sábado, 28 de março de 2020

Cine Lançamento


Stalker

Dois homens, chamados de Escritor e Professor, são guiados por um Stalker até uma área de difícil acesso, fechada pelo Exército. Lá encontra-se “A Zona”, onde existe um quarto em que os desejos podem ser realizados.

A obra máxima de Andrei Tarkovsky pela primeira vez em Bluray, numa edição definitiva, recém-lançada pela CPC-Umes Filmes - o filme também saiu em DVD pela mesma distribuidora e está disponível ainda em um box pela Obras-primas do Cinema, junto com “Andrei Rublev” (1966), outro grande filme do cineasta soviético.
Drama com ficção científica, inspirado no livro “Piquenique na estrada”, de Arkadiy Strugatskiy, “Stalker” é uma fita de arte única, com uma fotografia estarrecedora, que alterna colorido, preto-e-branco e sépia, o que coloca a história num lugar e tempo incertos (a impressão é de que seja um futuro apocalíptico, ameaçado por guerras). Misterioso, filosófico, é também um dos filmes mais complexos do cinema, em que os três personagens debatem religião, ciência e desejo, em longas sequências sem som algum (característica fundamental do cinema de Tarkovsky).


Tudo envolve dois homens intelectuais guiados por um stalker até uma região lacrada pelo Exército, onde ocorreu a queda de meteoritos. A área abandonada originou a chamada “Zona”, que poucos têm acesso, e segundo uma velha lenda, escondido por lá existe “O Quarto”, um lugar sagrado, que materializa os desejos. Esses três desconhecidos encaram uma jornada de autoconhecimento, de purificação da alma e da mente, para entender os mistérios da humanidade.
Ganhador do prêmio especial do Júri no Festival de Cannes em 1980, é um filme de difícil acesso, para público restrito, com passagens indecifráveis, que devem ser sentidas e não compreendidas... Tarkovsky em seu momento mais iluminado! (Outras obras complexas do diretor são “O espelho”, “Nostalgia”, “Solaris” e “O sacrifício”, aliás, toda a filmografia dele está disponível em DVD).
Curiosidade: parte da equipe, elenco e o próprio diretor morreram de câncer – as famílias associaram a doença às gravações do filme, que ocorreram em uma usina radioativa aparentemente desativada na Estônia, e por eles terem ficado muito tempo lá, contaminaram-se.

Stalker (Сталкер). URSS, 1979, 161 minutos. Drama/Ficção científica. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Andrei Tarkovsky. Distribuição: CPC-Umes Filmes

Cine Lançamento



A família Addams

A família Addams se muda para uma mansão tenebrosa em Nova Jersey, no topo de uma montanha. Longe de qualquer contato humano, Gomez, Vandinha, Feioso e a matriarca Mortícia entram numa série de confusões macabras com os moradores da vizinhança.

A família Addams está de volta, agora em forma de desenho animado em computação gráfica! O tão esperado retorno deles é para o público infantil, nessa fita inusitada de entretenimento, nada além do que já tínhamos visto no seriado antigo (1964-1966), nos filmes (as versões de 1991 e 1993 são as melhores e mais lembradas, com Raul Julia e Anjelica Huston) ou na série animada, dos anos 90 – mas nesses exemplares o resultado combinava melhor.
A nova geração de crianças, as que acompanham “Monster High”, perceberá a semelhança. Tem piadas mórbidas, criaturas estranhas, coisas do além-túmulo e momentos politicamente incorretos (por exemplo, cenas de tortura entre Gomez e Morticia). E pitadas do sobrenatural, do macabro e do sombrio completam os ingredientes do filme, que peca apenas num ponto, o roteirinho simplista, onde nada demais acontece – repare que é uma sucessão de fatos repetidos. Tirando essa exigência (que as criançada e parte dos jovens nem vão ligar), assiste-se tranquilamente...


A bilheteria foi bem nos Estados Unidos, aliás a campanha do filme lá fora ganhou corpo, enquanto aqui pouco se falou. Olhe só quem empresta as vozes para a família Addams: Oscar Isaac (Gomez), Charlize Theron (Morticia), Chloë Grace Moretz (Vandinha), Finn Wolfhard (Feioso), Snoop Dogg (primo It) e Bette Midler (Avó), além de Allison Janney, Martin Short e Catherine O’Hara. Um timão!
Dirigido pela dupla Greg Tiernan e Conrad Vernon, da besteirenta animação “Festa da salsicha” (2016), que anunciou a segunda parte para 2021.
Saiu esse mês em DVD pela Universal, num disco cheio de extras.

