sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
Festival de Berlim 2026: filmes que exploram complexas relações humanas
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) chega ao nono dia com uma extensa programação de filmes de temáticas diversas. Vitrine do cinema mundial, ele segue até o dia 22/02 com mais de 400 filmes para o público. Confira abaixo títulos que falam sobre relações humanas, que assisti no festival e recomendo:


 
Dao
(França/Senegal/Guiné-Bissau - 2026, 185 minutos, de Alain Gomis)
 
“Dao” abre com uma definição que funciona como um manifesto: “Um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e une o mundo”. A partir desse discurso, o filme mergulha numa narrativa que oscila entre o íntimo e o performático, entre o que é vivido e o que é encenado. Gloria (Katy Correa), de 50 anos, é a protagonista, uma mulher africana que preserva na França suas tradições. Ela se prepara para o casamento da filha em Paris, mas a Cidade Luz se mostra como um dos polos desse movimento circular. O outro está em Guiné‑Bissau, onde anos atrás enterrou o pai, numa cerimônia marcada por dança e lembrança dos antepassados. O filme se transpõe entre as duas nações, rompendo as fronteiras entre documentário e ficção ao nos levar para um casting da produção de um filme; “Dao” é construído em duas partes, uma de um filme ficcional e a segunda, de uma espécie de documentário que registra a preparação daquele filme que será encenado. A voz fora de cena, quase onipresente, anuncia que o primeiro passo é formar esta família que surgirá na tela. Atores e não atores são convocados para serem os membros daquele clã familiar - não apenas no papel, mas na construção de uma comunidade temporária que atravessará continentes, rituais e lutos. É como se a obra cinematográfica nos lembrasse que toda família, real ou inventada, é sempre uma ficção partilhada. À medida que viajamos entre Paris e Guiné‑Bissau, as histórias individuais se entrelaçam com heranças comuns. Amor, risos, rituais, dor e memória surgem como fios condutores que costuram um tecido híbrido, onde fatos e imaginação se confundem. O movimento circular anunciado no início reaparece constantemente, não como metáfora abstrata, mas como forma de olhar: tudo retorna, tudo se dobra sobre si mesmo, tudo ecoa. É um filme sobre complexas relações humanas, feito de uma autoralidade que há tempos não via tão bem formatada na tela. Ele não apresenta divisão em capítulos, tudo é encaixado de forma discreta, com cortes que fazem o longa transitar entre a ficção e o documentário. As tradições ritualísticas da cultura de Guiné Bissau, evocadas pelo canto e a dança, seja para o luto ou para a comemoração do casamento, trazem ritmo e brilho para a composição estética desse riquíssimo filme que é o terceiro trabalho do diretor Alain Gomis indicado ao Urso de Ouro, seguido de “Aujourd'hui” (2012) e “Felicidade” (2017). Está na competição oficial da Berlinale, muito cotado para vencer o Urso de Ouro.
 

 
O testamento de Ann Lee
(EUA/Reino Unido - 2025, 137 minutos, de Mona Fastvold)
 
Teve a première alemã na Berlinale este filme que já passou nos Estados Unidos e em vários países da Europa no ano passado, incluindo os Festivais de Veneza e Toronto e BFI Londres. Amanda Seyfried chegou hoje ao solo berlinense para divulgar o drama musical em que entrega uma poderosa interpretação, pela qual recebeu indicação ao Globo de Ouro de atriz de comédia ou musical. É um drama de época com momentos cantados, inspirado em um fato verídico, a vida marcada por perseguição religiosa de Ann Lee (1736–1784), conhecida como Madre Ann Lee (no filme apenas ‘Mother’). Ela foi a líder fundadora dos Shakers, mais tarde chamados Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Aparição de Cristo. Nascida na Inglaterra durante um período de intenso fervor religioso, virou figura marcante tanto no seu país quanto na América - em 1774, após 20 anos envolvida no movimento que daria origem aos Shakers, na Inglaterra, emigrou para Nova Iorque com um pequeno grupo de seguidores. Estabeleceram-se em Niskayuna, no condado de Albany, onde praticavam formas de culto marcadas por danças extáticas, o “shaking”, uma prática de movimento livre e espontâneo, sem coreografias, focada na conexão interior, cura e expressão autêntica, muitas vezes vivida como uma meditação ativa ou ritual, com gritos, cantos e sussurros, em movimentos circulares. Numa época em que poucas mulheres lideravam comunidades religiosas, Ann Lee (papel de muita concentração de Amanda Seyfried) pregava publicamente e era vista como a expressão feminina de Deus, consolidando o seu papel singular na história espiritual dos Estados Unidos. Mas ela incomodou a sociedade do século XVIII, resultando em perseguições severas sistemáticas. O grupo dos Shakers foi desmantelado diversas vezes, por causa de crenças e comportamentos que desafiavam as normas religiosas e sociais da época, como a encarnação de Cristo em uma mulher (apontado como uma heresia), a pregação da igualdade entre gêneros e classes sociais, o celibato absoluto, o que ameaçava o modelo tradicional de família, e a adoração efusiva, marcadas por gritos, danças frenéticas e tremores, que assustava e chocava a população. “O testamento de Ann Lee” não apresenta apenas uma história, mas um estado de espírito e um ânimo social, que reflete a intolerância religiosa e de gênero em séculos passados. Com uma montagem exímia dividindo a biografia de Ann Lee em quatro capítulos essenciais de sua curtíssima trajetória, conta com um olhar cuidadoso da cineasta Mona Fastvold – em nova parceria com o roteirista de “O brutalista” Brady Corbet. Ela capta bem olhares e o ambiente ao redor, trazendo dimensão humana para aquele grupo de pessoas envolvidas com a nova religião (as coreografias são ótimas nos momentos do “shaking”). Soube usar a fotografia das cenas abertas nas florestas, que são de puro capricho, e até as músicas cantaroladas são extraídas dos verdadeiros escritos de Ann Lee, demonstrando ampla pesquisa sobre a personagem. Amanda interpreta uma mulher no limite, uma protagonista cheia de camadas, à beira do desassossego, atravessando um limiar emocional – a atriz entrega um bom papel sem cair no exagero. Ao lado de Amanda há um elenco de coadjuvantes que levam a trama até o final, como Christopher Abbott, Thomasin McKenzie, Lewis Pullman, Tim Blake Nelson e Stacy Martin. Previsão de estreia no Brasil em 12 de março.
 

