“É
Tudo Verdade” abre em SP e RJ com 75 filmes na programação
Teve início
na última quinta-feira (dia 09) a 31ª edição do “É Tudo Verdade – Festival
Internacional de Documentários”, que segue com dezenas de filmes para o público
até o dia 19/04. Um dos festivais de cinema mais importantes do Brasil, o É
Tudo Verdade é realizado em São Paulo (em quatro salas de cinema) e no Rio de
Janeiro (em três salas). As sessões são gratuitas, e estão na lista 75 filmes
produzidos em 25 países, a maior parte deles première no Brasil. Em São Paulo,
a abertura do festival ocorreu na noite do dia 08/04, em sessão para convidados
na Cinemateca Brasileira, do filme “Bowie: O Ato Final” (2025) – documentário
britânico sobre o cantor e compositor David Bowie, enquanto no Rio, o festival
começou com o documentário brasileiro sobre Alceu Valença “Vivo 76”, de Lírio
Ferreira, apresentado também para convidados na noite do dia 09/04, no Estação Net
Rio. O filme de encerramento, em ambas as cidades, será “Memória de ‘Os
Esquecidos’” (2025), documentário coproduzido entre Espanha e México, sobre o
filme “Os esquecidos” (1950), de Luis Buñuel.
Os títulos
em competição deste ano se dividem em Mostras de Longas e Médias-metragens
Brasileiros, Longas e Médias-metragens Internacionais, Curtas-metragens
Brasileiros e Curtas-metragens Internacionais. Os vencedores serão conhecidos
na cerimônia de premiação, que será realizada no dia 18/04, às 19 horas, na
Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Como ocorre desde 2018, quando o “É Tudo
Verdade” foi reconhecido como um “Qualifying Festival” pela Academia de Artes e
Ciências Cinematográficas de Hollywood, os quatro vencedores das mostras
competitivas estarão classificados para apreciação à disputa do Oscar de melhor
documentário do ano seguinte, tanto para longas quanto curtas-metragens. Além
dos filmes em competição, o festival exibirá títulos em Programas Especiais e
nas mostras O Estado das Coisas, Foco Latino-Americano e Clássicos ‘É Tudo
Verdade’.
Dentre
os filmes de destaque da edição de 2026 do festival estão “A Fabulosa Máquina
do Tempo” (2026), de Eliza Capai, exibido no Festival de Berlim; “
Retiro - A Casa dos
Artistas” (2026), de Roberto Berliner e Pedro Bronz; “
Mestre Zu”
(2026), de Zelito
Viana; e “Bardot” (2025), de Alain Berliner, Elora Thevenet, exibido no
Festival de Cannes. Em São Paulo o festival acontece no IMS Cultural, Cinesesc,
CCSP e Cinemateca Brasileira, enquanto no Rio as sessões serão em três salas do
Estação Net Rio.
Pela
primeira vez, serão apresentadas sessões infantis no “É Tudo Verdade”: na
mostra intitulada “É Tudinho Verdade”, serão exibidos filmes dirigidos por
David Reeks e Renata Meirelles sobre o universo das brincadeiras infantis em
diferentes regiões do Brasil. As exibições acontecem no CineSesc e na
Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e no Estação NET Rio, no Rio. No
streaming, serão exibidos 10 curtas com exclusividade pelo Itaú Cultural Play.
A 31ª
edição do “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” conta com
o patrocínio do Itaú, a parceria do Sesc-SP e o apoio cultural da Spcine, Galo
da Manhã, Fundação Itaú e Itaú Cultural. A realização é do Governo Federal, por
meio do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, e Governo do Estado de São
Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas.
Confira
abaixo títulos que já conferi no Festival e que recomendo:
Mamãe
está aqui
(Uruguai,
2026, de Claudia Abend e Adriana Loeff)
O
documentário uruguaio é uma delicada obra feminina que se constrói na interseção
entre arte e vida. Acompanhamos quatro mulheres atravessadas pela maternidade;
elas preparam uma peça de teatro, e nos ensaios deixam emergir suas histórias
de dor e desejos. Uma é mãe solo que optou pela adoção, outras duas foram
marcadas pelo nascimento do primeiro bebê e a última é uma mulher que nunca
conseguiu gerar um filho, por questões de saúde, até que o primeiro bebê vem,
mas falece horas depois. O processo criativo dessa peça de teatro funciona como
catalisador de confissões e afetos. Entre ensaios, improvisos e conversas para
a câmera, cada uma relembra o passado, encontrando apoio na cumplicidade. O doc
evita o melodrama, traz a pessoalidade na força dos gestos, silêncios e olhares
daquelas mulheres, e o resultado é uma obra intensa de como a arte torna-se
espelho da vida, além de destacar como a criação compartilhada no palco pode
transformar dor em esperança. Em exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 14 e
15, em SP e no RJ.