A família Addams (The Addams family). EUA/Canadá, 2019, 86 minutos. Animação. Colorido. Dirigido por Greg Tiernan e Conrad Vernon. Distribuição: Universal

Cine Lançamento



O poço

Num sistema prisional vertical, os encarcerados vivem de dois em dois em plataformas numeradas. Quando são obrigados a racionar alimentos, instala-se uma crise social, gerando motins e uma onda de violência e assassinatos.

Nesses dias de isolamento social devido à pandemia do Covid-19, o Netflix comprou os direitos de um filme espanhol violento e sombrio sobre cárcere, ganhador de prêmios em festivais como Toronto, Sitges, Gaudí e Goya, que havia sido lançado na Espanha em 2019, mas pouca gente assistiu. Ou seja, não é uma produção original do Netflix, e sim a distribuição no Brasil e em outros países foi realizada por ela.
Foi filmado dentro de uma câmara fechada com poucos cenários e personagens, que vão enlouquecendo durante o longo confinamento. As pessoas dali recebem uma mesa farta de comida, por meio de uma plataforma móvel, que desce, e que deve ser consumida em tempo recorde – ela vem cheia no primeiro nível, e vai descendo, deixando as sobras para outros níveis, para os debaixo se alimentarem. O foco é no personagem Goreng (Ivan Massagué), que divide a cela com um velho misterioso. Chega o dia em que ele decide subir para ver os outros níveis, e quando todos precisam racionar comida, instala-se uma crise social sem precedentes. Pessoas vão se espancar até a morte, a trama fica sinistra, obscura, violenta, até atingir o ápice num desfecho sombrio, uma triste alegoria, aberta a interpretações. Fica a pergunta: “O que deixaremos para as próximas gerações?”


Em seu primeiro longa-metragem, o criativo e ousado diretor espanhol Galder Gaztelu-Urrutia realizou um filmaço que apela para uma crítica às camadas sociais, ao isolamento, às atitudes desumanas que as pessoas podem ter diante do caos, a disputa por comida num sistema cruel que devora a gente. No ponto em que o protagonista pretende escalar até o andar de cima, há uma metáfora sobre o atual sistema que não permite que os pobres possam ascender na sociedade (como diz na abertura, “Existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”), ou seja, a única mudança de estágio é para baixo...
Misturando terror, ação e scifi (a história é num futuro incerto), com uma fotografia apreensiva, bem escura com tons avermelhados, é um tapa na cara, que serve como reflexão nessa terrível época de pandemia, onde muita gente estoca alimentos e não tem um pingo de solidariedade com o próximo.
Ao público claustrofóbico e àqueles que se impressionam com fitas violentas, cuidado ao assistir!

O poço (El hoyo/ The platform). Espanha, 2019, 94 minutos. Horror/Ação. Colorido. Dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia. Distribuição: Netflix

quarta-feira, 25 de março de 2020

Resenhas Especiais



Sem nada para assistir na quarentena? Conheça esses cinco títulos da California Filmes em DVD.

 Assassinos múltiplos

O advogado Frank Valera (Antonio Banderas) faz voto de silêncio enquanto procura os assassinos da esposa e da filha.

Dos produtores de “Os mercenários” (2010) e “Invasão a Londres” (2016), um thriller modesto e movimentado, escrito por um roteirista de filmes menores de terror (como “Luzes do além”) e dirigido por um cineasta israelense cuja carreira está embasada em fitas baratinhas e populares de artes marciais, como “O lutador”, “Ninja”, “O imbatível” – “Assassinos múltiplos” é o melhor longa desse cara, Isaac Florentine.
Rodado na Bulgária, tem uma trama semelhante a tantos derivados de “Desejo de matar” (um clássico policial dos anos 70), com tiros pra lá e pra cá, porradas, investigação e mortes. A distribuidora apenas se equivocou no título (por que “Assassinos múltiplos”? Melhor teria sido a tradução direta do inglês, “Atos de vingança”). Antonio Banderas é o ator central – repare em sua carreira irregular, que vai de filmes de arte de Almodóvar a passatempozinhos tipo “Temperatura máxima” como esse aqui. Atuam com ele o ator neozelandês Karl Urban e a espanhola Paz Vega.

