quinta-feira, 9 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 5


Aisha não pode voar
 
Falado em árabe e coproduzido em sete países (Egito, Tunísia, Catar, França, Arábia Saudita, Sudão e Alemanha), o poderoso filme de arte é um drama que expõe a vulnerabilidade de uma imigrante sudanesa no Cairo, que trabalha como cuidadora de idosos e se torna vítima atroz de todas as mazelas da sociedade, como pobreza e exploração sexual. A direção do jovem cineasta egípcio - e estreante, Morad Mostafa, transforma o cotidiano de uma mulher em denúncia social, cuja interpretação de Buliana Simon (também estreante), a Aisha do título, transmite a resignação da personagem, que pouco fala e mais observa seu redor. A personagem de 26 anos sofre com problemas financeiros, e para complicar inicia um relacionamento tumultuado com um rapaz egípcio (que logo descobre ser de uma gangue). A relação respinga em ameaças de bandidos locais e assédio de clientes. O título simboliza a impossibilidade de Aisha em escapar de uma realidade sufocante, onde cada tentativa de mudança parece bloqueada – em determinado momento, ela brinca com uma máscara do Batman (que é o pôster do filme), alusão à transformação dela em super-heroína para escapar das amarguras. O filme mostra não apenas a luta individual de uma mulher sob risco, mas também o retrato dos imigrantes africanos vítimas de injustiça social. Mostafa dirige uma história nua e crua, apostando em uma estética realista, com fotografia que mistura penumbras do interior da casa que Aisha trabalha com paisagens noturnas do submundo de uma Cairo opressora. Exibido em Cannes nas mostras Golden Camera e Um Certo Olhar, está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.
 


O Caravaggio perdido
 
Documentário precioso que procura desvendar um novo mistério no mundo das artes plásticas: a localização em uma casa de um quadro possivelmente assinado por um dos grandes nomes da pintura mundial e expoente do Barroco italiano, Michelangelo Merisi da Caravaggio, o Caravaggio. Intitulada “The sleeper”, a obra esteve por décadas na parede da sala de estar de uma casa comum em Madrid, como utilitário; de um tempo para cá, aos poucos, historiadores da arte do mundo inteiro se debruçam em estudos sobre ela. Será mesmo de Caravaggio aquele Cristo com semblante triste, empurrado por dois homens? O doc investiga passo a passo detalhes daquela pintura, da textura ao “motivo”, passando pelas imperfeições da tela e desgastes da tinta. Busca uma relação com o mestre do barroco que revolucionou as artes plásticas ao introduzir o uso dramático do claro-escuro e ao retratar figuras religiosas e mitológicas com realismo cru. O filme é envolvente, dá voz a vários estudiosos e pesquisadores da área, mergulhando nos bastidores do mercado de arte, universo marcado por disputas de poder, com colecionadores e falsificadores se cruzando em torno de obras de valor incalculável. Por fim, o filme explora tanto a descoberta daquele quadro quanto as discussões no circuito de arte quando uma peça aparentemente banal se revela um tesouro artístico. Está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.
 


O silêncio de Eva
 
Em seu novo trabalho, que acaba de estrear nos cinemas (produzido pela Persona Filmes e distribuído pela Encripta), a cineasta mineira Elza Cataldo revisita a trajetória de uma mulher pouquíssimo lembrada hoje, Eva Nil (1909-1990), atriz do cinema mudo brasileiro que brilhou nos anos 1920 e recebeu a alcunha de “Greta Garbo brasileira”. Nascida no Cairo, Eva participou de produções de Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga, mas abandonou a carreira cedo demais, dedicando-se à fotografia ao lado do pai, Pietro Comello, em Cataguases (MG), onde viveu até morrer, em 1990. Eva atuou, pelo que se sabe, em dois curtas, dentre eles “Valadião, o Cratera” (1925), de Humberto Mauro, e em dois longas, como ‘Barro humano” (1929), de Adhemar Gonzaga (fundador da Cinédia). O documentário reconstrói a trajetória dela a partir de fotos antigas, reportagens de jornais antigos e entrevistas atuais de críticos de cinema e professores. Também há encenações das atrizes Inês Peixoto e Bárbara Luz que recriam fases da vida de Eva - e nesse ponto elas mesmas discutem o ofício da atuação. A mescla de documentário com ficção preenche lacunas para entender quem foi Eva e provoca reflexão sobre como histórias de mulheres foram apagadas do cinema nacional – ela, por exemplo, desapareceu da memória coletiva, raramente citada ou estudada. A roteirista e diretora Elza Cataldo, ao recontar a carreira esquecida de Eva, abre espaço para refletir os obstáculos persistentes do cinema brasileiro, como financiamento, distribuição, restauração de obras e formação de público. Gostei demais desse filme independente brasileiro e recomendo.



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