Berlinale
traz mais uma série de filmes com protagonistas femininas
O 76º
Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) entra hoje em seu sétimo
dia, com uma rica programação de filmes em première na capital alemã. Um dos
festivais de cinema mais reconhecidos do mundo segue até o dia 22/02
apresentando mais de 400 longas e curtas-metragens de diversos países, de
temáticas e gêneros diversos. Confira abaixo títulos com personagens femininas
que se destacam na tela, que assisti no festival e recomendo:

At
the sea
(EUA/Hungria
- 2026, 112 minutos, de Kornél Mundruczó)
Um
drama envolvente com uma interpretação mais uma vez estrondosa de Amy Adams, atriz
que gosto em particular e que pelo papel aqui deverá ser indicada ao Oscar em
2027. Ela interpreta com frequência papeis de mulheres em vulnerabilidade
emocional, repetindo a dose com maestria em “At the sea”. Desta vez ela é
Laura, dirigente de uma companhia de balé (herdada do pai), que retorna para
casa após seis meses de internação em uma clínica de reabilitação. Ela tem
vício em álcool e quase perdeu tudo com o agravamento da adicção. O filme já abre
com Laura deixando a clínica e voltando para o lar, onde marido e filhos a
esperam – a residência fica à beira da praia (por isso o título), local onde
transcorrerá toda a trama. Ela tenta reconstruir os laços com a família – os
filhos não a perdoam pelo passado, pois foram traumatizados pelo vício da mãe,
enquanto o marido, Martin (ótimo trabalho de Murray Bartlett, de “The White
Lotus”), pacientemente dá o tempo necessário para a esposa se reajustar. Laura
tem lapsos do passado, de quando era pequena e tinha o pai como apoio – a
relação entre eles não fica muito clara, já que são flashes sem diálogos. A
resistência dos filhos é dura, mas também vemos que Laura é uma mulher de pouco
afeto e carinho – uma é a filha adolescente rebelde (que também gosta de dançar)
e o outro é um garotinho que sentiu profundamente a ausência dela. São dias
sucessivamente tensos de retomar as funções da casa, do trabalho e do convívio
familiar. E para piorar uma crise entre o casal se instala, envolvendo culpa e
responsabilidades. O longa permanece do começo ao fim como um drama intenso,
com um desfecho de arrancar lágrimas, um filme todo de Amy, num papel complexo.
A paisagem marítima funciona como espelho do estado interno da protagonista:
ora calma, ora turbulenta, sempre prestes a revelar algo submerso. Amy está
fotogênica, entrega tudo - pequenos gestos, hesitações e silêncios dela dizem
mais do que qualquer diálogo. A direção acerta no trabalho dos atores, seguindo
em ritmo lento a condução das cenas – assinada por Kornél Mundruczó. O cineasta
húngaro fez filmes na linha do cinema fantástico, como “Lua de Júpiter” (2017),
e aqui é seu segundo trabalho com mulheres problemáticas se reconstruindo; o
primeiro foi “Pedaços de uma mulher” (2020), que deu indicação ao Oscar de
melhor atriz a Vanessa Kirby, e agora “At the sea”. É um diretor de alma
feminina que captura com exatidão a mensagem que quer passar. Integra a
competição em busca do Urso de Ouro.
Saccharine
(Austrália
- 2026, 112 minutos, de Natalie Erika James)
Terror
psicológico com forte comentário à cultura fitness, é um dos bons filmes de
gênero que circula por esses dias na Berlinale. Com ecos de horror corporal, o
inquietante longa australiano é o melhor trabalho da cineasta Natalie Erika
James, de “Relíquia macabra” (2020) e “Apartamento 7A” (2024). A trama
acompanha Hana (Midori Francis), uma estudante de Medicina que descobre uma
fórmula mágica para emagrecer: comprimidos manipulados em laboratório com
cinzas de pessoas que foram cremadas (é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de
comer doces e percebe que seu peso estagnou mesmo frequentando academia - e
quando experimenta a pílula, vê o resultado em poucos dias. Hana não conta para
ninguém sobre o remédio. Paralelo a isto, nas aulas de anatomia, estuda a
dissecação de um cadáver de aparência chocante, a de uma mulher com mais de 200
quilos, toda inchada. Hana sente algo estranho naquele corpo estirado na mesa e
passa a ter alucinações. O pesadelo na vida da universitária atinge o ápice
quando o fantasma da morta aparece para ela em reflexos nos talheres de
cozinha. O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher
disposta a qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de
corpo humano demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema
que o longa procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que
realmente provocam medo, uma boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem
no elenco Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”,aqui no
papel da melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido
ator australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da
protagonista). A première europeia ocorreu na sessão Berlinale Special
Midnight.
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