Assassinos múltiplos (Acts of vengeance). EUA/Bulgária, 2017, 87 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por Isaac Florentine. Distribuição: California Filmes


Segurança em risco

Desempregado, o ex-militar Eddie (Antonio Banderas) aceita trabalhar como segurança em um shopping de periferia. Logo no primeiro dia terá de proteger uma menina de 11 anos, alvo de um grupo de perigosos bandidos.

Mais um passatempo de ação dos mesmos produtores de fitas rápidas do gênero, como “Dupla explosiva” (2017), “Rambo: Até o fim” (2019) e “Invasão ao serviço secreto” (2019), estrelada novamente por Antonio Banderas. Ele interpreta um veterano dos serviços especiais da polícia envolvido numa emboscada, e após perder o emprego vai trabalhar como segurança em um shopping numa área de risco. Mas tudo já começa num turbilhão de emoções, quando precisa proteger uma garotinha sob a mira de mafiosos, pois ela testemunhara um crime.
Não exija muito, já sabemos como a fita irá terminar, e se te interessou, entregue-se à trama, repleta de tiros, brigas e mortes, que conta no elenco com o grande Ben Kingsley (na pele do vilão), ganhador do Oscar por “Gandhi” (1982). Em DVD pela California Filmes.

Segurança em risco (Security). EUA, 2017, 91 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por Alain Desrochers. Distribuição: California Filmes


Uma agente muito louca

A desajeitada e brincalhona policial Johanna Pasquali (Alice Pol) sonha em integrar o time da R.A.I.D., a tropa de elite da França. Um dia recebe inesperadamente o convite para trabalhar com esse seleto grupo, como parceira do agente Froissard (Dany Boon), no combate a crimes em Paris.

Comédia policial absurda que cumpre com sua função, ser um passatempo divertido, escrita, dirigida e protagonizada por Dany Boon, de “A Riviera não é aqui” (2008). Ele faz par com a doidinha Alice Pol, uma atriz talentosa, que exagera na forma, nas caras e bocas quando é preciso para tornar possível as gags. Essa dupla super improvável une forças para coibir crimes na França, mas a destrambelhada novata dará uma dor de cabeça ao colega policial...
É daqueles tipos de humor caótico, over, soa até bobinho, dentro de uma trama de investigação criminal. Prepare-se para piadas malucas meio “A pantera cor-de-rosa”, pastelão, momentos besteirol típicos de “Loucademia de polícia”, tudo bem fotografado nas ruas de Paris e Bruxelas (a Bélgica é coprodutora do filme). Dany boon é uma revelação na França, um dos nomes de destaque da atual produção de comédia do país. No final há uma menção em texto como homenagem aos policiais franceses (para não parecer que todos os policiais são abitolados como a protagonista). Vale uma espiada sem compromisso.

Uma agente muito louca (Raid dingue). França/Bélgica, 2016, 105 minutos. Ação/Comédia. Colorido. Dirigido por Dany Boon. Distribuição: California Filmes


Um homem de família


Dane (Gerard Butler) é um headhunter que atua numa concorrida empresa de RH de Chicago. Apontado como o futuro diretor da empresa, enfrenta uma crise profissional com uma colega de escritório, que também almeja o cargo. Se não bastassem essas questões de trabalho, sua rotina entra em colapso com a notícia de que o filho pequeno está diagnosticado com um câncer agressivo.

