sexta-feira, 10 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 3


Três vezes adeus
 
Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras", e seu último trabalho estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano. O festival, que ocorreu de 25/06 a 01/07, continua em repescagem em itinerância por várias cidades do país, e “Três vezes adeus” também conta com novas exibições (no dia 11 será em Búzios, no RJ, e dias 11 e 14 em Fortaleza, Ceará). Filme autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim”, retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. Exibido nos festivais de Toronto e do Rio, já tem data para estrear no circuito de cinemas do Brasil: 1º de outubro (com distribuição da Autoral Filmes).
 

 
Franz
 
Outro filme de uma cineasta importante de nosso tempo, a polonesa Agnieszka Holland, veterana no cinema, que ajudou a fundar o Cinema da Inquietação Moral (Kino Moralnego Niepokoju) nos anos 70 – movimento que, por meio de filmes, criticava a corrupção do governo, a censura e a falta de ética na sociedade. Hoje, aos 77 anos, continua firme em seus ideais e fazendo um filme a cada três anos – de 2019 para cá realizou quatro, um melhor que outro, com destaque para “O charlatão” e “Zona de exclusão”. Em “Franz” se volta a uma simples e didática cinebiografia do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), grande nome do realismo fantástico. O filme é um mosaico com passagens fundamentais de sua infância e juventude, entre Praga e Viena – Kafka viveu pouco, morrendo aos 40 anos de tuberculose. Nascido em 1883, em Praga, então parte do Império Austro-Húngaro, em uma família judaica de classe média, desde cedo viveu sob as regras rígidas de seu pai, Hermann Kafka, cuja personalidade autoritária marcou sua vida e sua obra. Estudou em escolas alemãs e, mais tarde, ingressou na Universidade Alemã de Praga, onde se formou em Direito. Apesar de seguir carreira como funcionário em companhias de seguros, sua verdadeira paixão era a escrita, que desenvolvia nas horas livres, muitas vezes em conflito com a rotina exaustiva do trabalho. Durante sua vida, Kafka publicou poucas obras, entre elas o célebre conto “A metamorfose” em 1915, que lhe trouxe reconhecimento literário. Seus livros refletiam temas como alienação, burocracia opressiva e o absurdo da existência, influenciados tanto por sua relação difícil com o pai quanto pelo contexto político e cultural da Europa daquele período (durante a Primeira Guerra). O filme mostra um pouco disso e muito do campo pessoal, com Kafka em suas relações marcadas por instabilidade, incluindo o noivado com Felice Bauer e um relacionamento intenso com a jornalista Milena Jesenská. Em 1917, foi diagnosticado com tuberculose, doença que agravou sua fragilidade física e o levou a períodos de internação em sanatórios. Vivia fraco pelas ruas, escarrando sangue, por longos dias acamado. Após anos de luta contra a enfermidade, faleceu em 3 de junho de 1924, em um sanatório próximo a Viena, vítima da tuberculose laríngea. O filme, que se chamaria “Franz antes de Kafka”, foi o representante da Polônia no último Oscar, mas ficou de fora da lista final. É uma boa biografia (não excelente), tem no elenco atores corretos de várias nacionalidades, como tchecos, poloneses, austríacos e alemães, com destaque para Idan Weiss, que faz o Kafka, em um de seus primeiros papeis no cinema. Exibido nos Festivais de Toronto, San Sebastián e Rio, estreia nos cinemas nesse fim de semana, pela A2 Filmes.

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