terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas e no streaming - Parte 1

 
Dinheiro suspeito
 
Joe Carnahan, conhecido por seu cinema policial eletrizante, anda numa maré de filmes ruins. Lá no passado dirigira o ótimo “Narc” (2002), um de seus primeiros trabalhos, passando por bons entretenimentos de ação como “A última cartada” (2006) e “A perseguição” (2011), mas de uma década para cá tudo mudou, entregando bobagens atrás de bobagens. Agora, com a Netflix, deu a volta por cima numa fita policial engenhosa, que exige muita cabeça para acompanhar a tétrica trama de investigação e traição. É o melhor trabalho dele desta década, um thriller que mistura a brutalidade estilizada do cineasta com uma narrativa intrincada, repleta de reviravoltas. O filme se passa numa noite sem fim, quando um grupo de agentes, numa batida policial casual, depara-se com um esquema financeiro obscuro, envolvendo-os em uma espiral de perseguições e traições. Eles encontram numa casa investigada milhões de dólares escondidos em uma parede no sótão, alimentando uma disputa de quem ficará com a grana. Enquanto parte da equipe decide avisar o chefe da polícia, outros se articulam ali dentro para roubar a bolada. O dinheiro aqui é uma metáfora corrosiva do poder e da ambição, que leva os personagens a dilemas morais. Com uma fotografia sombria e diálogos desafiadores, o filme traz no elenco um bom trabalho de Ben Affleck e Matt Damon, parceiros de longa data, que sustentam a fita com atuações sólidas – aos poucos seus papeis vão se contrapondo, um como policial bom, e outro como o vilão. Joe Carnahan reafirma sua assinatura no cinema que explora a violência policial e a corrupção dentro da instituição de Estado. Um dos destaques do mês da Netflix.
 

 
Me ame com ternura
 
Novo drama pessoal da jovem cineasta francesa Anna Cazenave Cambet, que costuma abordar temáticas LGBTQIAPN+ em seus curtas e longas-metragens. O roteiro, assinado por ela, é inspirado no livro autobiográfico de Constance Debré, advogada e romancista, também francesa. A história acompanha parte da trajetória da verdadeira Constance, após a separação do marido e o novo relacionamento com uma mulher mais jovem, tendo o filho do casal no centro de uma disputa. No filme, a personagem principal é Clémence (Vicky Krieps), que após o divórcio enfrenta uma batalha judicial pela guarda do filho. O ex-marido, profundamente magoado pela decisão de Clémence em se divorciar, provoca o afastamento do menino, alegando que a mãe tem problemas psicológicos (mas fica subentendido o preconceito eu ele alimenta, já que ela está com uma mulher hoje). O filho não quer saber mais de Clémence, mas a mulher faz de tudo para retomar os laços com ele. Exibida no Festival de Cannes, a dramática fita traz uma atuação fora do comum de Vicky Krieps, atriz luxemburguesa que sempre se destaca nos filmes que participa. Ela tem um desempenho excepcional, profundamente equilibrado entre a sensatez de uma mulher em um novo relacionamento e a mãe disposta a tudo para ver o filho. Um papel representativo sobre mulheres independentes marcadas pelo abandono da família e alvo de preconceitos. Trabalha bem o delicado tema sobre maternidade e os desafios impostos pelo patriarcado mais rude. O filme teve exibição em Cannes, onde concorreu ao Queer Palm e ao ‘Um certo olhar’, e no Brasil foi exibido nos festivais do Rio e Mix Brasil. Está nos cinemas pela Imovision.
 

 
Alerta apocalipse
 
Diverti-me muito com esse filme scifi que desbunda para a comédia macabra e o terror corporal e aposta no grotesco e escatológico para fazer rir. É uma história caótica sobre um fungo misterioso que escapa de um laboratório e rapidamente se espalha pelos Estados Unidos, transformando pessoas e animais (como gatos e veados) em criaturas meio zumbis, meio parasitas. O medo se instala quando autoridades de saúde e o próprio governo não conseguem conter a epidemia, que atinge outros países, mergulhando a sociedade em um cenário de paranoia e violência. O visual caótico com cores surreais é um elemento interessante do filme que homenageia o cinema B do passado; explora o horror físico das mutações ao mesmo tempo em que brinca com o absurdo/nonsense. Há pequenas ironias, momentos chocantes, e tudo num contexto que rememora o da pandemia da covid questionando até onde a humanidade consegue manter sua sanidade diante do colapso. Daqueles filmes que não damos um centavo (ele passou despercebido nos cinemas brasileiros), mas que quando assistimos temos a sensação de ter valido a pena. O elenco é liderado por Liam Neeson, no papel de um cientista veterano, Joe Keery (da série “Stranger Things”) e participações especiais das atrizes Lesley Manville e Vanessa Redgrave. Nos cinemas pela Imagem Filmes.
 

 
A morte de um unicórnio
 
A produtora A24 mais uma vez aposta no cinema de horror estilizado e entrega um filme que mistura fantasia sombria, terror e humor ácido. Disponível no Prime Video, o longa parte de uma premissa absurda: um casal atropela acidentalmente um unicórnio na estrada e acaba sacrificando o animal. Eles voltam para casa traumatizados com o ocorrido. Só que a situação se transforma num grande pesadelo quando o bicho retorna dos mortos, agora como um unicórnio zumbi vingativo. Com certa ousadia, o filme brinca com o imaginário infantil, contrastando a magia do unicórnio com a brutalidade do terror sombrio - o animal, símbolo de pureza e inocência, vira uma aberração grotesca que persegue os protagonistas, expondo o ridículo e o sobrenatural da situação. Com jumpscares, mortes sangrentas (o unicórnio ataca com seu chifre) e ação, o filme é um pequeno achado no cinema autoral independente, contando no elenco com Paul Rudd e Jenna Ortega (como o casal caçado pelo monstro), além de Richard E. Grant, Téa Leoni e Will Poulter. Caótico e excêntrico, é mais uma fita que carrega a marca da A24, que sabe transformar o estranho em espetáculo.



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