terça-feira, 21 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Naufrágio: O pesadelo do Costa Concordia
 
Mais um dos tantos documentários da Netflix sobre reconstituição de tragédias reais, desta vez envolvendo o naufrágio do Costa Concordia, um imponente navio de cruzeiro. O caso aconteceu em 13 de janeiro de 2012, quando, numa viagem com 4.200 pessoas, a embarcação se chocou contra as rochas próximas à Ilha de Giglio, na Itália. O navio passou por uma manobra arriscada do capitão, que o levou muito próximo da costa. O impacto com as pedras destruiu parte do casco, que fez com que o navio inclinasse e houvesse perda de energia elétrica. A demora da tripulação em ordenar a evacuação agravou o cenário, gerando pânico e desorganização entre os passageiros. Foram horas de desespero para colocar todos em botes, enquanto a embarcação submergia nas águas. O resultado: 32 pessoas mortas, dezenas de feridos e a fuga do capitão Francesco Schettino, que abandonou o navio antes do término do resgate (sua justificativa foi de que teria “escorregado” para dentro de um bote salva-vidas, mas em 2015 ele foi condenado por homicídio culposo, naufrágio e abandono, recebendo pena de 16 anos de prisão). Devido à dimensão do desastre e ao porte da embarcação, o resgate do Costa Concordia tornou-se a operação marítima mais complexa e cara já realizada – e a tragédia em si entrou para a História como um dos maiores desastres marítimos dos últimos anos. O filme da Netflix relembra o caso, com entrevistas dolorosas de passageiros que perderam familiares, de sobreviventes e de parte da tripulação do Costa Concordia. Há muito material de arquivo, como reportagens da época, muitas delas italianas, e imagens inéditas, somente agora liberadas para uso, do resgate das vítimas. Um bom filme, que nos deixa apreensivos diante do impacto daquela noite interminável - após o naufrágio do Costa Concordia, a indústria de cruzeiros implementou mais de 30 novas políticas de segurança, como mudanças nas leis e práticas marítimas globais que incluem a obrigatoriedade de treinamento de emergência antes do navio zarpar, restrições severas de acesso à ponte de comando e a exigência de planejamento de rotas com antecedência.
 

 
A divina Sarah Bernhardt
 
A Imovision lançou nos cinemas no último fim de semana dois filmes de títulos parecidos que relembram a trajetória de mulheres no cinema: “A divina Sarah Bernhardt” e “Diva futura”, ambos de 2024 e somente agora chegando nas salas brasileiras. “A divina Sarah Bernhardt” é uma regular biografia da atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923), com enfoque nos anos finais de sua vida, quando debilitada após a amputação da perna direita, em 1915. Nesse período passava boa parte do tempo ou deitada em uma cama ou sentada numa cadeira, devido à pouca mobilidade provocada pelas dores intensas no quadril. Enfermeiros a transportavam para lá e para cá, em apresentações, gravações e afazeres domésticos. Aclamada como a “Divina Sarah”, tornou-se uma das atrizes mais importantes de sua época, referência nos palcos franceses, e que no cinema (sua carreira na tela foi curta) esteve numa das primeiras versões de “A dama das camélias”, em 1912, no papel central, da cortesã Marguerite Gauthier. Egocêntrica, temperamental, recusava-se a abandonar a cena, atuando em filmes mudos, peças teatrais, deitada ou apoiada em cadeiras. Essa obstinação em permanecer ativa até os últimos instantes reforçava a imagem de uma artista indomável, ainda que o corpo já não acompanhasse sua energia criativa. Quem a interpreta Sarah é uma atriz francesa que gosto muito, versátil em comédias e dramas, Sandrine Kiberlain, premiada com o César, de “Mademoiselle Chambon” (2009) e “A garota radiante” (2021 – escrito e dirigido por ela). Ela faz uma Sarah cercada por antíteses: ora enérgica para atuar, ora agressiva com as pessoas que a cercavam (sua biografia conta que era uma mulher intempestiva, que gritava com qualquer um que a contrariasse). Vestia roupas chiques, tinha bom gosto e mantinha relações intensas com escritores e atores, como Lucien Guitry (no filme interpretado pelo sempre condizente Laurent Lafitte), membro da Comédie-Française e diretor do teatro Renaissance. Tinha amizades com intelectuais célebres, como os dramaturgos e escritores Victor Hugo, Émile Zola, Alexandre Dumas (alguns aparecem no filme), que a viam como musa inspiradora. O trato do filme é na personalidade forte e independente de Sarah, que desafiava convenções e não hesitava em confrontar colegas ou diretores se tivesse razão. A postura incisiva, de mulher geniosa, refletia nas relações afetivas (raramente ela mantinha algo duradouro com os homens de sua vida), e isto atingia também seu trabalho no cinema (Sarah não compreendia bem a Sétima Arte, por isso fez menos de 5 filmes, a maioria curtas, e chegou a ordenar a destruição de filmes que participou que não lhe agradavam). Ela morreu em 1923, em Paris, de complicações renais, tendo um dos funerais mais impressionantes da história: o caixão cruzou as principais vias de Paris, sua morte comoveu multidões, reunindo mais de 35 mil pessoas até o cemitério Père-Lachaise, onde estão sepultadas diversas personalidades do universo das artes. Mais um bom trabalho do diretor Guillaume Nicloux (de “O vale do amor”, “Os confins do mundo” e “A religiosa”).
 