Um drama triste, sensível, com Gerard Butler amadurecido, deixando de lado os personagens clichês de policiais durões que sempre fez, para dar vida e sensibilidade ao papel de um homem dividido entre o trabalho exaustivo e o desespero em cuidar do filho doente (que acabou de ser diagnosticado com câncer). Ele é um headhunter (um caçador de talentos), focado no trabalho, que agora terá a rotina revirada de cabeça para baixo, tendo de assumir responsabilidades como “homem de família”. O drama familiar discute questões sobre o mundo dos negócios em uma das cidades mais agitadas dos Estados Unidos, Chicago, fala de ética nas relações empresariais e critica a mentalidade de líderes inescrupulosos (que é o papel de Willem Dafoe, que chega a dar raiva). Tem uma conclusão emocionante, que cativante e nos dá esperança por dias melhores.
Rodado no Canadá, tem no elenco Gretchen Mol, Alison Brie e Alfred Molina, roteiro de Bill Dubuque, de “O juiz” (2014) e “O contador” (2016), e foi o primeiro longa do diretor Mark Williams, parceiro de trabalho de Dubuque - juntos escreveram a série do Netflix “Ozark” (2017-).
Não confunda com o filme de mesmo título com Nicolas Cage, de 2000, uma agradável fita natalina, de gênero fantasia.

Um homem de família (A Family man). EUA/Canadá, 2016, 110 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Mark Williams. Distribuição: California Filmes


O canal

O arquivista de filmes David (Rupert Evans) sofre de depressão e acaba de terminar o casamento. Chega até suas mãos um rolo de filme 16mm com imagens de um terrível assassinato ocorrido há 110 anos, na mesma casa onde mora. Angustiado, procura entender aquilo até que encontra um canal de água onde pode haver respostas sobre o antigo crime.

Tenha estômago forte e a mente sã para encarar esse filme de terror independente, rodado em Dublin (Irlanda), que é pesado e tem um final ambíguo. Já começa com impacto exibindo imagens sinistras de um vídeo caseiro, e daí a trama cresce, vai ficando macabra, com alucinações, mexendo com temas sobrenaturais, corpos em decomposição, assassinatos brutais e um maldito canal de água que corta a cidade onde o personagem principal mora. Com uma fotografia escura, que alternam os jogos visuais, a história é apreensiva e confunde – por isso, preste atenção em cada detalhe das cenas.
Destaque para o trabalho do britânico Rupert Evans, dos filmes “Hellboy” (2004), “Boneco do mal” (2016) e “Pastoral americana” (2016), e que fez a série “O homem do castelo alto” (2015-2019).
Escrito e dirigido por um irlandês pouco conhecido, de longas independentes, Ivan Kavanagh, “O canal” é seu trabalho mais pessoal, ganhador de vários prêmios em festivais de cinema de horror.

O canal (The canal). Irlanda/Reino Unido, 2014, 93 minutos. Terror/Suspense. Colorido. Dirigido por Ivan Kavanagh. Distribuição: California Filmes

segunda-feira, 23 de março de 2020

Resenhas Especiais



Dicas de filmes do Netflix para a quarentena ser menos maçante...

Lost girls – Os crimes de Long Island

Em Long Island, Sarah (Amy Ryan) sai numa busca desesperada pela filha, uma jovem prostituta que desapareceu há dois dias. A polícia auxilia na investigação, mobiliza a cidade e tenta acalmar os moradores, isto porque um cruel assassino vem matando garotas de programas.

Uma história real perturbadora, até hoje sem explicações nem conclusão, baseada no livro do jornalista investigativo Robert Kolker (intitulado “Lost Girls: An unsolved american mystery”), bestseller do New York Times, publicado em 2013. Essa versão cinematográfica produzida pelo Netflix, que chegou à plataforma na última semana, acompanha o difícil caso dos assassinatos de garotas de programa em Long Island, ocorridos entre 2010 e 2011, e a caçada a um criminoso sem rosto ou identidade. A protagonista é uma mãe aflita tentando localizar a filha sumida (papel acertado em cheio de Amy Ryan, indicada ao Oscar por “Medo da verdade”), enquanto as horas correm, e novas vítimas aparecem – o caso nunca foi resolvido, nenhum suspeito foi detido, e oficialmente a polícia encontrou cinco corpos de prostitutas desovados ao longo de 20 quilômetros de uma estrada próxima às praias de Long Island.
Com um excelente clima de mistério, uma fotografia escurecida e um roteiro denso (adaptado por Michael Werwie, de “Ted Bundy: A irresistível face do mal”), o suspense é uma boa alternativa para quem é vidrado em histórias de investigação criminal. Tem no elenco um ator que gosto muito, Gabriel Byrne, ganhador do Globo de Ouro pela série “Em terapia”. Quem dirige é a documentarista ganhadora do Emmy e duas vezes indicada ao Oscar Liz Garbus, de “What happened, Miss Simone?” (2015), em sua estreia num longa-metragem de ficção.

