sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Resenha especial

 
Orwell 2 + 2 = 5
 
Documentário aterrador, porém de estrutura complexa e difícil de digerir, assinado por um cineasta engajado em movimentos sociais, o haitiano Raoul Peck, indicado ao Oscar por “Eu não sou seu negro” (2016) - e realizador de outro filme sobre racismo derivado deste, “Ernest Cole: Achados e perdidos” (2024). Peck agora revisita a biografia do escritor George Orwell (1903-1950), principalmente fazendo uma leitura da ideia de dominação e poder inscrita no famoso e polêmico livro “1984” para os dias de hoje. Ao trazer para o tempo atual, ele faz uma parábola visual sobre o mundo fragmentado pelos discursos extremistas, de mentira, manipulação, de ódio e de ordem. O “2 + 2 = 5” parte do princípio de que nem tudo é uma verdade absoluta, e nos tempos da pós-verdade a mentira pode ser moldada e ganhar espaço de tanta ser reproduzida. As redes sociais e o crescente discurso da extrema-direita no mundo estão nessa linha de frente, que se utilizam de fake News como defesa da liberdade de expressão. A composição do filme é uma compilação de imagens das duas versões para cinema de “1984”, a de Michael Anderson de 1956 (com Edmond O’Brien) e a de Michael Radford de 1984 (com John Hurt) com cenas reais da sociedade em colapso – da violência do estado, do combate à imigração, de guerras civis, das guerras nas redes. O que na concepção de Orwell era um futuro distópico digno da ficção científica mais maluca, hoje se aproxima do que vivemos: discursos autoritários que remetem ao totalitarismo, impedindo as individualidades e ideias opostas. A atualidade também é a do controle pelas máquinas e da vigilância e punição, tudo que estava nas páginas de Orwell. Peck trata do universo da política que se utiliza da mentira para vender a ideia das liberdades, com destaque para líderes populistas como Donald Trump – que com suas falas convencem o indivíduo de que a mentira é mais confortável do que a dúvida. Um filme crítico, para se pensar e ver com a máxima atenção possível. Selecionado para o Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Eye, teve sete indicações ao Critics Choice Documentary, dentre eles melhor filme e melhor diretor, e conta com narração de Damian Lewis (ator de “Era uma vez em... Hollywood”). Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Alpha Filmes.



Nenhum comentário:

Resenha especial

  Orwell 2 + 2 = 5   Documentário aterrador, porém de estrutura complexa e difícil de digerir, assinado por um cineasta engajado em moviment...