sábado, 15 de junho de 2024

Estreias da semana

 

A estação (2023)

 

Em sua estreia no cinema ficcional, a diretora mineira Cristina Maure faz uma viagem ao universo feminino ao retratar dias na vida de uma mulher que chega a uma estação para pegar um trem, que nunca aparece. Ela está em busca do marido que a abandonou. Enquanto isso, fica hospedada numa pensão e cruza com pessoas estranhas, o que a faz relembrar velhos fatos. Nessa fita independente, coprodução Brasil e Uruguai, rodada durante a pandemia e finalizada somente agora, a diretora escala um elenco misto, como atores do teatro mineiro e a atriz uruguaia Jimena Castiglioni, radicada no Brasil. Conta com uma bela fotografia em preto-e-branca que evoca o passado, de um vilarejo e de uma mulher estacionados no tempo, criando uma atmosfera de sonho e realidade, que beiram o absurdo e surrealismo. Exibido no Festival de Tiradentes desse ano, o filme está nos cinemas pela Vaca Amarela.

 


 

A ordem do tempo (2023)

 

Aos 90 anos, a veterana diretora italiana Liliana Cavani realizou esse seu último trabalho em 2023, um drama de ar misterioso que reúne bons nomes do cinema da Itália, como Claudia Gerini, Alessandro Gassmann (filho do ator Vittorio Gasmman e da atriz Juliette Mayniel) e participação da espanhola Ángela Molina. O longa é inspirado no livro de mesmo nome do físico Carlo Rovelli, que discorre sobre teorias físicas, como gravidade, loop, passando por Newton e Einstein. Cavani pegou a ideia central e escreveu um roteiro com vários personagens, juntando poesia e efeitos dramáticos – ela adaptou-o ao lado do roteirista Paolo Costella. Acompanhamos um grupo de amigos, homens e mulheres, reunido numa casa à beira-mar para o aniversário de uma delas. De repente, eis que um anuncia a espalhafatosa notícia de que um asteroide que está rumo à Terra, o que colocará fim ao planeta em poucas horas. A notícia causa espanto, angústia e dúvidas entre os amigos, que passam a falar incessantemente sobre o assunto. Ora engraçado, ora filosófico, não é uma grande obra de Liliana, que dirigiu filmes de arte chocantes muitas décadas atrás, como ‘O porteiro da noite’ (1974) e ‘A pele’ (1981); infelizmente, nos últimos tempos, sua carreira é bem irregular, com filmes esquecíveis. Ainda que com problemas de roteiro e a falta de ingredientes encorpados, ‘A ordem do tempo’ assiste-se até o fim, pois queremos saber como terminará a tal trama do meteoro. Exibido nos festivais de Veneza e Rio, está nos cinemas das principais capitais brasileiras pela Pandora Filmes.

 


 

A semente do mal (2023)

 

Terror com suspense que tem um início curioso, mas que decai ao longo de um enredo absurdo e estranho. Começa com um bebê raptado em uma casa, deixando a mãe apavorada. Tempos depois, a criança cresce, e hoje é um jovem (Carloto Cotta, ator francês, de ‘Tabu’), que busca respostas sobre seu passado e planeja encontrar a mãe biológica, que nunca viu. Depois de um teste de DNA, descobre que a mãe mora em Portugal; então, ao lado da namorada (Brigette Lundy-Paine, da série ‘Atypical’), viaja à Europa, indo até o casarão onde a mãe mora reclusa vive. Instalados lá, percebe que a mãe (Alba Baptista, atriz portuguesa, de ‘Dulcineia’) guarda segredos assustadores – a mulher é atormentada após uma série de cirurgias que não deram certo e a deixaram deformada. Gabriel Abrantes, jovem cineasta de origem portuguesa, que mora nos EUA e teve longas e curtas exibidos em festivais de prestígio como Cannes, Berlim e Veneza, não esconde as influências do cinema de Dario Argento e de David Lynch, além do estilo camp, só que tudo é muito razoável, com situações que beiram o ridículo. Ele diz que foi influenciado por filmes como ‘Suspiria’ e ‘Veludo azul’, tanto para compor a trama quanto para criar os personagens (ele é o roteirista também), mas obviamente que suas tentativas são fracassadas. Falta também engajamento dos atores, em especial o rapaz, Cotta, que aparece em três personagens diferentes. Brigette é boa, tenta segurar as pontas, só que em vão... Quem quiser arriscar, o filme está nos cinemas brasileiros pela Imagem Filmes.



sexta-feira, 14 de junho de 2024

Resenhas Especiais


A seguir, três biografias produzidas para o cinema.

