A
quinta portuguesa
Coprodução
Portugal e Espanha, o drama protagonizado pela atriz portuguesa Maria de
Medeiros (de “Pulp fiction”) foi rodado inteiramente em Madri, no ambiente
metropolitano, e também em uma verdadeira quinta portuguesa (antiga propriedade
rural que possui casa de habitação cercada por terras para a agricultura,
jardins ou vinhedos). O filme de arte foi um dos últimos trabalhos do ator
espanhol Manolo Solo, protagonista da trama ao lado de Maria (ele começou a
carreira como músico no rock sevilhano, atuou em longas como “O labirinto do
fauno” e faleceu há pouco mais de um mês, após longa batalha contra o câncer).
Solo interpreta Fernando, um professor de Geografia em busca da esposa, que
desapareceu. Ele não encontra mais forças na procura, está sem rumo, até que
assume outra identidade: ele se muda de Madri para o interior de Portugal, para
trabalhar como jardineiro em uma quinta. Lá conhece Amalia (Maria de Medeiros),
uma dona de casa, e inicia com ela forte amizade, marcada por situações
dramáticas e por um desafio, que é o de manter em sigilo a verdadeira identidade.
Um filme de drama com romance sobre escolhas e identidade, que gira em torno de
um personagem pacato que, após um baque, muda de vida radicalmente, a ponto de
se transformar em outro cidadão. Paira no ar uma sensação de estranhamento a
todo instante (já que Fernando “vira” uma nova pessoa), e a alteração de
ambientes (a mudança dele da Madri atual para uma fazenda portuguesa arcaica,
no interior do país) serve como metáfora dessa transformação. Os atores estão
muito bem, e o filme tem fotografia bonita e adequada dos lugares. O longa
passou em festivais internacionais como Festival de Málaga e Bafici, exibido no
Festival do Rio e agora está nos cinemas, distribuído pela Kajá Filmes. Quem dirige
é a cineasta Avelina Prat, também roteirista, que fez anteriormente “Vasil”
(2022).
Não
existe almoço grátis
Chega aos
cinemas brasileiros, distribuído pela Descoloniza Filmes, o bom documentário
independente que trata do trabalho de mulheres à frente do projeto “Cozinha
Solidária”, criado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e instituído
por lei em 2023 no Brasil. Ele surgiu na pandemia da Covid-19 como uma resposta
direta à fome que atingiu milhões de brasileiros, fornecendo alimentação
gratuita e de qualidade a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social.
A iniciativa consistiu em montar cozinhas comunitárias em diferentes regiões do
país, oferecendo refeições gratuitas e de qualidade para esse grupo de pessoas.
Além das refeições, o projeto, que ainda existe e virou símbolo da
solidariedade em tempos de crise, busca fortalecer laços comunitários para garantir
dignidade, funcionando com voluntários e doações. Um dos lugares de atuação foi
a favela Sol Nascente, em Ceilândia, no Distrito Federal – e é nesse espaço que
o filme busca a composição das imagens. Os cinegrafistas acompanharam a rotina
de três mulheres negras, voluntárias e organizadoras da Cozinha Solidária, Bizza,
Jurailde e Socorro, durante semanas, para mostrar os bastidores e o trabalho
delas. O recorte da história é a posse do presidente Lula, e elas estão
encarregadas de cozinhar para centenas de militantes do movimento que chegarão
a Brasília para assistir à cerimônia de posse do presidente, no dia 1º de
janeiro de 2023. Conhecemos a trajetória e os sonhos dessas três lideranças, além
de questões essenciais para elas, como a luta política, o trabalho voluntário de
igual para igual, a religião, a ancestralidade e a família. Sol Nascente é considerada
a maior favela do Brasil em número de habitantes (70 mil ao todo), localizada a
menos de 30 quilômetros da capital; durante a pandemia, verificou-se ali graves
condições de saúde, fome, desemprego e falta de acesso a serviços básicos. Dirigido
por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o filme esteve na programação de
festivais como ForumdocBH, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (onde foi
consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e recebeu a Menção
Honrosa do Júri Oficial), a Mostra Ecofalante (onde venceu o prêmio de Melhor
Filme pelo Júri Popular), o Olhar de Cinema e o Festival de Cinema de Vitória.

Viva
Marília
Fantástico
documentário e uma das melhores estreias do cinema independente brasileiro desse
ano, o filme é um merecido e honroso tributo à memória da atriz que foi a cara
de uma geração e até hoje inspiradora para a classe artística, Marília Pêra
(1943-2015). Atriz versátil (para o humor e o drama, seja nos palcos ou na TV),
também diretora de peças teatrais e admirada pelos fãs, Marília teve uma
trajetória que atravessou cinco décadas. Carioca, filha de atores (Manuel Pêra
e Dinorah Marzullo), esteve ligada ao palco desde a infância, estreando aos
quatro anos em uma companhia teatral. Nos anos 1960 e 1970, consolidou-se como
uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, destacando-se em peças como “O teu
cabelo não nega” em que interpretou Carmen Miranda, e que ao longo da carreira voltaria
a interpretar Carmen em teatro, TV e filmes. Além de atuar, dedicou-se à
direção de espetáculos, especialmente musicais, como “Irma Vap” fazendo dessa
peça um estrondo de bilheteria. Na TV, estreou em 1965 na novela “Rosinha do
Sobrado” e logo se tornou presença marcante em produções da Rede Globo. Atuou
em novelas como “O cafona”, “Brega & chique” e “Top model”, brilhou em
minisséries como “O Primo Basílio”, onde deu vida à vilã Juliana, e no cinema participou
de mais de 20 filmes, entre eles o impactante “Pixote – A lei do mais fraco”
(1981), de Hector Babenco, que lhe trouxe reconhecimento internacional e
reafirmou sua força dramática. A vida pessoal de Marília foi marcada por vários
casamentos, entre eles com Nelson Motta e, mais tarde, com Bruno Faria, com
quem permaneceu até o fim da vida. Teve três filhos, conciliando maternidade
com uma carreira intensa e premiada – e o doc explora essa sua condição, de
atrelar a dura vida de mãe à ebulição de ensaios e gravações. O doc mostra a
partir de gravações de peças, entrevistas e cenas de filmes e novelas a
formação dessa atriz ímpar, que virou ícone da cultura brasileira, abriu
caminhos para as atrizes no mundo das artes cênicas e deixou um legado de amor
ao palco. O veterano diretor Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), de “Avaeté –
Semente da vingança”, dirige a obra, que tem codireção de Esperança Motta,
filha de Marilia com Nelson Motta – ela é a narradora também, e o roteiro é
assinado pelo próprio Nelson. Está nos principais cinemas brasileiros, com
distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.
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