Lost girls – Os crimes de Long Island (Lost girls). EUA, 2020, 95 minutos. Suspense/Policial. Colorido. Dirigido por Liz Garbus. Distribuição: Netflix


Entre vinho e vinagre

Quatro amigas de longa data pegam a estrada para comemorar o aniversário de uma delas, rumo à California. Na terra do glamour, do sol e do vinho, elas terão dias de descontração, além de relembrar o passado.

Primeiro longa dirigido pela comediante Amy Poehler, ganhadora do Globo de Ouro pela série “Parks and Recreation”. Uma atriz perspicaz, de timing perfeito, divertida. E também produtora e roteirista de cinema. Ela encabeça o elenco, e nesse seu filme alto astral reuniu amigas pessoais para um road-movie que discute questões acerca do universo feminino. Leve, bobinho às vezes, com piadas infames e pequenos dramas, o passatempo produzido pelo Netflix ganha força com as atrizes, o melhor do cinema americano atual, como a própria Amy Poehler, Maya Rudolph, Rachel Dratch, Ana Gasteyer, Paula Pell e fechando o sexteto, com capricho, Emily Spivey (que escreveu o roteiro junto de Liz Cackowski, roteirista da série “O último cara da Terra”). Não espere muito, sente no sofá e garanta boas risadas!

Entre vinho e vinagre (Wine country). EUA, 2019, 103 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por Amy Poehler. Distribuição: Netflix


Jonas

Jonas (Félix Maritaud), um rapaz gay de 32 anos, é atormentado por fatos ocorridos na adolescência. Sem amigos, tem um comportamento violento e tenta, com muita luta, se desvencilhar desses antigos fantasmas.

Telefilme francês intimista e revelador que acompanha a vida de um jovem chamado Jonas em dois momentos: da passagem dos 14 para os 15 anos (mostrado em flashbacks) e na fase atual, aos 32. Hoje: ele é gay, usa redes sociais para pegação, frequenta boates onde compra brigas frequentes, e é atormentado por um passado sombrio, relacionado a um amigo igualmente homossexual. Aos poucos sua história de vida se revela, a identidade de Jonas é construída para o público compreender suas decisões e comportamento, até atingir o desfecho dramático, pra baixo, questionador. Por si só o telefilme tem coragem, criatividade, provoca e é altamente sexy, com sua explosiva fotografia avermelhada que intensifica o clima homoerótico, também uma simbologia para os limites entre a paixão e a fúria do personagem principal.
Os dois atores que interpretam Jonas são bons: na fase adolescente está Nicolas Bauwens, do contundente drama sobre pedofilia na igreja “Graças a Deus” (2018), e nos dias de hoje, Félix Maritaud, do polêmico e duro “Selvagem” (2018), também do melancólico “120 batimentos por minuto” (2017).
PS: Não é uma produção original do Netflix, apenas a plataforma de streaming adquiriu os direitos para exibição. Aliás, o telefilme francês é de 2018, foi exibido em festivais voltados para produtos de TV nos Estados Unidos e na Europa entre outubro e novembro daquele ano, e chegou ao Netflix Brasil há duas semanas ficando em destaque na capa por três dias.

Jonas (Idem). França, 2018, 82 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Christophe Charrier. Distribuição: Netflix


Alex Strangelove

Um adolescente chamado Alex (Daniel Doheny) desconfia que seja gay. Isto porque não consegue transar com meninas (ele até tenta) e sente leve atração por garotos. Certo dia fará um desafio para saber qual lado realmente curte...