Ascensão e queda: John Galliano

Documentário sobre o estilista britânico John Galliano, da ascensão na alta costura nos anos 80, criando uma marca inovadora, depois assumindo a direção da Givenchy e da Dior, até ver a ruína ao se envolver em uma polêmica, quando proferiu xingamentos antissemitas a um grupo de pessoas em bares de Paris, em 2011.

A Mubi é hoje queridinha dos cinéfilos exigentes, uma das plataformas em streaming que mais traz fitas cult, seja de antigamente ou do cinema atual. Esse documentário, produção da Mubi, está lá disponível para assinantes, um filme extraordinário que traça o perfil biográfico de John Galliano, nome de destaque da alta costura, hoje recluso aos 63 anos. No doc, Galliano recebe a equipe do filme para uma conversa em sua casa, relembra a infância na Espanha - ele é filho de um gibraltino com uma espanhola, a juventude quando estudou na prestigiada St. Martins College of Art & Design em Londres, onde ganhou o título de melhor aluno do ano, e sua entrada no mundo da alta costura, fazendo roupas para celebridades. Ele recorda de fatos marcantes da carreira, o auge nas décadas de 80 e 90, até viver um inferno quando cometeu atos antissemitas em dois bares de Paris, em 2011. Alcoolizado, agrediu verbalmente um casal e depois duas mulheres italianas, todos judeus - um vídeo com os ataques viralizaram na época, Galliano foi detido pela polícia, demitido da Dior, onde trabalhava, e nunca mais se restabeleceu. Por enfrentar problemas com o álcool, foi internado em clínicas de reabilitação, e quando saiu se fechou num mundo particular, muito devido à exposição mundial que teve com as agressões.




O filme explora o universo criativo de Galliano e ao mesmo tempo seu lado temperamental e agressivo, que o destruiu. Um homem cheio de ideais, bem-quisto no mundo da moda, mas que decepcionou fãs e colegas de trabalho por sua atitude racista. E que sentiu na pele o cancelamento.
Kevin Macdonald é o diretor, que cultiva uma carreira formidável de filmes politizados, como 'O último rei da Escócia' (2006), 'Intrigas de estado' (2009) e 'O mauritano' (2021) e que havia dirigido bons docs, como 'Marley' (2012) e 'Whitney' (2018). Assistam e aproveitem para conhecer o catálogo impressionante de fitas cult na plataforma da Mubi.

Ascensão e queda: John Galliano (High & Low - John Galliano). EUA/Reino Unido/França, 2023, 116 minutos. Documentário. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Kevin Macdonald. Distribuição: Mubi


I am Bolt

Documentário sobre Usain Bolt, atleta jamaicano multicampeão olímpico.

Entre os anos de 2010 e 2020, a Universal Pictures lançou nos cinemas e em mídia física (DVD e Bluray) documentários sobre atletas de diversas modalidades, como ‘Senna’ (2010, premiado no Bafta e no Festival de Sundance), ‘O time de 92’ (2013 - sobre os jogadores do Manchester United nos anos 90, liderados por David Beckham), ‘Manny’ (2014 – sobre o boxeador filipino Manny Pacquiao), ‘Eu sou Ali: A história de Muhammad Ali’ (2014) e ‘Ronaldo’ (2015 - sobre o jogador de futebol Cristiano Ronaldo). Também saiu ‘I am Bolt’ (2016), que recorta partes da vida, como infância, juventude e vida adulta de um dos maiores velocistas de todos os tempos, o jamaicano Usain Bolt.
Nascido em 1986 numa pequena comunidade do condado de Cornwall chamada Trelawny, na Jamaica, Bolt cresceu nas ruas jogando críquete e futebol. Ainda na escola primária, incentivado pelos pais, praticava corridas e participava de torneios, até que aos 15 anos, em 2001, um técnico de atletismo começou a treiná-lo. Disputando torneios no país de origem e em outros lugares, sendo o primeiro passo para o estrelato no mundo do esporte. Foi tricampeão em duas modalidades de pista em Jogos Olímpicos de maneira consecutiva (100 metros rasos e 200 metros rasos), conquistou oito medalhas de ouro e recebeu o título de ‘o homem mais rápido do mundo’. O filme acompanha os treinos de Bolt na juventude e na atualidade – como o longa saiu em 2016, ele ainda era velocista, mostra sua relação com a família e o vínculo com a nação jamaicana, que nunca abandonou, as festas que participa, a relação com os fãs e com os antigos treinadores.
Um ano depois do lançamento do filme, em 2017, Bolt se aposentou do atletismo e entrou para o futebol (isso não aparece no longa) - foi jogador de campo por dois anos, até 2019, nos times Strømsgodset, da Noruega, e Central Coast Mariners, da Austrália, até parar de vez.