 
Queen at sea
(EUA/Reino Unido - 2026, 121 minutos, de Lance Hammer)
 
Um dos longas mais belos (e trágicos) do Festival de Berlim de 2026, a coprodução britânica-americana é um devastador retrato sobre a impotência da velhice, que reúne um elenco em estado de graça, cotados para os prêmios principais da Berlinale. Uma família é atravessada pela demência da mãe, Leslie (Anna Calder-Marshall), que já não fala e expressa pouco seus sentimentos. Ela é cuidada pelo atual marido, Martin (Tom Courtenay), ambos com mais de 80 anos. Certa manhã, a filha, Amanda (Juliette Binoche), vai visitar a mãe e leva um choque ao vê-la transando com o padrasto. Ela expulsa Martin da cama e ameaça chamar a polícia – segundo Amanda, ele não deveria mais fazer sexo com Leslie, já que a idosa fica estática, sem reação, alegando uma agressão às vontades da mãe. Martin e Amanda iniciam um duro embate moral que arrastará toda a discussão do filme, trazendo luz para temas como velhice, doença, decisões próprias, cuidado, companhia e solidão. Lance Hammer dirige com maestria seu segundo longa-metragem fazendo um belo filme de atores, com presença marcante do trio composto por Anna Calder-Marshall, Tom Courtenay (numa interpretação notavelmente contundente) e Juliette Binoche. Uma história paralela, menos importante, é traçada, sobre a filha jovem e rebelde de Amanda, Sara (papel de Florence Hunt), que pouco acrescenta à trama original. Nossa atenção toda é voltada para a crescente crise que instala naquela família, fazendo com que nossos olhos não saiam da tela um minuto sequer. Gostei muito e espero que o filme ganhe asas em outros festivais e chegue logo ao Brasil para que o público conheça.
 
 
 
Rosebush pruning
(Alemanha/Itália/Espanha/Reino Unido/Estados Unidos – 2026, 97 minutos, de Karim Aïnouz)
 
O cineasta cearense Karim Aïnouz trouxe para o Festival de Berlim seu segundo filme estrangeiro com elenco internacional, desta vez com nomes a perder de vista: Elle Fanning, Callum Turner, Pamela Anderson, Riley Keough, Lukas Gage, Jamie Bell e Tracy Letts (o anterior foi o indicado à Palma de Ouro “O jogo da rainha”, de 2023, com Jude Law e Alicia Vikander). Deu um chacoalhão no público, dividindo a crítica, em uma obra autoral de extremos, que tem traços do cinema de Yorgos Lanthimos – não por acaso o roteirista é o grego Efthimis Filippou, que escreveu quase todos os filmes de Lanthimos. É um filme incomum, e com certeza muita gente irá chiar – há duas cenas sobre sexo bizarro que ficará na memória (pro bem e pro mal). Sob o sol da Catalunha, quatro irmãos residem com o pai cego (Tracy Letts) em uma casa aconchegante próxima ao mar. A mansão tem peculiar arquitetura, rodeada por vastos roseirais podados diariamente pelo patriarca (daí o título). Herdeiros de uma grande fortuna, os filhos se provocam, têm comportamentos inadequados e se refugiam em roupas de marca, em rituais vazios e na ilusão de que o isolamento pode protegê-los das exigências da sociedade. No jardim de inverno dentro do casarão todos eles cultuam o jazigo da mãe morta (Pamela Anderson). As coisas mudam quando Jack (Jamie Bell), o filho primogênito e o mais resolvido da casa, resolve abandonar o lar para viver com a namorada, Martha (Elle Fanning). A decisão desencadeia uma ruptura na família, atingindo em cheio os irmãos Robert (Lukas Gage) e Anna (Riley Keough). Quem observa com segunda intenção aquele desmoronamento é o irmão mais sorrateiro, Ed (Callum Turner), que impulsionará uma série de eventos eu colocará um contra o outro dando início a uma onda de conflitos violentos. Esse processo de desintegração familiar nas mãos de Aïnouz e Filippou vira uma sátira voraz à família patriarcal tradicional. Assim como no cinema de Lanthimos, há lances chocantes, reviravoltas impressionantes e um certo clima de estranhezas no ar. Eu sou da ala dos que curtiram o filme, e ver um cineasta brasileiro chegar aqui com esta fita de arte estrondosa, é de dar orgulho. Com produção assinada pela Mubi, está na competição principal, na disputa pelo Urso de Ouro – e deve estrear nos cinemas até o fim do ano.

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