Berlinale 2026 entra na
primeira semana de exibição reunindo filmes autorais de mais de 70 países
O 76º Festival
Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, chega à edição de 2026 com uma
programação marcada por obras de forte caráter histórico e social. Um dos eventos
de cinema mais importantes da Europa, o festival, que começou no último dia 12,
segue até 22 de fevereiro com mais de 400 filmes na programação, distribuídas
em diversas seções e mostras especiais. Neste ano, o júri internacional é presidido pelo
cineasta alemão Wim Wenders.
O cinema brasileiro
marca presença com oito produções distribuídas por diferentes seções do
festival. Entre elas estão: “Se eu fosse vivo... vivia”, de André Novais
Oliveira (Panorama), “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai (Generation
Kplus), “Papaya”, animação de Priscilla Kellen (Generation Kplus), “Feito pipa”,
de Alan Deberton (Generation Kplus), “Quatro meninas”, de Karen Suzane
(Generation 14plus), “Fiz um foguete imaginando que você vinha”, de Janaina
Marques (Forum) e “Nosso segredo”, dirigido por Grace Passô (Perspectives, nova
seção competitiva).


Na competição principal,
22 filmes disputam o Urso de Ouro e o Urso de Prata, muitos deles abordando
temas contemporâneos. Entre os destaques estão: “Rosebush pruning”, novo
trabalho de Karim Aïnouz, coprodução entre Itália, Alemanha, Reino Unido e
Espanha, com elenco estrelado por Callum Turner, Tracy Letts,Riley Keough,
Jamie Bell, Elle Fanning e Pamela Anderson; “At the sea”, do húngaro Kornél
Mundruczó, com Amy Adams; “A new Dawn”, animação japonesa de Yoshitoshi
Shinomiya; “Yellow letters”, do premiado diretor turco İlker Çatak; “Josephine”,
da cineasta Beth de Araújo, com Channing Tatum; “Queen at sea”, produção
britânica com Juliette Binoche e Tom Courtenay; “Rose”, drama de época
austríaco estrelado por Sandra Hüller; e “Nightborn”, drama com elementos de
terror corporal protagonizado por Rupert Grint.
Fundada em 1951, a
Berlinale consolidou-se como um dos três grandes festivais europeus, ao lado de
Cannes e Veneza. Desde 2000, seu principal palco de exibições e recepções é o
Theatre am Potsdamer Platz, conhecido como Berlinale Palast. As exibições
ocorrem em diversos cinemas da capital alemã, como o Cubix Cine Star, na praça
Alexanderplatz, Cinemaxx e Bluemax Theater, ambos na Potsdamer Platz, Uber Eats
Music Hall, Urania e Zoo Palast. Ingressos e informações pelo site oficial do
festival, em https://www.berlinale.de/en/home.html
Confira abaixo
comentários de filmes que conferi na Berlinale 2026:
A prayer for the dying
(Suécia, Reino Unido, Grécia
e Noruega - 2026, 95 minutos, de Dara Van Dusen)
Produção independente falada
em inglês e sueco, é a estreia na direção da curtametragista norte-americana Dara
Van Dusen, que entrega uma fita autoral de drama com elementos do western e uma
história peculiar sobre honra em um cenário desafiador. Também escrito por ela,
o filme tem como pano de fundo os primeiros anos após o fim da Guerra Civil
Americana. Em 1870, em uma Wisconsin em reconstrução, a pequena cidade de
Friendship é de terra arrasada. Os moradores trabalham arduamente em comunidade
para reerguer o local. O sol escaldante aliado ao clima seco atormenta o ânimo
da população. Um ex-combatente da Guerra de Secessão, que virou herói do
povoado, Jacob Hansen (Johnny Flynn, de “Emma.” e “O alfaiate”), é nomeado
xerife de Friendship devido à experiência em combates armados. Ele administra a
segurança com vigor, espantando bandidos e ajudando os moradores. Casa-se com a
jovem esposa e tem um bebê. Hansen também é pastor e levanta uma igreja no
centro da cidade. Tudo parece sob controle, até que uma estranha epidemia se
alastra pela região. Vários morrem da doença, então ele decide fechar a cidade
com o aval de um médico sanitarista (John C. Reilly, de “Chicago”). Impotente e