Carismático e positivo, Bolt conquistou o coração dos fãs, e nesse doc podemos apreciar parte importante de sua trajetória.
Quem dirige é a dupla de irmãos diretores e produtores britânicos que fizeram o documentário ‘O time de 92’ (2013), Ben Turner e Gabe Turner. Disponível em DVD pela Universal Pictures, também pode ser encontrado no streaming para aluguel, no Prime Video, Youtube Filmes, Google Filmes e Apple TV.

I am Bolt (Idem). Reino Unido, 2016, 107 minutos. Documentário. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Ben Turner e Gabe Turner. Distribuição: Universal Pictures



Amazing Journey: The story of The Who

Jornada musical em torno da histórica banda inglesa The Who, que revolucionou o rock e o beat.

Documentário eletrizante e digno de aplausos conduzido pelos dois únicos integrantes vivos da primeira formação da banda de rock inglesa The Who, Pete Townshend e Roger Daltrey, respectivamente guitarrista e compositor e o vocalista. Sentados frente às câmeras, eles vasculham a memória para contar fatos inusitados do grupo, as viagens e turnês, a relação dos membros e as tragédias que abalaram cada um deles – como a morte do baterista Keith Moon, em 1978. Tudo começou como uma banda de bar londrina em 1964, influenciada pelos Beatles e pelo movimento psicodélico, transformando-se em pouco tempo num sofisticado e imponente grupo de rock e beat que percorreu os quatro cantos do mundo com suas músicas satíricas e críticas. Enquanto Townshend e Daltrey falam, reportagens e trechos de shows percorrem a tela. Não podia faltar nos depoimentos menções aos discos de sucesso da banda, como a estreia com ‘My generation’ (1965), ‘The Who sell out’ (1967), ‘Who’s next’ (1971 – onde tem a música ‘Behind blue eyes’, regravada em 2001 pela banda americana Limp Bizkit) e ‘Who are you’ (1978). Os dois também lembram o lançamento de dois álbuns que viraram filmes, ‘Tommy’ (1969) e ‘Quadrophenia’ (1973), as novas formações e a reciclagem de gênero a partir do início dos anos 80 e a polêmica prisão de Townshend em 2003, acusado indevidamente de pornografia infantil.



O documentário, dos realizadores de ‘No direction home: Bob Dylan’ (2005), passou nos festivais de Toronto e no IN-Edit e concorreu ao Grammy de melhor doc musical. Disponível em DVD, em edição com dois discos, lançado pela Universal Pictures, com a metragem de cinema, de 119 minutos, a mesma exibida no Festival de Toronto; há ainda a versão estendida, de 237 minutos, lançada apenas nos EUA, e uma alternativa de 208 minutos, distribuída na Europa. A versão de cinema também pode ser assistida no Prime Video, disponível para assinantes da plataforma.

Amazing Journey: The story of The Who (Idem). EUA/Reino Unido, 2007, 119 minutos. Documentário. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Paul Crowder, Murray Lerner e Parris Patton. Distribuição: Universal Pictures

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Resenhas Especiais


O cinema de Christopher Nolan

Following

Escritor em início de carreira, Bill (Jeremy Theobald) adquire o estranho hábito de seguir desconhecidos nas ruas, como forma de aguçar sua criatividade e assim criar novos personagens. Até que segue um ladrão, que o convida a roubar residências com ele.

