Naufrágio:
O pesadelo do Costa Concordia
Mais um
dos tantos documentários da Netflix sobre reconstituição de tragédias reais,
desta vez envolvendo o naufrágio do Costa Concordia, um imponente navio de
cruzeiro. O caso aconteceu em 13 de janeiro de 2012, quando, numa viagem com
4.200 pessoas, a embarcação se chocou contra as rochas próximas à Ilha de
Giglio, na Itália. O navio passou por uma manobra arriscada do capitão, que o
levou muito próximo da costa. O impacto com as pedras destruiu parte do casco,
que fez com que o navio inclinasse e houvesse perda de energia elétrica. A
demora da tripulação em ordenar a evacuação agravou o cenário, gerando pânico e
desorganização entre os passageiros. Foram horas de desespero para colocar todos
em botes, enquanto a embarcação submergia nas águas. O resultado: 32 pessoas
mortas, dezenas de feridos e a fuga do capitão Francesco Schettino, que
abandonou o navio antes do término do resgate (sua justificativa foi de que
teria “escorregado” para dentro de um bote salva-vidas, mas em 2015 ele foi
condenado por homicídio culposo, naufrágio e abandono, recebendo pena de 16
anos de prisão). Devido à dimensão do desastre e ao porte da embarcação, o
resgate do Costa Concordia tornou-se a operação marítima mais complexa e cara
já realizada – e a tragédia em si entrou para a História como um dos maiores
desastres marítimos dos últimos anos. O filme da Netflix relembra o caso, com
entrevistas dolorosas de passageiros que perderam familiares, de sobreviventes
e de parte da tripulação do Costa Concordia. Há muito material de arquivo, como
reportagens da época, muitas delas italianas, e imagens inéditas, somente agora
liberadas para uso, do resgate das vítimas. Um bom filme, que nos deixa
apreensivos diante do impacto daquela noite interminável - após o naufrágio do
Costa Concordia, a indústria de cruzeiros implementou mais de 30 novas
políticas de segurança, como mudanças nas leis e práticas marítimas globais que
incluem a obrigatoriedade de treinamento de emergência antes do navio zarpar,
restrições severas de acesso à ponte de comando e a exigência de planejamento
de rotas com antecedência.
A divina
Sarah Bernhardt
A
Imovision lançou nos cinemas no último fim de semana dois filmes de títulos
parecidos que relembram a trajetória de mulheres no cinema: “A divina Sarah
Bernhardt” e “Diva futura”, ambos de 2024 e somente agora chegando nas salas
brasileiras. “A divina Sarah Bernhardt” é uma regular biografia da atriz
francesa Sarah Bernhardt (1844-1923), com enfoque nos anos finais de sua vida,
quando debilitada após a amputação da perna direita, em 1915. Nesse período passava
boa parte do tempo ou deitada em uma cama ou sentada numa cadeira, devido à
pouca mobilidade provocada pelas dores intensas no quadril. Enfermeiros a transportavam
para lá e para cá, em apresentações, gravações e afazeres domésticos. Aclamada
como a “Divina Sarah”, tornou-se uma das atrizes mais importantes de sua época,
referência nos palcos franceses, e que no cinema (sua carreira na tela foi
curta) esteve numa das primeiras versões de “A dama das camélias”, em 1912, no
papel central, da cortesã Marguerite Gauthier. Egocêntrica, temperamental,
recusava-se a abandonar a cena, atuando em filmes mudos, peças teatrais, deitada
ou apoiada em cadeiras. Essa obstinação em permanecer ativa até os últimos
instantes reforçava a imagem de uma artista indomável, ainda que o corpo já não
acompanhasse sua energia criativa. Quem a interpreta Sarah é uma atriz francesa
que gosto muito, versátil em comédias e dramas, Sandrine Kiberlain, premiada
com o César, de “Mademoiselle Chambon” (2009) e “A garota radiante” (2021 –
escrito e dirigido por ela). Ela faz uma Sarah cercada por antíteses: ora
enérgica para atuar, ora agressiva com as pessoas que a cercavam (sua biografia
conta que era uma mulher intempestiva, que gritava com qualquer um que a
contrariasse). Vestia roupas chiques, tinha bom gosto e mantinha relações
intensas com escritores e atores, como Lucien Guitry (no filme interpretado
pelo sempre condizente Laurent Lafitte), membro da Comédie-Française e diretor
do teatro Renaissance. Tinha amizades com intelectuais célebres, como os
dramaturgos e escritores Victor Hugo, Émile Zola, Alexandre Dumas (alguns
aparecem no filme), que a viam como musa inspiradora. O trato do filme é na
personalidade forte e independente de Sarah, que desafiava convenções e não
hesitava em confrontar colegas ou diretores se tivesse razão. A postura incisiva,
de mulher geniosa, refletia nas relações afetivas (raramente ela mantinha algo duradouro
com os homens de sua vida), e isto atingia também seu trabalho no cinema (Sarah
não compreendia bem a Sétima Arte, por isso fez menos de 5 filmes, a maioria
curtas, e chegou a ordenar a destruição de filmes que participou que não lhe
agradavam). Ela morreu em 1923, em Paris, de complicações renais, tendo um dos
funerais mais impressionantes da história: o caixão cruzou as principais vias
de Paris, sua morte comoveu multidões, reunindo mais de 35 mil pessoas até o
cemitério Père-Lachaise, onde estão sepultadas diversas personalidades do
universo das artes. Mais um bom trabalho do diretor Guillaume Nicloux (de “O
vale do amor”, “Os confins do mundo” e “A religiosa”).
