Dinheiro suspeito
Joe Carnahan, conhecido
por seu cinema policial eletrizante, anda numa maré de filmes ruins. Lá no
passado dirigira o ótimo “Narc” (2002), um de seus primeiros trabalhos, passando
por bons entretenimentos de ação como “A última cartada” (2006) e “A
perseguição” (2011), mas de uma década para cá tudo mudou, entregando bobagens
atrás de bobagens. Agora, com a Netflix, deu a volta por cima numa fita
policial engenhosa, que exige muita cabeça para acompanhar a tétrica trama de
investigação e traição. É o melhor trabalho dele desta década, um thriller que
mistura a brutalidade estilizada do cineasta com uma narrativa intrincada, repleta
de reviravoltas. O filme se passa numa noite sem fim, quando um grupo de agentes,
numa batida policial casual, depara-se com um esquema financeiro obscuro,
envolvendo-os em uma espiral de perseguições e traições. Eles encontram numa
casa investigada milhões de dólares escondidos em uma parede no sótão,
alimentando uma disputa de quem ficará com a grana. Enquanto parte da equipe
decide avisar o chefe da polícia, outros se articulam ali dentro para roubar a bolada.
O dinheiro aqui é uma metáfora corrosiva do poder e da ambição, que leva os
personagens a dilemas morais. Com uma fotografia sombria e diálogos
desafiadores, o filme traz no elenco um bom trabalho de Ben Affleck e Matt
Damon, parceiros de longa data, que sustentam a fita com atuações sólidas – aos
poucos seus papeis vão se contrapondo, um como policial bom, e outro como o
vilão. Joe Carnahan reafirma sua assinatura no cinema que explora a violência policial
e a corrupção dentro da instituição de Estado. Um dos destaques do mês da
Netflix.
Me
ame com ternura
Novo
drama pessoal da jovem cineasta francesa Anna Cazenave Cambet, que costuma
abordar temáticas LGBTQIAPN+ em seus curtas e longas-metragens. O roteiro,
assinado por ela, é inspirado no livro autobiográfico de Constance Debré,
advogada e romancista, também francesa. A história acompanha parte da trajetória
da verdadeira Constance, após a separação do marido e o novo relacionamento com
uma mulher mais jovem, tendo o filho do casal no centro de uma disputa. No
filme, a personagem principal é Clémence (Vicky Krieps), que após o divórcio
enfrenta uma batalha judicial pela guarda do filho. O ex-marido, profundamente
magoado pela decisão de Clémence em se divorciar, provoca o afastamento do
menino, alegando que a mãe tem problemas psicológicos (mas fica subentendido o
preconceito eu ele alimenta, já que ela está com uma mulher hoje). O filho não quer
saber mais de Clémence, mas a mulher faz de tudo para retomar os laços com ele.
Exibida no Festival de Cannes, a dramática fita traz uma atuação fora do comum de
Vicky Krieps, atriz luxemburguesa que sempre se destaca nos filmes que participa.
Ela tem um desempenho excepcional, profundamente equilibrado entre a sensatez
de uma mulher em um novo relacionamento e a mãe disposta a tudo para ver o
filho. Um papel representativo sobre mulheres independentes marcadas pelo
abandono da família e alvo de preconceitos. Trabalha bem o delicado tema sobre
maternidade e os desafios impostos pelo patriarcado mais rude. O filme teve
exibição em Cannes, onde concorreu ao Queer Palm e ao ‘Um certo olhar’, e no
Brasil foi exibido nos festivais do Rio e Mix Brasil. Está nos cinemas pela
Imovision.
Alerta
apocalipse
Diverti-me
muito com esse filme scifi que desbunda para a comédia macabra e o terror
corporal e aposta no grotesco e escatológico para fazer rir. É uma história
caótica sobre um fungo misterioso que escapa de um laboratório e rapidamente se
espalha pelos Estados Unidos, transformando pessoas e animais (como gatos e
veados) em criaturas meio zumbis, meio parasitas. O medo se instala quando autoridades
de saúde e o próprio governo não conseguem conter a epidemia, que atinge outros
países, mergulhando a sociedade em um cenário de paranoia e violência. O visual
caótico com cores surreais é um elemento interessante do filme que homenageia o
cinema B do passado; explora o horror físico das mutações ao mesmo tempo em que
brinca com o absurdo/nonsense. Há pequenas ironias, momentos chocantes, e tudo
num contexto que rememora o da pandemia da covid questionando até onde a
humanidade consegue manter sua sanidade diante do colapso. Daqueles filmes que não
damos um centavo (ele passou despercebido nos cinemas brasileiros), mas que quando
assistimos temos a sensação de ter valido a pena. O elenco é liderado por Liam
Neeson, no papel de um cientista veterano, Joe Keery (da série “Stranger Things”)
e participações especiais das atrizes Lesley Manville e Vanessa Redgrave. Nos
cinemas pela Imagem Filmes.
A
morte de um unicórnio
A
produtora A24 mais uma vez aposta no cinema de horror estilizado e entrega um
filme que mistura fantasia sombria, terror e humor ácido. Disponível no Prime
Video, o longa parte de uma premissa absurda: um casal atropela acidentalmente
um unicórnio na estrada e acaba sacrificando o animal. Eles voltam para casa traumatizados
com o ocorrido. Só que a situação se transforma num grande pesadelo quando o
bicho retorna dos mortos, agora como um unicórnio zumbi vingativo. Com certa
ousadia, o filme brinca com o imaginário infantil, contrastando a magia do unicórnio
com a brutalidade do terror sombrio - o animal, símbolo de pureza e inocência,
vira uma aberração grotesca que persegue os protagonistas, expondo o ridículo e
o sobrenatural da situação. Com jumpscares, mortes sangrentas (o unicórnio ataca
com seu chifre) e ação, o filme é um pequeno achado no cinema autoral
independente, contando no elenco com Paul Rudd e Jenna Ortega (como o casal caçado
pelo monstro), além de Richard E. Grant, Téa Leoni e Will Poulter. Caótico e excêntrico,
é mais uma fita que carrega a marca da A24, que sabe transformar o estranho em
espetáculo.
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