O inglês Christopher Nolan ganhou, esse ano, seu primeiro Oscar de diretor, pelo filme biográfico ‘Oppenheimer’ (2023), que foi sensação de público na temporada de 2023. Também ganhou o Oscar de melhor filme pelo longa que conta a história do criador da bomba atômica. Nolan tem outras sete indicações da Academia, entre roteiro original, direção e melhor filme, por ‘Amnésia’ (2000), ‘A origem’ (2010) e ‘Dunkirk’ (2017). Nascido em 1970, Christopher Nolan faz filmes desde o finzinho dos anos 80. Iniciou a carreira aos 19 anos, com curtas experimentais na faculdade, até chamar a atenção de diretores e do público com seu primeiro longa-metragem, ‘Following’ (1998), aqui no Brasil traduzido como ‘Seguinte’, um título em português cheio de duplos sentidos. Um filme de poucos recursos, bem experimental e cheio de criatividade.
Sem ser formado em cinema – Nolan gradou-se em Literatura na Universidade de Londres, demonstra em ‘Following’ noções de estética, de enquadramentos, de conteúdo cinematográfico; para o filme, reuniu um orçamento mísero de U$ 6 mil, um dos mais baratos da história do Cinema, e realizou um feito inédito, uma fita instigante de drama e suspense, de apenas 69 minutos de duração, toda em preto-e-branca, rodada na casa de amigos em Londres. Foi o primeiro filme da Syncopy, produtora que Nolan fundou com sua esposa, Emma Thomas, que aparece aqui como atriz e se tornaria produtora de seus trabalhos. Rodou o filme em película com uma câmera portátil simples, a partir de uma ideia que ele mesmo vivenciou – sua casa foi invadida e destruída por bandidos, e na história, um rapaz que segue pessoas na rua acaba se tornando parceiro de assalto de um criminoso. Parte do elenco, muitos deles seus amigos de faculdade, Nolan convidaria depois para ‘Batman Begins’ (2005), em papéis pequenos, como Jeremy Theobald, Lucy Russell e John Nolan, seu tio.
Em ‘Following’, Nolan escreve, dirige, produz, faz a fotografia e a montagem. Um cinema totalmente autoral. Ele demorou um ano para gravar, pois captava as cenas nos fins de semana, já que todos do elenco trabalhavam em outras áreas, ninguém vivia de cinema.





‘Following’ é um noir moderno, com 30 tempos no enredo – entre flashbacks desdobrados e vários momentos do presente. Como já era um conhecedor de cinema, Nolan traz referências aos montes, como pôsteres emoldurados no interior das casas com clássicos, como ‘Crepúsculo dos deuses’ (1950). Apresentado no Festival de Toronto e premiado no Festival de Rotterdam, o filme é uma pequena obra-prima, que merece ser descoberta pelos cinéfilos.
Disponível em DVD e Bluray pela Classicline, também foi lançado pela distribuidora num box em bluray chamado ‘Código Nolan’, com outros dois filmes dele, ‘Amnésia’ e ‘Insônia’.
Todo diretor tem um começo, muitos deles um começo com filmes pequenos, de festivais, desconhecidos. Nolan é um deles, e se transformou num realizador notável, com filmes ousados, criativos e com uma estética moderna.

Following (Idem). Reino Unido, 1998, 69 minutos. Drama/Suspense. Preto-e-branco. Dirigido por Christopher Nolan. Distribuição: Classicline


Insônia

Dupla de detetives do departamento de homicídios de Los Angeles viaja a uma cidadezinha do Alaska para investigar um homicídio. Durante a caçada a um suspeito, o investigador Will Dormer (Al Pacino), que sofre de insônia, atira e mata seu parceiro acidentalmente. Com um álibi nas mãos, não conta a verdade para a polícia e tenta encobrir seu envolvimento na morte, afirmando que o colega foi morto pelo tal suspeito do homicídio. Entra em jogo a policial Ellie Burr (Hilary Swank), designada para auxiliar no caso, e quando as investigações avançam, a farsa de Dormer começa a desmoronar. Em meio a isso tudo, o suspeito do homicídio, Sr. Finch (Robin Williams), passa a ser procurado e se isola numa vila remota de pescadores.

