domingo, 12 de abril de 2026

Especial de Cinema


“É Tudo Verdade” abre em SP e RJ com 75 filmes na programação
 
Teve início na última quinta-feira (dia 09) a 31ª edição do “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários”, que segue com dezenas de filmes para o público até o dia 19/04. Um dos festivais de cinema mais importantes do Brasil, o É Tudo Verdade é realizado em São Paulo (em quatro salas de cinema) e no Rio de Janeiro (em três salas). As sessões são gratuitas, e estão na lista 75 filmes produzidos em 25 países, a maior parte deles première no Brasil. Em São Paulo, a abertura do festival ocorreu na noite do dia 08/04, em sessão para convidados na Cinemateca Brasileira, do filme “Bowie: O Ato Final” (2025) – documentário britânico sobre o cantor e compositor David Bowie, enquanto no Rio, o festival começou com o documentário brasileiro sobre Alceu Valença “Vivo 76”, de Lírio Ferreira, apresentado também para convidados na noite do dia 09/04, no Estação Net Rio. O filme de encerramento, em ambas as cidades, será “Memória de ‘Os Esquecidos’” (2025), documentário coproduzido entre Espanha e México, sobre o filme “Os esquecidos” (1950), de Luis Buñuel.
Os títulos em competição deste ano se dividem em Mostras de Longas e Médias-metragens Brasileiros, Longas e Médias-metragens Internacionais, Curtas-metragens Brasileiros e Curtas-metragens Internacionais. Os vencedores serão conhecidos na cerimônia de premiação, que será realizada no dia 18/04, às 19 horas, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Como ocorre desde 2018, quando o “É Tudo Verdade” foi reconhecido como um “Qualifying Festival” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, os quatro vencedores das mostras competitivas estarão classificados para apreciação à disputa do Oscar de melhor documentário do ano seguinte, tanto para longas quanto curtas-metragens. Além dos filmes em competição, o festival exibirá títulos em Programas Especiais e nas mostras O Estado das Coisas, Foco Latino-Americano e Clássicos ‘É Tudo Verdade’.


Dentre os filmes de destaque da edição de 2026 do festival estão “A Fabulosa Máquina do Tempo” (2026), de Eliza Capai, exibido no Festival de Berlim;Retiro - A Casa dos Artistas” (2026), de Roberto Berliner e Pedro Bronz; Mestre Zu (2026), de Zelito Viana; e “Bardot” (2025), de Alain Berliner, Elora Thevenet, exibido no Festival de Cannes. Em São Paulo o festival acontece no IMS Cultural, Cinesesc, CCSP e Cinemateca Brasileira, enquanto no Rio as sessões serão em três salas do Estação Net Rio.
Pela primeira vez, serão apresentadas sessões infantis no “É Tudo Verdade”: na mostra intitulada “É Tudinho Verdade”, serão exibidos filmes dirigidos por David Reeks e Renata Meirelles sobre o universo das brincadeiras infantis em diferentes regiões do Brasil. As exibições acontecem no CineSesc e na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e no Estação NET Rio, no Rio. No streaming, serão exibidos 10 curtas com exclusividade pelo Itaú Cultural Play.
A 31ª edição do “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” conta com o patrocínio do Itaú, a parceria do Sesc-SP e o apoio cultural da Spcine, Galo da Manhã, Fundação Itaú e Itaú Cultural. A realização é do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, e Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas.
Confira abaixo títulos que já conferi no Festival e que recomendo:
 
 
Mamãe está aqui
(Uruguai, 2026, de Claudia Abend e Adriana Loeff)
 
O documentário uruguaio é uma delicada obra feminina que se constrói na interseção entre arte e vida. Acompanhamos quatro mulheres atravessadas pela maternidade; elas preparam uma peça de teatro, e nos ensaios deixam emergir suas histórias de dor e desejos. Uma é mãe solo que optou pela adoção, outras duas foram marcadas pelo nascimento do primeiro bebê e a última é uma mulher que nunca conseguiu gerar um filho, por questões de saúde, até que o primeiro bebê vem, mas falece horas depois. O processo criativo dessa peça de teatro funciona como catalisador de confissões e afetos. Entre ensaios, improvisos e conversas para a câmera, cada uma relembra o passado, encontrando apoio na cumplicidade. O doc evita o melodrama, traz a pessoalidade na força dos gestos, silêncios e olhares daquelas mulheres, e o resultado é uma obra intensa de como a arte torna-se espelho da vida, além de destacar como a criação compartilhada no palco pode transformar dor em esperança. Em exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 14 e 15, em SP e no RJ.


