouquecendo,
brigando com quem está ao redor em seus acessos explosivos. Béatrice é uma
atriz de estranha beleza, perfeita para o papel dessa jovem irritada quando
contrariada, e que depois faria vilãs no cinema francês (dá medo sua
interpretação no terror francês “A invasora”, por exemplo). A trilha do libanês
Gabriel Yared (vencedor do Oscar por “O paciente inglês”) é inesquecível, com
arranjos ecléticos de sax, gaita e música circense, que caem como uma luva nessa
fita de arte sensual - na época recebeu classificação 18 anos (há cenas de sexo
selvagem, incluindo a abertura de um minuto). Indicado ao Oscar, Bafta e Globo
de Ouro de melhor filme estrangeiro, “Betty Blue” foi exibido nos festivais de
Toronto e Edimburgo e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Montreal. A
produção e o roteiro são de Beineix, e a obra é uma adaptação do livro de Philippe
Djian, escritor de outros livros eróticos que viraram filmes, como “Elle” (com
Isabelle Huppert). A versão que volta aos cinemas é a original apresentada em
1986, de 119 minutos – existe uma versão do diretor, de 185 minutos (ou seja, 66
minutos a mais que a de cinema) que saiu no Brasil em DVD em 2004 pela Columbia
Pictures, que recomendo caso não conheçam (versões do diretor, com grande
duração, valem a pena pois se tornam outro filme, com cenas extras e até novo
corte).
O
mago do Kremlin
O
diretor, produtor e roteirista (e que trabalhou muito tempo como crítico de
cinema) Olivier Assayas intercala em seu cinema filmes de arte independentes com
dramas históricos com figuras reais ou contextos notórios. “O mago do Kremlin” está
na lista de seus filmes de base histórica, assim como “Wasp: Rede de espiões”
(2019) e a minissérie “Carlos, o Chacal” (2010) - e todos eles trazem a
espionagem como ponto de partida, tema explorado pelo cineasta desde sua
estreia na década de 80. Novamente Assayas reúne elenco americano em um filme
crítico e de trama altamente complexa, cheia de nomes, lugares e situações. Paul
Dano interpreta o protagonista do drama, Vadim Baranov, personagem fictício inspirado
no empresário russo Vladislav Surkov, ex-conselheiro de Putin que atuou no
gabinete do presidente por mais de 10 anos. O longa escancara os bastidores do
poder do governo russo durante os anos 1990 e 2000, período marcado pelo colapso
da União Soviética, pelo fim do socialismo e a ascensão de Vladimir Putin.
Baranov, antes produtor de TV e homem do teatro, é recrutado para ser o
arquiteto da propaganda do Kremlin, moldando a imagem de Putin como o líder
ideal que iria recriar o país. Por ser da mídia, ele sabia como mexer os
pauzinhos para manipular percepções em escala nacional, utilizando a TV, o
rádio e os jornais em prol da propaganda russa. Baranov se torna o ideólogo de
Putin, o mago do governo, numa relação primeiramente fiel e subordinada, depois
instável entre os dois – Jude Law encarna o presidente russo a partir da metade
do filme (já que antes disso Putin não “existia” na história inicial, que foca
em Surkov). Law entrega uma interpretação marcada por exageros, mas olhando a
fundo são as caretas e trejeitos do próprio Putin, com sorrisinho de lado,
biquinhos, olhar compenetrado. O filme é um drama histórico mesclado com
thriller político, com diálogos difíceis, que explicam os bastidores sombrios
do governo Putin, passando pelas alianças e as crises. É uma fábula moderna
sobre disputas pelo poder e pelas narrativas, fazendo uma reflexão da Rússia
autoritária de Putin, uma figura temerária que governa o país com mãos de ferro
desde 1999. Assayas mistura ficção e documentário, com muitas imagens de
arquivo, reportagens da época e vídeos reais, fazendo um trabalho coeso, que
vale a pena ver. O elenco reúne também a ganhadora do Oscar Alicia Vikander, Jeffrey
Wright e Tom Sturridge. Adaptado do livro do italiano Giuliano da Empoli, o
filme teve estreia mundial no Festival de Veneza de 2025 e está em cartaz nos
cinemas pela Imagem Filmes.
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