Depois de estrear como diretor com o cultuado filme experimental de crime ‘Following’ (1998), o inglês Christopher Nolan realizou uma estrondosa e enigmática fita de suspense que chacoalhou a crítica, abrindo os olhos do público para um novo tipo de cinema, ‘Amnésia’ (2000). Nolan consolidaria sua carreira nesse terceiro longa-metragem, ‘Insônia’ (2002), um suspense policial classe A, remake de um instigante neonoir norueguês exibido NO Festival de Cannes. O roteiro é uma adaptação feito por uma mulher, Hillary Seitz, que reescreveu o original de 1997 dos escandinavos Erik Skjoldbjærg e Nikolaj Frobenius. Seitz manteve o thriller e as reviravoltas e inseriu alguns ingredientes a mais.
O diretor recriou o tom sombrio de investigação do anterior, e agora a história se passa no extremo norte do Alaska, onde também ocorre o solstício de verão, em que por muitas semanas o dia cobre a noite – no original a trama é no solstício da Noruega.
Nolan esticou a história, que tinha 96 minutos e agora passa a 118 minutos, mais explícito, violento e trágico que o outro. Al Pacino substitui Stellan Skarsgård, um detetive que não consegue dormir, sempre com cara de sono, ainda mais no verão do Alaska em que as noites não existem, e a claridade se estende por 24 horas – vejam o trocadilho do sobrenome dele, ‘Dormer’. Numa das cenas marcantes, ele tem de tapar as janelas com cobertores para o quarto ficar escuro e assim, quem sabe, poder descansar. Ele é um detetive que mata acidentalmente seu parceiro quando sai na busca por um suspeito do homicídio que investiga. Para não assumir a culpa, planta elementos falsos no caso, tentando despistar a polícia, até que será surpreendido por uma astuta policial que entra na investigação – papel de Hilary Swank. O filme tem tensão crescente, reviravoltas marcantes e uma fotografia demolidora no gelo do Alaska, assinada por Wally Pfister, que virou parceiro de trabalho de Nolan e ganharia o Oscar por ‘A origem’ – o filme foi rodado no Alaska e na Columbia Britânica no Canadá, por dois meses durante a primavera, que é sempre gelada nessas regiões.






O elenco dá um show à parte, com Al Pacino liderando, Hilary Swank como uma boa coadjuvante como contraponto do protagonista, na época recém-ganhadora do Oscar por ‘Meninos não choram’ (1999), e participação especial de Robin Williams, como o vilão – ele aparece depois de uma hora de filme, e no mesmo ano, 2002, fez outro filme sinistro de suspense, ‘Retratos de uma obsessão’ (2002), saindo da curva, já que era um rosto célebre de filmes de comédia.
O filme abriu no Festival de Tribeca, depois passou em Locarno, e foi distribuído mundialmente nos cinemas, sendo um dos grandes trabalhos de Nolan. Depois de ‘Insônia’, o diretor deu nova dimensão para o universo de Batman, fazendo a trilogia composta por ‘Batman Begins’ (2005), ‘Batman – O cavaleiro das trevas’ (2008) e ‘Batman – O cavaleiro das trevas ressurge’ (2012), expandindo seu trabalho em Hollywood. E não parou mais, com seus filmes intrigantes e complexos, de ‘A origem’ (2010) ao recente ‘Oppenheimer’ (2023), que puxa público às salas. Em março desse ano ganhou dois Oscars, de direção e melhor filme por ‘Oppenheimer’ (2023), e recebeu das mãos de Rei Charles III o título de Sir, pelos serviços prestados ao cinema.
O filme saiu em recente versão em DVD e bluray pela Classicline, e também foi lançado pela distribuidora num box em bluray chamado ‘Código Nolan’, com os filmes ‘Following’ e ‘Amnésia’.

Insônia (Insomnia). EUA/Reino Unido, 2002, 118 minutos. Policial/Suspense. Colorido. Dirigido por Christopher Nolan. Distribuição: Classicline

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Estreias da semana

 

Hamlet (2022)

 

O Canal Brasil exibe hoje, dia 06/06, às 20h, esse ótimo documentário sobre a crise no mundo da política brasileira a partir de 2016, após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. O diretor gaúcho Zeca Brito, de “O guri” e Legalidade”, foca seu filme nas manifestações dos estudantes secundaristas que se juntaram aos movimentos sociais para tomar as ruas quando do impeachment/golpe em 2016, que se desdobrou na eleição de Bolsonaro dois anos depois. Ao mesmo tempo, num teatro, Hamlet, o notório personagem de William Shakespeare, procura espaço na sociedade – ele está atormentado pela pergunta “ser ou não ser?”. Rodado em preto-e-branco, é um filme que deve ser visto e discutido. Venceu cinco Kikitos no Festival de Gramado, foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo me 2022, onde assisti, passou nos cinemas brasileiros esse ano, e pode ser alugado nas plataformas Claro TV+ (Now) e Vivo Play. Produção e distribuição: Galo de Briga Filmes e Anti-filmes.