Uma comédia espirituosa, leve, para teenagers e público que se interessar pelo tema. Na época do lançamento (2018), essa produção original do Netflix ganhou divulgação boca a boca tornando-se um dos filmes mais vistos na temporada daquele ano. Só agora conferi o filme e curti o resultado!
Alex (um ator novinho, revelação, que em 2018 apareceu em outra produção do Netflix, “O pacote”, uma comédia bizarra e bem boboca) é um garoto como outro qualquer, tem um canal no Youtube, amigos aos montes na escola e está “indeciso” quanto a sua sexualidade quando percebe que não consegue ter relações sexuais com meninas. Quer perder a virgindade, mas não sabe ao certo com quem... Até sentir atração por um menino da escola onde estuda.
O filme é sobre aceitar-se, fala sobre uma fase confusa na vida de qualquer pessoa, a adolescência, onde todos nós, preenchidos por uma série de hormônios novos, aliados à cobrança constante, temos dificuldade em nos encontrar, seja em qualquer aspecto (família, estudos, opção sexual etc).
Botei fé no elenco cheio de atores jovens, carismáticos e talentosos, que ajudam no resultado da comédia dramática/romântica cuja produção é de Ben Stiller, e vem ao encontro da nova onda de filmes de temática LGBT focada no público adolescente. O desfecho é motivo de aplausos e orgulho, com depoimentos reais de garotos e garotas que relatam como foi “sair do armário”.
Daqueles filmes bonitinhos, alto astral, com uma mensagem positiva e alegre, que lembra “Com amor, Simon” (saiu no mesmo ano, 2018, e acaba sendo melhor devido ao lado mais enfático, ao drama).
Do diretor Craig Johnson, das comédias dramáticas “Irmãos desastre” (2014) e “Wilson” (2017).

Alex Strangelove (Idem). EUA, 2018, 99 minutos. Comédia romântica. Colorido. Dirigido por Craig Johnson. Distribuição: Netflix


Sierra Burgess é uma loser

Sierra (Shannon Purser) é uma menina longe dos atuais padrões de beleza impostos pelos americanos, motivo de chacota de um grupo de garotas patricinhas na escola. Uma infeliz armadilha a coloca frente a frente a um garoto disputado do colegial, Jamey (Noah Centineo), porém Sierra terá de esconder sua verdadeira identidade.

Uma comédia romântica para adolescentes, bem conduzida e casual, que parece um conto de fadas à moda antiga. Temas como preconceito, bullying na escola, uso inconsequente das redes sociais e aceitação aparecem para o público pensar, disfarçados no humor leve e gracioso. É a história de uma garota gordinha e sardenta, que se torna alvo de piadas de um trio de garotas mimadas, que a taxam de feia e perdedora (sentido do “loser”, termo em inglês que pegou como gíria entre os jovens brasileiros). Por sua vez, Sierra dá a volta por cima, pois não liga para esse tipo de comentário (o filme foge dos clichês, da menina que chora por ser discriminada, porém sabemos que guardar ou não ligar para o bullying sofrido pode ser prejudicial em algum momento da vida). Um dia, uma armadilha plantada irá inverter o jogo de Sierra com as meninas petulantes...
Bastante visto no Netflix na época do lançamento (2018), o filme não recorre ao drama, opta em situações românticas e à fantasia, contando com um trabalho natural e deliciado da atriz Shannon Purser (indicada ao Emmy por uma aparição marcante na série do Netflix “Stranger things”). Tem também Noah Centineo, que trabalha em vários filmes do Netflix para jovens, como “Para todos os garotos que já amei” (2018) e “O date perfeito” (2019), e participação das atrizes Lea Thompson e Chrissy Metz.
Passatempo recomendado para toda a família!

Sierra Burgess é uma loser (Sierra Burgess is a loser). EUA, 2018, 105 minutos. Comédia romântica. Colorido. Dirigido por Ian Samuels. Distribuição: Netflix


sábado, 21 de março de 2020

Cine Lançamento


Bacurau

Chocados com uma série de assassinatos sem explicação, moradores do vilarejo de Bacurau, no Nordeste brasileiro, preparam uma guerra contra invasores estrangeiros que desejam atacar o local.

