A
cronologia da água
Exibido
na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, e no Brasil no Festival do
Rio do ano passado, “A cronologia da água” marca a estreia da atriz Kristen
Stewart na direção, uma atriz que começou bem jovem em filmes teenagers
bobocas, com o tempo amadureceu bem e agora atinge o ápice da carreira atrás
das câmeras. Seu trabalho é uma adaptação do livro de memórias da escritora
norte-americana Lidia Yuknavitch, reconhecida por sua escrita visceral, sem
meio termo, com obras amargas que exploram temas como sexualidade, traumas e
desejos. O filme procura uma relação direta com o livro, cujo tom é forte, difícil,
já que traz experiências intensas de Lidia que envolvem abusos e inseguranças.
Kristen faz uma obra extremamente sólida e madura, transformando violências em
matéria artística. Como é uma obra autoral e biográfica, quem interpreta Lidia
é a inglesa Imogen Poots, de “Sala verde” (2015), num papel complexo e de
insuportável dor. Ela é uma mulher que vive se autossabotando e pensa em suicídio,
por ter sido atravessada por abusos na infância e adolescência (um deles foi o abuso
sexual do próprio pai). Ela tem uma relação conflituosa com o próprio corpo e
por vícios que marcaram a fase adulta. Prostrada em uma banheira, ela reflete o
passado – e o filme explora por dentro da mente dela, aparecendo flashes,
luzes, cenas disformes e apagadas de uma criança assustada, de uma adolescente
triste, os lapsos vêm e somem. Na natação, Lidia encontra um jeito de superar a
realidade, uma espécie de conforto momentâneo para enfrentar o caos interno. Não
é uma cinebiografia tradicional, com começo, meio e fim; tudo é fragmentado,
com esses lances e flashes que aparecem na tela, tipicamente uma linguagem
experimental, até com poucos diálogos. Tudo é sensorial no filme, rodado em 16
milímetros, cuja fotografia é marcada por uso intenso de closes. Kristen
Stewart confessa que é uma obra autoral de difícil acesso, com ritmo rápido e
sons minimalistas, aproximando-se da forma como lembranças surgem e
desaparecem. Incômodo, impactante, pode ser uma experiência aflitiva para parte
do público, porém é inegável o talento e o domínio da forma e do conteúdo de Kristen.
Está em exibição nos cinemas com distribuição do Filmes do Estação.

Relay:
Contrato perigoso
O novo
trabalho do diretor David Mackenzie, de “Sentidos do amor” (2011) e “A qualquer
custo” (2016), é um thriller cabeça, cheio de peças embaralhadas que vão se
juntando ao longo da trama, cujo elenco é liderado pelo ganhador do Oscar Riz
Ahmed (de “O som do silêncio”). Ele faz Ash, um corretor que atua em empresas acusadas
de corrupção, cujo trabalho é resolver seus problemas (um “fixer”). Nos
bastidores desse submundo do crime, pessoas e corporações estão sob vigia e ameaça,
e também por isso Ash precisa manter a identidade em segredo. O trabalho para
ele é bem lucrativo no final das contas, por não ter concorrentes. Até que tudo
vira um caos quando conhece uma nova cliente que precisa de proteção, mesmo que
para isso Ash tenha de se envolver em uma complexa trama que colocará sua vida
em risco. A narrativa se desenrola entre ele e o trabalho que realiza diante do
computador, num jogo de cena de um personagem só em meio a um negócio de perigo
constante. O trabalho de Riz Ahmed é central para o filme: sua interpretação
transmite a frieza calculada de um homem que vive de segredos, e ao mesmo tempo
confrontado com dilemas éticos. Lily James, Sam Worthington, Matthew Maher, Victor
Garber e Willa Fitzgerald completam o elenco de peso, trazendo densidade às
interações que cercam o protagonista (que é um típico anti-herói). “Relay” tem
uma atmosfera de suspense psicológico que se sustenta na tensão entre anonimato
e exposição, mostrando como o poder pode depender de escolhas silenciosas.
Exibido no Festival de Toronto em 2024, chega agora no streaming da HBO Max.

Histórias
de Taipei
Está
disponível de forma gratuita na plataforma Sesc Digital, até o dia 10/04/2026,
um grande trabalho do falecido cineasta chinês Edward Yang (1947-2007), nome
fundamental da Nouvelle Vague daquele país. O filme está na versão restaurada em
4K pela The Film Foundation (organização sem fins lucrativos criada por Martin
Scorsese em 1990, dedicada a proteger e preservar a história do cinema mundial,
e que já restaurou mais de 1.100 filmes em parceria com arquivos e estúdios), juntamente
com o Taiwan Film Institute. É um retrato melancólico da transição de Taiwan
nos anos 1980, marcado pela tensão entre tradição e modernidade. Ah-chin (Chin
Tsai) é uma mulher que busca um futuro em meio ao labirinto urbano de Taipei, a
capital de Taiwan, uma ilha considerada pela China como território dela. O
namorado Lung (papel do ator e diretor Hsiao-Hsien Hou) é um ex-jogador de
beisebol que atualmente trabalha em uma loja de tecidos, muito ligado à família.
Ele vive de memórias, enquanto ela visualiza o futuro. O contraste entre o
desejo de avançar e a incapacidade de romper com o passado reflete a própria
cidade de Taipei em ampla transformação, acelerada pela globalização. O filme é
de 1985 e o retrato é daquele período mesmo, quando Taiwan passava por uma mudança
radical em suas estruturas, evoluindo de uma sociedade agrária que ficou sob lei
marcial por 40 anos, num regime ditatorial de partido único, para alcançar uma
das posições de “Tigres Asiáticos” (com grandioso desenvolvimento econômico e
industrial). O filme acompanha esse momento e abertura política de Taiwan,
marcando o fim de décadas de regime autoritário e o início da democratização
política – no filme os personagens dançam sob o som de Tina Turner, consomem
produtos americanos, ou seja, a globalização entrou de vez no país. A
fotografia de Wei-Han Yang, indicada ao Golden Horse Award, reforça a atmosfera
de desencanto e mudanças. O longa foi celebrado pela crítica como um marco
estético e temático, tendo Edward Yang como um dos mentores da Nova Onda do
Cinema de Taiwan, em uma obra que trazia temas recorrentes de sua carreira, como
choque entre gerações, a fragmentação das relações humanas e a busca por
identidade em uma nova sociedade. Exibido no BFI London e nos festivais de
Locarno, Edinburg, Tóquio e São Francisco. Disponível no Sesc Digital, em https://sesc.digital/home

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