 


 

A musa de Bonnard (2023)

 

E nos cinemas brasileiros das principais capitais brasileiras estreia ‘A musa de Bonnard’, uma fita de drama/romance de época para quem gosta de histórias reais, que trata do mundo das artes plásticas. Exibido no Festival Varilux de Cinema Francês de 2023, traz o ator Vincent Macaigne (de ‘Vidas duplas’) como o pintor francês Pierre Bonnard (1867-1947), conhecido como o ‘pintor da felicidade’, em seu casamento turbulento de cinco décadas com Marthe de Méligny (papel franco e bem conduzido por uma atriz que admiro, Cécile de France, de ‘Além da vida’), que se tornou musa de seus quadros. Entre brigas, separações e traições, o casal viveu junto inspirando um ao outro. Nesse filme delicado, com lindas paisagens de uma França interiorana e bucólica do início do século XX, conhecemos a obra de Bonnard e o processo criativo dele ao lado da esposa. Dirigido por Martin Provost, de ‘O reencontro’ e ‘A boa esposa’, que contou ser encantado pela obra de Bonnard desde a infância e, segundo ele, foi procurado pela sobrinha-neta de Marthe para filmar a história dela– ele escreveu o roteiro ao lado de Marc Abdelnour, com quem já trabalhou em outros longas. Nos cinemas pela California Filmes.




domingo, 2 de junho de 2024

Estreias da semana

 

‘Jardim dos desejos’ (2022)

 

Paul Schrader já foi um dos nomes mais fortes do cinema autoral norte-americano, roteirista de ‘Taxi driver’ (1976) e ‘Touro indomável’ (1980), e diretor de ‘Hardcore – No submundo do sexo’ (1979), ‘A marca da pantera’ (1982), ‘Mishima – Uma vida em quatro tempos’ (1985), ‘O dono da noite’ (1992), entre outros. Nos últimos 20 anos rodou vários filmes banais, salvando um ou outro trabalho. ‘Fé corrompida’ (2017), ‘O contador de cartas’ (2021) e esse ‘Jardim dos desejos’ são seus últimos melhores filmes, e podem ser entendidos como uma trilogia. ‘Jardim dos desejos’ acaba de estrear no Brasil, nos cinemas, é um drama que carrega, ao longo da história, um fundo de cinema policial violento e suspense, que se revela aos poucos. Conta a história de um dedicado jardineiro, papel muito bom de Joel Edgerton, que trabalha nos jardins de uma elegante proprietária de terras, uma viúva interpretada por Sigourney Weaver. A rotina tranquila do lugar muda com a chegada da problemática sobrinha-neta da dona das terras, papel de Quintessa Swindell, que vira aprendiz do jardineiro no cuidar das flores. O jardineiro guarda segredos perturbadores, de um passado envolvendo crimes e assassinatos brutais. Exibido no Festival de Veneza, não é um memorável Schrader, mas está nessa nova fase do diretor, que retoma temas que outrora o consagraram, como a brutalidade nas relações, a figura do anti-herói solitário lutando contra o passado sombrio, a redenção etc. Está nos cinemas pela Pandora Filmes.

 


 

‘Por trás da verdade’ (2023)

 

Depois de adiar a estreia por dois meses, a A2 Filmes lançou nesse final de semana nos principais cinemas brasileiros o eficiente suspense policial ‘Por trás da verdade’ (2023), com a duas vezes ganhadora do Oscar Hilary Swank, de ‘Menina de ouro’ (2004). Ela interpreta uma jornalista que investiga o assassinato do filho, ao lado da namorada dele. Juntas, adentram o hostil mundo do tráfico das drogas. Quando as investigações avançam, a vida das duas corre perigo. Marcam presenças no longa Olivia Cooke, de ‘Jogador número 1’ (2018), e Jack Reynor, de ‘Midsommar: O mal não espera a noite’ (2019). A fotografia, principalmente no ambiente noturno e em lugares fechados, ajuda a condução desse filme de suspense envolvente, dirigido por Miles Joris-Peyrafitt, de "Dreamland: Sonhos e ilusões" (2019).

