Aisha
não pode voar
Falado em
árabe e coproduzido em sete países (Egito, Tunísia, Catar, França, Arábia
Saudita, Sudão e Alemanha), o poderoso filme de arte é um drama que expõe a
vulnerabilidade de uma imigrante sudanesa no Cairo, que trabalha como cuidadora
de idosos e se torna vítima atroz de todas as mazelas da sociedade, como
pobreza e exploração sexual. A direção do jovem cineasta egípcio - e estreante,
Morad Mostafa, transforma o cotidiano de uma mulher em denúncia social, cuja
interpretação de Buliana Simon (também estreante), a Aisha do título, transmite
a resignação da personagem, que pouco fala e mais observa seu redor. A
personagem de 26 anos sofre com problemas financeiros, e para complicar inicia um
relacionamento tumultuado com um rapaz egípcio (que logo descobre ser de uma gangue).
A relação respinga em ameaças de bandidos locais e assédio de clientes. O
título simboliza a impossibilidade de Aisha em escapar de uma realidade
sufocante, onde cada tentativa de mudança parece bloqueada – em determinado
momento, ela brinca com uma máscara do Batman (que é o pôster do filme), alusão
à transformação dela em super-heroína para escapar das amarguras. O filme
mostra não apenas a luta individual de uma mulher sob risco, mas também o
retrato dos imigrantes africanos vítimas de injustiça social. Mostafa dirige
uma história nua e crua, apostando em uma estética realista, com fotografia que
mistura penumbras do interior da casa que Aisha trabalha com paisagens noturnas
do submundo de uma Cairo opressora. Exibido em Cannes nas mostras Golden Camera
e Um Certo Olhar, está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.
O
Caravaggio perdido
Documentário
precioso que procura desvendar um novo mistério no mundo das artes plásticas: a
localização em uma casa de um quadro possivelmente assinado por um dos grandes
nomes da pintura mundial e expoente do Barroco italiano, Michelangelo Merisi da
Caravaggio, o Caravaggio. Intitulada “The sleeper”, a obra esteve por décadas na
parede da sala de estar de uma casa comum em Madrid, como utilitário; de um
tempo para cá, aos poucos, historiadores da arte do mundo inteiro se debruçam em
estudos sobre ela. Será mesmo de Caravaggio aquele Cristo com semblante triste,
empurrado por dois homens? O doc investiga passo a passo detalhes daquela
pintura, da textura ao “motivo”, passando pelas imperfeições da tela e
desgastes da tinta. Busca uma relação com o mestre do barroco que revolucionou as
artes plásticas ao introduzir o uso dramático do claro-escuro e ao retratar
figuras religiosas e mitológicas com realismo cru. O filme é envolvente, dá voz
a vários estudiosos e pesquisadores da área, mergulhando nos bastidores do
mercado de arte, universo marcado por disputas de poder, com colecionadores e
falsificadores se cruzando em torno de obras de valor incalculável. Por fim, o
filme explora tanto a descoberta daquele quadro quanto as discussões no
circuito de arte quando uma peça aparentemente banal se revela um tesouro
artístico. Está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.
O
silêncio de Eva
Em seu
novo trabalho, que acaba de estrear nos cinemas (produzido pela Persona Filmes
e distribuído pela Encripta), a cineasta mineira Elza Cataldo revisita a
trajetória de uma mulher pouquíssimo lembrada hoje, Eva Nil (1909-1990), atriz
do cinema mudo brasileiro que brilhou nos anos 1920 e recebeu a alcunha de “Greta
Garbo brasileira”. Nascida no Cairo, Eva participou de produções de Humberto
Mauro e Adhemar Gonzaga, mas abandonou a carreira cedo demais, dedicando-se à
fotografia ao lado do pai, Pietro Comello, em Cataguases (MG), onde viveu até morrer,
em 1990. Eva atuou, pelo que se sabe, em dois curtas, dentre eles “Valadião, o
Cratera” (1925), de Humberto Mauro, e em dois longas, como ‘Barro humano”
(1929), de Adhemar Gonzaga (fundador da Cinédia). O documentário reconstrói a
trajetória dela a partir de fotos antigas, reportagens de jornais antigos e entrevistas
atuais de críticos de cinema e professores. Também há encenações das atrizes
Inês Peixoto e Bárbara Luz que recriam fases da vida de Eva - e nesse ponto elas
mesmas discutem o ofício da atuação. A mescla de documentário com ficção preenche
lacunas para entender quem foi Eva e provoca reflexão sobre como histórias de
mulheres foram apagadas do cinema nacional – ela, por exemplo, desapareceu da
memória coletiva, raramente citada ou estudada. A roteirista e diretora Elza
Cataldo, ao recontar a carreira esquecida de Eva, abre espaço para refletir os
obstáculos persistentes do cinema brasileiro, como financiamento, distribuição,
restauração de obras e formação de público. Gostei demais desse filme
independente brasileiro e recomendo.
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