Diva
Futura
Junto
de “A divina Sarah Bernhardt” (2024), a Imovision lançou nas salas brasileiras
no último fim de semana outro cult movie que retrata figuras femininas no
cinema. Aqui temos a história real da agência publicitária italiana Diva Futura,
criada no início dos anos 1980, em Roma, pelo fotógrafo e cineasta Riccardo
Schicchi (1953-2012). O empreendimento cultural descobriu modelos e logo
ficaria famoso por realizar filmes pornôs europeus, distribuídos depois no
mundo todo. A agência tinha a proposta de profissionalizar e dar visibilidade
aos artistas do setor, principalmente atrizes que não tinham reconhecimento,
apesar de certo talento. Schicchi cunhou o termo “porn-star” para valorizar
seus agenciados, colocando-os em pé de igualdade com ícones italianos da Sétima
Arte e da TV. No filme ele é interpretado por Pietro Castellitto, filho do veterano
astro Sergio Castellitto. Ele está bem no protagonismo da fita – um ator de
boas expressões, que já atuou em vários filmes e até dirigiu, apesar da pouca
idade (34 anos). Na história ele abre a agência, relativamente pequena, que
viraria um estúdio de gravação também; revelou principalmente três mulheres que
do dia para a noite viraram estrelas do cinema adulto: Ilona Staller, a
Cicciolina, que depois seria deputada; Moana Pozzi, atriz que chegou a se
candidatar à prefeitura de Roma (e faleceu nova, aos 33 anos, de câncer); e Eva
Henger, que também ganhou notoriedade como modelo. E agenciou ainda Rocco
Siffredi, o ‘Rocco’ da produtora de cinema pornô que fez sucesso nos anos 90. As
três mulheres ganham vida na tela, interpretadas respectivamente por Lidija
Kordic, Denise Capezza e Tesa Litvan, cada uma com seu estilo de atuação,
misturando delicadeza, sensualidade e energia. Elas trazem vigor para a
história sobre o universo do cinema erótico/pornô da época, com seu glamour e
cores radiantes. A Diva Futura escandalizou setores conservadores da sociedade
italiana, chegou a ser impedida de trabalhar pela polícia e quase fechou no
auge de seu funcionamento (ela perdeu força no final dos anos 1990,
acompanhando mudanças no mercado e o desgaste da imagem pública de suas
estrelas). O filme vai entremeando a trajetória dessas mulheres e do diretor da
agência, mostrando tanto o glamour delas quanto o preconceito enfrentado. O
impacto da Diva Futura foi cultural e político não só na Itália, mas na Europa
toda, um fenômeno que consolidou a pornografia como indústria cultural. Cicciolina
(conhecida pelos peitos avantajados), depois levou a discussão sobre
sexualidade para dentro do parlamento, enquanto Moana Pozzi legitimou sua
imagem pública na política, em campanhas para prevenir doenças sexuais. O filme
é um trabalho peculiar da cineasta, atriz e produtora Giulia Louise Steigerwalt
– ela fez o roteiro adaptando as páginas do livro “Oltraggio al pudore”, da
jornalista Debora Attanasio (com colaboração de Ricardo Schicchi e Eva Henger).
Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2024, está em exibição nos
cinemas do Reserva Cultural, com distribuição exclusiva da Imovision.
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