 


 

‘1798 – Revolta dos Búzios’ (2022)

 

Nesse documentário didático, simples na forma e repleto de conteúdo informativo/histórico, conhecemos por dentro a ‘Revolta dos Búzios’, também chamada de ‘Revolução dos Alfaiates’ e ‘Conjuração Baiana’. Foi um levante popular contra o governo colonial no estado da Bahia, nascido em 1798, sob influência da Revolução Francesa, ocorrida nove anos antes, e utilizando os ideais do Iluminismo. De caráter emancipacionista, foi um movimento popular, com participação de sapateiros, alfaiates e escravos, que pregava a igualdade racial, e procurava estabelecer no país um governo republicano, democrático, com liberdades plenas, além de acabar com a escravidão. O movimento foi denunciado, o governo prendeu e torturou os conspiradores, com penas de açoite público e morte, resultando em quatro homens assassinados, que foram enforcados e esquartejados em praça pública em Salvador. O diretor Antonio Olavo, pesquisador do tema, trabalhou no filme por 13 anos, e segundo ele, é uma obra para lembrar e preservar a memória do povo negro. O filme utiliza como base o famoso documento ‘Autos da Devassa’ e insere ao longo do filme desenhos, ilustrações e encenação de atores. Produzido pela Portfolium Laboratório de Imagens, tem distribuição da Abará Filmes e está em exibição nos principais cinemas brasileiros.

 


 

‘A filha do palhaço’ (2022)

 

De Pedro Diógenes, diretor de ‘Pajeú’ (2019), o filme brasileiro é uma das melhores estreias nos cinemas desse final de semana. Um drama familiar bem moldado, que acompanha a relação de uma menina adolescente com o pai, que trabalha como humorista em bares de Fortaleza, onde se pinta e se veste de palhaço e de mulher. Pai e filha sempre tiveram pouco tempos juntos, e um final de semana será derradeiro para reatar laços perdidos. O filme é inspirado na vida do comediante e humorista Paulo Diógenes, nascido no Rio e criado no Ceará, que criou o famoso personagem Raimundinha e faleceu em fevereiro desse ano. Premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, tem dois atores excelentes em cena, a estreante Lis Sutter no papel da adolescente e Demick Lopes (dos filmes ‘Greta’ e ‘Inferninho’) como o humorista, e rápida participação especial de Jesuíta Barbosa. No filme o diretor Pedro Diogenes procura trazer reflexões sobre paternidade, sexualidade e aceitação, a partir do relacionamento distante entre pai e filha. Com produção da Marrevolto Filmes, juntamente com a Pique-Bandeira Filmes, tem distribuição nos cinemas pela Embaúba Filmes.

 


 

‘Toda noite estarei lá’ (2023)

 

Outra boa estreia de filme brasileiro é ‘Toda noite estarei lá’ (2023), um documentário contundente e necessário, que fala de transfobia. O filme, gravado entre 2018 e 2022, acompanha a vida de Mel Rosário, de 58 anos, transexual que sofreu uma série de agressões transfóbicas e foi proibida de frequentar uma igreja neopentecostal que costumava ir. Sozinha, levanta faixas de protesto contra os pastores daquela igreja, reivindicando seu direito de voltar aos cultos. A sua voz por justiça se choca com o Brasil agressivo e ultraconservador da era Bolsonaro. Duas diretoras estão a frente do longa, Suellen Vasconcelos e Tati Franklin, que utilizaram como base um curta-metragem que contava a história da luta de Mel contra a igreja, feita por Thiago Moulin, agora um dos produtores do longa. Premiado em festivais como Olhar de Cinema e exibido no Mix Brasil e no Festival do Rio. Produção da Graúna Digital, em associação com Filmes Fritos, distribuído nos cinemas pela Descoloniza Filmes.