receoso com o futuro, Hansen é atormentado por imagens do passado, de quando há
poucos anos viu os horrores da guerra. O filme traz um bom trabalho dos atores
centrais em uma trama de ritmo crescente, narrado como um poema trágico, de
morte anunciada. A ambientação em uma região árida, com forte presença do sol,
aprisiona os personagens, cercados por uma epidemia mortal não identificada (um
diálogo com a pandemia que enfrentamos recentemente), e aos poucos as
incertezas do futuro emparedam aquele longínquo povoado. O protagonista é um
bravo soldado dividido entre a nova família que construiu e os desgastantes
ossos do ofício (Johnny Flynn atua de forma certeira, compondo uma figura que
anda por uma linha tênue, equilibrando-se para não explodir, um papel maduro e
sólido, auxiliado por John C. Reilly, em mais uma interpretação de destaque em
sua vasta carreira). Da metade para o final o longa assume um tom
catastrofista, em que os personagens sobreviventes são forçados ao vale tudo,
com consequências brutais. No elenco, participações de Kristine Kujath Thorp
(de “Doente de mim mesma”) e Gustav Lindh (de “O homem do norte”). Première mundial
na nova seção da Berlinale, chamada “Perspectives” – o assisti em uma sessão
lotada no Cubix, ontem.
Everybody digs Bill
Evans
(EUA, Irlanda e Reino
Unido - 2026, 102 minutos, de Grant Gee)
Em première mundial na
Berlinale, concorre ao Urso de Ouro este drama rodado em preto-e-branco que
biografa uma pequena parte da vida do pianista norte-americano Bill Evans
(1929-1980), focando em quatro pontos entre 1961 e 1973: o relacionamento
amoroso conflitante com a primeira esposa, Ellaine Schultz, que cometeu
suicídio, a produção de seu disco mais famoso (que dá título ao filme), o
retorno para a casa dos pais, na Flórida, e o vício em heroína. O ator norueguês
Anders Danielsen Lie (de “Oslo, 31 de agosto”) performa bem como o melancólico pianista,
que era referência no jazz, mas que vivia sob efeitos de sedativos e drogas, chegando
a dormir na mesa durante as refeições. Lie tem em uma interpretação tácita, de
poucas palavras, um cara introspectivo, inseguro e limitado no amor – o filme
se concentra nos momentos de silêncio do personagem, quando não está tocando ou
gravando, ou seja, em seu momento íntimo. Solitário, ele aguarda a entrega do
seu segundo álbum, cujo atraso da gravadora o perturba; ele tem um romance de
altos e baixos com Ellaine Schultz, uma namorada quase noiva, que logo comete
suicídio, o que o abalará profundamente. Recorre à heroína injetável para
suportar o luto e as decepções. Um tanto quanto pessimista, o filme evita sublimar
o personagem, buscando exibir seu lado frágil, às vezes decadente. A fotografia
em penumbras, com sombras fortes projetando a silhueta de Evans nas paredes, é
uma opção forte de estética, que foge da convencionalidade. O único momento de
descontração, que torna momentos do filme mais leve, está na aparição dos pais
de Evans, interpretados brilhantemente por Bill Pullman e Laurie Metcalf – o casal
está formidável, Pullman como um idoso reclamão, e Laurie como a mãe de origem
russa, engraçada e ao mesmo tempo atenta aos vícios do filho. Destaque para
Bill Pullman, num de seus trabalhos mais humanos, que raramente o vemos
desempenhar com tamanha dignidade no cinema. Há escolhas interessantes de
montagem: o filme se passa essencialmente em 1961, num PB sagaz, mas há
flashforwards (passagens para o tempo futuro) coloridos com tons estourados, de
1973 e 1980 (este sobre a morte prematura do pianista), provocando uma dinâmica
especial para a composição das imagens. Quem assina o filme é o diretor inglês Grant
Gee, um conhecedor do mundo da música, já indicado ao Grammy e que fez clipes
nos anos 90 de Radiohead.
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