quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
Berlinale traz mais uma série de filmes com protagonistas femininas
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) entra hoje em seu sétimo dia, com uma rica programação de filmes em première na capital alemã. Um dos festivais de cinema mais reconhecidos do mundo segue até o dia 22/02 apresentando mais de 400 longas e curtas-metragens de diversos países, de temáticas e gêneros diversos. Confira abaixo títulos com personagens femininas que se destacam na tela, que assisti no festival e recomendo:


 
At the sea
(EUA/Hungria - 2026, 112 minutos, de Kornél Mundruczó)
 
Um drama envolvente com uma interpretação mais uma vez estrondosa de Amy Adams, atriz que gosto em particular e que pelo papel aqui deverá ser indicada ao Oscar em 2027. Ela interpreta com frequência papeis de mulheres em vulnerabilidade emocional, repetindo a dose com maestria em “At the sea”. Desta vez ela é Laura, dirigente de uma companhia de balé (herdada do pai), que retorna para casa após seis meses de internação em uma clínica de reabilitação. Ela tem vício em álcool e quase perdeu tudo com o agravamento da adicção. O filme já abre com Laura deixando a clínica e voltando para o lar, onde marido e filhos a esperam – a residência fica à beira da praia (por isso o título), local onde transcorrerá toda a trama. Ela tenta reconstruir os laços com a família – os filhos não a perdoam pelo passado, pois foram traumatizados pelo vício da mãe, enquanto o marido, Martin (ótimo trabalho de Murray Bartlett, de “The White Lotus”), pacientemente dá o tempo necessário para a esposa se reajustar. Laura tem lapsos do passado, de quando era pequena e tinha o pai como apoio – a relação entre eles não fica muito clara, já que são flashes sem diálogos. A resistência dos filhos é dura, mas também vemos que Laura é uma mulher de pouco afeto e carinho – uma é a filha adolescente rebelde (que também gosta de dançar) e o outro é um garotinho que sentiu profundamente a ausência dela. São dias sucessivamente tensos de retomar as funções da casa, do trabalho e do convívio familiar. E para piorar uma crise entre o casal se instala, envolvendo culpa e responsabilidades. O longa permanece do começo ao fim como um drama intenso, com um desfecho de arrancar lágrimas, um filme todo de Amy, num papel complexo. A paisagem marítima funciona como espelho do estado interno da protagonista: ora calma, ora turbulenta, sempre prestes a revelar algo submerso. Amy está fotogênica, entrega tudo - pequenos gestos, hesitações e silêncios dela dizem mais do que qualquer diálogo. A direção acerta no trabalho dos atores, seguindo em ritmo lento a condução das cenas – assinada por Kornél Mundruczó. O cineasta húngaro fez filmes na linha do cinema fantástico, como “Lua de Júpiter” (2017), e aqui é seu segundo trabalho com mulheres problemáticas se reconstruindo; o primeiro foi “Pedaços de uma mulher” (2020), que deu indicação ao Oscar de melhor atriz a Vanessa Kirby, e agora “At the sea”. É um diretor de alma feminina que captura com exatidão a mensagem que quer passar. Integra a competição em busca do Urso de Ouro.
 

Saccharine
(Austrália - 2026, 112 minutos, de Natalie Erika James)
 
Terror psicológico com forte comentário à cultura fitness, é um dos bons filmes de gênero que circula por esses dias na Berlinale. Com ecos de horror corporal, o inquietante longa australiano é o melhor trabalho da cineasta Natalie Erika James, de “Relíquia macabra” (2020) e “Apartamento 7A” (2024). A trama acompanha Hana (Midori Francis), uma estudante de Medicina que descobre uma fórmula mágica para emagrecer: comprimidos manipulados em laboratório com cinzas de pessoas que foram cremadas (é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de comer doces e percebe que seu peso estagnou mesmo frequentando academia - e quando experimenta a pílula, vê o resultado em poucos dias. Hana não conta para ninguém sobre o remédio. Paralelo a isto, nas aulas de anatomia, estuda a dissecação de um cadáver de aparência chocante, a de uma mulher com mais de 200 quilos, toda inchada. Hana sente algo estranho naquele corpo estirado na mesa e passa a ter alucinações. O pesadelo na vida da universitária atinge o ápice quando o fantasma da morta aparece para ela em reflexos nos talheres de cozinha. O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher disposta a qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de corpo humano demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema que o longa procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que realmente provocam medo, uma boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem no elenco Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”,aqui no papel da melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido ator australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da protagonista). A première europeia ocorreu na sessão Berlinale Special Midnight.
 

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