 
Mailin
(Argentina/França/Romênia, 2025, de María Silvia Esteve)
 
Ao longo de oito anos, a cineasta argentina María Silvia Esteve acompanhou Mailin Gobbo, uma garota vítima de abuso sexual infantil cometido por um padre próximo da família, Carlos Eduardo José, quando a menina ficava sob cuidados dele no Instituto San José Obrero, em Caseros, província de Buenos Aires. A menina demorou para contar o caso aos pais, e quando o faz, os dois iniciam uma jornada de justiça. Mailin hoje está crescida (virou ativista dos direitos das mulheres), e começa a contar para a filha pequena sua história trágica, só que recorrendo a um conto de fadas sombrio, onde uma menina crescida em um lar amoroso é devorada por uma besta. A metáfora conduz o filme e se entrelaça com imagens de arquivo, filmes caseiros da família, registros de audiências judiciais do caso e depoimentos atuais de familiares, num mosaico sobre um trauma que se transformou num amplo caso midiático de justiça. Mailin e seus pais, além de amigas dela, contam para as câmeras o que viveram naquele período de dor e luta (que no final das contas terminou sem solução). A estética do filme ora é realista ora traz um aspecto fantasmagórico e ao mesmo tempo poético, comprometido em revelar de como estruturas de poder, no caso a instituição “igreja”, perpetuam o silêncio e a impunidade – no filme, não só de Mailin, mas de tantas outras vítimas do padre em questão, Carlos José. Filme de denúncia sério, de tema urgente (pedofilia na igreja), que é um dos grandes destaques do É Tudo Verdade desse ano. Exibido no festival IDFA (Amsterdã), tem exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 14 e 15, em SP e no RJ.
 

 
Os olhos de Gana
(EUA/Gana/Reino Unido, 2025, de Ben Proudfoot)
 
Dirigido pelo jovem cineasta canadense Ben Proudfoot, duas vezes ganhador do Oscar por documentários de curtas-metragens, “Os olhos de Gana” é uma homenagem a um personagem esquecido da História do cinema africano: o diretor e cinegrafista Chris Hesse, um visionário que esteve à frente do cinema de denúncia social em Gana. Hoje, aos 93 anos, vitimado por uma doença ocular que o está deixando cego, ele relembra sua trajetória resgatando da memória seus trabalhos com o líder Kwame Nkrumah (ex-presidente de Gana, fundador do Pan-africanismo), que serviu para a luta decolonial. Hesse tenta, há anos, repatriar um acervo de mais de mil filmes, nunca exibidos, que traziam para a tela a independência africana nas décadas de 1950 e 1960 (filmes estes que foram roubados e escondidos em países europeus). Hesse é uma figura cativante, hoje com saúde debilitada, mas com uma memória inconfundível – ele lembra de filmes e cineastas que o influenciaram, mas também de histórias dolorosas, trazendo para a discussão o passado sombrio da colonização africana. O doc reforça o espírito de luta por igualdade tanto dele quanto de Nkrumah, por meio de trechos de seus filmes, além de entrevistas antigas e atuais. Ao revelar imagens inéditas, questiona o apagamento das vozes africanas - o acervo escondido e que Hesse luta em encontrar pode reescrever a História de Gana e da África. Filme que é um tributo à persistência de Hesse e do seu cinema como instrumento de soberania cultural. Exibido nos festivais de Toronto, Denver, Heartland e BFI London, tem exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 16 e 17, em SP e no RJ.
 

 
Mestre Zu
(Brasil, 2026, de Zelito Viana)
 
Documentário da Globonews dirigido pelo veterano cineasta Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), que aos 87 anos homenageia um velho amigo e um dos maiores jornalistas vivos do Brasil, Zuenir Ventura (que completa em breve 95 anos). Zelito reúne em sua casa um time de jornalistas que trabalharam com ele, como Ancelmo Gois e o próprio filho, Mauro Ventura, em que celebram o legado do homenageado. Eles relembram histórias marcantes das sete décadas de trabalho na mídia prestados por Zuenir (como grandes reportagens, furos, bastidores engraçados, o lado escritor dele etc). Zuenir teve papel fundamental na transformação do jornalismo brasileiro entre a Ditadura (ele foi preso por três meses entre 1968 e 1969, logo após a promulgação do AI-5) e a reabertura na década de 80. Com vasto material de arquivo entrelaçado nos depoimentos exclusivos para o filme, o longa é um afetuoso tributo para o jornalista em vida – o Zuenir de atualmente aparece em poucas cenas, mais para o fim. Quem assina a fotografia é Walter Carvalho, em um projeto construído tanto por Zelito quanto pela filha de Zuenir, Elisa Ventura, que foi quem concebeu o projeto. Em exibição no É Tudo Verdade ainda nos dias 12, 16 e 17, em SP e no RJ.


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