 
Diva Futura
 
Junto de “A divina Sarah Bernhardt” (2024), a Imovision lançou nas salas brasileiras no último fim de semana outro cult movie que retrata figuras femininas no cinema. Aqui temos a história real da agência publicitária italiana Diva Futura, criada no início dos anos 1980, em Roma, pelo fotógrafo e cineasta Riccardo Schicchi (1953-2012). O empreendimento cultural descobriu modelos e logo ficaria famoso por realizar filmes pornôs europeus, distribuídos depois no mundo todo. A agência tinha a proposta de profissionalizar e dar visibilidade aos artistas do setor, principalmente atrizes que não tinham reconhecimento, apesar de certo talento. Schicchi cunhou o termo “porn-star” para valorizar seus agenciados, colocando-os em pé de igualdade com ícones italianos da Sétima Arte e da TV. No filme ele é interpretado por Pietro Castellitto, filho do veterano astro Sergio Castellitto. Ele está bem no protagonismo da fita – um ator de boas expressões, que já atuou em vários filmes e até dirigiu, apesar da pouca idade (34 anos). Na história ele abre a agência, relativamente pequena, que viraria um estúdio de gravação também; revelou principalmente três mulheres que do dia para a noite viraram estrelas do cinema adulto: Ilona Staller, a Cicciolina, que depois seria deputada; Moana Pozzi, atriz que chegou a se candidatar à prefeitura de Roma (e faleceu nova, aos 33 anos, de câncer); e Eva Henger, que também ganhou notoriedade como modelo. E agenciou ainda Rocco Siffredi, o ‘Rocco’ da produtora de cinema pornô que fez sucesso nos anos 90. As três mulheres ganham vida na tela, interpretadas respectivamente por Lidija Kordic, Denise Capezza e Tesa Litvan, cada uma com seu estilo de atuação, misturando delicadeza, sensualidade e energia. Elas trazem vigor para a história sobre o universo do cinema erótico/pornô da época, com seu glamour e cores radiantes. A Diva Futura escandalizou setores conservadores da sociedade italiana, chegou a ser impedida de trabalhar pela polícia e quase fechou no auge de seu funcionamento (ela perdeu força no final dos anos 1990, acompanhando mudanças no mercado e o desgaste da imagem pública de suas estrelas). O filme vai entremeando a trajetória dessas mulheres e do diretor da agência, mostrando tanto o glamour delas quanto o preconceito enfrentado. O impacto da Diva Futura foi cultural e político não só na Itália, mas na Europa toda, um fenômeno que consolidou a pornografia como indústria cultural. Cicciolina (conhecida pelos peitos avantajados), depois levou a discussão sobre sexualidade para dentro do parlamento, enquanto Moana Pozzi legitimou sua imagem pública na política, em campanhas para prevenir doenças sexuais. O filme é um trabalho peculiar da cineasta, atriz e produtora Giulia Louise Steigerwalt – ela fez o roteiro adaptando as páginas do livro “Oltraggio al pudore”, da jornalista Debora Attanasio (com colaboração de Ricardo Schicchi e Eva Henger). Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2024, está em exibição nos cinemas do Reserva Cultural, com distribuição exclusiva da Imovision.

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