 


segunda-feira, 27 de maio de 2024

Estreias da semana

 

‘A alegria é a prova dos nove’ (2023)

 

 

Exibido em festivais brasileiros como Mostra de Tiradentes e Mostra Intl de Cinema de SP, o novo filme de Helena Ignez – que aqui dirige, escreve, produz e protagoniza, é uma reflexão íntima sobre a liberdade sexual feminina e as políticas do corpo da mulher. Ignez, uma cineasta que veio do cinema underground, faz uma homenagem aos filmes daquele período. Ela interpreta uma artista e sexóloga de 80 anos de idade, amiga e amante de um ativista dos Direitos Humanos (papel de Ney Matogrosso, que já trabalhou em outros longas de Ignez, como ‘Ralé). Juntos, embarcam nas memórias de uma última viagem que fizeram ao Marrocos, cinquenta anos atrás, onde ocorreu uma situação desafiadora. Passado e presente se misturam com efusividade, num filme independente de grandes virtudes. Conta com um elenco grande e formidável, em pequenas participações, e na tela vemos Djin Sganzerla, Guilherme Leme, Mario Bortolotto e outros. Estreou nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Mercúrio Produções.

 


 

‘Às vezes quero sumir’ (2023)

 

Daisy Ridley, conhecida como a protagonista Rey da última saga “Star Wars”, é uma atriz inglesa talentosíssima e pouca vista nas telas. Em ‘Às vezes quero sumir’, tem a chance de mostrar sua versatilidade e a verve dramática, numa fita independente peculiar, indicada a dois prêmios no Festival de Sundance (incluindo o do júri para a diretora Rachel Lambert). Num papel sensível e marcante, Daisy faz uma jovem de poucas palavras, que trabalha num escritório numa cidadezinha costeira americana. Ela é afligida por pensamentos ruins, como de morrer ou de abandonar tudo e fugir de casa. A chegada de um novo colega de trabalho (o humorista Dave Merheje, aqui contido em papel sério, dramático) a transforma; eles têm forte conexão, passam a se encontrar fora do trabalho, e até um interesse romântico surge ali, fazendo com que ela veja esperança em sua tediosa vida. Com romance, comédia e drama, é um filme bonito e melancólico, que trata da solidão, da dificuldade das pessoas em estabelecer conexões. Inspirada na peça “Killers”, de Kevin Armento, que adaptou o roteiro ao lado de Stefanie Abel Horowitz e Katy Wright-Mead. Está em exibição nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Synapse Distribution.

 


‘De repente, miss!’ (2024)

 

O diretor Hsu Chien, nascido em Taiwan e radicado no Brasil, está com dois filmes nos cinemas, diga-se de passagem um feito raríssimo – ‘Morando com o crush’ e esse divertido e simpático ‘De repente miss!’. Fui assisti-lo e me deliciei com Fabiana Karla no papel de uma publicitária quarentona que enfrenta uma dura crise pessoal e de trabalho. Ela fará de tudo para reconquistar a filha e o marido, e com eles parte para um resort, onde haverá um concurso de miss. Lá, uma série de aventuras virará os dias daquela família de cabeça para baixo. Leve, espirituoso, fugindo de besteirol e sem piadas apelativas, o filme é um barato e arranca bons risos da plateia. Tem pequenos e pontuais momento de drama, o que dá um charme para a história. Fabiana está bem, ao lado de um elenco de apoio com boas atuações, como Giulia Benite, Nany People, Danielle Winits, Roney Villela e João Baldasserini. Recomendo! Está em cartaz nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Elo Studios/Sony Pictures.




sexta-feira, 24 de maio de 2024

Nota do Blogueiro


Cine Debate traz filme sobre figura histórica brasileira ligada à reforma agrária

O Cine Debate do Imes Catanduva traz neste sábado, dia 25/05, o documentário brasileiro “Minha perna, minha classe” (2023, 86 minutos), dirigido por Arturo Saboia. Sessão e debate serão no Espaço de Tecnologia e Artes (ETA) do SESC Catanduva, às 14h, gratuito e aberto a todos os públicos. A mediação do debate será realizada pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, professor do IMES e do SENAC e crítico de cinema Felipe Brida, e para esse filme haverá a participação, no debate, do professor de História e Geografia Paolo Humberto Dias.

Sinopse do filme: Documentário que relembra a trajetória do lavrador, camponês, educador, sindicalista envolvido na causa da reforma agrária, ambientalista e líder político Manoel da Conceição (1935-2021), que foi preso, mutilado, torturado e exilado pela ditadura militar. Por causa das torturas sofridas, perdeu uma perna e virou símbolo da resistência num período turbulento da História do Brasil.



Cine Debate

O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do IMES Catanduva em parceria o SESC e o SENAC Catanduva. Completou 12 anos em 2024 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

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