Festival
de Berlim 2026: filmes que exploram complexas relações humanas
O 76º
Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) chega ao nono dia com
uma extensa programação de filmes de temáticas diversas. Vitrine do cinema
mundial, ele segue até o dia 22/02 com mais de 400 filmes para o público. Confira
abaixo títulos que falam sobre relações humanas, que assisti no festival e
recomendo:

Dao
(França/Senegal/Guiné-Bissau
- 2026, 185 minutos, de Alain Gomis)
“Dao”
abre com uma definição que funciona como um manifesto: “Um movimento perpétuo e
circular que flui em tudo e une o mundo”. A partir desse discurso, o filme
mergulha numa narrativa que oscila entre o íntimo e o performático, entre o que
é vivido e o que é encenado. Gloria (Katy Correa), de 50 anos, é a protagonista,
uma mulher africana que preserva na França suas tradições. Ela se prepara para
o casamento da filha em Paris, mas a Cidade Luz se mostra como um dos polos
desse movimento circular. O outro está em Guiné‑Bissau, onde anos
atrás enterrou o pai, numa cerimônia marcada por dança e lembrança dos
antepassados. O filme se transpõe entre as duas nações, rompendo as fronteiras
entre documentário e ficção ao nos levar para um casting da produção de um
filme; “Dao” é construído em duas partes, uma de um filme ficcional e a segunda,
de uma espécie de documentário que registra a preparação daquele filme que será
encenado. A voz fora de cena, quase onipresente, anuncia que o primeiro passo é
formar esta família que surgirá na tela. Atores e não atores são convocados
para serem os membros daquele clã familiar - não apenas no papel, mas na
construção de uma comunidade temporária que atravessará continentes, rituais e
lutos. É como se a obra cinematográfica nos lembrasse que toda família, real ou
inventada, é sempre uma ficção partilhada. À medida que viajamos entre Paris e
Guiné‑Bissau, as histórias individuais se
entrelaçam com heranças comuns. Amor,
risos, rituais, dor e memória surgem como fios condutores que costuram um tecido híbrido,
onde fatos e imaginação se confundem. O movimento circular
anunciado no início reaparece constantemente, não
como metáfora abstrata, mas como forma de olhar: tudo retorna,
tudo se dobra sobre si mesmo, tudo ecoa. É um filme sobre complexas relações
humanas, feito de uma autoralidade que há tempos não via tão bem formatada na tela.
Ele não apresenta divisão em capítulos, tudo é encaixado de forma discreta, com
cortes que fazem o longa transitar entre a ficção e o documentário. As
tradições ritualísticas da cultura de Guiné Bissau, evocadas pelo canto e a
dança, seja para o luto ou para a comemoração do casamento, trazem ritmo e
brilho para a composição estética desse riquíssimo filme que é o terceiro trabalho
do diretor Alain Gomis indicado ao Urso de Ouro, seguido de “Aujourd'hui”
(2012) e “Felicidade” (2017). Está na competição oficial da Berlinale, muito
cotado para vencer o Urso de Ouro.
O
testamento de Ann Lee
(EUA/Reino
Unido - 2025, 137 minutos, de Mona Fastvold)
Teve a
première alemã na Berlinale este filme que já passou nos Estados Unidos e em
vários países da Europa no ano passado, incluindo os Festivais de Veneza e
Toronto e BFI Londres. Amanda Seyfried chegou hoje ao solo berlinense para divulgar
o drama musical em que entrega uma poderosa interpretação, pela qual recebeu
indicação ao Globo de Ouro de atriz de comédia ou musical. É um drama de época com
momentos cantados, inspirado em um fato verídico, a vida marcada por
perseguição religiosa de Ann Lee (1736–1784), conhecida como Madre Ann Lee (no
filme apenas ‘Mother’). Ela foi a líder fundadora dos Shakers, mais tarde
chamados Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Aparição de Cristo. Nascida na
Inglaterra durante um período de intenso fervor religioso, virou figura
marcante tanto no seu país quanto na América - em 1774, após 20 anos envolvida
no movimento que daria origem aos Shakers, na Inglaterra, emigrou para Nova
Iorque com um pequeno grupo de seguidores. Estabeleceram-se em Niskayuna, no
condado de Albany, onde praticavam formas de culto marcadas por danças
extáticas, o “shaking”, uma prática de movimento livre e espontâneo, sem
coreografias, focada na conexão interior, cura e expressão autêntica, muitas
vezes vivida como uma meditação ativa ou ritual, com gritos, cantos e
sussurros, em movimentos circulares. Numa época em que poucas mulheres
lideravam comunidades religiosas, Ann Lee (papel de muita concentração de
Amanda Seyfried) pregava publicamente e era vista como a expressão feminina de
Deus, consolidando o seu papel singular na história espiritual dos Estados
Unidos. Mas ela incomodou a sociedade do século XVIII, resultando em
perseguições severas sistemáticas. O grupo dos Shakers foi desmantelado
diversas vezes, por causa de crenças e comportamentos que desafiavam as normas
religiosas e sociais da época, como a encarnação de Cristo em uma mulher (apontado
como uma heresia), a pregação da igualdade entre gêneros e classes sociais, o
celibato absoluto, o que ameaçava o modelo tradicional de família, e a adoração
efusiva, marcadas por gritos, danças frenéticas e tremores, que assustava e
chocava a população. “O testamento de Ann Lee” não apresenta apenas uma
história, mas um estado de espírito e um ânimo social, que reflete a intolerância
religiosa e de gênero em séculos passados. Com uma montagem exímia dividindo a biografia
de Ann Lee em quatro capítulos essenciais de sua curtíssima trajetória, conta
com um olhar cuidadoso da cineasta Mona Fastvold – em nova parceria com o
roteirista de “O brutalista” Brady Corbet. Ela capta bem olhares e o ambiente
ao redor, trazendo dimensão humana para aquele grupo de pessoas envolvidas com a
nova religião (as coreografias são ótimas nos momentos do “shaking”). Soube usar
a fotografia das cenas abertas nas florestas, que são de puro capricho, e até as
músicas cantaroladas são extraídas dos verdadeiros escritos de Ann Lee,
demonstrando ampla pesquisa sobre a personagem. Amanda interpreta uma mulher no
limite, uma protagonista cheia de camadas, à beira do desassossego, atravessando
um limiar emocional – a atriz entrega um bom papel sem cair no exagero. Ao lado
de Amanda há um elenco de coadjuvantes que levam a trama até o final, como Christopher
Abbott, Thomasin McKenzie, Lewis Pullman, Tim Blake Nelson e Stacy Martin. Previsão
de estreia no Brasil em 12 de março.