Intenso, criativo, insano, violento... uma porrada! São muitos adjetivos para “Bacurau” (2019), uma esmagadora alegoria em torno da política brasileira, que se torna atual a cada revisão - até o título é profundamente simbólico, uma alusão ao pássaro arisco que só sai à noite.
Ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes do ano passado (indicado também à Palma de Ouro e ao Queer Palm), virou sensação no mundo inteiro depois do lançamento, e aqui no Brasil somou milhões de reais de bilheteria numa campanha avassaladora e nunca antes vista para um filme de arte.
Difícil até de classificar seu gênero. Eclético, imprime temas/tipos de cinema praticamente impossíveis de serem unidos: terror gore, western, ficção científica lado B (a história se passa num futuro, incerto), ação, drama, fantasia. Para se ter noção, vai de emboscadas a OVNIs, tem gangue urbana motorizada, gente nua, cabeças explodindo, tudo rolando na secura do Nordeste (o filme teve como locação a comunidade de Barra, no Rio Grande do Norte, onde os verdadeiros habitantes participaram como figurantes).
Escalando um elenco diferenciado, de nomes atuais e veteranos, a destacar Bárbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Karine Teles, Sonia Braga e o alemão Udo Kier (num papel memorável), o cineasta e roteirista Kleber Mendonça Filho, dirigindo e escrevendo o roteiro em parceria com Juliano Dornelles, homenageia a Nouvelle Vague e o nosso Cinema Novo, os filmes B, o scifi movie, o faroeste, o horror e a fantasia, adequando-os ao modo tupiniquim. Mendonça Filho, dos soberbos e meus preferidos “O som ao redor” (2013) e “Aquarius” (2016, indicado à Palma de Ouro), estiliza a violência, abandona rigores técnicos dos projetos anteriores, e em seu filme mais pessoal dá abertura a interpretações variadas, nessa saga eletrizante de um povo entregue ao Deus-dará, enfurnados numa pequenina vila isolada do país (tão isolada e minúscula que até “sumiu” do mapa!), que organiza um revide contra os abusos de autoridade, vindos tanto de políticos brasileiros quanto de invasores americanos.
Um dos melhores filmes de 2019, forte, de impacto, sobre luta, resistência e uma crítica ao atual quadro político que vivemos (e sobrevivemos).
Lançado recentemente em DVD pela Vitrine Filmes, a distribuidora anunciou que em breve também estará disponível em Bluray. Aliás, um parabéns à Vitrine, que em meio à crise das mídias em disco, resolveu entrar no mercado de DVDs com “Bacurau”, para saciar os desejos dos colecionadores (até então só lançava filmes nos cinemas). No disco, extras variados, como trailer, vídeos promocionais, making of etc

Bacurau (Idem). Brasil/França, 2019, 131 minutos. Drama/Ação. Colorido. Dirigido por Kleber Mendonça Filho. Distribuição: Vitrine Filmes

Resenha Especial


Sob custódia

Três mulheres têm suas vidas completamente alteradas nos corredores da Vara de Família de Nova York.

Conheci somente agora esse bom filme dramático com um elenco monumental, um drama íntimo sobre vidas que se cruzam na corte americana em busca de uma nova realidade. Aparenta, de início, um contido exemplar do subgênero “filme de tribunal”, porém vai mais longe, tocando em temas humanos, concernentes a sacrifício, traição, desafeto, redenção e retomadas.
A trama explora a rotina de três mulheres que não se conhecem, até pisarem na Vara de Família. A primeira é uma juíza negra em crise no casamento (é chover no molhado dizer dela, a maravilhosa Viola Davis, premiada com o Oscar de coadjuvante por “Um limite entre nós”); ela preside o caso de uma mãe usuária de drogas cujos filhos estão sob custódia (papel da colombiana Catalina Sandino Moreno, sumida das telas, que foi indicada ao Oscar por “Maria Cheia de Graça”). E quem defende o caso dela é uma jovem advogada (Hayden Panettiere, duas vezes indicada ao Globo de Ouro pela série “Nashville: No ritmo da fama”), que tem uma desafiadora relação com a mãe idosa. As três estarão face a face no tribunal, numa causa decisiva, enquanto, fora de lá, lidam com uma série de tormentos pessoais.
Às vezes amargo, sem resoluções tão fáceis ou palatáveis, o filme abre os olhos do público para questões fundamentais da atualidade, não só vista em Nova York, e sim adaptada para qualquer realidade.
No elenco de apoio destaque para a veterana Ellen Burstyn (de “O exorcista”) e Tony Shalhoub (da série “Monk”). Assista, reflita, emocione-se. Disponível em DVD pela Universal Pictures.

Sob custódia (Custody). EUA, 2016, 103 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por James Lapine. Distribuição: Universal Pictures

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

Confira resenhas de seis documentários imperdíveis – três deles em exibição nos principais cinemas do Brasil e outros três nos streamings Se...