quinta-feira, 9 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 4

 
A cronologia da água
 
Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, e no Brasil no Festival do Rio do ano passado, “A cronologia da água” marca a estreia da atriz Kristen Stewart na direção, uma atriz que começou bem jovem em filmes teenagers bobocas, com o tempo amadureceu bem e agora atinge o ápice da carreira atrás das câmeras. Seu trabalho é uma adaptação do livro de memórias da escritora norte-americana Lidia Yuknavitch, reconhecida por sua escrita visceral, sem meio termo, com obras amargas que exploram temas como sexualidade, traumas e desejos. O filme procura uma relação direta com o livro, cujo tom é forte, difícil, já que traz experiências intensas de Lidia que envolvem abusos e inseguranças. Kristen faz uma obra extremamente sólida e madura, transformando violências em matéria artística. Como é uma obra autoral e biográfica, quem interpreta Lidia é a inglesa Imogen Poots, de “Sala verde” (2015), num papel complexo e de insuportável dor. Ela é uma mulher que vive se autossabotando e pensa em suicídio, por ter sido atravessada por abusos na infância e adolescência (um deles foi o abuso sexual do próprio pai). Ela tem uma relação conflituosa com o próprio corpo e por vícios que marcaram a fase adulta. Prostrada em uma banheira, ela reflete o passado – e o filme explora por dentro da mente dela, aparecendo flashes, luzes, cenas disformes e apagadas de uma criança assustada, de uma adolescente triste, os lapsos vêm e somem. Na natação, Lidia encontra um jeito de superar a realidade, uma espécie de conforto momentâneo para enfrentar o caos interno. Não é uma cinebiografia tradicional, com começo, meio e fim; tudo é fragmentado, com esses lances e flashes que aparecem na tela, tipicamente uma linguagem experimental, até com poucos diálogos. Tudo é sensorial no filme, rodado em 16 milímetros, cuja fotografia é marcada por uso intenso de closes. Kristen Stewart confessa que é uma obra autoral de difícil acesso, com ritmo rápido e sons minimalistas, aproximando-se da forma como lembranças surgem e desaparecem. Incômodo, impactante, pode ser uma experiência aflitiva para parte do público, porém é inegável o talento e o domínio da forma e do conteúdo de Kristen. Está em exibição nos cinemas com distribuição do Filmes do Estação.


 
Relay: Contrato perigoso
 
O novo trabalho do diretor David Mackenzie, de “Sentidos do amor” (2011) e “A qualquer custo” (2016), é um thriller cabeça, cheio de peças embaralhadas que vão se juntando ao longo da trama, cujo elenco é liderado pelo ganhador do Oscar Riz Ahmed (de “O som do silêncio”). Ele faz Ash, um corretor que atua em empresas acusadas de corrupção, cujo trabalho é resolver seus problemas (um “fixer”). Nos bastidores desse submundo do crime, pessoas e corporações estão sob vigia e ameaça, e também por isso Ash precisa manter a identidade em segredo. O trabalho para ele é bem lucrativo no final das contas, por não ter concorrentes. Até que tudo vira um caos quando conhece uma nova cliente que precisa de proteção, mesmo que para isso Ash tenha de se envolver em uma complexa trama que colocará sua vida em risco. A narrativa se desenrola entre ele e o trabalho que realiza diante do computador, num jogo de cena de um personagem só em meio a um negócio de perigo constante. O trabalho de Riz Ahmed é central para o filme: sua interpretação transmite a frieza calculada de um homem que vive de segredos, e ao mesmo tempo confrontado com dilemas éticos. Lily James, Sam Worthington, Matthew Maher, Victor Garber e Willa Fitzgerald completam o elenco de peso, trazendo densidade às interações que cercam o protagonista (que é um típico anti-herói). “Relay” tem uma atmosfera de suspense psicológico que se sustenta na tensão entre anonimato e exposição, mostrando como o poder pode depender de escolhas silenciosas. Exibido no Festival de Toronto em 2024, chega agora no streaming da HBO Max.


 
Histórias de Taipei
 
Está disponível de forma gratuita na plataforma Sesc Digital, até o dia 10/04/2026, um grande trabalho do falecido cineasta chinês Edward Yang (1947-2007), nome fundamental da Nouvelle Vague daquele país. O filme está na versão restaurada em 4K pela The Film Foundation (organização sem fins lucrativos criada por Martin Scorsese em 1990, dedicada a proteger e preservar a história do cinema mundial, e que já restaurou mais de 1.100 filmes em parceria com arquivos e estúdios), juntamente com o Taiwan Film Institute. É um retrato melancólico da transição de Taiwan nos anos 1980, marcado pela tensão entre tradição e modernidade. Ah-chin (Chin Tsai) é uma mulher que busca um futuro em meio ao labirinto urbano de Taipei, a capital de Taiwan, uma ilha considerada pela China como território dela. O namorado Lung (papel do ator e diretor Hsiao-Hsien Hou) é um ex-jogador de beisebol que atualmente trabalha em uma loja de tecidos, muito ligado à família. Ele vive de memórias, enquanto ela visualiza o futuro. O contraste entre o desejo de avançar e a incapacidade de romper com o passado reflete a própria cidade de Taipei em ampla transformação, acelerada pela globalização. O filme é de 1985 e o retrato é daquele período mesmo, quando Taiwan passava por uma mudança radical em suas estruturas, evoluindo de uma sociedade agrária que ficou sob lei marcial por 40 anos, num regime ditatorial de partido único, para alcançar uma das posições de “Tigres Asiáticos” (com grandioso desenvolvimento econômico e industrial). O filme acompanha esse momento e abertura política de Taiwan, marcando o fim de décadas de regime autoritário e o início da democratização política – no filme os personagens dançam sob o som de Tina Turner, consomem produtos americanos, ou seja, a globalização entrou de vez no país. A fotografia de Wei-Han Yang, indicada ao Golden Horse Award, reforça a atmosfera de desencanto e mudanças. O longa foi celebrado pela crítica como um marco estético e temático, tendo Edward Yang como um dos mentores da Nova Onda do Cinema de Taiwan, em uma obra que trazia temas recorrentes de sua carreira, como choque entre gerações, a fragmentação das relações humanas e a busca por identidade em uma nova sociedade. Exibido no BFI London e nos festivais de Locarno, Edinburg, Tóquio e São Francisco. Disponível no Sesc Digital, em https://sesc.digital/home


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