Queen
at sea
(EUA/Reino
Unido - 2026, 121 minutos, de Lance Hammer)
Um dos longas
mais belos (e trágicos) do Festival de Berlim de 2026, a coprodução britânica-americana
é um devastador retrato sobre a impotência da velhice, que reúne um elenco em estado
de graça, cotados para os prêmios principais da Berlinale. Uma família é
atravessada pela demência da mãe, Leslie (Anna Calder-Marshall), que já não fala
e expressa pouco seus sentimentos. Ela é cuidada pelo atual marido, Martin (Tom
Courtenay), ambos com mais de 80 anos. Certa manhã, a filha, Amanda (Juliette
Binoche), vai visitar a mãe e leva um choque ao vê-la transando com o padrasto.
Ela expulsa Martin da cama e ameaça chamar a polícia – segundo Amanda, ele não
deveria mais fazer sexo com Leslie, já que a idosa fica estática, sem reação, alegando
uma agressão às vontades da mãe. Martin e Amanda iniciam um duro embate moral que
arrastará toda a discussão do filme, trazendo luz para temas como velhice,
doença, decisões próprias, cuidado, companhia e solidão. Lance Hammer dirige
com maestria seu segundo longa-metragem fazendo um belo filme de atores, com
presença marcante do trio composto por Anna Calder-Marshall, Tom Courtenay (numa
interpretação notavelmente contundente) e Juliette Binoche. Uma história
paralela, menos importante, é traçada, sobre a filha jovem e rebelde de Amanda,
Sara (papel de Florence Hunt), que pouco acrescenta à trama original. Nossa
atenção toda é voltada para a crescente crise que instala naquela família, fazendo
com que nossos olhos não saiam da tela um minuto sequer. Gostei muito e espero
que o filme ganhe asas em outros festivais e chegue logo ao Brasil para que o
público conheça.
Rosebush
pruning
(Alemanha/Itália/Espanha/Reino
Unido/Estados Unidos – 2026, 97 minutos, de Karim Aïnouz)
O cineasta
cearense Karim Aïnouz trouxe para o Festival de Berlim seu segundo filme
estrangeiro com elenco internacional, desta vez com nomes a perder de vista: Elle
Fanning, Callum Turner, Pamela Anderson, Riley Keough, Lukas Gage, Jamie Bell e
Tracy Letts (o anterior foi o indicado à Palma de Ouro “O jogo da rainha”, de
2023, com Jude Law e Alicia Vikander). Deu um chacoalhão no público, dividindo
a crítica, em uma obra autoral de extremos, que tem traços do cinema de Yorgos
Lanthimos – não por acaso o roteirista é o grego Efthimis Filippou, que
escreveu quase todos os filmes de Lanthimos. É um filme incomum, e com certeza
muita gente irá chiar – há duas cenas sobre sexo bizarro que ficará na memória
(pro bem e pro mal). Sob o sol da Catalunha, quatro irmãos residem com o pai
cego (Tracy Letts) em uma casa aconchegante próxima ao mar. A mansão tem peculiar
arquitetura, rodeada por vastos roseirais podados diariamente pelo patriarca
(daí o título). Herdeiros de uma grande fortuna, os filhos se provocam, têm
comportamentos inadequados e se refugiam em roupas de marca, em rituais vazios
e na ilusão de que o isolamento pode protegê-los das exigências da sociedade. No
jardim de inverno dentro do casarão todos eles cultuam o jazigo da mãe morta
(Pamela Anderson). As coisas mudam quando Jack (Jamie Bell), o filho primogênito
e o mais resolvido da casa, resolve abandonar o lar para viver com a namorada, Martha
(Elle Fanning). A decisão desencadeia uma ruptura na família, atingindo em cheio
os irmãos Robert (Lukas Gage) e Anna (Riley Keough). Quem observa com segunda
intenção aquele desmoronamento é o irmão mais sorrateiro, Ed (Callum Turner),
que impulsionará uma série de eventos eu colocará um contra o outro dando
início a uma onda de conflitos violentos. Esse processo de desintegração familiar
nas mãos de Aïnouz e Filippou vira uma sátira voraz à família patriarcal
tradicional. Assim como no cinema de Lanthimos, há lances chocantes, reviravoltas
impressionantes e um certo clima de estranhezas no ar. Eu sou da ala dos que
curtiram o filme, e ver um cineasta brasileiro chegar aqui com esta fita de
arte estrondosa, é de dar orgulho. Com produção assinada pela Mubi, está na
competição principal, na disputa pelo Urso de Ouro – e deve estrear nos cinemas
até o fim do ano.
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