Mailin
(Argentina/França/Romênia,
2025, de María Silvia Esteve)
Ao
longo de oito anos, a cineasta argentina María Silvia Esteve acompanhou Mailin
Gobbo, uma garota vítima de abuso sexual infantil cometido por um padre próximo
da família, Carlos Eduardo José, quando a menina ficava sob cuidados dele no Instituto
San José Obrero, em Caseros, província de Buenos Aires. A menina demorou para
contar o caso aos pais, e quando o faz, os dois iniciam uma jornada de justiça.
Mailin hoje está crescida (virou ativista dos direitos das mulheres), e começa
a contar para a filha pequena sua história trágica, só que recorrendo a um
conto de fadas sombrio, onde uma menina crescida em um lar amoroso é devorada
por uma besta. A metáfora conduz o filme e se entrelaça com imagens de arquivo,
filmes caseiros da família, registros de audiências judiciais do caso e depoimentos
atuais de familiares, num mosaico sobre um trauma que se transformou num amplo
caso midiático de justiça. Mailin e seus pais, além de amigas dela, contam para
as câmeras o que viveram naquele período de dor e luta (que no final das contas
terminou sem solução). A estética do filme ora é realista ora traz um aspecto
fantasmagórico e ao mesmo tempo poético, comprometido em revelar de como
estruturas de poder, no caso a instituição “igreja”, perpetuam o silêncio e a
impunidade – no filme, não só de Mailin, mas de tantas outras vítimas do padre
em questão, Carlos José. Filme de denúncia sério, de tema urgente (pedofilia na
igreja), que é um dos grandes destaques do É Tudo Verdade desse ano. Exibido no
festival IDFA (Amsterdã), tem exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 14 e
15, em SP e no RJ.
Os
olhos de Gana
(EUA/Gana/Reino
Unido, 2025, de Ben Proudfoot)
Dirigido
pelo jovem cineasta canadense Ben Proudfoot, duas vezes ganhador do Oscar por documentários
de curtas-metragens, “Os olhos de Gana” é uma homenagem a um personagem
esquecido da História do cinema africano: o diretor e cinegrafista Chris Hesse,
um visionário que esteve à frente do cinema de denúncia social em Gana. Hoje, aos
93 anos, vitimado por uma doença ocular que o está deixando cego, ele relembra sua
trajetória resgatando da memória seus trabalhos com o líder Kwame Nkrumah (ex-presidente
de Gana, fundador do Pan-africanismo), que serviu para a luta decolonial. Hesse
tenta, há anos, repatriar um acervo de mais de mil filmes, nunca exibidos, que traziam
para a tela a independência africana nas décadas de 1950 e 1960 (filmes estes que
foram roubados e escondidos em países europeus). Hesse é uma figura cativante, hoje
com saúde debilitada, mas com uma memória inconfundível – ele lembra de filmes
e cineastas que o influenciaram, mas também de histórias dolorosas, trazendo
para a discussão o passado sombrio da colonização africana. O doc reforça o
espírito de luta por igualdade tanto dele quanto de Nkrumah, por meio de trechos
de seus filmes, além de entrevistas antigas e atuais. Ao revelar imagens
inéditas, questiona o apagamento das vozes africanas - o acervo escondido e que
Hesse luta em encontrar pode reescrever a História de Gana e da África. Filme que
é um tributo à persistência de Hesse e do seu cinema como instrumento de
soberania cultural. Exibido nos festivais de Toronto, Denver, Heartland e BFI
London, tem exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 16 e 17, em SP e no RJ.
Mestre
Zu
(Brasil,
2026, de Zelito Viana)
Documentário
da Globonews dirigido pelo veterano cineasta Zelito Viana (irmão de Chico
Anysio), que aos 87 anos homenageia um velho amigo e um dos maiores jornalistas
vivos do Brasil, Zuenir Ventura (que completa em breve 95 anos). Zelito reúne em
sua casa um time de jornalistas que trabalharam com ele, como Ancelmo Gois e o próprio
filho, Mauro Ventura, em que celebram o legado do homenageado. Eles relembram histórias
marcantes das sete décadas de trabalho na mídia prestados por Zuenir (como
grandes reportagens, furos, bastidores engraçados, o lado escritor dele etc).
Zuenir teve papel fundamental na transformação do jornalismo brasileiro entre a
Ditadura (ele foi preso por três meses entre 1968 e 1969, logo após a
promulgação do AI-5) e a reabertura na década de 80. Com vasto material de
arquivo entrelaçado nos depoimentos exclusivos para o filme, o longa é um
afetuoso tributo para o jornalista em vida – o Zuenir de atualmente aparece em
poucas cenas, mais para o fim. Quem assina a fotografia é Walter Carvalho, em
um projeto construído tanto por Zelito quanto pela filha de Zuenir, Elisa
Ventura, que foi quem concebeu o projeto. Em exibição no É Tudo Verdade ainda
nos dias 12, 16 e 17, em SP e no RJ.
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