Orwell 2 + 2 = 5
Documentário
aterrador, porém de estrutura complexa e difícil de digerir, assinado por um
cineasta engajado em movimentos sociais, o haitiano Raoul Peck, indicado ao
Oscar por “Eu não sou seu negro” (2016) - e realizador de outro filme sobre
racismo derivado deste, “Ernest Cole: Achados e perdidos” (2024). Peck agora
revisita a biografia do escritor George Orwell (1903-1950), principalmente fazendo
uma leitura da ideia de dominação e poder inscrita no famoso e polêmico livro “1984”
para os dias de hoje. Ao trazer para o tempo atual, ele faz uma parábola visual
sobre o mundo fragmentado pelos discursos extremistas, de mentira, manipulação,
de ódio e de ordem. O “2 + 2 = 5” parte do princípio de que nem tudo é uma
verdade absoluta, e nos tempos da pós-verdade a mentira pode ser moldada e
ganhar espaço de tanta ser reproduzida. As redes sociais e o crescente discurso
da extrema-direita no mundo estão nessa linha de frente, que se utilizam de
fake News como defesa da liberdade de expressão. A composição do filme é uma compilação
de imagens das duas versões para cinema de “1984”, a de Michael Anderson de
1956 (com Edmond O’Brien) e a de Michael Radford de 1984 (com John Hurt) com
cenas reais da sociedade em colapso – da violência do estado, do combate à
imigração, de guerras civis, das guerras nas redes. O que na concepção de
Orwell era um futuro distópico digno da ficção científica mais maluca, hoje se
aproxima do que vivemos: discursos autoritários que remetem ao totalitarismo, impedindo
as individualidades e ideias opostas. A atualidade também é a do controle pelas
máquinas e da vigilância e punição, tudo que estava nas páginas de Orwell. Peck
trata do universo da política que se utiliza da mentira para vender a ideia das
liberdades, com destaque para líderes populistas como Donald Trump – que com suas
falas convencem o indivíduo de que a mentira é mais confortável do que a dúvida.
Um filme crítico, para se pensar e ver com a máxima atenção possível.
Selecionado para o Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Eye, teve sete
indicações ao Critics Choice Documentary, dentre eles melhor filme e melhor
diretor, e conta com narração de Damian Lewis (ator de “Era uma vez em...
Hollywood”). Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Alpha Filmes.
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