A
rainha do xadrez
Produção
americana da diretora indicada ao Oscar pelo documentário “Last days in
Vietnam” (2014) Rory Kennedy, filha do senador Robert Kennedy (assassinado em
1968, seis meses antes de ela nascer). A documentarista de olhar técnico
realiza aqui um bom filme da Netflix, um doc sobre Judit Polgár (1976-), enxadrista
húngara reconhecida como a melhor jogadora de xadrez de todos os tempos. Ela
foi uma garota prodígio, tornou-se a Grande Mestra mais jovem da História, aos
15 anos, derrotando 11 campeões mundiais, incluindo o sagaz Garry Gasparov.
Judit quebrou barreiras de gênero ao competir em um circuito absolutamente
masculino. O filme é empolgante, bem realizado e que passa rápido, com
depoimentos atuais de Judit e da família, incluindo o pai, László Polgár, que
foi mentor por trás de tudo – ele tirou a menina da escola nos anos 80, montou
um bunker de xadrez em casa para dar aulas para ela, num treinamento exaustivo
que rendeu o resultado esperado. Também tem cenas de torneios que ela participou
entre as décadas de 80 e 90, como as competições com Gasparov (retomaram aqui aquela
partida polêmica que quase foi judicializada, um incidente em 1994 que ficou
conhecido como “Toque-lance”, em que Gasparov moveu o cavalo, mas antes de
soltá-lo, ao perceber o erro que poderia custar a partida, reposicionou
rapidamente a peça). Um dos tantos documentários ótimos da Netflix, que estreou
no início desse mês.
Living
the land
Premiado
com o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim (para o diretor
chinês Huo Meng, em seu segundo filme, que traz traços do anterior, “Guo Zhao
Guan”), “Living the land” (em português, “Cultivando a terra” ou “Vivendo a
terra”) é um drama cativante que acompanha um longo processo de rituais de vida
e trabalho de uma numerosa família na China rural dos anos 90. Filhos, pais,
netos, avós e tios trabalham num pequeno lote de terras, onde também residem.
Do nascer ao pôr-do-sol, sob sol e sob chuva, a família de agricultores cultiva
trigo, matéria-prima de onde tirarão o sustento. Percebem que aldeões da região
migraram para cidade em busca de novas oportunidades, porém optam em permanecer
ali. Um dos filhos daquele núcleo pretende se casar e ir embora para a metrópole,
deixando a família. O filme se mostra na essência daqueles agricultores durante
o ciclo de um ano, acompanhando-os em suas passagens/ritos, como casamento e funeral,
além dos conflitos cotidianos. É uma fita de arte contemplativa que transforma
nosso olhar, registrando um contexto específico de uma época, a da abertura da
China na virada dos anos 80 para os 90, com as reformas econômica e social, a
mecanização do campo, a migração da área rural para a cidade e o fim das
tradições milenares devido à modernidade. O olhar do diretor Meng (também
roteirista e montador do longa) é ao mesmo tempo íntimo e panorâmico – ele cria
esse embate cênico, com cenas nos detalhes e de repente longas tomadas abertas
da propriedade de terras onde a família mora. Há muitas sequências de silêncio,
sem trilha ou diálogos, só com a abundante paisagem rural à nossa frente. Personagem
carismático do filme, Chuang, de 10 anos, aquele que permanece em sua aldeia
enquanto tantos partem para as cidades, funciona como metáfora da resistência e
da perda – e o menino é a representação do diretor do filme quando menor, já
que a história é inspirada em sua família, criada no campo. A fotografia das terras
agrícolas são verdadeiros quadros, uma pintura belíssima, sendo um grande acerto
de filmagem, que traduz o que o diretor pretendia passar (e lembrar). Um filme tocante,
que mexeu comigo - fiquei maravilhado e também refletindo por horas sobre essa
bonita obra cinematográfica. Está disponível nos principais cinemas brasileiros,
pela Autoral Filmes.
Paulo
e Eliana
Rodado
ao longo de 13 anos (2008–2021), o documentário “Paulo e Eliana” revela com
rara sensibilidade o cotidiano de dois sobreviventes do surto de poliomielite
que atingiu São Paulo nos anos de 1960. Paulo Henrique Machado e Eliana Zagui
faziam parte de um grupo de 20 pacientes infantis internados no Hospital das
Clínicas (HC) de São Paulo afetados pela pólio. Tetraplégicos, eles foram os
únicos que resistiram à doença, vivendo para sempre em uma cama em um mesmo
quarto no HC, dependentes de respiradores artificiais. Paulo e Eliana
desenvolveram forte vínculo de amizade e transformaram essa condição em matéria
de reflexão sobre resistência e desejo de viver. O filme (lançado em 2024, pouquíssimo
comentado, e que descobri por acaso na plataforma do Sesc Digital) acompanha a
rotina da dupla inseparável, incluindo suas conquistas fora das paredes do
hospital. Paulo tornou-se youtuber, criando um canal geek sobre cinema e música
e que também compartilhava experiências no HC – mantendo-se ativo até sua morte
em 2020, aos 51 anos; já Eliana, encontrou na arte e na escrita uma forma de
expressão: pintava e escrevia com a boca, publicou livros, até que em 2019 deixou
o hospital para se casar, mudando-se para a casa do marido em Sumaré, no
interior paulista. Mesmo diante da dificuldade de locomoção conseguiram viajar,
frequentar shows musicais e experimentar pequenas vitórias. O longa acompanha a
vida hospitalar como espaço de formação, mostrando a amizade de Paulo e Eliana como
uma relação de cumplicidade em um lugar marcado por dependência e isolamento. Em
frente às câmeras, mostram como são: sonhadores, brincalhões, criativos e generosos.
É uma história de amor pela vida, que emociona os mais sensíveis, e serve como convite
à reflexão sobre inclusão e sobrevivência. Lançado em 2024, foi produzido pela Canal Aberto e 11:
Onze Filmes, com direção de Neide Duarte e Caue Angeli. Está disponível
gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, em https://sesc.digital
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